O Merediano de Greenwich
o MEREDIANO DE GREENW ICH
ROMANCE DE CAPA E PISTOLA
EM 4 PARTES E 1 DESENLACE
1 — A Viva morta !
Como no bojo de cada transatlântico existe uma mulher extraordinária, na saída do porto, Serafim Ponte Grande deu de cara com a graça presente do “ Conte Pilhanculo” que os conduzia á cidade de Cecilia. Era uma morena, morena e moça com a boca imobilizada num assento circumflexo e uma sar dinha na aza do nariz. Um birote de meigo tom encarecia o seu aquilino perfil grego. Conversava desembaraçadamente so bre cambio e após guerra. Na tarde seguinte pilhando-a só e triste no salão de bilhar e esperando que ella tivesse terminado uma carambola, disse-Uie com uma barretada: — Madama, sois vós italica? — Não, meu senhor. — Turca? — Não, meu senhor. — Venezuelana... Chineza? Ella esfregou o giz no taco e sussurrou: — Eu sou a solitaria! Horas depois, conversavam interessadamente. E a conversa rodando e parando, enveredou sem tardança para as apreciações do justo valor de viver. Sendo uma entediada de alto bordo ela tentou provar-lhe que a existência de nada valia. — A vida é uma besteira. Senhor Barão! Houve um silencio filosofico. — Ao lado de Vossencia! redarguiu Serafim galantemente, Nas horas em que nosso heroe se achava só, o seu coração guin chava aterrado por numerosos espectros. Sobretudo o Carlin- doga e Dorotéa Gomes!
Ora, uma mulher nova e bela, mais que 'bela, duma severa beleza, se apresentava agora á sua pomografica imaginação. Ela existia, estava ali — viva e morta ! Viva porque suas pulsa ções latiam como cães de fila sob a moldura da cutis num ritmo adolescente, tudo, tudo prometendo mas nada dando. . . E morta porque não vivia a vida estouvinhada daquela coletivi dade cheia de inglezes cabidos em infancia, ás primeiras milhas de distancia das leis e dos costumes da terra firme. Os inglezes quando estão juntos sejam talvez o unico povo que sabem viajar a bordo de um navio. São duas, très, quatro até meia duzia ou mesmo duzia e meia de semanas de um esporte infernal que invade os corredores, as salas, as pontes, os tomba dilhos, os decks, os bars, os fumoirs, os ocasos. Como se um bando de loiros piratas tivesse tomado a muque o transatlântico. U:. Saltos, pulos, brinquedos de sela e pegador, amarelinha, pe- drinha, bolinha de gazoza, laranjinha, entrudo, esconde-esconde, apalpa-apalpa, barra manteiga, roda, gangorra, accusado, bo- lina e comadre — no meio do oceano atropelado. Ela, ,a Ela, mantivera-se sempre afastada dè lado, sem porem que a sua vislumbrada indifferença fosse impolida, hos til ou desagradavel. Serafim fiscalizava-a com o rabo do olho! Certa tarde, uma curiosidade comum os conduzira ao mesmo grupo de badauds que olhando comentavam os violen tos esportes do dia. Justamente um argentino taleigo regres sando na toda de uma corrida doidivanas inadvertidamente pre i' '^ gou um tranco nos dois que sem quererem se deram uma imbi- gada. Ella pediu desculpas, corando. Chamava-se Dona Solanja e revelara-se de uma finissima intelectualidade. Não fôra dificil para ele, habil manejador da psicologia feminina, diagnostical-a. Um dia, sorvendo uma gemada no bar, disse-lhe ás de queima-roupa: Quer saber o que de si penso, madama? A senhora é uma victima de sigo mesma! Uma victima impassivel!
