A Nação
A NAÇÃO
Durante a batalha o espirito interrogava: — « Para onde esta incommensuravel guerra levará o mundo? Que mysterio estará reservado a esta frágil terra, açoitada pelo vendavàl da metralha? Que nova ordem social resultará deste amálgama de sangue, de lama, de crimes, de sonhos e de esperanças? Que floração enfeitará de novo a terra estripada, devastada e morta? » Findo o combate, a alma andada interroga ainda e o enigma persiste inquietador. Estamos em plena decomposição de um mundo, absorvido no cataclysmo, e no instante indeciso da nebulosa geradora de outro mundo. O espirito dos homens está perplexo e presagia que toda a construcção dos dirigentes dos povos é vaga e instável, que ha um artificio inspirado nas formulas do passado, que não se adapta á terrível realidade do presente. Nesse nevoeiro, em que se esbate em contornos tão imprecisos o mundo ainda longínquo, vê-se que o homem se apossa do Universo. Para esse homem novo o niundo é a sua propriedade. Elle libertou-se do terror inicial e domina a matéria infinita. Não se curva a nenhuma auctoridade e os dons da terra lhe pertencem. Desencadeiado, ébrio de desejos, leva pelos vastos espaços livres o facho que queima, devasta e illumina. E que mais vês na treva insondavel, ó alma inquieta? « Vejo na densa bruma os sonhos que se juntam depois de longa separação, vejo as esperanças que se reúnem depois de tão duramente afastadas, os espíritos que se entendem nas secretas imagens da mesma lingua, a idealidade collectiva que brilha, vinda do mesmo sangue e do passado immortal. » O homem e a nação, a affirmação do individualismo transcendente e o renascimento do espirito da nacionaldade são as duas forças que recompõem o mundo nesta curva da historia. Vão elies contradizer-se? Oppor-se-á o individualismo ao nacionalsmo? Não persistirão, não se renovarão as nações? Quebrar-se-á tudo o que era o molde do espirito humano? Será o homem sem pátria, o homem universal, a expressão victoriosa da evolução? Por mais estranho que pareça e por mais ousado que seja qualquer affirmação nesta hora turva, os dois princípios não são antagônicos e uma solução espontânea se está desenhando na incorporação definitiva do indivíduo á nação. A idéa de pátria está na raiz do espirito humano. E a tenacidade maravilhosa com que na guerra todos os homens acabam de defendel-a, é uma affirmação da sua presença permanente na idealidade humana e do seu glorioso rejuvenescimento. A nação é o quadro inquebrantavel do indivíduo. O eu individual se completa no eu nacional. No encadeiamento dos seres do mesmo passado coliectivo, que continua a marcha no tempo sem fim, é que está o doce mysterio da vida humana. A Nação é o meu próprio eu no que elle tem de eterno, de profundo, de remoto e de forte, porque ella resume e exprime os sentimentos de almas como a minha, que formam um todo immortal. E as luctas em que o indivíduo se empenha neste momento da posse do mundo, fora das affirmações superiores da nacionalidade, são de ordem secundaria. As questões econômicas mais ameaçadoras não se resolverão fora do conceito da pátria retemperada no fogo e na morte. Assim como a victoria do terceiro estado na Revolução Franceza não entravou o principio da nacionalidade, assim o advento do quarto estado não quebrará as espheras nacionaes e dentro d'ellas se realisarão as transformações da sociedade. Nessa accommodação das idéas absolutas á realidade ineluctavel está a formula do pragmatismo político indispensável á vida humana, de cuja infinita complexidade a ordem é o precipitado essencial. A guerra é a dôr. Ella despertou em nós a consciência do espirito nacional. A participação de Portugal e do Brasil na guerra revelou a essas pátrias a identidade da alma da raça que, apesar de tantas uniões disparatadas, persistiu a mesma, tenaz e immorredoura, através da fuga irreprimível do tempo. A guerra foi mais um traço de união da nacionalidade lusitana dos dois mundos. Pela força do instincto da raça o povo brasileiro e o portuguez se sentiram em communhão de destino na defesa contra o germanismo, que os quiz eliminar das suas pátrias! A guerra foi também a pedra de toque da vitalidade portugueza. Se o organismo ameaçado de morte não tivesse reagido, seria o fim de Portugal. A repulsa instinctiva opposta pela raça portugueza é um admirável testemunho de que Portugal não renunciou á sua immortal missão no desenrolar da historia da humanidade. Elle não fez a grande abdicação, il gran rifiuto, a que se condemnou a Hespanha.
