O Merediano de Greenwich Serafim Ponte Grande · Capítulo 16 de 19
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O Merediano de Greenwich

o MEREDIANO DE GREENW ICH

ROMANCE DE CAPA E PISTOLA

EM 4 PARTES E 1 DESENLACE

1 — A Viva morta !

Como no bojo de cada transatlântico existe uma mulher extraordinária, na saída do porto, Serafim Ponte Grande deu de cara com a graça presente do “ Conte Pilhanculo” que os conduzia á cidade de Cecilia. Era uma morena, morena e moça com a boca imobilizada num assento circumflexo e uma sar­ dinha na aza do nariz. Um birote de meigo tom encarecia o seu aquilino perfil grego. Conversava desembaraçadamente so­ bre cambio e após guerra. Na tarde seguinte pilhando-a só e triste no salão de bilhar e esperando que ella tivesse terminado uma carambola, disse-Uie com uma barretada: — Madama, sois vós italica? — Não, meu senhor. — Turca? — Não, meu senhor. — Venezuelana... Chineza? Ella esfregou o giz no taco e sussurrou: — Eu sou a solitaria! Horas depois, conversavam interessadamente. E a conversa rodando e parando, enveredou sem tardança para as apreciações do justo valor de viver. Sendo uma entediada de alto bordo ela tentou provar-lhe que a existência de nada valia. — A vida é uma besteira. Senhor Barão! Houve um silencio filosofico. — Ao lado de Vossencia! redarguiu Serafim galantemente, Nas horas em que nosso heroe se achava só, o seu coração guin­ chava aterrado por numerosos espectros. Sobretudo o Carlin- doga e Dorotéa Gomes!

Ora, uma mulher nova e bela, mais que 'bela, duma severa beleza, se apresentava agora á sua pomografica imaginação. Ela existia, estava ali — viva e morta ! Viva porque suas pulsa­ ções latiam como cães de fila sob a moldura da cutis num ritmo adolescente, tudo, tudo prometendo mas nada dando. . . E morta porque não vivia a vida estouvinhada daquela coletivi­ dade cheia de inglezes cabidos em infancia, ás primeiras milhas de distancia das leis e dos costumes da terra firme. Os inglezes quando estão juntos sejam talvez o unico povo que sabem viajar a bordo de um navio. São duas, très, quatro até meia duzia ou mesmo duzia e meia de semanas de um esporte infernal que invade os corredores, as salas, as pontes, os tomba­ dilhos, os decks, os bars, os fumoirs, os ocasos. Como se um bando de loiros piratas tivesse tomado a muque o transatlântico. U:. Saltos, pulos, brinquedos de sela e pegador, amarelinha, pe- drinha, bolinha de gazoza, laranjinha, entrudo, esconde-esconde, apalpa-apalpa, barra manteiga, roda, gangorra, accusado, bo- lina e comadre — no meio do oceano atropelado. Ela, ,a Ela, mantivera-se sempre afastada dè lado, sem porem que a sua vislumbrada indifferença fosse impolida, hos­ til ou desagradavel. Serafim fiscalizava-a com o rabo do olho! Certa tarde, uma curiosidade comum os conduzira ao mesmo grupo de badauds que olhando comentavam os violen­ tos esportes do dia. Justamente um argentino taleigo regres­ sando na toda de uma corrida doidivanas inadvertidamente pre­ i' '^ gou um tranco nos dois que sem quererem se deram uma imbi- gada. Ella pediu desculpas, corando. Chamava-se Dona Solanja e revelara-se de uma finissima intelectualidade. Não fôra dificil para ele, habil manejador da psicologia feminina, diagnostical-a. Um dia, sorvendo uma gemada no bar, disse-lhe ás de queima-roupa: Quer saber o que de si penso, madama? A senhora é uma victima de sigo mesma! Uma victima impassivel!

