Os Trabalhos do Homem Brasileiro A Esthetica da Vida · Capítulo 7 de 14
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Os Trabalhos do Homem Brasileiro

OS TRABALHOS DO HOMEM BRASILEIRO

Logo que se sente separado do Todo universal, o homem tem de vencer os obstáculos que impedem a sua volta á unidade essencial do cosmos, que é a suprema razão do espirito humano. Essa tragédia fundamental da alma aggrava-se no Brasil pela discorrelação insuperável entre o meio physico e o homem, incompatibilidade da qual se origina uma metaphysica barbara, sobrecarregada pela hereditariedade dos elementos psychicos selvagens das primitivas raças formadoras da nação. Os trabalhos que ao homem brasileiro cabe executar para attingir á sua victoria espiritual, não são trabalhos physicos. Assim, o dever de vencer a natureza é mandamento moral que importa em submetter ao seu domínio o espirito tenebroso da terra, eliminar-lhe o terror que assombra e separa.

A victoria material do homem sobre a natureza do Brasil é considerável. Durante tempos immemoriaes o homem indígena da terra brasileira foi subjugado pela natureza, de que se tornou o puro reflexo animal; o seu espirito se conservou rudimentar, absorvido totalmente no trágico meio physico, até que a redempção lhe foi chegando, trazida pelo espirito dos homens vencedores de outras naturezas. Mas a terra recebeu hostilmente o homem extranho que a viera domar. Dessa opposição da natureza contra a civilisação estrangeira se poderia formar o mytho de uma nova Atlantida selvagem, defendendo e escondendo para sempre o mysterio que a torna irreal como um sonho, e que, uma vez revelado, a despe da sua maravilha, para tornal-a escrava do homem libertado. A physionomia physica do Brasil predestinava o paiz a resistir á invasão. O Brasil é disputado pelo mar, mas o mar não o penetra, e o continente fica massiço como indicio da lentidão e da força, que mais tarde caracterisa a marcha da sua civilisação. Logo á margem do mar, as montanhas se perfilam para proteger a terra. E, além dellas, immensos rios, densas e emmaranhadas florestas são alternados por campos illimitados, tristes desertos, sertões desolados, onde passa o terror, das seccas que se revezam ao espanto das inundações, dando a toda a natureza a attitude das catastrophes imminentes, que trazem ao espirito a angustia dos cataclysmos sem fim. A historia da civilisação portugueza em tão trágica terra é um dos mais profundos testemunhos da victoria do espirito humano sobre a matéria. A obra do descobrimento do continente brasileiro, a conquista da terra, a colonisação do território pelos portuguezes são phenomenos da lei espiritual da nacionalidade portugueza: a lei de constância vital, que reside no espirito de progressão da raça portugueza. Essa lei de vida será também a do espirito brasileiro, herdeiro do espirito portuguez, emquanto o homem brasileiro conservar preponderante a sua hereditariedade psychologica e emquanto a immensidade do Brasil, ainda por longo tempo insondavel, determinar o sentimento da progressão nacional. Na diversidade geographica do continente brasileiro, a unidade moral, política e histórica da nação é o effeito espiritual da unidade de raça, que é o principio creador do paiz. As varias regiões do Brasil são disparatadas e tendem todas a differentes destinos geographicos, e nenhum laço de ordem geológica as funde para formar com ellas um só todo phy98 A. ESTHETICA DA VIDA sico. A lucta do Rio-Grande do Sul para permanecer brasileiro, vencendo