O Terremoto Doroteu Serafim Ponte Grande · Capítulo 4 de 19
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O Terremoto Doroteu

O TERREMOTO DOROTEU Salve Dorotéa! Dansarina dos tangos místicos, flexão loira, boca onde móra a poesia.

{De uma crônica da época). Não ha mais modéstia que me impeça de afirmar que o unico rebento sobrevivente de minha falecida familia floriu numa grande e formosa artista. Chama-se Dorotéa Gomes, e

declamadora “ diseuse” e acaba de, para bem das musas, fixar residência em São Paulo, na Pensão Jahú.

Dorotéa é uma deidade que desceu á terra. Cerca-a de todo o lado a mais bela das aclamações, a aclamação unanime da mocidade literaria. Mesmò os que não n a conhecem, a admiram!

Tomei uma definitiva e irrevogável resolução. Mando ás favas os ciúmes horriveis de Lalá e as eternas tosses compridas das creanças. Dorotéa recita: anjos abrem alas em tomo dela!

0 homem é um microcosmos! Por assim dizer, um resumo da terra e como tal é guiado por leis imutáveis e eternas. Estou de acordo com essas idéas provadas pela ciência. Porém, ha as erupções, ha os cataclismas!

Hontem, berrei para Lalá: — Defendo o direito das convulsões sismicas!

Dorotéa é o meu Etna em flor!

Fiz confidencias ao Pinto Call^çudo. Estou arrependidis- simo. Contei-iihe que ela me mostrou os peitos.

Inutilmente, procuro distrair-me, olhar em torno de mim. Não me interessa o grosso escandalo do Comendador Sales que dizem que levou a bréca financeiramente. Consta até que t empenhou o piano de cauda.

0 facto é que devolveu os bilhetes para o recitativo que Dorotéa vae dar aos apreciadores da boa arte, no Gremio Coli­ bri. Besta!

Hontem, justamente, encontrei-o no Piques. Parecia uma locomotiva. Perguntou-me se não achava bom que ele se mu­ dasse para Taubaté. Lá se gasta menos, e eu posso escrever em socego o meü livro sobre “ Datas Celebres” .

•Nada disso me preocupa. O Pinto Calçudo irrita-me com absurdos a proposito de Dorotéa. Diz que os aplausos universais matar-lhe-áo a fonte dos sentimentos puros.

Passei o dia de fraque.

0 Manso rosna por ahi que eu fiquei louco. Tenho para me defender a opinião do Pires de Melo que tacitamente me aprova, ele, o grande literato que passou a vida debruçado sobre a alma feminina.

Quanta emoção póde ocultar-se sob um guarda-chuva! Acompanhei Dorotéa ao cinema, debaixo de enorme aguaceiro.

Ella é, sem duvida, a grande artista de temperamento tro­ pical! E a unioa “ diseuse” que possue personalidade entre nós!

Na Repartição, o Castanheta briga com o Birimba, dizem

uns que por causa da colocação de pronomes, outros por causa de uma alemã que é garçonete no Bar Costeleta. Quão differente e grandiosa é minha vida secreta!

Frase do Pires de Melo sobre ela: — __ Tão loira que parece volatizar-se na manhã loira!

Este meu lar é um verdadeiro “ chemin des dames”"!

A h!' Se eu pudesse ir com Dorotéa para Paris! Vel-a passar aclamada entre charutos e casacas de córte impecá­ vel! Mas contra mim, ergue-se a muralha chineza da familia e da sociedade.

Sáio á noite e procuro o Pires de Mello que lê-me pela terceira vez a sua encantadora novella “ Recordação de um ós­ culo” . Ao lado dessa expontânea solidariedade, o Manso ac- cusa-me de inconsequência moral.

Lalá descobre no meu topete um chumaço de cabellos brancos. Tudo pela posse real da vida!

Dorotéa declamando “ Os Elefantes” com mimica apro­ priada é um verdadeiro genio! Fico aniquilado.

Posso dizer que hoje, segunda-feira, penetrei de repente no âmago da alma da mulher. Dorotéa declarou-me cinica­ mente que ama o Birimba! Resultado das apresentações!

Isolo-me para meditar sobre os acontecimentos. Nesta ve­ lha sala de visitas, onde me sento, fitando na parede fronteira.

o retrato do Marechal de Ferro, revejo o meu passado. 0 in­ fame sogro Benevides que mudou-se para Rocinha, o Carlindoga, o Manso. Que será do futuro se a vida crescer de intensidade e dia­ pasão como sinto que cresce? 0 meu futuro, o de Dorotéa, o do Birimba, o de Pinto Caiçudo, de Lalá e meus filhos? Cáio de joelhos, e exclamo: Deus que salvastes Fausto e perdoastes São Pedro, tende consideração!

