Universo da obra
Universo da obra
O primeiro-tenente Lukáš andava agitado pelo escritório da 11ª companhia de marcha. Era um buraco escuro no barracão da companhia, separado do corredor por tábuas. Uma mesa, duas cadeiras, um lampião a querosene e um beliche.
Diante dele estava o sargento-contador Vaněk, que ali preparava as folhas de pagamento do soldo, cuidava das contas da cozinha da tropa, era o ministro das Finanças de toda a companhia e passava ali o santo dia inteiro. Também dormia ali.
Junto à porta estava um soldado de infantaria gordo, com a barba crescida como a de Krakonoš. Era Baloun, o novo ordenança do primeiro-tenente, moleiro na vida civil em algum lugar perto de Český Krumlov.
“O senhor escolheu para mim um ordenança de oficial realmente notável”, dizia o primeiro-tenente Lukáš ao sargento-contador. “Agradeço-lhe de coração por essa agradável surpresa. Logo no primeiro dia, mandei-o buscar meu almoço na messe dos oficiais, e ele comeu metade.”
“Eu derramei, com licença”, disse o gigante gordo.
“Muito bem, derramou. Você só podia ter derramado a sopa ou o molho, mas não o assado à moda de Frankfurt. Afinal, trouxe para mim um pedaço tão pequeno que caberia debaixo de uma unha. E onde pôs o strudel?”
“Eu…”
“Não negue. Você comeu.”
O primeiro-tenente Lukáš pronunciou as últimas palavras com tamanha gravidade e voz tão severa que Baloun recuou involuntariamente dois passos.
“Fui me informar na cozinha sobre o que tivemos hoje no almoço. Havia sopa com bolinhos de fígado. Onde você pôs os bolinhos? Tirou todos pelo caminho, isso é certo. Depois havia carne de boi com pepino. O que fez com ela? Também comeu. Duas fatias de assado à moda de Frankfurt. E só me trouxe meia fatia, não foi? Dois pedaços de strudel! Onde os pôs? Encheu a barriga, seu porco miserável e nojento. Fale, onde pôs o strudel? Caiu na lama? Seu desgraçado. Pode me mostrar o lugar onde ele está na lama? E logo apareceu um cachorro, como se tivesse sido chamado, pegou-o e levou embora? Jesus Cristo, vou lhe dar tantos tapas na cara que sua cabeça vai ficar parecendo um tonelzinho! E ainda nega, o porco. Sabe quem viu você? Aqui, o rechnungsfeldvébl Vaněk. Ele veio até mim e disse: ‘Humildemente informo, senhor primeiro-tenente, que aquele porco do Baloun está comendo seu almoço. Estou olhando pela janela e ele se empanturra como se não comesse há uma semana.’ Escute, Sie Rechnungsfeldwebel, o senhor realmente não conseguiu escolher para mim outro animal que não este sujeito?”
“Humildemente informo, senhor primeiro-tenente, que Baloun parecia ser o homem mais correto de toda a nossa companhia de marcha. É tão desajeitado que não consegue lembrar nem um único manejo do fuzil e, se pusermos uma arma na mão dele, ainda acaba provocando alguma desgraça. No último exercício com cartuchos de festim, quase arrancou o olho do soldado ao lado. Pensei que pelo menos fosse capaz de cumprir um serviço como este.”
“E comer sempre todo o almoço do patrão”, disse Lukáš, “como se a própria porção não bastasse. Por acaso você passa fome?”
“Humildemente informo, senhor primeiro-tenente, que estou sempre com fome. Quando sobra pão para alguém, compro em troca de cigarros, e ainda assim é pouco. Já sou assim por natureza. Sempre penso que estou saciado, mas não estou. Pouco depois, como antes de comer, a barriga começa a roncar de novo, e veja só, a desgraçada já está reclamando. Às vezes penso que realmente chega, que não cabe mais nada dentro de mim, mas qual o quê. Basta ver alguém comendo, ou apenas sentir o cheiro, e meu estômago fica vazio como se tivesse sido varrido. Ele começa logo a exigir seus direitos novamente, e eu seria capaz de engolir pregos. Humildemente informo, senhor primeiro-tenente, que já pedi para receber porção dobrada. Por causa disso, fui em Budějovice procurar o médico do regimento, e ele, em vez de me ajudar, me pôs por três dias na enfermaria e receitou apenas uma caneca de caldo por dia. ‘Eu vou ensinar você, seu canalha, a sentir fome. Volte aqui mais uma vez e vai ver que sairá daqui magro feito vara de lúpulo!’ Eu não preciso, senhor primeiro-tenente, ver apenas coisas boas. Até as comuns começam a me provocar, e logo minha boca se enche d’água. Humildemente informo, senhor primeiro-tenente, que respeitosamente solicito autorização para receber porção dupla. Caso não haja mais carne, pelo menos o acompanhamento, batatas, bolinhos de massa, um pouco de molho. Sempre sobra alguma coisa…”
“Muito bem, já ouvi essas insolências, Baloun”, respondeu o primeiro-tenente Lukáš. “Já ouviu alguma vez, Sie Rechnungsfeldwebel, um soldado ser tão descarado como este sujeito? Come meu almoço e ainda quer autorização para receber porção dupla. Mas vou mostrar a você, Baloun, como abrir o apetite. Sie Rechnungsfeldwebel”, voltou-se para Vaněk, “leve-o ao cabo Weidenhofer e mande amarrá-lo no pátio, perto da cozinha, por duas horas, até distribuírem o goulash esta noite. Mande amarrá-lo bem alto, de modo que só consiga apoiar-se nas pontas dos pés e possa ver o goulash cozinhando no caldeirão. E providencie para que essa criatura continue amarrada quando começarem a distribuir o goulash junto à cozinha, para a saliva dele escorrer feito a de uma cadela faminta farejando diante de um açougue. Diga ao cozinheiro que distribua a porção dele!”
“Às ordens, senhor primeiro-tenente. Venha, Baloun!”
Quando eles saíam, o primeiro-tenente os deteve junto à porta e, olhando para o rosto apavorado de Baloun, exclamou, triunfante:
“Agora você se deu bem, Baloun. Bom apetite! E, caso faça isso comigo mais uma vez, mando você sem piedade para a corte marcial.”
Quando Vaněk voltou e informou que Baloun já estava amarrado, o primeiro-tenente Lukáš disse:
“O senhor me conhece, Vaněk, e sabe que não gosto de fazer essas coisas, mas não posso evitar. Em primeiro lugar, concordará que, quando se tira um osso de um cachorro, ele rosna. Não quero ter um homem vil ao meu redor. Em segundo lugar, o simples fato de Baloun estar amarrado tem grande significado moral e psicológico para toda a tropa. Ultimamente, esses homens, quando estão na companhia de marcha e sabem que amanhã ou depois de amanhã seguirão para o campo, fazem o que bem entendem.”
O primeiro-tenente Lukáš parecia profundamente aflito e continuou em voz baixa:
“Anteontem, durante o nachtiibung, deveríamos, como o senhor sabe, manobrar contra a einjährigfreiwilligenschule atrás da usina de açúcar. O primeiro pelotão, a vorhut, ainda marchou em silêncio pela estrada, pois eu próprio o conduzia. Mas o segundo, que devia avançar pela esquerda e enviar vorpatroly sob a usina, comportava-se como se estivesse voltando de um passeio. Cantavam e batiam os pés com tanta força que deviam ser ouvidos até no campo. Depois, no flanco direito, o terceiro pelotão seguiu para reconhecer o terreno sob a floresta, a uns bons dez minutos de distância de nós, e, mesmo daquela distância, ainda dava para ver os homens fumando, uma fileira de pontos de fogo na escuridão. E o quarto pelotão devia formar a nachhut. Sabe o diabo como aconteceu, mas ele apareceu de repente diante da nossa vorhut, de modo que foi tomado pelo inimigo, e precisei recuar diante da nossa própria nachhut, que avançava contra mim. Esta é a décima primeira companhia de marcha que herdei. O que posso fazer deles? Como se comportarão num combate de verdade?”
Enquanto falava, o primeiro-tenente Lukáš mantinha as mãos entrelaçadas, tinha uma expressão de mártir e a ponta do nariz parecia alongar-se.
“Não se preocupe com isso, senhor primeiro-tenente”, tentou tranquilizá-lo o sargento-contador Vaněk. “Não esquente a cabeça. Já estive em três companhias de marcha. Todas foram destroçadas junto com o batalhão inteiro, e voltamos a nos formar. E cada uma das companhias de marcha era igual à outra. Nenhuma era nem um fio de cabelo melhor que a sua, senhor primeiro-tenente. A pior foi a nona. Todos os graduados, inclusive o kompaniekomandant, foram levados para o cativeiro. O que me salvou foi eu ter ido ao trem militar do regimento requisitar rum e vinho para a companhia, e eles resolveram tudo sem mim. E o senhor não sabe, senhor primeiro-tenente, que, durante aquele último nachtiibung que mencionou, a einjährigfreiwilligenschule, que devia contornar nossa companhia, foi parar junto ao lago Neusiedl? Ficaram marchando sempre para a frente até de manhã, e os vorposty chegaram ao brejo. E quem os conduzia era o próprio capitão Ságner. Talvez tivessem chegado até Sopron, caso não tivesse amanhecido”, continuou em tom misterioso o sargento-contador, que apreciava casos assim e mantinha em seus registros todos os acontecimentos semelhantes.