— Explicae-me, senhar Barão! — E’ -me facil, minha senhora. Permitti-me porém uma certa desenvoltura de psicanálise que talvez no emtanto não precise ir até o cynismo de certos escalpelamentos ! — Permitto tudo, senhor Barão, menos uma coisa, mur murou ela ruborizada. Serafim tossiu, escarrou ligeiramente, passou o pé por cima, enxugou os bigodes e proseguiu: — Um caracter independente, caprichoso, que não encon trando nunca a felicidade-lei tranquilamente se dispoz a gozar, encerrando a existência no prazer-anfora! Ela sorriu como uma fechadura e disse: — Que grande pissiquelogo o senhor me sahel Puxa! Serafim modestamente observou em francez: — Je suis une triste cire! A verdade porém é que ele tomara vento deante daquela tacita aprovação. Continuou pois como um astrologo fixando o horizonte repleto de astros invisiveis. — A Senhora já soffreu pra burro! Mas agora não vê que soffre mais. A Senhora anda agora num estado se me per- mitte verdadeiramente perigoso não para a Senhora, mas para o resto da humanidade masculina! Houve um divino silencio apenas turbado pelo barulho poé tico da ventania. Mas meia hora após vendo-a meditabunda, ele ofereceu- se-lhe cavalheirescamente em holocausto: — Minha fé de viver talvez lhe possa ser util! Eis porém que o contagio da tristeza dela foi mais robusto que a permanente dynamite animica de Serafim. Ele viu aqueles lábios feitos para dar chupões, estalar beijocas e fazer boquinhas pronunciar estas palavras tumulares: — Para que recomeçar este jogo sem fim. Não pense que tenho medo do seu Cupido. Não! Só que não me interessa.
E que nem a corrida de batatas. Nada não me interessa. Pronto ! Dirigiu-se num passo de garça para o beliche. E o nosso pobre e distincte barão ficou olhando num vago desespero o mar malvacéo, a quem já fizera versos. Vieram- lhe ao cerebro as cores negativas do Passado. E elle se poz a raciocinar desta maneira: Porque, oh! porque tanta belleza junta! Porque a bran cura sibilante do navio, força geométrica armada e bussolada para a visita de todas as nações? Pior que? Para eu viver den tro sofrendo e penando? Penando e sofrendo? Serafim de noite envolveu-se no smoking e foi para o bar tomar outra gemada. Mas logo achou pau estar comsigo mesmo. Tornou á cabina e ficou de ceroulas. Mas só cochilou quando a bomerica manhã rompeu no houblot com os pés descalços.
— A mascarada flutuante
Dona Solanja não compareceu á festa que se preparara aquella noite a bordo do Conte Pilhanculo. Emquanto no tom badilho mamado de lanternas a burguezia exhibia o seu fulgu rante carnaval para a risada do Oceano, ella só, rainha do seu camarote com banheiro, despiu-se e ficou núa na cama. Então no silencio apenas turbado pela lucta das helices contundentes contra a molleza horizontal do oceano, decidiu abrir a carta que ele lhe mandara pelo guarda noturno. Ele havia obedecido. A sua altivez de homem e de barão tinha-se dobrado ante o gorgeio de seus gestos. Ela tinha exi- gido dele uma declaração de amor por escrito. Entretanto dessas paginas jogadas sobre o característico papet de bordo como o ouro generoso de um millionario ao acaso de uma roleta, aprumava-se como um falus sob uma calça O duro nervo de uma personalidade. Ella, Dona Solanja, antes pelo contrario, era uma papa
mole. Suas avós a tinham entregue, indeciso botão, ás unhas calvas das ultimas detentoras do Convento da Chartreuse d’ Avant-Guerre. Quando ela se viu livre das taes freiras, o seu horror pelas novenas, missas, procissões e badalos era definitivo. Esperava então a hora de pôr nocaute o chamado sexo forte. Mas essa hora não soou e cia então deu o fora em tudo! Desde ahi so duas coisas a emocionavam: os galgos e o schuvim-gum. Ele, ao contrario, desde os mais tenros anos, tinha sofrido o embate dos jacarés e das minhocas de sua terra natal e prova velmente adquirira o bicho carpinteiro que levara outrora os seus gloriosos antepassados — os bandeirantes — aos compên dios geográficos do Brasil. Ela só tinha uma preocupação: procurar a beleza por fóra. lEle, ao conrario, gostava da beleza por dentro. Mergulhado nessas e noutras cogitações, nosso heroe pro curou o bar afim de buscar o réconforte de mais outra gemada. Ela só gostava de frescos. Ele adorava a mascula luta e nas horas de lazer costumava se exercitar no difficil jogo da 1I rasteira. Mas o amor agora o tinha fisgado! Naquella noite, vendo desenvolver-se na ponte galharda do transatlântico, a humilhante terça-feira gorda de todos esses I abacaxis que navegavam — ao seu espirito, onde permanecia predestinada e fiel a imagem delia, subiu uma vaporosa forma H feminina. E elle comparou o despreso solar de sua nova amiga, i deitada a essas horas no silencio ortopédico da cabina, com I: ‘tÎ
III — A sombra retrospectiva
Pensando bem. Serafim Ponte Grande, apesar dos pisÕes, não tinha nenhuma razão de andar jocoso e alviçareiro. A felicidade arisca que tinha em caixa, conseguira-a, como o res tante dos homens, através de humilhações e pedidos, de roubos
e piratarias. E na verdade era feita de conchavos com o ine xistente. Só uma coisa tinha sido real em sua vida: o amor de féra de Dona Lalá. E o cahaço, aliás complacente, de Dorotéa! Na noite afundada no mar, deu uma espiada inútil no horizonte sem faróes.