A intervenção de Portugal foi um acto lógico de tradicionalismo nacional. Assim como ha para os seres da escala zoológica uma lei de constância vital, deve haver a mesma lei de vida para (as nações. A lei de constância portugueza se define no espirito de progressão da raça. Todos os organismos tendem a manter as cellulas que os compõem, n'um meio chimicamente idêntico ao seu meio original. A historia da formação da nação portugueza attesta-lhe a lei de constância. Logo que a nação se constituiu ahi « onde a terra acaba e o mar começa », o destino de Portugal ficou traçado. E' um destino de expansão inspirado pelo espirito de progressão nacional. Formou-se uma alliança entre Portugal e o mar, e nessa fusão se encontra o meio vital da nação portugueza. Na fidelidade a esse meio de origem cellular está o segredo da vida do organismo portuguez. Pelo mar, Portugal se estendeu, e antes de partir de Sagres e dobrar o Cabo da Boa Esperança já havia attingido á África e á Ásia. Portugal se torna uma nação universal e ao Brasil transfunde aquelie inicial espirito de progressão. Em um e outro hemispherio a lei de constância da raça portugueza é a mesma. A fatalidade da força vital a impelle á expansão nacional, ao desenvolvámento da pátria pela face da terra. Portugal não pôde como a França fimitar o seu território europeu. A sua alliança primitiva com o oceano fixou-lhe o destino. Se elle não conservar o ambiente desse meio vital, se o quizerem reduzir a viver sem expansão, Portugal definhará, e essa é a principal explicação das crises de desfallecimento no curso da historia. Quando Portugal cessa de desenvolver a sua nacionalidade, a raça portugueza continua no Brasil a sua prodigiosa tarefa de descobrir e conquistar terras, de povoar desertos e incorporar novas regiões, mantendo assim o impulso originário pela força da lei de constância vital. Essa anciã de crescimento não terminou, e ella é a melhor expressão da vida collectiva brasUeira. O mesmo caracter de raça anima os dois povos, a mesma lei de vida funde espiritualmente os dois paizes. A união política de Portugal e do Brasil, conseqüência da unidade moral das duas nações, seria a grande expressão internacional da raça portugueza. Para se justificar essa magnífica aspiração de duas nações da mesma alma e da mesma língua, bastaria o sentimento da defesa do patrimônio portuguez ameaçado ainda ha pouco pela cúbica da Allemanha. E' uma questão essencial para o Brasil.
No século XVII os Brasileiros, já conscientes do destino universal de Portugal, vieram, commandados por Salvador Correia de Sá, expulsar os Holiandezes de Angola. A historia se repetiria: os Brasileiros teriam vindo novamente defender as colônias portuguezas, se Portugal, n'um esplendido esforço, não tivesse repellido por suas próprias mãos a invasão allemã. Trata-se de manter o nosso prestigio commum no Atlântico. E, além dessa consideração, que é dominante na ordem politica, deve-se considerar o grande bem que seria para a immortalidade do pensamento brasileiro a sua incorporação no mundo portuguez. Haveria a universalidade para o espirito brasileiro e maior aspiração humana para os destinos do Brasil. Unido a Portugal, o Brasil se tornaria uma nação européa, realisando a fusão do Oriente e do Occidante sob um só espirito nacional, que seria portuguez, como para outras regiões é inglez ou francez. Para Portugal um grande beneficio politico resultaria da sua união com o Brasil, nação americana, onde a cultura portugueza obteve un rythmo mais accelerado e vivaz. Por toda a parte, no vasto e velho domínio portuguez, sopraria o espirito de mocidade vindo do Brasil, e uma nova vida recomeçaria, mais ardente, mais poderosa e mais bella.