“E sabe, senhor primeiro-tenente”, disse, piscando confidencialmente, “que o capitão Ságner será nomeado batalionskomandant do nosso batalhão de marcha? Primeiro, segundo dizia o sargento-mor do Estado-Maior Hegner, pensavam que seria o senhor, por ser o oficial mais antigo entre nós, quem se tornaria batalionskomandant. Depois, ao que parece, chegou da divisão à brigada a informação de que o capitão Ságner tinha sido nomeado.”
O primeiro-tenente Lukáš mordeu os lábios e acendeu um cigarro. Já sabia de tudo e estava convencido de que cometiam uma injustiça contra ele. O capitão Ságner já o ultrapassara duas vezes nas promoções, mas ele não disse nada além de:
“Mas o capitão Ságner…”
“Não fico lá muito contente com isso”, disse confidencialmente o sargento-contador. “O sargento-mor do Estado-Maior Hegner contou que, na Sérvia, no começo da guerra, o capitão Ságner quis se distinguir em algum lugar das montanhas perto de Montenegro e lançou uma companhia do batalhão atrás da outra contra as metralhadoras das posições sérvias, embora fosse uma coisa completamente inútil e a infantaria servisse ali tanto quanto um bode velho, porque só a artilharia poderia tirar os sérvios daqueles rochedos. Do batalhão inteiro sobraram apenas oitenta homens; o próprio capitão Ságner levou um handšús, depois ainda pegou disenteria no hospital, e tornou a aparecer no regimento em Budějovice. Dizem que ontem à noite ele contou no cassino como está ansioso para ir à frente, que vai deixar lá o batalhão de marcha inteiro, mas que há de realizar alguma coisa e receber o signum laudis; pela Sérvia, ficou a ver navios, mas agora ou cairá com o batalhão de marcha inteiro ou será nomeado obrstlajtnant; de todo modo, o batalhão de marcha tem de morrer. Acho, senhor primeiro-tenente, que esse risco também diz respeito a nós. O sargento-mor do Estado-Maior Hegner contou recentemente que o senhor e o capitão Ságner não se dão muito bem e que ele vai mandar justamente a nossa 11ª companhia primeiro para o combate, nos lugares mais terríveis.”
O sargento-contador suspirou:
“Eu seria da opinião de que, numa guerra como esta, em que há tantas tropas e uma frente tão comprida, seria possível conseguir muito mais com manobras bem-feitas do que com ataques desesperados. Eu vi isso perto de Dukla, quando estava na 10ª companhia de marcha. Naquela ocasião tudo transcorreu da maneira mais tranquila possível. Chegou a ordem ‘Nicht schießen’, e assim não atiramos e esperamos até os russos chegarem bem perto de nós. Nós os teríamos capturado sem disparar um tiro, só que naquela ocasião tínhamos ao nosso lado, no flanco esquerdo, as moscas de ferro, e aqueles imbecis da defesa territorial ficaram tão assustados quando os russos começaram a se aproximar que se puseram a descer pelas encostas cobertas de neve como se estivessem num escorregador. Então recebemos a ordem de que os russos haviam rompido o flanco esquerdo e de que devíamos tratar de alcançar a brigada. Eu estava justamente na brigada naquele momento, para mandar confirmar o kompanieverpflegungsbuch, porque não conseguia encontrar o trem militar do nosso regimento, quando começaram a chegar à brigada os primeiros homens da 10ª companhia de marcha. Até a noite apareceram cento e vinte. Diziam que os demais, enquanto recuavam, haviam descido pela neve, se perdido e ido parar em alguma posição russa, como se aquilo fosse um tobogã. Lá era terrível, senhor primeiro-tenente. Nos Cárpatos, os russos tinham posições tanto em cima quanto embaixo. E depois, senhor primeiro-tenente, o capitão Ságner...”
“Já me deixe em paz com o capitão Ságner”, disse o primeiro-tenente Lukáš. “Eu conheço tudo isso. E não pense que, quando houver algum assalto ou combate, o senhor voltará a estar por acaso em algum lugar junto ao trem militar do regimento, requisitando rum e vinho. Fui avisado de que o senhor bebe feito um condenado, e quem olha para esse seu nariz vermelho percebe imediatamente com quem está lidando.”
“Isso vem dos Cárpatos, senhor primeiro-tenente. Lá nós éramos obrigados a fazer isso. A ração militar chegava fria até nós, nossas trincheiras ficavam na neve e não era permitido acender fogo, de modo que só o rum nos mantinha de pé. E, se não fosse por mim, teria acontecido conosco o mesmo que acontecia nas outras companhias, onde nem rum havia e os homens congelavam. Em compensação, na nossa companhia todos ficavam com o nariz vermelho por causa do rum, mas isso tinha outra desvantagem: veio do batalhão uma ordem determinando que só os soldados de nariz vermelho fossem enviados às patrulhas.”
“Agora o inverno já ficou para trás”, observou significativamente o primeiro-tenente.
“O rum, senhor primeiro-tenente, é uma coisa indispensável em campanha, em qualquer estação do ano, assim como o vinho. Produz, por assim dizer, bom humor. Por meio caneco de vinho e um quarto de litro de rum, os homens brigam com qualquer um por sua causa... Que animal está batendo outra vez na porta? Será que não sabe ler o que está escrito nela: ‘Nicht klopfen!’? Herein!”
O primeiro-tenente Lukáš virou a cadeira para a porta e percebeu que ela se abria lenta e silenciosamente. Com a mesma discrição entrou no escritório da 11ª companhia de marcha o bom soldado Švejk, prestando continência já da soleira e, ao que tudo indicava, também desde o momento em que batera à porta, olhando para a inscrição “Nicht klopfen!”.
Sua continência constituía um acompanhamento retumbante para o rosto infinitamente satisfeito e despreocupado. Parecia um deus grego dos ladrões vestido com o sóbrio uniforme de um soldado da infantaria austríaca.
Por um instante, o primeiro-tenente Lukáš cerrou os olhos diante do olhar do bom soldado Švejk, que o abraçava e beijava com os olhos.
Com semelhante deleite deve ter olhado para o pai o filho pródigo, perdido e reencontrado, quando o pai, em sua homenagem, fazia girar um carneiro no espeto.
“Com sua licença, senhor primeiro-tenente, informo que estou aqui outra vez”, anunciou Švejk da porta, com uma espontaneidade tão sincera que o primeiro-tenente Lukáš recobrou imediatamente os sentidos. Desde o momento em que o coronel Schröder lhe anunciara que tornaria a mandar Švejk para cima dele, o primeiro-tenente Lukáš adiava mentalmente aquele encontro a cada dia. Todas as manhãs dizia a si mesmo: “Ele ainda não virá hoje. Talvez tenha aprontado alguma coisa por lá e resolvam ficar com ele mais algum tempo.”
Todas essas conjecturas foram corrigidas por Švejk mediante sua entrada tão afável e singela.
Švejk olhou então para o sargento-contador Vaněk e, voltando-se para ele, entregou-lhe com um sorriso agradável os papéis que retirara do bolso do capote:
“Com sua licença, senhor rechnungsfeldvébl, informo que estou com estes papéis, que fizeram para mim no escritório do regimento, para entregar ao senhor. É por causa do soldo e para me inscreverem no frpflégung.”
Švejk movia-se com tamanha desenvoltura social no escritório da 11ª companhia de marcha como se ele e Vaněk fossem os melhores amigos, ao que o sargento-contador respondeu simplesmente:
“Ponha isso na mesa.”
“Fará muito bem, Sie Rechnungsfeldwebel, se nos deixar a sós, a mim e a Švejk”, disse o primeiro-tenente Lukáš com um suspiro.
Vaněk saiu e ficou parado atrás da porta para escutar o que os dois diriam um ao outro.
A princípio não ouviu nada, pois tanto Švejk quanto o primeiro-tenente Lukáš estavam calados. Durante muito tempo ficaram olhando um para o outro, examinando-se. Lukáš olhava para Švejk como se quisesse hipnotizá-lo, como um galo parado diante de um frango, preparando-se para se lançar sobre ele.
Švejk, como sempre, dirigia ao primeiro-tenente Lukáš seu olhar úmido e terno, como se quisesse dizer: Estamos juntos outra vez, minha doce alma. Agora nada mais nos separará, meu pombinho.
E, como o primeiro-tenente demorasse a falar, a expressão dos olhos de Švejk tornou-se eloquente, com uma ternura pesarosa: Diga alguma coisa, meu querido, manifeste-se!
O primeiro-tenente Lukáš rompeu aquele silêncio constrangedor com palavras nas quais procurou colocar uma boa dose de ironia:
“Seja muito bem-vindo, Švejk. Agradeço sua visita. Ora, vejam só quem veio nos visitar.”
Não conseguiu, porém, conter-se, e a raiva dos últimos dias explodiu num tremendo soco sobre a mesa, fazendo o tinteiro saltar e espirrar tinta sobre a folha de pagamento.
Ao mesmo tempo, o primeiro-tenente Lukáš levantou-se de um salto, plantou-se bem diante de Švejk e berrou:
“Seu animal!”
Depois começou a andar pelo espaço apertado do escritório, cuspindo no chão sempre que passava diante de Švejk.
“Com sua licença, senhor primeiro-tenente”, disse Švejk, enquanto o primeiro-tenente Lukáš continuava andando e atirando furiosamente para um canto bolas de papel amassado, que ele ia buscar na mesa uma após a outra, “informo que entreguei a carta como devia. Encontrei felizmente a senhora Kákonyi, e posso dizer que é uma mulher muito bonita, embora eu só tenha visto ela chorando...”
