Portico Serafim Ponte Grande · Capítulo 17 de 19
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Portico

PORTICO

Na madrugada pé-de-nimfa, o binoculo desenhou a testa do céo amarello no esquadro fumegante da esquadra abando­ nada pelos persas nas usinas do Pireu.

De volta das noites bogaris, o porteiro de Ali-Babá fixou o cadeado do orquestrão gordo que costuma eletrocutar os si­ lêncios de Pera.

O Bar Bristol entre cindros e cadeiras syrias era um para­ lítico inocente atravessado de um cão policial onde o principe negro preparava o crenel nomade dos cruzados globe-troters e poliglotas. Por isso os soldados kurdos negavam a essencia dos copos liturgicos dos armênios candelabros.

As alfandegas do turismo atingiam desertos pederastas onde se massacravam condutores milionários e inglezes com chapeos de Victoria Regia. Populações envolviam-se de ver­ melho até o mar dicionário e no vinho dos boteis girls coloni­ zavam, ladeando steacks de tenis nas escadas, dedilhando as ruas que esplendiam sem barulho. 0 Nilo ficou frente a frente com steamers e muralhas.

Ora, Caridad-Claridad era um tomate na cachoeira dos lençóes.

M'as ainda carretas empurravam trilhos por dezenas ageis nos espirros do rio preso e o gala-gala de olho no bolso tirou pintos vivos dos fogaréus.

Camelos, espanadores, martelos, mulheres e fellahs fu­ giam para as fotografias.

Estava aporrinhado de jantar toda a noite no Café de Paris, em ouro e branco, entre garçons italianos, leopardas faiscantes, americanos de smocking comendo á noite filés com ovos e dan- sando shymmis de pé torcido. Quando abotoava a braguilha para sabir, bateram á porta do seu quarto do Ritz da Rue Cambon. A Girl-d’hoj’ em-dia entrou e disse: — O senhor é o celebre guitarrista Clemente. Quero um retrato para o meu album de amantes ideaes. Minhas ami- guinhas só falam de si! Até ma-mêre se preocupa com seus olhos! Serafim ia honestamente expor que havia equivoco, elle não era nenhum clarinetista, nenhum dansarino, nenhum fresco. Mas a Giri proseguiu: — Somos da Classe de Rhetorica. Terminamos a vida de collegiaes. Vou partir com Caridad-Claridad para Constanti­ nopla e daqui a dois mezes nos encontraremos no Cairo com Miss

Bankurst, nossa aia-confidente. Eu me chamo João no collegio, Pafuncheta na vida. Eu e Caridad somos muito queridas. Te­ mos ires amantes em commum. — E ’ um collegio mixto? — 'Não vê! Não admittimos marmanjos em amor! Sentara-se, deixando ver até os intestinos. — Nós somos sul-americanas, suas compatriotas! As fran- cezas nos adoram por isso. Um dia, uma enfiou a lingua na i'-'í minha garganta. . .

Nosso heroe ergueu-se como um jaguar. Mas ella fugira. ii Berrou da escada. — Mande-nos retratos para Jerusalem ... Convento de Üll São José, padroeiro dos trouxas. . .

Serafim atraz das girls penetrou nos mares da Historia pelas mãos convulsas dos sopTos clássicos, acorridos á sua appa- rição, de dentro dos Luziadas. 0 Mediterrâneo balanceado pelas mitologias poseidonicas poz nosso heroe de cama. Elle vomitou de Marselha a Nápoles, Ií'-I l-:,' viu a Italia num catre de chuva, passou sem saber Messina e o farol do Stromboli. * ' ií ' 'ii De repente sentiu-se no caramujo do mundo antigo. Tinha dobrado cabos deshabitados. Nada agitava no crystal as beiradas do mar de Mattapan. Pf A Grécia era rugosa e amaTella como uma ruina sem um grito. Ilhas côr de limão deflorado saiam da lixa esbatida de uma montanha no cad!mio sereno de tudo sob a navalba do ceo e do nada.

Apenas, eram aquellas as montanhas do Peloponeso e o na­ vio se emocionava na bahia de SaÜamina.

A Acropole avivou-se, parecida com o museu do Ypiranga, palida e abandonada sob o corcovado do Licabeto.

Compêndios altos escoltavam Athenas.

As usinas do Pireu balizaram docas de meeting comer­ cial, com navios pretos e brancos. Uma sereia de lancha se es­ pevitou no azul mitologico. 0 porto movia-se entre descomposturas homericas de ca- traieiros. E os olhos de Serafim foram atirados para a pôpa, entre marinheiros e grumetes, onde um boxeur negro enrugava a testa ao sol da Atica, trenando. O seu nú doirava na dansa do ataque entre upper-cuts e mergulhos de swings na defesa suada, entroncada, de punhos. Serafim commingman nas espaçosas calças de Oxford viu do'outro lado um avião esticar o aço sdbre a acropole. Sorriu. Sacudiu os braços e as pernas fazendo gestos para a Grécia resuscitada no negro e no avião.

