A Esthetica do Universo
A ESTHETICA DO UNIVERSO
Se o facto transcendente do espirito humano é o sentimento da unidade infinita do Universonão será por uma concepção exclusivamente materialista, baseada na sciencia, que chegaremos a formar uma idéa do Todo. A sciencia, insistimos, decompõe e fragmenta o Universo, e estuda-o nos seus phenornenos. Ora, pelo methodo experimental, que é omethodo scientifico, jamais se chegará a um conceito do Todo infinito. A esse mfethodo deve-se aluar o processo especulativo do raciocínio, que no estado actual dos nossos conhecimentos possa interpretar a natureza e suscitar no nosso espirito uma idéa do cosmos, que será sempre relativa. O enigma irreductivel para o espirito humano é o da formação do Universo. Podemos suppôr uma substancia universal, única, commum a todos os seres, cujas formações organicaâ seriam a sua simples representação. O enigma continuaria, porque não saberíamos qual é a essência dessa substancia. A composição primordial physica ou chimica da substancia universal nos escapa; somos obrigados pela relatividade da nossa intelligencia a compréhender essa substancia como uma unidade, que se nos apresenta nos seus phenomenos, dos quaes são a energia e a matéria os mais remotos. Assim enunciados, elles têm a apparencia de uma permanente dualidade, quando na sua realidade transcendental são uma unidade absoluta. Não ha matéria sem energia nem energia sem matéria. Não se pôde conceber um desses phenomenos da substancia universal distinctamente do outro, e já é um erro enuncial-os em duas palavras, como se fossem dous modos do Ser. A physica pôde imaginar a desmaterialisação da matéria e a degradação da energia, sem que dessas experiências se deduza a hypothese de um Universo immaterial, exgottavel um dia, isto é, a morte do Universo. Em primeiro logar, a expressão matéria deve ser entendida na sua accepção absoluta, e a physica a comprehende na accepção relativa. O que se denomina vulgarmente e scientificamente matéria, póde-se desmaterialisar pela radio-actívidade e, tornar-se imponderável, segundo as balanças actuaes. O Universo não deixa por isso de ser concebido
« materialmente ». Assim o é, porque" é, porque o nosso pensamento é material e não pôde imaginar nada que não seja phenomeno material, nem mesmo um principio absoluto creador, um Deus que abusivamente se chama espirito. Em segundo logar, para se admittir que a matéria se extinga, é preciso suppôr-se que a matéria é creada. A physica explicará que a matéria se desmaterialisa, os átomos se extinguem, e tudo se absorve d'onde tudo'é recreado. Sobre a natureza do ether o mysterio é total. Já se o imaginou como « solido elástico», que enche todo o espaço. Para distinguil-o da matéria, já se declarou ser elle o imponderável, o corpo sem densidade, livre das leis da gravitação; já se o phantasiou em estado deTepouso absoluto. Nada, porém, o explica, e nem por elle se explica a essência do Universo. Ao nosso entendimento repugna admittir um phenomeno do universo privado do movimento. Se o ether é o elemento creador, se vibra, o movimento existe, e o próprio movimento, effeito e causa da vibração, indica que o ether imponderável se confunde com a energia. Todavia, essa imponderabilidade não é absoluta, mas relativa ao nosso poder scientifico. Por menos denso que elle seja, tem uma densidade imaginaria. Se, para explicar o movimento universal, se deve suppôr, como quer a sciencia physica, o ether sujeito a uma compressão, d'onde provem essa força que comprime e determina o ether? A unidade do Universo se impõe ao nosso espirito. Não se pôde imaginar o ether em repouso absoluto. Seria uma volta á concepção de Parmenides, que, negando o eterno movimento, ideou uma substancia final, que no seu pleno desenvolvimento não tem necessidade de movimento. O eterno repouso seria a base de uma concepção theologica da creação universal. A idéa de Deus é análoga á do eterno repouso, contrario ao eterno movimento. A.nossa intelligencia repelle essa mechanicá espiritualistà; para ella ha uma materialisação permanente do Universo, uma materialisação da matéria desmaterialisavel. A essência do Universo, porém, permanece enigmática, pois o ether, ao qual se tentou reduzil-a, é uma simples hypothese universal, que não explica a substancia. Na impossibilidade de conhecer a formação do Universo, resta-nos a certeza de que os phenomenos se encadeiam e se ligam por um determinismo absoluto, Assim deve raciocinar o sábio que, segundo a aflirmação do mathematico, não pôde deixar de ser determinista, pois o fim da sciencia é prever, e desde o momento que a previsão não é mais possível ou está fora das fronteiras da sciencia, o sábio deixa de pensar e agir como sábio. Outro mathematico objecta que a questão está em.saber se essa