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As Aventuras do Bom Soldado Švejk

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As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Capítulo 26 · As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Livro III: A gloriosa surra — Em marcha, marche!

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Livro III: A gloriosa surra

Em marcha, marche!

Quando chegaram a Sanok, descobriu-se que, na verdade, os homens da carroça da cozinha de campanha do Décimo Primeiro, onde Baloun, saciado, peidava de felicidade, tinham inteira razão ao dizer que haveria jantar e que, além do jantar, seria distribuído certo pão do comissariado referente a todos aqueles dias em que o batalhão nada recebera. Descobriu-se também que, em Sanok, ao descerem dos vagões, encontrava-se o Estado-Maior da brigada de ferro à qual o batalhão do 91º Regimento pertencia segundo sua certidão de nascimento. Embora dali a ligação ferroviária estivesse intacta até abaixo de Lviv e, ao norte, até Veliké Mosty, era um verdadeiro mistério por que o Estado-Maior do setor oriental fizera aquelas disposições, determinando que a brigada de ferro, com seu Estado-Maior, concentrasse batalhões de marcha a cento e cinquenta quilômetros da retaguarda, quando naquele momento a frente seguia de Brody até o Bug e, ao longo do rio, para o norte, em direção a Sokal.

Essa interessantíssima questão estratégica foi resolvida de maneira terrivelmente simples quando o capitão Ságner foi, em Sanok, apresentar-se ao Estado-Maior da brigada e comunicar a chegada do batalhão de marcha.

O oficial de serviço era o ajudante da brigada, capitão Tayrle.

“Estou muito admirado”, disse o capitão Tayrle, “de vocês não terem recebido informações precisas. A rota de marcha está definida. Naturalmente, vocês deveriam ter-nos comunicado com antecedência a linha da marcha. Segundo as disposições do Estado-Maior, chegaram dois dias antes.”

O capitão Ságner corou um pouco, mas não lhe ocorreu repetir todos aqueles telegramas cifrados que recebera durante a viagem.

“Estou admirado com você”, disse o ajudante Tayrle.

“Pensei”, respondeu o capitão Ságner, “que todos os oficiais se tratassem por você.”

“Que seja”, disse o capitão Tayrle. “Diga, você é da ativa ou civil? Da ativa? Isso muda tudo... A gente já nem sabe mais. Passaram por aqui tantos idiotas de tenentes da reserva. Quando recuávamos de Limanowa e Krasnik, todos esses tenentes de araque perdiam a cabeça assim que viam uma patrulha de cossacos. Nós, no Estado-Maior, não gostamos desses parasitas. Um sujeito idiota com diploma pode acabar sendo incorporado à ativa ou, na vida civil, fazer o exame para oficial e continuar fazendo idiotice na vida civil; quando vem a guerra, não vira tenente, vira um cagão!”

O capitão Tayrle cuspiu e deu um tapinha confidencial no capitão Ságner:

“Vocês vão ficar aqui uns dois dias. Vou levar todos vocês para passear, vamos dançar. Temos aqui umas putinhas muito bonitas, engelhuren. Temos a filha de um general que antes cultivava o amor lésbico. Vamos todos nos vestir de mulher, e você vai ver do que ela é capaz! É uma porca tão magra que você nem imaginaria nada. Mas ela entende do assunto, camarada. É uma verdadeira cadela, afinal, você mesmo vai conhecer. Perdão!”, interrompeu-se. “Preciso vomitar de novo, já é a terceira vez hoje.”

Quando voltou, contou ao capitão Ságner, para provar como ali tudo era divertido, que aquilo eram as consequências da noite anterior, da qual também participara a seção de construção.

O capitão Ságner conheceu muito depressa o comandante dessa seção, que também tinha a patente de capitão. Entrou de repente no escritório um sujeito alto, uniformizado, com três estrelas douradas, meio atordoado e, sem notar a presença do capitão Ságner, dirigiu-se a Tayrle com toda a intimidade:

“O que está fazendo, seu porco? Ontem você deixou a nossa condessa num belo estado.”

Sentou-se numa cadeira e, batendo nas panturrilhas com uma bengalinha fina, caiu na gargalhada:

“Quando lembro de como você vomitou no colo dela...”

“Sim”, disse Tayrle, “ontem foi muito divertido.”

Só então apresentou ao capitão Ságner o oficial da bengalinha, e todos atravessaram o escritório da seção administrativa da brigada e saíram para o café que surgira de repente no lugar da antiga cervejaria.

Ao passarem pelo escritório, o capitão Tayrle pegou a bengalinha do comandante da seção de construção e bateu na comprida mesa, ao redor da qual, ao comando, formaram-se em linha doze escriturários militares. Eram adeptos do trabalho tranquilo e seguro na retaguarda do exército, com barrigas grandes e satisfeitas dentro de uniformes especiais.

E a esses doze gordos apóstolos da vadiagem, querendo exibir-se diante de Ságner e do outro capitão, o capitão Tayrle disse:

“Não pensem que mantenho vocês aqui numa engorda. Porcos! Menos comida e bebida, mais corrida. Agora vou lhes mostrar outro tipo de adestramento”, anunciou Tayrle aos companheiros.

Bateu novamente com a bengalinha na mesa e perguntou aos doze:

“Quando vocês vão estourar, seus porcos?”

Os doze responderam em uníssono:

“Conforme suas ordens, senhor capitão.”

Rindo da própria idiotice e imbecilidade, o capitão Tayrle saiu do escritório.

Quando os três estavam sentados no café, Tayrle mandou trazer uma garrafa de licor de sorva e chamar algumas senhoritas que estivessem livres. Descobriu-se que o café não era, na realidade, outra coisa senão um bordel, e, como nenhuma das senhoritas estava livre, o capitão Tayrle ficou furioso ao extremo e, no vestíbulo, cobriu a madame de palavrões, gritando para saber quem estava com a senhorita Ella. Ao receber como resposta que era um tenente, praguejou ainda mais.

Com a senhorita Ella estava o senhor tenente Dub, que, quando o batalhão de marcha já se encontrava alojado no ginásio, chamara todo o seu pelotão e os advertira, num longo discurso, de que os russos, durante a retirada, haviam fundado por toda parte bordéis com pessoal infectado por doenças venéreas, para causar, mediante esse ardil, grandes baixas ao exército austríaco. Advertia, portanto, os soldados contra a frequência a semelhantes estabelecimentos. Ele próprio iria pessoalmente verificar nas casas se sua ordem fora desobedecida, pois já se encontravam na zona da frente; todo aquele que fosse apanhado seria levado à corte marcial.

O tenente Dub foi verificar pessoalmente se sua ordem fora violada e, por isso, provavelmente escolheu como ponto de partida de sua inspeção o sofá do quartinho de Ella, no primeiro andar do chamado “café municipal”, sofá no qual se divertia muitíssimo.

Nesse meio-tempo, o capitão Ságner já voltara para junto de seu batalhão. A companhia de Tayrle fora dissolvida. Procuravam pelo capitão Tayrle na brigada, onde o brigadeiro já fazia mais de uma hora que buscava o ajudante. Haviam chegado novas ordens da divisão e era preciso definir de modo definitivo a rota de marcha do recém-chegado 91º Regimento, pois, segundo as novas disposições, o batalhão de marcha do 102º Regimento deveria seguir pela direção que fora originalmente destinada a ele.

Tudo estava muito confuso. Os russos recuavam com grande rapidez pela ponta nordeste da Galícia, de modo que algumas unidades austríacas se misturavam umas com as outras, enquanto, em certos pontos, unidades do exército alemão penetravam entre elas como cunhas. Completavam esse caos a chegada à frente de novos batalhões de marcha e de outras formações militares. O mesmo acontecia nos setores da frente situados ainda mais à retaguarda, como ali em Sanok, onde haviam chegado de repente as reservas de uma divisão alemã de Hanôver, sob o comando de um coronel de olhar tão desagradável que o brigadeiro ficou completamente desnorteado. O coronel das reservas da divisão de Hanôver apresentava as disposições de seu Estado-Maior, segundo as quais devia alojar seus homens no ginásio onde, naquele exato momento, estavam instalados os homens do 91º. Para acomodar seu Estado-Maior, exigia a desocupação do prédio do Banco de Cracóvia, no qual se encontrava justamente o Estado-Maior da brigada.

O brigadeiro comunicou-se diretamente com a divisão e descreveu com exatidão a situação; em seguida, o assustador hanoveriano falou com a divisão, em consequência do que chegou à brigada a seguinte ordem:

“A brigada deixa a cidade às seis horas da tarde pela rota Turowa-Wolska, Liskowiec, Starasol, Sambor, onde receberá novas ordens. Junto com ela parte o batalhão de marcha do 91º, constituindo a proteção, distribuição a ser elaborada pela brigada conforme o esquema: a vanguarda parte às cinco e meia para Turowa, distância de três quilômetros e meio entre a proteção lateral sul e a norte. A retaguarda parte às seis e quinze!”

Assim, instalou-se uma grande agitação no ginásio, e faltava à reunião dos oficiais do batalhão apenas o tenente Dub, que Švejk recebeu ordem de procurar.

“Espero”, disse-lhe o primeiro-tenente Lukáš, “que o encontre sem nenhuma dificuldade, porque vocês dois sempre têm alguma coisa entre si.”

“Obedientemente comunico, senhor primeiro-tenente, que peço uma ordem escrita da companhia. É justamente por causa disso, de sempre haver alguma coisa entre nós.”

Enquanto o primeiro-tenente Lukáš copiava em uma folha destacada de seu caderno a ordem para que o tenente Dub se apresentasse imediatamente no ginásio para a reunião, Švejk continuava informando:

“Sim, senhor primeiro-tenente, pode ficar tranquilo, como sempre. Vou encontrá-lo, porque os soldados estão proibidos de ir ao bordel, e ele com certeza estará em algum, para verificar se nenhum homem do pelotão dele quer acabar diante da corte marcial, coisa com que costuma ameaçar. Ele mesmo declarou diante da tropa do pelotão que ia percorrer todos os bordéis e que depois ia ser uma desgraça, e eles conheceriam o lado ruim dele. Aliás, eu sei onde ele está. É justamente aqui em frente, naquele café, porque a tropa toda ficou olhando para onde ele foi primeiro.”

As “Salas de Diversões Reunidas e Café Municipal”, estabelecimento a que Švejk se referia, também se dividiam em duas partes. Quem não queria passar pelo café entrava pelos fundos, onde alguma velha senhora se aquecia ao sol e falava alemão, polonês e húngaro, mais ou menos nestes termos:

“Entre, soldadinho, temos aqui umas senhoritas bonitas.”

Quando o soldadinho entrava, ela o conduzia pelo corredor até uma espécie de vestíbulo de recepção e chamava uma das senhoritas, que vinha correndo imediatamente, de camisola. Primeiro queria o dinheiro, quantia que a madame recebia ali mesmo, enquanto o soldadinho desafivelava a baioneta.

Os oficiais entravam pelo café. O caminho dos senhores oficiais era mais melancólico, pois passava pelas chambres séparées dos fundos, onde havia uma seleção do segundo grupo, destinado às patentes de oficial, e onde se usavam camisolinhas de renda e se bebia vinho ou licores. A madame também não permitia nada ali; tudo acontecia no andar de cima, nos quartinhos, onde, em um desses paraísos cheios de percevejos, o tenente Dub se esparramava de ceroulas sobre um divã, enquanto a senhorita Ella lhe contava a tragédia inventada de sua vida, como sempre acontece nesses casos: seu pai fora industrial, ela fora professora num liceu de Peste e acabara fazendo aquilo por causa de um amor infeliz.

Atrás do tenente Dub, ao alcance da mão, havia sobre uma mesinha uma garrafa de licor de sorva e copos. Como a garrafa estava pela metade e Ella e o tenente Dub já falavam coisas sem sentido, ficava provado de maneira irrefutável que o tenente Dub não aguentava bebida nenhuma. Por sua fala, percebia-se que já confundira tudo e tomava Ella por seu ordenança Kunert; chamava-a assim e ameaçava o suposto Kunert do modo habitual:

“Kunert, Kunert, sua besta, espere até conhecer meu lado ruim...”

Švejk deveria ser submetido ao mesmo procedimento que todos os demais soldadinhos que entravam pelos fundos, mas desvencilhou-se gentilmente de uma moça de camisola, e, aos gritos dela, apareceu correndo a madame polonesa, que negou descaradamente, na cara de Švejk, que tivessem ali como hóspede qualquer senhor tenente.

“Não grite tanto comigo, madame”, disse Švejk amavelmente, sorrindo com doçura, “senão lhe meto a mão na cara. Uma vez, lá na rua Platnéřská, deram uma surra numa madame que ela ficou sem saber nem quem era. Foi quando um filho apareceu procurando o pai, um tal de Vondráček, que tinha comércio de pneus. A madame se chamava Křovánová, mas, quando conseguiram fazê-la voltar a si e perguntaram no posto de socorro qual era o nome dela, respondeu que era alguma coisa com Ch. E qual é o seu respeitável nome?”

A venerável matrona pôs-se a berrar horrivelmente quando Švejk, depois dessas palavras, afastou-a com um empurrão e começou a subir com gravidade a escada de madeira para o primeiro andar.

Embaixo apareceu o próprio dono do bordel, um fidalgo polonês empobrecido, que correu atrás de Švejk pela escada e começou a puxá-lo pela blusa, gritando em alemão que soldados não podiam subir, que lá em cima era para os senhores oficiais e que para a tropa era lá embaixo.

Švejk advertiu-o de que vinha ali no interesse de todo o exército, de que procurava um senhor tenente sem o qual o exército não poderia partir para a campanha e, como o homem se mostrava cada vez mais agressivo, derrubou-o escada abaixo e prosseguiu lá em cima na inspeção dos aposentos. Verificou que todos os quartinhos estavam vazios, até que, bem no fim da galeria, depois de bater, pegar na maçaneta e entreabrir a porta, ouviu a voz esganiçada de Ella:

“Besetzt!”

