Cairo, Luxor e Assuan
Os desfiladeiros onde Sansão andou treinando filis teus e a linha de trilhos por cidades ferroviárias até o deserto^ inicial do Sinai. Saharas aqueceram moles ondulando infinitos amarelos no sol de trem. Onde Moysés andou a pé.
Alcantara, o canal milionário, as alfandegas sob o domi cilio das estrelas. Os olhos de Serafim aflitamente procura ram o Cruzeiro no forro do céo africano. O Cairo ás onze horas. Nas luzes colossais do hangar costumes de opereta, fezes, gente da Europa. Lá-fóra, autocars com nomes excitantes. Semiramis, Heliopolis Palace, Shephe- ards Hotel. Procurou um detective que imediatamente lhe deu o en dereço das girls por quem viera.
Pafuncheta e Caridad se tinham feito vacinar nas coxas por um doutor negro de fez, no seu apartamento de Mena House, donde a vista barrava os andares das pyramides. Estavam de pernas núas, fazendo secar a sangria estre lada. Caridad pinicava num banjo. Pafuncheta de verde lia. Não se mexeram. Gritaram vendo-o. Tropicalizado nosso he- roe procurou varejar com os olhos as ultimas defezas de ouro das camisas-calças, onde escuridões se rachavam. Pafuncheta gritou mostrando o. livro: — E’ um manual de paixões. Está fechado, como nós duas! Folheava-o. Berrou: — Dos deboches! Depressa, um corta-papel! Serafim trouxe um alfange, mas ela tinha perdido a pagina. — Cultura physica. E’ no capitulo dos deboches? Re signação á morte. . . para mais tarde. Tinha-se levantado. Caridad - Claridad limpou a vacina, espevitou-se núa como um sol num lavabo. Inglezas velhas sob chapéus da Rainha Victoria na grena- dina quente dos occasos. Fezes com luvas. Atravessaram o jardim de Mena House. Laranjadas e creados berberes, com o rosto irreprehensivelmente estigmatizado. Sentaram-se para o chá. Peregrinagens subiam os degraus massiços da pyramide de Cheops no azul.
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Rodeando turistas alarmados, policiais espancavam came los e conductores numa gritaria de massacre.
Tinham dansado charlestões macacaes nas construções mi lionárias do Heliopolis Palace. Tinham-se fotografado sobre berros de camelos junto á Esfinge compassiva. lE visitado os destroços de Memfis e o tumulo arado dos Bois na manhã que peinerava o deserto. Combinaram partir para Luxor, Assuan, as barragens superiores do Nilo, a Nubia, o inferno.
No trem branco de Luxor, no trem louco de Luxor. Pafun- cheta dormia em cima o sono da veilleuse.
Ele entrara de manso, sentara-se na couchette de Caridad. Conversavam. Ela acordara e dizia asneiras. Ele sentiu-lhe Li I I nas mãos as coxas asperas de virgem, o ventre molle. Apertava o busto nú contra o seu busto pelludo. Que suor! Que frio! Um vomito emocional ia sacudil-o. Abotoou-se. Saiu da ca bina, pálido, emquanto ela esperava.
Caridad anotara no seu diário:
“ Ser amante de um homem! Fui esta noite. Mas parece que continuo semi-virgem. Que* somno me deu quando elle
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entrou. Não fiz escandalo por causa de Pafuncheta. Me fez pegar no seu lança-perfume! Isso me deu um incomodo horrivel de espirito. Era a primeira vez. Não será a ultima. Sofri como em casa, quando tomava uisque escondido. Felizmente ele teve um acesso de remorso e saiu” . '
0 guia missal, sujo como um templo, de abaia azul e tur bante explicara-lhes nos túneis vasios de Tut-Ank-Amon que a Deusa Verdade protegia o defunto e que a fila das testemunhas ritmadas na parede, retrucava aos inquéritos acusadores. Fóra, o deserto era o sarcofago do sol. No valle catacumbal dos Reis. Tres burrinhos gordos. Serafim e as duas girls tinham tro tado até atravessar o Nilo. Populações seguiam atraz pedindo bachiche por terem nascido tão longe.