O primeiro-tenente Lukáš sentou-se na cama de campanha do suboficial-contador e exclamou com voz rouca:
“Quando isso vai acabar, Švejk?”
Švejk respondeu como se não tivesse ouvido:
“Depois tive lá um pequeno aborrecimento, mas assumi toda a responsabilidade. Eles não acreditaram muito que eu me correspondia com aquela senhora, por isso preferi engolir a carta durante o interrogatório, para apagar qualquer pista. Depois, por mero acaso, pois não consigo explicar de outro modo, acabei metido numa briguinha insignificante, muito pequena mesmo. Também me livrei disso, reconheceram minha inocência, mandaram-me ao relatório do regimento e suspenderam toda a investigação no tribunal divisionário. Fiquei alguns minutos no escritório do regimento, até chegar o senhor obrst, que me deu uma pequena descompostura e disse que eu devia me apresentar imediatamente ao senhor, senhor primeiro-tenente, como ordenança. Também mandou avisar que solicita que o senhor vá imediatamente até ele por causa da companhia de marcha. Isso já faz mais de meia hora, mas o senhor obrst não sabia que ainda me arrastariam para o escritório do regimento e me fariam ficar sentado lá por mais de quinze minutos, porque meu soldo estava retido durante todo esse tempo e devia ser pago pelo regimento, não pela companhia, já que eu estava registrado como prisioneiro regimental. Aliás, eles têm tudo tão misturado e confuso por lá que uma pessoa acaba ficando maluca...”
O primeiro-tenente Lukáš, vestindo-se depressa ao ouvir que já devia estar havia meia hora na presença do coronel Schröder, disse:
“O senhor me pôs novamente de pé, Švejk.”
Disse isso com uma voz tão desesperada e desesperançada que Švejk procurou acalmá-lo com uma palavra amistosa, gritada enquanto o primeiro-tenente Lukáš se precipitava pela porta:
“Mas o senhor obrst espera. Ele não tem mesmo nada para fazer.”
Pouco depois da saída do primeiro-tenente, o sargento-contador Vaněk entrou no escritório.
Švejk estava sentado numa cadeira e alimentava o pequeno fogão de ferro atirando pedaços de carvão pela portinhola aberta. O fogão soltava fumaça e fedia, mas Švejk continuava se divertindo sem prestar atenção em Vaněk, que o observou por alguns instantes, depois fechou a portinhola com um pontapé e mandou Švejk cair fora dali.
“Senhor rechnungsfeldvébl”, disse Švejk com dignidade, “permita-me declarar que, mesmo com a melhor boa vontade, não posso cumprir sua ordem de cair fora, nem que seja do acampamento inteiro, pois estou submetido a determinações superiores. É que agora sou ordenança”, acrescentou com orgulho. “O senhor obrst Schröder me designou para servir aqui, na 11ª companhia de marcha, junto ao primeiro-tenente Lukáš, de quem eu era ordenança de oficial, mas, graças à minha inteligência natural, fui promovido a ordenança militar. Eu e o senhor primeiro-tenente somos velhos conhecidos. O que o senhor faz na vida civil, senhor rechnungsfeldvébl?”
O sargento-contador Vaněk ficou tão surpreendido com o tom familiar e amistoso do bom soldado Švejk que, esquecendo a dignidade que gostava tanto de exibir diante dos soldados da companhia, respondeu como se fosse subordinado de Švejk:
“Sou o droguista Vaněk, de Kralupy.”
“Eu também fui aprendiz de droguista”, disse Švejk, “com um tal senhor Kokoška, na rua Perštýn, em Praga. Era um sujeito muito esquisito. Uma vez incendiei por engano um barril de gasolina no porão e o estabelecimento pegou fogo. Então ele me expulsou e o grêmio não quis mais me aceitar em lugar nenhum, de modo que, por causa de um estúpido barril de gasolina, não consegui terminar o aprendizado. O senhor também fabrica tempero para vacas?”
Vaněk balançou a cabeça.
“No nosso estabelecimento, fabricávamos tempero para vacas com estampas de santos. Nosso patrão, o senhor Kokoška, era um homem extremamente religioso e leu certa vez que são Pelegrino ajudava nos casos de inchaço do gado. Então mandou imprimir, em algum lugar de Smíchov, umas estampas de são Pelegrino e pagou duzentos florins para que fossem benzidas em Emaús. Depois colocávamos as estampas dentro dos pacotes do nosso tempero para vacas. O tempero era misturado com água quente, a vaca bebia aquilo num cocho e, ao mesmo tempo, liam para o animal uma oraçãozinha a são Pelegrino, composta pelo senhor Tauchen, nosso caixeiro. Quando as estampas de são Pelegrino ficaram prontas, ainda era preciso imprimir alguma oraçãozinha no verso. Então, à noite, o velho Kokoška chamou o senhor Tauchen e disse que, até a manhã seguinte, ele devia compor uma oração para a estampa e para o tempero. Quando ele chegasse à loja às dez horas, tudo teria de estar pronto para ir à gráfica, pois as vacas já estavam esperando pela oração. Era pegar ou largar. Se compusesse uma coisa bonita, ganhava um florim na hora; se não, podia ir embora em quinze dias. O senhor Tauchen suou durante a noite inteira e de manhã chegou à loja sem dormir, para abrir as portas, sem ter escrito coisa alguma. Tinha até esquecido o nome do santo daquele tempero para vacas. Quem o tirou do apuro foi nosso criado Ferdinand. Ele sabia fazer de tudo. Quando secávamos chá de camomila no sótão, ele sempre subia lá, tirava os sapatos e nos ensinava como fazer os pés pararem de suar. Pegava pombos no telhado, sabia abrir o balcão onde ficava o dinheiro e ainda nos ensinava outros biscates com as mercadorias. Quando eu era garoto, tinha em casa uma farmácia inteira que trouxera da loja, maior do que a dos Irmãos da Caridade. Foi ele que ajudou o senhor Tauchen. Apenas disse: ‘Então me dê isso aqui, senhor Tauchen, para eu dar uma olhada’, e o senhor Tauchen logo me mandou buscar cerveja para ele. Antes que eu voltasse com a cerveja, nosso criado Ferdinand já tinha feito metade e recitava:
Do reino dos céus estou chegando,
boas-novas venho anunciando.
Vaca, bezerro e qualquer boi
precisam, como o sal que se põe,
do tempero de Kokoška,
que de toda aflição os solta...
“Depois que bebeu a cerveja e tomou um bom gole de tintura amarga, ficou mais inspirado e terminou num instante, de um jeito muito bonito:
Inventou-o Pelegrino santo,
dois florins por pacote, portanto.
São Pelegrino, protege nosso gado,
que teu tempero bebe com agrado.
O lavrador agradecido te louva em cantoria,
são Pelegrino, guarda nossas vacas noite e dia...
“Depois, quando o senhor Kokoška chegou, o senhor Tauchen entrou com ele no escritório e, ao sair, mostrou-nos dois florins, não um só, como havia sido prometido, e quis dividir o dinheiro pela metade com o senhor Ferdinand. Mas, quando nosso criado Ferdinand viu os dois florins, foi tomado de repente pela ganância. Disse que não, que ou ficava com tudo ou não queria nada. Então o senhor Tauchen não lhe deu coisa alguma e guardou os dois florins para si. Levou-me para o depósito ao lado, deu-me um tapa na cabeça e disse que eu levaria outros cem daqueles se me atrevesse a contar em algum lugar que não fora ele quem compusera e escrevera a oração. Mesmo que Ferdinand fosse reclamar com o nosso velho, eu devia dizer que o criado Ferdinand era mentiroso. Tive de jurar diante de um frasco de vinagre de estragão. Então nosso criado começou a se vingar do tempero para vacas. Nós o misturávamos em grandes caixas no sótão, e ele recolhia todos os cocôs de rato que conseguia varrer e os misturava no tempero. Depois recolhia bostas de cavalo na rua, secava em casa, esmagava no almofariz de temperos e também jogava aquilo no tempero para vacas com a estampa de são Pelegrino. E ainda não estava satisfeito. Mijava dentro das caixas, cagava nelas e mexia tudo, até ficar parecendo um mingau de farelo.”
O telefone tocou. O sargento-contador saltou para o aparelho e largou o fone irritado:
“Preciso ir ao escritório do regimento. Assim, de repente, não gosto nada disso.”
Švejk ficou novamente sozinho.
Pouco depois, o telefone tocou outra vez.
Švejk começou a conversar:
“Vaněk? Foi ao escritório do regimento. Quem está falando? Ordenança da 11ª companhia de marcha. Quem está aí? O ordenança da 12ª companhia? Servus, colega. Como me chamo? Švejk. E você? Braun. Não tem algum parente chamado Braun na avenida Pobřežní, em Karlín, que seja chapeleiro? Não tem, não conhece... Eu também não conheço. Uma vez passei por lá de bonde elétrico e a placa da firma me chamou a atenção. Quais são as novidades? Eu não sei de nada. Quando vamos partir? Ainda não falei com ninguém sobre a partida. Para onde devemos ir?”
“Seu imbecil, com a companhia de marcha para a frente.”
“Disso eu ainda não ouvi falar.”
“Belo ordenança você é. Não sabe se o seu tenente...”