E, logo em seguida, a voz profunda do tenente Dub, que talvez imaginasse ainda estar em seu quarto no acampamento:

“Herein!”

Švejk entrou, aproximou-se do divã e, entregando ao tenente Dub o pedaço de papel arrancado do bloco com a cópia, informou, olhando de esguelha para as peças do uniforme espalhadas num canto da cama:

“Humildemente informo, senhor tenente, que o senhor deve se vestir e se apresentar imediatamente, conforme essa ordem que estou lhe entregando, no nosso quartel instalado no ginásio. Vamos ter lá uma grande conferência militar!”

O tenente Dub arregalou para ele os olhos de pupilas minúsculas, mas lembrou-se de que, afinal, não estava tão bêbado a ponto de não reconhecer Švejk. Ocorreu-lhe imediatamente que haviam mandado Švejk apresentar-se a ele para o relatório, e por isso disse:

“Agora mesmo eu acerto as contas com você, Švejk. Você vai ver... como... isso... vai... acabar para você... Kunerte”, gritou para Ella, “sirva... mais... uma... para mim!”

Bebeu e, rasgando a ordem escrita, ria:

“Isto é... uma justificativa? Aqui... não... aceitamos justificativa nenhuma. Estamos... no... exército... e não... na escola. Então... pegaram... você... no bordel? Chegue... mais... perto... Švejk... que eu vou... lhe dar... umas... bofetadas. Em... que... ano... Filipe da Macedônia... derrotou... os romanos, isso você... não sabe... seu... garanhão!”

“Humildemente informo, senhor tenente”, prosseguiu Švejk, implacável, “que é uma ordem suprema da brigada para os senhores oficiais se vestirem e irem à bešprechunk do batalhão, porque nós vamos partir e só agora é que vão decidir qual companhia será vorhut, sajtnhút ou nachhut. Vão decidir isso agora mesmo, e eu acho, senhor tenente, que o senhor também tem alguma coisa a dizer a respeito.”

Esse discurso diplomático reanimou um pouco o tenente Dub, que começou então a adquirir a certeza de que não estava no quartel, mas, ainda por precaução, perguntou:

“Onde estou?”

“O senhor tem a honra de estar num bordel, senhor tenente. Os caminhos do Senhor são mesmo variados.”

O tenente Dub suspirou pesadamente, desceu do divã e começou a procurar o uniforme, no que Švejk o ajudou. Quando enfim se vestiu, os dois saíram, mas dali a pouco Švejk voltou num instante e, sem dar atenção a Ella, que atribuiu ao retorno dele um significado completamente diferente e, por amor infeliz, já estava subindo na cama, bebeu depressa o resto do licor de sorva da garrafa e tornou a alcançar o tenente.

Na rua, o tenente Dub voltou a ficar de cabeça virada, porque fazia um calor enorme. Dizia a Švejk os mais variados disparates, sem conexão alguma. Falou que tinha em casa um selo postal de Helgoland e que, logo depois de terminarem os exames finais, foram jogar bilhar e não cumprimentaram o professor da turma. A cada frase acrescentava:

“Creio que o senhor me compreende perfeitamente.”

“Claro que o compreendo por completo”, respondeu Švejk. “O senhor fala igual ao funileiro Pokorný, de Budějovice. Quando as pessoas perguntavam a ele: ‘O senhor já tomou banho este ano no Malše?’, ele respondia: ‘Não tomei, mas em compensação este ano vai dar muita ameixa.’ Ou perguntavam: ‘Já comeu cogumelos este ano?’, e ele respondia: ‘Não comi, mas dizem que esse novo sultão do Marrocos é um homem muito bom.’”

O tenente Dub parou e conseguiu dizer:

“O sultão do Marrocos? É uma grandeza ultrapassada.”

Enxugou o suor da testa e, olhando para Švejk com os olhos turvos, resmungou:

“Nem no inverno suei desse jeito. O senhor concorda? Está me entendendo?”

“Estou entendendo, senhor tenente. Lá na nossa taberna do Cálice aparecia um senhor de idade, um conselheiro aposentado do comitê provincial, que afirmava exatamente isso. Ele sempre dizia que não entendia como podia haver tanta diferença entre a temperatura do verão e a do inverno. Achava muito estranho que as pessoas ainda não tivessem descoberto o motivo.”

No portão do ginásio, Švejk deixou o tenente Dub, que subiu cambaleando pela escada até a sala dos professores, onde se realizava a conferência militar, e informou imediatamente ao capitão Ságner que ele estava completamente bêbado. Durante toda a conferência, o tenente ficou sentado de cabeça baixa e, no meio dos debates, levantava-se de vez em quando para exclamar:

“A opinião dos senhores está correta, cavalheiros, mas estou completamente bêbado.”

Quando todas as disposições foram elaboradas e ficou decidido que a companhia do primeiro-tenente Lukáš seguiria como guarda avançada, o tenente Dub estremeceu de repente, levantou-se e disse:

“Lembro-me, cavalheiros, do nosso professor da primeira série. Glória a ele, glória a ele, glória a ele!”

O primeiro-tenente Lukáš achou que o melhor seria mandar provisoriamente o ordenança Kunert instalar o tenente Dub no gabinete de física ao lado, cuja porta era vigiada para impedir que alguém terminasse de roubar as coleções de minerais, já meio saqueadas. A brigada sempre advertia sobre isso as unidades que passavam em marcha pelo lugar.

Essa medida datava da época em que um batalhão de honvéds alojado no ginásio começara a saquear o gabinete. Os honvéds gostaram sobretudo da coleção de minerais, dos cristais coloridos e das piritas, que enfiaram nas mochilas.

No cemitério militar, há também, numa das cruzes brancas, a inscrição “László Gargany”. Ali dorme o sono eterno um honvéd que, durante aquele saque das coleções do ginásio, bebeu todo o álcool desnaturado do recipiente onde estavam conservados vários répteis.

A guerra mundial exterminava o gênero humano até mesmo com aguardente de cobra.

Quando todos já haviam saído, o primeiro-tenente Lukáš mandou chamar Kunert, o ordenança do tenente Dub, que conduziu seu tenente e o deitou no sofá.

De repente, o tenente Dub ficou como uma criancinha. Pegou Kunert pela mão e começou a examinar-lhe a palma, dizendo que adivinharia por ela o nome de sua futura esposa.

“Como é mesmo o seu nome? Tire do bolso do peito da minha blusa o caderninho e o lápis. Então seu nome é Kunert. Volte aqui daqui a um quarto de hora e deixarei para você um papel com o nome de sua senhora esposa.”

Mal terminou de falar e começou a roncar, mas de algum modo tornou a despertar e pôs-se a rabiscar no caderno. Tudo o que escrevia, arrancava, jogava no chão e, levando misteriosamente um dedo aos lábios, disse com a língua enrolada:

“Agora ainda não. Só daqui a um quarto de hora. O melhor é procurar o papel de olhos vendados.”

Kunert era um animal tão bonzinho que voltou de fato quinze minutos depois e, ao desdobrar o papel, leu nos garranchos do tenente Dub:

“O nome de sua futura esposa será: senhora Kunert.”

Quando, pouco depois, mostrou aquilo a Švejk, Švejk disse que guardasse muito bem o papel, porque todo mundo devia dar valor a documentos como aquele, vindos de senhores militares. Antigamente, no serviço ativo, não acontecia de um oficial se corresponder com o ordenança e chamá-lo de senhor.

Quando foram concluídos os preparativos para a partida, conforme as disposições estabelecidas, o general de brigada, que o coronel hanoveriano expulsara de maneira tão bonita, mandou reunir todo o batalhão no quadrado habitual e fez um discurso. Aquele homem gostava muito de discursar, misturava alhos com bugalhos e, quando já não tinha mais nada a dizer, lembrou-se ainda do correio de campanha:

“Soldados”, trovejou sua voz dentro do quadrado. “Agora nos aproximamos da frente inimiga, da qual nos separam algumas jornadas de marcha. Até o momento, em sua marcha, vocês, soldados, não tiveram oportunidade de comunicar aos seus entes queridos, que deixaram para trás, seus endereços, para que seus entes distantes soubessem para onde devem escrever, a fim de que vocês se alegrem com as cartas de seus queridos sobreviventes.”

De algum modo não conseguia sair daquilo e repetiu inúmeras vezes:

“Queridos distantes, caros parentes, queridos sobreviventes”,

e assim por diante, até que finalmente rompeu aquele círculo com uma exclamação poderosa:

“É para isso que temos os feldposts na frente!”

O restante do discurso fazia parecer que toda aquela gente de uniforme cinzento devia deixar-se matar com a maior alegria unicamente porque havia feldposts organizados na frente e que, quando uma granada arrancasse as duas pernas de alguém, devia ser uma beleza morrer pensando que seu feldpost tinha o número 72 e que talvez ali estivesse uma carta de casa, enviada pelos entes queridos distantes, junto com um pacote contendo um pedaço de carne defumada, toucinho e biscoitos caseiros.

Depois do discurso, quando a banda da brigada tocou o hino imperial, deram vivas ao imperador, e os vários grupos daquele gado humano destinado ao matadouro em algum lugar além do Bug começaram sucessivamente a marcha, conforme as disposições recebidas.

A 11ª companhia partiu às cinco e meia para Turowa-Wolska. Švejk seguia atrás com o Estado-Maior da companhia e o pessoal sanitário, enquanto o primeiro-tenente Lukáš cavalgava ao longo de toda a coluna, voltando a cada instante para verificar, junto aos enfermeiros, o carrinho onde transportavam o tenente Dub sob uma lona rumo a novos feitos heroicos num futuro desconhecido, e também para encurtar a viagem conversando com Švejk, que carregava pacientemente a mochila e o fuzil, contando ao sargento-contador Vaněk como, anos antes, se marchava tão bem nas manobras perto de Velké Meziříčí.

“Era uma região exatamente igual a esta, só que nós não avançávamos tão feldmäßig, porque naquela época nem sabíamos ainda o que eram conservas de reserva. Quando recebíamos alguma lata de conserva, o nosso pelotão a devorava logo no primeiro pouso, e no lugar dela púnhamos um tijolo na mochila. Numa aldeia houve uma inspeção, tiraram todos os tijolos das nossas mochilas e havia tantos que depois um homem construiu com eles uma casa para a família.”

Pouco depois, Švejk caminhava com firmeza ao lado do cavalo do primeiro-tenente Lukáš e falava sobre os feldposts:

“Foi bonito aquele discurso e certamente todo mundo fica muito contente quando recebe no exército uma carta bonita de casa. Mas eu, quando servi anos atrás em Budějovice, só recebi uma carta no quartel, e ainda guardo ela.”

Švejk tirou de uma bolsa de couro encardida uma carta engordurada e começou a ler, acompanhando o passo do cavalo do primeiro-tenente Lukáš, que iniciou um trote moderado:

“Seu miserável, seu assassino e canalha! O senhor cabo Kříž veio a Praga de licença e dancei com ele na casa dos Kocan, e ele me disse que você anda dançando em Budějovice, no Sapo Verde, com uma vaca idiota e que já me abandonou completamente. Para você ficar sabendo, estou escrevendo esta carta na privada, em cima da tábua ao lado do buraco. Entre nós acabou. Sua ex-Božena. Para não esquecer, aquele cabo sabe fazer as coisas e ainda vai perseguir você, porque pedi isso a ele. E, para não esquecer outra coisa, você não vai mais me encontrar entre os vivos quando vier de licença.

“É claro”, continuou Švejk, acompanhando o trote moderado, “que, quando fui de licença, ela estava entre os vivos, e no meio de vivos de que tipo. Também encontrei ela na casa dos Kocan. Dois soldados de outro regimento estavam vestindo ela, e um deles estava tão vivo que metia a mão, em plena vista de todo mundo, por baixo do corpete dela, como se quisesse, humildemente informo, senhor primeiro-tenente, tirar de lá o pólen da inocência dela, como diz Věnceslava Lužická, ou como falou uma vez, mais ou menos do mesmo jeito, uma mocinha de uns dezesseis anos, numa aula de dança, a um aluno do ginásio, chorando em voz alta depois que ele beliscou o braço dela: ‘O senhor apagou o pólen da minha virgindade!’ Claro que todo mundo riu, e a mãezinha dela, que estava ali tomando conta, levou a menina para o corredor do Beseda e deu uma surra naquela pata choca.

“Cheguei à conclusão, senhor primeiro-tenente, de que as moças do interior são mais sinceras do que essas senhoritas da cidade, todas esticadas, que frequentam aula de dança. Quando, anos atrás, estávamos acampados em Mníšek, eu ia dançar em Starý Knín e arranjei lá uma tal de Karla Veklová, mas ela não gostava muito de mim. Numa noite de domingo, acompanhei ela até um laguinho. Sentamos no dique e, enquanto o sol se punha, perguntei se ela também gostava de mim. Humildemente informo, senhor primeiro-tenente, que o ar estava tão úmido, todos os passarinhos cantavam, e ela me respondeu com uma risada medonha: ‘Gosto de você como gosto de palha picada no cu, seu imbecil.’

“E eu era mesmo imbecil, tão terrivelmente imbecil que antes, humildemente informo, senhor primeiro-tenente, passeava com ela pelos campos, entre os cereais altos, num lugar onde não havia viva alma. Nunca nem chegamos a sentar, e eu só ficava mostrando para aquela bênção de Deus e, feito um idiota, explicava para a camponesa que aquilo era centeio, aquilo era trigo e aquilo era aveia.”

E, como se confirmassem aquela aveia, ouviam-se, em algum ponto mais adiante, as vozes reunidas dos soldados da companhia, prosseguindo a canção com a qual os regimentos tchecos já haviam marchado para sangrar pela Áustria em Solferino:

E quando deu meia-noite,
a aveia saltou do saco,
župajdijá, župajdá,
toda moça dá!

