Cultura e Civilisação e A Melhor Civilisação A Esthetica da Vida · Capítulo 8 de 14
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Cultura e Civilisação e A Melhor Civilisação

CULTURA E CIVILISAÇÃO

A MELHOR CIVILISAÇÃO

O que distingue o homem do animal é sobretudo a faculdade de idear, de crear as relações entre o seu próprio eu e a matéria universal. A cultura, que é a subjugação da permanente animalidade no homem, é tanto mais elevada quanto os homens são capazes de comprehender a unidade infinita do Todo. E como esse sentimento só lhes pôde vir pela philosophia, pela arte ou pela religião, uma civilisação em que as faculdades intellectuaes predominem, será superior áquella em que as actividades mais animaes forem preponderantes. Uma civilisação em que se forme uma elite de philosophos, de artistas e de religiosos, será superior a outra em que as preoccupações dos indivíduos forem de ordem material, composta de negociantes, de industriaes, de agricultores e mesmo de guerreiros. Povos carniceiros, povos guerreiros como os Romanos ou os Allemães, povos traficantes como os Carthaginezes ou os Inglezes, não valem esses povos mysticos e artistas, Hindus, Gregos ou Francezes, cuja homogeneidade de cultura se exprime na perfeita harmonia das manifestações do espirito que crea um pensamento, uma arte e uma religião, signos de uma civilisação transcendental. A libertação da animalidade collectiva, que é o facto essencial da civilisação, é a epopéa do espirito humano. A civilisação é uma violência do homem á natureza. Os deuses primitivos, que guardavam os segredos da vida, velavam pelas fontes da eternidade. Não eram civilisadores e mantinham o homem na total ignorância dos mysterios. Num povo adeantado e vivaz como o grego, o mytho de Prometheu traduz esse ciúme que os deuses tinham do espirito humano, ávido. de conhecer e progredir. Prometheu, traidor dos segredos divinos, é punido por querer civilisar os humanos» iniciando-os nos mysterios da natureza, de que o prodígio do fogo é um symbolo. Mais tarde, pela evolução dos próprios deuses, estes permittem a libertação de Prometheu, e o pacto se faz entre deuses e homens pela instituição do culto. E* a marcha da civilisação, que se notará em todos os povos e que as religiões primitivas assignalam nas suas lendas. Assim entre os

