Nacionalismo e Communismo A Esthetica da Vida · Capítulo 10 de 14
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Nacionalismo e Communismo

NACIONALISMO E COMMUNISMO

Talvez na historia da humanidade momento algum fosse mais critico do que esse do inverosimil mez de Novembro de 1918. O império allemão, que era a simulação da ordem e o baluarte da dictadura mifitar, se desmoronara; a velha monarchia austríaca, remontando ás origens divinas o prestigio do seu reino na terra, se dissolvera; a decomposição da absurda Rússia asiática se consummára; a democracia, na lucta definitiva entre a America e a Europa Central, vencera o imperialismo; o gênio latino renascera vivaz e altaneiro; o império britannico, poderoso e innumeravel, se affirmára nos mares sem fim e nos continentes disparatados. Jamais a historia assignalára acontecimentos tão consideráveis, enfeixados em tão resumido espaço e realisados em tão breve tempo. Assim fechouse o cyclo de toda a éra moderna, que se iniciara com a apparição perturbadora da America em face do velho mundo,

No primeiro instante esses descalabros e essas auroras trouxeram aos homens do occidente libertado uma dilatação de esperança. Pouco a pouco a complexidade dos problemas políticos e sociaes começou a entravar a anhelada paz do mundo, e o desequilíbrio em que ficou a civilisação, não tardou a mostrar o immenso vácuo que o absolutismo, desapparecendo, abrira deante dos nossos olhos attonitos. Ha longos séculos o mundo se havia habituado a essa formula política, que pela sua resistência excitava o ardor e aguçava a sensibilidade dos temperamentos liberaes. Logo que a opposição desappareceu e nos vimos excessivamente victoriosos, tudo nos pareceu obscuro e extremamente inquietador. Que significa a revolução da Rússia? Para onde vae a Allemanha? Como organisar as nacionalidades que se desmembram da Áustria? Que destino terá o intromettido império turco? E deante dessas interrogações, que se multiplicarão infinitamente, o espirito humano fica perplexo e uma vaga de pessimismo assoberba o mundo. A these dos historiadores pessimistas é simples demais para ser a synthese de tão grave e complexa transformação da sociedade. Assignala o afundamento do velho mundo sem a creação de um mundo novo. E' a catastrophe total da civilisação. Para chegar a essa conclusão apressada, a observação pessimista se prende principalmente á crise da Rússia, que será õ symptoma revelador da catastrophe ou da evolução da civilisação neste chãos em que nos debatemos para a morte ou para a vida. Interroga-se: não é exacto que a revolução russa, depois de pretender realisar rapidamehte o programma da revolução franceza de 48 e de aspirar ao mais generoso humanitarismo político, veiu acabar numa tremenda dictadura mifitar, sob a apparencia de uma improvisada applicação de communismo impraticável? E quanto á revolução na Allemanha, tudo ahi se confunde extranhamente, militarismo e socialismo, aristocracia e democracia, e tal é a força de mystificação da Allemanha nestes últimos cincoenta annos da sua historia que o mundo ainda não se resignou a acreditar na profundeza e na vastidão da sua revolução. O tumulto ganha as nações vencedoras e se torna universal. Uma fúria de guerra ainda agita os espíritos, as coleras nacionaes se misturam e se oppõem aos ódios de classes;por longos annos a paz definitiva parece impossível. O espectaculo das nações é o de uma immensa catastrophe da civilisação, crise de que assistimos apenas ao começo. E a imaginação evoca a agonia do mundo nos séculos que seguiram á queda do império romano... O parallelo histórico, que procura uma semelhança entre a transformação do mundo moderno e a dissolução do império romano, não tem fundamento na realidade dos factos. O império romano foi submerso na invasão dos bárbaros, ao passo que a civilisação Occidental nos nossos dias, herdeira e reconstructora da civliisação greco-latina, repelliu a ameaça dos novos bárbaros, herdeiros dos demolidores da civilisação latina. Os novos bárbaros tentaram impor ao mundo moderno a formula da monarchia militar-feudal, que os bárbaros da antigüidade haviam implantado na Europa. A democracia dos nossos séculos veiu desforrar victoriosamente a formula das velhas democracias gregas. Se a Allemanha tivesse sabido vendecora deste formidável conflicto, então se repetiria em grande parte a catastrophe por que passou o mundo antigo. Não ha duvida, porém, de que essa differença essencial entre as duas crises não elimina as apparencias que apresentam as duas epochas de maior revolução sentimental da humanidade, que foram, na antigüidade, os séculos da decadência de Roma, e na historia contemporânea o período que se conta da Revolução

