Os Dramas da Opera Serafim Ponte Grande · Capítulo 11 de 19
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Os Dramas da Opera

OS DRAMAS DA OPERA

Carta para ser lida daqui a oito

dias, quando eu estiver completa­

mente morta e podre! -

Minha querida mamãe natural. Esta noite, mais do que nunca, sinto-me só, brava e reganhada! Só verto sorvetes de sangue pelos oUios, pelos lábios e pela bocca. Nem tenho mais coragem, nem fé, nem nickel! Depois que me encontrei Chez Hippolite, com o infame brasileiro Dom Serafim que diz que é nobre! sou uma bacia, uma taramela!

Joanninha

DO OUTRO LADO DA PAREDE

Meu laço de botina.

Recebi a tua communicação, escripta do beirai da viragem sempieterna. Foi um tiro no alvo do coração, se bem que ele já esteja treinado. A culpa de tudo quem tem-n’ a é esse bandido desse Coro­ nel do Exercito Brasileiro que nos inflicitou! Reflecte antes de te matares! Reflecte Joanninha. Prin­ cipalmente se ainda é tempo! E’ s uma tarada. Quando te conheci, Chez Hippolitte querias falecer dia e (i I noite. Emfim, adeus. Nunca te esquecerei. Never more! como dizem os corvos.

João da Slavonia.

I

CUCEGAS

Na mesa perniciosa do Barão Tapavento, Dona Branca Clara, rainha da belleza, belisca-o. Porque? Porque Dona Branca Clara o beliscaste-o? Mas eil-a que sorri como um isqueiro: — Escuche Dom Serafim. Eu lhe falo com todo o desca­ ramento de que uma católica fogosa é capaz. Um homem só bolina e diz que ama para fazer da protagonista duas coisas — ou sua esposa ou sua sobrancelha. . .

Serafim some pelo escapamento

o AMOR — poesia futurista •'

A Dona Branca Clara, ^ 5 1

Tome-se duas dúzias de beijocas Aecrescente-se uma dóse de manteiga dõ Desejo Addicione-se tres grammas de polvilho do Giume Deite-se quatro coleres de assucar da Melancolia Colloque-se dois ovos. Agite-se com o braço da Fatalidade E dê de duas horas em duas horas marcadas No relogio de um ponteiro só!

MISSIVA A UM CORNO

Coronel Enganei-lhe com um cavalheiro ignorado. Foi devido a um coup-de-fondre! Subi ao quarto ddlle, na Rua dos Mar­ tyres. Fiz o amor e tive uma grande desillusão. Joanna a louca P. S. Creio que estou gravida! 0 pae deve ser S. Excia. o fura-camizas!

— Branca, oh Branca Clara! depois de tanta sala de espera? — Mas que deseja? — Tudo!

Silencio de terceira velocidade. O chauffeur penetra no Chinez. Na sala verde, bojuda e letrada, orientaes e lanternas pa­ ram em dansas esfregantes, em dansas pululantes. Um inglez velho mergulha no uisque invisivel duma especie de midinette turca com olheiras. Emquanto uma miss esbelta atravessa a nado o canal e chama o chamado do Oriente como um cachorro para copuilar de pressa, de oculos. — Sabe de que mais. Dom Serafim, todos os homens que se aproximaram de mim até hoje, brocharam. Todos!

DIETA

No céo quente da Lorena, ha um cheiro de pinheiraes dos Vosges, outro de fromage á la creme e outros cheiros. E’ quando uma franceza pintada de ingleza briga com o Pavilhão de Geres, donde tira carinhosamente um animalzinho achado nas ruas intemacionaes de Deauville, o anno passado. E dá-lho ao nosso heroe como recompensa de ter-lhe apalpado as pernas num autobus. 0 cachorrinho é branco malhado de marron como convem a um legitimo papa-ôvo. Commovidamente e orgulhoso, o néo proprietário batiza-o de Serafim Ponte Pequena. E leva-o laçado nas areias das aléas, projetando sorrateiramente com ele afrontar num taxi do Mame, a Avenida des Acacias.