Na tarde sobre o Egypto vermelho envolvido de amarello. Serafim deu o braço a cada uma e enfiou o casco da índia na cabeça repleta de maus pensamentos. Nas pelusas do hotel, um coqueiro esplendia como um espanador. Um inglez de dois metros batia a bola de tennis para uma
espiga cor de rosa. Girls de escarlate, sob chapéus coloniaes, ladeavam uma senhora insulada e decrepita. Sairam pelo muro lateral, contornaram o Winter-Pa lace, a rua,i a agitação sem barulho do Oriente, fezes, caftans, portas de négociés, Sudaneses, abyssinios, vendedores de bugi gangas e cigarros. O hotel sobre as escadas jazzbandava em glycinias. Ca- mizolas enormes e brancas de creados do Sudan moviam o ter raço. O Nilo em frente com velas e steamers. Para lá, as mu ralhas roseas de Tebas. E o Egito até o Mar Vermelho.
Caridad escreveu no seu diário: — “ Que beijo! Desceu até lá em baixo. Não sei mais o que fazer. Que falta me faz Miss Bankhurst para pedir conselho. Elle procura é lá. Entrego-lhe tudo pela primeira vez. Os seios esfericos e pequeninos, o ventre. . . Não. Ele tem as mãos teimosas. Elle quer chegar é lá. Ao centro. A’ divisão do meu sêr” .
Partiram para a poeira de Assuan. Entre oculos enfuma çados de janellas, o trem se cubrira dum capacete branco e afundou equipado no deserto.
Fornos e creneis de casas negras, lado a lado do Nilo con tratado como fertilizante. Cidades perdidas no pó ou brancas suffocadas de palmeiras nos oásis. Caridad deitara a cabeça no colo dele e cheirava-lhe vo- luptuosamente as virilhas. iPaisazens abriam lagos indecisos, suspendiam zepelins de pedras no horizonte tranquillo das miragens.
Do diário de Caridad: “ Lambeu minha tatorana. Nunca pensei que fosse tão 1 1 f ’ 9 agradavel!
Sob as estrelas da Ilha Elefantina, Serafim pensando em Cleopatra que ele acreditava ter sido rainha em Sabá, falou assim á Girl-d’hoj’ em-dia: — O teu hálito cheira o fumo de minha terra! — O teu cabelo é da côr das manhãs de Minas! — 0 teu beijo é quente como o sol do Rio de Janeiro. — Quando os teus lábios reviram nos meus me envolvem do calor das aguas de minha terra.
— 0 teu corpo é frio como o sepulcro do meu! — Quando saes no foquestrote ahi por esses hotéis, na podridão das orquestras, sinto as tuas duas pontas espetarem o meu coração emquanto a minha lança se revolta contra a tua virgindade. — Minha mão em concha apanha a tua bunda quente, viva, musculosa e buliçosa. — Encosto a cabeça na tua, ahi por esses foquestrotes, por esses charlestões. Encosto a lingua na tua, molle, bâbosa, salivosa.
E ella escreveu: “ Os efeitos do amor. Hoje fiquei em pêlo no quarto e notei que minhas coxas se arredondaram, ficaram gordinhas e macias trabalhadas pelas suas mãos, minhas curvas se affirma- ram, meus peitinhos ficaram duros e rebitados. Mas que co ceira no bibico!”
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D’engenharias de parapeitos , eles espiavam os espirros gigantescos do Nilo reprezado. Um gala-gala surgiu na ponte, um ovo no olho, atraz da orelha, tirando pintos vivos da manga desembaralhada. Um fogaréu amarello queimava as vassouras das tamareiras. Deslizaram sobre trilhos em carretas indigenas.
0 sol marteilava no estuário. Depois virou rodinha de Sáo João na parede do céo, emquanto as barcas recolhiam nas pautas do Nilo. 0 silencio vermelho. 0 rascar das nóras no rio. Amanhe cia sobre o Cataract-Hotel. Caridad acordou como um tomate nos lençóes. Estava na cama de nosso heroe. Escreveu “ Gemi!”
Voltaram ao paiz atarracado de templos, espetado de falus. Mulheres e felahs punham roupagens nos bois sacros, silhuetas brancas repunham em burricos a fuga para o Egito. Filigranas altas de camelos ritmavam as caravanas.
Do diário de Caridad: “ Hoje de manhã dei de cara com Miss Bakhurst, no hall do Shepheards. Perguntou-me se a bahia de Constantinopla é mais bella que a bahia de Hudson.”
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Em Alexandria, um navio passava como um bonde. Sera fim tomou-o.
O Oriente fechou-se. Tudo desapareceu como a cidade no mar, seus brilhos, seus brancos, suas pontas de terra, esfinges caftans, fezes, camellos, dragomans, pirâmides, haréns, minare tes, abaias, pilafs, desertos, mesquitas, templos, tapetes, acropo les, inglezes, inglezas.
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