o destino geographico, veiu attestar a força tradicional lusobrasileira, que encerra dentro do massiço do Brasil uma nação uniforme pela lingua e pelo espirito. Emquanto a civilisação material se desenvolve impavidamente, o elemento espiritual é perturbado pelos factores bárbaros das raças e do meio. A actividade do homem brasileiro, cujo fim será a sua libertação do terror, deve-se applicar principalmente á realisação da intima e infrangivel unidade do homem com o Todo, de que elle é parte instantânea e imaginaria. Para attingir a esta unidade absoluta, o homem deve se impor uma disciplina, que será a esthetica da sua vida espiritual. Já vimos que o primeiro « trabalho » do homem é o da resignação á fatalidade do universo, o segundo o da incorporação á terra, o terceiro o da ligação á sociedade. São as três categorias da actividade humana; exercendo-as, não é a disciplina do.respeito que o homem pratica, é mais outra cousa: uma intima fusão com a vida total nos três aspectos em que ella se apresenta. Para chegar á realisação d'essa unidade, 0 homem brasileiro terá de vencer os obstáculos que impedem a serenidade da sua vida esthetica. Deve vencer a « natureza », que o apavora e esmaga, a «metaphysica», que lhe vem d'essa natureza e da alma das raças selvagens geradoras do seu espirito, a « intelligencia », que é a faculdade de' comprehender o universo e no Brasil é estranhamente perturbada. Resignação ao Universo. Seja o sentimento do eterno e perpetuo anniquilamento do universo a fonte da nossa vida* a força iirtrnortal da nossa existência. Vivámos a profunda alegria de sentir em nós a passagem do universo nas suas transformações sem fim! Olhemos em nós mesmos a unidade absoluta! Tudo passa, tudo vive e morre, torna a passar, a viver, a morrer sob outras fôrmas em que se esvae a matéria universal, e não ha agonia na metamorphose da natureza. O segredo inquietador e tremendo da unidade do universo está percebido. E o pessimismo, que condemna tudo ávida instantânea, seja a razão da nossa serenidade. Que os homens e as cousas não se lamentem de existir, que a vida continue ao rythmo do amor, que dá o esquecimento divino. A base da perfeição está no conceito dò Universo. O Universo só se pôde explicar como i um espectaculo, em que o bem e o mal nãò existem e em que o prazer e a dôr são elementos geralmente activos e se confundem. Façamos da nossa existência o reflexo d'esse conceito esthetico; não basta a idéa pura, incapaz por si só de renovar a vida; é preciso o sentimento. As civilisações brahmanicas e greco-romanas se engrandeceram no sentimento da força e da energia. O buddhismo e o christianismo, pelo sentimento da compaixão e da piedade, inspiraram a sympathia entre os homens. Os modernos reclamam a volta ao sentimento da energia para com elle renovar a vida humana. Não se volta a um sentimento perdido. Para renovar a vida é precisa outra cousa, que seja o reflexo de uma idéa nova; é preciso arrancar do conceito do perpetuo anniquilamento, da metamorphose universal, o segredo do sentimento espectacular do mundo. Deante d'esse sentimento cada homem é uma instantânea expressão do universo, e na sua consciência se reflecte a unidade essencial das cousas. Por elle chegaremos á nossa integração no cosmos e á suprema resignação á fatalidade universal. A arte é o espelho d'esse espectaculo. E a philosophia se transforma, vivaz e fecunda, na arte, como a idéa no sentimento. Serena seja a nossa postura, impassível deante da vida e da morte.

