Visagens da Litteratura Brasileira, Alencar, Rousseau e Música
VISAGENS DA LITTÉRATURA BRASILEIRA
O espirito dominante na litteratura brasileira foi o do classicismo. Toda a nossa cultura foi sempre inspirada pela disciplina clássica. Os que escaparam a essa disciplina, foram os extravagantes, os absurdos, os bárbaros. E sempre coexistiram na nossa producção litteraria duas correntes bem distinctas: a dos inspirados pelo gosto e pela cultura e mesmo pela rhetorica clássica, e os indisciplinados, transbordantes e possessos. Aquelles, escriptores ou oradores castiços, artificiaes e extranhos ao movimento sentimental do seu tempo; estes outros, informes, chaoticos e incultos. Póde-se dizer que nos primeiros se via a persistência do espirito portuguez em contrariar a nossa natureza, e nos segundos o espirito de revolta da raça em plena formação, nessas explosões que exprimem a allucinação do terror e deslumbramento e a fascinação da miragem. Ha uma grande lentidão da* influencia européa nas manifestações litterarias portuguezas e brasileiras. O romantismo veiu apparecer em Portugal mais de vinte annos depois do seu apogeo em França; o realismo também levou quasi. o mesmo espaço de tempo para se tornar portuguez,. « Madame Bovary » é de 1859, o « Crime do Padre Amaro », de 1878, e o « Mulato » de 1880. Houve um momento em que a nossa litteratura teve a apparencia do modelado clássico. ms 191 E essa extravagância occorreu ainda na aurora da formação nacional do Brasil. Essa « performação » litteraria foi uma simples transposição de Portugal ao Brasil colonial. Do artificialismo apenas se salvou a inspiração lyrica de Gonzaga e de Basilio da Gama. O nosso espirito ainda está muito próximo da natureza para chegar á perfeição. Só attingiremos a esta depois de termos desbravado a nossa matta. Até lá, a litteratura deve viver da nossa própria seiva tropical e o modelado nesse instante é um artificio, que importa em traição ao momento espiritual do paiz. Preconisar-se o classicismo como o canon do estylo é um absurdo. Cada epocha tem o seu estylo e neste se devem vasar as emoções humanas que se estylisam. O escriptor de hoje que escrevesse como no século xvu, seria ridículo. Também 'eãda pátria tem o seu estylo. A simplicídade do caracter portuguez e brasileiro deve ser vertida na litteratura. Evitemos o emphatico. O alexandrino é emphatico. Assim o Grego, abundante de poesia, era extremamente harmonioso e simples. O Romano é secco, e essa seccura o leva á emphase, porque elle quer dar pelas palavras e pelas imagens a expressão que não lhe vem naturalmente, a sensação de naturalidade que lhe falta. No Brasil, o estylo emphatico é uma prova de sequidão e de vazio; é rhetorica em opposição á poesia. Os Brasileiros não deviam ser emphaticos, porque são poetas e lyricos.
JOSÉ DE ALENCAR
Rompendo com o classicismo portuguez, Alencar affirmou a independência intellectual do Brasil. Tem-se dito que o « Guarany » é o grito do Ypiranga da litteratura brasileira. Pela primeira vez a alma brasileira canta livremente, sem as cadeias da tradição colonial. A lingua incorrecta, exuberante, é a de uma nação joven, que desapprendeu a disciplina clássica e gosa alegremente das primicias da liberdade. Em todo o poema sopra o espirito da mocidade. No seu tempo Alencar foi o mais brasileiro de todos os escriptores, porque Gonçalves Dias, apesar de todo o seu nacionalismo e do seu indianismo, obedecia ao rythmo clássico, e se cantou Y-Juca-Pirama, escreveu as Sextilhas de Frei Antão. Alencar é mais integralmente brasileiro e um escriptor verdadeiramente americano. O seu romantismo separa-se da inspiração européa pelo enthusiasmo tropical, que é uma expressão optiraista de um povo possuído da grandeza do seu destino. Os escriptores portuguezes da mesma epocha de Alencar, como Garrett ou Herculano, são inteiramente differèntes do escriptor brasileiro, como Portugal é differente do Brasil. José de Alencar teve o privilegio de ser 0 primeiro escriptor de synthese que surgiu no Brasil. Machado de Assis foi um immenso escriptor de analyse: examinou os fragmentos do mundo moral brasileiro, mas em nenhum dos seus livros teve a força de reunir estes fragmentos e dar a synthese da civilisação brasileira; e por isso faltou a Machado de Assis esse relâmpago de gênio que teve Alencar, quando no « Guarany » fixou o cyclo da formação nacional do Brasil, o encontro do portuguez e do indio no mundo tropical, a fusão das duas raças, de que nasceu a alma brasileira.