Ao que outros voltaram a responder:

E dá, e dá, e dá,
e por que não daria?
E vai lhe dar dois beijinhos,
um em cada bochechinha.
Župajdijá, župajdá,
toda moça dá!
E dá, e dá, e dá,
e por que não daria...

Depois, os alemães começaram a cantar a mesma canção em alemão.

Era uma canção militar tão antiga que talvez já tivesse sido cantada em todas as línguas pela soldadesca nas batalhas napoleônicas. Agora ressoava alegremente pela estrada poeirenta rumo a Turowa-Wolska, na planície da Galícia, onde, dos dois lados da estrada, até as colinas verdes ao sul, os campos estavam pisoteados e destruídos sob os cascos dos cavalos e as solas de milhares e milhares de pesadas botas militares.

“Uma vez fizemos uma coisa parecida”, comentou Švejk, olhando em volta, “nas manobras perto de Písek. Havia com a gente um senhor arquiduque. Era um homem tão justo que, quando cavalgava com o Estado-Maior pelo meio das plantações, por motivos estratégicos, logo atrás dele vinha o ajudante calculando todo o prejuízo. Um tal de camponês Pícha não ficou nada satisfeito com a visita e não aceitou do governo as dezoito coroas de indenização por cinco medidas de terra pisoteada. Quis entrar na justiça, senhor primeiro-tenente, e por isso pegou dezoito meses.

“Eu acho, senhor primeiro-tenente, que ele devia ter ficado contente por alguém da família imperial visitar as terras dele. Outro camponês, que tivesse consciência cívica, vestiria todas as filhas de branco, como damas de honra, daria buquês para elas e as distribuiria pelo terreno, e cada uma teria de saudar o grande senhor, como li que faziam na Índia, onde os súditos de certo soberano se deixavam esmagar pelo elefante dele.”

“Do que está falando, Švejk?”, gritou para ele o primeiro-tenente Lukáš, de cima do cavalo.

“Humildemente informo, senhor primeiro-tenente, que estou falando do elefante que carregava nas costas aquele soberano sobre quem li.”

“Desde que você saiba explicar tudo corretamente, Švejk”, disse o primeiro-tenente Lukáš, e cavalgou para a frente.

Ali a coluna já começava a se desfazer. A marcha desacostumada depois do repouso no trem, com equipamento completo e em perfeita ordem, fazia os ombros de todos começarem a doer, e cada qual procurava aliviar-se como podia. Passavam os fuzis de um lado para o outro. A maioria já não os carregava pela bandoleira, mas atravessados como ancinhos ou forcados. Alguns achavam que seria mais confortável caminhar pela vala ou pelas margens, onde o solo lhes parecia mais macio sob os pés do que a estrada poeirenta.

A maioria caminhava de cabeça baixa e todos sofriam de uma sede enorme, pois, embora o sol já tivesse se posto, continuava o mesmo abafamento e o mesmo calor do meio-dia, e ninguém tinha uma única gota de água no cantil. Era o primeiro dia de marcha, e aquela situação desacostumada, que de certo modo servia de entrada para sofrimentos cada vez maiores, deixava todos progressivamente mais apáticos e exaustos.

Também pararam de cantar e começaram a calcular entre si quanto ainda faltaria até Turowa-Wolska, onde imaginavam que passariam a noite. Alguns sentavam-se na vala e, para disfarçar, desamarravam as botas, assumindo à primeira vista a aparência de quem havia enrolado mal as faixas dos pés e tentava arrumá-las de maneira que não apertassem durante o restante da marcha. Outros encurtavam ou alongavam a bandoleira do fuzil, ou abriam a mochila e mudavam de lugar os objetos guardados nela, convencendo a si mesmos de que faziam aquilo para distribuir corretamente a carga e impedir que as correias puxassem um ombro mais do que o outro.

Quando o primeiro-tenente Lukáš se aproximava, levantavam-se e informavam que alguma coisa os estava apertando ou apresentavam desculpas semelhantes, caso os cadetes ou sargentos, ao avistarem de longe a égua do primeiro-tenente Lukáš, não os tivessem obrigado antes a seguir adiante.

Passando por eles, o primeiro-tenente Lukáš os incentivava com toda a amabilidade a se levantar, dizendo que faltavam apenas três quilômetros até Turowa-Wolska e que lá haveria descanso.

Enquanto isso, o tenente Dub voltou a si graças aos sacolejos contínuos do carrinho sanitário de duas rodas. Ainda não recobrara completamente os sentidos, mas já conseguia se erguer, inclinar-se para fora do carrinho e gritar para o Estado-Maior da companhia, que caminhava livremente ao redor, pois todos, desde Baloun até Chodounský, haviam colocado as mochilas no veículo.

Somente Švejk seguia destemidamente adiante com a mochila nas costas, o fuzil atravessado no peito à maneira dos dragões, preso pela bandoleira, fumando o cachimbo e cantando durante a marcha:

Quando marchamos para Jaroměř,
acredite quem quiser,
chegamos lá bem na hora do jantar...

Mais de quinhentos passos à frente do tenente Dub, erguiam-se pela estrada rolos de poeira, dos quais emergiam as figuras dos soldados. O tenente Dub, tomado outra vez pelo entusiasmo, inclinou a cabeça para fora do carrinho e começou a berrar em direção à poeira da estrada:

“Soldados, sua elevada missão é difícil! Esperam por vocês marchas penosas, escassez de toda espécie e provações de todos os tipos. Mas encaro com plena confiança sua resistência e sua força de vontade.”

“Seu cuzão”, improvisou Švejk em versos.

O tenente Dub prosseguiu:

“Para vocês, soldados, não existe obstáculo tão poderoso que não possam superá-lo! Repito mais uma vez, soldados, que não os conduzo a uma vitória fácil. Será um osso duro de roer, mas vocês conseguirão! A história dos séculos há de celebrá-los.”

“Enfia o dedo na garganta”, tornou a versejar Švejk.

E, como se tivesse obedecido, o tenente Dub começou de repente a vomitar, com a cabeça pendida, na poeira da estrada. Depois de pôr tudo para fora, ainda gritou:

“Soldados, avante!”

E tornou a desabar sobre a mochila do telegrafista Chodounský, dormindo até Turowa-Wolska, onde finalmente o colocaram de pé e o retiraram do veículo por ordem do primeiro-tenente Lukáš, que precisou manter com ele uma conversa muito longa e muito difícil antes que o tenente Dub se recompusesse o suficiente para finalmente declarar:

“Julgando logicamente, cometi uma estupidez, que compensarei diante da face do inimigo.”

É claro que ainda não estava completamente em si, pois, ao se afastar rumo à sua formação, disse ao primeiro-tenente Lukáš:

“O senhor ainda não me conhece, mas vai conhecer!”

“Pode informar-se com Švejk sobre o que andou fazendo.”

Assim, antes de se dirigir à sua formação, o tenente Dub foi procurar Švejk, que encontrou na companhia de Baloun e do sargento-contador Vaněk.

Baloun contava naquele momento que, lá no moinho de sua família, sempre mantinha uma garrafa de cerveja dentro do poço. A cerveja ficava tão gelada que fazia os dentes doerem. Nos outros moinhos, dizia ele, à noite bebiam aquela cerveja junto com rozhuda, mas ele, em sua gula, pela qual Deus agora o castigava, sempre engolia ainda depois da rozhuda um bom pedaço de carne.

Agora a justiça divina o castigava com a água morna e fedorenta dos poços de Turowa-Wolska, na qual todos tinham de jogar ácido cítrico por causa da cólera. O ácido acabava de ser distribuído, quando a água dos poços fora fornecida aos pelotões.

Baloun manifestou a opinião de que aquele ácido cítrico certamente se destinava a fazer as pessoas morrerem de fome. Era verdade que em Sanok ele havia comido um pouco, que até o primeiro-tenente Lukáš tornara a lhe ceder metade de uma porção inteira de vitela que recebera da brigada, mas era terrível, porque imaginava que, ao chegarem ali e haver rast com pernoite, tornariam a cozinhar alguma coisa.

Ficara até convencido disso ao ver os cozinheiros de campanha recolhendo água para os caldeirões. Foi imediatamente perguntar nas cozinhas o que estava acontecendo, e responderam-lhe que só havia ordem para recolher água por enquanto, e que dali a pouco poderia chegar outra ordem mandando despejá-la novamente.

Foi nesse momento que o tenente Dub chegou e, como estava muito inseguro consigo mesmo, perguntou:

“Estão se divertindo?”

“Estamos nos divertindo, senhor tenente”, respondeu Švejk por todos. “Aqui a diversão está a todo vapor. No geral, o melhor é sempre se divertir bastante. Agora mesmo estamos nos divertindo com ácido cítrico. Nenhum soldado pode ficar sem diversão, porque assim pelo menos esquece melhor todas as provações.”

O tenente Dub mandou que Švejk caminhasse um pouco com ele, pois queria perguntar uma coisa. Quando ficaram afastados, disse-lhe com uma voz terrivelmente insegura:

“Vocês não estavam falando de mim?”

“Não, jamais, senhor tenente. Só estávamos falando do ácido cítrico e da carne defumada.”

“O primeiro-tenente Lukáš me disse que parece que andei fazendo alguma coisa e que você sabe muito bem do que se trata, Švejk.”

Švejk disse, com toda a seriedade e ênfase: “O senhor não fez nada, senhor tenente, só estava visitando uma casa de má fama. Mas deve ter sido algum engano. Também viviam procurando o funileiro Pimper, da pracinha Kozí, quando ele ia à cidade comprar folha de metal, e sempre acabavam encontrando o homem num lugar parecido, ou na casa dos Suhý, ou na dos Dvořák, assim como eu encontrei o senhor. Embaixo havia um café e, no nosso caso, em cima ficavam as moças. O senhor, senhor tenente, provavelmente se enganou a respeito de onde estava, porque fazia calor, e quando uma pessoa não está acostumada a beber, num calor desses se embebeda até com rum comum, quanto mais o senhor com licor de sorva, senhor tenente. Então recebi ordem de lhe entregar o convite para o bešprechunk antes de partirmos, e também o encontrei lá em cima com aquela moça; por causa do calor e do licor de sorva, o senhor nem me reconheceu e estava deitado no canapé, sem roupa. Não fez nenhuma arruaça, nem disse ‘O senhor ainda não me conhece’, mas uma coisa dessas pode acontecer com qualquer um quando faz calor. Tem gente que sofre terrivelmente com isso, e tem gente que cai numa dessas como cego em tiroteio. Se o senhor tivesse conhecido o velho Vejvoda, mestre de obras de Vršovice, ele meteu na cabeça, senhor tenente, que não beberia nenhuma bebida capaz de embebedá-lo. Então tomou mais um trago para a viagem e saiu de casa à procura dessas bebidas sem álcool. Primeiro parou na taberna Na zastávce, tomou ali um quarto de litro de vermute e começou a perguntar discretamente ao taberneiro o que afinal bebiam os abstêmios. Ele raciocinava, com toda a razão, que água pura era uma bebida severa demais até para abstêmios. O taberneiro lhe explicou que os abstêmios bebiam água com gás, limonadas, leite e depois vinhos sem álcool, caldo frio e outras bebidas destituídas de espírito. De tudo isso, o velho Vejvoda gostou mais da ideia dos vinhos destituídos de espírito. Perguntou ainda se também havia aguardentes destituídas de espírito, bebeu mais um quarto de litro, conversou com o taberneiro sobre como era realmente um pecado ficar se embebedando com frequência, ao que o taberneiro lhe disse que suportava tudo neste mundo, menos um sujeito bêbado que se embebedava em outro lugar e depois aparecia ali para ficar sóbrio com uma garrafa de água com gás e ainda arranjava confusão. ‘Embebede-se aqui comigo’, dizia o taberneiro, ‘aí você é dos meus; do contrário, nem conheço você.’ O velho Vejvoda terminou de beber e seguiu adiante, até chegar, senhor tenente, à praça Karlovo, numa loja de vinhos que também frequentava às vezes, e perguntou se tinham vinhos destituídos de espírito. ‘Vinhos destituídos de espírito nós não temos, senhor Vejvoda’, disseram a ele, ‘mas temos vermute ou xerez.’ O velho Vejvoda ficou meio envergonhado, tomou ali um quarto de litro de vermute e outro de xerez e, enquanto estava sentado, travou conhecimento, senhor tenente, com outro sujeito que também era abstêmio. Uma palavra puxou a outra, beberam mais um quarto de litro de xerez cada um e, por fim, chegaram à conclusão de que aquele senhor conhecia um lugar onde serviam vinhos destituídos de espírito. ‘Fica na rua Bolzánova, desce-se por uma escada e eles têm um gramofone.’ Por essa boa notícia, o velho Vejvoda mandou pôr uma garrafa inteira de vermute na mesa e depois os dois partiram para a rua Bolzánova, onde se descia por uma escada e onde havia um gramofone. E, de fato, ali só serviam vinhos de frutas, não apenas destituídos de espírito, mas até sem álcool. Primeiro cada um tomou meio litro de vinho de groselha-espim, depois meio litro de vinho de groselha e, quando ainda beberam mais meio litro de vinho de groselha-espim destituído de espírito, as pernas deles começaram a formigar por causa de todo aquele vermute e xerez de antes, e começaram a gritar para que lhes trouxessem uma certidão oficial atestando que aquilo que estavam bebendo era vinho destituído de espírito. Que eles eram abstêmios e, se não trouxessem a certidão imediatamente, estraçalhariam tudo ali, inclusive o gramofone. Depois os policiais tiveram de arrastar os dois escada acima até a rua Bolzánova, tiveram de metê-los no camburão e jogá-los na separação, e ambos acabaram condenados por embriaguez na condição de abstêmios.”