VENCER A NOSSA NATUREZA

A fremente energia que faz e refaz o mundo objectivo, inspira a sensação de que a natureza é uma obra de enthusiasmo. O Universo fragmenta-se em fôrmas successivas, fugazes, inquietas e anciosas de se revelar. Ora, em parte alguma esse supremo enthusiasmo é mais vivaz do que na natureza do Brasil! Estamos na dourada habitação da luz. Do alto do céo todo o vasto continente brasileiro apparecerá como um diamante a scintillar nas sombras do Infinito... A terra é perpetuamente vestida de luz. A sua refulgencia abre no silencio dos espaços uma claridade ínextinguivel, fulva, ardente, branda ou pallida. Tudo é sempre luz. Descem do sol as luminosas vagas offuscantes, que mantêm na terra a quietação profunda. A luz tudo invade, tudo absorve. Chapeia nos cimos das montanhas, derrama-se pelos valles, penetra nos desvãos das arvores, e a matta rutila como uma esmeralda; espia pelas fendas da terra, e um sol se abre nas grutas sepulcraes. A vida não adormece ao implacável clarão; vibra, fulgura o ar incandescido, a terra se volatilisa numa pulverisação de luz. Desmaiam as cores do mundo e tudo se torna da côr da luz. E quando a noite, •repentina e doce, surge, estrella-se subitamente o céo, pontas de ouro dardejam sobre a terra e vêm tremeluzir na nacarada espuma dos mares, nas nuas cascatas argenteas, nos rios phosphorescentes. A luz vaga sobre a terra. Loucos, juvenis, noctambulos espíritos das florestas, os pyrilampos executam a dansa da luz... Outras vezes, a luz é o luar. Gélida lividez transfigura o mundo. A terra é o espectro da lua, as cores fogem, tudo empallidece n'uma brancura de cal. Agonisa allucinada a Uvida luz. E morrendo desce ao fundo dos abysmos e se transforma n'uma gloria de ouro: diamantes, topazios, rubis, mysteriosas estrellas a refulgir no desterro immemorial das entranhas da terra do Brasil... Dentro dessa luz a Natureza ostenta os prodígios da sua creação. E' uma maravilha de grandeza e força. Como um rio que descesse do Infinito, o Amazonas, amplo e majestoso, atravessa aquelle mundo e com mil braços enlaça a terra, nympha tropical, fresca, humida, resplandecente. Pela sua força indomável tudo vence, tudo arrasta, tudo submerge, florestas e campos. Afoga-se nas suas próprias águas e um immenso e tranquillo mar apparece. Renasce e contínua impávido o seu curso sem fim.

Fugindo a essa loucura das águas, a Natureza refugia-se nas altas terras descampadas, nos sertões, onde, inquieto, vaga na torrida solidão o gado silencioso, ou nos vastos pampas vaporpsos, onde a terra melancólica se vae unir aos céos longínquos. Por um momento a Natureza é triste, mas não tarda a desforra da alegria, que lhe vem no delírio da vegetação. E' a floresta tropical na sua magnificência e na sua desordem» a floresta creadora da vida eterna, onde arvores sobem das profundezas da terra e se enlaçam como irmãs; onde tudo se transforma, os pássaros coloridos são como flores aladas, os ventos como pássaros que cantam... Tudo é magia no silencio verde. Curupiras surgem como fogos que dansam, e toda a matta estremece. Mas, n'um canto da floresta, á margem do regato, á hora rubra do sol poente, a Yara, a mãe d'agua, penteia os seus cabellos ouro e verde. A luz acaricia-lhe os olhos crystallinos, e toda a matta sorri... Tal é a maravilha da natureza em que se perde o homem brasileiro. Ha no seu espirito a angustia do exilado nesse mundo paradoxal. Lamentase e transforma em dôr a alegria tropical, que exalta e divinisa o Universo por um excessivo arrebatamento da belleza. O brasileiro é o lyrico da tristeza. Ainda não sentiu gloriosamente nos trópicos magníficos o frêmito do turbilhão das cousas tumultuosas. Só agora começa o deslumbramento do espectaculo da vehemente formação das novas sociedades, e uma doce aurora aponta no espirito de alguns homens, que despertam de um longo esquecimento e sentem a nação predestinada a uma grandeza illimitada. O Brasil cessará um dia de ser o ambiente da elegia para inspirar os accordes do hymno dyonisiaco á força, á belleza, á alegria de nascer, que alli sorri na irreprimível germinação da vida maravilhosa.

