Olho do Porco Serafim Ponte Grande · Capítulo 9 de 19
Obra Menu

Olho do Porco

De como Pinto Calçudo querendo fazer o ‘^Olho do Porco’*

produz um desenho immoral pelo que é de novo posto a ferros.

Logo uma commissão de moças vestidas de azul e branco vem chamar o trefego e popular secretario para a disputa final dos brincos de bordo.

Ele abandona a mesinha do bar, onde jogava dados com o Ultimo Hamlet que por signal anda sempre de botas lustrosas de montar.

E tratando-se de desenhar o ^^Olho do Porco” de cara ven­ dada, Pinto Calçudo não tarda em produzir no soalho do tom­ 4 badilho uma piroquinha, razão por que o Capitão apita, o Rompe-Nuve estáca e quatro robustos marinheiros o agarram e trancafiam nas masmorras do porão.

Onde a berruga intercepta um radiogramma em, que se fala

de piratas e do doce alvoroço que isso causa a bordo das cabmas

femininas.

A providencial e horrenda berruga do malogrado secreta­ rio faz com que não muito se prolongue o seu segundo capti- veiro.

Mais que ninguém, após o sucesso do dueto do Rigoleto, a jovem e apreciada Mariquinhas Navegadeira inquieta-se pela evolução clinica do papiloma que todas as manhãs é estrale- jado de raios na cabina telegráfica sem fios. E consegue um vale do Commandante para acompanhal-o como fiel enfermeira de avental e bidé, piedosamente seguida pelo Ultimo Hamlet. Num lindo occaso, estão todos locupletados de gin, can­ tando ao ar livre, em redor do piano onde gaiatamente se senta Padre Narciso. Eis quando palida e tremula, entra Mariquinhas Navega­ deira relatando que Pinto Calçudo recebeu na sua antenna en­ cefálica um radio annunciando a presença de piratas, tragica nova que circula no Rompe-Nuve, deixando todas as passagei­ ras geladas de apreensivo e falso horror.

De como Pinto Calçudo por causa do jogo de futebol pro­ mette cortar um argentino de dito a baixo, com uma afiada na­ valha de barba que mostra e faz reluzir.

— Pois é 0 que lhe digo. Era uma vez o tal Dom Juanito no primeiro porto nacional em que descermos! Emquanto Pinto Calçudo assim se expande para um par­ ceiro de pocker chamado Paulino Guedes, o argentino reune um luzido grupo de senhoras e senhoritas no bar e oferta-lbes cocktails, mandando convidar o zangado brasileiro afim de ter­ minar a briga em risonha tertúlia. Mas Pinto Calçudo dóbra- Ihe duras e indignadas bananas. Muito diversamente, o nosso heroe entregue a nc^bre cogita­ ções, produz os seguintes versos que passam de mãos em mãos com justos louvores.

P oesia de bordo

A noite desce qual um passaro inclemente. Sobre a gran vasta amplidão. Nem uma canoa no grave horizonte marinho. Só zefiro acaricia.

O crepe-santé da agua quando tudo invade. O mantó da Nostalgia. Numa lurida e doentia Mas agridoce saudade.

Assi a noute cáe Assi a noute vae Estão todos roncando nas cabinas Só vivem e resfolegam Do navio as usinas Co seus vastos pulmões Remexendo os porões

Mas numa beleza pagan Logo resurge a manhã Co seu loiro clarão

Tudo são cantos Tudo são gritos Tudo são mantos De luz e apitos A ’ s vezes. . . do Capitão

Movietone ou

Interpelação de Serafim e definitiva qu{ebra de relações com Pinto Calçudo

Aparecido que foi o frio anunciando o porto de Marse­ lha, os passageiros do Rompe-Nuve num só gesto pôem luvas, echarpes, sobretudos e agazalhos que fazem a sua aparição com as dobras e os fedores das malas. ,Na noite estrepitosa Serafim passeia para cá e para lá. Chegam-lhe os ruidos da farra de despedida em que a voz nasal de Pinto Calçudo tudo domina, produzindo balburdia e riso. Vendo-o levantar-se tragando um cigarrinho e se dirigir ao W. C. 0 nosso heroe intercepta4lie a marcha e passa-se entre ambos o seguinte dialogo: — Venha c á . . . — Agora não posso. Estou com familias. Mas Serafim insiste; dirige-se atraz dele até o reservado dos homens e grita-lhe:

— Diga-me uma coisa. Quem é neste livro o perso­ nagem principal? Eu ou você? Pinto Calçudo como unica resposta solta com toda a força um traque, pelo que é imediatamente posto para fóra do 1 .1

romance.

i. fn

1/1
Menu

Fazer anotação