“Por que está me contando isso?”, gritou o tenente Dub, que, com esse discurso, ficara completamente sóbrio.

“Respeitosamente informo, senhor tenente, que isso na verdade não tem nada que ver com o assunto, mas já que estamos aqui conversando...”

Naquele instante, ocorreu ao tenente Dub que Švejk o insultara outra vez, pois já se achava de algum modo inteiramente senhor de si, e gritou para ele: “Um dia você vai me conhecer! Que jeito é esse de ficar em pé?”

“Respeitosamente informo que estou em pé do jeito errado. Respeitosamente informo que esqueci de juntar os calcanhares. Vou fazer isso agora mesmo.”

Švejk tornou a ficar na mais perfeita posição de sentido.

O tenente Dub pensou no que mais poderia dizer, mas por fim limitou-se a declarar: “Tome cuidado comigo, para eu não ter de lhe dizer isso pela última vez”, acrescentando, como correção de seu velho provérbio: “Você ainda não me conhece, mas eu conheço você.”

Ao afastar-se de Švejk, o tenente Dub pensou, em meio à ressaca: “Talvez tivesse surtido mais efeito se eu lhe dissesse: Eu, meu rapaz, há muito tempo já conheço o seu lado ruim.”

Depois o tenente Dub mandou chamar seu ordenança Kunert e ordenou-lhe que arranjasse uma jarra de água.

Em honra de Kunert, diga-se que ele procurou por muito tempo, por toda Turowa-Wolska, tanto a jarra quanto a água.

Por fim conseguiu roubar a jarra do pároco local e encheu-a com água de um poço inteiramente tapado por tábuas. Para isso, naturalmente, teve de arrancar algumas delas, pois o poço fora protegido daquele modo porque a água era suspeita de transmitir tifo.

O tenente Dub, contudo, bebeu a jarra inteira sem nenhuma consequência posterior, confirmando assim o provérbio: “Porco bom aguenta qualquer coisa.”

Todos se enganavam redondamente ao supor que talvez passassem a noite em Turowa-Wolska. O primeiro-tenente Lukáš chamou o telefonista Chodounský, o sargento-contador Vaněk, o mensageiro da companhia Švejk e Baloun. As ordens eram simples. Todos deixariam o equipamento junto ao serviço sanitário, partiriam imediatamente para Malý Polanec por um caminho de terra e depois seguiriam ao longo do riacho, descendo em direção sudeste até Liskowiec.

Švejk, Vaněk e Chodounský seriam os encarregados dos alojamentos. Todos deveriam providenciar pouso para a companhia, que chegaria uma hora, no máximo uma hora e meia, depois deles. Enquanto isso, Baloun deveria mandar assar um ganso no lugar onde ele, o primeiro-tenente Lukáš, passaria a noite, e os outros três precisariam ficar de olho em Baloun para que não comesse metade da ave. Além disso, Vaněk e Švejk deveriam comprar um porco para a companhia, calculando a quantidade de carne necessária para todo o efetivo. À noite seria preparado um goulash. Os alojamentos da tropa precisavam ser decentes; deveriam evitar casebres infestados de piolhos, para que os homens descansassem devidamente, pois a companhia partiria de Liskowiec já às seis e meia da manhã, passando por Kroscienka rumo a Starasol.

O batalhão, com efeito, já não estava pobre. A intendência da brigada em Sanok pagara ao batalhão adiantamentos para futuras matanças de animais. Havia mais de cem mil coroas no caixa da companhia, e o sargento-contador Vaněk já recebera ordem de, quando estivessem instalados em algum lugar, o que significava nas trincheiras, diante da morte da companhia, fazer as contas e pagar à tropa os valores incontestavelmente devidos pelo pão do comissariado e pela ração militar não fornecidos.

Enquanto os quatro se preparavam para partir, apareceu junto à companhia o pároco local, distribuindo aos soldados, de acordo com a nacionalidade de cada um, um folheto com o “Cântico de Lourdes” em todas as línguas. Tinha um maço daqueles cânticos, deixado ali para distribuição às unidades militares de passagem por algum alto dignitário eclesiástico do Exército, que percorrera de automóvel a Galícia devastada acompanhado de umas putas.

Onde o monte ao rio se inclina no vale,
um sino a mensagem dos anjos propala.
Ave, ave, ave, Maria! Ave, ave, ave,
Maria! Eis que a Bernadette, donzela, um espírito do céu
conduz até a margem, num prado verdejante. Ave!
E sobre a rocha ela viu o fulgor de uma estrela,
nele uma figura augusta, uma face santíssima. Ave!
Ornava-a graciosamente uma veste de lírio
e uma singela faixa clara de nuvem. Ave!
E nas mãos unidas trazia o rosário
aquela Senhora e Rainha amorosíssima. Ave!
Eis que em Bernadette se transforma a face inocente,
um estranho fulgor sobrenatural a embeleza. Ave!
Já se ajoelha e reza, contempla a Soberana,
a Rainha lhe fala na língua celestial. Ave!
“Saiba, criança, fui concebida sem pecado,
quero ser proteção poderosíssima para todos! Ave!
Que meu povo devoto venha aqui em procissões!
Preste-me homenagem e procure aqui sua paz. Ave!
Que um templo de mármore seja testemunha às nações
de que neste lugar tenho minha morada. Ave!
E a fonte que aqui começou a correr
é penhor do meu amor e convida vocês a mim. Ave!
Ó glória a ti, vale amorosíssimo,
morada da Mãezinha jubilosa. Ave!
Ali, na rocha, está tua gruta milagrosa,
deste-nos o paraíso, Rainha bondosa. Ave!
Desde que raiou aquele gloriosíssimo dia de alegria,
procissões de homens e mulheres ali te veneram. Ave!
Quiseste ter multidões de adoradores teus,
olha também por nós, suplicantes nestes tempos ruins. Ave!
Ó estrela salvadora, segue diante de nós,
conduze-nos fiéis ao trono de Deus! Ave!
Ó Virgem santíssima, conserva-nos em teu amor
e concede a teus filhos a tua graça maternal!

Em Turowa-Wolska havia muitas latrinas, e por todas elas se espalhavam folhetos com o “Cântico de Lourdes”.

O cabo Nachtigal, de algum lugar próximo a Kašperské Hory, conseguiu uma garrafa de aguardente de um judeu amedrontado, reuniu alguns camaradas e todos começaram a cantar, conforme o texto alemão, o “Cântico de Lourdes”, sem o refrão Ave!, ao som da canção do príncipe Eugênio.

Era uma estrada desgraçadamente ruim quando anoiteceu e os quatro encarregados de arranjar alojamento para a 11ª companhia chegaram a um pequeno bosque acima do riacho que levava a Liskowiec.

Baloun, que pela primeira vez se via na situação de seguir para algum lugar desconhecido e para quem tudo, a escuridão, o fato de estarem indo à frente procurar alojamentos, parecia extraordinariamente misterioso, teve de repente uma suspeita terrível de que aquilo não era uma missão qualquer. “Camaradas”, disse baixinho, tropeçando no caminho acima do riacho, “eles sacrificaram a gente.”

“Como assim?”, berrou Švejk para ele, também em voz baixa.

“Camaradas, não vamos fazer tanto barulho”, pediu Baloun em voz baixa. “Já estou sentindo nos rins. Eles vão ouvir a gente e começar a atirar na mesma hora. Eu sei. Mandaram a gente na frente para descobrir se o inimigo está lá e, quando ouvirem os tiros, vão saber imediatamente que não devem continuar. Nós somos, camaradas, a folpatrola, como o cabo Terna me ensinou.”

“Então vá você na frente”, disse Švejk. “Nós vamos bem atrás de você, para que nos proteja com seu corpo, já que é um gigante desse tamanho. Quando levarem um tiro em você, avise, para podermos fazer nýdr a tempo. Mas que soldado você é, com medo de que atirem nele. É justamente disso que todo soldado deve gostar pra caramba. Todo soldado precisa saber que, quanto mais vezes o inimigo atira contra ele, mais depressa acabam as reservas de munição do inimigo. A cada tiro que o soldado inimigo dispara contra você, ele reduz a própria capacidade de combate. E ainda fica contente por poder atirar em você, porque assim pelo menos não precisa carregar os cartuchos e consegue correr com mais facilidade.”

Baloun soltou um suspiro profundo: “É que eu tenho uma propriedade em casa.”

“Cague para a propriedade”, aconselhou Švejk. “É melhor morrer pelo senhor imperador. Não ensinaram isso a você no Exército?”

“Só mencionaram o assunto”, disse o estúpido Baloun. “Só me levavam para a praça de exercícios e depois nunca mais ouvi nada parecido, porque virei ordenança militar... Se ao menos o senhor imperador desse comida melhor para a gente...”

“Mas você é um porco desgraçadamente insaciável. Soldado nenhum deve ser alimentado antes de um combate. O capitão Untergriez já explicava isso para nós na escola, anos atrás. Ele dizia sempre: ‘Seus moleques desgraçados, caso algum dia haja uma guerra e vocês entrem em combate, não vão se empanturrar antes da luta. Quem estiver empanturrado e levar um tiro na barriga está acabado, porque todo o serviço voluntário e o pão do comissariado vão sair pelo intestino depois de um tiro desses, e o soldado fica prontinho para pegar uma inflamação. Mas, quando ele não tem nada no estômago, um tiro desses na barriga não é coisa nenhuma, é como uma picada de vespa, uma maravilha.’”

“Eu digiro depressa”, disse Baloun. “Comigo nunca fica muita coisa no estômago. Posso, por exemplo, camarada, comer uma travessa inteira de bolinhos de massa com carne de porco e chucrute e, meia hora depois, de tudo aquilo não cago mais do que umas três colheres de sopa; o resto desaparece dentro de mim. Tem gente que diz, por exemplo, que, quando come cantarelos, eles saem do mesmo jeito que entraram, bastando lavar e preparar de novo em conserva, mas comigo é o contrário. Eu como tantos cantarelos que outro sujeito estouraria e, quando vou à privada, só peido um pouco de papa amarela, que nem a de uma criança; o resto também desaparece dentro de mim. Dentro de mim, camarada”, confidenciava Baloun a Švejk, “dissolvem-se espinhas de peixe e caroços de ameixa. Uma vez fiz a contagem de propósito. Comi setenta bolinhos de ameixa com caroço e, quando chegou a minha hora, fui para trás do celeiro, fiquei remexendo naquilo com um graveto, separando e contando os caroços. Dos setenta, mais da metade tinha se dissolvido dentro de mim.”

Da boca de Baloun escapou um suspiro longo e baixo: “A minha patroa fazia bolinhos de ameixa com massa de batata, na qual punha um pouco de queijo fresco para ficarem mais substanciosos. Ela sempre gostava mais deles polvilhados com sementes de papoula do que com queijo ralado, e eu era justamente o contrário, de modo que certa vez lhe dei uma bofetada por causa disso... Eu não sabia dar valor à minha felicidade familiar.”

Baloun parou, estalou os lábios, passou a língua pelo céu da boca e disse, triste e mansamente: “Sabe, camarada, agora que não tenho isso, acho que minha mulher afinal tinha razão, que ficam melhores com as sementes de papoula dela. Naquela época eu vivia achando que as sementes se metiam entre os meus dentes, e agora penso: quem dera se metessem... Minha mulher passou por muitas e grandes provações comigo. Quantas vezes ela chorava porque eu queria que pusesse mais manjerona nas linguiças de sangue, e nessas ocasiões eu sempre acabava lhe acertando uma. Uma vez espanquei a pobre coitada tanto que ela ficou de cama dois dias, porque não queria matar um peru para o meu jantar, dizendo que um galinho já bastava para mim. Ah, camarada”, Baloun começou a chorar, “quem me dera agora uma linguiça sem manjerona e uns galos... Você gosta de molho de endro? Pois é, por causa dele também havia briga, e hoje eu o beberia como café.”

Baloun foi esquecendo aos poucos a ideia do suposto perigo e, no silêncio da noite, enquanto ainda desciam para Liskowiec, continuou contando comovido a Švejk tudo aquilo a que antes não dava valor e que agora comeria até os olhos chorarem.

Atrás deles vinham o telefonista Chodounský e o sargento-contador Vaněk.

Chodounský explicava a Vaněk que, na opinião dele, a guerra mundial era uma estupidez. O pior nela era que, quando a linha telefônica se rompia em algum lugar, a pessoa precisava sair à noite para consertá-la; e pior ainda era o fato de que antigamente, quando havia uma guerra, não existiam holofotes. Agora, bem quando você está consertando aqueles fios desgraçados, o inimigo logo o encontra com um holofote e despeja em cima de você toda a artilharia.

Lá embaixo, na aldeia onde deveriam procurar alojamento para a companhia, estava escuro e todos os cães começaram a latir, o que obrigou a expedição a parar e pensar em como enfrentar aquelas criaturas.

“E se a gente voltasse?”, sussurrou Baloun.

“Baloun, Baloun, se informássemos uma coisa dessas, você seria fuzilado por covardia”, respondeu Švejk.

Os cães latiam cada vez mais e, até ao sul, do outro lado do rio Ropa, começaram a latir também em Kroscienka e em várias outras aldeias, pois Švejk berrava no silêncio da noite: “Deita! Deita! Deita!”, como costumava berrar para os cães quando ainda negociava com eles.

Os cães começaram a latir ainda mais, de modo que o sargento-contador Vaněk disse a Švejk:

“Não berre para eles, Švejk, ou vai fazer a Galícia inteira começar a latir.”