VENCER A NOSSA METAPHYSICA

As relações entre o homem e a natureza são secretas e imperceptíveis. Jamais o homem se separa totalmente da natureza. Esta continua indefinidamente no espirito humano. Ha um grande enigma no poder formidável da natureza inconsciente, que procura prender e fixar a essência movei do homem e prolongar-se n'ella. Em plena intimidade com a natureza, o homem rude, desapercebido, é um prolongamento do meio physico a que está identificado. Já vimos como o homem brasileiro é a imagem da floresta tropical. N'esse ambiente o homem primitivo vive a profunda e suave inconsciencia. Mas, se a floresta virgem é devastada no espirito do homem e este se vê separado psychologicamente do seu meio physico, então a natureza é a grande adversaria e os homens têm a attitude de esmagados por uma força implacável. E' um terror immenso, instinctivo, gerado do despertar da consciência cósmica no espirito humano. Desponta o mysticismo physico. A natureza, que foi espanto, passa a ser a grandeza descommunal que nos arrrebata. O domínio da adversaria se transforma de terror em divinisação. Começa o culto da natureza. O espirito perdese, dissolve-se, no êxtase da belleza do mundo, cujas caprichosas e desmedidas expressões são o orgulho do homem brasileiro. A metaphysica desse espirito é a representação da allucinação causada pela natureza, como foi a metaphysica da índia, e como não foi atranquilia, harmoniosa e lúcida metaphysica dos gregos. Um povo com semelhante metaphysica está fatalmente paralysado pela exaltação mystica. A acção, aquella acção indispensável para viver no presente, que nasce do profundo e maravilhoso idealismo e deve ligar a existência ao ambiente physico e social, não se caracterisa no Brasil pela actividade positiva evictoriosa da cultura. A acção é sobretudo outra; é mystica e ascende dos fetichistas ingênuos, cujo espirito se perde na immensidade da natureza, até aos poetas, aos chefes de religião, aos ascetas e aos santos, creações desse mysticismo physico, que a floresta virgem transplantou para a alma humana. O nosso delírio metaphysico se manifesta principalmente na representação trágica da natureza na alma dos selvagens. Os Índios e os negros da nossa formação são raças cheias de terror. Pela consciência se separaram do cosmos, e elles povoaram este terrível espaço de separação de seres phantasticos e tenebrosos, que são as divindades da sua rude mythologia. São mythos da natureza selvagem. E' a própria natureza adversaria manifestada pelo terror. Que deuses e que mythos são esses? Ou o ser diabolico, terrível, que encarna as forças ameaçadoras e destruidoras da natureza, o gênio mysterioso da matta, ou a melancólica ave que se lamenta de não mudar as perpétuas pennas, ou o supplicio do animal devorado pela própria pelle, ou o supremo esforço para fugir aos soffrimentos do mundo, que faz os homens subirem cantando e dansando aos céos, onde são mudados em estrellas, ou a maguada explicação de que os rios são os prantos da lua, lagrimas que correm pelo mundo. Tudo é allucinação, pavor, melancolia na alma selvagem que os gerou. O mysticismo dessas raças primitivas explica o estado de magia interminável em que ainda vivem os seus descendentes. Na ausência de uma disciplina scientifica das forças naturaes, estas se tornam maléficas ou propicias pelas praticas dos pagés! E o pagé, o mago, ainda persiste na nossa vida, na nossa poesia, na nossa litteratura, na nossa política, através dos rudimentos da nossa cultura. Outra conseqüência da metaphysica selvagem é o estado de immobilidade, em que permanece a alma dos homens vindos dessa formação. E' uma profunda inércia para a cultura e uma invencível lethargia. Os gestos animaes dominam no homem animal. A natureza transfunde aos homens o frenesi lubrico que lhes dá o instantâneo esquecimento da agonia do terror em que vivem. Esses espíritos não fazem a viagem sentimental que os liberta da própria animalidade. A representação ideal do Universo é a do espanto e do assombro. A mentira nasce dessa perpetua illusão em que se abysmaram, e a maior illusão é a da natureza invencível. Dessa passividade e indifferença na noite mysteriosa em que divagam, vêm-lhe, como uma epidemia de ideal, o sentimento da negação da vida, a renuncia a toda a conquista do espirito. A rude metaphysica creou-lhes, sem chegar ás fôrmas superiores do nirvana indico, o mesmo fatalismo pessimista. A grande victoria contra a natureza geradora dessa magia animista está na concepção esthetica do universo. Eliminemos do nosso espirito o terror que vem daimmensidade. Approximemonos serenamente do mundo physico, que se reflecte em nossa alma. Não deve haver expressões dê espanto na natureza. Tudo é a unidade inquebrantavel da vida a que nos devemos conformar. Para vencer as montanhas que vos aterram, matae-lhes o espirito tenebroso nos antros de pedra e vereis como se abaixarão e serão para vós colunas sobre que passeareis os vossos espíritos descuidados. Não vos será precisa a malícia dos homens astutos e tímidos que, para vencerem as montanhas, empregam o esprito subterrâneo... Vós e ellas sois a mesma substancia universal. O imperativo categórico da vossa conducta é tratar a natureza como a vós mesmos, com esse largo e risonho amor do próximo, que a ella mais que aos homens deveis applicar. A natureza é a vida eterna!

