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As Aventuras do Bom Soldado Švejk

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As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Capítulo 3 · As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Livro I: Na retaguarda — O bom soldado Švejk na direção de polícia

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Livro I: Na retaguarda

O bom soldado Švejk na direção de polícia

O atentado de Sarajevo encheu a direção de polícia com numerosas vítimas. Eram trazidas uma após a outra, e o velho inspetor da sala de recepção dizia com sua voz bondosa:

“Esse Ferdinando ainda vai sair caro para vocês!”

Quando Švejk foi trancado numa das numerosas celas do primeiro andar, encontrou ali a companhia de seis pessoas. Cinco estavam sentadas em volta de uma mesa. Num catre, ao canto, como se quisesse manter distância das demais, estava sentado um homem de meia-idade.

Švejk começou a perguntar a cada um por que estava preso.

Dos cinco sentados à mesa, recebeu respostas praticamente idênticas:

“Por causa de Sarajevo!”

“Por causa de Ferdinando!”

“Por causa do assassinato do senhor arquiduque!”

“Por causa de Ferdinando!”

“Porque liquidaram o senhor arquiduque em Sarajevo!”

O sexto, que se mantinha afastado dos cinco, disse que não queria ter nada a ver com eles, para não atrair nenhuma suspeita. Estava ali somente por tentativa de latrocínio contra um velho de Holice.

Švejk sentou-se à mesa junto dos conspiradores, que já contavam pela décima vez como tinham ido parar ali.

Com exceção de um, todos haviam sido apanhados numa cervejaria, numa casa de vinhos ou num café. A exceção era um senhor extraordinariamente gordo, de óculos e olhos lacrimejantes, preso em seu apartamento porque, dois dias antes do atentado de Sarajevo, pagara no Brejška a conta de dois estudantes sérvios de engenharia. Além disso, fora visto pelo detetive Brixi, bêbado na companhia deles, no Montmartre da rua Řetězová, onde também pagara suas despesas, conforme já confirmara com sua assinatura no depoimento.

A todas as perguntas do interrogatório preliminar no comissariado de polícia, respondia sempre com o mesmo gemido:

“Tenho uma papelaria.”

E recebia sempre a mesma resposta:

“Isso não o inocenta.”

O senhor baixinho que fora preso numa casa de vinhos era professor de história e explicava ao proprietário a história de diferentes atentados. Foi detido no exato momento em que encerrava sua análise psicológica de cada atentado com as palavras:

“A ideia de um atentado é tão simples quanto o ovo de Colombo.”

“Assim como é simples o fato de Pankrác estar à sua espera”, completou o comissário de polícia durante o interrogatório.

O terceiro conspirador era presidente da associação beneficente Dobromil, de Hodkovičky. No dia do atentado, a Dobromil promovia uma festa ao ar livre acompanhada de um concerto. O sargento da gendarmaria apareceu para pedir aos participantes que se dispersassem, pois a Áustria estava de luto. Ao que o presidente da Dobromil respondeu com bondade:

“Espere um pouco, até eles terminarem de tocar ‘Hej, Slované’.”

Agora estava ali sentado, de cabeça baixa, lamentando-se:

“Em agosto teremos uma nova eleição da diretoria. Caso eu não esteja em casa até lá, pode acontecer de não me elegerem. Já fui presidente dez vezes. Não vou sobreviver a essa vergonha.”

O falecido Ferdinando pregara uma peça estranha no quarto detido, um homem de caráter íntegro e reputação imaculada. Durante dois dias ele evitara toda e qualquer conversa a respeito de Ferdinando, até que, à noite, num café, durante uma partida de mariáš, ao matar o rei de copas com um sete de ouros que era trunfo, disse:

“Sete balas, como em Sarajevo.”

O quinto homem, que, como ele próprio disse, estava preso “por causa daquele assassinato do senhor arquiduque em Sarajevo”, ainda mantinha os cabelos e a barba eriçados de pavor, de modo que sua cabeça parecia a de um pinscher de estábulo.

No restaurante onde fora detido, ele não pronunciara palavra alguma. Nem sequer lera nos jornais a notícia da morte de Ferdinando e estava sentado completamente sozinho quando um homem se aproximou, sentou-se à sua frente e perguntou depressa:

“O senhor leu?”

“Não li.”

“Sabe do que aconteceu?”

“Não sei.”

“E sabe do que se trata?”

“Não sei. Não me interesso por isso.”

“Mas deveria interessar-se.”

