Universo da obra
Universo da obra
Finalmente todos chegaram ao momento em que foram enfiados nos vagões, na proporção de quarenta e dois homens para oito cavalos. Naturalmente, os cavalos viajavam com mais conforto que a tropa, pois podiam dormir em pé, mas isso não vinha ao caso. O trem militar levava para a Galícia mais um grupo de pessoas conduzidas ao matadouro.
No conjunto, porém, todas aquelas criaturas sentiram certo alívio. Quando o trem se pôs em movimento, ao menos havia alguma coisa definida. Antes, existia apenas uma incerteza angustiante, um pânico sobre se partiriam naquele dia, no seguinte ou no outro. Alguns se sentiam como condenados à morte que aguardam, apavorados, o momento em que o carrasco virá buscá-los. Depois chega a tranquilidade de saber que logo tudo estará acabado.
Por isso um soldado berrava do vagão como um alucinado:
“Estamos indo! Estamos indo!”
O sargento-contador Vaněk tinha toda a razão quando dizia a Švejk que não havia pressa alguma.
Antes que chegasse o momento de subir nos vagões, passaram-se vários dias, e durante todo esse tempo não se parava de falar em conservas. O experiente Vaněk declarou que aquilo não passava de fantasia. Conservas, uma ova! Talvez ainda houvesse uma missa de campanha, pois na marcha anterior acontecera assim. Quando há conservas, a missa de campanha é cancelada. No caso contrário, a missa de campanha serve de substituto para as conservas.
E assim, em lugar das conservas de goulash, apareceu o obrfeldkurát Ibl, que matou três moscas com uma cajadada só. Celebrou uma missa de campanha de uma vez para três batalhões de marcha, abençoando dois deles rumo à Sérvia e um rumo à Rússia.
Fez um discurso extremamente entusiasmado, e dava para perceber que tirara o material dos calendários militares. Foi um discurso tão comovente que, quando viajavam para Mošon, Švejk, que estava no mesmo vagão que Vaněk, numa secretaria improvisada, recordou a fala e disse ao sargento-contador:
“Vai ser muito bonito, como dizia aquele capelão militar, quando o dia se inclinar para a noite e o sol, com seus raios dourados, desaparecer atrás das montanhas, e no campo de batalha der para ouvir, como ele falou, o último suspiro dos moribundos, o relincho dos cavalos abatidos, o gemido dos homens feridos e o lamento da população enquanto as casas queimam sobre a cabeça deles. Eu gosto muito quando as pessoas enlouquecem ao quadrado.”
Vaněk assentiu com a cabeça.
“Foi uma história danadamente comovente.”
“Foi muito bonita e instrutiva”, disse Švejk. “Eu me lembro muito bem, e, quando voltar da guerra, vou contar lá no Cálice. Quando o senhor capelão estava explicando aquilo, abriu tanto as pernas que fiquei com medo de uma delas escorregar, ele cair em cima do altar de campanha e arrebentar o coco na custódia. Deu um exemplo muito bonito da história do nosso exército, do tempo em que Radetzky ainda servia, quando o fogo dos celeiros incendiados no campo de batalha se misturava com o rubor do entardecer, como se ele próprio tivesse visto tudo.”
Naquele mesmo dia, o obrfeldkurát Ibl já estava em Viena, onde contava a outro batalhão de marcha a comovente história mencionada por Švejk, da qual este gostara tanto que a chamara de imbecilidade ao quadrado.
“Meus queridos soldados”, discursava o obrfeldkurát Ibl, “imaginem que estamos no ano de quarenta e oito e que terminou vitoriosamente a batalha de Custozza, na qual, após dez horas de combate renhido, o rei Alberto da Itália teve de entregar o campo de batalha ensanguentado ao nosso pai dos soldados, o marechal Radetzky, que, aos oitenta e quatro anos de idade, alcançou tão esplêndida vitória.
“E eis, queridos soldados! Numa elevação diante da Custozza conquistada, deteve-se o velho comandante. Ao redor dele estavam seus fiéis comandantes. A solenidade do momento apoderou-se de todo o grupo, pois, soldados, a pequena distância do marechal, podia-se ver um combatente lutando contra a morte. Com os membros despedaçados no campo da honra, o porta-bandeira Hrt, gravemente ferido, percebeu que o marechal Radetzky o observava. O digno porta-bandeira ferido ainda apertava na direita enrijecida uma medalha de ouro, num entusiasmo convulsivo. Ao contemplar o nobre marechal, seu coração voltou a pulsar uma última vez, o derradeiro resto de força percorreu seu corpo mutilado e o moribundo tentou, com esforço sobre-humano, arrastar-se ao encontro do marechal.
“‘Fique em repouso, meu bravo soldado’, exclamou o marechal, descendo do cavalo e querendo estender-lhe a mão.
“‘Não é possível, senhor marechal’, respondeu o soldado moribundo. ‘Perdi as duas mãos, mas peço uma coisa. Diga-me toda a verdade: a batalha foi completamente vencida?’
“‘Completamente, meu caro companheiro’, respondeu bondosamente o marechal de campo. ‘É uma pena que sua alegria seja obscurecida pelo ferimento.’
“‘Naturalmente, nobre senhor, para mim chegou o fim’, disse o soldado com voz sombria, sorrindo agradavelmente.
“‘Está com sede?’, perguntou Radetzky.
“‘O dia esteve muito quente, senhor marechal. Passamos dos trinta graus.’
“Então Radetzky tomou o cantil de seu ajudante e o ofereceu ao moribundo. Este bebeu, dando um grande gole.
“‘Que Deus lhe pague mil vezes!’, exclamou, esforçando-se para beijar a mão de seu comandante.
“‘Há quanto tempo você serve?’, perguntou este.
“‘Há mais de quarenta anos, senhor marechal! Em Aspern conquistei a medalha de ouro. Também estive em Leipzig, e tenho igualmente a Cruz dos Canhões. Fui ferido mortalmente cinco vezes, mas agora chegou definitivamente o meu fim. Que felicidade e que bem-aventurança ter vivido até o dia de hoje! Que me importa a morte, se alcançamos uma vitória gloriosa e devolvemos ao imperador sua terra!’
“Naquele momento, queridos soldados, ressoaram do acampamento os majestosos acordes do nosso hino, Zachovej nám, Hospodine, propagando-se poderosos e sublimes pelo campo de batalha. O soldado caído, despedindo-se da vida, tentou erguer-se uma última vez.
“‘Glória à Áustria!’, exclamou com entusiasmo. ‘Glória à Áustria! Que continuem tocando essa magnífica canção! Glória ao nosso comandante! Viva o exército!’
“O moribundo inclinou-se mais uma vez sobre a mão direita do marechal, beijou-a, tombou e um último suspiro silencioso desprendeu-se de sua nobre alma. O comandante permaneceu de cabeça descoberta diante do cadáver de um dos mais dignos soldados.
“‘Um fim tão belo é verdadeiramente invejável’, declarou o marechal, comovido, ocultando o rosto nas mãos unidas.
“Meus queridos soldados, também desejo que todos vocês alcancem um fim tão belo.”
Ao recordar esse discurso do obrfeldkurát Ibl, Švejk podia realmente chamá-lo de imbecil ao quadrado sem lhe fazer a menor injustiça.
Depois Švejk começou a falar das conhecidas ordens que lhes haviam sido lidas antes de entrarem no trem. Uma era uma ordem do exército assinada por Francisco José, e a outra, uma ordem do arquiduque José Fernando, comandante-chefe do Exército do Leste e de seu agrupamento. Ambas se referiam aos acontecimentos ocorridos no passo de Dukla em 3 de abril de 1915, quando dois batalhões do 28º Regimento, juntamente com seus oficiais, passaram para o lado russo ao som da banda regimental.
As duas ordens foram lidas para eles com voz trêmula e, na tradução tcheca, diziam:
Ordem do exército de 17 de abril de 1915:
Tomado de dor, ordeno que o imperial e real Regimento de Infantaria nº 28 seja apagado do meu exército por covardia e alta traição. A bandeira regimental será retirada do regimento desonrado e entregue ao Museu Militar. A partir de hoje deixa de existir o regimento que, moralmente envenenado em sua terra de origem, partiu para o campo de batalha a fim de cometer alta traição.
Francisco José I.
Ordem do arquiduque José Fernando:
As tropas tchecas fracassaram durante a campanha, particularmente nos últimos combates. Fracassaram sobretudo na defesa das posições em que permaneceram durante longo tempo nas trincheiras, circunstância de que o inimigo se valeu frequentemente para estabelecer contato e ligação com os elementos infames dessas tropas. Em geral, os ataques do inimigo, apoiado por esses traidores, dirigiam-se sempre contra os setores da frente ocupados por tropas dessa espécie. Muitas vezes o inimigo conseguiu surpreender nossas unidades, penetrar quase sem resistência em nossas posições e capturar um número consideravelmente grande de defensores.
Mil vezes vergonha, desonra e desprezo para esses miseráveis sem honra, que traíram o imperador e o império e mancham não apenas a honra das gloriosas bandeiras de nosso glorioso e valente exército, mas também a honra da nacionalidade à qual declaram pertencer.
Mais cedo ou mais tarde, uma bala ou a corda do carrasco os alcançará. É dever de todo soldado tcheco que ainda tenha honra no corpo denunciar a seu comandante qualquer patife, agitador e traidor dessa espécie. Quem não o fizer será, ele próprio, um traidor e um patife.
Esta ordem deverá ser lida a todos os homens dos regimentos tchecos. O imperial e real Regimento nº 28, por determinação de nosso monarca, já foi riscado do exército, e todos os desertores capturados desse regimento pagarão com o próprio sangue sua grave culpa.
Arquiduque José Fernando
“Leram isso para nós um pouco tarde”, disse Švejk a Vaněk. “Fico muito admirado de terem lido só agora, quando o senhor imperador já tinha expedido essa ordem no dia 17 de abril. Poderia até parecer que, por algum motivo, não quiseram ler logo para nós. Se eu fosse o senhor imperador, não aceitaria ser deixado de lado dessa maneira. Quando expido uma ordem em 17 de abril, ela tem de ser lida no dia 17 em todos os regimentos, nem que chovam sovelas.”
Do outro lado do vagão, em frente a Vaněk, estava sentado o cozinheiro ocultista da messe dos oficiais, escrevendo alguma coisa. Atrás dele encontravam-se o criado do primeiro-tenente Lukáš, o gigante barbudo Baloun, e o telefonista Chodounský, destacado para a 11ª companhia de marcha. Baloun mastigava um pedaço de pão do comissariado e explicava, apavorado, ao telefonista Chodounský que não tinha culpa de não ter conseguido chegar ao vagão do Estado-Maior, onde estava seu primeiro-tenente, por causa do aperto na hora de embarcar.
Chodounský o assustava, dizendo que agora a brincadeira acabara e que aquilo lhe renderia uma bala.
“Quem dera esse sofrimento acabasse de uma vez”, lamentou Baloun. “Já passei por um aperto desses nas manobras perto de Votice. Marchávamos com fome e sede, e, quando o ajudante do batalhão apareceu a cavalo, gritei: ‘Deem água e pão para nós!’ Ele virou o cavalo na minha direção e disse que, se aquilo fosse na guerra, eu teria de sair da formação e ele mandaria me fuzilar, mas que, como não era, me mandaria prender na guarnição. Só que tive uma sorte enorme, porque, quando foi avisar o Estado-Maior, o cavalo se assustou no caminho, ele caiu e, graças a Deus, quebrou o pescoço.”
Baloun suspirou profundamente e engasgou com o pedaço de pão. Quando se recuperou, lançou um olhar cobiçoso para os dois sacos do primeiro-tenente Lukáš, que estavam sob seus cuidados.
“Os senhores oficiais receberam”, disse melancolicamente, “conserva de fígado e salame húngaro. Nem que fosse um pedacinho.”
Enquanto falava, fitava os dois sacos de seu primeiro-tenente com o desejo de um cachorrinho abandonado por todos, faminto como um lobo, que fica sentado à porta de uma charcutaria respirando o vapor das carnes que estão cozinhando.
“Não seria nada ruim”, disse Chodounský, “se em algum lugar estivessem esperando por nós com um bom almoço. Quando fomos para a Sérvia no começo da guerra, empanturramo-nos em todas as estações, de tanto que nos ofereciam comida por toda parte. Cortávamos cubinhos da melhor carne das coxas de ganso e jogávamos ovčinec com eles sobre barras de chocolate. Em Osijek, na Croácia, dois senhores da associação dos veteranos trouxeram para o vagão um caldeirão enorme de lebre assada. Aí já não aguentamos mais e viramos tudo na cabeça deles. Durante toda a viagem não fazíamos outra coisa senão vomitar dos vagões. O cabo Matějka, no nosso vagão, comeu tanto que tivemos de pôr uma tábua atravessada sobre a barriga dele e pular em cima, como quando se pisa repolho. Só assim ele melhorou e começou a sair tudo por cima e por baixo. Quando atravessamos a Hungria, jogavam galinhas assadas dentro dos vagões em todas as estações. Delas, a única coisa que comíamos era o cérebro. Em Kapošfalva, os húngaros jogaram pedaços inteiros de porco assado para dentro dos vagões, e um camarada levou uma cabeça inteira de porco assada na cabeça com tanta força que depois correu atrás do doador por três linhas férreas, com o überšvunk na mão. Em compensação, na Bósnia não recebemos nem água. Mas, embora fosse proibido, levamos para a Bósnia todo tipo de aguardente que a garganta pudesse desejar, e vinho aos rios. Lembro que, numa estação, umas senhoras e senhoritas nos ofereceram cerveja. Nós mijamos dentro do jarro de cerveja, e lá foram elas para o vagão seguinte!