OS PRODÍGIOS DE ROUSSEAU
Christo e Rousseau são os dous accidentes mais extraordinários na historia do espirito humano. A influência de Rousseau no Occidente só foi excedida pela do Christo. O christianismo transformou o mundo, creando e inspirando um espirito novo, que mudou os valores da moral, da política, da intelligencia, da sciencia e da arte. E que fez Jean-Jacques Rousseau? E' a historia maravilhosa de um miserável, vindo da dôr profunda dos pobres, accumulando em si, inconscientemente, as surdas revoltas dos opprimidos, possuido de uma sensibilidade que leva a intelligencia ao paroxismo da agudez e do delirio. E a sensibilidade de Rousseau se tornou a sensibilidade da humanidade por mais de um século! E* a sensibilidade de todo o século dezenove, que começou por um mal, a morbidez romântica, e acabou no desencanto do idealismo, seu próprio creador. E que fez Rousseau? Quasi analphabeto até aos trinta annos, começa a escrever aos trinta e cinco. Esse revelador do sentimento da natureza se insurge naturalmente contra a desegualdade social. Encontrara no principio absoluto da egualdade a avalanca para a revolução de 89. O pamphleto que foi o « Contrat Social », destruiu toda a sociedade clássica, gerada na edade-média e no feudalismo. Desde então o mundo se tornou egualitario e libertário. Rousseau creára a anarchia politica. Trazendo para a litteratura o sentimento da natureza, já percebido por Condillac, libertou os espíritos do quadro em que girava até então o classicismo, em volta do homem e da vida social do homem. Pelo naturalismo de Rousseau o quadro foi alargado e a natureza incorporada â litteratura. Rousseau inspira Bernardin de Saint-Pierre, Chateaubriand e, todos os paizagistas do livro. E' o pantheismo penetrando na obra de arte. E a evolução é parallela na pintura e mesmo na musica. Rousseau pelo seu naturismo crea toda a escola da paizagem moderna, em que a paizagem não é mais um accessorio do homem e se torna o personagem da obra de arte. Sem Rousseau e o seu romantismo da natureza, Beethoven não teria produzido a Symphonia pastoral e a musica desse tempo permaneceria fiel ao classicismo de Mozart. Com Rousseau surgem dous personagens novos no mundo: a natureza e o homem livre, na sociedade livre. E' toda a historia do espirito humano no século dezenove. E que prodigiosa transformação esses dous factores não determinaram na evolução social e na psychologia humana! Foram duas forças absolutas, que o gênio e a doença de Rousseau fizeram desencadeiar no mundo, até então limitado e contido pela disciplina de uma organisação religiosa, que ignorava a natureza ou a fazia inimiga da alma, que enquadrava o homem dentro da sociedade, sua perpetua categoria. Rousseau abalou esse edifício, queveiu a ser derrubado pelo espirito rousseauniano da Revolução franceza. Foi um grande prodigio cumprido por um só homem. Essa destruição foi um acto de exaltação, e o defirio de Rousseau se propagou no mundo. E' uma revolta, uma blasphemia perertne contra a vida, é a não conformação do espiritohumano á fatalidade da existência. E' a doença de Goethe, quando escreveu Werther, inspirado no absolutismo de Rousseau, é René de Chateaubriand, é Obermann de Sénancour, é Corina, dé Staêl, é Adolphe, de Benjamin Constant, é todo Byron, é mesmo o transcendental Shelley pelo seu pantheismo agudo. E' todo o romantismo que transmudou os valores da vida e espalhou o delicioso veneno de tristeza por ura século inteiro. Rousseau é a doença do espirito. Façamos a nossa cura do mal de Rousseau, voltando á Grécia, comprehendendo o tranquillo segredo do Parthenon, disciplinando o nosso espirito pela geometria eterna, raciocinando com Descartes, investigando com Spinoza. E seremos um com a Natureza, e seremos os dominadores de nós mesmos.
