A Funcção Psychica do Terror, Religião e Philosophia A Esthetica da Vida · Capítulo 2 de 14
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A Funcção Psychica do Terror, Religião e Philosophia

A FUNCÇÃO PSYCHICA DO TERROR

A consciência no homem não é um phenomeno transcendental, fora das leis naturaes. A consciência é um facto natural, um « modo » da substancia universal. Phenomeno neurológico, commum aos animaes, a consciência, que tem os seus órgãos physicos, se desenvolve na escala dos seres. Mas no processo dessa evolução ha um instante em que se fôrma no cérebro do animal superior a consciência metaphysica do Todo universal. E' o instante da creação do homem. Por essa consciência o homem se revela, porque entre todos os seres só elle comprehende o Universo, o interpreta, e sente a sua separação das outras cousas no Todo infinito. Os outros animaes têm a consciência individual, a consciência dos outros seres, mas estão privados da consciência metaphysica, objectiva e subjectiva. Para explicar esse magno problema da philosophia, a hypothese do terror inicial formando a consciência humana não é fortuita, e seria uma luz neste insondavel enigma. O homem herdou dos seus anthropoides o medo. E' um animal em que o medo é uma das primeiras manifestações psychicas. No período infantil, qualquer alteração do equilíbrio, a impressão da água, os menores animaes e os mais inoffensivos, o aterram. N'esse cérebro assim predisposto, as grandes commoções, provocadas pelos inexplicáveis phenomenos da Natureza, determinaram a formação de idéas transcendentaes para explicar a origem e a causa desses phenomenos, que pelo mysterio apavoram o espirito dos homens. A necessidade de explicar, de entender, é essencial ao cérebro humano. E' uma conseqüência psychica do seu próprio desenvolvimento physiologico. Não dispondo de meios scientificos para explicar a matéria universal, que o cerca e espanta, interpreta-lhe os phenomenos por uma ideologia rudimentar, vaga e incerta, que se torna a expressão do mysticismo inicial, pelo qual se balbucia o conceito da fragmentação do Universo e da separação dos seres. Esse terror inicial fica permanente no espirito humano e transmitte-se aos descendentes pela hereditariedade psychologica. No homem civilisado, em cujo espirito a cultura intellectual tem combatido o medo, este perdura como um traço psychologico dos antepassados, e por elle se dá no homem uma regressão physica e moral ao estado psychico dos primitivos formadores da espécie. Sob a influencia do medo vemos os homens mais civilisados reproduzirem gestos e actos dos homens selvagens e dos animaes superiores de que descendemos. E essa regressão é uma das provas da origem animal do homem. Pela hysteria e pelo somnambulismo, que são muitas vezes manifestações nervosas do medo, o homem entra no estado de sub-consciencia, em que viviam os primitivos homens perdidos no terror do Universo. A um estado semelhante de sub-consciencia^propicio ao mysticismo animista, que transfigura a Natureza, volta o homem civilisado, quando se transporta ao meio physico, cujo assombro o apavora eternamente. Não é somente por uma manifestação physica retrograda que o terror reside no homem; é também pelo retrocesso á alma antiga dos antepassados, reacção em que a cultura adquirida se esváe, como a luz solar no mysterio da infallivel noite. Esse retrocesso á sub-conscienciase accentúa na vida collectiva, nas sociedades humanas, em que o estado de agglomeração faz despertar os instinctos selvagens dos anthropoides e homens primitivos, que viviam em tribus. Outra causa do medo é a dôr. Antes do soíTrímento moral, a dôr physica, agindo nos centros nervosos do animal, determina o pavor do desconhecido e no homem crea o sentimento da morte. A dôr moral tem um effeito idêntico, o de despertar esse sentimento vago do medo, que está no inicio da formação da consciência humana. Durante essa reacção physica e moral do softrímento, o espirito humano procura proteger-se do terror ancestral, que persiste na sua memória, e a imaginação lhe crea as forças tutelares, que o devem amparar na sua dôr. E o effeito mágico do soffrimento moral é o de crear a consciência, que nos explica a nossa separação do Universo, que nos confina no nosso próprio ser, que nos faz sentir o Infinito, que nos dá a divina tentação de desapparecer para sempre no Todo universal. Nas relações do indivíduo com o mundo exterior dão-se factos que, causando espanto, ficam inexplicáveis á intelligencia. A necessidade de ligação de causas e effeitos, essencial ao espirito, transportada a esses factos inexplicáveis, revela a separação entre o indivíduo e uma força mysteriosa, implacável e fatal, que não reside positivamente nos outros indivíduos ou objectos exteriores. A homogeneidade cósmica está quebrada, e no indivíduo o terror gerou a consciência metaphysica. Começa então o cyclo da tragédia fundamental do espirito, e a vida passa a ser a dolorosa, infatigavel e múltipla expressão desse sentimento: a não conformidade com o cosmos. O terror cósmico é o principio de toda a vida reflexa. A consciência desse terror crea o sentimento do Universo, de um Todo infinito. A dualidade, eu e' o mundo, e a interpretação das forças ignoradas da natureza passam a ser a cogitação incessante do espirito humano. O sentimento da unidade do cosmos é essencial á consciência antes da sua revelação metaphysica pelo medo ou pela dôr. O espirito tende sempre a voltar a essa unidade, que permanece como o estado profundo e intimo da sua vida inconsciente. O sentimento do Infinito, a indeterminação dos seres, a fusão destes n^quelle sentimento, dominam a consciência. E o espirito mysticamente realisa esse sentimento ideal da unidade cósmica nas manifestações transcendentes da sua actividade. Sem a consciência o Infinito não existiria, nem a Unidade, nem o ser, e sem o sentimento do Infinito não haveria religião, philosophia e arte, manifestações da actividade do espirito, que realisam aquelle sentimento da Unidade. Se o terror cósmico estabeleceu a dualidade, a tremenda separação do Indivíduo e do Universo, procuram a religião, a arte e a philosophia restabelecer a homogeneidade universal na indiscriminação dos seres, na integração de todos os seres no Todo infinito.