O IMPÉRIO DE BABILÔNIA

— Sê pirata! Bordeliza os automóveis! As mulheres de teu século não usam calças e são cabelludas como recem- nascidos!

Aventura e noitada com Madame Xavier, também co­ nhecida na distinta colonia brasileira de Paris por ‘ ‘A Senhora Cocaina”

[t i

Um quarto. Uma cama. Um boião do tamanho da unha. Pompeque amarrado. Uma saudade de João do Rio. — Vamos tomar o trócinho, meu bem? — Vamos. . . Abrem o frasco hospitalar. Mergulham na atracção im­ ponderável, como baratas. Ii — Fala-me de tua immensa chance. . . !; ?I — Que chance? — A tua‘ fortuna! — Ahn! Umas terras que herdei no Rio do Peixe. Vacuo de pedra pomes. Mais trócinho. Uma attracção sexual nas laminas sem peso. A ronda das fechaduras atraz dos trincos. Um frio estupefato, de nariz duro. Os corações marathonam como sexos. Pompeque assusta e ainda lambusada ella lhe pergunta o que pensa da attitude de Benjamin Constant para com o impera­ ^I dor. — Não foi um ingrato?! i:l BAR AUTOMÁTICO Ml

— Fivom! Roo! Este negocio de cocktail e cachorrinho acaha é na cadeia! Perdeste meio milhão de francos papel na 1 roleta viciada de Cannes! El de Dona Branca Clara, a Gela­ deira, nada conseguiste! Fizeste feio como os outros! 0 Barão Tapavento enguliu-te com pompa!

Serafim adinira de alto a baixo aquele suntuoso principe russo que o chamou no chá-tangô para o combinado encontro de Dona Branca Clara. Resta-lhe apenas da antiga nobreza uma segurança tranquila de caften internacional.

A AULA

Serafim — Gosta você de cabeça de Medusa! A ctluna — Pará comer nos sentamos deante da mesá nos pomos uma guardanapo nos petos. Serafim — Gosta você, cenorita, do cheiro do gaz? A aluna — Náo! Eu náo gosto do cherodogaz porque é deságra-vadel! Serafim — Toma você o lête com azucár? A aluna — Sim. Eu tomô o lête com azucár. 0 re- lójo tem duas ponteiros, uma grande e uma curto. Serafim — Gosta você do professor? A aluna — A-pi-za-do-pro-fe-zor-é-de-lei-ta-vél!

0 relogio intervem. Confusão de linguas.

FLORIDA’

Branca Clara na mesa do Maharadjah! Subito levanta para dansar nos seus amplexos. Diabólica, vermelha, sahida de Chanel ou de um tympano de mágica. Ilustração de cathe- cismo, o inferno escancarado no lampadario da terra, o tecto extravasando até o céo.

Tropeçam na bolina syndical, champanizada, na absolvição das terras sem peocado, no cheiro da musica mestiça. Elle a palpa aos metros sobre as flores quadradas do vidro rubro. Ba­ lanças machas pesam-lhe as bouillotes dos seios, compassos de tango medem-lhe os musculos das coxas, orçam-lhe os mais pebidos segredos. Serafim quebra como um arco, como um estilingue, como uma frecha, como um banco. Em cima. Deus Nosso Senhor tendo ouvido os gritos da musica, abençoa os pares de Florida e remete anjos vestidos de garçons jogarem sobre Paris bolas azues, bonecas e teteias.

NOTURNO

— Ih! Ih! Como eu sou uma grande desinfeliz! — Porque madama? Conte-me o seu romance! — Nós tinhamos uma fabrica de sapatos mas meu marido poz tudo fóra. . . na belote! — O que elle fazia? — Era aviador de loopings. Mas não me apalpe! Magine se Madame Cleo de Merode me visse!

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