“Não sei por que deveria me interessar. Fumo meu charuto, bebo alguns copos, janto e não leio jornais. Os jornais mentem. Por que vou me aborrecer?”

“Então nem mesmo o assassinato em Sarajevo lhe interessa?”

“Nenhum assassinato me interessa, seja em Praga, Viena, Sarajevo ou Londres. Para isso existem as autoridades, os tribunais e a polícia. Caso alguém seja morto em algum lugar, bem-feito. Quem manda ser um idiota e tão descuidado a ponto de deixar que o matem?”

Essas foram suas últimas palavras naquela conversa. Desde então, limitava-se a repetir em voz alta, a intervalos de cinco minutos:

“Eu sou inocente, eu sou inocente.”

Essas palavras ele gritava também junto aos portões da direção de polícia, essas palavras repetiria quando fosse transportado ao tribunal criminal de Praga e com essas mesmas palavras entraria em sua cela.

Depois de ouvir todas aquelas histórias terríveis de conspiração, Švejk julgou conveniente explicar-lhes todo o desespero da situação em que se encontravam.

“A coisa está muito feia para todos nós”, começou suas palavras de consolo. “Não é verdade isso que vocês dizem, que nada pode acontecer com vocês, com nenhum de nós. Para que temos polícia, senão para nos castigar pelo que sai da nossa boca? Quando os tempos são tão perigosos que andam atirando em arquiduques, ninguém pode se espantar de ser levado à direção de polícia. Tudo isso é feito por uma questão de brilho, para que Ferdinando tenha publicidade antes do enterro. Quanto mais gente houver aqui, melhor para nós, porque vai ficar mais divertido. Quando servi no Exército, às vezes metade da companhia ficava presa. E quanta gente inocente já foi condenada. Não só no Exército, mas também pelos tribunais. Lembro de uma mulher que foi condenada por ter estrangulado os gêmeos recém-nascidos. Embora jurasse que não podia ter estrangulado gêmeos, já que só dera à luz uma menina, que conseguira estrangular sem dor nenhuma, ainda assim foi condenada por duplo assassinato. Ou aquele cigano inocente de Záběhlice, que arrombou a mercearia na noite de Natal. Jurou que tinha entrado só para se aquecer, mas não adiantou nada. Quando um tribunal mete a mão numa coisa, a situação fica feia. Mas tem de ficar feia. Talvez nem todas as pessoas sejam os patifes que se pode imaginar, mas como distinguir hoje uma pessoa boa de um canalha, principalmente agora, num momento tão grave, depois que mataram Ferdinando? Lá onde eu servia, em Budějovice, mataram o cachorro do senhor capitão no bosque atrás do campo de exercícios. Quando soube disso, ele mandou chamar todos nós, pôs a tropa em formação e disse que cada décimo homem devia dar um passo à frente. Eu, naturalmente, também era o décimo, e então ficamos em posição de sentido, sem nem piscar. O capitão andou diante de nós e disse: ‘Seus canalhas, patifes, desgraçados, hienas-malhadas, por causa daquele cachorro eu gostaria de meter todos vocês na solitária, cortá-los feito macarrão, fuzilá-los e fazer de vocês carpa ao molho azul. Mas, para que saibam que não vou poupar ninguém, dou a todos quatorze dias de detenção no quartel.’ Estão vendo? Naquela ocasião se tratava de um cachorrinho, e agora se trata do próprio senhor arquiduque. Por isso tem de haver terror, para que esse luto valha alguma coisa.”

“Eu sou inocente, eu sou inocente”, repetia o homem de cabelos eriçados.

“Nosso Senhor Jesus Cristo também era inocente”, disse Švejk, “e mesmo assim o crucificaram. Nunca, em lugar nenhum, ninguém deu importância a uma pessoa inocente. Maul halten und weiter dienen! (Cale a boca e continue servindo!) Como nos diziam no Exército. É o melhor e mais bonito.”

Švejk deitou-se no catre e adormeceu satisfeito.

Enquanto isso, trouxeram mais dois. Um deles era bósnio. Andava pela cela, rangia os dentes e a cada duas palavras dizia:

“Jebem ti dušu.”

Atormentava-o a ideia de que seu cesto de vendedor ambulante desapareceria na direção de polícia.

O segundo recém-chegado era o estalajadeiro Palivec, que, ao reconhecer seu conhecido Švejk, acordou-o e exclamou com voz cheia de tragédia:

“Agora eu também estou aqui!”

