Amor A Esthetica da Vida · Capítulo 4 de 14
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Amor

AMOR

Os seres ephemeros, que são os seres humanos, attingem por um instante á eternidade, saem da diversidade consciente em que o terror os exila, voltam á Unidade primitiva do Todo universal, quando os arrebata a paixão do amor. Como explicar esse sentimento sublime e commum que, partindo da sensibilidade physica, se eleva á mais alta espiritualidade? Se na base do amor se encontra a ançia da satisfaçãõ do instincto, não é esta sufficiente para explicar a paixão que domina a sensualidade, funde as emoções psychicas dos Amantes e compõe dos dois seres que se attráem e se unem, um só todo espiritual. Se o Amor não é possível sem a attracção physica, esta pôde realisar-se em toda a plenitude sem chegar á maravilha do amor. A attracção physica existe entre os innumeros seres do Universo, os animaes superiores a sentem imperiosamente ""e por ella se perpetuam as espécies, mas, pelo phenomeno psychico do amor, os homens se distinguem dos outros animaes. O conceito supremo da fatalidade domina o milagre do amor. Ha neste sentimento, infinito como o Universo, um caracter trágico, uma manifestação tão sobrenatural, um desafio ao que é a ordem apparente das cousas, tão extranho brilho, que subordinal-o ao impulso mysterioso da fatalidade satisfaz a humildade do pensamento deante do assombroso e divino amor, que, como a própria Natureza, se deixa perceber mais pelos seus phenomenos do que pela sua intangível essência. Este conceito primordial da fatalidade explicaria o despontar do Amor, o seu mágico apparecimento, sem lhe dar a razão metaphysica, remota e mystieai O instincto sexual move um ser para outro ser. Mas, quando se torna amor esse impulso fugaz? Quando os seres por essa união dos corpos attingem á unidade com o Todo universal, aspiração suprema e intima do ser humano, separado do Universo pelo terror inicial do espirito. Essa razão metaphysica do Amor não existe nos outros seres privados do senso espiritual das paixões. Todas as interpretações do mysterio do amor são sempre modalidades do conceito da fatalidade, sejam a união dos semelhantes de Heraclito e Platão, reproduzida por Pascal, as affinidades electivas de Goethe, o gênio da espécie de Schopenhauer, a crystallisação de Stendhal, o magnetismo de Mauclair ou o filtro de Isolda. São apparições, visagens do ineluctavel principio que move as cousas, a innominavel fatalidade, destino, kismet. Mas não basta. Porque essa attracção infinita e irremediável entre os seres que os funde no Universo? Quando Platão entreviu a unidade primitiva dos seres na multiplicidade inexgottavel dos objectos, uma parte da verdade essencial foi percebida. O mytho dos androgynos é uma condensação da hypothese da attracção dos semelhantes realisado n'um só corpo. E no Banquete commenta Platão esta attracção do amor que realisa a unidade. « Tal necessidade procede de que a nossa natureza primitiva era uma e que então cada ser formava um todo completo. Hoje chamamos amor ao desejo e á busca dessa antiga unidade. Éramos outr'ora um e por culpa nossa Zeus nos separou... Eu sustento egualmente que todos os homens, todas as mulheres, que o gênero humano inteiro seria totalmente feliz, se cada um realisasse o seu amor e encontrasse o amante que o pudesse fazer voltar ao primitivo estado da unidade absoluta. » Divino Platão! A verdade essencial, a verdade ultima da explicação do Universo foi desvendada um instante nessa theoria symbolica do amor. Platão percebeu que a anciã do ser humano é a volta á unidade com o Todo universal, de que a consciência metaphysica o separa. Desde então ha o grande vácuo que é preciso preencher, o espaço vazio, o abysmo que é preciso atravessar, e sobre o' qual dansa Eros, tentador sublime, mágico da inconsciencia infinita. E Pascal não trepidou em exclamar: « Quem duvida que estamos no mundo para outra cousa que não seja amar? » O homem não pôde permanecer só comsigo mesmo. Deve sahir do seu próprio eu, preencher o grande vácuo e por outro ser que lhe seja semelhante, e essa semelhança se restringe e se encerra na differença dos sexos'.