— Explicae-me, senhar Barão! — E’ -me facil, minha senhora. Permitti-me porém uma certa desenvoltura de psicanálise que talvez no emtanto não precise ir até o cynismo de certos escalpelamentos ! — Permitto tudo, senhor Barão, menos uma coisa, mur­ murou ela ruborizada. Serafim tossiu, escarrou ligeiramente, passou o pé por cima, enxugou os bigodes e proseguiu: — Um caracter independente, caprichoso, que não encon­ trando nunca a felicidade-lei tranquilamente se dispoz a gozar, encerrando a existência no prazer-anfora! Ela sorriu como uma fechadura e disse: — Que grande pissiquelogo o senhor me sahel Puxa! Serafim modestamente observou em francez: — Je suis une triste cire! A verdade porém é que ele tomara vento deante daquela tacita aprovação. Continuou pois como um astrologo fixando o horizonte repleto de astros invisiveis. — A Senhora já soffreu pra burro! Mas agora não vê que soffre mais. A Senhora anda agora num estado se me per- mitte verdadeiramente perigoso não para a Senhora, mas para o resto da humanidade masculina! Houve um divino silencio apenas turbado pelo barulho poé­ tico da ventania. Mas meia hora após vendo-a meditabunda, ele ofereceu- se-lhe cavalheirescamente em holocausto: — Minha fé de viver talvez lhe possa ser util! Eis porém que o contagio da tristeza dela foi mais robusto que a permanente dynamite animica de Serafim. Ele viu aqueles lábios feitos para dar chupões, estalar beijocas e fazer boquinhas pronunciar estas palavras tumulares: — Para que recomeçar este jogo sem fim. Não pense que tenho medo do seu Cupido. Não! Só que não me interessa.

E que nem a corrida de batatas. Nada não me interessa. Pronto ! Dirigiu-se num passo de garça para o beliche. E o nosso pobre e distincte barão ficou olhando num vago desespero o mar malvacéo, a quem já fizera versos. Vieram- lhe ao cerebro as cores negativas do Passado. E elle se poz a raciocinar desta maneira: Porque, oh! porque tanta belleza junta! Porque a bran­ cura sibilante do navio, força geométrica armada e bussolada para a visita de todas as nações? Pior que? Para eu viver den­ tro sofrendo e penando? Penando e sofrendo? Serafim de noite envolveu-se no smoking e foi para o bar tomar outra gemada. Mas logo achou pau estar comsigo mesmo. Tornou á cabina e ficou de ceroulas. Mas só cochilou quando a bomerica manhã rompeu no houblot com os pés descalços.

— A mascarada flutuante

Dona Solanja não compareceu á festa que se preparara aquella noite a bordo do Conte Pilhanculo. Emquanto no tom­ badilho mamado de lanternas a burguezia exhibia o seu fulgu­ rante carnaval para a risada do Oceano, ella só, rainha do seu camarote com banheiro, despiu-se e ficou núa na cama. Então no silencio apenas turbado pela lucta das helices contundentes contra a molleza horizontal do oceano, decidiu abrir a carta que ele lhe mandara pelo guarda noturno. Ele havia obedecido. A sua altivez de homem e de barão tinha-se dobrado ante o gorgeio de seus gestos. Ela tinha exi- gido dele uma declaração de amor por escrito. Entretanto dessas paginas jogadas sobre o característico papet de bordo como o ouro generoso de um millionario ao acaso de uma roleta, aprumava-se como um falus sob uma calça O duro nervo de uma personalidade. Ella, Dona Solanja, antes pelo contrario, era uma papa

mole. Suas avós a tinham entregue, indeciso botão, ás unhas calvas das ultimas detentoras do Convento da Chartreuse d’ Avant-Guerre. Quando ela se viu livre das taes freiras, o seu horror pelas novenas, missas, procissões e badalos era definitivo. Esperava então a hora de pôr nocaute o chamado sexo forte. Mas essa hora não soou e cia então deu o fora em tudo! Desde ahi so duas coisas a emocionavam: os galgos e o schuvim-gum. Ele, ao contrario, desde os mais tenros anos, tinha sofrido o embate dos jacarés e das minhocas de sua terra natal e prova­ velmente adquirira o bicho carpinteiro que levara outrora os seus gloriosos antepassados — os bandeirantes — aos compên­ dios geográficos do Brasil. Ela só tinha uma preocupação: procurar a beleza por fóra. lEle, ao conrario, gostava da beleza por dentro. Mergulhado nessas e noutras cogitações, nosso heroe pro­ curou o bar afim de buscar o réconforte de mais outra gemada. Ela só gostava de frescos. Ele adorava a mascula luta e nas horas de lazer costumava se exercitar no difficil jogo da 1I rasteira. Mas o amor agora o tinha fisgado! Naquella noite, vendo desenvolver-se na ponte galharda do transatlântico, a humilhante terça-feira gorda de todos esses I abacaxis que navegavam — ao seu espirito, onde permanecia predestinada e fiel a imagem delia, subiu uma vaporosa forma H feminina. E elle comparou o despreso solar de sua nova amiga, i deitada a essas horas no silencio ortopédico da cabina, com I: ‘tÎ