VENCER A NOSSA INTELLIGENCIA

Sa a intelligencia é destinada a conceber a relação entre causa e effeito, a « pensar a matéria », a intelligencia brasileira soffreu a inelutavel influencia dos elementos bárbaros, nossos formadores. O espirito desprendido apenas do animismo permaneceu metaphysico, e a intelfigencia se caracterisou por essa fuga idealista que se contrapõe ao realismo portuguez. E' a grande separação entre o espirito brasileiro e o do seu creador europeu, depois que este, fundindose nos elementos selvagens, se transviou na pavorosa allucinação da natureza tropical. Por esse vago e constante terror, o homem brasileiro parece sentir-se extranho ao mundo do seu destino. E' um perpetuo desterrado. Falta-lhe a intimidade com a natureza, esse accordo subtil e mysterioso que outros homens têm com as suas terras e que se traduz n'umainquebrantavel harmonia, na expressão de uma perfeita unidade entre o espirito e a matéria. Por vezes tem-se a impressão de que o homem brasileiro deixou as suas raízes em outras paragens; é um transplantado que enlanguece n'uma singular nostalgia. Será a alma dos antepassados europeus, a alma antiga, que se atarda e, divagando em sonhos, busca a pátria verdadeira, perdida para sempre? Será o acabrunhamento deante da natureza adversaria e mystificadora? O homem brasileiro é melancólico, e a sua tristeza se exprime pela voz da poesia. De uma grande doçura, essa poesia é um queixume, uma supplica. Ella diz a amargura da vida rudimentar, a adoração perpetua á natureza implacável, que envolve e subjuga o homem. No recolhimento das florestas, â margem dos rios, na contemplação do deserto oceano, nos plácidos e infinitos campos ou no saudoso sertão, o brasileiro estremece de pavor, exalta-se e é arrebatado no vôo mystico, consolo da tremenda realidade. Na hora da solidão, a poesia, nascida do terror, é uma oração deante do eterno mysterio... E de todos os rudes corações dos homens do mar, dos sertanejos, irrompe immenso, inextinguivel canto de saudade e de amor. E no rythmo dessa poesia das águas, das arvores e das mil expressões da natureza, passam as angustias de uma alma de esmagado, as ancias de eternidade, e a litteratura vinda de tão extremada sensibilidade imaginativa será fatalmente poética e metaphysica. A arte no Brasil não é a representação da realidade, o divino espelho da vida. E' a representação da subjectividade do espirito humano, que se reflecte pelo prisma da poesia. O sentimento do Infinito, o assombro, a hielancofia afastam a emoção artística da fôrma tangível das cousas. Esses sentimentos vagos, indefinidos, são fonte de poesia, mas não das artes de fôrmas Objectivas, das artes plásticas. Deixando de parte as questões subtis de luz e côr, ou, melhor, a ausência de côr por excesso da luz, no Brasil, apezar da luz triumphante e das maravilhas do desenho em que se ostentam as cousas reaes, não ha uma grande pintura nem uma grande esculptura. A razão essencial é que para o livre e completo desenvolvimento dessas artes falta-nos um considerável sentimento realista. Na índia também não houve grande pintura e nem uma esculptura superior. A índia é a pátria da metaphysica. Como os hindus, no fundo do nosso inconsicente tememos a natureza, que nos avassalla, e por isso não a representamos, porque não se representa plasticamente o terror, quando este chega a ser o terror da dominação. E' a falta de liberdade no meio physico. E não ha esfcul* ptores, porque não temos bastante sentimento realista e a natureza glorifica no corpo humano 0 seu triumpho. Para que houvesse artes plásticas e fossemos uma nação de artistas da fôrma, seria indispensável uma grande intimidade com a natureza e sentirmos a imperiosa necessidade de represental-a pela sua côr e pelas suas linhas; seria preciso o sentimento da realidade, que é o sentimento das cousas objectivas, um conceito philosophico da vida, que eliminasse a nossa metaphysica do terror, que não fosse moral nem immoral, e para o qual o Universo fosse simplesmente a successão indefinida dos seres, conceito que fecundasse uma civilisação, em que o culto da fôrma e da sua expressão espiritual fosse inspiração da vida. Para o grego um bello corpo é a finalidade da existência; melhor e mais feliz uso do nous, da causa motora do Universo, que está em todos os seres, lhe épermittido. A esculptura, uma arte divina, porque reproduz a gloria do bello corpo... Magnificat! A essa razão primordial que, pela psychologia, pelos elementos bárbaros da raça, pela grandeza pavorosa do meio physico, explica a ausência das artes plásticas no Brasil, devem-se juntar outras razões sociaes. O nosso tempo ainda não foi o da pintura nem o da esculptura. O sentimento do infinito, que é o da essência da arte, se inicia em todas as civilisações pela poesia. Só mais tarde apparecem as outras artes, suscitadas pelas condições da vida social.