“Durante a viagem inteira ficamos como fantasmas. Eu não conseguia nem enxergar o ás de bolotas. Quando menos esperávamos, veio de repente uma ordem. Nem terminamos a partida, e todo mundo teve de sair dos vagões. Um cabo, já não lembro o nome, gritava para os homens dele cantarem: ‘Und die Serben müssen sehen, daß wir Österreicher Sieger, Sieger sind.’ Mas alguém lhe deu um chute por trás, e ele rolou pelos trilhos. Depois começaram a berrar para empilharmos os fuzis em pirâmides, e o trem deu meia-volta imediatamente e retornou vazio. Só que, como sempre acontece nessas confusões, levou consigo nossa frpflégung para dois dias. Mais ou menos daqui até aquelas árvores começaram a explodir os estilhaços. O batalionskomandant veio do outro lado, reuniu todos os oficiais para uma conferência, e depois apareceu o nosso primeiro-tenente Macek, tcheco da cabeça aos pés, mas que só falava alemão. Estava branco como giz e disse que não era possível seguir adiante, porque a linha tinha sido explodida durante a noite, os sérvios haviam atravessado o rio e agora estavam no flanco esquerdo. Mas aquilo ainda ficava longe de nós. Disse que receberíamos reforços e depois os faríamos em pedaços. Ninguém devia se render caso acontecesse alguma coisa, porque os sérvios, segundo ele, cortavam as orelhas e os narizes dos prisioneiros e furavam os olhos deles. Não devíamos nos preocupar com os estilhaços explodindo perto de nós. Era a nossa artilharia fazendo os disparos de regulagem. De repente, ouviu-se em algum lugar atrás da montanha: tatatatatatatata. Eram as nossas mašínengevéry fazendo a regulagem. Depois ouvimos uma canhonada à esquerda. Era a primeira vez que escutávamos aquilo, e ficamos deitados de barriga no chão. Alguns projéteis passaram por cima de nós e incendiaram a estação. Do lado direito, as balas começaram a assobiar sobre nossas cabeças, e ao longe ouviam-se salvas e o estrondo dos fuzis. O primeiro-tenente Macek ordenou que desfizéssemos as pirâmides e carregássemos os fuzis. O Dienstführender foi até ele e explicou que aquilo era completamente impossível, pois não tínhamos munição alguma. Ele sabia muito bem que só receberíamos a munição na etapa seguinte, antes da posição. À nossa frente seguia um trem com munição, e esse trem provavelmente já tinha caído nas mãos dos sérvios. O primeiro-tenente Macek ficou parado por algum tempo, feito de madeira, e depois deu a ordem ‘Bajonett auf’, sem saber por quê. Foi só por desespero, para que alguma coisa fosse feita. Ficamos outra vez de prontidão durante um bom tempo, e depois voltamos a nos deitar sobre os dormentes, porque apareceu um aeroplano e os graduados gritavam: ‘Alles decken, decken!’ Depois descobriram que era um dos nossos e que também tinha sido alvejado por engano pela nossa própria artilharia. Então nos levantamos de novo, e nenhuma ordem, nada! De um lado veio galopando um cavalariano. De longe ele já gritava: ‘Wo ist Batalionskommando?’ O batalionskomandant foi a seu encontro, o homem lhe entregou uma folha e tornou a partir para a direita. O batalionskomandant leu aquilo enquanto voltava e, de repente, ficou como se tivesse enlouquecido. Puxou o sabre e veio voando para cima de nós. ‘Alles zurück, alles zurück!’, berrava para os oficiais. ‘Direktion Mulde, einzeln abfallen!’ E então começou. De todos os lados, como se estivessem esperando por aquilo, começaram a atirar em nós. À esquerda havia um milharal, e aquilo parecia o próprio diabo. Arrastamo-nos de quatro até o vale e deixamos as mochilas sobre aqueles malditos dormentes. O primeiro-tenente Macek levou um tiro de lado na cabeça e não disse nem ai. Antes de fugirmos para o vale, já havia um monte de mortos e feridos. Deixamos todos ali e corremos até a noite. À nossa frente, a região já estava completamente varrida de nossas tropas. Só vimos o trem militar saqueado. Finalmente chegamos a uma estação, onde recebemos novas ordens para embarcar num trem e voltar ao Estado-Maior. Não pudemos cumprir, porque o Estado-Maior inteiro tinha sido capturado no dia anterior, coisa que só descobrimos pela manhã. Então ficamos como órfãos. Ninguém queria saber de nós, e nos juntaram ao 73º Regimento para recuarmos com ele, o que fizemos com a maior alegria. Mas primeiro tivemos de marchar para a frente durante quase um dia, até alcançar o 73º Regimento. Depois nós...”
Ninguém mais o escutava, pois Švejk e Vaněk jogavam mariáš de compra, o cozinheiro ocultista da messe dos oficiais continuava escrevendo uma longa carta à esposa, que, durante sua ausência, começara a publicar uma nova revista teosófica, e Baloun cochilava sobre o banco. Assim, não restou ao telefonista Chodounský senão repetir:
“Sim, disso eu não vou esquecer...”
Levantou-se e foi dar palpites no mariáš de compra.
“Você podia pelo menos acender meu cachimbo”, disse Švejk amigavelmente a Chodounský, “já que vai ficar dando palpites. O mariáš de compra é uma coisa mais séria que a guerra inteira e que essa sua maldita aventura na fronteira sérvia. Olha a imbecilidade que eu fiz! Devia me dar uns tapas. Se tivesse esperado mais um pouco com aquele rei, justamente agora me veio o valete. Eu sou um animal.”
Enquanto isso, o cozinheiro ocultista terminou a carta e releu-a, evidentemente satisfeito com a bela maneira como a redigira para enfrentar a censura militar.
Querida esposa!
Quando receber estas linhas, já estarei há alguns dias no trem, pois partimos para a frente. Isso não me agrada muito, porque no trem sou obrigado a ficar ocioso e não posso ser útil, uma vez que nossa cozinha dos oficiais não funciona durante a viagem e a comida é distribuída nas etapas ferroviárias. Eu gostaria muito de ter preparado para nossos senhores oficiais, enquanto atravessamos a Hungria, um goulash de Szeged, mas não tive essa sorte. Talvez, quando chegarmos à Galícia, eu tenha oportunidade de preparar šoule, os autênticos da Galícia, ou ganso cozido com cevada ou arroz. Acredite, minha querida Helenka, que realmente me esforço ao máximo para tornar mais agradáveis as preocupações e os esforços de nossos senhores oficiais. Fui transferido do regimento para o batalhão de marcha, o que era meu desejo mais ardente, para que eu pudesse, mesmo dispondo de recursos modestos, colocar a cozinha de campanha dos oficiais na frente de batalha nos melhores trilhos. Você se lembra, querida Helenka, de ter desejado, quando me apresentei ao regimento, que eu encontrasse bons superiores. Seu desejo se realizou. Não apenas não tenho a menor razão para me queixar, como, pelo contrário, todos os senhores oficiais são nossos verdadeiros amigos e, especialmente comigo, comportam-se como um pai. Assim que puder, comunicarei a você o número de nosso correio de campanha...
Essa carta fora imposta pelas circunstâncias, depois que o cozinheiro ocultista rompeu definitivamente com o coronel Schröder, que até então o protegera, mas que, no jantar de despedida dos oficiais do batalhão de marcha, novamente não recebera, por um infeliz acaso, sua porção de rim de vitela enrolado. O coronel Schröder mandou o cozinheiro para o campo com a companhia de marcha e confiou a cozinha do regimento a um infeliz professor do instituto para cegos de Klárov.
O cozinheiro ocultista tornou a passar os olhos pelo que escrevera e que lhe parecia extremamente diplomático, a fim de continuar, de algum modo, um pouco afastado do campo de batalha, pois, dissesse quem dissesse o contrário, até na frente de combate a cozinha continuava sendo uma boa mamata.
Quando ainda era civil, redator e proprietário de uma revista ocultista dedicada às ciências do além-túmulo, escrevera um longo ensaio afirmando que ninguém deveria ter medo da morte, além de outro ensaio sobre a transmigração das almas.
Ele também se aproximou para dar palpites no jogo de Švejk e Vaněk. Naquele momento, já não havia entre os dois jogadores nenhuma diferença de patente militar. Tampouco jogavam mais em dupla, mas mariáš de três, junto com Chodounský.
O ordenança Švejk xingava grosseiramente o sargento-contador Vaněk:
“Eu fico admirado de o senhor conseguir jogar de um jeito tão imbecil. Não está vendo que ele está jogando betl? Eu não tenho nenhum sino, e o senhor não vira com o oito, mas joga o valete de bolotas como o animal mais idiota do mundo, e esse trouxa vai ganhar.”
“Que gritaria por causa de um único betl perdido”, respondeu educadamente o sargento-contador. “O senhor também joga como um idiota. Eu deveria tirar do dedo mindinho um oito de sinos, quando também não tenho sino nenhum? Eu só tinha cartas altas de folhas e bolotas, seu dono de puteiro.”
“Então devia ter jogado o durch, seu espertalhão”, disse Švejk, sorrindo. “Foi igualzinho uma vez no Valšů, lá embaixo no restaurante. Tinha também um paspalho que estava com um durch, mas não jogava, punha sempre as cartas menores no talão e deixava todo mundo jogar betl. Mas que cartas ele tinha! As mais altas de todos os naipes. Assim como agora eu não ganharia nada se o senhor jogasse o durch, naquela ocasião também não, e nenhum de nós ganharia nada; conforme a vez rodasse, ficaríamos pagando a ele sem parar. Por fim eu disse: ‘Senhor Herold, faça o favor de jogar o durch e pare de bancar o idiota.’ Mas ele se virou contra mim, dizendo que podia jogar o que bem entendesse, que nós calássemos a boca, porque ele tinha universidade. Só que isso lhe saiu caro. O dono do restaurante era nosso conhecido, a garçonete tinha intimidade demais conosco, de modo que explicamos tudo à patrulha, que estava tudo em ordem. Primeiro, que era uma grosseria da parte dele perturbar o sossego noturno chamando a patrulha só porque escorregara no gelo diante da taberna e saíra deslizando de nariz até arrebentá-lo. Que nós nem sequer tínhamos tocado nele quando jogou mariáš roubado e, quando foi descoberto, saiu correndo tão depressa que levou um tombo. Tanto o dono como a garçonete confirmaram que nos comportáramos com ele de maneira até cavalheiresca demais. Também não merecia outra coisa. Ficou sentado das sete da noite até a meia-noite com uma cerveja e uma soda, bancando sabe Deus que grande senhor porque era professor universitário, e entendia de mariáš tanto quanto uma cabra entende de salsa. Então, quem dá as cartas agora?”
“Vamos jogar kaufevik”, propôs o cozinheiro ocultista, “seis e dois.”
“É melhor o senhor nos contar”, disse o sargento-contador Vaněk, “sobre a transmigração das almas, como explicou à moça da cantina quando quebrou o nariz.”
“Eu também já ouvi falar dessa transmigração das almas”, manifestou-se Švejk. “Certa vez, muitos anos atrás, também meti na cabeça que ia, como se diz com o devido perdão, instruir a mim mesmo para não ficar para trás, e comecei a frequentar a sala de leitura da União Industrial, em Praga. Mas, como eu estava todo esfarrapado e os buracos na bunda brilhavam, não pude me instruir, porque não me deixaram entrar e me puseram para fora, achando que eu tinha ido roubar sobretudos. Então vesti minha roupa de domingo e fui um dia à biblioteca do museu, onde eu e um amigo meu pegamos emprestado um livro sobre a transmigração das almas. Lá eu li que um imperador indiano, depois de morrer, se transformou num porco; quando mataram o porco, ele se transformou num macaco; do macaco virou texugo e, do texugo, ministro. Mais tarde, no Exército, convenci-me de que devia haver alguma verdade nisso, porque qualquer um que tivesse uma estrelinha chamava os soldados de porcos-marinhos ou de qualquer outro nome de bicho. Por aí se poderia concluir que, milhares de anos atrás, esses soldados ordinários foram grandes comandantes militares. Mas, quando há guerra, uma transmigração das almas dessas é uma coisa tremendamente idiota. Sabe o diabo quantas transformações um homem precisa atravessar antes de virar, digamos, telefonista, cozinheiro ou infante, e de repente uma granada o despedaça e a alma dele entra num cavalo da artilharia. Aí, quando a bateria inteira segue para alguma cota altimétrica, explode outra granada e mata também o cavalo em que o pobre-diabo se encarnou; a alma se muda imediatamente para alguma vaca do trem militar, que transformam em goulash para a tropa, e da vaca talvez passe logo para um telefonista, do telefonista…”
“Eu fico admirado”, disse o telefonista Chodounský, visivelmente ofendido, “de ser justamente eu o alvo dessas piadas imbecis.”
“Esse Chodounský que tem uma agência de detetives particulares com aquele olho igual à Santíssima Trindade não é seu parente?”, perguntou Švejk, inocentemente. “Eu gosto muito de detetives particulares. Muitos anos atrás, também servi no Exército com um detetive particular, um tal de Stendler. Ele tinha a cabeça tão pontuda que o nosso sargento-mor sempre dizia que, em doze anos de serviço militar, já tinha visto muitas cabeças pontudas, mas que nem em pensamento imaginara uma pontuda daquele jeito. ‘Escute aqui, Stendler’, dizia sempre a ele, ‘se não houvesse manobras este ano, sua cabeça pontuda nem serviria para o Exército; mas assim ao menos a artilharia poderá usá-la como referência para ajustar a pontaria quando chegarmos a uma região onde não houver nenhum ponto melhor de orientação.’ Ele sofreu nas mãos do sargento. Às vezes, durante a marcha, mandava-o quinhentos passos à frente e depois dava a ordem: ‘Direktion cabeça pontuda.’ De modo geral, aquele senhor Stendler, mesmo como detetive particular, tinha um azar danado. Quantas vezes contou na cantina os tormentos que costumava passar. Recebia tarefas como, por exemplo, descobrir se a mulher de algum cliente, que chegava à agência fora de si, tinha se engraçado com outro e, se já tinha se engraçado, com quem, onde e como. Ou então o contrário. Alguma mulher ciumenta queria descobrir com quem o marido andava se divertindo, para poder fazer ainda mais escândalo em casa. Ele era um homem instruído e só falava com termos escolhidos em violação da fidelidade conjugal, e quase chorava quando nos contava que todos queriam que ele apanhasse um ou outro in flagranti. Outro talvez se alegrasse ao encontrar um casal desses in flagranti e pudesse regalar os olhos, mas aquele senhor Stendler, conforme nos contava, ficava completamente transtornado. Dizia com muita inteligência que já nem conseguia olhar para aquelas devassidões obscenas. Muitas vezes a saliva escorria da nossa boca como a de um cachorro choramingando quando passam diante dele com um presunto cozido, enquanto ele descrevia todas as diferentes posições em que encontrava os casais. Quando estávamos na detenção do quartel, ele sempre desenhava para nós. ‘Foi assim’, dizia, ‘que encontrei a senhora fulana de tal com o senhor sicrano…’ Dava até os endereços. E ficava tão triste. ‘Quantas bofetadas’, dizia sempre, ‘levei dos dois lados; e isso não me doía tanto quanto aceitar subornos. De um desses subornos não vou me esquecer até a morte. Ele nu, ela nua. Num hotel, e os idiotas não tinham trancado a porta! Não cabiam no divã, porque os dois eram gordos, então brincavam no tapete como gatinhos. E o tapete estava todo gasto, empoeirado, com pontas de cigarro espalhadas por cima. Quando entrei, os dois pularam. Ele ficou de frente para mim, segurando a mão como uma folha de figueira. Ela virou as costas, e dava para ver na pele que tinha ficado impresso todo o desenho quadriculado do tapete, além de uma ponta de cigarro grudada na coluna. “Perdão”, disse eu, “senhor Zemek, sou o detetive particular Stendler, da agência Chodounský, e tenho o dever oficial de encontrá-lo in flagranti, com base na denúncia de sua digníssima esposa. Esta dama, com quem o senhor mantém aqui uma relação ilícita, é a senhora Grotová.” Nunca vi em minha vida um cidadão tão tranquilo. “Permita-me”, disse, como se fosse a coisa mais natural do mundo, “vou me vestir. A única culpada é minha esposa, que, com seu ciúme infundado, me impele a uma relação ilícita e, movida por meras suspeitas, ofende o marido com censuras e desconfiança infame. Contudo, se já não resta dúvida de que a vergonha não pode mais ser ocultada… Onde estão minhas ceroulas?”, perguntou com toda a calma. “Na cama.” Enquanto vestia as ceroulas, continuou me explicando: “Se a vergonha não pode ser ocultada, então se fala em divórcio. Mas nem assim se apaga a mancha da desonra. De modo geral, o divórcio é coisa grave”, continuou, enquanto se vestia, “o melhor é a esposa armar-se de paciência e não dar motivo a escândalo público. De resto, faça como quiser; vou deixá-lo aqui a sós com a senhora.” A senhora Grotová, enquanto isso, meteu-se na cama, o senhor Zemek apertou minha mão e foi embora.’ Já não me lembro direito de como o senhor Stendler continuou a história nem de tudo o que disse depois, porque conversou de maneira muito inteligente com a senhora na cama, dizendo que o casamento não foi instituído para conduzir cada pessoa direta e integralmente à felicidade, e que é dever de todo homem, no matrimônio, subjugar a luxúria e depurar e espiritualizar sua parte carnal. ‘E, enquanto isso’, contava o senhor Stendler, ‘comecei devagar a tirar a roupa, e quando já estava nu, completamente atordoado e selvagem como um cervo no cio, entrou no quarto meu bom conhecido Stach, também detetive particular, da agência concorrente do senhor Stern, a quem o senhor Grot recorrera em busca de ajuda no caso de sua senhora, que, segundo ele, tinha algum envolvimento amoroso. E não disse mais que: “Ah, o senhor Stendler está in flagranti com a senhora Grotová. Meus parabéns!” Fechou de novo a porta em silêncio e foi embora. “Agora tanto faz”, disse a senhora Grotová, “não precisa se vestir tão depressa, há bastante lugar ao meu lado.” “É justamente de lugar, minha senhora, que estou tratando”, respondi, já sem saber o que dizia. Só me lembro de ter falado alguma coisa sobre como as discórdias entre os cônjuges prejudicam também a educação dos filhos.’ Depois ele ainda nos contou como se vestiu depressa, deu no pé e decidiu contar tudo imediatamente ao chefe, o senhor Chodounský; mas primeiro foi tomar alguma coisa para ganhar coragem e, quando chegou, já era tarde demais. Nesse meio-tempo, Stach já estivera lá por ordem de seu chefe, o senhor Stern, para jogar na cara do senhor Chodounský a espécie de funcionário que ele mantinha em sua agência de detetives particulares. E Chodounský não encontrou solução melhor do que mandar chamar depressa a mulher do senhor Stendler, para que ela própria acertasse as contas com ele, já que o sujeito era enviado em missão oficial e acabava encontrado in flagranti pela agência concorrente. ‘Desde aquele dia’, dizia sempre o senhor Stendler quando o assunto vinha à tona, ‘minha cabeça ficou ainda mais pontuda.’”