III — A sombra retrospectiva

Pensando bem. Serafim Ponte Grande, apesar dos pisÕes, não tinha nenhuma razão de andar jocoso e alviçareiro. A felicidade arisca que tinha em caixa, conseguira-a, como o res­ tante dos homens, através de humilhações e pedidos, de roubos

e piratarias. E na verdade era feita de conchavos com o ine­ xistente. Só uma coisa tinha sido real em sua vida: o amor de féra de Dona Lalá. E o cahaço, aliás complacente, de Dorotéa! Na noite afundada no mar, deu uma espiada inútil no horizonte sem faróes.

IV — Vendetta!! Mas emfim, no dia seguinte, Dona Solanja cedera ao seu discreto convite. Descería pelo seu braço em Nápoles, a antiga Parthenopéa. De facto, roçando a mão enluvada no seu musculoso mocotó, eil-a que junto dele, pisou o caes com os seus pés de anjo. Tomaram um guia afim de não se perderem e disseram- lhe por gestos que desejavam saborear uma finíssima macarro- nada com tomates. E como durante a caminhada ele insistisse em amal-a, ela o interrompeu rindo e debicando: 4 — Amar! Que vulgaridade Senhor Barão! Honra lhe seja feita. A Senhora não sabe como eu sopito. . . Tinham-se abancado no famoso Gambrinus. Os dentes pon- teagudos de ambos e do guia trincavam voluptuosamente os barbantes da macarronada. — Outra dose? Obrigado. Estou cheia. Só quero lavar as mãos e mijíar! — Não vae uma gemada? propoz ele delicadamente. Tenho medo que me

Estavam em plena festa napolitana. Era dia de San Gen- naro. E pela primeira vez, depois de tantos anos, a indife­ rente e fria Dona Solanja sentiu corar o seu enfadonho coração. Ela emfim apalpava alguém que, ao seu lado, terno e sub­ misso, era a felicidade de paletó. E sentia subir em todos os seus ventricules a vida que sacaroteava no meio da rua. Para ella existia também uma festa interna. Entretanto, que se ti­ nha passado? Nada de extraordinário, daquele extraordinário que ela esperava na beleza desfolhada dos seus parques de Ju- visy-Tonerre ou na moleza vertiginosa de seus inúmeros fordes. Ella esperaria em vão o bandido mascarado para o assalto de suas pérolas ou o estraçalhamento de sua anti-hygie- nica virgindade. Tinham regressado ao caes. Mas eis que Serafim Ponte Grande estacara com a bocca desmesuradamente aberta. O pa­ lito que elle mascava rolou por terra. ' Solanja olhou em torno e viu que, depois de ter dado um safanão no guia, avançava para ambos uma mulher mal vestida e cheirando a alho, com uma garrucha no pollegar. O barão do Papa berrou: — Dorotéa! Dorotéa Gomes! Perdão! Um camorrista bigodudo e baixo, com uma enorme cabe­ leira desgrenhada acompanhava a nova personagem. Era o Birimba. , Houve très estampidos na direção do feliz casal. Mas eles não tinham sido atingidos. Então, sem que ninguém a visse, a nobre dama passou rapidamente a mão nas calças do atarantado Serafim e tirando-lhe a pistola, sem hesitar, sapecou seis vezes azeitonas no coração da desgraçada Dorotéa que ou­ tra não era sinão a pandorga que o Barão fodera em moça nas almofadas femifloras da Pensão Jahú.

V — Epilogo final Dona Solanja foi lynchada pelas senhoras da multidão. : 1“

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