Pragmatismo Brasileiro, Quadro Nacional e Língua Portugueza A Esthetica da Vida · Capítulo 12 de 14
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Pragmatismo Brasileiro, Quadro Nacional e Língua Portugueza

PRAGMATISMO BRASILEIRO

Depois de ter sido uma nação paradoxalmente clássica, movida pelo humanismo e pela imaginação litteraria, eis o Brasil lançado no extremo da opposição á cultura intellectual. Ha um pragmatismo que procura supplantar todo o intellectualismo. Ha uma philosophia de acção pratica, que dirige a energia brasileira para os trabalhos physicos da posse da terra e para a accumulação da riqueza. Nesse sentido o Brasil se americanisa e se desintegra do cosmos latino. Não ha maior perigo para a personalidade brasileira do que essa trajectoria animal da vida. O nosso encanto estaria em ser uma nação americana com espiritualidade latina. O excesso de cultura seria um grande bem para um paiz que só pela sciencia pôde valorisar a sua natureza. Este momento do Brasil reclama o máximo de instnicção e de sciencia, que liberte os homens da barbaria americana e da servidão européa. Os possuidores1 de tão profundas, mas adormecidas riquezas, devem disputar pela intelligencia a verdadeira propriedade e o livre goso dessas infinitas forças de acção material. O neo-pragmatismo brasileiro seria o propulsor do nacionalsmo, se a sua base fosse a cultura scientifica. O grande fim da vida é conhecer. O pragmatismo pôde no Brasil fazer do conhecimento a alavanca do domínio e da posse da natureza.

O QUADRO NACIONAL

Reforcemos o quadro da nação. Não permitíamos que dentro delle reine a alma de outros povos e a nossa própria alma seja expulsa e, exilada da terra que lhe creou a expressão ainda incerta, mas ardente e luminosa. Emquanto não tivermos, sólidas, as fronteiras moraes da nação, emquanto o quadro que encerra a pátria não fôr rijo e inquebrantavel, fechemos a porta á invasão, defendamos a frágil muralha, solidifiquemos a argamassa, e seja tudo impenetrável ao sentimento extrangeiro. A peior invasão é a que se infiltra no sentimento, a que transforma a alma, transmuda a poesia secreta da sensibilidade, dá outro rythmo ao sonho, transfigura o pensamento. Ha um destino geographico na terra brasileira, ha o impulso do progresso material para o qual o extrangeiro é útil. Mas a alma de uma nação não está num pé de café. Cuidado, economistas, industriaes, negociantes, gentes traficantes, pelo vosso espirito de compromisso não sois os zeladores da nossa personalidade. E se nesse amálgama de sangue e corpos disparatados, nessa confusão de desejos e realisações, não formos os mais fortes, a terra, onde foi o nosso Brasil, será mais rica, mais prospera, espantará o mundo com os seus prodígios industriaes, porém já não seremos nós... Tudo se romperá no curso do tempo. O futuro não entenderá mais o passado...