As ruas de Pera apresentaram-se ao nosso heroe. Mas qualquer coisa fugia sob a apparencia modemizante em que a Turquia falava francez, inglez, italiano sem nenhum mistério. Serafim de volta do bazar de Stamboul penetrou para o chá no edificio europeu do Pera-Palace. 0 porteiro de ope- reta curvou-se até o sub-sólo.

Um jazz balofo guinchava no interior. Serafim pisou o deserto encerado. Garçons de casaca oresceram emquanto a orquestra era negroide e gorda. E sorria para o inesperado auditor. Serafim inutilmente pediu um cocktail nativo e leu no bombo Rose-Select-Orchestra. Uma voz de oficial francez gritou entre reposteiros: — Il me restera toujours le souvenir d’ avoir fait la tra­ versée avec des jeunes-filles modernes! (Pafuncheta e Caridad defendiam-se dos galões de um ma- griceMa, eguaes no mesmo completo côr de camello, sob formas enterradas nos rostos masculinos. Pafuncheta ria, a outra era

É atlética como um reclame odontologico. Caridad Claridad quiz uisque. A orquestra animara de goma arabica um fox-trot. Ele saiu apertando-a no pé-es- palhado de um charleston. 0 bilhete trazido ao apartamento pelo garçon que recuava para ser degolado, avisou-o de que elas tinham partido. Acres­ centava: “ Ha quarenta séculos os obeliscos nos esperam!” A noite lá fóra caira numa neve completa. Serafim sentiu-se longe do Brasil das vidas animaes. Estava em pijama metido nuns ohinelões recurvos e desembrulhou sobre a mesa um pano de Bukhara, arrancado ás extorsões dos primeiros mercadores que tinha defrontado na mistura negra de Stamboul. Lá fóra a neve silenciosa. Deitou-se numa luz frouxa, vinda de outro quarto. Estava em Constantinopla. Visitaria as mes­ quitas, as fortificações dos imperadores, ouviria a voz minguada do muezin. Num caos colegial, Teodora, Solimão os osmans e os turcos actuaes de Kemal Pachá visitaram a fadiga de seus olhos. Accordou e sonhou. As princesas russas que lhe tinham servido o jantar iio Karpish entre diplomatas do Reich e nucas nacionalistas rapadas. . . os oHhos envidraçados dos fumadores de narguilé nos cafés. . . duas prostitutas italianas que o en-

costaram, uma enorme, a outra rotunda e baixa, as meias curtas hibernais, mergulhando chinelos na lama de um beco. Madrugada. Uma carreta ia conduzindo degolados nas ruas de Fera. Silencio absoluto. Madrugada de mercadores das mil e uma noites desenrolava tapetes. Serviam-lhe café turco junto a um braseiro brasileiro. lE o seu harem tinha já quatro femeas, as duas italianas, Pafuncheta e Caridad. Uma voz estridulou em clarineta no escuro ; — Não senhor Î A Turquia não podia continuar a ser a risada da Europa! Virou para a parede. Nesses quinze dias daria uma gre­ la da na Terra Santa.

A Buick da “ Desert Mail” deixara o caminho de transpor­ tes irako-persa para conduzir Serafim Ponte Grande de oculos á Palestina. Atravessou a Fenicia atropelando as primeiras caravanas, á vista de um mar de folhinha, solido, litográfico, ondeando pontas desertas de terra vermelha. Sidon e Tyro como um museu roubado, num esplendor emudecido que a terceira velocidade ia deixando para traz em barras, nas mãos mussulmanas de um cinesiforo d'e fez. — Anglais, argent beaucoup, mossiú! Vous anglais mossiú! Serafim enfiara um casco da índia na cabeça de escova e olhava tudo como uma vacca. — Anglais beaucoup, mossiú! Uma ignorância britanica o refastelava impassivel. Subi­ ram, estacaram numa passarella fresca de Observatório. O chaufeur leu alto num rotulo: — Pa-les-tai-ne! Nosso heroe procurou depressa o passaporte, o bedecker, a kodak e a Biblia.

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A paisagem rajava-se em verde amendoin. Seus olhos fil­ mavam arvores côr de fumaça entre uma e outra sombra de casa cubica, com as primeiras figurinhas sabidas da Historia Sagrada. Poços, cisternas, curvas na bôa estrada entre filas de camel- los beduinos. São João d’ Acre crenelou sobre o mar saudades de Cleo­ patra. Do outro lado, Haiffa fedeu laranjais no escuro sem lampeões. Serafim andou de Carmel Buss, experimentou Agua de Me­ lissa autentica no Convento hespanhol sobre o promontorio, comprou um bentinho e ás dez horas da manhã partiu pela Samaria a fóra! Um trem de presepe afogava-se longe na planicie. Duas montanhas eguaes e baixas quebravam-se de encontro para dei­ xar perceber o reconcavo de Tiberiades no fundo de teatro do mundo. A agitação de uma regata de catraieiros e turistas no lago de mármore, onde nada prende á terra e llembra a vida. Nin­ guém mais morava em Magdala sinão arvores, em Bethsaida sinão urzes, em Capharnaum sinão destroços. No deserto al­ mofadado de um convento um franciscano e uma caseira pro- creavam a solidão. 0 mais tinha tudo emigrado como a casa de Nazareth, pelos ares, para os livros do Ocidente. Nem Tiberias tinha mais romanos de Tiberio. Um padre bem vestido informava para um bando inter­ nacional de Kodaks que Christo escolhera o paiz esteril, afim de não estragar com a maldição de Deus uma Suissa ou uma Italia. — Visão economica, meus caros irmãos!