RELIGIÃO

A Religião é uma melancolia. O homem, deante do espectaculo infatigavel da vida e da morte, do apparecimento e desapparecimento das cousas, sente-se triste, o pavor invade-lhe o espirito, e dessa melancolia nasce a anciã de attribuir um destino a si mesmo e ao Universo, de ligar os effeitos ás causas e dominar o mysterio. Assim, a religião desponta na alma assombrada do homem primitivo e permanece na raiz do espirito humano, d' onde a cultura difficilmente a extirpará. Emquanto existir um enigma no Universo, haverá o sentimento religioso que, além de ser uma funcção psychica do terror, está ligado intensamente áquella aspiração á unidade do Todo infinito, que é o surto irrepremivel e secreto do espirito humano. Por elle o homem se eleva da animalidade ao vértice da imaginação creadora, que commumente se chama espiritualidade, como para accentuar que todo o sentimento do Infinito é uma pura idealisação, uma abstracção metaphysica, de que são incapazes os outros seres. E esta manifestação é tão inherente ao espirito humano que só por ella se poderia explicar a religiosidade essencial do homem, sem recorrer ao motivo inicial do espanto e do terror deante dos enigmas do Universo. Desde que o homem se sentiu separado das outras cousas, antes que a sua intelligencia pudesse interpretar scientificamente a natureza, os phenomenos da matéria lhe appareceram como effeitos de cousas mysteriosas animadoras do cosmos. O animismo é a mais remota e racial expressão da religiosidade do homem perdido nas enigmáticas apparições de um incognoscivel Universo. As suas raízes são adstritas á alma dos homens e embora chaoticas, essas idéas e imaginações ancestraes formam para sempre o substractum da religiosidade humana. Assim, quando mais tarde, por uma elevação da intelligencia, surge a idéa e se organisa o culto de um deus único ou de deuses, que são as expressões de um ideal de belleza superior, o espirito humano insatisfeito volta ao estado inicial dos seus primitivos sentimentos. D'ahi o fetichismo indestructivel, as superstições, que são o desmentido da omnipotencia de Deus. Para o homem superticioso ha sempre algum mysterio tenebroso, que a religião official não explica nem resolve. Deus não basta. Além de Deus, ha o Terror, ha a Fatalidade, ha o Destino. A seductora magia do mysterio é inseparável do homem. Se se levantasse o mappa moral da religião, ver-se-ia o fetichismo inexpugnável nos povos mais scientificamente apparelhados para domar a natureza, no espirito dos homens mais senhores do mysterioso império das cousas infinitas. Chamem-se essas mascaras modernas do animismo selvagem, espiritismo, theosophia, espiritualismo; por toda a parte é aquelle mesmo multiforme e persistente fetichismo, que escapa á sciencia e á philosophia, zomba da cultura, nos encanta e aterra, e é a < manifestação concreta da pura abstracção da alma humana, do maravilhoso mysticismo. A exaltação espiritual, que arrebata os homens para além da realidade, transforma a intelligencia em sentimento e dá o frêmito infinito ás idéas, ás paixões e vem comprovar essa ardente aspiração á unidade transcendental do Universo, que é a nossa perpetua anciã. Por essa suprema fusão de todas as cousas, em que se fragmenta o Todo infinito, voltamos á grande e total inconsciencia, escapamos á dolorosa separação do nosso ser e do Universo. No fundo de todo o mysticismo ha uma realisação da unidade inconsciente e transcendental. No mysticismo religioso a alma se julga uma emanação de Deus. A existência na separação do seu Creador é uma condemnação, uma triste peregrinação supportada unicamente pela consoladora esperança de tornar á Essência de que emanou. A união com Deus é a vida perpetua do mystico. E' o toque da divindade em nós, pelo qual somos um com o Universo. « Nada mais divino do que a União, salvo o Um », exclamou Proclus. O mysticismo não limita o seu vago e ascensional encanto á religião. Está em todos os sentimentos transcendentes. O grande Amor' é mystico como a paixão religiosa. Por elle se realisa a união profunda dos dous seres. E nessa suprema unidade o Amor se torna mystico, porque ultrapassa as contingências da matéria, se espiritualisa na maravilhosa fusão das duas essências que, pela magia do magnetismo dos seres, aboliram o espaço e tudo o que limita, e se tornam infinitas e eternas. Assim, a Religião e o Amor se identificam na sua remota e alta significação. No vôo «sublime daidealidade o