Švejk apertou-lhe cordialmente a mão e disse:

“Fico muito contente. Eu sabia que aquele senhor cumpriria a palavra, quando lhe disse que viriam buscá-lo. Uma pontualidade dessas é uma coisa boa.”

O senhor Palivec observou, porém, que uma pontualidade daquelas não valia merda nenhuma, e perguntou baixinho a Švejk se os outros senhores presos não eram ladrões, pois isso poderia prejudicá-lo como comerciante.

Švejk explicou-lhe que todos, exceto um, que estava ali por tentativa de latrocínio contra um velho de Holice, pertenciam ao grupo por causa do arquiduque.

O senhor Palivec ofendeu-se e disse que não estava ali por causa de nenhum arquiduque idiota, mas por causa do senhor imperador. E, como os outros começaram a demonstrar interesse, contou-lhes como as moscas haviam sujado seu senhor imperador.

“Encheram o homem de merda, aquelas bestas”, concluiu o relato de sua aventura, “e no fim me meteram na cadeia. Não vou perdoar aquelas moscas”, acrescentou ameaçadoramente.

Švejk tornou a dormir, mas não dormiu muito, pois vieram buscá-lo para conduzi-lo ao interrogatório.

E assim, subindo a escada para o interrogatório na Terceira Seção, Švejk carregava sua cruz até o alto do Gólgota, sem perceber nada de seu próprio martírio.

Ao ver uma placa dizendo que era proibido cuspir nos corredores, pediu ao guarda que lhe permitisse cuspir na escarradeira e, resplandecendo em sua simplicidade, entrou no escritório com as palavras:

“Boa noite para todos os senhores aqui reunidos.”

Em vez de resposta, alguém lhe deu uma cotovelada nas costelas e o colocou diante de uma mesa, atrás da qual estava sentado um senhor de rosto burocraticamente frio e feições de crueldade animalesca, como se tivesse acabado de cair de um livro de Lombroso sobre tipos criminosos.

Ele olhou para Švejk com sede de sangue e disse:

“Não faça essa cara de idiota.”

“Não posso evitar”, respondeu Švejk com seriedade. “No Exército fui reformado por idiotice e declarado oficialmente idiota por uma comissão especial. Sou um idiota oficial.”

O homem com aparência de criminoso rangeu os dentes.

“Aquilo de que o senhor é acusado e o que cometeu provam que tem pleno uso da razão.”

E então enumerou para Švejk toda uma série de crimes diferentes, começando pela alta traição e terminando com a ofensa a Sua Majestade e aos membros da casa imperial. No centro desse grupo resplandecia a aprovação do assassinato do arquiduque Ferdinando, de onde partia um ramo de novos crimes, entre os quais brilhava o delito de incitamento, pois tudo aquilo acontecera num recinto público.

“O que tem a dizer?”, perguntou triunfalmente o senhor de feições animalescamente cruéis.

“É muita coisa”, respondeu Švejk com inocência. “Tudo o que é demais faz mal.”

“Está vendo? O senhor reconhece.”

“Eu reconheço tudo. Tem de haver rigor. Sem rigor ninguém chega a lugar nenhum. Como quando servi no Exército...”

“Cale essa boca!”, berrou o conselheiro de polícia para Švejk. “E fale apenas quando eu lhe fizer uma pergunta! Entendeu?”

“Como não entenderia?”, disse Švejk. “Respeitosamente informo que entendi e que sei me orientar em tudo o que o senhor tiver a bondade de dizer.”

“Com quem o senhor mantém relações?”

“Com minha criada, excelência.”

“E não tem nenhum conhecido nos círculos políticos locais?”

“Tenho, excelência. Compro a edição da tarde da Política Nacional, para as cachorrinhas.”

“Para fora!”, berrou para Švejk o senhor de aparência animalesca.

Quando o levavam para fora do escritório, Švejk disse:

“Boa noite, excelência.”

Ao voltar para a cela, Švejk anunciou a todos os presos que um interrogatório daqueles era uma brincadeira.