“Então jogamos cinco e dez?” Jogaram.
O trem parou na estação de Moson. Já era noite, e ninguém tinha permissão para sair dos vagões.
Quando tornaram a partir, ouviu-se de um dos vagões uma voz forte, como se quisesse abafar o estrondo do trem. Algum soldado de Kašperské Hory, tomado pela devoção da noite, cantava com berros horríveis a noite silenciosa que se aproximava das planícies húngaras:
Gute Nacht! Gute Nacht!
Allen Müden sei’s gebracht.
Neigt der Tag stille zur Ende,
ruhen alle fleiß’gen Hände,
bis der Morgen ist erwacht.
Gute Nacht! Gute Nacht!
“Halt Maul, du Elender”, interrompeu alguém o cantor sentimental, que se calou.
Puxaram-no para longe da janela.
Mas as mãos diligentes não descansaram até o amanhecer. Como em todo o trem, sob a luz das velas, também ali, à claridade de uma pequena lamparina a querosene pendurada na parede, continuaram jogando čapáry. E Švejk, sempre que alguém se dava mal ao comprar cartas, declarava que aquele era o jogo mais justo, pois cada um podia trocar quantas cartas quisesse.
“No kaufcvik”, afirmava Švejk, “só é obrigatório comprar no ás e no sete, mas depois você pode desistir. As outras cartas não precisa comprar. Aí já é por sua conta e risco.”
“Vamos jogar um saudezinha”, propôs Vaněk, com a concordância geral.
“Sete de copas”, anunciou Švejk, cortando as cartas. “Cada um põe cinco heller, e as cartas são dadas de quatro em quatro. Andem logo, para vermos se ganhamos alguma coisa.”
E no rosto de todos havia uma satisfação igual à que teriam se não existisse guerra e se não estivessem num trem que os levava para as posições, rumo a grandes batalhas sangrentas e massacres, mas em algum café de Praga, diante das mesas de jogo.
“Eu não imaginava”, disse Švejk depois de uma partida, “que, quando fui sem nada e troquei as quatro, ia receber um kočičák, um ás. Onde é que os senhores queriam chegar com esse rei contra mim? Eu derrubo um rei num instante.”
E, enquanto ali derrubavam um rei com um kočičák, longe, na frente de batalha, os reis derrubavam uns aos outros usando seus súditos.
No vagão do Estado-Maior, onde estavam sentados os oficiais do batalhão de marcha, reinou, no começo da viagem, um silêncio estranho. A maioria dos oficiais estava mergulhada num pequeno livro de capa de pano intitulado Die Sünden der Väter. Novelle von Ludwig Ganghofer, e todos se concentravam simultaneamente na leitura da página 161. O capitão Ságner, comandante do batalhão, permanecia junto à janela, segurando o mesmo livro, também aberto na página 161.
Olhava a paisagem e pensava em como explicar da maneira mais compreensível possível o que todos deveriam fazer com aquele livro. Era, na verdade, assunto do mais rigoroso sigilo.
Enquanto isso, os oficiais pensavam que o coronel Schröder enlouquecera de vez. Havia muito tempo ele já era meio amalucado, mas não se podia esperar que a loucura o atacasse tão de repente. Antes da partida do trem, mandara chamá-los para a última bešprechunk e lhes comunicara que cada um receberia um exemplar de Die Sünden der Väter, de Ludwig Ganghofer, cujos volumes mandara levar para o escritório do batalhão.
“Senhores”, dissera com uma expressão terrivelmente misteriosa, “jamais se esqueçam da página 161!” Mergulhados naquela página, não conseguiam tirar conclusão alguma. Uma tal Marta, naquela página, aproximava-se de uma escrivaninha, tirava de lá um papel com um papel teatral e refletia em voz alta que o público precisava sentir compaixão pelo herói do papel. Depois aparecia ainda na página um tal Albert, que se esforçava sem parar para falar em tom jocoso, coisa que, arrancada do enredo desconhecido que a precedia, parecia tamanha imbecilidade que o primeiro-tenente Lukáš mordeu de raiva a ponta da piteira.
“O velho enlouqueceu”, pensavam todos. “Para ele, acabou. Agora vão transferi-lo para o Ministério da Guerra.” O capitão Ságner afastou-se da janela quando conseguiu compor tudo direito na cabeça. Não possuía grande talento pedagógico, razão pela qual levara tanto tempo para montar mentalmente o plano inteiro de sua palestra sobre a importância da página cento e sessenta e um.
Antes de começar a explicação, dirigiu-se a eles com “Meine Herren”, como fazia o velho coronel, embora antes, ainda antes de entrarem no trem, os chamasse de “Kameraden”.
“Also, meine Herren…” E começou a expor que, na noite anterior, recebera do coronel instruções referentes à página 161 de Die Sünden der Väter, de Ludwig Ganghofer.
“Also, meine Herren”, prosseguiu solenemente, “informações inteiramente confidenciais relativas ao novo sistema de cifragem de despachos em campanha.” O cadete Biegler tirou um bloco de notas e um lápis e disse com um tom extraordinariamente aplicado:
“Estou pronto, senhor capitão.”
Todos olharam para aquele idiota, cuja dedicação na escola dos voluntários de um ano beirava a imbecilidade. Ele ingressara voluntariamente no Exército e, logo na primeira oportunidade, quando o comandante da escola dos voluntários de um ano se inteirava da situação familiar dos alunos, explicou-lhe que seus antepassados se chamavam originalmente Bügler von Leuthold e traziam no brasão uma asa de cegonha com cauda de peixe.
Desde então passaram a chamá-lo pelo brasão, e a “asa de cegonha com cauda de peixe” foi cruelmente perseguida e tornou-se imediatamente antipática, pois aquilo não combinava em nada com o honesto comércio de peles de lebres e coelhos de seu pai. Ainda assim, o entusiasta romântico empenhava-se honestamente em devorar toda a ciência militar, distinguindo-se pela aplicação e pelo conhecimento não apenas de tudo o que lhe apresentavam para aprender, mas entupindo cada vez mais a própria cabeça com o estudo de obras sobre arte militar e história da guerra, assuntos sobre os quais sempre puxava conversa até ser posto em seu lugar e destruído. Nos círculos de oficiais, considerava-se igual aos postos superiores.
“Sie, Kadett”, disse o capitão Ságner, “até eu lhe dar permissão para falar, fique calado, porque ninguém lhe perguntou nada. Além disso, o senhor é um soldado inteligente demais, com os diabos. Estou lhes transmitindo agora informações inteiramente confidenciais, e o senhor as anota em seu bloco. Se perder esse caderno, terá de enfrentar um tribunal de campanha.”
O cadete Biegler ainda tinha o mau hábito de tentar sempre convencer todo mundo, por meio de alguma desculpa, de que suas intenções eram boas.
“Comunico respeitosamente, senhor capitão”, respondeu, “que, mesmo em caso de eventual perda do caderno, ninguém decifrará o que escrevi, pois estou usando taquigrafia e ninguém além de mim consegue ler minhas abreviações. Emprego o sistema inglês de taquigrafia.”
Todos o olharam com desprezo, o capitão Ságner fez um gesto com a mão e prosseguiu com a palestra.
“Já mencionei o novo método de cifragem de despachos em campanha. Talvez não tenha ficado claro por que, dentre as novelas de Ludwig Ganghofer, lhes foi recomendada precisamente Die Sünden der Väter, página 161. Essa página, senhores, é a chave do novo método de cifragem, válido com base na nova ordem do Estado-Maior do corpo de exército ao qual fomos designados. Como sabem, existem muitos métodos para cifrar comunicações importantes em campanha. O mais recente, que utilizamos, é o método numérico complementar. Com isso, perdem a validade as cifras e as instruções para decifrá-las que lhes foram entregues na semana passada pelo Estado-Maior do regimento.”
“Erzherzogs Albrechtsystem”, murmurou consigo mesmo o aplicado cadete Biegler, “8922 = R, derivado do método de Gronfeld.”
“O novo sistema é muito simples”, ressoou pelo vagão a voz do capitão. “Recebi pessoalmente do senhor coronel o segundo volume e as informações.
“Se, por exemplo, tivermos de receber a ordem: ‘Auf der Kote 228, Maschinengewehrfeuer linksrichten’, receberemos, senhores, o seguinte despacho: ‘Sache – mit – uns das – wir – aufsehen – in – die – versprachen – die – Martha – dich – das – ängstlich dann – wir – Martha – wir – den – wir Dank – wohl – Regiekollegium – Ende – wir versprachen – wir – gebessert – versprachen – wirklich – denke – Idee – ganz – herrscht – Stimme – letzten.’ Portanto, é extremamente simples, sem nenhuma combinação desnecessária. Do Estado-Maior por telefone para o batalhão, do batalhão por telefone para as companhias. Ao receber esse despacho cifrado, o comandante o decifra da seguinte maneira. Pega Die Sünden der Väter, abre na página 161 e começa a procurar, do alto para baixo, na página oposta, a 160, a palavra Sache. Por favor, senhores. A primeira ocorrência de Sache na página 160 é a quinquagésima segunda palavra na sequência da frase; portanto, na página oposta, a 161, procura-se a quinquagésima segunda letra a partir do alto. Notem que é A. A palavra seguinte do despacho é mit. Ela aparece na página 160 como a sétima palavra da sequência da frase, correspondendo ao sétimo caractere da página 161, a letra u. Em seguida vem uns, que é, acompanhem-me com atenção, a octogésima oitava palavra, correspondente à octogésima oitava letra da página oposta, a 161, que é f, e assim deciframos Auf. Continuamos desse modo até obtermos a ordem: ‘Na cota altimétrica 228, dirigir para a esquerda o fogo das metralhadoras.’ Muito engenhoso, senhores, simples e impossível de decifrar sem a chave: página 161, Ludwig Ganghofer, Die Sünden der Väter.”
Todos examinavam em silêncio as páginas desgraçadas e refletiam sobre a questão com séria preocupação. Reinou o silêncio por alguns instantes, até que, de repente, o cadete Biegler gritou, aflito:
“Herr Hauptmann, ich melde gehorsam: Jesus Maria! Es stimmt nicht!”
E era realmente um grande mistério.
Por mais que se esforçassem, ninguém além do capitão Ságner encontrava na página 160 aquelas palavras nem, na página oposta, a 161, onde começava a chave, as letras correspondentes.
“Meine Herren”, gaguejou o capitão Ságner, depois de se convencer de que o grito desesperado do cadete Biegler correspondia à verdade, “o que foi que aconteceu? No meu Ganghofer, Die Sünden der Väter, isso aparece, mas no de vocês não?”
“Permita-me, senhor capitão”, manifestou-se novamente o cadete Biegler. “Tomo a liberdade de chamar sua atenção para o fato de que o romance de Ludwig Ganghofer tem dois volumes. Queira verificar, por favor, na primeira página de rosto: ‘Roman in zwei Bänden’. Nós temos o volume I, e o senhor tem o volume II”, prosseguiu o meticuloso cadete Biegler, “portanto é evidente que nossas páginas 160 e 161 não correspondem às suas. Temos ali uma coisa completamente diferente. A primeira palavra do despacho decifrado deveria ser Auf, como no seu exemplar, mas para nós saiu Heu!”
Agora estava perfeitamente claro para todos que talvez Biegler não fosse, afinal, um idiota tão completo.
“Eu recebi o volume II do Estado-Maior da brigada”, disse o capitão Ságner, “e evidentemente houve aqui um engano. O senhor coronel encomendou para vocês o volume I. Ao que tudo indica”, continuou, como se tudo fosse preciso e claro e ele já soubesse daquilo muito antes de fazer sua palestra sobre o método extremamente simples de cifragem, “confundiram as coisas no Estado-Maior da brigada. Não informaram ao regimento que se tratava do volume II, e foi assim que aconteceu.”
Enquanto isso, o cadete Biegler olhava triunfante para todos, e o tenente Dub sussurrou ao primeiro-tenente Lukáš que a “asa de cegonha com cauda de peixe” tinha dado uma bela surra em Ságner.
“Um caso estranho, senhores”, voltou a falar o capitão Ságner, como se quisesse retomar a conversa, pois aquele silêncio era muito constrangedor. “Há uns débeis mentais no escritório da brigada.”
“Tomo a liberdade de observar”, manifestou-se outra vez o incansável cadete Biegler, que novamente queria exibir seus conhecimentos, “que assuntos de natureza confidencial, estritamente confidencial, não deveriam passar da divisão para o escritório da brigada. Uma questão referente aos assuntos mais confidenciais do corpo de exército só poderia ser comunicada, mediante circular estritamente confidencial, exclusivamente aos comandantes das unidades das divisões, das brigadas e dos regimentos. Conheço os sistemas de cifras utilizados nas guerras pela Sardenha e pela Savoia, na campanha anglo-francesa em Sebastopol, durante a Revolta dos Boxers na China e também na última Guerra Russo-Japonesa. Esses sistemas eram transmitidos…”
“Isso nos importa tanto quanto um bode velho, cadete Biegler”, disse o capitão Ságner com uma expressão de desprezo e impiedade. “É certo que o sistema de que falávamos e que eu lhes expliquei não é apenas um dos melhores, mas podemos dizer que é insuperável. Todas as seções de contraespionagem dos Estados-Maiores inimigos podem ir para o inferno. Mesmo que se cortem em pedaços, não conseguirão ler nossas cifras. É algo inteiramente novo. Essas cifras não têm predecessores.”
O aplicado cadete Biegler tossiu de maneira significativa.
“Tomo a liberdade”, disse, “senhor capitão, de chamar sua atenção para o livro de Kerckhoffs sobre cifragem militar. Qualquer pessoa pode encomendar esse livro na editora do Dicionário Enciclopédico Militar. Nele se encontra minuciosamente descrito, senhor capitão, o método que o senhor acaba de nos explicar. Seu inventor foi o coronel Kircher, que serviu no exército saxão sob Napoleão I. A cifragem de Kircher por palavras, senhor capitão: cada palavra do despacho é interpretada na página oposta da chave. Esse método foi aperfeiçoado pelo primeiro-tenente Fleissner no livro Handbuch der militärischen Kryptographie, que qualquer pessoa pode comprar na editora da Academia Militar de Wiener Neustadt. Por favor, senhor capitão.”
O cadete Biegler meteu a mão na pequena mala de viagem, tirou o livro de que falava e prosseguiu:
“Fleissner apresenta o mesmo exemplo. Por favor, queiram todos verificar. Exatamente o mesmo exemplo que acabamos de ouvir:
“Despacho: Auf der Kote 228, Maschinengewehrfeuer linksrichten.
“Chave: Ludwig Ganghofer: Die Sünden der Väter. Zweiter Band. E vejam, por favor, mais adiante: a cifra ‘Sache mit uns das wir aufsehen in die versprachen die Martha…’ e assim por diante. Exatamente como ouvimos há pouco.”