Amor é religião, como a Religião é amor. A felicidade suprema só se realisa na união com o ser amado, seja Deus ou o Amante. Emquanto a grande mystica do Amor divino adora o amado Jesus como um Amante, aquella outra linda Theresa, mystica do amor humano, exclama ao seu amante: « Leio a Imitação e tu és o meu Jesus!» Os dous mysticismos se encontram na mesma paixão sobrenatural, e tudo é Religião. O amor se tornou mystico, um frêmito do Infinito divinisou os Amantes. A mystica santa como a mystica amorosa podem dizer do ser amado: « Toda a cousa que vive em ti somente é viva», como no seu êxtase exclamava Santa Maria Magdalena de Pazzi, e ainda mais: « Eu não sou nada, sou uma côusa que vem de ti, que és infinito. Todas as creaturas que comprehendem o teu amor, tornam-se infinitas, porque comprehendem as cousas infinitas ». E' a mesma anciã do Infinito, o mesmo exaltado desejo da conformação total do nosso Ser no Universo. Na religião os sexos se attráem, como na paixão do amor, para realisar a união mystica dos Amantes, suprema aspiração das nossas inquietações no exílio do mundo. O animismo torna universal a Religião, porque pela sua magia tudo se vivifica, se espiritualisa e se divinisa. Esse animismo se engrandece'desde as fôrmas mais rudes e selvagens até ao pantheismo religioso de Buddha e de S. Francisco de Assis. E' a mesma força motora do espirito que faz de todas as expressões do Universo as múltiplas imagens da divindade, uma perpetua e infinita representação da causa única, de Deus. Produz-se na alma mystica o maravilhoso processo da humanisação de toda a natureza, que inspira a trama de uma fraternidade e liga os iniHimeraveis seres, em que se fracciona o Todo. O Cântico ao Sol de S. Francisco, em que o pantheismo christão alvorece, como toda a primavera do mundo adormecido, é o primeiro toque da renascença do espirito moderno, a magnífica idealisação do culto solar dos selvagens, agora poesia, musica e alma da fraternidade de todas as cousas da natureza. Desse pantheismo, ainda impregnado do sentimento da permanência individual, se chegará pelo mysticismo áquelle conceito buddhista da negação da substancia real, do não-ser, do anniquilamento final do Universo, cuja existência é uma pura idealidade. Todas as formações são passageiras, proclama o Buddha, todas as formações são sujeitas á dôr, todas as formações são sem substancia real. Quando se está bem possuído desta verdade ultima, é a libertação da Dôr. E' o caminho da perfeição.