Pascal reproduz na mystica christã o mytho platônico das fusão dos semelhantes. Se elle conhecesse a chimica, como Goethe, do seu cérebro teria sahido a hypothese das affinidades electivas, por onde se realisa a unidade dos seres fatalmente semelhantes na diversidade sexual, que é uma affirmação da unidade primitiva e incessantemente buscada pelos seres, que, vencendo os contrários e as opposições, se fundem, movidos por uma lei de necessidade inexorável. Ha mais essência de verdade nessas formulas, que procuram explicar o phenomeno transcendental do amor, ligando-o á metaphysica universal, do que na solução schopenhaueriana do gênio da espécie, que dá o secreto impulso da união do homem e da mulher para o fim da perpetuidade dos seres humanos. Essa explicação de ordem physica, indifferente á funcção psychica do amor, applicavel indistinctamente a todos os animaes, está morta pelo finalismo que a inspira, pela attribuição da vontade a uma creação fortuita e absurda, como esse imaginário, phantastico e caprichoso gênio da espécie, que se diverte em unir os contrastes e suggerir maliciosamente a indispensável procriação. Não é uma vontade que determina a acção do amor. E' o próprio inconsciente do amor que o leva ao inconsciente universal. O amor crea esse sublime estado de fusão com o Universo, mas não é solicitado pela fatalidade a essa inconsciencia absoluta da Unidade primitiva. Este é o mysterio dos mysterios. Stendhal imagina para explical-o a theoria da crystallisação, que nos deixa a meio caminho da revelação do divino enigma. Por ella se comprehende o nascimento do amor, mas a passagem das sensações e dos pensamentos do estado sub-consciente ao campo da consciência não é necessária para o amor, que é antes uma manifestação psychica sub-consciente. Além disso, a hypothese stendhaliana se limita a assignalar uma situação sem explicar a causa. Por essas hypotheses physicas de magnetismo, de polarisação, ficamos reduzidos ao relativo de uma explicação positiva, a comprovar a existência do phenomeno sem ir além, sem lhe dar a razão, que só uma interpretação philosophica pôde abordar. Platão percebeu que ha uma unidade primitiva dos seres. Ora, se fosse mais ousado, perceberia que ha uma unidade essencial e inicial do Universo, e que os seres deviam existir eternamente na indistincção absoluta. Mas, separados do Todo universal, a vida interior dos seres humanos, fundamentalmente levados a se confundir com o Universo, é a continua e irreprimível aspiração á Unidade primitiva. Cessado o instante doloroso da consciência, o homem se abysma mysticamente na inconsciencia absoluta. O Amor, unindo-nos a outro ser, dá-nos a illusão da universalidade que elimina as separações, que nos arrebata para além da relatividade consciente das cousas para nos confundir infinitamente com o Todo universal. Esta é a mystica do Amor e a sua metaphysica. Abysmando-nos no divino esquecimento, fusio'nando os seres no Universo, transportando os corpos ao êxtase supremo, arrebatando as duas vontades unidas para o Irreal, o amor é a sublime transfiguração, a eternidade instantânea, que é dada aos pobres humanos mergulhados na infinita miséria da vida contingente. Por elle somos um com a Natureza, um com Deus, um com o Universo, e, o que é mais ineffavel, um com o ser amado. E* o milagre supremo da unidade, que, partindo da attracção dos corpos, attinge á fusão no Todo infinito. A fatalidade reina sem duvida sobre o amor, desde o instante em que o instincto sexual age na sua profunda inconsciencia, até ao momento em que a morte separa ou une os amantes. O'sentimento da presença da morte dá esse caracter trágico, porque, interrompida a fusão com o amante, se desperta a irremediável dôr, que separa o espirito humano das outras cousas. Em Tristão e Isolda, desde o começo, Wagner invoca a fatalidade, sob a figura de Frau Minna, que, segundo as lendas germânicas, é uma transformação de Aphrodite, creadora da vida, geradora da tragédia universal. Dessa fatalidade que commanda 0 Amor e a Morte, provem o filtro'que os amantes tomam. Para Dante o Amor, que move o Sol e as outras estrellas, leva a uma só morte... Mas toda essa fatahdade reina, domina, motivada pela necessidade essencial da volta á unidade inconsciente, que se realisa na fusão mystica dos corpos e dos espíritos. Depois da morte os amantes, que pelo amor fizeram o retorno á unidade primitiva do ser e á unidade com o Todo, entrevêm a vida eterna na unidade. « Nascidos ao mesmo tempo, disse Leopardi, o Amor e a Morte são irmãos. O mundo aqui em baixo e as estrellas lá no alto não possuem nada de mais bello. » Esses dous divinos irmãos dão a magia da inconsciencia suprema, do êxtase, do repouso infinito áquelles que vivera na tortura e na anciedade da separação. Esse pensamento da Morte ligada ao Amor é a angustia dos amantes em anciã de eternidade.

