Metaphysica Brasileira e A Imaginação Brasileira A Esthetica da Vida · Capítulo 6 de 14
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Metaphysica Brasileira e A Imaginação Brasileira

METAPHYSICA BRASILEIRA

A IMAGINAÇÃO BRASILEIRA

Ninguém pôde explicar a alma das raças, pois tudo é mysterioso e incerto na psychologia das conectividades. Mas, ainda assim, póde-se perceber que em cada povo ha um traço característico que, embora enigmático, é persistente, vem do passado e será o mesmo no futuro, através das peregrinações do sangue e do espirito. O povo romano, apezar de tudo que absorveu e assimilou, apezar da sua avassalladora expansão no mundo, não perdeu jamais aquella expressão primitiva do egoísmo, que permanece como o segredo da sua civilisação. No povo inglez o traço característico é a energia, que de individual se tornou collectiva, a energia de Robinson Crusoé que, pertinaz, indomável, fez a conquista da terra. O traço definitivo da civilisação franceza é a intelligencia, que determina a razão, a ordem, a clareza e o gosto. Na Itafia seria o sensualismo, do qual nasceu a exaltação artística, a política realista, a Renascença e o Estado. A Allemanha é possuída desse entranhado espirito metaphysico que se manifesta no pensamento, na abstracção e até na disciplina. As almas extaticas de Santa-Theresa e de Don Quichote, a ingenuidade de Sancho Pansa são expressões da fé transfigurada e mortal, em que se consumiu a Hespanha. No Brasil o traço característico collectivo è a imaginação. Não é a faculdade de idealisar, nem a creação da vida pela expressão esthetica, nem o predomínio do pensamento; é antes a illusão que vem da representação do Universo, o estado de magia, em que a realidade se esváe e se transforma em imagem. As raizes longínquas dessa imaginação achamse na alma das raças differentes, que se encontraram no prodígio da natureza tropical. Cada povo ahi trouxe a sua melancolia. Cada homem carregou no seu espirito o terror de vários deuses, a angustia das lembranças do passado perdido para sempre, e se encheu da indefinivel inquietação na terra extranha. Assim desabrochou essa sensibilidade implacável, que engrandece e deforma as cousas, que exalta e deprime o espirito, que traduz as ancias e os desejos, fonte turva de poesia e religião, por onde aspiramos a posse do Infinito, para logo nos perdermos no nirvana da inacção e do sonho. Os nossos antepassados europeus foram os portuguezes, e de todas as nações latinas Portugal é a mais indefinivel. Não ha um conceito capaz de exprimir o singular contraste de toda a alma portugueza, que oscilla incertamente entre o sentimento realista e a miragem. Os lusos foram talvez os mais bisonhos dos bárbaros latinos. Jamais attingiram á claridade do gaulez, nem ao mysticismo agudo do ibero, nem áquella explosão de animalidade sobrenatural, que é o fundo da sensibilidade esthetica italiana. A original espessura os prendeu á terra e formou-lhes o espirito realista. A alma lhes foi humilde; ligaram-se estreitamente ás cousas, trabalharam e amaram o solo; e quando lhes chegou o instante da arte, não tiveram a força de crear, de dar ao mundo uma sensibilidade nova, deram fôrma, e tornaram-se os executores perfeitos das idéas de outros. E' singular que tão intenso realismo floresça ao lado de uma grande tristeza. Roma transmittiu ao espirito latino uma melancolia, que os gregos não conheceram. Ou fosse pela sua dilatação no mundo, pelo próprio frêmito da subjugação dos outros povos, ou fosse pela confluência de tantas raças, de tantos deuses extranhos, ou fosse pela consciência do formidável peso de um destino ainda não egualado, é certo que no solido e immenso edifício,de egoísmo romano a argamassa foi humedecida pelas mysteriosas lagrimas das cousas, e a infinita solidão dos espíritos se encheu do pavor da noite eterna... Eterna Nox! A essa melancolia antiga juntou-se na alma dos portuguezes a que lhes deu o oceano. O mar lhes foi uma terrível tentação^ Por elle attingiram ao máximo da energia nacional e por elle se perderam para sempre... Espalharam-se pelo mundo, tiveram fama e gloria, e soldados broncos e marinheiros rudes um dia se partiram das suas praias, não mais tornaram, desappareram no infinito dos mares... e nos olhos, doces e tristes, das mulheres portuguezes vê-se ainda a saudade das caravellas. Os outros primitivos povoadores do solo brasileiro foram os africanos, que os portuguezes ahi trouxeram para com elles vencer a natureza áspera e inquíetadora. O espirito do negro, rudimentar e informe, como que permanece em perpetua infantilidade. A bruma de uma eterna illusão o envolve, e o prodigioso dom de mentir é a manifestação dessa falsa representação das cousas, da allucinação, que vêm do espectaculo do mundo, do eterno espanto deante do mysterio. A mentira engana o medo, e inventar, imaginar é uma voluptuosidade para esses espritiros grosseiros, fracos e apavorados. A outra raça selvagem, a raça indígena da terra americana, que é um dos elementos bárbaros dessa civilisação, transmittiu aos descendentes aquelle pavor que está no inicio das relações do homem e do universo. E' a metaphysica do • terror, que gera na consciência a illusão representativa das cousas e enche de phantasmas, de imagens, o espaço entre o espirito humano e a natureza. A natureza é uma prodigiosa magia. E no Brasil ella mantém nas almas um perpetuo estado de deslumbramento e de êxtase. E' a eterna feiticeira. Tudo é um infinito