A trilha da floresta
A floresta começou bonita. Era assim que os perigos mais antigos gostavam de começar. Os pinheiros seguravam neve nos braços escuros, pequenas aves riscavam o ar e o caminho descia em curvas suaves, como se a montanha tivesse decidido conduzir Branca de Neve para um passeio de infância. O caçador caminhava à frente, calado demais. Ela pensou que fosse respeito. Depois percebeu que era vergonha.
Quanto mais se afastavam do castelo, menos o mundo obedecia às formas conhecidas. As pedras não estavam onde deveriam, os troncos pareciam guardar rostos, o vento entrava por baixo da capa com dedos finos. Branca tentou conversar. Falou do frio, dos rastros, de um pássaro vermelho pousado numa raiz. O caçador respondia com palavras curtas, e cada resposta parecia custar mais que a anterior.
Pararam numa clareira onde a neve era menos funda. Ali ele se voltou. Tinha nos olhos o terror de quem carrega uma ordem injusta e descobre tarde demais que obedecer também é uma escolha. A mão foi até o cabo da faca, mas não a retirou. Branca de Neve viu o gesto e, naquele segundo, deixou de ser a criança protegida pelos muros do palácio. Entendeu o bastante. Nem tudo, mas o bastante.
-- A rainha mandou? -- perguntou.
O caçador fechou os olhos. Aquilo respondeu por ele.
Houve um tempo suspenso, pequeno e enorme. Ele poderia cumprir a ordem e voltar a ser apenas instrumento. Poderia dizer que não tivera saída, como tantos homens dizem quando desejam dormir depois de uma covardia. Mas diante dele havia uma menina assustada, não um problema de Estado. Havia vida.
-- Fuja -- disse, com a voz quebrada. -- Não volte ao castelo. Não confie em caminho largo, nem em rosto bondoso demais. A floresta assusta, mas às vezes assusta menos que gente com coroa.
Branca de Neve não chorou de imediato. O medo veio primeiro como lucidez. Ela correu entre as árvores, prendendo o vestido nos galhos, perdendo uma fita, arranhando as mãos. Atrás dela, o caçador permaneceu na clareira até que os passos sumissem. Depois matou um animal qualquer para levar à rainha uma mentira sangrenta. Não se perdoou por isso. Mas naquela tarde, ao menos, sua culpa abriu uma passagem para a vida.