Serafim no Pretorio
SERAFIM NO PRETORIO
O bordel de Têmis ou Do pedigree de Pompeque
Salomão — Vocês aqui em França têm o habito de subs- tituirem os meninos e meninas pelos cachorros e cachorras. Serafim — Eu não sou de França, Excellencia! Venho atravez de algumas caldeações, procurando refinar o tronco deixad^' numa praia brasileira por uma caravela da descoberta. Tronco que se emaranhou de lianas morenas. . . Salomão — Ná! Ná! Ná! Está a gracejar? Mas a mim que vivo de conhecimento e arguição do bicho homem não me ilude. Quer por ventura afirmar que o principe da Gran-Ven- tura que o Tout Paris admira vem dos sertões de Pau-a-Pique? Serafim — São Paulo é a minha cidade natal. Salomão — A Chicago dh America do Sul. Mas nunca me convencerá que a sua desenvoltura que tão preciosa torna a sua estadia entre nós, é originaria do Anhangabahú! Guarde para destespero de sua modéstia esta pequena verdade: o meu amigo vem de Florença. E sabe de que Florença? Da dos Mediei!
As testemunhas sorriem e depõem. Nin guém não viu nada. Afirmam mesmo que ' ií Pompeque não foi colhido pelo auto faii- dico CJCDYt H^O. 0 que deu-se foi que apenas o numero pregou um susto no tra vesso maniifero. O juiz, porém, não dis cute. Aceita a versão queixosa e con- demna os imprudentes automobilistas a cem talentos de multa ouro.
O réo-lider — Isto é que se chama uma verdadeira arbi trariedade! Um cachorro sem raça nem jaça! Papa-ôvo legi timo! Um cachorro que vivia no meio da rua, cheirando — com perdão da palavra, dejeções cavalares! Serafim Não é facto. Eu tive muita e muita vez o cuidado de atravessar os bolevares nas horas de movimento com ele ao colo. A co-ré — Senhor juiz. Foi então uma fatalidade. V .- Excia. não ignora que os automóveis são feitos para deslizar no asfalto embriagado das vias publicas. . . Serafim — Mas não para esmagar pobres e vertebrados animaluscos! Salomão (berrando) — A argumentação do queixoso é invencivel! Confirmo a condemnação conforme o art. 439 g. P.? E do Codigo do Meio da Rua.
Os reus, de cabeça baioca, retiram-se do banco dos reus e vão ao Banco dos réis. Pagou a multa ao hussier com um cheque rí»; de fundo falso. Serafim Affirma-se no meu espirito a noção que eu sempre formara da alta imparcialidade dos juizes de França
Viva a França! Salomão — Muito gentil! Trés chic! Agradeço-lhe em
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nome da Justiça. Mas fique sabendo que a França de hoje não é feita por nós francezes primogênitos da Egreja — ape- zar de todas as autenticas velleidades revolucionarias. Isto aqui é uma especie de zona neutra, onde se exercita a calligra- fia sexual dos povos liberados. Oh! Oh! iPobre Pompeque! SercífijTi — Pobre Pompeque! Eu estava justamente re constituindo a sua geneologia. Tinha chegado á conclusão de que o pae pertencia a um florista. Gente modesta, gente que faz os animaes dormirem no proprio leito conjugal. Mas, jus tiça seja feita, que os lava todos os sabbados. Salomão — Era um cachorro de grandes virtudes! Serafim — Algumas. . . Sabia muito bem fingir que tinha fallecido. lE latia muito nas fortificações. Infeliz Pompeque! Levanta-se a audiência, inserindo-se na acta um i)oto de profundo aborrecimento pela desmaterialização de Pompeque.
POEMA OVAL
Eu gosto de ovos E de balas de ovos E de ovos duros , Com linguiça alleman E boa cerveja Eu gosto de ovos mexidos Poached & scrambled Com bacon & toast . -í
Em Londres E chá da China Mas gosto mais — Lá isso gosto! De tomar ovos quentes Co’ a Serafina