“O meu é primeiro-tenente...”
“Dá no mesmo. Então, o seu primeiro-tenente foi a uma bešprechunk com o obrst?”
“Ele mandou chamá-lo.”
“Está vendo? O nosso também foi, e o da 13ª companhia igualmente. Acabei de falar pelo telefone com o ordenança deles. Não gosto dessa correria. E você não sabe se a banda já está fazendo as malas?”
“Não sei de nada.”
“Não se faça de idiota. Será que o rechnungsfeldvébl de vocês já recebeu o wagonenavízo? Quantos soldados vocês têm?”
“Não sei.”
“Seu imbecil, acha que vou devorar você? Ouve-se o homem ao telefone falando para alguém ao lado: ‘Pegue o outro fone, Franta, para você ver que ordenança estúpido eles têm na 11ª companhia.’ Alô, está dormindo aí ou o quê? Responda quando um colega lhe faz uma pergunta. Então você ainda não sabe de nada? Não esconda o jogo. O rechnungsfeldvébl de vocês não disse que vão requisitar conservas? Você não conversou com ele sobre essas coisas? Seu palerma. Não é da sua conta? Ouve-se uma risada. Parece que bateram na sua cabeça com um saco. Quando souber de alguma coisa, telefone para nós, aqui na 12ª companhia de marcha, seu querido filhinho idiota. De onde você é?”
“De Praga.”
“Então devia ser mais esperto... Outra coisa: quando o rechnungsfeldvébl de vocês foi ao escritório?”
“Chamaram ele há pouco.”
“Ora, e antes você não podia ter dito isso? O nosso também foi há pouco. Estão armando alguma coisa. Você falou com o trem militar?”
“Não falei.”
“Por Jesus Cristo, e ainda diz que é de Praga. Você não se interessa por nada. Por onde anda o dia inteiro?”
“Só cheguei há uma hora do tribunal divisionário.”
“Isso muda de figura, camarada. Ainda hoje vou aparecer por aí para conhecer você. Desligue dando dois toques.”
Švejk estava prestes a acender o cachimbo quando o telefone tornou a tocar.
“Vão para o diabo com esse telefone”, pensou Švejk. “Não vou conversar com vocês.”
O telefone, porém, continuou tilintando implacavelmente, até que Švejk perdeu a paciência, pegou o fone e berrou:
“Alô, quem fala? Aqui é o ordenança Švejk, da 11ª companhia de marcha.”
Na resposta, Švejk reconheceu a voz de seu primeiro-tenente Lukáš:
“O que todos vocês estão fazendo aí? Onde está Vaněk? Chame Vaněk imediatamente ao telefone.”
“Com sua licença, senhor primeiro-tenente, informo que o telefone tocou há pouco.”
“Escute, Švejk, não tenho tempo para conversar com o senhor. Conversa telefônica no Exército não é ficar tagarelando ao telefone, como quando convidamos alguém para almoçar conosco. As conversas telefônicas devem ser claras e breves. Ao telefone, até esse ‘com sua licença, senhor primeiro-tenente’ pode ser dispensado. Portanto, pergunto ao senhor, Švejk: Vaněk está aí ao alcance da mão? Mande-o vir imediatamente ao telefone.”
“Não tenho ele ao alcance da mão, com sua licença, senhor primeiro-tenente. Foi chamado para fora do escritório há pouco tempo, não deve fazer nem quinze minutos, e foi ao escritório do regimento.”
“Quando eu voltar, acertaremos nossas contas, Švejk. O senhor não consegue se expressar de modo conciso? Agora preste muita atenção ao que vou dizer. Está entendendo claramente, para depois não alegar que o telefone estava chiando? Imediatamente, assim que desligar o fone...”
Pausa. Novo toque. Švejk atende e é soterrado por uma enxurrada de insultos:
“Seu animal, vagabundo, patife! O que está fazendo? Por que interrompeu a conversa?”
“O senhor disse, por favor, que eu devia desligar o fone.”
“Estarei em casa dentro de uma hora, Švejk, e então o senhor vai ver... Agora vá imediatamente ao alojamento, encontre algum cuksfíra, por exemplo Fuchs, e diga-lhe que pegue dez homens sem demora e vá com eles ao depósito requisitar conservas. Repita: o que ele deve fazer?”
“Ir com dez homens ao depósito requisitar conservas para a companhia.”
“Finalmente deixou de ser estúpido uma vez. Enquanto isso, vou telefonar para Vaněk no escritório do regimento, para que também vá ao depósito e receba as conservas. Caso ele apareça no alojamento, mande-o largar tudo e correr laufšrit para o depósito. Agora desligue o fone.”
Durante um bom tempo, Švejk procurou em vão não apenas o cuksfíra Fuchs, mas também os demais graduados. Eles estavam perto da cozinha, arrancando a carne dos ossos e divertindo-se com a visão de Baloun amarrado. Por piedade, haviam permitido que ele mantivesse os pés firmemente apoiados no chão, mas, em compensação, oferecia um espetáculo interessante. Um dos cozinheiros trouxe-lhe um pedaço de carne preso a uma costela e o enfiou em sua boca. O barbudo gigante Baloun, amarrado e impossibilitado de usar as mãos, deslocava cuidadosamente o osso dentro da boca, equilibrando-o com os dentes e as gengivas, enquanto roía a carne com expressão de homem das florestas.
“Qual de vocês é o cuksfíra Fuchs?”, perguntou Švejk quando finalmente os encontrou.
O sargento Fuchs nem sequer considerou apropriado apresentar-se, ao perceber que quem perguntava por ele era um simples soldado de infantaria.
“Estou perguntando”, disse Švejk, “até quando vou ter de repetir? Onde está o cuksfíra Fuchs?”
O sargento Fuchs adiantou-se e, cheio de dignidade, começou a praguejar de todas as maneiras possíveis. Disse que não era um cuksfíra qualquer, mas o senhor cuksfíra; que não se devia perguntar “Onde está o cuksfíra?”, mas sim “Com sua licença, onde está o senhor cuksfíra?”. No pelotão dele, quando alguém não dizia “Ich melde gehorsam”, levava imediatamente um soco na cara.
“Devagar”, disse Švejk com ponderação. “O senhor vai agora mesmo ao alojamento, pega dez homens e corre com eles laufšrit para o depósito, onde vai requisitar conservas.”
O sargento Fuchs ficou tão surpreso que só conseguiu dizer:
“O quê?”
“Nada de ‘o quê’”, respondeu Švejk. “Sou o ordenança da 11ª companhia de marcha e acabei de falar pelo telefone com o senhor primeiro-tenente Lukáš. E ele disse: ‘Laufšrit com dez homens para o depósito.’ Se o senhor não for, senhor cuksfíra Fuchs, voltarei imediatamente ao telefone. O senhor primeiro-tenente deseja expressamente que seja o senhor. Não adianta nem discutir. ‘Uma conversa telefônica’, diz o primeiro-tenente Lukáš, ‘deve ser breve e clara. Quando se diz que o cuksfíra Fuchs vai, ele vai. Uma ordem dessas não é nenhuma tagarelice ao telefone, como se estivéssemos convidando alguém para almoçar. No Exército, sobretudo durante a guerra, cada atraso é um crime. Se esse cuksfíra Fuchs não for imediatamente quando o senhor transmitir a ordem, telefone na mesma hora para mim e eu acertarei as contas com ele. Não restará lembrança alguma do cuksfíra Fuchs.’ Meu caro, o senhor não conhece o primeiro-tenente.”
Švejk lançou um olhar triunfante aos graduados, que haviam ficado realmente surpresos e abatidos com sua intervenção.
O sargento Fuchs resmungou alguma coisa incompreensível e afastou-se em passo acelerado, enquanto Švejk gritava atrás dele:
“Posso então telefonar ao senhor primeiro-tenente dizendo que está tudo em ordem?”
“Em seguida estarei no depósito com dez homens”, respondeu o sargento Fuchs já perto do alojamento.
Sem dizer mais nada, Švejk afastou-se do grupo de graduados, que continuavam tão surpresos quanto o sargento Fuchs.
“Está começando”, disse o pequeno cabo Blažek. “Vamos fazer as malas.”
Quando Švejk retornou ao escritório da 11ª companhia de marcha, novamente não teve tempo de acender o cachimbo, pois o telefone voltou a tocar. Era mais uma vez o primeiro-tenente Lukáš:
“Onde o senhor está andando, Švejk? Já toquei três vezes e ninguém responde.”
“Estava providenciando aquilo, senhor primeiro-tenente.”
“Então eles já foram?”
“É claro que foram, mas ainda não sei se chegarão lá. Será que devo correr até lá mais uma vez?”
“Encontrou o cuksfíra Fuchs?”
“Encontrei, senhor primeiro-tenente. Primeiro ele me disse ‘O quê?’, e só depois que expliquei que as conversas telefônicas devem ser breves e claras...”
“Não fique conversando, Švejk... Vaněk ainda não voltou?”
“Não voltou, senhor primeiro-tenente.”
“Não grite tanto ao telefone. O senhor não sabe onde pode estar aquele maldito Vaněk?”
“Não sei, senhor primeiro-tenente, onde pode estar aquele maldito Vaněk.”
“Ele esteve no escritório do regimento e saiu para algum lugar. Acho que deve estar na cantina. Vá atrás dele, Švejk, e diga-lhe que vá imediatamente ao depósito. Mais uma coisa. Encontre agora mesmo o cabo Blažek e mande-o desamarrar Baloun imediatamente. Depois mande Baloun até mim. Desligue o fone!”