As condições sociaes do Brasil não foram até agora favoráveis ao surto das artes plásticas. Durante os primeiros séculos que se seguiram ao descobrimento da terra brasileira, a nossa historia se escreve nas luctas pelo predomonio portuguez sobre outros invasores europeus, nas aventuras dos bandeirantes e nas longas e reveladoras viagens dos vaqueiros pelas chapadas do sertão. E' a vida nômada com a sua instabilidade e a sua incerteza, deixando no paiz apenas ligeiros traços de civilisação. Nesse período, em que quasi nada se funda, em que as futuras cidades são simples aldeias ou pousos de soldados e traficantes, não ha solicitação alguma para a pintura e a esculptura. Os monumentos que exigem o ornamento da estatuaria, ainda não existem, nem egrejas, nem túmulos, na deserta terra em que o acampamento de alguns dias é logo abandonado, segundo as necessidades da existência aventureira. As casas, os palácios, que exigem a decoração da pintura, não existem. As habitações são palhoças ou toscas moradas de vaqueiros, que vivem com os selvagens, na grande e inf ecunda nostalgia dos errantes. Só mais tarde, quando se estabilisa a conquista portugueza, começam a apparecer os primeiros monumentos de civilisação, geralmente egrejas rudes ou ingênuas, que ainda testemunham na nossa epocha o insignificante e encantador passado artístico, legado pelos fundadores da nacionaldade. Mas ávida daquelles tempos no nosso paiz, apezar de começar a fixar-se nas grandes propriedades agrícolas e nas cidades embryonarias, ainda não era bastante prospera e culta para o desenvolvimento das artes. Nos engenhos do norte, imagem da vida feudal, a arte não era uma necessidade, e nem havia o excesso de civilisação que;rea o luxo da arte. No sul do paiz a instrucção era ainda mais rudimentar, e os homens despendiam as forças em vencer a natureza, de que esperavam a fortuna. Póde-se dizer que só ultimamente as cidades, como expressão de cultura de um povo, surgiram em todo o esplendor no Brasil. Nessas magníficas cidades o sentimento da natureza desponta como um elemento artístico, o que é uma grande victoria do espirito brasileiro. A paizagem é incorporada ás cidades que se fundem no maravilhoso quadro de luz, de côr, de fôrmas, e por instantes parece que a arte, que fez a cidade, excedeu a própria natureza, nesse sentimento vago, que torna deliciosamente indecisa a passagem do que é natural ao que é artificio humano. Será o começo de um grande despontar artístico no Brasil, em que a architectura, a pintura e a esculptura, as artes da fôrma assignalem o instante triumphal? Mas para a victoria completa, vençamos aquelle terror inicial, que nos separa da nossa própria natureza divina... Façamos da natureza uma obra de arte... Na ausência das artes plásticas, a nossa imaginação tem os seus meios de expressão na littératura. A nossa producção litteraria é vasta e longa, mas ella se caracterisa infelizmente pela falta de obras que pela universaldade da emoção ou da creação tenham entrado no patrimônio collectivo da humanidade. E' verdade que a littératura portugueza também não attingiu a essa alta situação, não porque fosse escripta em uma língua pouco conhecida, mas porque os seus melhores escriptores, limitando-se ao quadro portuguez, não souberam tirar das particularidades dos seus assumptos a generalidade da emoção indispensável para a communicação com o espirito dos outros povos. Não tiveram o gênio dos escriptores da Noruega e da Suécia, que exprimiram nas suas obras o interesse universal, permanecendo essencialmente escriptores das suas pequenas nacionalidades. E' possível que a littératura brasileira transmitta um dia o fluido que nos