Esse supremo conceito pantheista da religião se torna esthetico. Para o mystico que chegou pelo surto espiritual a abolir a existência individual de Deus, para animar e divinisar o Todo, a comprehensão do Universo é puramente espectacular, é o sublime jogo das forças da natureza que se multiplicam em imagens, são expressões cambiantes e infinitas das fôrmas e das cousas. Assim, a Religião, a Arte e o Amor confluem maravilhosamente no espirito humano, ávido de voltar á grande inconsciencia da natureza. Na aurora do espirito humano a religião e a philosophia se confundem e dão do Universo a mesma visão. Pouco a pouca a investigação da matéria, a interpretação scientifica da natureza crearam a philosophia e a distinguiram da pura religião. O senso religioso inseparável do homem tornou-se philosophico. A philosophia veiu principalmente apoiar a religião, quando, quebrando a unidade do Todo, institue a perturbadora dualidade do espirita e da matéria. Reapparece a funcção psychica do terror e de novo se volta, mesmo na extremada cultura da intelligencia, ao animismo primitivo, racial no homem. Procura-se ligar todos os effeitos ás causas, remontando até á causa única creadora de todas~as.cousas. Repete-se com Parmenides que além do movimento ha o eterno repouso da substancia final, que attingiu ao máximo do seu desenvolvimento. A idéa de Deus se funde desse modo na metaphysica do terror, no simples animismo. A religião afllrmase inexpugnável no espirito do homem perdido na grande inconsciencia do cosmos. A actividade do homem, a sua acção pertinaz, o seu combate de todos instantes com a natureza, nada extirpa da imaginação nascida do terror o sentimento religioso que funde todo o Universo no conceito de uma substancia creadora das outras fôrmas, que é Deus. Por mais que se vença a natureza e seja ella incorporada pela dominação ao.nosso espirito, ha sempre para a imaginação mystica do homem alguma cousa de inabordavel, de mysterioso, que a sciencia não pôde domar. No espaço infinito das trevas que assombram o espirito humano, trava-se o perpetuo combate e^itre a religião e a sciencia para a explicação final do Universo. A sciencia não poderá jamais satisfazer a anciã do espirito, que aspira realisar a unidade do cosmos. Só ha sciencia do'que é fragmentário. O supremo sentimento do Todo infinito se realisa pelas sensações vagas e mysticas da Religião, da Philosophia, da Arte e do Amor, que fundem o nosso ser no Universo.

Se o terror é o ponto de partida da religiosidade do homem, o terror desapparece, extinguese, quando pela própria religião se fôrma a suave unidade do nosso ser e do ser creador. Pela máxima espiritualidade da religião voltamos ao ineffavel estado de inconsciencia inicial de todos os seres indiscriminados no Todo infinito.

