A maçã vermelha
A rainha passou a noite sem dormir. No espelho, a sobrevivência de Branca de Neve já não parecia acaso: parecia afronta. A menina escapara da ordem do caçador, da fita e do pente. Pior ainda, a cada retorno à vida parecia menos propriedade do medo. Havia nela agora alguma coisa que a rainha reconhecia e detestava: autonomia.
Por isso escolheu a maçã.
Não era um objeto de adorno, como a fita. Não era promessa de beleza, como o pente. Era alimento. A coisa mais antiga e confiável. A rainha entendeu que, se queria vencer a casa da floresta, precisaria atacar não a vaidade de Branca de Neve, mas sua confiança no mundo. Cortou a fruta ao meio, deixando uma parte clara e outra envenenada, e vestiu um disfarce quase sem beleza, quase sem intenção, como se fosse apenas uma mulher cansada vendendo o que colhera.
Na casa, Branca de Neve estava mais cautelosa. Não abriu a porta. Não abriu a janela. Falou de longe, com a firmeza nova que a dor lhe ensinara.
-- Não compro nada. Não recebo nada. Siga seu caminho.
A velha ergueu a maçã diante do vidro.
-- Então veja apenas. Metade para mim, metade para você. Se eu cair, saberá que minto.
Mordeu o lado claro. Sorriu. A fruta estalou limpa entre os dentes.
Branca permaneceu imóvel. A razão dizia não. A fome dizia talvez. A infância, essa parte dela que ainda queria acreditar que nem todo gesto escondia cálculo, aproximou-a da janela. A velha partiu a maçã com mãos firmes e ofereceu o lado vermelho, lustroso, perfeito demais.
Ao morder, Branca de Neve sentiu primeiro o sabor doce. Depois, uma interrupção. Como se o corpo esquecesse a ordem de continuar. A casa girou devagar. A maçã caiu de sua mão e rolou pelo chão, bela e culpada.
Quando os sete voltaram, encontraram silêncio. Não havia fita a cortar, pente a retirar, ferida a fechar. Havia apenas Branca de Neve imóvel, com uma tranquilidade que parecia zombar do desespero deles. Chamaram seu nome, aqueceram suas mãos, procuraram sinal de respiração. Nada respondeu.
Na floresta, a rainha caminhava de volta ao castelo. Não celebrava como antes. A vitória final, quando nasce do veneno, não traz descanso. Traz apenas a necessidade de perguntar novamente ao espelho se o vazio enfim basta.