E como essa unidade de dois paizes viria immediatamente terminar com as barreiras fiscaes nos portos portuguezes para a exportação brasileira, Lisboa se tornaria a grande cidade européa, base do commercio brasileiro, e logo uma grande transformação se realisaria na poética metrópole portugueza, chamada a um deslumbrante futuro internacional, epara todo Portugal seria a magia da prosperidade. As razões econômicas que determinam a união de Portugal e do Brasil, foram percebidas pelos Allemães, quando ambicionavam se apossar do sul do Brasil e das colônias portuguezas da África. A Allemanha queria canafisar para Hamburgo os productos do Brasil e de Angola. Sc o Brasil e Portugal se unirem, em vez de uma concorrência entre às duas regiões productoras dos mesmos gêneros e das mesmas matérias primas, se daria fructuosa e fraternal collaboração. E o momento é opportuno para realisarmos esse admirável plano político, porque desta guerra nasceu uma decisiva corrente idealista, que influirá para chamar a sympathia do mundo para o ideal luso-brasileiro. Uma grande força de attracção funde as nacionalidades da mesma lingua e do mesmo pensamento, e desse esplendido movimento de cohesão nacional surge a Polônia renascida, a grande Rumania, a federação yugo-slava e a Bohemia revelada pelos Tcheco-Slovacos. A federação luso-brasileira mais simples, mais fácil, não se fará pela guerra nem pela morte, mas pela intelfigencia e pela vontade de cincoenta milhões de homens, inspirados por um mesmo pensamento nacional, que quer ser eterno. Sendo portuguez, o Brasil não deixará de ser uma nação americana. A originalidade do Brasil é ser o continuador de Portugal, o herdeiro de espiritualidade latina no mundo americano. O privilegio do Brasil é o de fundir duas forças: a que vem do passado no sangue portuguez e a que recebe do ardente meio physico em que se desenvolve essa transplantação da alma latina. Essas duas forças não se excluem, e emquanto a sua fusão se realisa suavemente e a impulsão americana move sem violência as idéas e a sensibilidade portugueza, uma vida ardente inflamma o immenso paiz. A terra brasileira eleva-se n'uma ascenção espiritual. Sente-se em cada pensamento a inspiração de um grande destino. A energia crea a miragem, que por sua vez se torna o animador da vontade. O Brasileiro vive o poema da aspiração. A sua alma illumina-se á idéa de que a pátria deve ser forte e majestosa, como a natureza onde elle se fixou. Na equivalência do mundo moral e do mundo physico, no esforço de adaptar a nação á natureza e de a edificar nas mesmas vastas dimensões desta, acha-se a cellula primordial de toda a ideafidade brasileira, herdeira de Portugal. Concentram-se as energias nesse plano de uma grande nação. Para o realisar, todas as forças espirituaes se applicam na dominação do mundo material. Conquista-se de novo a terra. Uma força indomável leva as gentes da beira do mar aos sertões do interior. Nas florestas do Matto-Grosso, nas chapadas de Goyaz, nos rios do Amazonas, repete-se o cyclo dos descobrimentos. E' a volta dos bandeirantes. Uma alegria physica transforma a antiga melancolia originada do deslumbramento e do pérfido quebranto dos trópicos. O enthusiasmo harmonisa o homem com a natureza. Uma mesma energia anima a força consciente e a inconsciente. Os homens são emfim os filhos da terra, desta terra ideal, que se lhe mostra, na sua predestinação, immortal. Os constructores da pátria a cream á imagem da natureza. Deste sentimento de unidade indissolúvel do homem e da terra surge a reacção contra os povos perturbadores, que tentam separar as almas e alterar a combinação secular da espiritualidade brasileira. Iibertando-se dessa impureza, o Brasil se affirma como o continuador do gênio portuguez no mundo americano, e dá á alma antiga mais enthusiasmo, mais vigor, á America mais claridade na sua intelligencia com o Universo.