“Uma coisa parecida”, respondeu Švejk, “aconteceu conosco durante umas manobras na região de Tábor. Chegamos de noite a uma aldeia e os cães começaram a fazer uma barulheira medonha. Toda a região em volta é bem povoada, de modo que os latidos iam de aldeia em aldeia, cada vez mais longe, e os cães da aldeia onde estávamos acampados, quando finalmente se calavam, ouviam outra vez latidos vindos de longe, talvez de algum lugar perto de Pelhřimov, e começavam novamente a latir; pouco depois, estavam latindo as regiões de Tábor, Pelhřimov, Budějovice, Humpolec, Třeboň e Jihlava. O nosso capitão era um velho nervoso que não suportava latido de cachorro. Não dormiu a noite inteira, andava de um lado para outro sem parar e perguntava à patrulha: ‘Quem está latindo? O que está latindo?’ Os soldados informavam respeitosamente que eram os cães, e isso o enfureceu tanto que os homens que estavam de patrulha naquela noite receberam detenção no quartel quando voltamos das manobras. Depois ele sempre escolhia um ‘comando canino’ e o mandava na frente. A missão desse comando era informar aos habitantes da aldeia onde passaríamos a noite que cão nenhum podia latir durante a madrugada, sob pena de ser sacrificado. Eu também fiz parte de um comando desses e, quando chegamos a uma aldeia na região de Milevsko, confundi as coisas e informei ao prefeito que todo dono de cachorro cujo animal latisse à noite seria sacrificado por razões estratégicas. O prefeito ficou apavorado, atrelou imediatamente os cavalos e foi ao quartel-general pedir misericórdia para toda a aldeia. Nem deixaram que entrasse; as sentinelas quase o fuzilaram. Então ele voltou para casa e, antes que chegássemos à aldeia, todos, seguindo o conselho dele, amarraram trapos em torno do focinho dos cães, e três deles acabaram ficando raivosos.”

Desciam para a aldeia quando todos aceitaram a lição geral de Švejk de que os cães tinham medo, à noite, da brasinha de um cigarro aceso. Infelizmente nenhum deles fumava cigarros, de modo que o conselho de Švejk não produziu resultados positivos. Contudo, ficou claro que os cães latiam de alegria, porque se recordavam com amor das tropas de passagem, que sempre lhes deixavam alguma coisa para comer.

Já sentiam de longe que se aproximavam aquelas criaturas que deixavam para trás ossos e carcaças de cavalos. De repente, sem se saber de onde, surgiram em torno de Švejk quatro cachorros que começaram a pular amigavelmente contra ele, com as caudas erguidas.

Švejk os acariciava, dava-lhes tapinhas e falava com eles na escuridão como se fossem crianças:

“Pronto, já chegamos. Viemos nanar na casa de vocês, encher a barriguinha, vamos dar uns ossinhos e umas casquinhas de pão, e de manhã seguiremos de novo contra o inimigo.”

Começaram a acender luzes nos casebres da aldeia e, quando bateram à porta da primeira casa para descobrir onde morava o prefeito, ouviu-se lá de dentro uma voz feminina estridente e esganiçada que, sem falar polonês nem ucraniano, anunciava que tinha o marido no Exército, que seus filhos estavam doentes de varíola, que os moscovitas tinham levado tudo e que o marido, antes de ir para a guerra, lhe ordenara que não abrisse a porta para ninguém durante a noite. Somente quando reforçaram o ataque à porta, assegurando que eram encarregados dos alojamentos, ela foi aberta por uma mão desconhecida. Ao entrarem, descobriram que ali morava justamente o prefeito, que em vão tentava convencer Švejk de que não fora ele quem imitara aquela voz feminina estridente. Desculpou-se, dizendo que dormira sobre o feno e que sua mulher, quando alguém a acordava de repente, não sabia o que dizia. Quanto ao alojamento para a companhia inteira, a aldeia era tão pequena que não cabia nela nem sequer um soldado. Não havia absolutamente onde dormir. Também não havia nada à venda, pois os moscovitas tinham levado tudo.

Caso os senhores benfeitores não desprezassem a ideia, ele os conduziria a Kroscienka. Lá havia grandes propriedades, ficava a apenas três quartos de hora dali, havia espaço suficiente, cada soldado poderia se cobrir com um casaco de pele de carneiro, tinham tantas vacas que cada soldado receberia uma caneca de leite, havia água boa e os senhores oficiais poderiam dormir no pequeno castelo. Mas ali em Liskowiec? Miséria, sarna e piolhos. Ele próprio já tivera cinco vacas, mas os moscovitas levaram todas, de modo que, quando precisava de leite para seus filhos doentes, tinha de ir até Kroscienka.

Como prova disso, vacas mugiram no estábulo ao lado, e ouviu-se uma voz feminina esganiçada repreendendo os infelizes animais e desejando que a cólera os retorcesse. Isso, contudo, não desconcertou o prefeito, que continuou enquanto calçava suas botas altas:

“A única vaca daqui pertence ao vizinho Vojciek, aquela que os meus senhores benfeitores tiveram a bondade de ouvir mugir neste momento. É uma vaca doente, melancólica. Os moscovitas levaram o bezerro dela. Desde então não dá leite, mas o dono tem pena de abatê-la e pensa que a Mãe de Deus de Częstochowa tornará a pôr tudo nos eixos.”

Enquanto falava, vestiu um kontusz:

“Vamos, senhores benfeitores, para Kroscienka. Não leva nem três quartos de hora, digo eu, pecador; não leva nem meia hora. Conheço o caminho pelo riacho, depois por um pequeno bosque de bétulas, passando junto ao carvalho... É uma aldeia grande, e também bardzo dużo mocna wódka w propinacjach. Vamos, senhores benfeitores! Para que esperar? Os senhores soldados de seu glorioso regimento precisam instalar-se decentemente, com conforto. Um senhor soldado imperial e real que combate os moscovitas precisa sem dúvida de um alojamento limpo, de um alojamento confortável... E aqui conosco? Piolhos, sarna, varíola e cólera. Ontem, nesta nossa aldeia maldita, três chlopi ficaram pretos de cólera... O Deus misericordiosíssimo amaldiçoou Liskowiec...”

Nesse momento, Švejk fez um gesto majestoso com a mão.

“Senhores benfeitores”, disse, imitando a voz do prefeito. “Li uma vez num livro que, durante as guerras suecas, quando havia ordem de alojar-se nesta ou naquela aldeia e o prefeito dava alguma desculpa e não queria colaborar, eles o enforcavam na árvore mais próxima. Depois, hoje mesmo em Sanok, um cabo polonês me contou que, quando chegam os encarregados dos alojamentos, o prefeito deve convocar todos os vereadores, e então se percorrem com eles os casebres e se diz simplesmente: aqui cabem três, ali quatro, na casa paroquial ficarão os senhores oficiais, e tudo deve estar pronto em meia hora. Senhor benfeitor”, disse Švejk, voltando-se seriamente para o prefeito, “onde fica a árvore mais próxima daqui?”

O prefeito não compreendeu o que significava árvore, de modo que Švejk lhe explicou que podia ser uma bétula, um carvalho, uma pereira, uma macieira, em suma, qualquer coisa com galhos fortes. O prefeito continuou sem entender e, ao ouvir mencionar algumas árvores frutíferas, assustou-se, pois as cerejas já estavam amadurecendo, e disse que não sabia de coisa alguma assim, apenas que havia um carvalho diante da casa.

“Ótimo”, disse Švejk, fazendo com a mão o sinal internacional de enforcamento. “Vamos enforcar você aqui, diante do seu casebre, porque você precisa ter consciência de que estamos em guerra e de que temos ordens de dormir aqui, e não numa Kroscienka qualquer. Você não vai, meu rapaz, alterar nossos planos estratégicos, senão ficará balançando, como naquele livro sobre as guerras suecas... Houve uma vez, senhores, um caso assim durante umas manobras perto de Velké Meziříčí...”

Nesse momento, o sargento-contador Vaněk interrompeu Švejk:

“Você nos conta isso depois, Švejk”, e, voltando-se para o prefeito, disse: “Agora, alarme e alojamentos!”

O prefeito começou a tremer, gaguejou alguma coisa sobre ter querido apenas o melhor para os senhores benfeitores, mas, se não havia outro jeito, talvez afinal se encontrasse alguma coisa na aldeia para que todos os senhores ficassem satisfeitos, e que iria buscar imediatamente uma lanterna.

Quando ele saiu da sala, iluminada muito fracamente por um pequeno lampião de querosene sob a imagem de algum santo que se contorcia no quadro como o maior dos aleijados, Chodounský exclamou de repente: “Onde foi parar o Baloun?”

Antes, porém, que pudessem olhar em volta direito, abriu-se silenciosamente uma portinhola atrás do forno, que dava para algum lugar do lado de fora, e por ela se esgueirou Baloun. Olhou ao redor para ver se o prefeito não estava ali e disse, falando pelo nariz como se estivesse com o pior resfriado do mundo:

“Eu ehtava na dehpenha, enfiei a mão numa coisa, enchi a boca com aquilo e agora tá tudo grudado no meu céu da boca. Num é halgado nem doce, é maça de pão.”

O sargento-contador Vaněk iluminou-o com uma lanterna elétrica, e todos constataram que nunca na vida tinham visto um soldado austríaco tão lambuzado. Depois se assustaram, pois viram que a blusa de Baloun estava tão estufada como se ele se encontrasse no estágio mais avançado de uma gravidez.

“O que aconteceu com você, Baloun?”, perguntou Švejk com compaixão, cutucando-lhe a barriga inchada.

“São pepinos”, arquejou Baloun, engasgando-se com a massa, que não subia nem descia, “cuidado, são pepinos em conserva. Comi três na correria e trouxe os outros pra vocês.”

Baloun começou a tirar de dentro da camisa um pepino depois do outro e a passá-los aos demais.

O prefeito já estava parado na soleira com uma lamparina e, ao ver aquela cena, benzeu-se e gemeu:

“Os moscovitas levaram, e os nossos também levam.”

Todos saíram para a aldeia, acompanhados por uma matilha de cães que se mantinham com especial obstinação em torno de Baloun e agora investiam contra o bolso de sua calça, onde ele guardava um pedaço de toucinho, também obtido na despensa, mas, por ganância, traiçoeiramente ocultado dos camaradas.

“Por que esses cachorros ficam tanto atrás de você?”, perguntou Švejk a Baloun. Depois de refletir longamente, Baloun respondeu:

“Eles sentem que eu sou uma boa pessoa.”

Mas não disse que mantinha a mão no bolso, em cima do toucinho, nem que um dos cães não parava de lhe abocanhar a mão com os dentes…

Durante a ronda em busca de alojamento, constatou-se que Liskowiec era um povoado grande, mas que de fato já fora bastante espremido pelo tumulto da guerra. Embora não tivesse sofrido incêndios, pois, como por milagre, nenhuma das duas partes em conflito a incluíra na esfera das operações militares, ali se instalara a população das aldeias vizinhas destruídas, vinda de Chyrów, Grabów e Holubla. Em algumas cabanas viviam até oito famílias na mais extrema miséria, depois de todas as perdas sofridas com aquela guerra de ladrões, cuja primeira época passara sobre elas como as correntes predadoras de uma enchente.

Foi preciso alojar a companhia numa pequena destilaria devastada no outro extremo da aldeia, em cuja sala de fermentação coube metade da companhia. Os demais foram acomodados, de dez em dez homens, em algumas propriedades onde os abastados nobres poloneses não haviam permitido a entrada da ralé pobre dos camponeses sem terra reduzidos à mendicância.

O Estado-Maior da companhia, com todos os oficiais, o sargento-contador Vaněk, os ordenanças militares, o telefonista, o pessoal sanitário, os cozinheiros e Švejk, instalou-se na casa paroquial do senhor pároco, que também não acolhera uma única família arruinada dos arredores e, portanto, dispunha de bastante espaço.

Era um velho alto e magro, vestido com uma batina desbotada e engordurada, que, de tão avarento, quase não comia. Fora criado pelo pai numa grande aversão aos russos, aversão que perdeu de repente quando os russos recuaram e chegaram as tropas austríacas, que devoraram todos os gansos e galinhas que os russos haviam deixado em paz, apesar de vários cossacos eriçados da Transbaikália terem se hospedado em sua casa.

Depois, passou a odiar ainda mais as tropas austríacas quando os húngaros chegaram à aldeia e retiraram todo o mel de suas colmeias. Agora olhava com enorme aversão para os inesperados hóspedes noturnos e sentia grande prazer em circular entre eles, dar de ombros e repetir:

“Não tenho nada. Sou um mendigo completo, senhores, não encontrarão comigo nem uma fatia de pão.”

Naturalmente, quem assumia a expressão mais triste era Baloun, que por pouco não desatava a chorar diante de tanta miséria. Na cabeça, tinha sem cessar a vaga imagem de um leitãozinho cuja pele estalava e exalava perfume como cobre tostado. Enquanto isso, Baloun cochilava na cozinha do senhor pároco, onde de vez em quando aparecia um rapaz comprido e desengonçado, que fazia ao mesmo tempo o trabalho de criado e cozinheira do senhor pároco e recebera ordens rigorosas para vigiar tudo, a fim de que nada fosse roubado. Baloun também não encontrou na cozinha coisa alguma, além de um pouco de cominho num papelzinho sobre o saleiro, que enfiou na boca e cujo aroma lhe despertou alucinações gustativas com um leitãozinho.

No pátio da pequena destilaria atrás da casa paroquial, ardiam fogueiras sob os caldeirões da cozinha de campanha, e a água já fervia, mas naquela água não se cozinhava nada.

O sargento-contador e os cozinheiros correram a aldeia inteira à procura de um porco, porém em vão. Em toda parte recebiam a mesma resposta: os moscovitas tinham comido e levado tudo.