Imaginam constantemente continuar além da morte o amor. A religião como força mystica é uma consolação para os amantes. Que maior apego, porém, que mais entranhada e absoluta affeição não existirá nos seres libertados do senso religioso? Para elles cada instante é a eternidade. O Além é o nada, a vida étudo. A paixão cresce, exalta-se nesse pensamento, é uma chamma em que se consommem os condemnados ao Nada, ao absoluto anniquilamento. A AmOr é tudo, dirão esses amantes quando separados, e a separação é a imagem da morte; mas a separação vive da esperança e a esperança é uma magia. E a Morte? E' o fim de tudo. E elles aspiram á morte unida. Partiremos juntos, dirão; isso também é uma deliciosa e bella consolação. E assim o sentimento como uma vaga do oceano nasce da inquietação, do terror para se vir acalmar na paz derradeira. E' o rythmo perpetuo da anciã da unidade ultima, que subleva eternamente o nosso inconsciente no exilio da separação do Todo. O que resta mysterioso no movimento do amor é a predestinação dos personagens da grande tragédia. A unidade fundamental se realisa entre seres a ella fatalmente chamados. A hypothese das affinidades electivas ou a da attracção dos semelhantes interpretaria admiravelmente essa predestinação que, numa elaboração muitas vezes despercebida dos próprios personagens, vence as maiores opposições á sua immortal victoria, que se resgata pela morte. Onde reside essa attracção ineluctavel, ninguém pôde determinar. Parece que excede o nosso próprio ser na sua humanidade, dir-se-ia que vae além da vida animal, que está no que é imponderável e extremamente secreto na vida universal; dir-se-ia que ha uma attracção atômica entre os seres que pelo amor têm de.se fundir no Universo. Se se imaginasse a evolução dos seres perpetuamente attrahida n'uma escala descendente, seria um maravilhoso « motivo » para uma allucinadora « fuga », em que o amor dos mesmos entes humanos fosse descrescendo ás espécies animaes, aos pássaros, aos insectos, aos infinitamente pequenos, aos vegetaes, a tudo que palpitasse no mundo; e a persistência das affinidades dos amantes seria encontrada inexgottavel e imperecivel nos atomos, nas vibrações das moléculas do ether. Assim, o Amor, formidável como a Natureza, év, a liga eterna dos seres predestinados á unidade immortal. A Amor repelle a relatividade para viver no absoluto, porque é d a essência do amor essa atmosphera de plena liberdade, essa ignorância total de todas as convenções, que lhe são extranhas e das quaes não pôde participar. Por essa livre expansão, e por ser uma força da Natureza, ou subjectivamente a Natureza, o Amor traz o seu universo em si mesmo e vem alterar o sentimento do próprio pantheismo. Antes do instante da paixão o homem realisa a idealidade do Todo por um sentimento metaphysico, que mostra sermos apenas uma apparição do Nada, uma força instantânea que se pôde pensar a si mesma e conceber o Universo e vae desapparecer no Nada. Nesse idealismo o sentimento da Dôr se tinha eclipsado, tudo era o perpetuo renascimento do Universo, e d'ahi o absoluto scepticismo e a sublime impassibilidade deante das cousas fugitivas e illusorias. Mas desde que o Universo, pela magia do Amor, se representa em outro ser, no espirito humano se produz a mutação do pantheismo. A Natureza só é comprehendida no ser amado e só existe por essa realidade. Se o ser adorado se transforma, morre na sua fôrma actual, aquella realidade do Universo se extingue para o Amante e toda a vida universal cessa com a vida das vidas...

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