O NOSSO ESTYLO

Q escriptor da língua portugueza julga que todo o « estylo » está na palavra. Essencialmentejverbal, elle dá ás palavras uma extensão exaggerada e um^ valor excessivo. Assim, só pôde exprimir "o seu pensamento vasando-o todo nas palavras, que formam phrases intermináveis, sonoras e muitas vezes inúteis e desconnexas. Ignora a suprema arte do silencio, que tem o valor da palavra, como na musica a pausa vale a nota. Esse escriptor não sabe que, além da arte expressa, exterior, aquella que se vê ou que se ouve, ha a arte interior, que é apenas indicada pela palavra, pelo som, pela linha e pela côr. O traço na pintura deve evocar também o que não foi pintado e é a emoção secreta do artista, aquella que elle reserva para o seu sonho e o seu êxtase intimo... O esculptor indica no movimento da fôrma o que se vae prolongar, o que nós solicitamos, que elle magnificou e não quiz dizer... Na musica é ainda a tonalidade mysteriosa que apenas se revela no som enunciado, que nos faz imaginar e fundir, pelo vago indefinido da sua sensação, no Universo. Ha sempre em arte esse segredo do artista, que é como a essência da sua obra de arte. Ha alguma cousa que não foi revelada, que está antes e nos leva para o que está depois. O que a arte exprime claramente, é como uma ponte entre dous mysterios, o que vive profundamente na alma do artista e o que vem depois da obra de arte e não acaba nunca. Para o escriptor brasileiro não existe esse mysterio, e se elle o sente inconscientemente, o seu primeiro trabalho é eliminal-o e no fluxo das palavras expandir-se totalmente. Vejamos nessa manifestação do estylo brasileiro uma separação essencial entre o escriptor e a matéria universal. O estylo deve ser uma grande harmonia do mundo sensível. O Brasileiro está separado desse mundo e procura illudir a separação pelas palavras, que muitas vezes não são a alma das cousas e soam disparatadas no ambiente universal. Falta ao escriptor brasileiro aquella intimidade com o Todo infinito, que se exprime pela arte. Elle não é essencialmente artista. O escriptor artista deve sentir toda a natureza como arte. Não ha assumpto que não seja um aspecto do mundo sensível, e a sensibilidade do escriptor deve ser completa. Elle sentirá-o mundo como um maravilhoso espectaculo de fôrmas, de cores e de sons, e cada palavra, cada phrase exprimirá essa atmosphera transcendental, que será adivinhada, suggerida, e nos transmittirá a emoção suprema. Só pela intensa e profunda vibração de todas as moléculas do Universo em nós é que se faz a transformação da nossa própria natureza em uma expressão de arte. O escriptor não possuirá jamais o seu assumpto totalmente, se lhe faltarem esses dons de artista. Quando o pintor traça uma linha e exprime a côr, sente-se que o mundo se dilata, não só em fôrmas e cores, mas também em sons e sonhos. Assim, o artista da palavra na phrase, na pausa ou no silencio deve fazer vibrar o Universo inteiro como côr, forma, som e pensamento. Deve saber que no universo tudo se liga, que nada é isolado e independente. A palavra deve reflectir uma unidade de sensações e o pensamento deve ser integral. Todo o assumpto, por mais indifferente e singular que pareça, interessa ao conjunto das emoções humanas, e o escriptor que não tem essa emoção inconsciente ou essa comprehensão esthetica, não é completo e parecerá sempre limitado e inferior. Não é a lingua artista, ou Vécriture artiste dos francezes, que se insinua nessa funcção artista do escriptor. Este pôde usar da escripta artista, e a sua phrase, o seu estylo ser deficiente e não exprimir a emoção total do Universo. O que se procura é pela concepção esthetica suscitar o verdadeiro escriptor, aquelle que domine, não somente o seu assumpto, mas também a matéria universal, e exprima a sua arte intima, fazendo pela divina mistura da palavra e do silencio perceber e continuar o mysterio da vida infinita.

O TYPO BRASILEIRO

Formado n'um meio physico ardente, abrasado de sol, o homem brasileiro é magro, secco, musculoso, porém sempre prompto a uma incessante lucta contra uma natureza pujante, que o quer dominar, avassallar. E' o velho typo do caçador, do homem primitivo, que erra pela floresta, que se sente perseguido pelas feras e vive aventurosamente, alimentando-se sobriamente de fructos, raízes e caça. Os seus antepassados europeus foram-se adaptando ao meio physico e pouco a pouco perdendo no curso das gerações a corpulencia planturosa ou a placidez resignada dos bois, para se tornarem, nos seus descendentes mestiços, o homem feito de aço, o animal de canella fina, que deve varar florestas, atravessar rios a nado, escalar montanhas e caminhar por longas, infinitas e áridas chapadas desertas. Esse typo de olhos faiscantes e vibrações acceleradas persiste no homem brasileiro moderno, civilisado, sempre exaltado, ardente, volúvel e sensual, e cujo esforço é um arranco, um ímpeto, que logo se esvaece e é substituído pela apathia, pelo desinteresse, pela resignação fatalista dos homens da natureza.

O PARADOXO BRASILEIRO

O Brasil geographicamente tem um grande destino econômico no mundo. As matérias primas do Brasil não são ainda de ordem intellectual. Interessam á industria dos outros paizes, para os quaes o Brasil é um productor e um fornecedor. Tal nação devia ser dirigida sobretudo por homens de espirito industrial, homens de realisação das forças e das riquezas naturaes do paiz. Em vez d'isto, os dirigentes brasileiros são homens fora da realidade, homens de educação litteraria, de espirito clássico, alheios completamente aos assumptos vitaes da nação, áquelles que encerram o seu destino humano e são preponderantes para o seu progresso. Eis o paradoxo do governo brasileiro: homens não preparados para a funcção de governar uma nação de destino industrial governam essa nação. Minas-Geraes é o paradoxo máximo. O solo dessa região é de uma prodigiosa riqueza econômica; os homens da política de Minas são grammaticos, poetas e latinistas, e os melhores são juristas clássicos. S. Paulo, felizmente, é dirigido por uma elite de fazendeiros, agricultores e industriaes. Os homens antigos não são extranhos á industria, e essa perfeita conformidade entre a capacidade, a competência dos governantes e o destino social do Estado, é que mantém o progresso de S. Paulo, o menos paradoxal dos Estados brasileiros.