Švejk começou realmente a tomar providências. Quando encontrou o cabo Blažek e lhe transmitiu a ordem do primeiro-tenente relativa à libertação de Baloun, o cabo Blažek resmungou:
“Ficam com medo quando a água começa a bater na bunda.”
Švejk foi assistir ao desamarramento e acompanhou Baloun pelo caminho, pois naquela mesma direção ficava a cantina, onde ele devia encontrar o sargento-contador Vaněk.
Baloun olhava para Švejk como para seu salvador e prometia dividir com ele cada encomenda que recebesse de casa.
“Lá em casa vão fazer a matança agora”, dizia Baloun melancolicamente. “Você gosta de linguiça com sangue ou sem sangue? É só dizer, que hoje à noite escrevo para casa. Meu porco deve estar com uns cento e cinquenta quilos. Tem cabeça de buldogue, e porco assim é dos melhores. Porco desses não tem carne molenga. É uma raça muito boa, que aguenta qualquer coisa. Vai ter uma camada de toucinho de uns oito dedos. Quando eu estava em casa, fazia eu mesmo as linguiças de fígado e sempre me entupia tanto de recheio que quase estourava. O porco do ano passado tinha cento e sessenta quilos. Mas aquilo é que era porco”, disse entusiasmado, apertando com força a mão de Švejk quando se separaram. “Criei só com batata e eu mesmo me espantava de ver como engordava bonito. Pus os presuntos na salmoura, e um belo pedaço assado, tirado da salmoura, com bolinhos de batata salpicados de torresmo e repolho, isso é uma gostosura. Depois a gente toma uma cervejinha. Fica satisfeito da vida. E a guerra tirou tudo isso da gente.”
O barbudo Baloun soltou um suspiro profundo e partiu para a secretaria do regimento, enquanto Švejk tomou o caminho da cantina pela velha alameda de tílias altas.
Nesse meio-tempo, o sargento-contador Vaněk estava sentado muito satisfeito na cantina, contando a um sargento-mor do Estado-Maior seu conhecido quanto se podia ganhar, antes da guerra, com tintas de esmalte e revestimentos de cimento.
O sargento-mor do Estado-Maior já estava imprestável. Pela manhã chegara um fazendeiro dos arredores de Pardubice, que tinha um filho no acampamento, dera-lhe um suborno razoável e passara a manhã inteira pagando-lhe bebidas lá embaixo, na cidade.
Agora estava sentado, desesperado porque já não lhe apetecia mais nada, nem sequer sabia do que falava e não reagia absolutamente à conversa sobre tintas de esmalte.
Ocupava-se com suas próprias fantasias e balbuciava qualquer coisa sobre a necessidade de haver uma ferrovia local de Třeboň a Pelhřimov e depois de volta.
Quando Švejk entrou, Vaněk tentava mais uma vez explicar ao sargento-mor, por meio de números, quanto se ganhava com um quilo de revestimento de cimento para construções, ao que o sargento-mor respondeu, sem qualquer relação com o assunto:
“Na viagem de volta, ele morreu e deixou apenas cartas.”
Ao avistar Švejk, confundiu-o evidentemente com algum indivíduo de quem não gostava e começou a insultá-lo, dizendo que ele era ventríloquo.
Švejk aproximou-se de Vaněk, que também estava alegrinho, mas continuava extremamente agradável e afetuoso.
“Senhor rechnungsfeldvébl”, comunicou Švejk, “o senhor tem de ir agora mesmo ao depósito. O cuksfíra Fuchs já está esperando lá com dez homens para receberem as conservas. Tem de ir correndo, laufšrit. O senhor primeiro-tenente já telefonou duas vezes.”
Vaněk caiu na risada:
“Mas aí eu seria maluco, meu amor. Teria de xingar a mim mesmo, meu anjo. Tudo tem tempo de sobra, não há incêndio nenhum, criança de ouro. Quando o senhor primeiro-tenente Lukáš tiver despachado tantas companhias de marcha quanto eu, aí sim poderá falar alguma coisa e não ficará incomodando os outros à toa com esse laufšrit.
Eu já recebi na secretaria do regimento a ordem de que partimos amanhã, que é para arrumar tudo e ir buscar imediatamente as provisões para a viagem. E o que fiz? Vim tranquilamente para cá tomar um quarto de vinho. Estou muito bem sentado aqui e deixo tudo correr. Conserva continuará sendo conserva, requisição continuará sendo requisição. Conheço o depósito melhor que o senhor primeiro-tenente e sei o que se fala nessas conferências dos senhores oficiais com o senhor obrst. É só o senhor obrst que imagina, na fantasia dele, que há conservas no depósito. O depósito do nosso regimento nunca teve conserva alguma em estoque. Recebia de vez em quando da brigada ou pedia emprestado a outros regimentos com que entrava em contato. Só ao regimento de Benešov devemos mais de trezentas latas. He, he. Podem dizer o que quiserem na conferência, não há pressa nenhuma. Quando os nossos chegarem lá, o próprio encarregado do depósito dirá que ficaram malucos. Companhia de marcha nenhuma recebeu conservas para a viagem. Não é, sua batata velha?”, perguntou ao sargento-mor do Estado-Maior.
Este, porém, ou estava adormecendo, ou começava a ter um pequeno delírio, pois respondeu:
“Enquanto caminhava, segurava sobre a cabeça um guarda-chuva aberto.”
“O melhor que o senhor faz”, prosseguiu o sargento-contador Vaněk, “é deixar tudo para lá. Quando dizem hoje na secretaria do regimento que partiremos amanhã, nem uma criancinha deve acreditar. Podemos viajar sem vagões? Ainda estavam telefonando para a estação quando eu saí. Não têm um único vagão livre. Foi exatamente assim com a última companhia de marcha. Ficamos dois dias na estação esperando que alguém se compadecesse de nós e mandasse um trem. E depois nem sabíamos aonde iríamos. Nem o obrst sabia. Percorremos a Hungria inteira e ninguém sabia se íamos para a Sérvia ou para a Rússia. Em cada estação falavam diretamente com o Estado-Maior da divisão. E nós éramos apenas um remendo. Por fim nos costuraram lá para os lados de Dukla, onde nos arrebentaram, e tivemos de voltar para nos formar de novo. Portanto, pressa nenhuma. Com o tempo tudo se esclarece e não é preciso correr para nada. Jawohl, nochamol. Hoje o vinho daqui está extraordinariamente bom”, continuou Vaněk, sem prestar atenção ao sargento-mor, que resmungava consigo mesmo:
“Glauben Sie mir, ich habe bisher wenig von meinem Leben gehabt. Ich wundere mich über diese Frage.”
“Por que iria me preocupar à toa com a partida do batalhão de marcha? Na primeira companhia de marcha com que viajei, tudo ficou em ordem em duas horas. Nas outras companhias do nosso batalhão de marcha de então, começaram a preparar tudo dois dias antes. Mas o nosso kumpaniekomandant era o lajtnant Přenosil, um sujeito muito elegante, e ele nos disse: ‘Não tenham pressa, rapazes’, e tudo correu que foi uma beleza. Só começamos a arrumar as coisas duas horas antes da partida do trem. O senhor faria bem em se sentar também…”
“Não posso”, disse o bom soldado Švejk, com uma terrível abnegação. “Tenho de voltar à secretaria. E se alguém telefonar?”
“Então vá, meu tesouro, mas guarde para toda a vida que isso não fica bonito da sua parte e que um verdadeiro ordenança nunca deve estar onde precisam dele. Não deve se atirar ao serviço com tanto entusiasmo. Realmente não há nada mais feio que um ordenança desembestado, querendo devorar a guerra inteira, minha querida alminha.”
Mas Švejk já estava do lado de fora e apressava-se para a secretaria de sua companhia de marcha.
Vaněk ficou abandonado, pois decididamente não se podia dizer que o sargento-mor do Estado-Maior lhe proporcionasse companhia.
Este se isolara por completo e, acariciando o quarto de vinho, balbuciava coisas estranhíssimas, sem nenhuma relação entre si, tanto em tcheco como em alemão:
“Muitas vezes atravessei esta aldeia e não fazia a menor ideia de que ela existia. In einem halben Jahre habe ich meine Staatsprüfung hinter mir und meinen Doktor gemacht. Tornei-me um velho aleijado, agradeço-lhe, Lucie. Erscheinen sie in schön ausgestatteten Bänden. Talvez haja aqui entre vocês alguém que ainda se lembre disso.”
Para passar o tempo, o sargento-contador tamborilava na mesa alguma marcha. Não precisou, porém, entediar-se por muito tempo, pois a porta se abriu e entrou Jurajda, cozinheiro da ração dos oficiais, que se deixou colar a uma cadeira.
“Hoje”, balbuciou ele, “recebemos ordem de ir buscar conhaque para a viagem. Como não tínhamos nenhuma garrafa de vime vazia, dessas de rum, tivemos de esvaziar uma. Deu um trabalho danado. O pessoal da cozinha ficou completamente derrubado. Errei a conta de algumas porções, o senhor obrst chegou tarde e não sobrou nada para ele. Agora estão fazendo uma omelete para ele. Isso é muito engraçado.”
“É uma bela aventura”, observou Vaněk, que, quando bebia vinho, gostava muito de palavras bonitas.