necessidade é absoluta no sentido da verdade mathematica, ou se se pôde admittir uma fracção de contingência, por infinitesimal que seja. Explicações « baseadas na theoria das probabilidades », em particular as explicações «estatísticas » dos phenomenos physicos levariam, segundo esta argúcia mathematica, a admittir-se que a « necessidade » de um phenomeno global não é incompatível com a «liberdade » do phenomeno parcial, d'onde a hypothese de uma Uberdade molecular. Esse argumento « estatístico »dos phenomenos parciaes não poderia prevalecer, mesmo se os seus dados fossem apparenteinfimamente exactos. Ou o Universo só pôde ser comprehendido materialmente, como vimos, e tudo nelle se encadeia numa necessidade absoluta de causas e effeitos, ou ha liberdade molecular, livre arbitro de uma parcella, que importaria em livre arbitro geral, e o Universo seria concebido espiritualmente, o que é absurdo para a nossa natureza material. Esse raciocínio serve de verdade absoluta na ausência da impossível certeza mathematica. Eis o espirito humano encadeiado á fatalidadedade universal. A intelligencia se desespera neste Universo, que ella não explica, e que é a sua perpetua allucinação. Desde que não ha uma liberdade possível na causalidade inexorável, desde que não se encontra o ponto de apoio no espaço ideal para a alavanca, que dê começo á vida phenomenal; desde que é impossível comprovar o principio e o fim das cousas, toda a concepção rigorosamente materialista ou espiritualista do Universo é absurda. Só resta desse Universo, no nosso espirito, uma pura idealidade, e o sentimento da sua unidade infinita se impõe á nossa consciência, como a nossa razão de ser. Elle nos liga a todos os phenomenos universaes e explica a nossa existência como uma apparencia phenomenal da substancia. E o Universo se projecta no nosso espirito, como uma imagem, um espectaculo. Assim, toda a idéa que se tenha do Universo, sejascientifica, mathematica ou biológica, seja idealista ou religiosa, é espectacular. Pôde-se affirmar que a funcção essencial do espirito humano é a funcção esthetica, e que só esta explica o Universo a nós mesmos. Pela concepção mathematica o Universo é explicado por uma série de equações que se desenvolvem infinitamente pela concepção naturalista, o Universo é uma série de fôrmas sem fim; em ambas ha uma série de imagens, que tentam reflectir a idealidade universal. Não ha um systema philosophico que se subtraia á fatalidade da concepção esthetica. Todos os systemas de philosophia, todas as religiões imaginam o Universo. Nessa própria expressão «imaginar », «figurar »está subentendida aquella funcção essencial do nosso espirito, a funcção esthetica, pois imaginar é crear imagens. Já Aristóteles affirmára que o espirito não pensa sem imagens, e S. Thomaz de Aquino observou que « impossibile est intellectum nisi convertendo se ad phantasmata ». Ora, imagem é fôrma e o Universo será a fôrma ultima, primordial, da nossa imaginação. E' uma idealidade esthetica, que vem da fôrma. As religiões suppõem o Universo como uma successão de fôrmas, um maravilhoso espectaculo fragmentário, que se funde no espirito creador, que é uma unidade esthetica. Da mais rudimentar religião á mais elevada esse processo idealista é o mesmo. Começa-se pelas construcções rudes dos selvagens, cujos deuses têm fôrma humana, cujos mundos são architectonicos, até ás « Cidades de Deus » dos mysticos christãos, ou ás cosmogonias dos agudos buddhistas. Tudo é fôrma, tudo é espectaculo. O systema philosophico que poderia reclamar á prioridade de uma concepção esthetica do Universo, seria o platonismo. Já se disse que a philosophia de Platão é uma philosophia de geometra e de poeta. Pela geometria elle subordina o cosmos ás leis de uma construcção hierarchica e mesmo ao Absoluto. Pela inspiração poética comprehende o Universo como a imagem da belleza eterna e universal. Platão no seu systema das idéas geradoras imagina o Bem como a Idéa suprema. O gênio divino, o demiurgio, que constróe o Universo, copia a Idéa do Bem. A sua creação é uma pura imitação; a realidade não é mais do que a imagem do Absoluto eterno. Assim, esse supremo constructor, Deus, é um artista que tem deante dos olhos o modelo, cuja fôrma transcendental reproduz na sua imitação, que é a obra de arte, o Universo. « Se a vida, ó Sócrates! vale a pena de ser vivida, diz no Banquete a estrangeira de Mantinéa, é no instante em que o homem contempla a belleza em si. » A belleza era si, certamente, não existe, mas resta-nos a suprema aspiração esthetica. A idéa absoluta se extingue no oceano infinito dos fragmentos do Universo... Fica a aspiração, fica o desejo de que tudo seja bello, e nessa aspiração, nesse frêmito, está o segredo da arte, a transformação do Universo em uma esthetica pura.