MUSICA
O estylo que traduzirá melhor a alma de hoje não é o da esculptura nem o da pintura. Esses estylos correspondiam á sensibilidade antiga, como a esculptura da Grécia á pintura da Renascença, e mais tarde o sentimento da paizagem da natureza, infiltrado por JeanJacques Rousseau, e que annuncia o advento do pantheismo na litteratura (Rousseau, Goethe, Shelley). Hoje o estylo deve ser musical. Pela musica deve-se interpretar o Universo. Pela musica deve-se exprimir toda a alma musical, o sonho e a morte. E' preciso ao escriptor transpor em musica todos os valores da natureza e da vida. A musica é o rythmo mundo de que só o homem moderno possúe todo o segredo. A Iliada é um desfilar de estatuas, em alto e baixo relevo; a Odysséa é um baixo relevo que reproduz as anecdotas da vida na fôrma secca, simples e austera da pedra. A Eneida, fluida, é ainda arte esculptural. Dante mais tarde inaugura a pintura, mas ainda se atem á tradição esculptural nos baixos relevos infernaes e na construcção gothica. Racine volta ao puro classicismo esculptural. Rousseau, Chateaubriand, Goethe (burguez e doméstico), Flaubert, são pintores. D'Annunzio é um colorista veneziano. Os grandes estylistas musicaes são os poetas do século xix, e cada um teve a sua musica intima: Lamartine, Baudelaire, Verlaine, Mallarmé, Shelley, Keats, Heine. Porque somos nós mais musicaes? Ha uma evolução das sensações, que determina a predominância de certa arte? Isto é, ha uma sensibilidade que se transforma e se exprime em uma epocha por uma arte e em outra epocha por outra? Porque só chegou a musica ao seu máximo de expressão no século xix? Ha uma influencia de meio? E também uma influencia psychologica evolutiva? Não foi o século xix o século do pantheismo? E não é a musica a arte mais livre, mais pura, mais arte? Não tende tudo ao universal? Dizemos alma musical, alma moderna, porque? A musica, incorporea, aérea, sem plástica, procura incorporar-se no Universo, como o Amor se procura unir ao ser amado.
O ROMANTISMO DE BEETHOVEN
Pelo espelho mágico do romantismo vimos em nossa epocha as imagens da edade média. O gothico' revive na musica de. Beethoven, quando esta foge ao pantheismo. Assim, na marcha fúnebre da « Eroica » desfilam os symbolos guerreiros da edade média, ouve-se a gargalhada sarcástica das gargulas, e na parte final um coro angelical, primitivo, arrebata o heróe morto. Apesar do seu romantismo, do seu século xix, do seu gothismo, Beethoven é dominado pela aspiração â alegria. Elle se liberta na arte, e a sua arte tenta exprimir a natureza em triumpho acima da dôr.
DEBUSSY
Debussy exprimiu a extrema sensibilidade moderna por uma musicalidade aguda, pelo senso do pittoresco, pelo requinte nervoso de uma musica cerebral profundamente sensual. O caso Debussy não é singular nem isolado. Não ha movimento artistico que não seja integral n'uma epocha. Debussy liga-se a Baudelaire e a Mallarmé como aos impressionistas da pintura. De Mallarmé trouxe o segredo da dissonância, que é o rythmo dos nossos nervos. Mas não chega a ter a crueldade baudclairiana, o sadismo da imaginação, a necessidade do soffrimento, a infatigavel anciã do goso sem goso, que é a desharmonia da loucura. Debussy liga-se aos impressionistas, sobretudo a Claude Monet, na expressão fugitiva e vaga, no esbatido das cores, na alegria do som, que é a festa da côr, e por todo o luminoso pantheismo. Mas, interpretando a natureza pela musica, Debussy não attingiu como Beethoven e Bach á essenpia da musica. Sente-se que está fora e não dentro da musica. O artista máximo deve ser o próprio assumpto da sua arte e não o interprete. O poeta é a própria cousa, a própria matéria poética que se desfaz em arte. A poesia que interpreta, que está acima ou distante, deixa de ser a poesia. Pela poesia tudo se confunde e une mysteriosamente, o poeta, as cousas, o universo. Não ha separação para a interpretação do mundo. Por esse conceito, poetas como Heredia não são poetas. E' poesia sem a poesia. Beethoven é a musica.
FLAUBERT
Na literatura universal dous escriptores foram singularmente creadores: Goethe e Flaubert. Em cada livro fizeram surgir successivos novos mundos. Póde-se dizer que morriam em cada creação e renasciam noutra. Nada é egual, nada se repete. Tudo é diverso e infinito. Goethe escreve « Werther », depois abandona toda a sensibilidade romântica, que lhe vem de Rousseau, e entra no classicismo, d'onde tira o segredo antigo e nos dá « Iphigenia » e mais tarde « Hermann e Dorothéa ». Escreve as « Affinidades electivas », e crea «Wilhelm Meister », que é toda a sociedade moderna vista de cima. E mais tarde publica « Fausto ». Tudo é differente, diverso, e cada livro é um mundo. Flaubert é também um creador de novos valores, de novas expressões da vida, e os seus livros são mundos distinctos. Nada tem de commum um com o outro a não ser a grande origem creadora. « Madame Bovary », « Salammbô », a«Tentação de Santo Antônio», oh variedade 1 Em comparação com esse creador, os outros escriptores abundantes parece;terem escripto um só fivro em muitos tomos. Balzac, apezar da sua força creadora de typos e de vida, escreveu um fivro único. Zola sempre se repetiu infinitamente. Goethe e Flaubert são creadores excepcionaes de novas, successivas e extranhas sensações e sensibilidades. Flaubert escreveu os seus livros acima delles.