Também acordaram o judeu da taberna, que começou a arrancar os peiot e a lamentar não poder servir aos senhores soldados e, no fim, tentou obrigá-los a comprar uma vaca velha de cem anos, uma carcaça magra que não passava de couro e osso. Pediu por ela uma soma exorbitante, arrancava a barba e jurava que não encontrariam vaca igual em toda a Galícia, em toda a Áustria e Alemanha, em toda a Europa e no mundo inteiro; ao mesmo tempo uivava, chorava e jurava pela própria alma que aquela era a vaca mais gorda que jamais viera ao mundo por ordem de Jeová. Jurava por todos os patriarcas que gente vinha de Woloezyska só para ver aquela vaca, que a região inteira falava dela como de uma criatura de conto de fadas, que aquilo nem sequer era uma vaca, mas o búfalo mais suculento que existia. Por fim, ajoelhou-se diante deles e, abraçando os joelhos de um após o outro, gritava:

“Matem antes este pobre judeu velho, mas não saiam daqui sem a vaca!”

Desnorteou todos a tal ponto com seus berros que, por fim, arrastaram até a cozinha de campanha aquela carniça da qual qualquer esfolador sentiria nojo. Depois, mesmo já com o dinheiro no bolso, ainda chorou e lamentou durante muito tempo diante deles, dizendo que o haviam arruinado por completo, destruído, que ele próprio se reduzira à mendicância ao lhes vender tão barato uma vaca magnífica daquelas. Pediu-lhes que o enforcassem por ter cometido, na velhice, semelhante estupidez, capaz de fazer seus antepassados se revirarem nos túmulos.

Depois de ainda rolar pelo pó diante deles, livrou-se de repente de todo o pesar, foi para casa e disse à esposa no quartinho:

“Elsalébn, soldados burros e teu Náthan muito esperto.”

A vaca deu muito trabalho. Por momentos, parecia que seria impossível esfolá-la. Durante a esfola, rasgaram-lhe várias vezes o couro, sob o qual apareceu uma musculatura torcida como cabo de navio ressecado.

Enquanto isso, conseguiram sabe-se lá onde um saco de batatas e começaram, sem esperança alguma, a cozinhar aqueles tendões e ossos, enquanto ao lado, numa cozinha menor, o cozinheiro preparava em completo desespero, com um pedaço daquele esqueleto, a messe dos oficiais.

Aquela vaca infeliz, caso se possa chamar de vaca semelhante fenômeno da natureza, ficou vivamente gravada na memória de todos os participantes, e é quase certo que, se mais tarde, antes da batalha de Sokal, os comandantes tivessem lembrado à tropa a vaca de Liskowiec, a décima primeira companhia teria se lançado de baioneta contra o inimigo, soltando um terrível rugido de fúria.

A vaca era tão desavergonhada que não havia como fazer dela uma sopa de carne. Quanto mais tempo a carne cozinhava, mais continuava colada aos ossos, formando com eles uma só peça; ossificava-se como um burocrata que passa metade da vida pastando em cavalos de repartição e comendo apenas autos.

Švejk, que, na função de estafeta, mantinha ligação constante entre o Estado-Maior e a cozinha para descobrir quando aquilo finalmente ficaria pronto, por fim informou ao primeiro-tenente Lukáš:

“Senhor obrlajtnant, isso já virou porcelana. A carne dessa vaca é tão dura que dá pra cortar vidro com ela. O cozinheiro Pavlíček, quando provou a carne com Baloun, quebrou um dente da frente, e Baloun, um molar de trás.”

Baloun apresentou-se solenemente diante do primeiro-tenente Lukáš e, gaguejando, entregou-lhe o dente quebrado, embrulhado no Cântico de Lourdes:

“Comunico respeitosamente, senhor obrlajtnant, que fiz o que pude. Esse dente foi quebrado na messe dos oficiais, quando a gente experimentou pra ver se ainda dava pra fazer um bife daquela carne.”

Junto à janela, uma figura triste se ergueu da poltrona depois dessas palavras. Era o tenente Dub, que fora trazido num carrinho sanitário de duas rodas, reduzido a um homem completamente arruinado:

“Por favor, silêncio”, disse com voz desesperada. “Estou passando mal!”

Sentou-se novamente na velha poltrona, em cujas fendas havia milhares de ovos de percevejo.

“Estou cansado”, disse em tom trágico, “estou enfermo e doente. Peço que não se fale diante de mim em dentes quebrados. Meu endereço é: Smíchov, Královská, 18. Caso eu não chegue a ver a manhã, peço que minha família seja informada de tudo com delicadeza e que não se esqueçam de registrar em meu túmulo que antes da guerra eu também fui professor de ginásio imperial e real.”

Começou a roncar suavemente e já não ouviu Švejk recitar um verso do cântico pelos mortos:

De Maria o pecado tiraste,
ao ladrão a meta alcançaste,
e a mim também salvar procuraste.

Em seguida, o sargento-contador Vaněk constatou que a excelente vaca ainda teria de cozinhar por duas horas na cozinha dos oficiais, que não se podia sequer cogitar de bife algum e que, em vez de bife, fariam goulash.

Decidiu-se que, até soarem o toque para a ração, a tropa tiraria um cochilo, pois, de qualquer forma, o jantar só ficaria pronto de manhã.

O sargento-contador Vaněk arrastou sabe-se lá de onde um feixe de feno, colocou-o debaixo de si na sala de jantar paroquial, torceu nervosamente o bigode e disse baixinho ao primeiro-tenente Lukáš, que descansava acima dele num sofá velho:

“Acredite em mim, senhor obrlajtnant, em toda esta guerra nunca comi uma vaca dessas…”

Na cozinha, sentado diante do toco aceso de uma vela da igreja, o telefonista Chodounský escrevia cartas para casa com antecedência, a fim de não precisar se incomodar com isso quando finalmente recebessem um número de feldpost. Escreveu:

Minha querida e amada esposa, minha caríssima Boženka! É noite e eu penso sem parar em Você, meu amor, e vejo Você pensando também em mim quando olha para a cama vazia ao seu lado. Você precisa me perdoar se, nessas horas, algumas coisas me vêm à cabeça. Você sabe muito bem que estou no campo desde o começo da guerra e que já ouvi Muitas coisas de meus camaradas, que foram feridos, ganharam licença e, quando chegaram em casa, prefeririam estar debaixo da terra a testemunhar que algum canalha andava atrás da esposa deles. É doloroso para mim, querida Boženka, ter de lhe escrever isto. Eu nem lhe escreveria, mas Você mesma sabe muito bem que me confidenciou que eu não fui o primeiro com quem Você teve um relacionamento sério e que, antes de mim, Você já tinha sido do senhor Kraus, da rua Mikulášská. Agora, quando me lembro nesta noite de que aquele desgraçado ainda poderia, na minha ausência, ter alguma pretensão sobre Você, penso que o estrangularia ali mesmo, querida Boženka. Guardei isso dentro de mim durante muito tempo, mas, quando penso que ele poderia voltar a rastejar atrás de Você, meu coração se aperta, e só lhe faço uma advertência: não tolerarei ao meu lado uma porca que se prostitua com qualquer um e desonre meu nome. Perdoe-me, querida Boženka, minhas palavras duras, mas tome cuidado para que eu não descubra nada de ruim a seu respeito. Caso contrário, seria obrigado a estripar Vocês dois, pois já estou disposto a tudo, mesmo que isso me custe a vida. Mil beijos para Você, lembranças ao papai e à mamãe

Seu Tonouš. N. B.

Não se esqueça de que lhe dei meu nome!

Continuou a escrever cartas para deixar prontas:

Minha caríssima Boženka! Quando Você receber estas linhas, saiba que já passamos por uma grande batalha, na qual a sorte da guerra se voltou para o nosso lado. Entre outras coisas, abatemos uns dez aeroplanos inimigos e um general com uma grande verruga no nariz. No auge do combate, quando os estilhaços explodiam sobre nós, pensei em Você, querida Boženka, no que estaria fazendo, em como estava e nas novidades de casa. Nessas horas, sempre me lembro de quando estivemos juntos na cervejaria do Tomáš, de como Você me levou para casa e de como, no dia seguinte, seu braço doía por causa do esforço. Agora voltamos a avançar, de modo que já não me resta tempo para continuar escrevendo. Espero que tenha permanecido fiel a mim, pois Você sabe muito bem que, nesse aspecto, sou um canalha. Mas já é hora de marchar! Beijo Você mil vezes, querida Boženka, e tenha esperança de que tudo acabará bem.

Seu sincero Tonouš

O telefonista Chodounský começou a cochilar e adormeceu sobre a mesa. O pároco, que não dormia e circulava sem parar pela casa paroquial, abriu a porta da cozinha e, por economia, apagou com um sopro o toco quase consumido da vela da igreja ao lado de Chodounský.

Na sala de jantar, ninguém dormia, exceto o tenente Dub. O sargento-contador Vaněk, que recebera no escritório da brigada em Sanok um novo regulamento relativo ao abastecimento das tropas com mantimentos, estudava-o com atenção e constatava que, na verdade, quanto mais as tropas se aproximavam da frente, mais suas rações eram reduzidas. Chegou até a sorrir diante de um parágrafo da ordem que proibia o uso de açafrão e gengibre no preparo da sopa da tropa. Havia ainda na ordem uma observação de que, junto às cozinhas de campanha, os ossos deveriam ser recolhidos e enviados à retaguarda, aos depósitos divisionários. Aquilo era um tanto obscuro, pois não se sabia de que ossos se tratava, se humanos ou de outros animais abatidos.

“Escute, Švejk”, disse o primeiro-tenente Lukáš, bocejando de tédio, “até que nos deem alguma coisa para comer, você poderia me contar algum caso.”

“Ah, sim”, respondeu ele, “até a gente receber comida, senhor obrlajtnant, eu teria de lhe contar a história inteira da nação tcheca. Por enquanto, só conheço uma história bem curta sobre uma senhora agente dos correios da região de Sedlčany, que ficou com a agência depois da morte do marido. Lembrei dela assim que ouvi falar em feldpost, embora não tenha absolutamente nada a ver com os correios de campanha.”

“Švejk”, disse o primeiro-tenente Lukáš do sofá, “você está começando de novo a bancar o imbecil de um jeito terrível.”

“Sem dúvida, comunico respeitosamente, senhor obrlajtnant, é de fato uma história terrivelmente imbecil. Eu mesmo não sei como uma estupidez dessas pôde me vir à cabeça, de falar sobre uma coisa assim. Ou é uma imbecilidade congênita, ou são lembranças da juventude. Existem, senhor obrlajtnant, várias naturezas diferentes no nosso globo terrestre, e o cozinheiro Jurajda até que tinha razão naquela vez em Bruck, quando estava bêbado, caiu numa valeta e não conseguia sair de lá, e gritava de dentro: ‘O homem está destinado e chamado a conhecer a verdade, a governar com seu espírito em alguma harmonia do universo eterno, a desenvolver-se e instruir-se continuamente, a entrar gradualmente em esferas mais elevadas, em mundos mais inteligentes e mais amorosos.’ Quando a gente quis tirá-lo de lá, ele arranhou e mordeu. Achava que estava em casa, e só depois que a gente o jogou de novo na valeta é que começou a implorar pra ser tirado de lá.”

“Mas e a agente dos correios?”, exclamou desesperado o primeiro-tenente Lukáš.

“Era uma mulher muito boa, mas, apesar disso, era uma peste, senhor obrlajtnant. Cumpria todas as obrigações na agência dos correios, porém tinha um único defeito: achava que todo mundo a perseguia e tramava contra ela, e por isso, depois do expediente, apresentava denúncias contra as pessoas às autoridades, conforme as circunstâncias se combinavam. Uma vez foi de manhã ao bosque colher cogumelos e reparou muito bem que, quando passou diante da escola, o professor já estava acordado, cumprimentou-a e perguntou aonde ela ia tão cedo. Quando ela disse que ia colher cogumelos, ele falou que iria atrás dela. Disso concluiu que ele tinha alguma intenção indecente com ela, uma velha, e depois, quando viu que ele realmente saía de um matagal, assustou-se, fugiu e imediatamente escreveu uma denúncia ao conselho escolar local, dizendo que ele quis estuprá-la. O professor foi submetido a um inquérito disciplinar e, para evitar algum escândalo público, o próprio inspetor escolar veio investigar o caso. Ele procurou o sargento da gendarmaria para que desse seu parecer sobre se o professor seria capaz de semelhante ato. O sargento da gendarmaria consultou os autos e disse que isso não era possível, porque o professor já fora certa vez acusado pelo pároco de andar atrás da sobrinha dele, com quem o próprio pároco dormia, mas o professor obtivera do médico distrital um atestado de que era impotente desde os seis anos de idade, quando caiu do sótão, de pernas abertas, sobre a lança de uma carroça de grades. Então aquela víbora apresentou denúncia contra o sargento da gendarmaria, o médico distrital e o inspetor escolar, dizendo que todos tinham sido subornados pelo professor. Todos a processaram e ela foi condenada, e recorreu alegando ser incapaz. Também foi examinada por médicos legistas, que emitiram um laudo dizendo que ela era de fato imbecil, mas podia exercer qualquer cargo público.”

O primeiro-tenente Lukáš gritou:

“Jesus, Maria e José!”

E ainda acrescentou:

“Eu lhe diria uma coisa, Švejk, mas não quero estragar meu jantar.”

Ao que Švejk declarou:

“Eu lhe disse, senhor obrlajtnant, que o que eu ia contar era uma coisa terrivelmente imbecil.”

O primeiro-tenente Lukáš apenas fez um gesto com a mão e disse:

“Com você já aprendi muitas dessas sabedorias.”