Judeus, entre os Hindus e çntre os Escandinavos. Ao mesmo tempo que a humanidade se espiritualisa, por uma evolução parallela do divino, os deuses se humanisam. Em todas as religiões os deuses primitivos são cruéis e, se chegam a ter o sentimento da justiça, esta é inflexível e implacável. Pouco a pouco os deuses se tornam clementes, a justiça recebe aquella porção de piedade e doçura que a abranda. Jehovah se transforma em Christo, Brahma em Buddha. Ainda hoje, entre os selvagens, os deuses do mal sobrepujam os deuses do bem e a divindade é o terror dos homens. O primeiro milagre da civilisação foi suscitar uma religião de sympathia humana, verdadeira Uga espiritual, que estabelece a sociabilidade sobre as bases do sentimento do divino, que aspira a ser uma regra de concórdia universal. O outro milagre foi o sentimento collectivo da arte. Certamente que, por uma fatalidade do nosso espirito, somos levados ao sentimento do infinito pelas emoções vagas, que nos vêm das fôrmas, das cores e dos sons. E a unidade do Universo se realisa assim no nosso espirito pela Arte. Mas foi uma magnífica victoria dessa civilisação tornar coliectivo esse sentimento inherente ao homem, dar espiritualidade ás sociedades humanas que, pelas suas manifestações de arte, e no culto desta, reafisa uma homogeneidade sentimental. Do sentimento collectivo se origina uma idéa de belleza peculiar a cada povo e em que se synthetisa a sensibilidade de cada civilisação. Não ha duvida que o conceito da belleza é relativo e muito contingente; a sua crystallisação na alma múltipla das sociedades humanas fôrma esse ideal, que é a suprema aspiração da existência e a força inspiradora da cultura. Póde-se dizer que, se a sociedade tem um fim, esse seria a constituição de uma elite, em que se realisasse um ideal de belleza. Essa belleza se exprimiria na obra de arte, templos, estatuas, quadros, poemas ou também na flor humana. Belleza puramente plástica, belleza da fôrma e da unha, ou belleza espiritual da expressão e do gemo, é o labor incessante da cultura na matéria universal, e o supremo artista é o Tempo, subtil e infatigavel. Um povo se deve orgulhar tanto da sua mais bella mulher, do seu mais perfeito homem, como do seu maior poeta ou seu mais sublime santo. Em todas essas expressões, ha o supremo resultado do esforço da raça e da civilisação. Póde-se dizer que o organismo social se desenvolve parallelamente na sua fôrma externa e na sua estructura intima, e que o esforço das energias accumuladas da 'civili-i sação é aspirar á creação das expressões superiores, o ideal, o guia, que attráem e engrandecem as multidões moraes. Pela sua magnífica força de suggestão, a vida collectiva seria a maravilhosa epopéa da aspiração transcendente, a divina tentação do segredo do infinito. Uma civilisação em que se determinasse a formação de taes elites, seria evidentemente superior a outra civilisação em que a actividade humana se desenvolvesse na progressão da força material, anniquilando as forças espirituaes. Pelo facto de uma tendência mais accentuada de uma ou outra corrente, já se quiz dividir a civilisação em civilisações de quantidade e civilisações de qualidade, attribuindo-se a crise, o apparente cataclysmo da civilisação actual ao predomínio da quantidade sobre a qualidade. Esse conceito paradoxal da historia inspira-se directamente no espectaculo da civilisação moderna, em que a industria de alguns povos se distingue, pela qualidade, da quantidade produzida em outros. Desse facto industrial não se pôde tirar a característica de toda a civilisação e menos ainda concluir que as civilisações antigas eram civilisações de qualidade e realisavam um ideal de belleza perdido na civilisação moderna, em que o numero, a quantidade, a loucura do illimitado vieram abolir o sentimento da perfeição. O erro fundamental desse conceito está em attribuir uma vontade, um finalismo á sociedade humana. O conceito finalistico da historia é um contrasenso, como o conceito finalistico da natureza. A teleologia, a finalidade na historia, suppõe um plano preconcebido ou pelo menos uma vontade directora, uma providencia, o que é inútil refutar. E" preciso não se dar uma excessiva attenção á parte do consciente na evolução humana. A philosophia da historia commetteria um erro, se concluísse que a civilisação se enganou. A civilisação, que exprime a aspiração collectiva da humanidade, não se engana. Tem de obedecer á fatalidade das forças que a conduzem, que a inspiram, e os seus fins são os deteiminados pela sua própria natureza. Não se pôde dizer que houve retrocesso na civilisação, tornando-se esta mais quantitativa do que qualitativa, se isto fosse exacto. Realmente a civilisação moderna não poderia reproduzir a formula da civilisação antiga. Pela evolução histórica, pela confluência de todos os povos em nossa epocha, não somos gregos nem romanos. Somos do nosso tempo.