O cozinheiro Jurajda começou a filosofar, o que de fato correspondia à sua antiga ocupação. Antes da guerra, publicava uma revista ocultista e a coleção Os Mistérios da Vida e da Morte.
No exército, conseguira esconder-se na cozinha dos oficiais do regimento e com muita frequência deixava algum assado queimar quando se concentrava na leitura de uma tradução dos antigos sutras indianos Pragnâ-Paramitâ, a Sabedoria Revelada.
O coronel Schröder gostava dele como uma curiosidade do regimento, pois que outra cozinha de oficiais podia se gabar de ter um cozinheiro ocultista que, ao contemplar os mistérios da vida e da morte, surpreendia a todos com um filé ao molho cremoso tão bom ou com um ragu de tal qualidade que, mortalmente ferido nas proximidades de Komárov, o tenente Dufek não parava de chamar por Jurajda?
“Sim”, disse de repente Jurajda, que mal se equilibrava na cadeira e fedia a rum a dez léguas de distância. “Quando hoje não sobrou nada para o senhor obrst e ele viu apenas batatas cozidas, caiu no estado de gaki. Sabem o que é gaki? É o estado dos espíritos famintos. Então eu disse: ‘O senhor, senhor obrst, tem força suficiente para superar a determinação do destino que fez com que não sobrasse para o senhor o rim de vitela? Está escrito no carma que hoje o senhor, senhor obrst, receberá no jantar uma magnífica omelete com fígado de vitela picado e refogado.’ Meu caro amigo”, disse depois de algum tempo, em voz baixa, ao sargento-contador, fazendo involuntariamente um gesto com a mão que derrubou todos os copos que estavam diante dele sobre a mesa.
“Esta é a insubstancialidade de todos os fenômenos, formas e coisas”, disse melancolicamente o cozinheiro ocultista depois de realizar esse ato. “A forma é insubstancialidade e a insubstancialidade é forma. A insubstancialidade não difere da forma, e a forma não difere da insubstancialidade. O que é insubstancialidade é forma, o que é forma é insubstancialidade.”
O cozinheiro ocultista envolveu-se no manto do silêncio, apoiou a cabeça na mão e ficou contemplando a mesa molhada, coberta de vinho.
O sargento-mor do Estado-Maior continuava a balbuciar coisas sem pé nem cabeça:
“O cereal desapareceu dos campos, desapareceu. In dieser Stimmung erhielt er Einladung und ging zu ihr. As festas de Pentecostes são na primavera.”
O sargento-contador Vaněk voltou a tamborilar na mesa, bebendo e lembrando-se de vez em quando de que dez homens e um cuksfíra o esperavam junto ao depósito.
Sempre que se lembrava disso, sorria consigo mesmo e fazia um gesto de desprezo com a mão.
Quando voltou tarde para a secretaria da 11ª companhia de marcha, encontrou Švejk junto ao telefone.
“A forma é insubstancialidade e a insubstancialidade é forma”, conseguiu dizer, antes de se enfiar vestido no catre e adormecer imediatamente.
Švejk continuava sentado junto ao telefone porque, duas horas antes, o primeiro-tenente Lukáš lhe dissera que ainda estava na conferência com o senhor coronel e se esquecera de avisá-lo de que podia se afastar do aparelho.
Depois falara por telefone com o cuksfíra Fuchs, que durante todo aquele tempo esperara inutilmente pelo sargento-contador com dez homens e, além disso, descobrira que o depósito estava fechado.
Por fim, Fuchs fora embora para algum lugar, e os dez homens voltaram um a um para seu barracão.
De vez em quando, Švejk se divertia pegando o fone e escutando. Era um telefone de um novo sistema, que começava a ser introduzido no exército e tinha a vantagem de permitir ouvir, com bastante clareza e nitidez, as conversas telefônicas alheias ao longo de toda a linha.
O trem militar trocava insultos com o quartel da artilharia, os sapadores ameaçavam o correio militar e o campo de tiro militar rosnava para a unidade de metralhadoras.
E Švejk continuava sentado junto ao telefone…
A conferência com o coronel se prolongava.
O coronel Schröder desenvolvia as mais recentes teorias do serviço de campanha e dava especial ênfase aos lança-minas.
Misturava alhos com bugalhos, falando sobre a posição da frente havia dois meses, tanto ao sul como no leste, sobre a importância de uma ligação precisa entre as diversas unidades, sobre gases venenosos, disparos contra aeroplanos inimigos e o abastecimento dos homens no campo, passando depois às condições internas do exército.
Discursou sobre as relações dos oficiais com os homens, dos homens com os graduados, sobre as deserções para o inimigo nas frentes, sobre os acontecimentos políticos e sobre o fato de que cinquenta por cento dos soldados tchecos eram politisch verdächtig.
“Jawohl, meine Herren, der Kramarsch, Scheiner und Klófatsch.”
A maioria dos oficiais se perguntava quando o velho finalmente pararia de dizer asneiras, mas o coronel Schröder continuou tagarelando sobre as novas tarefas dos novos batalhões de marcha, os oficiais mortos do regimento, os zepelins, os cavalos de frisa e o juramento.
Ao ouvir essa última palavra, o primeiro-tenente Lukáš se lembrou de que, quando todo o batalhão de marcha prestara juramento, o bom soldado Švejk não participara, pois naquele momento estava preso no tribunal da divisão.
E de repente teve vontade de rir. Foi uma espécie de riso histérico, com que contagiou vários oficiais sentados ao seu redor, chamando assim a atenção do coronel, que acabava de passar às experiências adquiridas durante a retirada dos exércitos alemães nas Ardenas. Confundiu tudo e concluiu:
“Senhores, isso não tem graça.”
Depois todos se dirigiram ao cassino dos oficiais, porque o Estado-Maior da brigada chamara o coronel Schröder ao telefone.
Švejk continuava cochilando junto ao aparelho quando a campainha o despertou.
“Alô”, ouviu. “Aqui é a secretaria do regimento.”
“Alô”, respondeu. “Aqui é a secretaria da 11ª companhia de marcha.”
“Não enrole”, ouviu a voz. “Pegue lápis e escreva. Receba o telefonograma: 11. Marschkumpanie…”
Seguiram-se algumas frases num caos esquisito, porque a 12ª e a 13ª companhias de marcha começaram a falar ao mesmo tempo, e o telefonograma se perdeu completamente naquele pânico de sons. Švejk não entendeu uma única palavra. Por fim tudo se acalmou e Švejk ouviu:
“Alô, alô, agora leia de volta e não enrole.”
“O que é para eu ler?”
“O que é para ler, seu boi? O telefonograma!”
“Que telefonograma?”
“Krucihiml, você é surdo? O telefonograma que acabei de ditar, imbecil.”
“Não ouvi nada, tinha alguém falando junto aqui.”
“Seu macaco, acha que eu só tenho você para atender? Vai receber o telefonograma ou não? Tem lápis e papel? Não tem, não é, seu animal? Quer que eu espere até encontrar? Esses são os nossos soldados. E então, está pronto? Já está preparado? Finalmente conseguiu sair do buraco. Espero que não tenha trocado de roupa para isso, homem. Agora escute: 11. Marschkumpanie. Repita!”
“11. Marschkumpanie…”
“Kumpaniekommandant. Anotou? Repita!”
“Kumpaniekommandant…”
“Zur Besprechung morgen… Está pronto? Repita!”
“Zur Besprechung morgen…”
“Um neun Uhr. Unterschrift. Sabe o que é Unterschrift, macaco? É assinatura. Repita!”
“Um neun Uhr. Unterschrift. Sabe o que é Unterschrift, macaco? É assinatura.”
“Seu idiota. A assinatura é: Oberst Schröder, animal. Anotou? Repita!”
“Oberst Schröder, animal.”
“Está bem, seu boi. Quem recebeu o telefonograma?”
“Eu.”
“Himlhergot, quem é esse eu?”
“Švejk. Mais alguma coisa?”
“Graças a Deus, mais nada. Mas você devia se chamar Vaca. O que há de novo por aí?”
“Nada. Tudo como sempre.”
“Está contente, não está? Disseram que hoje amarraram alguém aí.”
“Só o ordenança do senhor primeiro-tenente. Comeu a ração dele. Você sabe quando partimos?”
“Homem, essa é uma pergunta que nem o velho sabe responder. Boa noite! Tem pulga aí?”
Švejk colocou o fone no gancho e começou a despertar o sargento-contador Vaněk, que resistia furiosamente e, quando Švejk começou a sacudi-lo, acertou-lhe um golpe no nariz. Depois deitou-se de bruços e começou a chutar o catre.
Švejk conseguiu, porém, acordá-lo o suficiente para que, esfregando os olhos, Vaněk se virasse de costas e perguntasse assustado o que acontecera.
“Até agora, nada”, respondeu Švejk. “Eu só queria me aconselhar com o senhor. Acabamos de receber um telefonograma dizendo que amanhã às nove o senhor primeiro-tenente Lukáš tem de comparecer de novo a uma conferência com o senhor obrst. Agora não sei como proceder. Devo ir avisá-lo imediatamente ou só de manhã? Hesitei muito antes de acordar o senhor, porque estava roncando tão bonito, mas depois pensei: não custa nada, é melhor consultar…”
“Pelo amor de Deus, deixe-me dormir”, gemeu Vaněk, abrindo um bocejo enorme. “Vá lá só de manhã e não me acorde mais!”
Virou-se de lado e adormeceu imediatamente.