O escriptor não está dentro da obra. E' o artista que domina o trabalho e não vive a vida commum, irregular, incerta da sua própria creação, e não está dentro delia de um modo absoluto e fatal. Nisso Flaubert não procede como a natureza inconsciente, espontânea e una. Como Deus, elle crea de longe. E* o processo divino, mas não é o processo da natureza. Elle vê que as suas creações são perfeitas e boas, e pôde se repousar, ou mudar voluntariamente a força da expressão e crear o que quer 1 Por isso, procede magistralmente, senhoril como um distribuidor de graça e de vida. Por isso, economisa a sua força e dá o que acha bom. Assim exprime a virtude franceza, a razão econômica que mede o esforço, reflecte, aproveita e arranja com os seus meios o que é útil e bello. Flaubert é o gênio francez, mais completo que Voltaire. Deste gênio da raça só três escriptores se separaram: Pascal, a quem a loucura deu a allucinação do infinito e que não conheceu limite á sua alma; Rabelais, que teve a seiva da Renascença e cujo cosmopolitismo liberal o assemelha aos italianos da sua epocha, desenvergonhados e desembaraçados; Victor Hugo, que a Hespanha fez transbordante e gastador de emoções e forças.
A TRISTEZA DOS NATURALISTAS
Vendo, ou estudando, as obras de arte do naturalismo, sente-se nellas uma grande tristeza. Parece que esses artistas (poetas, romancistas, esculptores e pintores) tiveram uma profunda decepção da natureza humana é que todas as suas obras, sendo sobretudo humanas, reflectem esse desencanto. O romantismo que o precedeu, exprimiu uma grande melancolia, como em Chateaubriand, em Musset ou em Delacroix, mas toda a sua obra foi de enthusiasmo, de revolta, o que ainda é uma modalidade da illusão numa anciã de sonho. O naturalismo, não. E' triste, porque para elle a realidade é triste. Zola, mesmo o impassivel Flaubert, Maupassant e Daudet são amargos e desilludidos como Manet e Degas. Depois da tristeza do realismo succedeu um período de alegria, de vivacidade na manifestação artística, como um retorno ao paganismo, uma sensação de Renascimento. Veja-se por exemplo a pintura sadia, colorida e phantasista de Renoir, Monet e Besnard, a poesia de d'Annunzio, Paul Fort e Henri de Régnier, os romances de Anatole France e toda essa pequena litteratura franceza de Courteline e Tristan Bernard.
VELASQUEZ
O realismo de Velasquez, em contraste com todo o mysticismo e a dôr da arte hespanhola, tem a sua raiz na raça portugueza, de que Velasquez é originário. Essa excepção na expressão hespanhola é uma singularidade. Goya é mystico, satânico, hespanhol. Murillo é o êxtase, o enthusiasmo hespanhol! Ribera, a tortura, é também hespanhol, e o próprio Greco se impregna da dôr e da exaltação da Hespanha. Velasquez é a realidade, a natureza sem interpretação, é Portugal. Ha uma grande ausência de imaginação na arte portugueza. Os portuguezes não são creadores ou poetas, são antes executores e portanto artistas. Camões é um supremo artista; não teme imitar Virgílio, mesmo nas suas grandes creações, como o Adamastor. As suas qualidades de invenção mostram-se inferioresás suas qualidades de exprimir, compor e modelar. Eça de Queiroz, Garrett são artistas de execução e pequenos creadores. O sentimento do realismo é perenne no espirito portuguez. A arte de Velasquez, como a dos Flamengos e Hollandezes, influe nos modernos. E assim o realismo portuguez se torna uma expressão da arte universal pela força do gênio de Velasquez.
MYSTICISMO PORTUGUEZ
Os pintores primitivos portuguezes interpretam o sacrifício e a miséria de Christo como o soffrimento, a desgraça, a tristeza da própria raça portugueza. Christo é o povo portuguez que soffre. Nofae nesses retratos o aspecto physico do portuguez, a pallidez, o martyrio, o abandono de tudo, o pobre portuguez que parece o symbolo da pobreza, o pobre dos pobres.