Contra aquilo não havia nada a objetar. Aquela “asa de cegonha com cauda de peixe”, de nariz escorrendo, tinha razão.
No Estado-Maior do Exército, algum dos senhores generais havia facilitado o próprio trabalho. Descobrira o livro de Fleissner sobre cifragem militar, e pronto.
Durante todo esse tempo, era possível ver que o primeiro-tenente Lukáš lutava contra uma estranha agitação interior. Mordia o lábio, queria dizer alguma coisa, mas acabou começando a falar de algo diferente do que pretendia a princípio.
“Não se deve encarar isso de maneira tão trágica”, disse com um embaraço estranho. “Durante nossa permanência no acampamento de Bruck an der Leitha, vários sistemas de cifragem de despachos já foram alterados. Antes de chegarmos à frente, haverá novos sistemas outra vez. Mas acho que, em campanha, não há tempo para decifrar criptogramas desse tipo. Antes que qualquer um de nós conseguisse decifrar um exemplo cifrado semelhante, a companhia, o batalhão e a brigada já teriam sido destruídos havia muito tempo. Isso não tem utilidade prática!”
O capitão Ságner assentiu com a cabeça, muito a contragosto.
“Na prática”, disse, “ao menos no que diz respeito à minha experiência na frente sérvia, ninguém tinha tempo para decifrar cifras. Não digo que elas não tenham importância durante uma permanência mais longa nas trincheiras, quando nos entrincheiramos e esperamos. Que as cifras mudam também é verdade.”
O capitão Ságner recuava em toda a linha:
“Grande parte da culpa por hoje se usarem cada vez menos cifras entre os estados-maiores e as posições está no fato de nossos telefones de campanha não serem precisos e não reproduzirem com clareza, sobretudo durante o fogo de artilharia, cada uma das sílabas. Simplesmente não se ouve nada, e isso provoca um caos desnecessário.”
Calou-se.
“A confusão é a pior coisa que pode haver em campanha, senhores”, acrescentou ainda, profético, e tornou a se calar.
“Dentro de pouco”, disse, olhando pela janela, “estaremos em Ráb: Meine Herren! A tropa receberá aqui quinze decagramas de salame húngaro por homem. Meia hora de rast.”
Consultou o itinerário de marcha:
“Partida às 4h12. Às 3h58, todos nos vagões. Portanto, o desembarque será por companhias. A décima primeira e assim por diante. Zugsweise, Direktion Verpflegungsmagazin No 6. Fiscalização durante a distribuição: cadete Biegler.”
Todos olharam para o cadete Biegler com uma expressão que dizia: Você vai ver o que é guerra, seu imberbe.
Mas o aplicado cadete Biegler já tirava da pasta uma folha de papel e uma régua, traçava linhas na folha, dividia-a por companhias de marcha e perguntava aos comandantes de cada companhia qual era o efetivo da tropa. Nenhum deles sabia de cor e só puderam fornecer a Biegler os números solicitados por meio das anotações obscuras de seus caderninhos.
Enquanto isso, desesperado, o capitão Ságner começou a ler o desgraçado livro Os pecados dos pais e, quando o trem parou na estação de Ráb, fechou as páginas que lera e comentou:
“Esse Ludwig Ganghofer não escreve mal.”
O primeiro-tenente Lukáš foi o primeiro a sair às pressas do vagão do estado-maior e dirigiu-se ao vagão onde se encontrava Švejk.
Švejk e os demais já haviam deixado de jogar cartas havia muito tempo, e Baloun, ordenança do primeiro-tenente Lukáš, estava com tanta fome que começou a se revoltar contra as autoridades militares e a explicar que sabia muito bem como os senhores oficiais se empanturravam. Aquilo era pior do que nos tempos da corveia. Antigamente, no exército, as coisas não eram assim. Conforme seu avô costumava contar lá em casa, no retiro, durante a guerra de 1866 os oficiais ainda dividiam com os soldados as galinhas e o pão.
Suas lamentações não tinham fim, até que Švejk finalmente julgou conveniente elogiar a situação militar na guerra atual.
“Você tem um avô bem novo”, disse amavelmente quando chegaram a Ráb, “se ele só consegue se lembrar da guerra de 66. Eu conheço um tal de Ronovský, e esse tinha um avô que esteve na Itália ainda nos tempos da corveia, serviu lá seus bons doze anos e voltou pra casa como cabo. E como não tinha trabalho nenhum, o pai dele pegou esse avô e botou pra trabalhar com ele. Uma vez foram cumprir a corveia, carregando tocos, e tinha um toco, segundo contava esse avô que trabalhava pro próprio pai, que era do tamanho de um gigante, e eles não conseguiam nem mexer nele. Aí ele disse: ‘Vamos deixar essa desgraça aqui. Quem é que vai se arrebentar por causa dela?’ O guarda-florestal, que ouviu, começou a gritar e levantou o bastão, dizendo que eles tinham de carregar o toco. E o avô do nosso Ronovský não disse mais nada além de: ‘Seu espantalho, eu sou um velho soldado reformado.’ Só que, uma semana depois, recebeu a convocação e teve de se apresentar de novo na Itália. Ficou lá mais dez anos e escrevia pra casa que, quando voltasse, ia acertar uma machadada na cabeça daquele guarda-florestal. A sorte foi que o guarda morreu.”
Nesse instante, o primeiro-tenente Lukáš apareceu à porta do vagão.
“Švejk, venha aqui”, disse. “Pare com essas suas explicações idiotas e venha me explicar uma coisa.”
“Pois não, respeitosamente informo, senhor oberleutnant.”
O primeiro-tenente Lukáš levou Švejk consigo, acompanhando-o com um olhar extremamente desconfiado.
Durante toda a conferência do capitão Ságner, que terminara num fiasco tão grande, o primeiro-tenente Lukáš desenvolvera certa capacidade detetivesca, para a qual não eram necessárias combinações particularmente engenhosas, pois, na véspera da partida, Švejk lhe comunicara:
“Senhor oberleutnant, lá no batalhão tem uns livros pros senhores tenentes. Eu trouxe eles da secretaria do regimento.”
Por isso, depois que atravessaram o segundo par de trilhos e se esconderam atrás de uma locomotiva apagada, que já esperava havia uma semana por algum trem de munições, o primeiro-tenente Lukáš perguntou diretamente:
“Švejk, como foi aquela história dos livros?”
“Respeitosamente informo, senhor oberleutnant, que é uma história muito comprida, e o senhor sempre se digna a ficar nervoso quando eu conto tudo nos mínimos detalhes. Como daquela vez que o senhor quis me dar um tapa depois de rasgar aquele comunicado sobre o empréstimo de guerra e eu contei que uma vez li num livro que antigamente, quando tinha guerra, as pessoas precisavam pagar imposto pelas janelas, vinte centavos por janela, e pelas gansas também a mesma coisa…”
“Desse jeito nunca vamos acabar, Švejk”, disse o primeiro-tenente Lukáš, prosseguindo com o interrogatório. Resolvera que aquilo que era estritamente confidencial precisava naturalmente permanecer de todo oculto, para que o canalha do Švejk não inventasse outra necessidade em torno do assunto. “Conhece Ganghofer?”
“O que é que ele é?”, perguntou Švejk, interessado.
“É um escritor alemão, seu imbecil”, respondeu o primeiro-tenente Lukáš.
“Por minha alma, senhor oberleutnant”, disse Švejk com expressão de mártir, “eu pessoalmente não conheço nenhum escritor alemão. Só conheci pessoalmente um escritor tcheco, um tal de Ladislav Hájek, de Domažlice. Ele era redator do Mundo dos Animais e uma vez eu vendi pra ele um vira-lata como se fosse um spitz de raça pura. Era um senhor muito alegre e boa gente. Frequentava uma taberna onde sempre lia os contos dele, umas coisas tão tristes que todo mundo morria de rir. Depois ele chorava, pagava a conta de todos na taberna e nós tínhamos de cantar pra ele: O portão de Domažlice, tão bonito e tão pintado, quem pintou aquele portão pelas moças foi amado… ele já não está aqui, já está enterrado…”
“Você não está no teatro! Está berrando como cantor de ópera, Švejk”, exclamou assustado o primeiro-tenente Lukáš, quando Švejk cantou a última frase, “ele já não está aqui, já está enterrado”. “Não foi isso que perguntei. Só queria saber se você reparou que aqueles livros que você mesmo mencionou eram de Ganghofer. O que aconteceu, então, com esses livros?”, explodiu, furioso.
“Com os que eu trouxe da secretaria do regimento pro batalhão?”, perguntou Švejk. “Esses eram mesmo escritos por aquele sujeito de quem o senhor perguntou se eu conhecia, senhor oberleutnant. Eu recebi um telefonema oficial direto da secretaria do regimento. Eles queriam mandar os livros pra secretaria do batalhão, mas todo mundo de lá tinha sumido junto com o dienstführender, porque precisavam estar na cantina quando a gente vai pra frente de batalha, já que ninguém sabe se algum dia ainda vai poder se sentar numa cantina. Então estavam todos lá, senhor oberleutnant, estavam lá bebendo. Pelo telefone, não conseguiam encontrar ninguém de nenhuma das outras companhias de marcha. Mas como o senhor me ordenou que ficasse por enquanto de ordenança junto ao telefone, até designarem pra nós o telefonista Chodounský, eu fiquei sentado esperando até chegar também a minha vez. Na secretaria do regimento xingavam porque não conseguiam falar com ninguém e disseram que havia um telefonema oficial mandando a secretaria do batalhão de marcha buscar na secretaria do regimento uns livros pros senhores oficiais de todo o batalhão de marcha. Como eu sei, senhor oberleutnant, que no exército é preciso agir depressa, telefonei pra secretaria do regimento dizendo que eu mesmo iria buscar os livros e levaria eles pra secretaria do batalhão. Lá me deram um embrulho tão grande que mal consegui arrastar até a secretaria da nossa companhia, e então dei uma olhada nos livros. Mas aí pensei cá comigo. O rechnungsfeldvébl do regimento, lá na secretaria, me disse que, conforme o telefonema oficial enviado ao regimento, no batalhão já sabiam qual volume deviam escolher daqueles livros. Porque os livros tinham dois volumes. O primeiro volume separado e o segundo volume separado. Nunca ri tanto na vida, porque já li muitos livros, mas nunca comecei a ler nenhum pelo segundo volume. E ele ainda tornou a me dizer: ‘Aqui estão os primeiros volumes e aqui estão os segundos. Qual volume os senhores oficiais devem ler, eles já sabem.’ Então pensei que estavam todos bêbados, porque, quando se lê um livro desde o começo, um romance como aquele que eu trouxe, sobre os Sünden der Väter, porque também sei alemão, é preciso começar pelo primeiro volume, já que não somos judeus e não lemos de trás pra frente. Por isso também perguntei ao senhor pelo telefone, senhor oberleutnant, quando o senhor voltou do cassino e eu lhe comuniquei a respeito daqueles livros, se agora no exército as coisas estavam ao contrário e se os livros eram lidos na ordem invertida, primeiro o segundo volume e só depois o primeiro. E o senhor me disse que eu era um animal bêbado, se nem sabia que no pai-nosso vinha primeiro o ‘Pai Nosso’ e só depois o ‘amém’. O senhor está passando mal, senhor oberleutnant?”, perguntou Švejk, interessado, quando o pálido primeiro-tenente Lukáš se agarrou ao estribo do reservatório de água da locomotiva apagada.
Em seu rosto pálido não havia nenhuma expressão de raiva. Era alguma coisa desesperadamente sem esperança.
“Continue, continue, Švejk. Agora tanto faz, agora está tudo bem…”
“Eu era, como estava dizendo”, ressoou nos trilhos desertos a voz suave de Švejk, “da mesma opinião. Uma vez comprei um romance sanguinolento sobre Róža Šavaňů, da floresta de Bakony, e faltava o primeiro volume. Precisei adivinhar como a história começava, e nem numa história de bandidagem daquelas dá pra passar sem o primeiro volume. Então ficou perfeitamente claro pra mim que seria inútil os senhores oficiais começarem lendo primeiro o segundo volume e depois o primeiro. E como eu ficaria parecendo um idiota se levasse ao batalhão o recado que deram na secretaria do regimento, de que os senhores oficiais já sabiam qual volume deviam ler. A história toda daqueles livros, senhor oberleutnant, me pareceu terrivelmente suspeita e misteriosa. Eu sabia que os senhores oficiais em geral leem pouco, e quando a guerra está estrondando…”
“Guarde suas idiotices pra você, Švejk”, gemeu o primeiro-tenente Lukáš.
“Mas eu também perguntei logo pro senhor pelo telefone, senhor oberleutnant, se queria os dois volumes de uma vez, e o senhor me disse, exatamente como agora, que eu guardasse essas idiotices pra mim e que só faltava mesmo ter de ficar carregando livros. Então pensei que, se essa era a opinião do senhor, os outros senhores oficiais também deviam pensar do mesmo jeito. Perguntei ainda ao nosso Vaněk, que já tem experiência na frente. Ele disse que, no começo, todos os senhores oficiais achavam que a guerra inteira era uma brincadeira e levavam pro campo uma biblioteca completa, como se estivessem indo passar o verão numa casa de campo. Chegavam até a ganhar das arquiduquesas coleções completas das obras de vários poetas pra levar ao campo, de modo que os ordenanças andavam vergados debaixo daquilo e amaldiçoavam o dia em que nasceram. Vaněk disse que aqueles livros não serviam nem pra fumar, porque eram impressos num papel bonito demais, grosso, e que, na latrina, uma pessoa esfolava, com licença, senhor oberleutnant, o traseiro inteiro com aqueles poemas. Pra ler não sobrava tempo, porque era preciso fugir o tempo todo. Então os livros acabavam sendo jogados fora. Depois virou costume: assim que se ouvia o primeiro canhonaço, o ordenança imediatamente jogava fora todos os livros de diversão. Depois de ouvir isso, eu ainda quis saber mais uma vez a opinião do senhor, senhor oberleutnant, e quando perguntei por telefone o que devia fazer com os livros, o senhor disse que, quando alguma coisa entrava na minha cabeça idiota, eu não largava o assunto até levar uma na fuça. Então, senhor oberleutnant, levei pra secretaria do batalhão somente os primeiros volumes daquele romance e deixei por enquanto os segundos volumes na secretaria da nossa companhia. Eu tinha a boa intenção de, quando os senhores oficiais acabassem de ler o primeiro volume, entregar a eles o segundo, como numa biblioteca. Mas de repente veio a ordem de partida e um telefonema oficial para todo o batalhão mandando depositar tudo o que fosse inútil no armazém do regimento. Então ainda perguntei ao senhor Vaněk se ele considerava o segundo volume do romance uma coisa inútil, e ele me respondeu que, depois das experiências tristes na Sérvia, na Galícia e na Hungria, nenhum livro de diversão era mais levado pra frente. E que aquelas caixas instaladas nas cidades pra recolher jornais usados pros soldados eram a única coisa que prestava, porque jornal servia muito bem pra embrulhar tabaco ou o feno que os soldados fumavam nos abrigos. No batalhão já tinham distribuído os primeiros volumes do romance, e nós levamos os segundos pro armazém.”