PHILOSOPHIA

Não ha maior angustia do que a nossa separação do Todo universal. E' a dôr suprema da intelligencia humana. A consciência creou esse terrível soffrímento; é preciso que a consciência o elimine pela comprehensão da Unidade essencial do Todo, do qual a nossa distincção é apenas illusoria. Se podemos pensar o Universo, é ainda para nos sentirmos um com elle, sentirmos que não somos uma realidade e que tornamos á inconsciencia profunda e eterna do Todo. Eis a ineffavel consolação para a perpetua dôr em que se abysma o nosso ser illusorio. Em vez dessa salutar concepção da substancia e dos seus phenomenos, as outras explicações do Universo e do nosso eu, mantendo a separação entre um Creador e a cousa creada, distinguindo a matéria e o espirito, só vêm perpetuar a angustia do ser que se comprehende como eternamente separado do Todo universal, prisioneiro de uma consciência metaphysica, que faz da illusão a imaginaria realidade. A esta triste philosophia dualista oppomos a radiante philosophia monista, que só ella pôde suscitar a verdadeira esthetica da vida, A interpretação scientifica do Universo, que é o começo da philosophia e emancipa da religião o espirito, distingue o monismo philosophjco do monismo religioso, que reduz tudo á unidade Deus. No período do puro animismo fetichista o homem não procura explicar os enigmas da natureza e reduzil-os ás leis que seriam os germens da sciencia do cosmos. O seu mysticismo, ainda muito próximo do terror inicial da separação do Todo, é integral, e por elle toda a matéria é divina, é a expansão, aprojecção de um ser creador remoto, tenebroso e temível, é Deus. Quando mais tarde, ainda na aurora da intelligencia, o homem disassocia os phenomenos da natureza e tenta explical-os e domal-os pelas leis, o Universo cessa de ser um todo para ser um conjuncto de fragmentos. Esta decomposição da matéria, este estudo dos phenomenos da natureza é a sciencia, que dá ao homem uma visão fragmentaria do Todo infinito. O espirito humano não se pôde restringir a essa bmitação. Por uma fatalidade essencial, aspira entender o Universo, e a realisação da idéa transcendental do Todo infinito, sem distincção de partes, o Todo absoluto, é, como jáimos, o facto supremo da consciência humana. E como o mysticismo religioso desfalleceu deante da explicação scientifica dos phenomenos do Universo, o mysticismo philosophico, que não desdenha a sciencia e antes a funde numa grande unidade, floresce no espirito humano, ancioso de eliminar a sua dolorosa separação do Todo infinito. Desde os tempos mais remotos do pensamento, a philosophia, confundindo-se ainda com a religião, exprimiu a anciã dessa unidade ullima, em que a nossa fugaz individualidade se extingue para sempre. O tormento da separação do homem e do Universo cessou para Orpheu, para Buddha, mas nesses systemas primitivos a religião se confunde com a philosophia. O senso religioso se torna philosophico pela sua extensão, como a philosophia pela condensação se torna religião. A concepção monista do Nirvana poderia ser uma apparencia desse conceito supremo do Universo, que é a base da esthetica da vida. Não ha duvida que o buddhismo viu com justeza a alma individual permanente e immutavel, como o principio que mantém a separação entre os seres, impede a libertação espiritual e perpetua a dôr. Também a hypothese do renascimento, a roda dos nascimentos do orphismo, o eterno retorno ás mesmas fôrmas e ás mesmas existências, seria a perpetuidade do mal, do soffrimento e a inextinguivel separação do ser e do Todo infinito. O Nirvana surge nessas terríveis, angustias do espirito, que busca a libertação da própria existência, como a feliz concepção da unidade final e absoluta do Universo. Mas esse termo ultimo a que se pôde chegar em plena vida, e não pela morte, é o fim de todo o desejo. Para o mystico do Nirvana toda a actividade é uma expressão de dôr; apropria contemplação do Universo, a meditação, o pensamento, o goso transcendente da vida suprema do Todo são fôrmas da permanência individual, que nos afastam da beatitude, em que se extinguem para sempre o prazer e o soffrimento. A essa attitude passiva e incompatível com a própria natureza, que é ella mesma a perpetua acção, opporemos o conceito da unidade universal realisada pela própria consciência, que nos dá a miragem sublime da inconsciencia infinita. Para se attingir ao Nirvana, o buddhismo fixa uma lei moral. Para extinguir a dôr é necessária a piedade, a compaixão que se torna sympathia universal, solidariedade entre todos os seres do universo e responsabilidade de cada um para com a natureza inteira. O buddhismo se accentua mais como religião do que como philosophia. O anniquilamento do nosso próprio ser, que se pôde comprehender mysticamente, lucta, na realidade talvez illusoria, mas realidade para nós, com a natureza, que faz da conservação do ser a razão primeira da existência. E' a observação d'onde se originou, o principio philosophico de Spinoza, de que toda a cousa em si se esforça em perséverar no seu ser. E d'ahi toda uma ethica baseada nesta máxima: o esforço de um ser para se conservar é o primeiro e único fundamento da virtude. E' a opposição á doutrina do buddhismo, que estabelece a ethica contraria da dissolução do ser individual no Todo infinito. Mas a concepção de Spinoza se alarga, quando procura conciliar o egoísmo do ser com a sympathia universal entre todos os seres. « Os homens, diz elle, nada podem desejar de melhor, para a conservação do próprio ser, que esse amor de todos em todas as cousas, que faz que todas as almas e todos os corpos formem por assim dizer uma só alma e um só corpo... » Infelizmente, esse conceito, de uma vastidão essencialmente pantheista, se termina no pensamento de Spinoza como uma ethica, em que o inconsciente é substituído pelo consciente, pela vontade do bem, como uma necessidade, uma utilidade á conservação do ser. E recahimos no dualismo separador do Universo e do nosso eu. Não se pôde attingir a esta suprema fusão no universal, quando todos os conceitos relativos do bem, do útil, do bello, emfim tudo o que é individual persistir no nosso espirito. Não ha duvida que Spinoza se approximou mais que ninguém da concepção essencial da Unidade infinita dos seres, quando affirmou que o homem é uma infima parte da natureza eterna. A idéa da parte e do todo ainda é uma idéa de separação. Ha uma unidade secreta e infrangivel na matéria universal. Os seres que vemos distinctos uns dos outros, participam todos dus mesmos elementos immorredouros e todos têm a mesma e indissolúvel essência physica. Aquelles reinos, em que se costuma separar a natureza, são da mesma origem e da mesma substancia, e elles se entendem secretamente entre si. A theosopliia hindu percebeu esse grande mysterio, quando assignalou na escala ascendente dos seres os mineraes que aspiram ao reino vegetal e os vegetaes que se tornam animaes pelo desejo da perfeição, e attingindo todos a uma absorpção definitiva no ser divino e recomeçando impávidos a marcha forçada e eterna do ser e do não ser, passando perpetuamente pelas mesmas vias dolorosas da peregrinação da existência universal. Eliminando-se