Švejk voltou para o telefone, sentou-se e começou a cochilar sobre a mesa. A campainha o despertou.
“Alô, 11ª companhia de marcha.”
“Sim, 11ª companhia de marcha. Quem está falando?”
“13ª companhia. Alô. Que horas você tem? Não consigo falar com a central. Estão demorando demais para vir me render.”
“O nosso parou.”
“Então estão como nós. Sabe quando vamos partir? Falou com a secretaria do regimento?”
“Lá eles sabem tanto quanto nós, ou seja, porra nenhuma.”
“Não seja vulgar, senhorita. Já receberam as conservas? Os nossos foram lá e não trouxeram nada. O depósito estava fechado.”
“Os nossos também voltaram de mãos vazias.”
“Isso tudo é um pânico inútil. Para onde acha que vamos?”
“Para a Rússia.”
“Acho mais provável que seja para a Sérvia. Vamos ver quando chegarmos a Peste. Se nos levarem para a direita, é sinal de Sérvia, e para a esquerda, Rússia. Já receberam os brotsaky? Dizem que agora vão aumentar o soldo. Você joga frische viere? Joga? Então venha amanhã. A gente joga toda noite. Quantos estão aí no telefone? Só você? Então mande isso à merda e vá dormir. Vocês têm umas regras esquisitas por aí. Caiu nessa como cego em briga de foice? Bem, finalmente vieram me render. Durma docemente.”
E Švejk também adormeceu docemente junto ao telefone, esquecendo-se de colocar o fone no gancho. Assim, ninguém perturbou seu sono sobre a mesa, enquanto o telefonista da secretaria do regimento praguejava porque não conseguia chamar a 11ª companhia de marcha para transmitir um novo telefonograma: até o meio-dia do dia seguinte, deveria ser informado à secretaria do regimento o número dos que não haviam sido vacinados contra o tifo.
Enquanto isso, o primeiro-tenente Lukáš continuava sentado no cassino dos oficiais com o médico militar Šancler, que, montado numa cadeira, batia o taco no chão em intervalos regulares e pronunciava, uma após a outra, as seguintes frases:
“O sultão sarraceno Salah-Edin foi o primeiro a reconhecer a neutralidade do corpo sanitário.
Deve-se cuidar dos feridos de ambos os lados.
Os medicamentos e os tratamentos devem ser pagos pelo outro lado, mediante ressarcimento das despesas.
Deve ser permitido enviar-lhes médicos e seus auxiliares, munidos de passaportes dos generais.
Também os feridos feitos prisioneiros devem ser devolvidos sob a proteção e a garantia dos generais, ou trocados. Depois, porém, podem voltar a servir.
Os doentes de ambos os lados não devem ser capturados nem mortos, mas transportados em segurança para hospitais, e deve ser permitido que conservem sua guarda, que, juntamente com os doentes, deverá retornar munida de passaportes dos generais. Isso também se aplica aos capelães de campanha, médicos, cirurgiões, farmacêuticos, enfermeiros, auxiliares e demais pessoas destinadas ao serviço dos doentes, que não devem ser capturados, mas enviados de volta da mesma maneira.”
O doutor Šancler já quebrara dois tacos durante a exposição e ainda não terminara sua estranha explicação sobre o tratamento dos feridos na guerra, na qual não parava de introduzir alguma coisa sobre passaportes de generais.
O primeiro-tenente Lukáš terminou o café preto e foi para casa, onde encontrou o gigante barbudo Baloun ocupado em fritar uma linguiça numa caneca, sobre o fogareiro a álcool do primeiro-tenente.
“Tomo a liberdade”, gaguejou Baloun. “Permito-me, participo obedientemente…”
Lukáš olhou para ele. Naquele instante Baloun lhe pareceu uma criança enorme, uma criatura ingênua, e o primeiro-tenente Lukáš sentiu de repente pena de tê-lo mandado amarrar por causa de sua grande fome.
“Pode continuar cozinhando, Baloun”, disse, desafivelando o sabre. “Amanhã mando acrescentar mais uma porção de pão para você.”
O primeiro-tenente Lukáš sentou-se à mesa e estava num estado de espírito tão particular que começou a escrever uma carta sentimental à tia.
Querida titia!
Acabo de receber ordem para estar pronto com
minha companhia de marcha para partir rumo à frente.
É possível que esta seja a última carta que receberás
de mim, pois por toda parte travam-se combates cruéis
e nossas perdas são grandes. Por isso me é difícil
terminar esta carta com as palavras “Até breve!”.
Seria mais apropriado enviar-te meu último adeus!
“O restante escrevo de manhã”, pensou o primeiro-tenente Lukáš, e foi se deitar.
Quando Baloun percebeu que o primeiro-tenente dormia profundamente, tornou a vasculhar e farejar o alojamento, como as baratas durante a noite. Abriu a maleta do primeiro-tenente e mordeu uma barra de chocolate, mas se assustou quando o primeiro-tenente se agitou durante o sono. Guardou rapidamente o chocolate mordido na maleta e ficou quieto.
Depois foi ver, pé ante pé, o que o primeiro-tenente escrevera.
Leu a carta e ficou comovido, especialmente com aquele “último adeus!”.
Deitou-se no colchão de palha junto à porta e começou a pensar em casa e nas matanças de porco.
Não conseguia se livrar da imagem viva de si mesmo furando o embutido de cabeça para deixar o ar sair, pois do contrário ele estouraria durante o cozimento.
E, lembrando-se de como certa vez, na casa dos vizinhos, uma linguiça de toucinho inteira estourara e se desfizera na água, adormeceu num sono inquieto.
Sonhou que contratara um açougueiro desajeitado e que, enquanto este enchia as linguiças de fígado, as tripas se rompiam. Depois sonhou que o açougueiro se esquecera de fazer duzentas e sessenta e nove morcelas, que a carne suína cozida desaparecera e que faltavam espetinhos para prender as linguiças. Em seguida sonhou alguma coisa sobre um tribunal de campanha, porque o haviam apanhado tirando um pedaço de carne da cozinha de campanha. Por fim viu a si mesmo pendurado numa das tílias da alameda do acampamento militar de Bruck an der Leitha.
Quando Švejk despertou com a aurora nascente, que chegava acompanhada do aroma das conservas de café fervidas em todas as cozinhas das companhias, colocou mecanicamente o fone no gancho, como se acabasse de encerrar uma conversa telefônica, e fez um pequeno passeio matinal pela secretaria, enquanto cantava.
Começou bem no meio da letra de uma canção em que um soldado se veste de moça e vai visitar a amada num moinho, onde o moleiro o põe para dormir com a filha, mas antes chama a mulher:
Dona moleira, dê-lhe o jantar,
para a moça poder cear.
A mulher do moleiro alimenta o sujeito ordinário. Depois vem a tragédia familiar:
Os moleiros se levantaram
e na porta encontraram:
“Sua filha, Ana Naná,
donzela honrada já não está.”
Švejk pôs tanta voz no fim da canção que a secretaria ganhou vida, pois o sargento-contador Vaněk despertou e perguntou que horas eram.
“Acabaram de tocar a alvorada.”
“Então só me levanto depois do café”, decidiu Vaněk, que sempre tinha tempo de sobra para tudo. “De qualquer maneira, hoje vão voltar a nos atormentar com alguma pressa e fazer a gente correr à toa, como ontem com aquelas conservas…”
Vaněk bocejou e perguntou se, quando voltara para casa, ficara discursando por muito tempo.
“Só falou um pouco sem nexo”, disse Švejk. “Ficava soltando umas coisas sobre certas formas, dizendo que forma não é forma, e que aquilo que não é forma é forma, e que essa forma, por sua vez, não é forma. Mas o sono logo venceu o senhor e começou a roncar como uma serra cortando madeira.”
Švejk se calou, caminhou até a porta e voltou ao catre do sargento-contador, diante do qual parou e comentou:
“Quanto à minha pessoa, senhor rechnungsfeldvébl, quando ouvi o que o senhor disse sobre essas formações, lembrei de um tal Zátka, funcionário da companhia de gás. Ele trabalhava no posto de gás de Letná, acendendo e apagando os lampiões. Era um homem esclarecido e frequentava todas as espeluncas possíveis de Letná, porque entre acender e apagar os lampiões sobra um tempão; depois, de madrugada, no posto da companhia de gás, mantinha conversas iguais às suas, só que ele dizia: ‘O cubo é uma aresta, por isso o cubo é arestado.’ Ouvi isso com meus próprios olhos, quando um policial bêbado me conduziu por sujar a rua e, por engano, em vez de me levar ao posto policial, me levou ao posto da companhia de gás. E depois”, disse Švejk em voz baixa, “com o tempo aquilo acabou muito mal para o Zátka. Entrou para a Congregação Mariana, começou a acompanhar aquelas cabras celestiais aos sermões do padre Jemelka, em Santo Inácio, na Praça Carlos, e certa vez, quando os missionários estavam em Santo Inácio, no Karlák, esqueceu de apagar os lampiões a gás do setor dele, de modo que o gás ficou queimando sem parar pelas ruas durante três dias e três noites. É muito ruim”, prosseguiu Švejk, “quando uma pessoa de repente começa a se meter com filosofias. Isso sempre cheira a delirium tremens. Anos atrás, transferiram para o nosso regimento, vindo do Setenta e Cinco, um tal major Blüher. Uma vez por mês ele mandava nos chamar, formar um quadrado e refletia conosco sobre o que era a autoridade militar. Não bebia nada além de aguardente de ameixa. ‘Todo oficial, soldados’, explicava para nós no pátio do quartel, ‘é por si só o ser mais perfeito, com cem vezes mais inteligência que todos vocês juntos. Acima de um oficial, soldados, vocês não podem imaginar absolutamente nada mais perfeito, ainda que passassem a vida inteira pensando nisso. Todo oficial é um ser necessário, enquanto vocês, soldados, são apenas seres contingentes: podem existir, mas não precisam. Se houvesse uma guerra, soldados, e vocês caíssem pelo senhor imperador, muito bem, isso não mudaria muita coisa; mas, se o oficial de vocês caísse primeiro, aí é que veriam quanto dependem dele e que perda seria. O oficial precisa existir, e vocês, na verdade, só têm existência graças aos senhores oficiais; vocês procedem deles, não podem passar sem oficiais, não conseguem nem soltar um peido sem a autoridade militar. Para vocês, soldados, o oficial é a lei moral, quer entendam isso, quer não; e, como toda lei teve de ter seu legislador, soldados, só pode ser o oficial, perante o qual vocês se sentem, e têm de se sentir, obrigados em tudo, cumprindo sem exceção todas as ordens dele, mesmo que não lhes agradem.’