ponha em communicação com o Universo intelligente. Por ora, ella não satisfaz plenamente á própria alma brasileira. Ha uma discorrelação entre esta e os seus interpretes. Não temos monumentes litterarios, como têm todos os povos, porque somos um cháos, a matéria cósmica informe. E' precisa a estratificação pelo tempo, para que se erga o monumento, pedregoso embora, mas fixo e eterno, que exprima o gênio de uma raça. Por ora, vagamos nafluidez dos elementos. Todo o idealismo profundo e mysterioso que se escapa na poesia triste e inquieta, raras vezes chega a penetrar nas regiões da littératura. A poesia culta, ou é extremamente formal, ou pela sua emoção lyrica e ás vezes pantheista é tão superior que é sentida por poucos. Esse a formalismo » da nossa poesia se propaga por toda a litteratura. O brasileiro balbucia ainda uma fingua em que se sente extrangeiro, e como não escreve nessa Ungua hesitante, a litteratura não representa pela língua escripta a alma collectiva. Ha uma lingua escripta e uma fingua popular. Aquella, producto de cultura, é fria, acadêmica, gongorica, e nesse paiz em formação, cuja alma se procura manifestar com energia e por signaes precisos, que sejam os signos fieis das cousas exteriores da nossa vida e dos secretos anceios do nosso espirito, volta-se extranhamente e sem esperteza ao classicísmo « bárbaro » dos portuguezes, como á suprema fôrma litteraria do Brazil. E" uma jrasta litteratura de pedantes. E' o defeito da cultura artificial, vicio que perdeu as modernas litteraturas italianas e hespanholas, que foi constante em Portugal, e separa pela linguagem a casta dos litteratos do verdadeiro espirito nacional. Assim, a nossa intelligencia, para se libertar dos elementos bárbaros, fez da cultura um acto de máo gosto e um acto de cobardia, produzindo uma litteratura incolor, sem obras, onde o idealismo do nosso espirito metaphysico não encontra os seus symbolos, nem a vida as suas creações ideaes. E no emtanto aquelles elementos bárbaros da nossa formação espiritual e da nossa nacionalidade reclamam, antes do seu desapparecimento total, os seusvates e os seus escriptores. O que ha de grandioso, de descommunal, de monstruoso, de amorpho, de infantil, de caduco mesmo, na natureza e nas gentes, exige a sua epopéa. Alguns tentaram ser o poeta, o épico dessa selvajaria, A natureza os fez bárbaros e capazes da necessária inconsciencia. A cultura rudimentar, porém, que adquiriram, pol-os em desequiUbrio com a sua verdadeira « pátria ». O pedantísmo matou nelles a intima selvajaria. Deixaram de exprimir inconscientemente para vêr e explicar. Nunca taes escriptores se entenderam secretamente com as cousas de que trataram. Louvemos por isso a finura de Machado de Assis, que escapou á selvajaria dos assumptos e da expressão e não cahiu no gongorismo e no pedantísmo. O seu espirito ficou clássico, mas do classicismo do pensamento, que remonta á Grécia, e de que só a França tem nos nossos dias o segredo. Um dos problemas que preoccupam a critica no Brasil, é a ausência da a natureza » nos livros de Machado de Assis, e quasi todos concluem ser um traço da inferioridade do escriptor. Alguns mais perpicazes attribuem essa singularidade, no meio de uma litteratura desordenada, em que a paizagem é um permanente, e por vezes fastidioso, personagem, á influencia da litteratura clássica pre-rousseauniana. A questão não fica resolvida, porque, se Machado de Assis pendeu para o classicismo, foi exactamente por causa da sua antipathia intima á natureza tropical. Não foi o classicismo que o afastou da expressão do sentimento da natureza, porque o classicismo é pantheista na sua origem, a natureza lhe inspirou