Švejk calou-se e logo acrescentou:
“Tem todo tipo de coisa naquele armazém, senhor oberleutnant. Até a cartola do regente do coro de Budějovice, que se apresentou no regimento usando ela…”
“Vou lhe dizer uma coisa, Švejk”, falou o primeiro-tenente Lukáš, com um suspiro profundo. “Você não tem consciência nenhuma do alcance dos seus atos. Eu mesmo já sinto nojo de chamar você de idiota. Não existe palavra pra sua estupidez. Quando digo que você é um imbecil, ainda estou chamando você por um nome carinhoso. Você fez uma coisa tão terrível que os crimes mais monstruosos que cometeu durante todo o tempo em que o conheço, comparados com isso, são uma verdadeira música de anjos. Se soubesse, Švejk, o que fez… Mas nunca vai ficar sabendo… E caso algum dia surja uma conversa sobre esses livros, não se atreva a dizer que eu lhe falei alguma coisa pelo telefone, pra que aquele segundo volume… Caso algum dia surja o assunto de como foi aquilo com o primeiro e o segundo volume, não dê atenção. Você não sabe de nada, não conhece nada, não se lembra de nada. Não tente me meter nisso, seu…”
O primeiro-tenente Lukáš falava com uma voz que parecia tomada pela febre, e Švejk aproveitou o instante em que ele se calou para fazer uma pergunta inocente:
“Respeitosamente informo, senhor oberleutnant, pedindo desculpas, por que nunca vou ficar sabendo o que fiz de tão terrível? Eu só me atrevi a perguntar, senhor oberleutnant, pra poder evitar uma coisa dessas da próxima vez, já que se diz por toda parte que a gente aprende com os erros. Como aquele fundidor Adamec, da fábrica Daňek, que por engano bebeu ácido clorídrico…”
Não terminou, porque o primeiro-tenente Lukáš interrompeu o exemplo tirado da vida:
“Seu asno! Não vou lhe explicar nada. Volte pro vagão e diga a Baloun que, quando chegarmos a Budapeste, ele deve me levar ao vagão do estado-maior um pãozinho e depois aquele patê de fígado que está lá embaixo, na minha maleta, embrulhado em papel-alumínio. Depois diga a Vaněk que ele é um pedaço de mula. Já pedi três vezes que me fornecesse o efetivo exato da tropa. E quando precisei dele hoje, só tinha o mapa de efetivo antigo, da semana passada.”
“Zum Befehl, Herr Oberleutnant”, latiu Švejk, afastando-se lentamente em direção ao seu vagão.
O primeiro-tenente Lukáš caminhou pelos trilhos, pensando:
“Eu devia ter dado uns tapas nele, e em vez disso fico conversando como se fosse meu amigo.”
Švejk subiu solenemente no vagão. Sentia respeito por si mesmo. Não era todo dia que fazia alguma coisa tão terrível que jamais poderia descobrir o que fora.
“Senhor rechnungsfeldvébl”, disse Švejk depois de se sentar em seu lugar, “o senhor oberleutnant Lukáš me parece hoje de muito bom humor. Mandou lhe dizer por mim que o senhor é uma mula, porque ele já pediu três vezes que lhe informasse o efetivo verdadeiro da tropa.”
“Porra!”, irritou-se Vaněk. “Eu ainda vou acertar as contas com esses cuksfíras. Tenho culpa de cada vagabundo de cuksfíra fazer o que bem entende e não me mandar o efetivo do pelotão? Tenho de chupar o efetivo do dedo mindinho? Essas são as condições da nossa companhia. Uma coisa dessas só podia acontecer na décima primeira companhia de marcha. Mas eu desconfiava. Eu sabia. Não duvidei nem por um minuto que aqui havia desordem. Num dia faltam quatro porções na cozinha, no outro sobram três. Se pelo menos esses canalhas avisassem quando alguém está no hospital. Até o mês passado eu ainda mantinha na relação um tal de Nikodém, e só no dia do pagamento descobri que o tal Nikodém tinha morrido no hospital de Budějovice, de tuberculose galopante. E continuamos requisitando tudo no nome dele. Requisitamos o uniforme dele, mas Deus sabe onde foi parar. Depois o senhor primeiro-tenente ainda me diz que sou uma mula, quando ele mesmo não sabe fiscalizar a ordem na própria companhia.”
O sargento-contador Vaněk andava agitado pelo vagão.
“Se eu fosse comandante de companhia! Tudo teria de funcionar como um relógio. Eu saberia a situação de cada homem. Os graduados teriam de me entregar o efetivo duas vezes por dia. Mas os graduados não servem pra nada. E o pior de todos aqui é o cuksfíra Zyka. É só piada, só anedota. Mas, quando avisam que Kolařík foi destacado do pelotão dele pro trem de bagagens, no dia seguinte ele volta a me informar exatamente o mesmo efetivo, como se Kolařík ainda estivesse largado na companhia e no pelotão dele. E quando isso se repete todos os dias e depois ainda dizem que eu sou uma mula… Desse jeito o senhor primeiro-tenente não vai conquistar amigos. O rechnungsfeldvébl da companhia não é nenhum cabo com quem qualquer um pode limpar…”
Baloun, que ouvia de boca aberta, pronunciou por Vaněk a bela palavra que este não terminara, talvez para também se intrometer na conversa.
“Você aí fique de bico calado”, disse o sargento-contador, irritado.
“Escuta, Baloun”, falou Švejk, “também tenho um recado pra você. Quando chegarmos a Peste, você deve levar pro senhor oberleutnant, no vagão dele, um pãozinho e aquele patê de fígado que o senhor oberleutnant guarda embaixo, na maleta, embrulhado em papel-alumínio.”
O gigante Baloun deixou cair, desesperado, seus longos braços de chimpanzé, curvou as costas e permaneceu naquela posição durante um bom tempo.
“Não tenho”, disse numa voz baixa e desesperada, olhando para o chão sujo do vagão.
“Não tenho”, repetiu aos pedaços. “Eu pensei… Antes da partida, desembrulhei… Cheirei pra ver… se não estava estragado… Eu provei”, exclamou com um desespero tão sincero que tudo ficou perfeitamente claro para todos.
“Você comeu até o papel-alumínio”, disse o sargento-contador Vaněk, parando diante de Baloun.
Ficava agradecido por não precisar continuar defendendo a opinião de que não era a única mula, como o primeiro-tenente mandara lhe dizer. A causa da desconhecida oscilação do efetivo X tinha raízes mais profundas em outras mulas, e agora a conversa se deslocava e girava em torno do insaciável Baloun, em torno do novo acontecimento trágico.
Vaněk sentiu uma vontade enorme de dizer a Baloun alguma coisa desagradavelmente moralizadora, mas o cozinheiro ocultista Jurajda se adiantou. Ele pôs de lado seu livro favorito, uma tradução dos antigos sutras indianos Prajñā-Pāramitā, e voltou-se para o arrasado Baloun, que se encolhera ainda mais sob o fardo do destino:
“O senhor, Baloun, deve vigiar a si mesmo, para não perder a confiança em si próprio nem a confiança no destino. Não deve lançar na sua conta aquilo que é mérito dos outros. Sempre que se vir diante de um problema semelhante ao que devorou, pergunte a si mesmo: Em que relação está comigo o patê de fígado?”
Švejk julgou oportuno completar essa reflexão com um exemplo prático:
“Você mesmo me contou antes, Baloun, que lá na sua casa iam matar porcos e preparar defumados, e que, assim que a gente chegasse ao destino e você soubesse o número do correio de campanha, iam mandar logo um pedaço de presunto. Agora imagine que mandassem esse presunto pelo feldpost pra nossa companhia e que eu e o senhor rechnungsfeldvébl cortássemos, cada um, um pedacinho. Aí a gente gostava e cortava mais um pedaço, até o presunto acabar como aconteceu com um carteiro que eu conhecia, um tal de Kozel. Ele tinha cárie óssea. Primeiro cortaram a perna abaixo do tornozelo, depois abaixo do joelho, depois a coxa, e, se não tivesse morrido a tempo, teriam aparado ele inteiro como um lápis quebrado. Imagine então, Baloun, que a gente tivesse comido o seu presunto do mesmo jeito que você engoliu o patê de fígado do senhor oberleutnant.”
O gigante Baloun olhou tristemente para todos.
“Foi unicamente por minha intervenção e mérito”, disse o sargento-contador a Baloun, “que o senhor continuou como ordenança do senhor primeiro-tenente. Era para ter sido transferido ao serviço sanitário e carregar os feridos para fora do combate. Perto do passo de Dukla, nossos padioleiros foram três vezes seguidas buscar um alferes ferido, que levara um tiro na barriga diante das barreiras de arame, e todos ficaram por lá, cada um com um tiro na cabeça. Só a quarta dupla conseguiu trazê-lo, mas, antes de levarem o homem ao posto de socorro, o alferes já tinha virado defunto.”
Baloun não conseguiu mais se conter e começou a soluçar em voz alta.
“Você não tem vergonha?”, disse Švejk, com desprezo. “E você se diz soldado…”
“É que eu não fui feito pra guerra”, lamentou Baloun. “É verdade que eu sou comilão, insaciável, porque fui arrancado de uma vida decente. Isso está no sangue da nossa família. Meu falecido pai apostou uma vez numa taberna de Protivín que comia cinquenta salsichões e dois pães inteiros de uma sentada, e ganhou a aposta. Uma vez eu comi, por aposta, quatro gansos e duas travessas de bolinhos com chucrute. Em casa, depois do almoço, me lembro que ainda queria beliscar alguma coisa. Vou até a despensa, corto um pedaço de carne, mando buscar uma caneca de cerveja e engulo dois quilos de carne defumada. Eu tinha em casa um empregado velho chamado Vomela, e ele sempre me aconselhava a não ficar me empanturrando assim, porque se lembrava de uma história que o avô dele contava havia muito tempo sobre um sujeito insaciável desses. Depois houve uma guerra qualquer e nada nasceu durante oito anos inteiros. Faziam pão de palha e daquilo que sobrava das sementes de linho, e era dia de festa quando conseguiam esfarelar um pouco de queijo fresco no leite, quando não tinham pão. E aquele camponês, assim que a miséria começou, morreu em uma semana, porque o estômago dele não estava acostumado com uma pobreza rural daquelas…”
Baloun ergueu o rosto aflito:
“Mas eu acho que Deus castiga as pessoas e, mesmo assim, não abandona ninguém.”
“Deus pôs os insaciáveis no mundo e Deus vai cuidar deles”, observou Švejk. “Uma vez você já ficou amarrado, e agora merecia ser mandado pra primeira linha. Quando eu era ordenança do senhor oberleutnant, ele podia confiar em mim pra tudo, e nunca passou pela cabeça dele que eu pudesse comer alguma coisa que era sua. Quando requisitavam alguma coisa especial, ele sempre me dizia: ‘Fique com isso, Švejk’, ou: ‘Ora, não faço tanta questão. Dê aqui um pedaço e faça o que quiser com o resto.’ E quando estávamos em Praga e ele às vezes me mandava buscar o almoço num restaurante, pra ele não pensar que eu estava levando uma porção pequena porque tinha comido metade pelo caminho, eu mesmo, com meu último dinheiro, quando achava que a porção estava pequena, comprava mais uma, pra que o senhor oberleutnant comesse bem e não pensasse mal de mim. Até que um dia ele descobriu. Eu sempre precisava trazer do restaurante o cardápio, e ele escolhia. Naquele dia, escolheu pombo recheado. Quando me deram meio pombo, pensei que o senhor oberleutnant talvez achasse que eu tinha comido a outra metade. Então comprei outra porção com meu próprio dinheiro e levei uma porção tão magnífica que o primeiro-tenente Šeba, que naquele dia estava atrás de almoço e apareceu pouco antes do meio-dia pra visitar meu oberleutnant, também comeu. Mas, depois que acabou, disse: ‘Não venha me dizer que isso é uma porção. Em lugar nenhum do mundo servem num menu um pombo recheado inteiro. Se eu conseguir dinheiro hoje, vou mandar buscar almoço nesse restaurante seu. Diga francamente que é uma porção dupla.’ O senhor oberleutnant me perguntou na frente dele, pra eu confirmar que só tinha me dado dinheiro pra uma porção simples, porque não sabia que o outro viria. Respondi que ele tinha me dado dinheiro pra um almoço comum. ‘Está vendo?’, disse meu oberleutnant. ‘E isso ainda não é nada. Da outra vez, Švejk me trouxe duas coxas de ganso no almoço. Imagine só: sopa de macarrão, carne de vaca com molho de anchova, duas coxas de ganso, bolinhos e chucrute até o teto, e panquecas!’”
“C-c ta-ta”, estalou a língua Baloun.
Švejk continuou: “Aí é que estava a pedra de tropeço. No dia seguinte, o senhor primeiro-tenente Šeba mandou mesmo o seu ordenança buscar o almoço naquele nosso restaurante, e ele lhe trouxe de acompanhamento um montinho de pilaf de galinha tão pequenininho quanto o cocô que um bebê de seis semanas faz nas fraldas, coisa de duas colherinhas. E o senhor primeiro-tenente Šeba caiu em cima dele, dizendo que ele tinha comido a metade. E ele jurando que era inocente. Então o senhor primeiro-tenente Šeba lhe deu uns tapas na cara e me apresentou como exemplo. Disse que eu levava as porções para o senhor primeiro-tenente Lukáš. Pois aquele soldado inocente e esbofeteado, no dia seguinte, quando foi buscar o almoço no restaurante, perguntou tudo direitinho, contou ao seu senhor, e este contou ao meu primeiro-tenente. Estou eu sentado à noite atrás do jornal, lendo as notícias dos estados-maiores inimigos vindas do campo de batalha, quando entra o meu senhor primeiro-tenente, branco feito cera, e vem logo para cima de mim, exigindo que eu dissesse quantas porções duplas tinha pagado no restaurante, que ele sabia de tudo, que negar não ia me adiantar nada, que fazia muito tempo que sabia que eu era um idiota, mas que eu fosse também um maluco nunca lhe tinha passado pela cabeça. Disse que eu o fizera passar uma vergonha tão grande que estava com vontade de atirar primeiro em mim e depois em si mesmo. ‘Senhor primeiro-tenente’, eu disse, ‘quando o senhor me recebeu, logo no primeiro dia falou que todo ordenança é ladrão e um sujeito ordinário. E, se naquele restaurante serviam mesmo acompanhamentos em porções tão pequenininhas, o senhor podia muito bem ter pensado que eu também era um desses sujeitos ordinários e que tinha comido o seu acompanhamento…’”
“Meu Deus do céu”, murmurou Baloun, abaixando-se para apanhar a maleta do primeiro-tenente Lukáš e levando-a para o fundo do vagão.
“Então o primeiro-tenente Lukáš”, continuou Švejk, “começou a apalpar todos os bolsos e, como não achou nada, meteu a mão no colete e me deu o relógio de prata dele. Estava muito comovido. ‘Quando eu receber o soldo, Švejk’, disse ele, ‘faça a conta de quanto lhe devo… Este relógio fica por fora. E da próxima vez não faça loucuras.’ Depois, certa vez, caiu sobre nós dois uma miséria tão grande que eu tive de levar o relógio à casa de penhores…”
“O que está fazendo aí atrás, Baloun?”, perguntou nesse instante o sargento escriturário Vaněk.
Em vez de responder, o infeliz Baloun engasgou. Tinha aberto a maleta do primeiro-tenente Lukáš e estava se empanturrando com o último pãozinho dele…
Outro trem militar atravessou a estação sem parar, apinhado de deutschmeisters, que eram enviados à frente sérvia. Ainda não tinham se recuperado do entusiasmo da despedida de Viena e berravam sem descanso desde Viena até ali:
Prinz Eugenius, der edle Ritter,
vollt' dem Kaiser wiedrum kriegen
Stadt und Festung Belegrad.
Er ließ schlagen einen Brucken,
dala man kunnt' hinüberrucken
mit der Armee wohl für die Stadt.
Um cabo de bigodes agressivamente retorcidos, debruçado para fora e apoiando os cotovelos nos soldados que balançavam as pernas penduradas para fora do vagão, marcava o compasso e berrava a plenos pulmões:
Als der Brucken war geschlagen,
daß man kunnt' mit Stuck und Wagen
frei passier'n den Donaufluß,
bei Semlin schlug man das Lager,
alle Serben zu verjagen…
Nesse instante, porém, perdeu o equilíbrio e voou para fora do vagão, indo bater em pleno voo, com toda a força e de barriga, na alavanca de uma agulha ferroviária, onde ficou pendurado, espetado, enquanto o trem prosseguia e, nos vagões de trás, cantavam outra canção.