o que ha ahi de mystico, subsiste inapagavel nessa esplendida imaginação a verdade absoluta da unidade essencial da Natureza, principio em que se baseia a concepção esthetica da vida. Esse principio da unidade fundamental da matéria universal exige como corollario o conceito da mutação infinita dos seres, em que se fracciona apparentemente o Todo. O erro que proclama a permanência immutavel de cada ser no seu próprio ser, anniquilando-se totalmente pela morte sem se transformar em outras expressões da matéria e sem a communicabilidade com toda a Natureza, de que é um simples aspecto illusorio, mantém no nosso espirito a perpetua dôr da nossa separação do Todo infinito. Ao passo que no conceito do Universo, como unidade infrangivel de toda a natureza, a vida dos seres seria a da perpetua alegria pela eliminação do terror metaphysico. Desse conceito transcendental, que exprime a concepção.esthetica do Universo, como o perpetuo fieri de fôrmas infinitas e incessantes, origina-se toda uma ethica para o espirito humano, em cuja consciência se reflectem instantaneamente a inconsciencia universal e a magia do Todo. E não só por essa percepção, mas ainda para realisar em toda a sua plenitude a esthetica da vida, o homem tem de realisar três grandes movimentos espirituaes. A philosophia da unidade é uma philosophia de acção, que regeita a passividade do Nirvana, proclama que só pela actividade o espirito se pôde tornar um com o Universo, extinguir todas as separações e fundir-se esplendidamente no Todo infinito. As três grandes disciplinas em que se baseia a ethica desta esthetica da vida, são: I o resignação á fatalidade cósmica; 2 o incorporação á terra; 3 o ligação com os outros homens. São esses os trabalhos moraes do homem dentro das categorias em que fatalmente tem de existir, Universo, Terra, Sociedade. Deante do Universo o homem, inspirado pelo puro pessimismo negativo, dirá: a vida é uma illusão, uma série de imagens de uma realidade jamais attingida e jamais positiva. Só a morte é positiva, ella é a entrada, o accesso do ser no absoluto inconsciente do Universo, o fim da illusão instantânea da consciência, que apparece- como uma luz fugitiva na infinita indifferença da matéria. Oh! a estupidez aterradora do Universo, a impassibilidarle inabalável e silenciosa da matéria perpetuamente movei! A ausência total da intelligencia, do pensamento, emquanto toda a matéria se move, se agita e vive a vida inconsciente!... E o espirito do homem se confrange e jamais se resignará ao seu próprio anniquilamento no inconsciente cósmico. Para aquelle, porém, que, possuído do sentimento espectacular do Universo, affirma que não há um destino moral, nem político, nem religioso, um finalismo de qualquer ordem no perfeito jogo das forças da natureza, ha o sentimento profundo de que o Universo se representa como um espectaculo, em que só ha fôrmas, que se succedem, multiplicam, morrem, revivem, n'uma metamorphose infatigavel e deslumbrante. Desse espectaculo universal, somos uma apparição phantastica e passageira e, na inconsciencia da representação, da vida se fôrma, se abre um intervallo, quando uma dessas apparições instantâneas do mundo phenomenal, que somos nós, pôde conceber a magia do Universo. E' a maravilha da conciencia, o espelho divino do Universo, que reluz por entre as trevas profundas do inconsciente absoluto e no infinito e inquebrantavel silencio dos outros seres. Esse conceito esthetico do Universo é a base da perfeição. A manumissão do nosso espirito, a libertação da Dôr e da Alegria a alcançamos quando esse conceito philosophico se transforma em sentimento. A vida esthetica se abrirá para nós em todo o seu mysterio fascinador. Como já se disse d'aquelles pensamentos tão leves que não podem ser pensados, esse sentimento da esthetica universal é tão subtil que não pôde ser sentido... Existe e não se exprime, mesmo não se sabe como é sentido, porque não chega a se separar da inconsciencia profunda, em cujas ondas voga como uma vibração innominavel. E nós nos absorvemos nesse mundo phenomenal, em que tudo é fôrma ou illusão das fôrmas. Ainda assim, a vida é acreação do nosso pensamento, e sem elle esse mundo mágico pôde existir, mas é como se não existisse, e nem mesmo pôde ser concebido... E não ha fim na corrente indefinida da creação. A própria obra de arte é representação, mas a ella se junta outra creação, a do simples espirito, que se commove e a transforma em cousa sua. O nosso pensamento obedece, como a natureza, ao rythmo do Universo, á fatalidade de crear fôrmas. E nós « pensamos » o nosso próprio pensamento, uma immensa vertigem nos empolga e cahimos nesse abysmo de imagens, que não sabemos se são os aspectos reaes das cousas ou as illusões da idéa creadora. Nessa conformação entre o pensamento e a Natureza, tudo é um só e indefinido mundo de representação, tudo é espectaculo, e ninguém pôde dizer se ha um mundo objectivo e outro subjectivo, porque tudo é um, a unidade absoluta e bemfazeja do Universo. A grande fatalidade do espirito humano foi ter percebido o espectaculo universal. Mas, que essa divina allucinação inspire o sentimento da esthetica da vida. Façamos de todas as nossas sensações, sensações de arte. E' a grande transformação de todos os valores da existência. Não só a fôrma, a côr, o som, mas também a alegria e a dôr e todas as emoções da vida sejam comprehendidas como expressões do Universo. Sejam para nós puras emoções estheticas, illusões do espectaculo mysterioso e divino, que nos empolguem, nos arrebatem, nos confundam na Unidade essencial de todas as cousas, cujo silencio augusto e terrível perturbamos um instante pela consciência que se abriu, como um relâmpago, nas trevas do acaso... A cultura ha de se inspirar nesse conceito e ha de abandonar todos os outros que fazem da vida um debate moral. E será a libertação. Passaremos a ter a consciência de que somos uma força entre as forças universaes, e assim entramos na vida eterna, na vida da natureza, realisando com esta a communhão absoluta e mysteriosa, que é o termo final da'dolorosa separação do nosso eu do Todo infinito. Possuídos desse sentimento da universalidade do nosso próprio ser, a outra actividade espiritual a que somos chamados, é a da nossa incorporação á Terra. Nascido da Terra, o homem ficou para sempre ligado a ella. Todo o seu organismo é uma expressão do meio physico, de que se originou. Nada no corpo humano que não seja uma immorredoura reminiscencia da sua formação terrena. O seu sangue bate ainda o rythmo das quentes marés dos primitivos oceanos, em que se germinou a vida animal. A historia da Terra se gravou no nosso organismo e nós a resumimos. Parecendo ser um prolongamento do meio physico de que proviemos, somos apenas uma recapitulação. Tudo em nós é a Terra viyificadora e magnífica. A composição chimica dos seus mineraes, a combinação mineral do seus vegetaes, tudo se encontra em nós: a nossa vibração é a sua, as molleculas do nosso corpo e tudo o que é mais secreto em nós participa do mysterio da Terra, vivemos delia perpetuamente, unidos a ella para sempre na vida e na morte. Filho da Terra, o homem dá-lhe a alma.