as obras do seu lyrismo, as pastoraes, as bucolicas, as georgicas, como a civlisação e a historia lhe inspiraram as epopéas. O segredo de Machado de Assis, que o faz único no Brasil, é a sua incompatibilidade com o meio physico e a metaphysica que deste provem. E a sua grande superioridade foi que, não podendo vencer a natureza, dominal-a pela arte e pela philosophia, teve o heroísmo de simular a não existência dessa natureza tropical, que é a grande perturbadora dos artistas e poetas brasileiros e que, elle o sentia, devia ser vencida... E' um traço de malícia hellenica. E por elle e por muitos outros Machado de Assis fica sendo o escriptor solitário da lingua portugueza. As raízes do seu espirito são seculares. Pela harmonia dos seus gestos, pela graça da sua expressão, pela agudeza e claridade da sua razão de geometra, não tem companheiro em qualquer tempo na litteratura da lingua portugueza. E quem tem a sua liberdade de espirito? Machado de Assis é o nosso escriptor livre. A sua phantasia é imprevista, elle escreve vendo, gosando o espectaculo. Os seus grandes livros foram escriptos quando tinha os olhos inteiramente abertos, e por isso a sua pintura da vida é uma zombaria. E' escriptor, actor, espectador e leitor dos seus próprios livros e nunca responsável pelo que nelles possa acontecer. E' um auctor sem compromissos. Entrega os factos sobre que escreve ao inconsciente da sua invenção, e assim procede como a natureza, descuidado, surprehendente, fatal. Nesse escriptor livre, senhor de si, e tão livre que não teme imitar outros escriptores, ha dous embaraços á plena e indomável liberdade: o pessimismo e a volúpia. A cultura da melancolia, o preconceito do scepticismo, a obrigação do commentario pessimista limitamlhe a maravilhosa liberdade do espirito. E além dessa restricção, tem ainda para o fazer hesitar um vago respeito conservador, que transparece excepcionalmente, mas que não se liberta de todo. Por que razão Braz Cubas se enternece, perde a sua serenidade desdenhosa, se torna compassivo, vendo a mãe morrer? Sterne não sacrificaria á piedade. Machado de Assis sacrificou, porque é meigo fundamentalmente. Como elle trata as mulheres, como as faz desejadas! E o escriptor é atraiçoado pelo poeta voluptuoso. O sexo domina-o, alquebranta-o, como uma pertinaz e deliciosa obsessão. Mas, ainda assim, esse voluptuoso, esse pessimista, mantém nas suas obras a ordem dos gestos e se torna incomparavel pela tendência da sua arte á universafidade, pelos prodígios da invenção, pela mobilidade da expressão, pela subtileza e limpidez do pensamento e da phrase, pelo desdém que o isola e engrandece. Nelle a intelfigencia foi differente, e por isso tal escriptor foi o maior accidente brasileiro 1 Não é uma arte victoriosa a dessa litteratura de disfarce, que dissimula e ignora o grande elemento cósmico em que vive o espirito brasileiro. A esperteza de Machado de Assis, illudindo a existência da natureza tropical que o esmaga, e libertando-se da sua oppressão pela ironia, não resolve o primordial problema da intelligencia brasileira, que é o de vencer o terror do mundo physico e incorporar a si a natureza. A cultura libertará o nosso espirito. E' a grande transformadora da vida. Por ella tudo é comprehendido, dominado e tudo se torna accessivel ao espirito, até então vago e assombrado. No começo foi o terror, no fim será a libertação. Pela disciplina da cultura esthetica se realisará a união indissolúvel do homem brasileiro e da natureza tropical, a hypostase mystica do espirito e da matéria no Universo, que formará a alma e o corpo de um só deus, total e infinito.

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