“Nem todo mundo pode ser inteligente, senhor obrlajtnant”, disse Švejk com convicção. “Os imbecis precisam constituir uma exceção, porque, se todo mundo fosse inteligente, haveria tanta razão no mundo que uma pessoa em cada duas ficaria completamente imbecil por causa disso. Por exemplo, comunico respeitosamente, senhor obrlajtnant, se todo mundo conhecesse as leis da natureza e soubesse calcular as distâncias celestes, só faria importunar quem estivesse por perto, como um certo senhor Čapek, que frequentava a taberna do Cálice e que, à noite, sempre saía do salão para a rua, olhava o céu estrelado e, quando voltava, ia de um em um dizendo: ‘Hoje Júpiter está brilhando lindamente. Você nem sabe, patife, o que tem sobre a cabeça. São distâncias tão grandes que, se disparassem você de um canhão, seu canalha, levaria milhões e milhões de anos voando até lá na velocidade de uma bala de canhão.’ Ele costumava ficar tão grosseiro nessas horas que geralmente acabava expulso da taberna, à velocidade comum de um bonde elétrico, uns dez quilômetros por hora, senhor obrlajtnant. Ou temos, por exemplo, senhor obrlajtnant, as formigas…”

O primeiro-tenente Lukáš ergueu-se no sofá e juntou as mãos:

“Preciso me admirar de mim mesmo por sempre conversar com você, Švejk. Eu o conheço há tanto tempo, Švejk…”

Švejk assentia com a cabeça:

“É uma questão de hábito, senhor obrlajtnant. A razão é justamente que já nos conhecemos há muito tempo e que já passamos por algumas coisas juntos. Nós já sofremos muito juntos e sempre entramos nisso como cego em tiroteio. Comunico respeitosamente, senhor obrlajtnant, que é o destino. O que o senhor imperador rege, rege bem. Ele nos juntou, e eu também não desejo outra coisa senão poder lhe ser um dia de muita utilidade. O senhor não está com fome, senhor obrlajtnant?”

O primeiro-tenente Lukáš, que entretanto tornara a se estender no velho sofá, disse que a última pergunta de Švejk era o melhor desfecho possível para aquela conversa penosa e que ele fosse logo perguntar o que acontecia com a ração. Seria decididamente melhor que Švejk saísse um pouco e o deixasse em paz, pois as imbecilidades que lhe ouvia o cansavam mais que a marcha inteira desde Sanok. Gostaria de dormir um pouco, mas não conseguia.

“São os percevejos, senhor obrlajtnant. Já existe uma velha superstição de que padres dão cria em percevejos. Em lugar nenhum se encontra tanto percevejo quanto em casa paroquial. Na paróquia de Horní Stodůlky, o padre Zamastil chegou a escrever um livro inteiro sobre percevejos, porque eles subiam nele até durante o sermão.”

“Então, o que eu disse, Švejk? Você vai até a cozinha ou não?”

Švejk saiu e, atrás dele, Baloun emergiu na ponta dos pés de um canto, como uma sombra…

Quando partiram de manhã de Liskowiec rumo a Starasol e Sambor, levavam consigo, na cozinha de campanha, a vaca infeliz, que ainda não terminara de cozinhar. Decidiu-se que continuariam a cozinhá-la pelo caminho e que seria comida durante o descanso a meio caminho entre Liskowiec e Starasol.

Para a viagem, prepararam café preto para a tropa. O tenente Dub foi novamente transportado no carrinho sanitário de duas rodas, pois estava ainda pior depois do dia anterior. Quem mais sofria com ele era seu ordenança, que precisava correr sem parar ao lado do carrinho, enquanto o tenente Dub gritava constantemente que, na véspera, ele não cuidara dele em absoluto e que, quando chegassem ao destino, acertaria as contas. A todo instante, pedia que lhe dessem água e, assim que a bebia, imediatamente a vomitava.

“De quem, de quê vocês estão rindo?”, gritava do carrinho. “Eu lhes ensino! Não brinquem comigo, vocês ainda vão me conhecer!”

O primeiro-tenente Lukáš ia a cavalo, tendo ao lado, como companhia, Švejk, que marchava vivamente para a frente, como se mal pudesse esperar o momento de se chocar com o inimigo. Enquanto isso, contava:

“O senhor reparou, senhor obrlajtnant, que alguns dos nossos homens são mesmo como moscas? Nem têm trinta quilos nas costas e já não aguentam mais. Deviam dar palestras pra eles, como fazia conosco o falecido senhor obrlajtnant Buchánek, que se matou por causa do dote que recebeu do futuro sogro pra se casar e gastou com putas alheias. Depois pegou outro dote com um segundo futuro sogro. Com esse ele já se comportou de um modo mais econômico, foi perdendo o dinheiro devagarinho no jogo e deixou as mocinhas de lado. Mesmo assim, também não durou muito, então precisou recorrer a um terceiro futuro sogro pra obter outro dote. Com esse terceiro dote, comprou um cavalo, um garanhão árabe, mestiço…”

O primeiro-tenente Lukáš saltou do cavalo.

“Švejk”, disse em tom ameaçador, “caso você fale de um quarto dote, eu o jogo na vala.”

Montou novamente, e Švejk continuou com toda a seriedade:

“Comunico respeitosamente, senhor obrlajtnant, que não se pode falar em quarto dote, porque ele se matou depois do terceiro.”

“Finalmente”, disse o primeiro-tenente Lukáš.

“Pra não perder o fio da conversa”, prosseguiu Švejk, “umas palestras como as que o senhor obrlajtnant Buchánek sempre fazia quando os soldados já começavam a cair durante a marcha deviam, na minha humilde opinião, ser dadas a toda a tropa, como ele fazia. Mandava dar rast, reunia todos nós ao redor dele feito pintinhos em torno da galinha e começava a explicar: ‘Seus canalhas, vocês não sabem dar valor ao fato de estarem marchando pelo globo terrestre, porque são uma corja tão ignorante que dá vontade de vomitar só de olhar pra vocês. Deviam pôr vocês pra marchar no Sol, onde um homem que pesa sessenta quilos em nosso miserável planeta pesa mais de mil e setecentos quilos. Aí vocês morreriam, aí sim veriam o que é marchar, com mais de duzentos e oitenta quilos na mochila, quase trezentos, e um fuzil pesando cento e cinquenta quilos. Vocês gemeriam e deixariam a língua de fora feito cachorro perseguido.’ Havia entre nós um professor infeliz, que se atreveu a pedir a palavra: ‘Com licença, senhor obrlajtnant, na Lua um homem de sessenta quilos pesa apenas treze quilos. Na Lua marcharíamos melhor, porque nossa mochila pesaria apenas quatro quilos. Na Lua, flutuaríamos em vez de marchar.’ ‘Isso é terrível’, respondeu o falecido senhor obrlajtnant Buchánek. ‘Seu sujeito miserável, você está pedindo um tapa. Dê graças porque só vou lhe dar um tapa terrestre comum. Caso lhe desse um daqueles tapas lunares, com essa sua leveza você voaria até os Alpes e se espatifaria neles. E se lhe desse o pesado tapa solar, seu uniforme viraria papa e sua cabeça iria parar em algum lugar da África.’ Então deu nele aquele tapa terrestre comum. O intrometido caiu no choro e seguimos marchando. Durante toda a marcha, ele chorou e ficou falando, senhor obrlajtnant, em dignidade humana, dizendo que era tratado como um animal mudo. Depois, o senhor obrlajtnant mandou-o ao relatório, trancaram-no por catorze dias, e ele ainda tinha seis semanas de serviço a cumprir, mas não as cumpriu, porque tinha uma hérnia e obrigaram-no sabe-se lá por quê a girar na barra fixa do quartel. Ele não aguentou e morreu no hospital como simulador.”

“É realmente curioso, Švejk”, disse o primeiro-tenente Lukáš, “que você, como já lhe disse tantas vezes, tenha o hábito de, de um modo muito particular, menosprezar o corpo de oficiais.”

“Não tenho”, respondeu Švejk com sinceridade. “Eu só queria lhe contar, senhor primeiro-tenente, como antigamente, no Exército, as pessoas se metiam sozinhas em desgraça. Aquele sujeito achava que era mais instruído que o senhor primeiro-tenente, quis rebaixá-lo diante da tropa com aquela história da Lua e, quando levou aquela bofetada terrestre na cara, todos respiraram aliviados, ninguém ficou com pena; pelo contrário, todos ficaram contentes porque o senhor primeiro-tenente tinha feito uma piada tão boa com aquela bofetada terrestre. Isso é o que se chama salvar a situação. Basta ocorrer logo alguma coisa à pessoa e pronto, fica tudo bem. Em frente ao convento dos carmelitas, em Praga, havia anos, o senhor Jenom tinha uma loja de coelhos e outras aves, senhor primeiro-tenente. Ele começou a namorar a filha do encadernador Bílek. O senhor Bílek não aprovava aquele namoro e declarou publicamente, na taberna, que, se o senhor Jenom aparecesse para pedir a mão da filha dele, iria jogá-lo escada abaixo, coisa que o mundo nunca tinha visto. O senhor Jenom tomou umas para criar coragem e foi assim mesmo à casa do senhor Bílek, que o recebeu no vestíbulo com uma faca enorme, daquelas usadas para aparar as bordas dos livros, parecida com uma faca de matar sapos. Berrou, perguntando o que ele queria ali, e nesse instante o bom do senhor Jenom soltou um peido tão forte que o relógio de pêndulo na parede parou. O senhor Bílek caiu na risada, estendeu-lhe imediatamente a mão e não parava de dizer: ‘Queira entrar, senhor Jenom, queira sentar-se, espero que não tenha se borrado; eu não sou homem tão ruim assim. É verdade que pretendia expulsá-lo, mas agora vejo que o senhor é uma pessoa muito agradável, um homem original. Sou encadernador, li muitos romances e contos, mas nunca li em livro nenhum que um pretendente se apresentasse desse jeito.’ Enquanto dizia isso, ria de segurar a barriga e, muito satisfeito, afirmava que lhe parecia que os dois se conheciam desde que nasceram, como se fossem irmãos de sangue. Trouxe-lhe imediatamente um charuto, mandou buscar cerveja e salames italianos, chamou a mulher e apresentou o visitante a ela, contando todos os pormenores do peido. A mulher cuspiu de lado e foi embora. Depois chamou a filha e disse: ‘Este senhor veio pedir a sua mão em tais e tais circunstâncias.’ A filha começou imediatamente a chorar e declarou que não o conhecia e não queria nem vê-lo. Assim, não restou outra coisa senão os dois beberem a cerveja, comerem os salames italianos e se despedirem. Depois o senhor Jenom ainda passou vergonha na taberna frequentada pelo senhor Bílek e, por fim, em todo o bairro só o chamavam de ‘Jenom, o cagão’, e por toda parte contavam como ele quis salvar a situação. A vida humana, respeitosamente informo, senhor primeiro-tenente, é tão complicada que, perto dela, a própria vida de uma pessoa não vale um trapo. Antes da guerra, frequentava a nossa taberna do Cálice, em Bojiště, um inspetor-chefe da polícia, certo senhor Hubička, e também um senhor redator que recolhia pernas quebradas, gente atropelada e suicidas para pôr no jornal. Era um homem tão alegre que passava mais tempo na sala da guarda da polícia do que na própria redação. Uma vez ele embebedou o senhor inspetor-chefe Hubička, e os dois trocaram de roupa na cozinha. Assim, o inspetor-chefe ficou à paisana e o senhor redator virou inspetor-chefe da polícia; apenas cobriu o número do revólver e saiu em patrulha por Praga. Na rua Resslova, atrás da antiga penitenciária de São Venceslau, encontrou, no silêncio da noite, um senhor de idade, de cartola e casaco de pele, caminhando de braço dado com uma senhora também de idade, vestida com um manto de peles. Os dois iam depressa para casa sem trocar palavra. Ele saltou diante deles e berrou no ouvido do homem: ‘Pare de berrar desse jeito ou vou levá-lo para a delegacia!’ Imagine, senhor primeiro-tenente, o susto dos dois. Em vão explicaram que devia haver algum engano, pois vinham de um jantar na casa do senhor governador. A carruagem os deixara depois do Teatro Nacional, e agora queriam tomar um pouco de ar, pois moravam perto dali, em Moráň; ele era conselheiro superior do governo provincial e aquela era sua esposa. ‘O senhor não vai me fazer de bobo’, continuou berrando o redator disfarçado. ‘Devia ter vergonha, se é, como diz, algum conselheiro superior do governo provincial, e ainda assim se comporta como um moleque. Faz tempo que estou observando o senhor bater com a bengala nas persianas de todas as lojas que encontrava pelo caminho, enquanto sua, como diz o senhor, esposa o ajudava.’ ‘Mas eu não tenho bengala nenhuma, como pode ver. Deve ter sido alguém que passou antes de nós.’ ‘Claro que não tem’, respondeu o redator disfarçado, ‘porque a quebrou, como eu vi, ali na esquina, nas costas de uma velha que anda pelas tabernas vendendo batatas assadas e castanhas.’ A senhora já nem conseguia chorar, e o senhor conselheiro superior ficou tão indignado que começou a falar em insolência. Com isso, foi preso e conduzido à patrulha mais próxima, pertencente à área do comissariado da rua Salmova. O redator disfarçado disse aos policiais que levassem o casal ao comissariado, pois ele pertencia ao posto de São Henrique e estava em missão de serviço em Vinohrady. Tinha apanhado os dois perturbando o sossego noturno, envolvidos numa briga de rua, e, além disso, cometendo a contravenção de desacato à guarda. Ele resolveria o caso no comissariado de São Henrique e, dentro de uma hora, apareceria no da rua Salmova. Assim, a patrulha arrastou os dois consigo, e eles ficaram sentados lá até de manhã, esperando pelo inspetor-chefe, enquanto o redator, dando uma grande volta, regressou ao Cálice, em Bojiště, acordou o inspetor-chefe Hubička e, com toda a delicadeza, comunicou-lhe o que tinha acontecido e a investigação que aquilo provocaria, caso ele não mantivesse a boca fechada...”

O primeiro-tenente Lukáš já parecia cansado da conversa, mas, antes de pôr o cavalo a trote para alcançar a vanguarda, disse a Švejk:

“Mesmo que você fale até a noite, isso só vai ficando cada vez mais idiota.”

“Senhor primeiro-tenente”, gritou Švejk para Lukáš, que se afastava, “não deseja saber como terminou?”

O primeiro-tenente Lukáš passou ao galope.