Franceza até hoje. Antes da investida formidável dos bárbaros contra Roma, « a immensa paz do império romano » não era somente a augusta ordenação politica: era também uma perfeita harmonia moral. Por esse tempo o espirito do christianismo soprou em todos os ângulos da terra, e a solida argamassa da construcção romana começou a se diluir, e uma nova sensibilidade creou um mundo novo. Assim nos tempos modernos a monarchia do direito divino presidia majestaticamente á Europa, quando o espirito da egualdade e da liberdade veiu demolir a realeza feudal. A revolução não se fimitou á ordem política, alastrou-se por toda a esphera da intelligencia humana, pois coincidiu com o facto mais considerável da evolução nestes últimos séculos, a constituição da sciencia biológica, que dissolveu a fé nas origens sobrenaturaes da vida e destruiu a superstição scientifica da hierarchia na natureza fundada no principio religioso. O conflicto entre o paganismo e o christianismo no século iv e a lucta entre a sciencia e a religião no século xix são casos curiosos de parallelismo na historia. Nessas duas epochas a grande preoccupação espiritual é a indagação das origens da vida e a explicação dos mysterios da natureza, Quando as religiões desfallecem, o espirito libertado se vivifica na illimitada descoberta do mundo. O christianismo, substituindo o paganismo, determinou a crise religiosa, que proporcionou a emancipação intellectual dos espíritos da antigüidade. Neste magnífico instante, que é o da passagem de um estado religioso a outro, assignala-se a importância do século iv, e o seu estudo é o mais fecundo da historia antiga, e seguramente um dos maiores gosos intellectuaes dos nossos tempos, ávidos de confrontos e parallelos. Uma esplendida germinação espiritual o identifica com o século xix. Em ambas as epochas o mysticismo mais transcendental se emparelha com o realismo mais restrictamente scientifico. A explicação mathematica do cosmos, sobre a qual repousava a philosophia antiga, se amplia pela contribuição das sciencias naturaes. No século iv apparecem os laboratórios, onde o empirismo começa a ser subordinado ao methodo da investigação positiva. O surto intellectual é tão vivo e intenso que, por uma conclusão retrospectiva, se pôde aflirmar que se a evolução mental da humanidade tivesse se guido a sua trajectoria normalmente, o que só foi afinal realisado no século xix, o teria sido no século iv, se a civilisação não houvesse sido perturbada nos seus fundamentos pela invasão da massa barbara ignara, seguramente o maior cataclysmo da historia. Ao mesmo tempo que a evolução scientifica se accentuava, as divagações mysticas eram mais ardentes. Foi o tempo áureo do occultismo oriental, o momento das heresias excessivas e de uma geral sobre-excitação religiosa. Não é singular que também no século xix, parallelamente ao desenvolvimento das sciencias naturaes e philosophicas, positivas ou pantheistas, mil seitas religiosas borbulhassem e uma anciã de mysterio suscitasse o apparecimento dessa myriade de adivinhos, de alchimistas, de astrologos, de confabuladores de espíritos e de uma philosophia de negação scientifica? Um idêntico sentimento inspira e move a sociedade humana nessas duas crises do pensamento. O que fez o christianismo no século iv, fez a Revolução Franceza no século xix, revolta contra a ordem clássica, reacção contra o passado', affirmação de uma nova sociabilidade. Os espíritos ainda identificados com o passado emigraram, não das suas pátrias, mas do tempo presente, e uma litteratura de reaccionarios luctou por suffocar a nascente litteratura de revoltados. A exaltação moral foi excessiva em ambos esses momentos da historia, e um desgosto da sociedade e uma anciã de volta á natureza se apodera dos homens, inspira o ascetismo religioso dos primitivos christãos, e as thebaidas têm a sua imagem moderna nos phalansterios, nas colônias anarchistas dos nossos tempos. O desequilíbrio social foi completo: instituições, sentimentos, idéas se chocaram n'uma grande desharmonia. A reacção do passado não podia deixar de se manifestar nessas crises, que foram a gestação de um mundo novo. No século iv a reacção teve como seu máximo representante esse enigmático, singular e maravilhoso personagem, que foi o imperador Juliano. No século xix a reacção se manifestou a principio na Santa Alliança, para mais tarde se personificar no extravagante imperador Guilherme. Juliano é um dos typos mais seductores da historia. Tudo nelle interessa, mesmo a sua monstruosa hypocrisia. Pelo seu gênio de sophista, pelo seu temperamente religioso, pela sua capacidade militar, esse grande e falso espirito morre aos 34 annos a morte admirável de um pbilosopho desabusado. A sua reacção contra o christianismo mostra a incomprehensão do seu espirito retrogrado. Restabelecer o antigo império romano, e com este o paganismo, era uma tentativa romântica, destinada ao mais completo mallogro. Pela interpretação retrospectiva do seu caracter reconhece-se na sua mysteriosa personalidade que elle não pertencia mais ao paganismo, de que se fazia o fanático restaurador. O Oriente havia deformado o seu espirito, o christinaismo victorioso havia-lhe soprado na alma as suas virtudes ascéticas. Assim, o imperador pagão restaura o culto dos deuses e extranhamente funda severos