“Eles gritam um pouco com a gente e no fim nos põem para fora. Antigamente”, prosseguiu Švejk, “era pior. Uma vez li num livro que os acusados tinham de andar sobre ferro em brasa e beber chumbo derretido para descobrirem se eram inocentes. Ou então metiam os pés da pessoa numa bota espanhola e a esticavam numa escada, quando ela não queria confessar, ou queimavam-lhe os flancos com uma tocha de bombeiro, como fizeram com São João Nepomuceno. Dizem que ele berrava como se estivessem passando a faca nele e só parou quando o jogaram da ponte de Elisabeth dentro de um saco impermeável. Houve muitos casos desses, e depois ainda esquartejavam a pessoa ou a empalavam em algum lugar perto do Museu. E, quando apenas a jogavam num calabouço, ela se sentia como se tivesse nascido de novo. Hoje em dia é uma brincadeira ficar preso”, prosseguiu Švejk, deliciado. “Nada de esquartejamento, nada de botas espanholas. Temos catres, temos mesa, temos banco, não ficamos espremidos uns contra os outros, recebemos sopa, dão-nos pão, trazem uma jarra de água e temos a privada bem debaixo do nariz. Em tudo se vê o progresso. É verdade que o interrogatório fica um pouco longe, três corredores adiante e um andar acima, mas, em compensação, os corredores são limpos e movimentados. Levam um para cá, outro para lá, jovem, velho, homem e mulher. A pessoa fica contente de pelo menos não estar aqui sozinha. Cada um segue satisfeito seu caminho e não precisa ter medo de que, no escritório, lhe digam: ‘Então, nós deliberamos e amanhã o senhor será esquartejado ou queimado, conforme sua preferência.’ Devia ser muito difícil escolher, e penso, senhores, que muitos de nós ficariam completamente perplexos num momento desses. Pois é, hoje as condições melhoraram em nosso benefício.”

Mal acabara sua defesa do encarceramento moderno dos cidadãos, o carcereiro abriu a porta e gritou:

“Švejk, vista-se e venha para o interrogatório.”

“Eu me visto”, respondeu Švejk. “Não tenho nada contra isso, mas receio que seja algum engano. Já fui expulso uma vez do interrogatório. E também tenho medo de que os outros senhores que estão aqui comigo fiquem zangados comigo porque estou indo duas vezes seguidas ao interrogatório e eles ainda não foram nenhuma vez esta noite. Podem ficar com ciúme.”

“Saia daí e pare de tagarelar”, foi a resposta ao discurso cavalheiresco de Švejk.

Švejk encontrou-se novamente diante do senhor de tipo criminoso, que, sem qualquer introdução, perguntou-lhe com dureza e inexorabilidade:

“O senhor confessa tudo?”

Švejk fixou seus bondosos olhos azuis naquele homem implacável e disse com suavidade:

“Caso deseje, excelência, que eu confesse, eu confesso. Isso não pode me fazer mal. Mas, se disser: ‘Švejk, não confesse coisa nenhuma’, vou negar até meu corpo se despedaçar.”

O senhor severo escreveu alguma coisa nos autos e, entregando uma pena a Švejk, mandou-o assinar.

E Švejk assinou a denúncia de Bretschneider e também este adendo:

Todas as acusações acima indicadas contra mim

fundamentam-se na verdade. Josef Švejk

Depois de assinar, voltou-se para o senhor severo:

“Tenho de assinar mais alguma coisa? Ou só preciso voltar amanhã de manhã?”

“Amanhã de manhã o senhor será levado ao tribunal criminal”, recebeu como resposta.

“A que horas, excelência? Para que, pelo amor de Cristo, eu não durma demais.”

“Para fora!”, berrou pela segunda vez naquele dia uma voz do outro lado da mesa diante da qual estava.

Voltando ao seu novo lar gradeado, Švejk disse ao guarda que o acompanhava:

“Aqui tudo funciona como um relógio.”

Assim que fecharam a porta atrás dele, seus companheiros de prisão cobriram-no de perguntas, às quais Švejk respondeu com clareza:

“Acabei de confessar que provavelmente matei o arquiduque Ferdinando.”

Seis homens encolheram-se aterrorizados debaixo das cobertas cheias de piolhos. Apenas o bósnio disse:

“Dobro došli.”

Deitando-se no catre, Švejk disse:

“É uma pena não termos aqui um despertador.”

De manhã, porém, acordaram-no mesmo sem despertador e, precisamente às seis horas, levaram Švejk num camburão verde para o tribunal criminal provincial.

“Deus ajuda quem cedo madruga”, disse Švejk aos companheiros de viagem, quando o camburão verde saiu pelos portões da direção de polícia.

As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Sinopse

Edição integral em português brasileiro de As Aventuras do Bom Soldado Švejk, traduzida diretamente do original tcheco de domínio público, preservando a estrutura dos quatro livros e suas 29 unidades.

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