Graf Radetzky, edler Degen,
schwur's des Kaisers Feind zu fegen
aus der falschen Lombardei.
In Verona langes Hoffen,
als mehr Truppen eingetroffen,
fühlt und rührt der Held sich frei…
Espetado naquela estúpida agulha ferroviária, o belicoso cabo já estava morto, e não demorou para que junto dele montasse guarda, de baioneta, um soldadinho muito jovem do destacamento do comando da estação, que encarava a missão com toda a seriedade. Ficou ereto diante da agulha, com uma expressão tão triunfante como se o feito de espetar o cabo ali fosse obra sua.
Como era húngaro, berrava por todos os trilhos quando os homens do escalão do batalhão do 91º Regimento vinham olhar: “Nem szabad! Nem szabad! Komision militär nem szabad!”
“Esse já resolveu a vida”, disse o bom soldado Švejk, que também se encontrava entre os curiosos, “e tem a vantagem de que, agora que está com um pedaço de ferro na barriga, pelo menos todo mundo sabe onde ele foi enterrado. É bem na linha férrea, e ninguém vai precisar procurar a sepultura dele por todos os campos de batalha. Espetou-se direitinho”, acrescentou Švejk com ar de entendido, dando a volta para examinar o cabo pelo outro lado. “Está com os intestinos dentro das calças.”
“Nem szabad, nem szabad!”, gritava o jovem soldadinho húngaro. “Komision militär bahnhof, nem szabad!”
Atrás de Švejk soou uma voz severa:
“O que está fazendo aqui?”
Diante dele estava o cadete Biegler. Švejk bateu continência.
“Com a devida obediência, estamos examinando o falecido, senhor cadete.”
“E que agitação é essa que você estava promovendo aqui? O que tem que fazer neste lugar?”
“Com a devida obediência, senhor cadete”, respondeu Švejk com digna serenidade, “nunca promovi agitação nenhuma.”
Atrás do cadete, vários soldados caíram na risada, e o sargento escriturário Vaněk avançou e se pôs diante dele.
“Senhor cadete”, disse, “o senhor primeiro-tenente mandou para cá o ordenança Švejk, para que lhe dissesse o que aconteceu. Acabo de estar no vagão do estado-maior, e o ordenança do batalhão Matušič está procurando o senhor por ordem do comandante do batalhão. O senhor deve apresentar-se imediatamente ao capitão Ságner.”
Todos já estavam voltando aos seus vagões quando, pouco depois, soou o sinal para o embarque.
Caminhando ao lado de Švejk, Vaněk disse:
“Quando houver muita gente por perto, Švejk, guarde as suas opiniões para você. Isso ainda pode lhe trazer aborrecimentos. Como aquele cabo era dos deutschmeisters, alguém poderia interpretar suas palavras como se você estivesse contente com o que aconteceu. Esse Biegler é um terrível devorador de tchecos.”
“Mas eu não disse nada”, respondeu Švejk num tom que excluía qualquer dúvida, “a não ser que o cabo se espetou direitinho e ficou com os intestinos dentro das calças… Ele podia…”
“Vamos parar de falar disso, Švejk.”
E o sargento escriturário Vaněk cuspiu.
“No fim dá na mesma”, observou ainda Švejk. “Os intestinos dele terem de sair da barriga pelo senhor imperador aqui ou em outro lugar. De qualquer jeito, ele cumpriu o seu dever… Ele podia…”
“Veja, Švejk”, interrompeu-o Vaněk, “lá vai outra vez o ordenança do batalhão Matušič carregando alguma coisa para o vagão do estado-maior. Até me admira que ainda não tenha se estendido no meio dos trilhos.”
Pouco antes, ocorrera uma conversa muito áspera entre o capitão Ságner e o zeloso cadete Biegler.
“Eu me admiro com o senhor, cadete Biegler”, dizia o capitão Ságner. “Por que não veio me comunicar imediatamente que não estavam distribuindo os quinze decagramas de salame húngaro? Preciso ser eu a sair e verificar pessoalmente por que os homens estão voltando do depósito. E os senhores oficiais também se comportam como se uma ordem não fosse uma ordem. Eu disse claramente: ‘Ao depósito, zugsweise por companhia.’ Isso significava que, se não recebêssemos nada no depósito, também deveríamos voltar zugsweise por companhia para os vagões. Ordenei ao senhor, cadete Biegler, que tratasse de manter a ordem, mas o senhor deixou tudo correr à solta. Ficou contente por não ter de se ocupar com a contagem das porções de salame e foi tranquilamente olhar, como vi pela janela, o cabo dos deutschmeisters espetado na agulha. E, quando mandei chamá-lo, o senhor não encontrou nada melhor para fazer do que tagarelar, com essa fantasia de cadete, que tinha ido verificar se não estava ocorrendo alguma agitação em torno do cabo espetado…”
“Com a devida obediência, o ordenança da 11ª companhia, Švejk…”
“Deixe-me em paz com Švejk!”, gritou o capitão Ságner. “Não pense, cadete Biegler, que vai armar alguma intriga contra o primeiro-tenente Lukáš. Fomos nós que mandamos Švejk para lá… Está olhando para mim como se achasse que eu implico com o senhor… Pois é, estou implicando com o senhor, cadete Biegler… Se não sabe respeitar seu superior e procura fazê-lo passar vergonha, vou lhe dar uma guerra tão boa que o senhor, cadete Biegler, há de se lembrar da estação de Győr… Ficar se gabando dos seus conhecimentos teóricos… Espere até chegarmos à frente… Até eu lhe ordenar que saia numa offizierspatrouille através das barreiras de arame… E o seu relatório? Nem sequer me apresentou o relatório quando entrou… Nem teoricamente, cadete Biegler…”
“Com a devida obediência, senhor capitão [Nota: Todas as conversas de oficiais com oficiais realizam-se, naturalmente, em língua alemã.], em vez dos quinze decagramas de salame húngaro, os homens receberam dois cartões-postais cada um. Com licença, senhor capitão…”
O cadete Biegler entregou ao comandante do batalhão dois daqueles cartões-postais publicados pela direção do Arquivo Militar de Guerra de Viena, cujo chefe era o general de infantaria Wojnowich. Num dos lados havia a caricatura de um soldado russo, um mujique de barba desgrenhada, abraçado por um esqueleto. Abaixo da caricatura estava escrito:
Der Tag, an dem das perfide Rußland krepieren wird, wird ein Tag der Erlösung für ganze unsere Monarchie sein.
O segundo cartão-postal vinha do Império Alemão. Era um presente dos alemães aos soldados austro-húngaros.
No alto estava escrito “Viribus unitis”, e abaixo havia uma imagem de Sir Edward Grey pendurado numa forca, enquanto, embaixo dele, um soldado austríaco e outro alemão faziam continência alegremente.
O poeminha da parte inferior fora retirado do livro O punho de ferro. Brincadeirinhas com nossos inimigos, de Greinz, cujos versos, segundo escreviam os jornais do Reich, eram chicotadas que continham o verdadeiro humor indomável e uma verve insuperável.
O texto sob a forca, traduzido, dizia:
GREY
Numa forca, em agradável altura,
devia balançar Edward Grey;
já passou da hora de fazê-lo,
mas é preciso adverti-los
de que carvalho algum cedeu madeira
para a execução desse Judas.
Ele está pendurado em madeira de álamo
da República Francesa.
O capitão Ságner ainda não terminara de ler aqueles versos de “humor indomável e verve insuperável” quando o ordenança do batalhão Matušič irrompeu no vagão do estado-maior.
O capitão Ságner o enviara à central telegráfica do comando militar da estação, para verificar se havia novas disposições, e ele trazia um telegrama da brigada. Não era necessário recorrer a nenhuma chave de cifra. O telegrama dizia simplesmente, sem estar cifrado: “Rasch abkochen, dann Vormarsch nach Sokal.” O capitão Ságner sacudiu a cabeça, preocupado.
“Com a devida obediência”, disse Matušič, “o comandante da estação pede que o senhor compareça para uma conversa. Há ainda outro telegrama.”
Seguiu-se uma conversa de caráter muito confidencial entre o comandante da estação e o capitão Ságner. O primeiro telegrama precisava ser entregue, embora seu conteúdo fosse bastante surpreendente, considerando-se que o batalhão estava na estação de Győr: “Cozinhar depressa e depois marchar sobre Sokal.” Fora endereçado, sem cifra, ao batalhão de marcha do 91º Regimento, com cópia para o batalhão de marcha do 75º Regimento, que ainda vinha atrás. A assinatura estava correta: comandante da brigada, Ritter von Herbert.
“Altamente confidencial, senhor capitão”, disse misteriosamente o comandante militar da estação. “Telegrama secreto da sua divisão. O comandante da sua brigada enlouqueceu. Foi levado para Viena depois de mandar da brigada algumas dezenas de telegramas semelhantes em todas as direções. Em Budapeste, o senhor certamente receberá um novo telegrama. É claro que todos os telegramas dele devem ser anulados, mas até agora não recebemos nenhuma instrução a esse respeito. Como lhe disse, tenho apenas a ordem da divisão para que telegramas não cifrados sejam desconsiderados. Sou obrigado a entregá-los porque, nesse sentido, ainda não recebi resposta das minhas instâncias superiores. Por intermédio delas, pedi informações ao comando do corpo de exército, e abriram uma investigação contra mim… Sou oficial da ativa da velha arma de engenharia”, acrescentou. “Participei da construção da nossa ferrovia estratégica na Galícia… Senhor capitão”, disse pouco depois, “nós, os velhos profissionais, só servimos mesmo para a frente! Hoje em dia há no Ministério da Guerra engenheiros ferroviários civis com exame de voluntário de um ano feito cachorro… Aliás, o senhor parte novamente dentro de quinze minutos… Só me lembro de que certa vez, na escola de cadetes de Praga, ajudei o senhor a subir na barra fixa, porque eu era de um ano mais adiantado. Naquela ocasião, nós dois estávamos proibidos de sair. O senhor tinha brigado com os alemães da turma [Nota: Na conversa em alemão que os dois mantiveram: “Sie haben sich damals auch mit den deutschen Mitschülern gerauft”]? Lukáš também estava lá com o senhor. Vocês eram os melhores amigos. Quando recebemos o telegrama com a lista dos oficiais do batalhão de marcha que passariam pela estação, lembrei-me perfeitamente… Já se passaram muitos anos… O cadete Lukáš me era muito simpático naquela época…”
Toda aquela conversa causou ao capitão Ságner uma impressão extremamente desagradável. Reconhecera muito bem o homem que falava com ele e que, na escola de cadetes, chefiara a oposição ao austriaquismo, coisa que mais tarde a ambição pela carreira extirpara de ambos. O que mais o desagradava era a menção ao primeiro-tenente Lukáš, que, por algum motivo, sempre fora preterido em favor dele.
“O primeiro-tenente Lukáš”, disse com ênfase, “é um oficial muito competente. Quando parte o trem?”
O comandante da estação olhou o relógio.
“Daqui a seis minutos.”
“Vou embora”, disse Ságner.
“Pensei que fosse me dizer alguma coisa, Ságner.”
“Então, nazdar!”, respondeu Ságner [Nota: Na conversa: “Also: Nazdar!”], saindo para diante do edifício do comando da estação.
Quando o capitão Ságner voltou ao vagão do estado-maior antes da partida do trem, encontrou todos os oficiais em seus lugares. Jogavam, em grupos, čapáry (frische viere); apenas o cadete Biegler não participava.
Folheava uma quantidade de manuscritos iniciados sobre cenas de guerra, pois pretendia distinguir-se não apenas no campo de batalha, mas também como fenômeno literário dedicado a descrever acontecimentos bélicos. O homem das estranhas insígnias “com rabo de peixe” queria tornar-se um eminente escritor de guerra. Suas tentativas literárias começavam com títulos promissores, nos quais se refletia o militarismo da época, mas ainda não tinham sido desenvolvidas, de modo que nas folhas restavam apenas os títulos das obras que viriam a existir.
“Tipos de soldados da Grande Guerra – Quem começou a guerra? – A política da Áustria-Hungria e o nascimento da guerra mundial – Notas de guerra – A Áustria-Hungria e a guerra mundial – Ensinamentos da guerra Conferência popular sobre a eclosão da guerra – Reflexões político-militares – O dia glorioso da Áustria-Hungria – O imperialismo eslavo e a guerra mundial – Documentos da guerra – Documentos para a história da guerra mundial – Diário da guerra mundial – Resumo diário da guerra mundial – A Primeira Guerra Mundial Nossa dinastia na guerra mundial – Os povos da monarquia austro-húngara em armas – A luta mundial pelo poder – Minhas experiências na guerra mundial – Crônica da minha campanha militar – Como combatem os inimigos da Áustria-Hungria – A quem pertence a vitória? Nossos oficiais e nossos soldados – Feitos memoráveis dos meus soldados – Dos tempos da Grande Guerra – Sobre o fragor das batalhas – Livro dos heróis austro-húngaros A brigada de ferro – Coletânea dos meus escritos da frente Heróis do nosso batalhão de marcha – Manual do soldado em campanha – Dias de combate e dias de vitória O que vi e vivi em campanha – Nas trincheiras Um oficial conta… – Avante com os filhos da Áustria-Hungria! – Os aeroplanos inimigos e a nossa infantaria – Depois da batalha – Nossa artilharia, filhos fiéis da pátria – Ainda que todos os diabos avancem contra nós… – Guerra defensiva e guerra ofensiva – Sangue e ferro – Vitória ou morte – Nossos heróis no cativeiro.”
Quando o capitão Ságner se aproximou do cadete Biegler e examinou tudo aquilo, perguntou por que fizera aquilo e o que pretendia.
O cadete Biegler respondeu com entusiasmo genuíno que cada um daqueles títulos representava um livro que escreveria. Tantos títulos, tantos livros.
“Eu gostaria, caso tombasse em combate, que alguma lembrança minha permanecesse, senhor capitão. Meu modelo é o professor alemão Udo Kraft. Nasceu em 1870, apresentou-se agora como voluntário para a guerra mundial e tombou em 22 de agosto de 1914, em Anloy. Antes de morrer, publicou o livro Autoeducação para a morte pelo imperador. [Nota: Udo Kraft: Selbsterziehung zum Tod für Kaiser. C. F. Amelang's Verlag, Leipzig.]”
O capitão Ságner levou o cadete Biegler até a janela.
“Mostre o que mais tem aí, cadete Biegler. Sua atividade me interessa enormemente”, disse o capitão Ságner com ironia. “Que caderninho escondeu por baixo da túnica?”
“Não é nada, senhor capitão”, respondeu o cadete Biegler, corando como uma criança. “Queira verificar, por favor.”
O caderninho tinha o título: Esquemas das batalhas eminentes e gloriosas das tropas do Exército Austro-Húngaro, compilados segundo estudos históricos pelo oficial imperial e real Adolf Biegler. Notas e explicações do oficial imperial e real Adolf Biegler.
Os esquemas eram terrivelmente simples.
Desde a batalha de Nördlingen, em 6 de setembro de 1634, passando pela batalha de Zenta, em 11 de setembro de 1697, pela de Caldiero, em 31 de outubro de 1805, pela batalha de Aspern, em 22 de maio de 1809, e pela Batalha das Nações, em Leipzig, em 1813, depois por Santa Lúcia, em maio de 1848, e pela batalha de Trutnov, em 27 de junho de 1866, até a tomada de Sarajevo, em 19 de agosto de 1878. Nos esquemas e desenhos dos planos de todas aquelas batalhas, nada mudava. Em todos eles, o cadete Biegler desenhara, de um lado, pequenos retângulos vazios, enquanto o inimigo era representado por retângulos hachurados. Dos dois lados havia ala esquerda, centro e ala direita. Atrás, as reservas, e setas apontando para cá e para lá. Tanto a batalha de Nördlingen quanto a batalha de Sarajevo pareciam a disposição dos jogadores em qualquer partida de futebol no momento do pontapé inicial, e as setas indicavam para onde cada lado devia chutar a bola.