E' possível voltar-se ao ideal antigo, ao ideal perdido? Todo o senso esthetico, moral e político de uma epocha não é aquelle que se deseja. E' o que nos vem do sangue dos povos que confluem em nós e de toda a lucta que caracterisou a marcha do espirito humano no grande espaço percorrido. Se alguns povos se distinguem de outros por um ideal differente e mesmo por uma doutrina collectiva, esse ideal e essa doutrina são as expressões mais compatíveis com o inconsciente desses povos. A doutrina da força se desenvolveu melhor e mais imperiosa na Allemanha, porque correspondia ao inconsciente allemão, como um ideal pacifico coreresponde melhor ao sentimento americano, ao espirito de um povo de commerciantes, industriaes e juristas. No emtanto, a Allemanha e os Estadcs-Unidos são, segundo aquelle paradoxo da critica»histórica, civilisações de quantidade. Nada mais differente que o sentimento de cada uma dessas nações, e essa opposição as levou á guerra. Póde-se affirmar que a civilisação não se divide em dois princípios antagônicos e a civilisação antiga não foi somente uma civilisação de perfeição ou da busca da perfeição pelo principio da qualidade, e que a civilisação moderna, rejeitando a qualidade, é uma civilisação de poder, de força, baseada na quantidade. Esses dois princípios não são separadamente o apanágio da edade antiga ou da edade moderna: sempre coexistiram em todos os tempos. Os Assyrios, e os Egypcios de Sesostris, na antigüidade, tinham o ideal do poder. Os Gregos não o tiveram por circumstancias de meio geographico e condições históricas, que os limitaram. Roma fez do poder a funcção principal da sua organisação. Toda a quantidade tende á qualidade, e na própria força do domínio busca-se um ideal de perfeição. O mysticismo do poder é a conseqüência do espirito de dominação. Não foi a quantidade, isto é, o desenvolvimento industrial excessivo, que determinou o imperialismo da Allemanha. Ao contrario, foi o espirito mystico de dominação que inspirou a concentração de todas as forças industriaes para um ideal político de domínio. As idéas de qualidade e de quantidade exprimem uma critica clássica, fora da realidade presente. Aquelles que lamentam os suppostos velhos tempos da qualidade, como principio exclusivo da industria, são reaccionarios e românticos. Os factos marcam a evolução. Pela lei histórica da industria esta tende á concentração, portanto á quantidade. Não ha meio A MELHOR CIVILISAÇÃO }33 de voltar-se a uma concepção social que fez a sua epocha. Os paizes da qualidade seriam absorvidos pelos da quantidade, que teriam a supremacia econômica e tornariam os outros seus dependentes. E' preciso conceber a quantidade conjunctamente com a qualidade. Produzir intensamente e bem, tal é a lição da historia e a fatalidade da coexistência social. A arte é uma expressão de qualidade; á industria, porém, que é uma applicação da arte e da sciencia para o fim utilitário immediato, deve conciliar a qualidade com a quantidade, segundo as necessidades da população superabundante e da necessidade do conforto que domina os espíritos libertados da escravidão da Edade Média. E' o sentimento da egualdade na sociedade inspirando o progresso industrial e econômico. A civilisação não é um simples facto econômico; ella é a victoria total da cultura do espirito na matéria universal, o surto da espiritualidade humana além da animalidade imperecivel. Essa victoria se realisa fatalmente na evolução do espirito humano pela quantidade ou pela qualidade da producção collectiva, por ambas ao mesmo tempo. Tendo tornado clemente a divindade e instituído o culto religioso que liga os homens, tendo suscitado um ideal collectivo de belleza e a supremacia da elite, que é uma força suggestiva, a outra grande conquista da civilisação foi a organisação politica da sociedade sobre a base do direito e a subordinação do governo ao principio da justiça. A imagem que nos suggcre a marcha da civilisação, da tribu á nação, da classe ao indivíduo, é a de uma immensa parábola descripta pela historia dos povos. No principio foi a auctoridade absoluta, a concentração do governo numa classe dominadora ou na pessoa de um chefe rudimentar, quasi divino, armado de um poder discrecionario. Pouco a pouco, a parábola se desenvolve do máximo governo ao menor governo, o que levaria a se suppôr a hypothese mathematica de uma coexistência social sem auctoridade, se a figura geométrica não soffresse as opposições contingentes que embaraçam o seu livre e absoluto traçado. Todavia, no inicio das sociedades políticas, a força social não residia nos indivíduos como entidades syntheticas. Antes delles se affirmavam as corporações, em que as individualidades ainda não despontavam. Ainda se encontram vestígios dessa organisação na historia dos povos de uma cultura superior, como os Gregos. As corporações de poetas existiam unificadas antes de Homero; os asclepiades eram corporações de médicos, curandeiros, adivinhos, antes de Hippocrates. Os indivíduos se destacaram pouco a pouco dessas nebulosas geradoras das personalidades. A mais remota fonte do direito é a força; a civilisação transformou essa força em direito e lei, e a justiça foi applicada pelos árbitros e pelos tribunaes. Uma evolução parallela desses institutos jurídicos occorre tanto no direito privado como no direito publico e internacional. O Parlamento é a figura do poder arbitrai pela sua origem e pela sua funcção. O Estado já está sujeito ao regimen commum dos tribunaes, como os indivíduos. No direito internacional, procura-se restringir os excessos da força pelo arbitramento e pelos tribunaes de justiça. Neste instante da civilisação, o poder mystico do Estado é uma anomalia. O Estado-Deus, (exaggeração do principio individualista do direito germânico e fructo da concepção unitária do mundo, que se synthetisa nas mónadas, geradoras do Universo e da sociedade) consolidou o poder autocratico incompatível com a idéa de liberdade e o espirito de justiça da civilisação moderna, e levou a Allemanha ao desastre. A lei histórica exige que a civilisação proceda como a natureza, do homogêneo ao heterogêneo, do máximo Estado ao menor Estado,

A idéa de justiça é relativa, mas na sua essência significa a limitação do poder absoluto, o impedimento da absorpção do indivíduo no Estado e do domínio exclusivo de uma classe sobre outra, de um homem sobre os seus semelhantes. Nella repousa a sociabilidade humana. Quando se rompe o equilíbrio que esse sentimento crea, é fatal a ruina do povo movido pela injustiça.

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