Na hospedaria mosteiro de Casa Nova em Nazareth, o fran- ciscano allemao da portaria tirara das barbas uma frescura gelada de cerveja clara — Helles Bier, mein herr! E lhe propoz uisque e cigarros estupefacientes na vastidão almoxarifada da sua cela conventual. 0 quarto lembrava um hotel de São João dei Rey. 0 padre mestre que era um sabio das Arabias trazia na vassoura negra da barba meio kilo de brilhantina. Serafim pagou a hospedagem com fortes esmolas, mandou dizer uma missa pela sua propria alma e na manhã pó-de-lima pesquizou inutilmente a binoculo, Jerichó num cupim de mura­ lhas eremitas. 'Por declives agonizantes, desceu no calor até o poço salso do Mar Morto. Era o lugar mais fundo da terra, com tresentos niveis abaixo dos longes metros do mar. Daquelle lado, fica­ vam Sodoma e Gomorra. Serafim olhou e viu uma pederastia de azul. A Standard Oil comprára Sodoma e negociava Go­ morra para explorar o kerozene das punições. 0 deserto da Judéa esticou-se entre panoramas de papelão amarrotado, e arborizações de desastre, Josaphás como auto- dromos, cidades côr de tenda e ferrugem. Tudo torrado, es­ corvado, kilometrado de anatema. Entre o Jordão magro e sujo e a sombra de salgueiros, o padre dos turistas dissera que só tomaria um banho para salvar a humanidade em Agua de Colonia. Ascenção da serra direta. Bethania, a Casa de Lazaro, a funicular de Josaphá. E as torres novas de Jerusalém na lama consternada e no frio. Por cima o céo da Ascenção.

Serafim fora encontrar os mesmos judeus barbados e sujos do Muro das Lamentações, que na vespera mexiam o corpo ante a decadência do Templo como galinhas aflitas — sorridentes e pálidos na sala promiscua da Banque Impériale Ottomane.

Um sacerdote assumcionista eruditamente o guiou de ga­ lochas aos dominicanos de Santo Estevam e á Gruta do Leite, em Bethlem. Um franciscano comercial distribuia papelinhos de pó galatogenico na sacristia. Chamou Serafim de lado e o preveniu contra o dragonan de circumstancia,

— Estes padres de hoje, meu senhor, não acreditam nem em Deus!

Serafim sahiu só pela noite de Jerusalem. Era a rua princi­ pal em descida. Penetrou nas luzes do Café Bristol. A sala abafada coloria-se de papel no jazz idiota. Um pianista sara­ coteava nulamente entre garçons e cadeiras vasias. Havia syrios .i gordos, homens vagos do Sul, caixeiros, viajantes bebedos e duas alemanzinhas globe-troters. Um ar de inocência iluminava j aquela blasfêmia que um cachorro enorme vigiava. No interior do bar um rei mago tingia um cocktail. Nosso heroe sahiu pelo vento. Em cima fazia uma lua paulista. Passou os armazéns, o Hotel Allemby, um café turco.

De repente a noite crenelada dos cruzados gritou quem vens lá! A Torre Antonia velava sobre a lama dos quarteirões. Havia sombras de guardas ao lado dos degraus de um portão. Serafim aproximou-se. Eram dois soldados kurdos. Perguntou-lhes pélo Santo Sepulchro. — Não ha nenhum Santo Sepulchro. . . — Como? — Nunca houve. — E Christo? — Quem? 0 outro esclareceu: — Christo nasceu na Bahia.

Mas o guia assuncionista o fez subir de vela na mão os desoito degraus do Calvario e por capellas e muralhas afundou com elle na escuridão monumental das Cruzadas. Procissões teimosas, barbudas, gregas, coftas, armênias, franciscanas sucediam-se, precediam-se, desapareciam, briga­ vam de velas e de cânticos, liturgias, flexões, ante os envoltorios dos sacros signaes guardados por tocheiros, lampadarios e capiteis. 0 guia explicou-lhe: — Precisamos sahir antes que o mussulmano feche a porta. E’ um turco que tem a chave do Santo Sepuilchro já que os chris- tãos não se entendem sobre a posse das verdades e das capel­ las. . . A ’ s seis e meia fecha-se tudo e eles ficam ahi bri­ gando de candelabro e reconciliando-se depois pelas narinas da volúpia nos divans de pedra, com grande gáudio do tinhoso. . .

Serafim viu na sombra, sentado sob a defeza secular de il " uma parede, os olhos em brasa dum pederasta de barbas e batina.

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