O castelo sem sombra
Branca de Neve levou algum tempo para aceitar a ideia de voltar ao castelo. A floresta a havia assustado, ferido e quase tomado, mas também lhe dera abrigo. O castelo, ao contrário, era o lugar onde todos sabiam seu nome e, ainda assim, quase ninguém a vira de fato. Voltar significava atravessar não apenas uma ponte, mas a infância inteira.
O príncipe ofereceu escolta. Os sete ofereceram presença. O caçador, ao saber que ela vivia, veio por conta própria, envelhecido pela culpa em poucos dias. Ajoelhou-se diante dela e confessou tudo antes que pedissem. Branca o ouviu sem pressa. Não confundia piedade com absolvição. Mas sabia que a verdade precisa de todas as vozes, inclusive as quebradas.
Entraram no castelo ao som de sinos que ninguém soube quem mandara tocar. A rainha estava no quarto do espelho quando ouviu. Perguntou pela última vez, mas a superfície não esperou a fórmula inteira.
-- A verdade chegou ao portão.
Ela correu à janela e viu Branca de Neve atravessando a ponte, viva, acompanhada pelos sete, pelo príncipe, pelo caçador e por guardas de outro reino. Pela primeira vez, a rainha não encontrou disfarce suficiente. A beleza, que por tantos anos usara como armadura, pareceu pequena diante de uma menina que voltava não para pedir lugar, mas para revelar o que haviam feito com ele.
No salão principal, Branca de Neve falou sem gritar. A voz baixa obrigou todos a escutar melhor.
-- Você tentou me apagar porque tinha medo de desaparecer. Mas medo não dá direito a ninguém de ferir outra vida.
Os conselheiros ouviram o caçador. Ouviram os sete. Ouviram o príncipe. Por fim, o espelho falou diante de todos, e sua verdade, tantas vezes usada como instrumento de vaidade, tornou-se prova contra a própria mulher que o consultara. A corte, especialista em adaptar o rosto ao poder, descobriu tarde demais que também havia participado da sombra, mesmo quando fingira não vê-la.
A rainha perdeu a coroa. Não por envelhecer, não por ser menos bela, não por falhar diante de um ideal impossível, mas por ter escolhido transformar sua ferida em governo. Foi levada para uma torre clara, sem espelhos mágicos, com janelas abertas para o mundo que ela tentara reduzir ao tamanho de sua comparação.
Branca de Neve caminhou pelos corredores sem correr. Tocou paredes, abriu janelas, mandou destrancar portas. O castelo era o mesmo, mas algo nele havia sido desautorizado. Nem toda sombra desaparece de uma vez. Algumas precisam ser retiradas como poeira antiga, uma superfície por vez.