A casa entre as árvores Branca de Neve e os Sete Anões · Capítulo 5 de 14
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A casa entre as árvores

Branca de Neve correu até o corpo esquecer que era corpo e virar apenas fôlego, frio e direção. A floresta, vista das janelas do palácio, sempre parecera uma pintura antiga; por dentro, era outra coisa. Havia ruídos sem origem, sombras que se moviam tarde demais, raízes escondidas sob a neve. O mundo já não se organizava para servi-la. E talvez fosse essa a primeira verdade livre que recebia.

Quando enfim parou, não sabia quanto tempo havia passado. O céu começava a escurecer entre os galhos, e a ideia de noite dentro da mata trouxe um medo quase infantil, desses que a educação não consegue domesticar. Pensou no pai, mas o pai pertencia ao castelo. Pensou na rainha, e o nome dela pareceu capaz de atravessar árvores. Pensou no caçador, no tremor de sua voz, e compreendeu que sobreviveria não porque alguém poderoso a protegera, mas porque um homem comum havia escolhido desobedecer.

Andou mais devagar. A fome veio. Depois o cansaço. Depois uma espécie de silêncio interior em que as lágrimas, finalmente, puderam aparecer. Chorou sem beleza nenhuma, sentada junto a uma pedra, com os dedos gelados e o vestido manchado. Não era uma cena para tapeçaria. Era uma menina expulsa do próprio nome.

Foi então que viu a luz.

Pequena, amarela, tremendo entre os troncos. Branca de Neve avançou com cautela, esperando a cada passo que a luz desaparecesse como miragem. Mas ela permaneceu, e ao redor dela surgiu uma casa baixa, de telhado inclinado, janelas pequenas e fumaça saindo da chaminé. A construção parecia feita não para impressionar, mas para resistir. Havia ferramentas junto à porta, lenha empilhada, marcas de botas miúdas na neve.

Lá dentro, tudo era menor do que no castelo e, justamente por isso, mais verdadeiro. Sete cadeiras, sete tigelas, sete camas estreitas. A ordem não vinha de criados invisíveis, mas de mãos que precisavam umas das outras. Branca de Neve pediu licença ao vazio, comeu um pouco de sopa já fria e lavou a tigela antes de pousá-la de volta. Não sabia se aquilo era certo. Sabia apenas que, se ainda existia mundo onde alguém deixava sopa sobre a mesa, talvez a vida não tivesse terminado.

Escolheu a menor cama e deitou-se sem tirar as botas. Dormiu como quem cai. A casa respirou em torno dela, guardando por algumas horas o segredo que a floresta lhe confiara.

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