O estado do tenente Dub melhorara tanto que ele saiu do carrinho sanitário de duas rodas, reuniu ao seu redor todo o Estado-Maior da companhia e, como se estivesse num delírio, começou a instruí-los. Fez-lhes um discurso tremendamente comprido, que pesou mais sobre todos do que a munição e os fuzis.

Era uma mistura de várias parábolas.

Começou:

“O amor dos soldados pelos senhores oficiais torna possíveis sacrifícios inacreditáveis, e isso não importa; e, por outro lado, quando esse amor não nasce espontaneamente no soldado, deve ser imposto. Na vida civil, o amor forçado de uma pessoa por outra, digamos, do zelador da escola pelo corpo docente, dura tanto quanto o poder externo que o impõe. No Exército, porém, vemos precisamente o contrário, pois o oficial não deve permitir ao soldado o menor afrouxamento desse amor que liga o soldado ao seu superior. Esse amor não é apenas amor comum, mas, na verdade, respeito, medo e disciplina.”

Durante todo esse tempo, Švejk caminhava ao lado dele, pela esquerda, e, enquanto o tenente Dub falava, mantinha o rosto constantemente voltado para ele em rechtsšaut.

A princípio, o tenente Dub de algum modo não percebeu e continuou o discurso:

“Essa disciplina e esse dever de obediência, esse amor obrigatório do soldado pelo oficial, manifestam grande concisão, pois a relação entre soldado e oficial é inteiramente simples: um obedece, o outro ordena. Há muito já lemos nos livros de arte militar que o laconismo militar, a simplicidade militar, constitui precisamente a virtude que deve ser adquirida por todo soldado que, queira ou não, ama seu superior, o qual, aos olhos dele, deve ser o maior, completo e cristalizado objeto de uma vontade firme e perfeita.”

Só então percebeu o rechtsšaut de Švejk, que o acompanhava. Aquilo lhe pareceu terrivelmente desagradável, pois de repente ele próprio sentiu que se enredava de algum modo no discurso e não conseguia sair daquele desfiladeiro do amor do soldado pelo superior. Por isso, berrou para Švejk:

“Por que fica me olhando como bezerro diante de porteira nova?”

“Conforme a ordem, respeitosamente informo, senhor tenente, certa vez o senhor dignou-se a me advertir de que, quando falasse, eu deveria acompanhar sua boca com os olhos. Como todo soldado deve cumprir as ordens de seu superior e guardá-las na memória para todos os tempos futuros, fui obrigado a fazer isso.”

“Olhe”, gritou o tenente Dub, “para o outro lado! Só não olhe para mim, seu imbecil. Você sabe que não gosto disso, que não suporto ver você. Eu ainda vou pegar tanto no seu pé...”

Švejk virou a cabeça para a esquerda e continuou caminhando ao lado do tenente Dub com tamanha rigidez que este gritou:

“Para onde está olhando quando eu falo com você?”

“Respeitosamente informo, senhor tenente, que, conforme sua ordem, estou em linksšaut.”

“Ah”, suspirou o tenente Dub, “você é uma cruz. Olhe bem para a frente e pense consigo mesmo: ‘Sou tão idiota que ninguém vai sentir falta de mim.’ Consegue se lembrar disso?”

Švejk olhou para a frente e disse:

“Respeitosamente informo, senhor tenente, devo responder a isso?”

“Como se atreve?”, berrou o tenente Dub. “Que maneira é essa de falar comigo? O que quer dizer com isso?”

“Respeitosamente informo, senhor tenente, que só estou pensando naquela ordem sua, numa estação, quando o senhor me repreendeu dizendo que eu não devia responder de modo algum depois que terminasse de falar.”

“Então você tem medo de mim”, disse o tenente Dub, exultante, “mas ainda não me conhece. Homens muito diferentes de você já tremeram diante de mim, lembre-se disso. Eu soube domar sujeitos muito melhores. Portanto, cale a boca e fique bem lá atrás, para eu não ver você!”

Assim, Švejk ficou para trás, junto ao serviço sanitário, e seguiu confortavelmente com o carrinho de duas rodas até o lugar destinado ao descanso, onde finalmente todos receberam a sopa e a carne da vaca desgraçada.

“Deviam ter deixado essa vaca de molho no vinagre pelo menos uns catorze dias. E, se não deixaram a vaca, deviam ter deixado o sujeito que a comprou”, declarou Švejk.

Da brigada chegou a galope um estafeta com uma nova ordem para a 11ª companhia: o itinerário de marcha seria alterado para Felštýn; Wojalyče e Sambor deveriam ser deixadas de lado, pois não era possível alojar a companhia ali, uma vez que já havia dois regimentos de Poznań.

O primeiro-tenente Lukáš tomou imediatamente as providências. O sargento-contador Vaněk e Švejk procurariam alojamento para a companhia em Felštýn.

“Veja lá, Švejk, não faça nenhuma das suas pelo caminho”, advertiu-o o primeiro-tenente Lukáš. “Acima de tudo, comporte-se decentemente com a população!”

“Respeitosamente informo, senhor primeiro-tenente, que farei todo o possível. É verdade que tive um sonho feio quando cochilei um pouco ao amanhecer. Sonhei com uma tina que ficou vazando a noite inteira no corredor da casa onde eu morava, até transbordar e encharcar o teto do senhorio, que logo pela manhã me despejou. Esse caso, senhor primeiro-tenente, aconteceu de verdade; foi em Karlín, depois do viaduto...”

“Poupe-nos, Švejk, dessas suas conversas idiotas e olhe o mapa com Vaněk para ver por onde devem seguir. Aqui estão as aldeias. A partir desta aldeia, sigam à direita até o riacho e acompanhem o curso dele até a aldeia seguinte. De lá, no ponto onde deságua o primeiro córrego que encontrarem à direita, subam por uma estrada rural, exatamente para o norte, e não poderão se perder em lugar nenhum que não seja Felštýn! Entendeu?”

Švejk partiu, portanto, com o sargento-contador Vaněk, seguindo o itinerário.

Já passava do meio-dia. A paisagem arfava sob o calor, e as covas mal cobertas onde os soldados haviam sido enterrados exalavam cheiro de podridão. Chegaram a uma região onde se travaram combates durante o avanço para Przemyśl e onde batalhões inteiros tinham sido ceifados por metralhadoras. Nos pequenos bosques junto ao riacho, viam-se os estragos da artilharia. Em grandes extensões e pelas encostas, aqui e ali, em lugar das árvores, erguiam-se da terra apenas uns tocos, e trincheiras sulcavam aquele deserto.

“Aqui é diferente dos arredores de Praga”, disse Švejk, para quebrar o silêncio.

“Lá em casa já terminamos a colheita”, disse o sargento-contador Vaněk. “Na região de Kralupy, sempre começamos primeiro.”

“Aqui vai dar uma colheita muito boa depois da guerra”, disse Švejk, após um instante. “Eles nem vão precisar comprar farinha de ossos. É muito vantajoso para os lavradores quando um regimento inteiro apodrece no campo deles; no fim das contas, vira adubo. Só estou preocupado com uma coisa: que esses lavradores não deixem ninguém enganá-los e acabem vendendo os ossos dos soldados por uma ninharia às fábricas de açúcar, para fazer espódio. No quartel de Karlín havia um primeiro-tenente Holub, tão instruído que todos na companhia o consideravam um imbecil, porque, de tão instruído, nunca tinha aprendido a xingar os soldados e só refletia sobre tudo do ponto de vista científico. Certa vez, os soldados lhe comunicaram que o pão do comissariado que tinham recebido não dava para comer. Outro oficial teria ficado furioso com tamanha insolência, mas ele não. Continuou calmo, não chamou ninguém de porco nem de filho da puta, e tampouco deu um soco na cara de ninguém. Apenas reuniu todos os seus homens e disse, com aquela voz agradável que tinha: ‘Em primeiro lugar, soldados, vocês precisam compreender que o quartel não é nenhum delikatessenhandlung, onde possam escolher enguias marinadas, sardinhas em óleo e canapés. Todo soldado deve ser inteligente o bastante para engolir sem reclamar tudo o que recebe e ter dentro de si disciplina suficiente para não se deter na qualidade daquilo que deve comer. Imaginem, soldados, que houvesse uma guerra. À terra em que os enterrarão depois da batalha é inteiramente indiferente com que espécie de pão do comissariado vocês encheram a barriga antes de morrer. A mãe terra vai decompô-los e devorá-los até com as botas. Nada pode se perder no mundo. De vocês, soldados, crescerá de novo o cereal para o pão do comissariado destinado a novos soldados que talvez, como vocês, também não fiquem satisfeitos, vão reclamar e deem de cara com alguém que os mande prender até o dia do Juízo Final, porque tem o direito de fazer isso. Agora, soldados, expliquei-lhes tudo muito bem e espero não precisar tornar a lembrar que, quem voltar a reclamar, vai dar enorme valor a esse pão quando tornar a ver a luz do dia.’ ‘Antes ele nos xingasse’, diziam os soldados entre si, e todas aquelas delicadezas das palestras do senhor primeiro-tenente os aborreciam terrivelmente. Então, certa vez, a companhia me escolheu para ir dizer a ele que todos gostavam muito dele, mas que aquilo não era Exército de verdade se ele não xingava. Fui à casa dele e pedi que parasse com toda aquela delicadeza, que o Exército precisava ser duro como uma correia, que os soldados estavam acostumados a ouvir todos os dias que eram cães e porcos, pois, caso contrário, perdiam o respeito pelos superiores. No começo ele resistiu, falou alguma coisa sobre inteligência e sobre não ser mais possível servir sob a vara, mas no fim deixou-se convencer, deu-me umas bofetadas e me pôs para fora, para aumentar a própria autoridade. Quando comuniquei o resultado da negociação, todos ficaram muito contentes, mas ele estragou tudo de novo já no dia seguinte. Veio até mim e disse na frente de todos: ‘Švejk, ontem me excedi. Aqui tem um florim, beba à minha saúde. É preciso saber lidar com a tropa.’”

Švejk olhou ao redor.

“Acho”, disse ele, “que estamos indo pelo caminho errado. O senhor primeiro-tenente explicou tudo muito bem. Temos de subir, descer, depois virar à esquerda e à direita, depois de novo à direita, em seguida à esquerda, e nós estamos seguindo sempre em frente. Ou será que já fizemos tudo isso de passagem, enquanto conversávamos? De qualquer maneira, vejo duas estradas diante de nós que levam a Felštýn. Eu sugeriria que agora seguíssemos pela estrada da esquerda.”

Como costuma acontecer quando duas pessoas chegam a uma encruzilhada, o sargento-contador Vaněk começou a insistir que era preciso seguir pela direita.

“A minha estrada”, disse Švejk, “é mais cômoda que a sua. Eu vou acompanhar o córrego, onde crescem miosótis, enquanto o senhor vai ficar se arrastando por algum terreno seco. Eu me atenho ao que o senhor primeiro-tenente nos disse, que não há nenhuma possibilidade de nos perdermos. E, se não podemos nos perder, por que eu iria subir algum morro? Vou tranquilamente pelos prados, ponho uma florzinha atrás do quepe e colho um buquê inteiro para o senhor primeiro-tenente. Aliás, podemos descobrir qual de nós tem razão, e espero que nos separemos aqui como bons amigos. Esta paisagem é de tal jeito que todas as estradas devem levar a Felštýn.”

“Não seja maluco, Švejk”, disse Vaněk. “Segundo o mapa, é justamente por aqui que devemos seguir, como estou dizendo, pela direita.”

“O mapa também pode estar errado”, respondeu Švejk, descendo para o vale do córrego. “Certa vez, o salsicheiro Křenek, de Vinohrady, saiu dos Montéquios, na Cidade Pequena, e tentou voltar para casa à noite seguindo uma planta da cidade de Praga. Ao amanhecer, foi parar em Rozdělov, perto de Kladno, onde o encontraram enregelado no meio de uma plantação de centeio, na qual tinha caído de cansaço. Se o senhor não quer me ouvir, senhor Rechnungsfeldwebel, e insiste em fazer as coisas do seu jeito, então teremos mesmo de nos separar e nos encontraremos apenas no destino, em Felštýn. Dê uma olhada no relógio, para sabermos quem chegará primeiro. E, caso algum perigo ameace o senhor, basta atirar para o alto, para eu saber onde está.”

À tarde, Švejk chegou a um pequeno açude, onde encontrou um prisioneiro russo fugitivo que estava se banhando. Ao ver Švejk, o homem saiu nu da água e pôs-se a correr.

Švejk ficou curioso para saber como lhe cairia o uniforme russo que estava jogado debaixo dos salgueiros. Tirou o próprio uniforme e vestiu o do infeliz prisioneiro nu, que fugira de um transporte alojado numa aldeia depois do bosque. Švejk queria ver-se refletido com nitidez na água e, por isso, ficou andando de um lado para outro sobre o dique do açude, até ser encontrado por uma patrulha da gendarmaria de campanha que procurava o fugitivo russo. Eram húngaros e, apesar dos protestos de Švejk, arrastaram-no para o posto de trânsito de Chyrów, onde o incluíram num transporte de prisioneiros russos destinados a trabalhar na reparação da ferrovia em direção a Przemyśl.

Tudo aconteceu tão depressa que somente no dia seguinte Švejk se deu conta da situação e escreveu, com um pedaço de carvão de madeira, na parede branca da sala de aula onde parte dos prisioneiros fora alojada: Aqui dormiu Josef Švejk, de Praga, Kompanieordonanz da 11ª companhia de marcha do 91º regimento, que, na qualidade de encarregado dos alojamentos, caiu por engano no cativeiro austríaco perto de Felštýn.

As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Sinopse

Edição integral em português brasileiro de As Aventuras do Bom Soldado Švejk, traduzida diretamente do original tcheco de domínio público, preservando a estrutura dos quatro livros e suas 29 unidades.

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