Elle é a intelligencia, a força subtil e immortal que lhe crea uma personalidade e a faz divina. A nossa historia moral se passou intimamente com ella. Do seu mysterio vieram os phantasmas, os deuses da nossa alma primitiva e de sempre... Do seu inconsciente nasceu o nosso consciente. Ora, por essa suprema indentificação, devemos fazer da Terra o centro espiritual da nossa actividade. O seu culto é um exercício de amor, que reconhece que o homem e a Terra são um só. Façamos dessa comprehensão uma expressão esthetica do nosso espirito, e será uma victoria sobre o terror. O maior repouso da natureza humana é a sua identificação com a natureza universal. Ser um com o Universo! E o conhecimento que leva a esse repouso é o maior dos conhecimentos. A outra categoria em que o homem deve exercer a sua actividade espiritual, é a da ligação com os outros homens. Esse mandamento não é inspirado por nenhuma razão de ordem religiosa, por nenhum mysticismo de piedade ou de sympathia, como no christianismo ou no buddhismo. Elle é a deducção lógica da própria concepção philosophica da unidade do Todo e uma das bases da esthetica da vida. A aspiração fundamental do espirito humano, a sua essência, é a sua fusão no Universo. Se o homem diz: « eu penso, logo eu sou », affirmando" que elle é um ser, não se deve concluir desse conceito: que a sua individualidade se desprende das outras cousas; ao contrario, é uma confirmação de que elle é um com tudo mais, e toda a natureza vive nelle, como elle em toda a natureza. Não ha nada individual ou particular, tudo é universal, e o próprio pensamento é funcção dessa universalidade. Ora, se essa communhão é essencial entre os seres em que se fraccionou a illusão do Universo, ella não pôde deixar de inspirar a sociedade dos homens, isto é, de todos os seres que percebem na sua consciência a grande inconsciencia metaphysica do Todo, a idealidade do Tempo, o fluxo e o refluxo apparente da vida e da morte. E nessa solidariedade profunda as causas de separação entre os homens, futil distincção para aquelles que vivem na trágica amargura das separações, que é a nossa distincção individual do Todo infinito, seriam extinctas separações creadas pelo Terror, mesquinhos ódios humanos^ que só servem para augmentar a immensa tristeza dos nossos espíritos. A concepção esthetica do Universo, dando ao homem a luminosa comprehensão da sua unidade com o Todo infinito, eliminaria o Terror da vida humana, basearia a sociabilidade na Alegria, que, segundo percebeu Spinoza, é o bem supremo. E a alegria, que é a perfeição do espirito humano, só se pôde realisar em sua plenitude pela interpretação do Universo como um magnífico espectaculo e nós mesmos como puros, simples e fugazes elementos estheticos da indefinivel vida universal.