e esmagador espectaculo, e os personagens do drama do sortilegio são a luz que dá o ouro aos semblantes das cousas, as fôrmas extravagantes, as cores que assombram, o mar immenso, os rios volumosos, as planícies cheias da melancolia do deserto, a floresta invasora, tenaz, as arvores sussurrantes, castigadas pelos ventos allucinados... E o espirito do homem desvaira... Elle não se sente em communhão com a natureza. A imaginação faz surgir uma mythologia seivagem, que floresce em seres phantasticos, deuses e lendas. Ha um grande enigma no prestigio da natureza sobre o homem, e quasi sempre esse é a imagem espiritual do meio physico em que se formou e viveu despercebido. Se elle é um homem do mar, é como um rochedo meditabundo, calado. Se é um camponez, a sua intima representação é a da arvore, immovel, silente, fecundo. Se é um mineiro, participa da essência mysteriosa da terra. No Brasil, o espirito do homem rude, que é o mais significativo, é a passagem moral, o reflexo da esplendida e desordenada matta tropical. Ha nelle uma floresta de mythos. São lendas de todas as partes que ahi se encontram, lendas do Mediterrâneo harmonioso, da incerta Islândia, dos steppes, das munidas noruegas, do Oriente inverosimil, deformadas em longas peregrinações e entrelaçadas ás lendas toscas, grosseiras, vindas na invasão negra, e áquellas que nascem nas selvas americanas, mythos physicos da natureza, formando um só e intricado todo, mysterioso e extravagante, que é a alma do homem brasileiro. E para esta os personagens fabulosos têm uma vida real, são tangíveis e activos, sejam as bellas e enigmáticas mães d'agua ou os errantes e tenebrosos curupiras. E o objectivismo mythologico é tão intenso nos espíritos ainda primitivos que não se pôde precisar onde começa para elles a realidade objectiva e onde acaba o sonho na floresta dos mythos. A historia social do Brasil é a historia dessa imaginação. Durante dous secules a grande fescinação foi a do ouro. Desenrolou-se em plena natureza o drama de uma ardente e esfalfada~ cubiça. O paiz foi todo varado, as mattas devastadas, as montanhas desvendadas e estripadas, os campos fendidos, e as feridas da terra, retalhada e escavada para dar a pepita de ouro, se encheram de sangue humano, e o homem cresceu em energia, e o seu poder diabólico de destruir foi uma allucinação... Mas dessa fúria foi nascendo a civilisação, amassada no sangue e na lama sobre a Terra maravilhosa. O ouro foi a miragem, depois o poder, a força, a primeira revelação brasileira ao mundo cupido e deslumbrado. Foi o ponto de partida de outras miragens, e tudo dahi em deante é uma illusão dourada para o mesmo homem, que antes era subjugado e agora se torna destemido, se colloca em desafio deante da natureza bruta e vae por arrancos devastando e creando. A grande adversaria pôde oppôr-lhe a tenacidade e a astucia de uma defesa sem egual em toda a historia da civilisação. Elle a combate encarniçadamente, conhece-lhe os segredos, defende-se das suas insidias, e pelo ferro e pelo fogo doma-a, faz delia a sua serva, ordena-lhe que o alimente, enriqueça e encante. Foi uma submissão, mas não o apaziguamento: a lucta se mantém sempre imminente, o homem está em desafio e a natureza em ameaça. A vida é uma perpetua lucta, uma anciã insaciável de descobrimentos contínuos, um infatigavel movimento de conquista, a marcha para o interior do paiz, uma vaga inquietação, uma instabilidade perturbadora, nessas immigrações incessantes das próprias gentes da terra, que errantes vão para além á busca da riqueza, n'uma corrida accelerada para a morte, que as espreita nas florestas traiçoeiras e nas pérfidas águas dos rios sinistros. Que importa? Outros homens virão para o triumpho, fascinados, ardentes e ávidos, — perpétuos escravos da imaginação... Mas, por um capricho commum do sentimento, essa própria Terra, que o brasileiro combate e martyrisa, se lhe torna objecto de veneração e amor. Ha uma fatalidade no temperamento da raça para a exaltação. O prestigio da grandeza do território enleva e envaidece o brasileiro. Elle sente-se o homem de uma grande terra e sabe que essa terra é bella. E nessa seducção, nessa dominação da natureza, está a fonte do providencialismo, que exerce no espirito brasileiro a faculdade motora da sua actividade e também de um doce descuido. O brasileiro imagina que tão maravilhosa terra não pôde deixar de ter um esplendido destino, e vae para adeante impellido pela fatalidade, na barca da phantasia, certo de representar no mundo o papel que crê estar-lhe reservado. E também nesse mysticismo physico da grandeza da terra estão as raizes do exaltado patriotismo, que se vae transmittindo ás gerações e dá logo á aurora da infância essa illusão nacional, que enche a creança brasileira do orgulho da luz, do céo, das estrellas e das outras expressões da natureza pátria. As menores cousas se engrandecem nessa miragem infantil. Para uma creança brasileira tudo da sua terra é superior a tudo das outras terras. O Brasil é o paiz dos maiores rios do mundo, da mais bella bahia, e o Pão de Assucar a mais elevada montanha do globo. E quando a creança percebe o seu erro, chora amargamente essa decepção infligida ao seu patriotismo. Mas a illusão da grandeza nacional lhe persistirá fecunda no espirito. E, mais tarde,fielá miragem, a creança se tornará o homem ávido de alargar ainda mais a immensidade da terra brasileira.

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