Assim como para o platonismo, o indivíduo desapparece na espécie, e esta no gênero, até remontar á Idéá; na concepção esthetica do Universo de hoje o nosso ser é absorvido na unidade infinita do Todo, de que é uma apparição phenomenal. A metaphysica moderna rejuvenesce o platonismo, que percebeu desde logo que não se ascenderia ao mundo transcendental pela simples sensação. Só a faculdade intellectual nos levaria a comprehender a unidade do Todo; só a consciência metaphysica poderia explicar o Universo como uma unidade esthetica. Eliminado por ínaccessivel o conhecimento da substancia universal, irrealisada a explicação scientifica da formação do Universo, excluído o preconceito religioso que attribue um finalismo moral ao Todo infinito, a angustia do espirito humano, perdido nas trevas de um mundo absurdo e inexplicável, seria a suprema dôr, se a concepção esthetica do Universo não o viesse integrar no Todo infinito. O Universo só pôde ser sentido, entendido, interpretado como funcção esthetica do nosso espirito. Nessa concepção definitiva, o único desespero é o da nossa separação do Todo. A consciência metaphysica explica o mysterio dessa separação e mostra que a nossa existência é a aspiração inconsciente e absoluta da volta á unidade essencial. Para realisarmos essa bemfazeja fusão, a natureza humana nos offerece meios transcendentes. A nossa vida se subordina á concepção esthetica do Universo, que ficará como a base da perfeição desse mechanismo infinito, de que somos a parte e o todo. O máximo da ascensão espiritual é a não-ascensão, é a unidade. O Universo é uma harmonia total. O espirito humano participará dessa profunda harmonia. Tudo é unido, é a substancia única que vive em tudo, e cada parte imaginaria contem a essência do Todo. A substancia é universal. O ideal é sentir e não comprehender, porque comprehender é uma dualidade que nos separa do Universo. Toda a philosophia vem se terminar em um pragmatismo, que é para muitos a sua única razão de ser. Esse pragmatismo busca tirar da idéa pura uma modalidade da coexistência. A concepção esthetica do Universo, pela sua essência, é estranha a toda a idéa do bem e do mal. Nessa perfeita unidade com o Todo, não se prosegue nenhum fim, tudo é apparencia, tudo é illusão. Os homens buscam na vida contingente a felicidade. Que é a felicidade? E* a Virtude, responde Sócrates pela voz de Platão. E' a Alegria, responde Spinoza e accrescenta:
« A Alegria é a passagem da alma a uma perfeição maior. O que augmenta o ser ou a perfeição da alma lhe é útil e bom, o que diminue o ser» causa-lhe tristeza, é o mal... A vida mais perfeita é aquella em que a alma tem mais alegria, isto é, mais perfeição. » A Alegria! Mas a alegria absoluta é a que vem da concepção esthetica do Universo, base da esthetica da vida. E' a que vem da nossa integração no cosmos é realisa a unidade infinita do ser, a alegria que só pôde ser dada aos estados especiaes de inconsciencia transcendental, a que attingimos pela mystica religião, pela suprema philosophia, pelo vago da arte e pelo sublime amor. E' a plenitude da Unidade, e nella se abysma, para cessar emfim, a tragédia fundamental do espirito humano.