INEXPLICÁVEL TRISTEZA
Porque me compadeço dos outros seres e das cousas? Porque sinto o què se denomina tristeza? E porque para um ser como eu tudo não é indifferente, excepto o goso esthetico? Onde a fonte da minha compaixão? As raízes da minha tristeza?
Porque soffro e porque desejo? E porque não existo somente para a contemplação e o arrebatamento do espectaculo universal, e o meu espirito é carregado da dôr extranha á belleza? Explica-se o soffrimento do amor, que é a necessidade fundamental do ser que aspira pela confusão de toda a sua individualidade desapparecer no Todo Universal e abysmar-se no infindável silencio da Inconsciencia. Mas porque esse soffrimento que vem da sympathia e se chama compaixão?
RABELAIS
Rabelais, surgindo em plena Renascença, não só representa como também traz em si o t novo mundo », que se revela com uma sangüínea energia; E* a canalha que sobe, e em seus livros Rabelais exprime esse formidável movimento que vem de baixo para cima e transforma a terra. Tudo ahi pullula: vagabundos, histriões, médicos, legistas, financeiros, soldados, padres, monges revoltados, n'uma insurreição geral, que revoluciona a própria lingua, a enriquece de mil vidas e lhe dá o esplendido colorido da epocha. Em Rabelais o movimento politico da Renascença tem o seu interprete máximo, pois a sua « revolução » não se limita aos estudos, á arte, ao paganismo resuscitado; é o despontar da nova éra, o advento do individuo; é o homem novo sem raízes, sem tradição, e dessa canalha rabelaisiana se fará mais tarde a magnífica elite que, a partir do século xvi, assombrará o mundo no pensamento, na poesia, na arte e na politica. E dessa elite os representantes são homens novos, fora de toda a aristocracia, como Rabelais, Corneille, Molière, Racine, Shakspeare, Ariosto. A Revolução se annuncia. Rabelais é o precursor do vagabundo Rousseau.
CLEOPATRA E SALOMÉ
« Minha serpente do velho Nilo », diz Antônio, e Shakespeare synthetisa nesse verso a antigliidade da mulher, a sua eternidade tentadora e a essência da volúpia oriental. Mas porque Salomé perturba hoje os homens mais do que Cleopatra? Será porque Salomé é ainda mais sensual, e só sexual e erótica, ao passo que em Cleopatra se sentem a intelligencia e uma expressão de cultura?
O prestigio de Salomé prova o accrescimo de sensualidade no cérebro dos homens da nossa epocha. Nessa deliquescencia viril a emoção erótica elimina as outras emoções de volúpia, como as emoções de arte, de graça e intelligencia feminina. Tudo se reduz ao erotismo puro, á essência da sensualidade. Não é a emoção da sensualidade superior própria do occidente, onde o amor foi sacrifício e ideal, e o excesso da castidade divinisou a mulher na virgem vestal, na virgem christã, na virgem celtica. Com Salomé, e Cleopatra mesmo, o Oriente enfeitiça novamente o Occidente. Cleopatra fala, discursa, crea a arte, a elegância, seduz pela palavra e com intenção. Ao passo que o veneno de Salomé é animal. Salomé seduz, perturba, envenena, mata. Salomé não fala, dansa. É uma attitude; e toda ella desprende o fluido do erotismo, como uma arvore verte o veneno.
IBSEN
Ibsen é o grande interprete do mundo moderno, é o gemo que exprimiu antecipadamente o pensamento victorioso na guerra (o pensamento secreto, a victoria do homem, do indivíduo). Como um puro determinista, Ibsen vê na vida o indivíduo vindo da natureza. A sociedade, categoria do homem, é um simples accidente. A Revolução franceza e o século xix foram precedidos pelo gênio de Rousseau, que revelou no « Contracto Social » a grande alavanca destruidora do passado: a egualdade. Ibsen encontrou a nova expressão: o homem, o ser humano, só, isolado, poderoso, « e u e o mundo a minha propriedade » (Stirner). Nesse feroz individualismo está a gênesis da nova sociedade. No fundo, o que venceu nesta guerra foi o individualismo. Se Ibsen tivesse possuído o gênio da fôrma e o fluido communicativo de Rousseau, a sua « revolução » não teria sido inferior. O pensador dominou o apóstolo. Mas nesse grande pensador o pessimismo do século xix deixou a sua marca. Ibsen se esforça por fazer a alegria no espirito humano e tudo termina em catastrophe e desolação. A libertação, que é o ideal, é inattingivel. Só a morte attráe e liberta (Rosmersholm, Solness, Brandt, Hedda Gabler).