IV — Vendetta!! Mas emfim, no dia seguinte, Dona Solanja cedera ao seu discreto convite. Descería pelo seu braço em Nápoles, a antiga Parthenopéa. De facto, roçando a mão enluvada no seu musculoso mocotó, eil-a que junto dele, pisou o caes com os seus pés de anjo. Tomaram um guia afim de não se perderem e disseram- lhe por gestos que desejavam saborear uma finíssima macarro- nada com tomates. E como durante a caminhada ele insistisse em amal-a, ela o interrompeu rindo e debicando: 4 — Amar! Que vulgaridade Senhor Barão! Honra lhe seja feita. A Senhora não sabe como eu sopito. . . Tinham-se abancado no famoso Gambrinus. Os dentes pon- teagudos de ambos e do guia trincavam voluptuosamente os barbantes da macarronada. — Outra dose? Obrigado. Estou cheia. Só quero lavar as mãos e mijíar! — Não vae uma gemada? propoz ele delicadamente. Tenho medo que me
Estavam em plena festa napolitana. Era dia de San Gen- naro. E pela primeira vez, depois de tantos anos, a indife rente e fria Dona Solanja sentiu corar o seu enfadonho coração. Ela emfim apalpava alguém que, ao seu lado, terno e sub misso, era a felicidade de paletó. E sentia subir em todos os seus ventricules a vida que sacaroteava no meio da rua. Para ella existia também uma festa interna. Entretanto, que se ti nha passado? Nada de extraordinário, daquele extraordinário que ela esperava na beleza desfolhada dos seus parques de Ju- visy-Tonerre ou na moleza vertiginosa de seus inúmeros fordes. Ella esperaria em vão o bandido mascarado para o assalto de suas pérolas ou o estraçalhamento de sua anti-hygie- nica virgindade. Tinham regressado ao caes. Mas eis que Serafim Ponte Grande estacara com a bocca desmesuradamente aberta. O pa lito que elle mascava rolou por terra. ' Solanja olhou em torno e viu que, depois de ter dado um safanão no guia, avançava para ambos uma mulher mal vestida e cheirando a alho, com uma garrucha no pollegar. O barão do Papa berrou: — Dorotéa! Dorotéa Gomes! Perdão! Um camorrista bigodudo e baixo, com uma enorme cabe leira desgrenhada acompanhava a nova personagem. Era o Birimba. , Houve très estampidos na direção do feliz casal. Mas eles não tinham sido atingidos. Então, sem que ninguém a visse, a nobre dama passou rapidamente a mão nas calças do atarantado Serafim e tirando-lhe a pistola, sem hesitar, sapecou seis vezes azeitonas no coração da desgraçada Dorotéa que ou tra não era sinão a pandorga que o Barão fodera em moça nas almofadas femifloras da Pensão Jahú.
V — Epilogo final Dona Solanja foi lynchada pelas senhoras da multidão. : 1“