Foi exatamente isso que ocorreu de imediato ao capitão Ságner, que perguntou:
“Cadete Biegler, o senhor joga futebol?”
Biegler ficou ainda mais vermelho e piscou nervosamente, dando a impressão de que estava prestes a cair no choro.
Sorrindo, o capitão Ságner continuou a folhear o caderno e deteve-se numa observação junto ao esquema da batalha de Trutnov, durante a Guerra Austro-Prussiana.
O cadete Biegler escrevera: “A batalha de Trutnov não deveria ter sido travada, pois o terreno montanhoso impossibilitava o desdobramento da divisão do general Mazzuchelli, ameaçada por fortes colunas prussianas situadas nas elevações que cercavam a ala esquerda da nossa divisão.”
“Segundo o senhor, a batalha de Trutnov”, disse o capitão Ságner com um sorriso, devolvendo o caderno ao cadete Biegler, “só poderia ter sido travada caso Trutnov ficasse numa planície, seu Benedek de České Budějovice.
Cadete Biegler, é muito bonito da sua parte que, em tão pouco tempo de permanência nas fileiras do exército, tenha procurado penetrar nos segredos da estratégia, mas no seu caso o resultado foi igual ao de meninos que brincam de soldado e se dão patentes de general. O senhor se promoveu com tanta rapidez que é uma maravilha. Oficial imperial e real Adolf Biegler! Antes de chegarmos a Pest, o senhor já será marechal de campo. Anteontem ainda estava em casa com seu papai, pesando couro de vaca. K. u. k. Leutnant Adolf Biegler! Meu caro, o senhor ainda não é oficial nenhum. É cadete. Está pendurado no ar entre os alferes e os suboficiais. Está tão longe de poder chamar-se oficial quanto um anspeçada que, numa taverna qualquer, manda os outros o tratarem por ‘senhor sargento-mor’. Escute, Lukáš”, voltou-se para o primeiro-tenente, “o cadete Biegler está na sua companhia, portanto trate de adestrar o rapaz. Ele assina como oficial, então que mereça o título no gefecht. Quando começar o trommelfeuer e nós partirmos para o ataque, mande-o cortar os dráthindernisse com o pelotão dele, der gute Junge. A propósito, Zykán manda lembranças. É o comandante da estação de Győr.”
O cadete Biegler percebeu que a conversa com ele terminara, bateu continência e atravessou o vagão com o rosto inteiramente vermelho, até chegar à extremidade, no corredor transversal.
Como um sonâmbulo, abriu a porta do reservado e, olhando para a inscrição germano-húngara “Uso do reservado permitido apenas durante a marcha”, soltou um gemido, soluçou e começou a chorar em silêncio. Depois tirou as calças… Depois fez força, enxugando as lágrimas. Depois utilizou o caderninho intitulado “Esquemas das batalhas eminentes e gloriosas das tropas do Exército Austro-Húngaro, compilados pelo oficial imperial e real Adolf Biegler”, que desapareceu desonrado pelo buraco e, caindo sobre os trilhos, esvoaçou entre os dormentes sob o trem militar em movimento.
No lavatório do reservado, o cadete Biegler lavou os olhos avermelhados e saiu para o corredor, decidido a ser forte, forte para cacete. Desde a manhã, estava com dor de cabeça e de barriga.
Passou pelo compartimento dos fundos, onde o ordenança do batalhão Matušič jogava com Batzer, o criado do comandante do batalhão, o jogo vienense de schnapsen, também chamado sessenta e seis.
Olhando pela porta aberta do compartimento, tossiu. Os dois se viraram e continuaram jogando.
“Não sabem o que é devido?”, perguntou o cadete Biegler.
“Não pude”, respondeu Batzer, criado do capitão Ságner, em seu alemão medonho das montanhas de Kašperské Hory. “Mi' is' d' Trump' ausganga. Eu devia ter jogado, senhor cadete, o valete de copas”, continuou, “o valete alto, e logo depois levar o rei de folhas… Era isso que eu devia ter feito…”
O cadete Biegler não disse mais nada e recolheu-se ao seu canto. Quando, mais tarde, o alferes Pleschner foi até ele para lhe oferecer um gole da garrafa de conhaque que ganhara no jogo, ficou admirado ao ver com que afinco o cadete Biegler lia o livro do professor Udo Kraft, Autoeducação para a morte pelo imperador.
Antes de chegarem a Pest, o cadete Biegler estava tão bêbado que, debruçado na janela do vagão, berrava sem parar para a paisagem deserta:
“Frisch drauf! Im Gottes Namen frisch drauf!”
Depois, por ordem do capitão Ságner, o ordenança do batalhão Matušič arrastou-o para o compartimento, onde, com a ajuda de Batzer, criado do capitão, deitou-o num dos bancos, e o cadete Biegler teve o seguinte sonho:
O SONHO DO CADETE BIEGLER DIANTE DE BUDAPESTE
Possuía a signum laudis, a Cruz de Ferro, era major e viajava para inspecionar o setor da brigada que lhe fora confiada. Não conseguia explicar por que, tendo sob suas ordens uma brigada inteira, continuava sendo apenas major. Suspeitava que fora nomeado major-general, mas que o “general” se perdera em algum lugar, no tumulto do correio de campanha.
Tinha de rir consigo mesmo ao lembrar-se de como, no trem, a caminho da frente, o capitão Ságner o ameaçara dizendo que ele seria obrigado a cortar barreiras de arame. Aliás, por recomendação sua à divisão, o capitão Ságner já fora havia muito tempo transferido, junto com o primeiro-tenente Lukáš, para outro regimento. Para outra divisão, outro corpo de exército.
Alguém também lhe contara que os dois haviam morrido miseravelmente, em algum pântano, durante uma fuga.
Quando seguia de automóvel para a posição, a fim de inspecionar o setor da sua brigada, tudo lhe parecia claro. Na realidade, fora enviado pelo estado-maior-geral do exército.
Soldados marchavam ao redor e cantavam uma canção que ele lera na coletânea austríaca de canções militares Es gilt:
Halt' euch brav, ihr tapf 'ren Brüder,
werft den Feind nur herzhaft nieder,
Laßt des Kaisers Fahne weh'n…
A paisagem tinha o mesmo aspecto das ilustrações da Wiener illustrierte Zeitung.
À direita, junto a um celeiro, via-se a artilharia disparando contra as trincheiras inimigas, ao lado da estrada pela qual ele passava de automóvel. À esquerda havia uma casa de onde atiravam, enquanto o inimigo tentava arrombar a porta com as coronhas dos fuzis. Junto à estrada ardia um aeroplano inimigo. No horizonte viam-se a cavalaria e uma aldeia em chamas. Depois vinham as trincheiras do batalhão de marcha, com uma pequena elevação de onde metralhadoras disparavam contra o inimigo. Mais adiante, as trincheiras inimigas acompanhavam a estrada. E o motorista continuava levando-o pela estrada, diretamente para o inimigo.
Ele berra pelo tubo acústico para o motorista:
“Você não sabe para onde estamos indo? O inimigo está lá.”
Mas o motorista responde tranquilamente:
“Esta estrada é excelente, senhor general, por ela o carro desliza como manteiga. Se entrássemos pelos campos, estouraríamos um pneu. Olhe só, senhor general”, grita o motorista ao telefone, “esta estrada é tão bem construída que nem obuses de trinta centímetros e meio conseguem estragá-la. A estrada parece uma eira, mas, naquelas estradas pedregosas dos campos, nossos pneus estourariam. Também não podemos voltar pelo mesmo caminho, senhor general!”
“Bzzz, dzum!”, ouve Biegler, e o automóvel dá um salto enorme.
“Eu não lhe disse, senhor general”, berra o motorista ao telefone, “que esta estrada é bem construída pra diabo? Agora mesmo explodiu uma de trinta e oito bem diante de nós. Mas não abriu buraco nenhum, a estrada parece uma eira. Agora, se entrássemos pelos campos, adeus pneus. Estão atirando contra nós a quatro quilômetros de distância.”
“Mas para onde estamos indo?”
“Logo veremos”, respondeu o motorista. “Enquanto a estrada continuar assim, eu me responsabilizo por tudo.”
Voo, um voo imenso, e o automóvel para.
“Senhor general”, grita o motorista, “o senhor não tem um mapa do estado-maior?”
O general Biegler acende a pequena lâmpada elétrica. Vê que tem um mapa do estado-maior sobre os joelhos. Mas é um mapa naval da costa de Helgoland, de 1864, da guerra austro-prussiana contra a Dinamarca pela posse de Schleswig.
“Há uma bifurcação aqui”, diz o motorista. “Os dois caminhos levam às posições inimigas. O que me importa é uma estrada decente, para que os pneus não sofram, senhor general... Sou responsável pelo automóvel do estado-maior...”
Então, uma explosão, uma explosão ensurdecedora, e estrelas grandes como rodas. A Via Láctea é espessa como nata. Ele flutua pelo universo no assento ao lado do motorista. Todo o automóvel foi cortado rente, como por uma tesoura, logo diante do assento. Do automóvel restou apenas a dianteira agressiva, lançada ao ataque.
“Ainda bem”, diz o motorista, “que o senhor me mostrava o mapa por cima das minhas costas. Veio voando para junto de mim, e o resto foi pro inferno. Era uma de quarenta e dois... Eu logo desconfiei de que, havendo uma bifurcação, a estrada não valeria grande coisa. Depois de uma de trinta e oito, só podia vir uma de quarenta e dois. Ainda não fabricam nada diferente disso, senhor general.”
“Para onde está conduzindo isto?”
“Estamos voando para o céu, senhor general, e precisamos desviar dos cometas. Eles são piores que uma de quarenta e dois. Agora estamos sobre Marte”, disse o motorista após uma longa pausa.
Biegler voltou a sentir-se tranquilo.
“Conhece a história da Batalha das Nações, em Leipzig?”, perguntou. “Quando o marechal de campo príncipe Schwarzenberg marchou sobre Liebertwolkwitz em 14 de outubro de 1813, e quando, em 16 de outubro, houve a luta por Lindenau, os combates do general Merveldt, e quando as tropas austríacas estavam em Wachau, e quando Leipzig caiu no dia 19 de outubro?”
“Senhor general”, disse então o motorista com seriedade, “acabamos de chegar ao portão do céu. Desça, senhor general! Não podemos atravessar o portão do céu, há um aperto medonho aqui. Só soldados.”
“Então atropele alguns”, grita ele para o motorista. “Eles vão sair da frente.”
E, debruçando-se para fora do automóvel, berra:
“Achtung, Sie Schweinbande! Que gentalha! Veem um general e não conseguem fazer rechts schaut.”
O motorista procura acalmá-lo:
“É complicado, senhor general. A maioria está sem a cabeça.”
Só então o general Biegler percebeu que os que se espremiam junto ao portão do céu eram inválidos de toda espécie, que haviam perdido na guerra algumas partes do corpo, mas as traziam consigo dentro da mochila. Cabeças, braços, pernas. Um artilheiro justo, que se apertava junto ao portão do céu com o capote em farrapos, levava na mochila o ventre inteiro, juntamente com os membros inferiores. Da mochila de outro justo soldado da Landwehr, metade de uma bunda, perdida perto de Lviv, olhava para o general Biegler.
“É por causa da ordem”, tornou a dizer o motorista, avançando pela multidão cerrada. “Provavelmente é por causa da superinspeção celestial.”
Junto ao portão do céu só deixavam passar mediante uma senha, que ocorreu imediatamente ao general Biegler:
“Für Gott und Kaiser.”
O automóvel entrou no paraíso.
“Senhor general”, disse um oficial-anjo com asas, enquanto eles passavam por quartéis cheios de recrutas-anjos, “o senhor precisa apresentar-se no comando-geral.”
Prosseguiram, passando por um campo de exercícios apinhado de recrutas-anjos, aos quais ensinavam a gritar “Aleluia”.
Passaram por um grupo em que um cabo-anjo ruivo estava justamente dando uma lição num recruta-anjo desajeitado, socando-lhe a barriga e berrando:
“Abra melhor essa bocarra, seu porco de Belém. É assim que se grita ‘Aleluia’? Parece que tem um bolinho entalado na goela. Eu queria saber que imbecil deixou você entrar no paraíso, seu animal. Tente outra vez... Hlahlehiuhja? Como é, sua besta? Até aqui no paraíso você fica fanhoso... Tente outra vez, seu cedro do Líbano.”
Seguiram adiante, e ainda por muito tempo ouviram, atrás deles, o berro angustiado e fanhoso do recruta-anjo:
“Hla-hle-hlu-ia!”
E os gritos do cabo-anjo:
“A-le-lu-ia, a-le-lu-ia, sua vaca do Jordão!”
Depois, uma claridade enorme sobre um grande edifício, semelhante ao quartel de Mariánské, em České Budějovice, e sobre ele dois aeroplanos, um à esquerda e outro à direita, com uma tela gigantesca estendida entre ambos, ostentando a enorme inscrição:
K. u. k. Gottes Hauptquartier.
Dois anjos com uniforme da polícia militar tiraram o general Biegler do automóvel, agarraram-no pelo colarinho e o conduziram para dentro do edifício, subindo até o primeiro andar.
“Comporte-se direito diante de Deus Nosso Senhor”, disseram-lhe ainda, diante de uma porta, e o empurraram para dentro.
No meio da sala, em cujas paredes pendiam retratos de Francisco José e Guilherme, do herdeiro do trono Carlos Francisco José, do general Viktor Dankl, do arquiduque Frederico e do chefe do Estado-Maior Conrad von Hötzendorf, estava Deus Nosso Senhor.
“Cadete Biegler”, disse Deus Nosso Senhor com ênfase, “não me reconhece? Sou seu antigo capitão Ságner, da 11ª companhia de marcha.”
Biegler ficou petrificado.
“Cadete Biegler”, tornou a dizer Deus Nosso Senhor, “com que direito se apropriou do título de major-general? Com que direito, cadete Biegler, andava num automóvel do estado-maior pela estrada entre as posições inimigas?”
“Humildemente informo...”
“Cale a boca, cadete Biegler, quando Deus Nosso Senhor está falando com você.”
“Humildemente informo”, gaguejou Biegler mais uma vez.
“Então você não vai calar a boca?”, berrou Deus Nosso Senhor, abrindo a porta e gritando: “Dois anjos aqui!”
Entraram dois anjos com fuzis pendurados sobre a asa esquerda. Biegler reconheceu neles Matušič e Batzer.
E da boca de Deus Nosso Senhor soou a voz:
“Joguem-no na latrina!”
O cadete Biegler caiu em algum lugar, no meio de uma fedentina horrível...
Diante do cadete Biegler adormecido, Matušič estava sentado com Batzer, o ordenança do capitão Ságner, e os dois continuavam jogando sessenta e seis.
“Stink awer d’ Kerl wie a’ Stockfisch”, comentou Batzer, observando com interesse como o cadete Biegler se remexia de modo inquietante durante o sono. “Muß’ d’ Hosen voll ha’n.”
“Isso pode acontecer com qualquer um”, disse Matušič filosoficamente. “Deixe-o em paz, você não vai trocar a roupa dele mesmo. É melhor dar as cartas.”
O clarão das luzes já era visível sobre Budapeste, e um refletor saltava por cima do Danúbio.
O cadete Biegler já sonhava outra coisa, pois falava durante o sono:
“Sagen Sie meiner tapferen Armee, daß sie sich in meinem Herzen ein unvergängliches Denkmal der Liebe und Dankbarkeit errichtet hat.”
Como, ao pronunciar essas palavras, ele começou novamente a virar-se, o cheiro atingiu intensamente o nariz de Batzer, que comentou, cuspindo:
“Stink wie a’ Haizlputza, wie a’ bescheißena Haizlputza.”
E o cadete Biegler remexia-se cada vez mais inquieto, e seu novo sonho era muito fantástico. Defendia Linz durante a Guerra da Sucessão Austríaca.