Pires de Mello, a quem narro detalhadamente o meu caso, resolve-o pelo pan-senxualismo de Freud. Acha que Dorotéa não me largará por causa de certas vantagens. . .

0 facto é que minha vida está ficando um romance de Dostoiewski.

Por causa de Dorotéa, vejo tudo possível para mim.: Tri- bunaes. Cadeias, Manicômios, Cadeiras Eléctricas, etc. etc. E vejo tudo lucidamente. Sou o critico teatral de minha propria tragédia! n

De novo, beijos ardentes na saleta da Pensão Jahú. E o corpo que desfalece como o de Cleopatra nos braços de Cezar n r * . ii

Borgia!

De novo, choradeira monumental em casa. Lalá me guspiu na cara e foi para o piano tocar o Langosta.|

4. i

No restaurante “ Ao buraquinho da Sé” , Dorotéa me con­ sola, dizendo: — Comeremos a vida inteira no mesmo prato!

Lalá depois de sair tres noites a fio com o Manso, caiu doente. Proponho chamar-lhe o dr. Salgadinho que é a celebri­ dade do bai*iTO. Ela não quer. Diz entre lagrimas e soluços histéricos que só deseja na vida o meu amor. Figa! Depois que sou de Dorotéa, nunca fui adultero!

Sonhei que tinha mudado de sexo e era noiva do Pinto Cal- çudo. Signal de calamidade! De facto, o Birimba sumiu da Repartição e Dorotéa fugiu da Pensão, sem pagar a conta. 0 Pinto Calçudo me informa que estão no Rio, onde vão trabalhar numa fita intitulada “ Amor e Patriotismo” . Eu hurlo de dôr, pensando que uma objetiva vae enlameal- a definitivamente ao lado de um caften!

Ando sinistro, magro e pensando em suicídio. Abstenção sexual absoluta. Continuo fiel á minha perjura. Bem me disse aquela vaca do Pinto Calçudo que ela era capaz de surprezas moraes!

Confirmou-se totalmente o péssimo pressentimento que eu tinha a proposito desse negocio de Dorotéa írabalhar no ci­ nema. Os jomaes .suspeitos e pornográficos do Rio vêm cheios de allusÕes equivocas a proposito da scena final do tal film “ Amor e patriotismo” em que ela tomou parte. Ela era obri-

gada a se deixar beijar como no fim de todas as fitas. E o in­ digno e malandrissimo galã que não é outro, sinão o já famoso burocrata raté Ernesto Pires Birimba teve, no momento do beijo, uma inconvenientissima erecção que infelizanente foi fil­ mada. A “ Maçã Descascada” , jornaleco imundo que vive de escândalos e chantages, estampa a proposito um artigo com este simples titulo infamante: “ 0 pau duro dos tropicos não respeita estrela!” Eis a consagração artistica que ela ganhou. . .

Encerro o presente ciclo de minha vida com a frase lapi­ dar de um poeta: “ Fim da d ôr!” Sim, porque sinto-me tranquilo, apezar ^as noticias mais ou menos positivas que me chegam do final burlesco da tra­ gédia amorosa que encheu minha vida de ilusão e sofrimento! Sinto-me tranquille. Gurvo-me sob a desequilibrada fe­ rula do Destino e entrego ao Divino Accaso a minha desarvo- rada existência. A Dorotéa amorosa e boa que foi, esfriou, mudou de opinião, esqueceu os mais sagrados juramentos, sei lá porque! Os sentimentos eternos com que eu contava não se inclinam mais para o meu lado. Minha attitude, porém, é absolutamente estoica e superior. Acabou-se em fumaça a grande mulher que entrevi nos dias em que me fiz amar. Souvent femme varie, já dizia Victor Hugo, autoridade na materia!

Apenas hontem, tive um momento de fraqueza. Foi ante uma apostrofe imunda de Lalá contra ela. Chamou-a de estrepe e ma'rafona! Isso me poz revoltas no sangue e na ca­ beça e me deu a imediata vontade de assinar um papagaio, ir de aeroplano ao Rio e justar contas com o miserável que a raptou.

Enterrei a palheta e sahi para a rua debaixo do chuvis- queiro. Mas só, andando reflectindo sob os lampeôes, depois de um grave tumulto psicologico, senti que meu espirito tomara uma direção mais calma. Fiz um pensamento: “ 0 amor é a amizade reforçada pelo apoio fisio-sexual’ . E quasi dormi num banco da Praça da Republica. Com o frio da noite, acordei tomado de um desanimo enorme. Pro­ curei em redor um aconchego e senti-me só.

Entro em casa. Lalá foi com o Manso ao Circo Piolin, ver o leão Nero que já matou duas pessoas. Choro longamentc.

Enrabei Dona Lalá.

IS'

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