mosteiros philosophicos em honra de Aphrodite. E a sua moral é a moral eguafitaria dos christãos, que fizeram da caridade a clava com que modificaram a sensibilidade antiga e revolucionaram o mundo. Em pleno triumpho ascencional do christianismo, a volta ao passado, segundo a formula de Jufiano, era um contrasenso, e por isso eivado como elle estava, e como todos, dos novos sentimentos, o paganismo de Juliano era o christianismo polytheista, como r#ais tarde o catholicismo foi o paganismo monotheista. O imperador Guilherme não é uma figura do mesmo plano intellectual de Juliano. A sua tentativa reaccionaria, porém, accentúa o parallelismo das suas epochas históricas. Como Juliano, elle também foi necessariamente incoherente. Ha nos seus actos uma mistura do espirito antigo e do espirito moderno; representava a aspiração industrial e commercial da Hanse e encarnava o principio divino monarchico-feudal. Essa reacção não podia vingar contra a corrente profunda dos sentimentos da nossa epocha. Pôde haver perturbações mais ou menos graves, verdadeiros cataclysmos sociaes; mas, ao lado da destruição, ha sempre a reconstrucção. O paganismo desappareceu para dar logar ao christianismo, fundando a moral, que facilitou o progresso scientifico e a paz espiritual. Hoje o absolutismo feudal é eliminado pelo surto da democracia. Eis a funcção creadora da grande guerra. Por mais critica que ella seja, não se compara a nossa epocha com o longo e tenebroso período que succedeu ao império romano. Este foi avassallado pelos bárbaros; o mundo moderno repelliu a barbaria, salvando o patrimônio da civilisação. Além dessa inversão das situações, que é capital, é preciso considerar que o desastre da humanidade no século iv foi ter sido o progresso espiritual interrompido pela dominação de bárbaros totalmente incultos. Foi a ignorância dos vencedores do império romano que espalhou a confusão e fez a civilisação greco-latina desnaturar-se na paradoxal edade média. Ora, esse perigo nos será poupado. A cultura se generalisou por tal fôrma que os A bárbaros, quê ameaçam dominar o mundo, são instruídos, e se o governo das nações passasse á dictadura proletária, como já succedeu na Rússia, o progresso scientifico e industrial não seria interrompido. Uma epocha de obscurantismo será impossível mesmo nas convulsões políticas mais extensas e profundas. Podem certas elites ser substituídas por classes menos cultas, pôde haver uma grave deslocação de valores econômicos, uma radical transformação da propriedade e como conseqüência uma revolução política; mas a sciencia, a arte, a industria, emfim o progresso total do espirito humano não será destruído, e isso é o essencial. Todo o patrimônio da intelligencia, tão laboriosamente constituído e accumulado desde a edade média, será respeitado e permanecerá intacto para a dominação da matéria universal, que nos cerca e ainda nos apavora. Pela sciencia, pela arte, pela philosophia, cujo vôo não será retido, seremos um com o Universo. Não havendo uma catastrophe que destrua toda a civilisação, haverá fatalmente uma evolução nos acontecimentos que nos envolvem. Por mais tumultuosos que sejam estes tempos, por mais incerta que seja a paz, sente-se que um espirito novo, nascido nesta crise da civilisação, vae inspirar a vida humana. O pensamento da Revolução Franceza foi afinal vencedor e se tornou universal. Os povos são livres, senhores dos seus destinos. O historiador deve assignalar no cataclysmo que transmudou a ordem pofitica da Europa, ao mesmo tempo a queda das monarchias de direito divino e a ascendência do principio egualitario da democracia, que as substituiu. E assim se cumpre a lei da evolução social, que exige, ao lado da destruição, a reconstrucção. A evolução não será perturbada nos seus desenvolvimentos essenciaes pelos perigos do mysticismo communista, que procura transformar as bases econômicas da sociedade. As questões econômicas são de ordem secundaria, e, se influem nos movimentos políticos, são principalmente os sentimentos e as idéas geraes que lhes imprimem o rythmo. Resolvido o conflito entre o abolutismo monarchico e o principio do direito dos povos, resta o formidável embate entre o nacionalismo e o communismo internacional. A solução desse enigma máximo da nossa civilisação parece todavia indicada nas origens da crise que determinou a guerra, e no espirito que conduziu esta até ao seu desfecho. Combateu-se pela liberdade dos povos, mas combateu-se principalmente pelo sentimento da pátria, que se affirmou victoriosamente. A energia nacional dos povos é tão imperiosa que, insaciável e insatisfeita, ameaça a paz do mundo com a installação da guerra permanante. Não parece que o internacionalismo operário a possa subjugar. Será dentro do quadro nacional que se fará a transformação econômica do mundo. Os socialistas, os communistas da Allemanha se bateram e se baterão contra os seus camaradas francezes ou inglezes. O communista russo não fraternisou por muito tempo com os seus correligionários de outras pátrias. Se a sciencia e a universalidade da cultura impedem a catastrophe da civilisação, as nacionalidades, pela nitidez da sua expressão, pela sua affirmação positiva e luminosa, evitarão nesta crise da historia a confusão do chãos.

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