Via redutos, retranchements e paliçadas em torno da cidade. Seu quartel-general fora transformado num hospital gigantesco. Por toda parte, enfermos rolavam pelo chão, segurando a barriga. Sob as paliçadas da cidade de Linz, cavalgavam os dragões franceses de Napoleão I.
E ele, comandante da cidade, erguia-se acima daquela multidão, também segurando a barriga, e gritava para um parlamentar francês:
“Diga ao seu imperador que não me renderei...”
Então, como se aquela dor de barriga de repente o abandonasse, ele precipita-se com um batalhão por cima das paliçadas, para fora da cidade, pela estrada da glória e da vitória, e vê o primeiro-tenente Lukáš deter com os próprios dedos o golpe de sabre de um dragão francês, destinado a ele, Biegler, defensor da Linz sitiada.
O primeiro-tenente Lukáš morre a seus pés, exclamando:
“Ein Mann wie Sie, Herr Oberst, ist nötiger als ein nichtsnutziger Oberleutnant!”
O defensor de Linz afasta-se comovido do moribundo quando, nesse instante, uma carga de metralha vem voando e atinge Biegler nos músculos das nádegas.
Biegler leva mecanicamente a mão para trás, apalpa as calças e sente umidade; alguma coisa pegajosa lambuza sua mão. Grita:
“Sanität! Sanität!”
E cai do cavalo...
Batzer e Matušič ergueram o cadete Biegler do chão, para onde ele havia rolado do banco, e voltaram a colocá-lo em seu lugar.
Depois, Matušič foi até o capitão Ságner e informou que coisas estranhas estavam acontecendo com o cadete Biegler.
“Não deve ser por causa do conhaque”, disse. “Pode ser cólera. O cadete Biegler bebia água em todas as estações. Em Moson, vi quando ele...”
“A cólera não age tão depressa. Matušič, diga ao senhor doutor, no compartimento ao lado, que venha examiná-lo.”
Ao batalhão fora destinado como “médico de guerra” o velho estudante de medicina e membro de corporações estudantis Welfer. Sabia beber, brigar e, ao mesmo tempo, dominava a medicina na ponta dos dedos. Passara por faculdades de medicina em diversas cidades universitárias da Áustria-Hungria e fizera prática nos mais variados hospitais, mas não concluía o doutorado pelo simples motivo de que o testamento deixado por seu tio aos herdeiros estipulava que o estudante de medicina Bedřich Welfer receberia anualmente uma bolsa até o dia em que obtivesse o diploma médico. Essa bolsa era cerca de quatro vezes maior que o salário de um assistente hospitalar, e MUC Bedřich Welfer esforçava-se honestamente para adiar o máximo possível sua nomeação como doutor em toda a medicina.
Os herdeiros podiam espumar de raiva. Declaravam-no imbecil, tentavam empurrar-lhe noivas ricas para se livrarem dele. Para irritá-los ainda mais, MUC Bedřich Welfer, membro de cerca de doze corporações estudantis, publicou em Viena, Leipzig e Berlim várias coletâneas de poemas bastante decentes. Escrevia para o Simplicissimus e continuava estudando como se nada estivesse acontecendo.
Até que veio a guerra, que atingiu vergonhosamente MUC Bedřich Welfer pelas costas.
O poeta dos livros Lachende Lieder, Krug und Wissenschaft, Märchen und Parabeln foi grosseiramente recrutado, e um dos herdeiros, que trabalhava no Ministério da Guerra, tratou de fazer com que o jovial Bedřich Welfer obtivesse um “doutorado de guerra”. Fez a prova por escrito. Recebeu uma série de perguntas para responder, e a todas deu invariavelmente a mesma resposta:
“Lecken Sie mir Arsch!”
Três dias depois, um coronel informou-lhe que recebera o diploma de doutor em toda a medicina, que há muito estava maduro para o doutorado, que o médico-chefe do estado-maior o destinava a um hospital de reposição e que sua rápida promoção dependeria de seu comportamento; que, embora tivesse travado duelos com oficiais em diversas cidades universitárias, tudo isso era conhecido, mas que, durante a guerra, esquecia-se tudo.
O autor do livro de poemas A caneca e a ciência mordeu os lábios e foi servir.
Depois que se constataram vários casos em que ele tratara os soldados enfermos com extraordinária benevolência, prolongando-lhes a permanência no hospital sempre que possível, numa época em que a palavra de ordem era: “Isto vai ficar se arrastando no hospital ou é melhor morrer nas trincheiras? Isto vai morrer no hospital ou na linha de combate?”, o doutor Welfer foi enviado para a frente com o 11º batalhão de marcha.
Os oficiais da ativa do batalhão consideravam-no um ser inferior. Os oficiais da reserva também não lhe davam atenção nem estabeleciam qualquer amizade com ele, para não ampliar ainda mais o abismo entre eles e os oficiais da ativa.
O capitão Ságner sentia-se, naturalmente, imensamente superior àquele antigo MUC que, durante seus longos anos de estudos, havia retalhado a sabre não se sabe quantos oficiais. Quando o doutor Welfer, o “médico de guerra”, passou por ele, nem sequer olhou em sua direção e continuou conversando com o primeiro-tenente Lukáš sobre algo inteiramente insignificante: que se cultivavam abóboras nos arredores de Budapeste. Ao que o primeiro-tenente Lukáš respondeu que, quando cursava o terceiro ano da escola de cadetes, ele e alguns colegas, “à paisana”, estiveram na Eslováquia e chegaram à casa de um pastor evangélico eslovaco. Este lhes serviu, com o assado de porco, um chucrute de abóbora, depois lhes encheu os copos de vinho e disse:
Dyňa sviňa,
chce sa jej vína
e que ele ficara terrivelmente ofendido [Nota: A conversa entre o capitão Ságner e o primeiro-tenente Lukáš foi conduzida em língua tcheca.].
“Não veremos muita coisa de Budapeste”, disse o capitão Ságner. “Estão nos levando pela periferia. De acordo com o itinerário de marcha, devemos ficar aqui duas horas.”
“Acho que estão manobrando os vagões”, respondeu o primeiro-tenente Lukáš. “Chegaremos à estação de transbordo. Transportmilitärbahnhof.”
O “médico de guerra” Welfer passou por eles.
“Não é nada”, disse sorrindo. “Os senhores que aspiram a tornar-se, com o tempo, oficiais do exército, e que ainda em Bruck se gabavam no cassino de seus conhecimentos estratégico-históricos, deveriam ser advertidos de que é perigoso comer de uma vez toda a remessa de doces enviada por mamãe para o campo de batalha. O cadete Biegler, que, desde que partimos de Bruck, comeu trinta canudinhos de creme, como me confessou, e que em todas as estações só bebeu água fervida, senhor capitão, faz-me lembrar um verso de Schiller: ‘Wer sagt von...’”
“Escute, doutor”, interrompeu-o o capitão Ságner, “não estamos falando de Schiller. O que tem, afinal, o cadete Biegler?”
O “médico de guerra” Welfer sorriu.
“O seu aspirante à patente de oficial, o cadete Biegler, cagou-se... Não é cólera, não é disenteria, é uma cagada pura e simples. O seu senhor aspirante à patente de oficial bebeu um pouco de conhaque a mais e cagou nas calças... Provavelmente teria cagado mesmo sem o seu conhaque. Devorou canudinhos de creme demais, enviados de casa... É uma criança... No cassino, pelo que sei, bebia sempre um quarto de litro. Abstêmio.”
O doutor Welfer cuspiu.
“Comprava tortinhas de Linz.”
“Então não é nada grave?”, perguntou o capitão Ságner. “Mas, ainda assim, uma coisa dessas... caso se espalhasse.”
O primeiro-tenente Lukáš levantou-se e disse a Ságner:
“Muito obrigado por um comandante de pelotão desses...”
“Ajudei-o um pouco a ficar de pé”, disse Welfer, sem perder o sorriso. “O senhor comandante do batalhão providenciará o restante... Quer dizer, entregarei aqui o cadete Biegler ao hospital... Emitirei um atestado de que é disenteria. Um caso grave de disenteria. Isolamento... O cadete Biegler irá para o pavilhão de desinfecção... Isso é decididamente melhor”, prosseguiu Welfer com o mesmo sorriso desagradável, “um cadete cagado ou um cadete acometido de disenteria...”
O capitão Ságner voltou-se para seu Lukáš, em tom estritamente oficial:
“Senhor primeiro-tenente, o cadete Biegler, da sua companhia, adoeceu de disenteria e permanecerá sob tratamento em Budapeste...”
Pareceu ao capitão Ságner que Welfer sorria de maneira terrivelmente agressiva, mas, quando olhou para o “médico de guerra”, viu que ele assumira uma expressão de completa indiferença.
“Então está tudo em ordem, senhor capitão”, respondeu Welfer com tranquilidade. “Os aspirantes à patente de oficial...”
Fez um gesto com a mão:
“Com disenteria, todo mundo caga nas calças.”
Foi assim que o valente cadete Biegler foi levado para o hospital militar de isolamento em Újbuda.
Suas calças cagadas perderam-se no turbilhão da guerra mundial.
Os sonhos de grandes vitórias do cadete Biegler ficaram encerrados num quarto hospitalar dos pavilhões de isolamento.
Quando soube que estava com disenteria, o cadete Biegler ficou verdadeiramente entusiasmado. Ser ferido ou adoecer pelo senhor imperador, no cumprimento do dever? Depois, ocorreu-lhe um pequeno contratempo. Como todos os lugares destinados aos doentes de disenteria estavam ocupados, transferiram o cadete Biegler para o pavilhão da cólera.
Um médico húngaro do estado-maior, depois que deram banho no cadete Biegler e lhe puseram um termômetro debaixo do braço, balançou a cabeça:
“Trinta e sete graus!”
Na cólera, o pior sintoma é uma queda preocupante da temperatura. O doente torna-se apático.
O cadete Biegler realmente não demonstrava qualquer agitação. Estava extraordinariamente tranquilo, repetindo consigo mesmo que, de qualquer modo, sofria pelo senhor imperador.
O médico do estado-maior ordenou que introduzissem o termômetro no reto do cadete Biegler.
“Último estágio da cólera”, pensou o médico do estado-maior. “Sinal do fim, fraqueza extrema, quando o doente perde a percepção do ambiente e sua consciência fica obscurecida. Ele sorri durante as convulsões que antecedem a morte.”
Durante a manipulação, o cadete Biegler sorria realmente como um mártir, fazendo-se de herói enquanto lhe enfiavam o termômetro no reto. Mas não se mexeu.
“Sintomas”, pensou o médico do estado-maior, “que, na cólera, conduzem gradualmente à morte. Posição passiva...”
Perguntou ainda ao suboficial sanitário húngaro se o cadete Biegler havia vomitado ou tido diarreia na banheira.
Ao receber uma resposta negativa, fitou Biegler. Quando, na cólera, cessam a diarreia e os vômitos, isso representa, tal como os sintomas anteriores, o quadro do que ocorre nas últimas horas antes da morte.
O cadete Biegler, completamente nu, retirado da banheira quente e posto na cama, sentiu frio e começou a bater os dentes. Também ficou arrepiado pelo corpo inteiro.
“Está vendo?”, disse o médico do estado-maior em húngaro. “Tremores intensos, extremidades frias. É o fim.”
Inclinando-se sobre o cadete Biegler, perguntou-lhe em alemão:
“Also, wie geht’s?”
“S-s-se-hr-hr gu-gu-tt”, respondeu o cadete Biegler entre o bater dos dentes. “...ei-ne... ei-ne De-deck-ke...”
“Consciência em parte obscurecida, em parte preservada”, disse o médico do estado-maior em húngaro. “Corpo muito magro. Os lábios e as unhas deveriam estar negros... É o terceiro caso em que morrem de cólera sem os lábios e as unhas negros...”
Inclinou-se novamente sobre o cadete Biegler e prosseguiu em húngaro:
“O segundo ruído cardíaco cessou...”
“Ei-ei-ne-ne De-de-de-deck-ke-ke”, bateu os dentes o cadete Biegler.
“O que ele está dizendo são suas últimas palavras”, disse o médico do estado-maior ao suboficial sanitário, em húngaro. “Amanhã o enterraremos com o major Koch. Agora ele perderá a consciência. Os documentos dele estão na secretaria?”
“Devem estar”, respondeu tranquilamente o suboficial sanitário.
“Ei-ei-ne-ne De-de-de-deck-ke-ke”, continuava a bater os dentes o cadete Biegler, enquanto eles se afastavam.
Em todo o quarto, havia cinco pessoas distribuídas por dezesseis camas. Uma delas já estava morta. Morrera duas horas antes, estava coberta por um lençol e tinha o mesmo nome do descobridor do bacilo da cólera. Era o capitão Koch, a quem o médico do estado-maior se referira ao dizer que seria enterrado no dia seguinte junto com o cadete Biegler.
O cadete Biegler ergueu-se na cama e viu pela primeira vez como se morria de cólera pelo senhor imperador, pois, dos quatro restantes, dois agonizavam, sufocavam e ficavam azuis, enquanto expeliam alguma coisa de dentro de si, embora não fosse possível perceber o quê nem em que língua falavam. Parecia mais um estertor de voz reprimida.
Os outros dois, com uma reação surpreendentemente violenta à recuperação, lembravam pessoas acometidas de delírio tifoso. Gritavam coisas incompreensíveis e lançavam para fora das cobertas as pernas magras. Diante deles estava um enfermeiro barbudo, que falava no dialeto da Estíria, como percebeu o cadete Biegler, e tentava acalmá-los:
“Eu também já tive cólera, meus queridos senhores, mas não chutava as cobertas. Agora vocês estão bem. Receberão licença quando... Não se sacuda desse jeito!”, berrou para um deles, que deu tamanho chute na coberta que ela se dobrou sobre sua cabeça. “Aqui não fazemos isso. Fique contente por estar com febre, ao menos não vão tirar você daqui acompanhado de música. Vocês dois já escaparam dessa.”
Olhou ao redor.
“Ali morreram mais dois. Era o que esperávamos”, disse bondosamente. “Fiquem contentes por terem escapado. Preciso buscar lençóis.”
Voltou pouco depois. Cobriu com lençóis os mortos, cujos lábios estavam completamente negros, puxou-lhes as mãos de unhas negras, que, na agonia final da asfixia, eles haviam mantido sobre os pênis eretos, tentou empurrar-lhes a língua para dentro da boca, ajoelhou-se ao lado das camas e começou:
“Heilige Maria, Mutter Gottes...”
E o velho enfermeiro da Estíria fitava, enquanto rezava, seus pacientes em recuperação, cujo delírio representava a reação a uma nova vida.
“Heilige Maria, Mutter Gottes”, repetia, quando um homem nu lhe tocou no ombro.
Era o cadete Biegler.
“Escute”, disse ele, “eu... tomei banho... Quer dizer, deram-me banho... Eu preci-so de uma coberta... Estou com frio.”
“É um caso extraordinário”, disse, meia hora mais tarde, o mesmo médico do estado-maior ao cadete Biegler, que descansava sob uma coberta. “O senhor, cadete, é um convalescente. Amanhã o mandaremos para o hospital de reserva em Tarnów. O senhor é portador do bacilo da cólera... Avançamos tanto que conhecemos tudo isso. O senhor pertence ao 91º regimento...”
“13º batalhão de marcha”, respondeu o suboficial sanitário pelo cadete Biegler. “11ª companhia.”
“Escreva”, disse o médico do estado-maior. “Cadete Biegler, 13º batalhão de marcha, 11ª companhia de marcha, 91º regimento, enviado para observação nos pavilhões de cólera de Tarnów. Portador do bacilo da cólera...”
E foi assim que o cadete Biegler, combatente entusiasmado, tornou-se portador do bacilo da cólera.
Edição integral em português brasileiro de As Aventuras do Bom Soldado Švejk, traduzida diretamente do original tcheco de domínio público, preservando a estrutura dos quatro livros e suas 29 unidades.
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