A PERPETUA DOR E A PERPETUA ALEGRIA

Aquelle que comprehende o Universo como uma dualidade de alma e corpo, de espirito e matéria, de creador e creatura, vive na perpetua dôr.

Aquelle que vê toda a natureza universal terminada no seu próprio ser, vive na perpetua dôr.

Aquelle que não percebe o mysterio da Unidade infinita do Todo, que ignora esse segredo supremo da existência e limita o seu conhecimento aos factos positivos da matéria, vive na perpetua dôr...

Aquelle que eliminou o terror do cosmos e faz do anniquilamento da vida uma razão de belleza, vive na perpetua alegria...

Aquelle que transforma em belleza todas as emoções, sejam de melancolia, de tristeza, prazer ou dôr, vive na perpetua alegria.

Aquelle que se sente um com o Universo infinito e para quem todas as expressões da vida universal são suas próprias sensações, vive na perpetua alegria...

Aquelle que encontra o repouso na sua absorpção no cosmos, vive na perpetua alegria. Beatus quia in natura unus.

Aquelle que pelas sensações vagas da fôrma, da côr e do som, se transporta ao sentimento universal e se funde no Todo infinito, vive na perpetua alegria.

Aquelle que sabe que o seu ser não é permanente, mas uma simples apparição do Nada, que se transforma indefinidamente, vive na perpetua alegria.

Aquelle que sabe ser a sua consciência uma illusão, que não tardará a voltar á inconsciencia universal, e faz da sua existência o jogo maravilhoso dessa illusão, vive na perpetua alegria... •

Aquelle que se resigna á fatalidade cósmica, que se incorpora á Terra e ahi busca a longínqua e perenne raiz da sua vida; aquelle que se liga docemente aos outros seres, seus fugazes companheiros na illusão universal, que se vão todos abysmando no Nada, vive na perpetua alegria.

Aquelle que une o seu ser a outro ser nessa profunda e mystica união dos sentidos e das emoções, dos espíritos e dos corpos, e na sublime fusão do Amor realisa a universal unidade, esse vive na perpetua alegria...

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