MEDITAÇÃO SOBRE A LÍNGUA PORTUGUEZA

í A perfeição é o signal do começo da deca dencia e da morte. Na arte, na litteratura, como na natureza, a observação nos demonstra a verdade desta lei da evolução universal. A esculptura começou a declinar quando attingiu â perfeição de Phidias. Praxiteles é um admirável esculptor de perfeição, mas a força creadora estava extincta. A poesia latina morreu com Virgílio, Horacio e Ovidio, seus perfeitos mestres. A poesia franceza chegou ao seu apogeo na forma raciniana. Depois, mesmo com Hugo, Musset, Vigny e Lamartine, nada renovou. A lingua estava perfeita e definitiva. Só mais tarde, com Baudelaire e Mallarmé, tomou nova feição. Em Portugal, a lingua, que foi pedregosa, dura e difficil, se foi apurando até dar-lhe Camões a perfeição. Depois, a poesia seguiu o rythmo camoneano e nada foi creado. Garrett é um romântico amaneirado. A prosa protugueza também se fixou em João de Barros e Vieira; Herculano foi um perfeito escriptor dentro da fôrma clássica. Eça de Queiroz teve a felicidade de trazer á litteratura portugueza dons de vida. Foi um artista que, ignorando a lingua, escreveu de um modo encan tador, n'uma lingua espontânea e corrompida, com certa liberdade, por lhe serem extranhos os moldes clássicos. E assim os principaes defeitos do escriptor que é Eça de Queiroz, contribuíram para avivacidade e a magia dos seus livros. No Brasil a situação da língua favorece o gênio creador. A perfeição ahi é difficil de ser attingida. Quem escreve na língua de Camões e Vieira e mesmo de Herculano ou Camillo, escreve uma lingua affectada e postiça. A lingua exprime a grande desordem da formação nacional. Nesse tumultuoso rio, varias correntes se despejam e as águas são turvas, porém violentas e bravias e ás vezes de uma livre e grandiosa belleza. A vida se desenvolve em toda a natureza. Cada instante é uma nova affirmação do espirito humano sobre a infinita matéria, e as relações se manifestam na phantasia das expressões felizes, novas, alegres de nascer... De toda a parte chegam numerosas palavras, que se impõem pela violência, ou se affeiçoam geitosas á atmosphera. Tudo é uma grande alluvião, e a terra é movediça, e o espirito alli sopra livre e fecundo. Vindas da própria natureza maravilhosa, vindas da vida humana que alli se desenvolve, ou vindas de longe, de remotas paragens, encanto de uns, espanto de outros, as expressões da linguagem luctam, se repellem e afinal se cruzam por instantes, até que novas expressões, novas fôrmas, não cheguem e não perturbem violentamente a plácida corrente que se havia formado... E com a lingua assim vae o estylo, movediço, tortuoso, sem regras, n'uma desordem que irrita, mas que é um signal de infância ou de perpetua renovação. E ainda nada se fixou; as velhas fôrmas portuguezas são absurdas na terra incoherente e paradoxal do Brasil. Ha uma liberdade suprema para se revelar o gênio litterario. E ha um immenso esforço para attingir á perfeição. E' o delicioso momento de uma litteratura, o maravilhoso instante de creação em que se lucta por fabricar de tantas matérias bellas e informes a obra-prima. E emquanto as raças trouxerem as suas expressões próprias, emquanto do solo e da civilisação que se fôrma, a linguagem for inquieta, tumultuosa, o esforço será magnífico, e soberbo o espectaculo da creação litteraria; mas, quando naquelle mundo extranho tudo se fixar, e uma só raça, uma só nação, uma só alma alli for definitiva, e grande, e majestosa, e serena, a perfeição será attingida e assistiremos ao começo da morte!

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