Depois, certa vez, quando terminou, ele começou a andar em volta do quadrado e a perguntar a cada um:
‘O que você sente quando estoura o horário?’
Davam umas respostas confusas, dizendo que ainda nunca tinham estourado o horário, ou que depois de toda vez que estouravam ficavam com o estômago ruim; um falou que tinha enterrado o kasárník, e assim por diante. O major Blüher mandava todos esses serem imediatamente levados para o lado, pois à tarde fariam exercícios de dobrar os joelhos no pátio, como castigo por não saberem explicar o que sentiam. Antes que chegasse a minha vez, lembrei daquilo sobre o que ele tinha refletido conosco da última vez e, quando chegou até mim, falei com toda a calma:
‘Obedientemente comunico, senhor major, que, quando estouro o horário, sinto sempre dentro de mim uma espécie de inquietação, medo e remorso. Mas, quando recebo permissão para ficar além do horário e volto pontualmente ao quartel, apodera-se de mim uma espécie de paz beatífica, e a satisfação interior começa a subir por mim.’
Todo mundo em volta caiu na risada, e o major Blüher berrou comigo: ‘O que sobe por você, seu sujeito, são percevejos, quando fica roncando na tarimba. O miserável ainda vem fazer graça.’
E ganhei por isso umas algemas disciplinares que foram uma beleza.”
“No Exército não há outro jeito”, disse o sargento-contador, espreguiçando-se preguiçosamente na cama. “Isso já está tão arraigado que, responda como responder, faça o que fizer, sempre precisa haver uma nuvem pairando sobre você, e os trovões têm de começar a ribombar. Sem isso não há disciplina possível.”
“Muito bem dito”, declarou Švejk. “Nunca vou esquecer de quando prenderam o recruta Pech. O tenente da companhia era um tal Moc, que reuniu os recrutas e perguntou a cada um de onde era.
‘Seus recrutas verdes e desgraçados’, disse para eles, ‘vocês precisam aprender a responder de maneira clara, precisa e como um estalo de chicote. Então vamos começar. De onde você é, Pech?’ Pech era um homem inteligente e respondeu: ‘Dolní Bousov, Unter Bautzen, 267 casas, 1.936 habitantes tchecos, circunscrição de Jičín, distrito de Sobotka, antigo domínio de Kost, igreja paroquial de Santa Catarina, do século XIV, restaurada pelo conde Václav Vratislav Netolický, escola, correio, telégrafo, estação da Ferrovia Comercial Tcheca, usina de açúcar, moinho com serraria, povoado isolado de Valcha, seis feiras anuais.’ Nessa hora o tenente Moc se atirou em cima dele, começou a lhe dar uma bofetada atrás da outra e gritava: ‘Aqui está uma feira anual, aqui está a segunda, a terceira, a quarta, a quinta e a sexta!’ E Pech, embora fosse recruta, pediu para comparecer ao relatório do batalhão. Naquele tempo havia uma cambada muito divertida nos escritórios, e escreveram que ele queria comparecer ao relatório do batalhão por causa das feiras anuais de Dolní Bousov. O batalionskomandant era o major Rohell. ‘Also, was gibt’s?’ perguntou a Pech, e ele disparou: ‘Obedientemente comunico, senhor major, que em Dolní Bousov há seis feiras anuais.’ O major Rohell berrou com ele, bateu os pés e mandou levá-lo imediatamente para a ala dos loucos do hospital militar. Desde então, Pech virou o pior soldado de todos, castigo atrás de castigo.”
“É difícil educar soldados”, disse o sargento-contador Vaněk, bocejando. “Soldado que nunca foi castigado no Exército não é soldado. Talvez em tempo de paz ainda valesse a regra de que o soldado que completasse o serviço sem castigos teria depois preferência no funcionalismo civil. Hoje, são justamente os piores soldados, aqueles que em tempo de paz não saíam da cadeia, que se tornam os melhores na guerra. Lembro do infante Sylvanus, na oitava companhia de marcha. Antes ele recebia castigo atrás de castigo, e que castigos! Não tinha vergonha de roubar do camarada o último vintém, mas, quando entrou em combate, foi o primeiro a cortar os obstáculos de arame, capturou três homens e matou um deles no caminho, dizendo que não confiava no sujeito. Recebeu a grande medalha de prata, pregaram duas estrelinhas nele e, se não o tivessem enforcado mais tarde, perto de Dukla, já teria virado cuksfíra há muito tempo. Mas precisaram enforcá-lo porque, depois de um combate, ele se apresentou para fazer um reconhecimento, e uma segunda patrulha, de outro regimento, o encontrou revistando os cadáveres. Acharam com ele uns oito relógios e um monte de anéis. Então o enforcaram junto ao Estado-Maior da brigada.”
“Isso mostra”, observou Švejk com sabedoria, “que todo soldado precisa conquistar sozinho sua posição.”
O telefone tocou. O sargento-contador foi atender, e dava para reconhecer a voz do primeiro-tenente Lukáš, que perguntava o que havia acontecido com as conservas. Depois se ouviram algumas recriminações.
“Realmente não existem, senhor primeiro-tenente”, gritou Vaněk ao telefone. “Onde estariam? Isso é pura fantasia vinda lá de cima, da intendência. Foi completamente inútil mandar aqueles homens para lá. Eu queria telefonar para o senhor. Eu estava na cantina? Quem disse isso? Aquele cozinheiro ocultista da messe dos oficiais? Tomei a liberdade de passar por lá. Sabe, senhor primeiro-tenente, como aquele ocultista chamou o pânico das conservas? ‘Os horrores do não nascido.’ Não, senhor primeiro-tenente, estou completamente sóbrio. O que Švejk está fazendo? Está aqui. Quer que eu o chame? Švejk, ao telefone”, disse o sargento-contador, acrescentando em voz baixa: “E, caso ele pergunte como cheguei aqui, diga que cheguei em ordem.”
Švejk ao telefone: “Švejk, obedientemente comunico, senhor primeiro-tenente.”
“Escute, Švejk, como é essa história das conservas? Está tudo em ordem?”
“Não existem, senhor primeiro-tenente. Nem sinal delas.”
“Gostaria, Švejk, que você se apresentasse a mim todas as manhãs enquanto estivermos no acampamento. Quando partirmos, ficará sempre comigo. O que fez durante a noite?”
“Fiquei ao telefone a noite inteira.”
“Houve alguma novidade?”
“Houve, senhor primeiro-tenente.”
“Švejk, não comece outra vez a bancar o idiota. Alguém comunicou alguma coisa importante de algum lugar?”
“Comunicaram, senhor primeiro-tenente, mas só para as nove horas. Não quis incomodá-lo, senhor primeiro-tenente, isso nunca passou pela minha cabeça.”
“Então, pelo amor do diabo, diga logo o que há de tão importante para as nove horas.”
“Um telefonograma, senhor primeiro-tenente.”
“Não estou entendendo, Švejk.”
“Está anotado aqui, senhor primeiro-tenente: ‘Receba o telefonograma. Quem está ao telefone? Anotou? Leia’, ou alguma coisa parecida.”
“Crucifixo, Švejk, você é uma cruz que eu carrego. Diga o conteúdo, ou vou pular em cima de você e lhe dar uma daquelas. Então, o que é?”
“Outra bešprechunk, senhor primeiro-tenente, hoje de manhã, às nove horas, com o senhor obrst. Eu queria acordá-lo durante a noite, mas depois pensei melhor.”
“E era só o que faltava você se atrever a me tirar da cama por qualquer bobagem, quando há tempo de sobra para isso de manhã. Wieder eine Besprechung, der Teufel soll das alles buserieren! Pendure o fone e chame Vaněk para mim.”
O sargento-contador Vaněk ao telefone: “Rechnungsfeldwebel Vaněk, Herr Oberleutnant.”
“Vaněk, encontre imediatamente outro ordenança de oficial para mim. Aquele canalha do Baloun comeu todo o meu chocolate durante a noite. Amarrá-lo? Não, vamos mandá-lo para os enfermeiros. O sujeito é do tamanho de uma montanha, então poderá carregar os feridos para fora do combate. Vou mandá-lo agora mesmo até você. Resolva isso na secretaria do regimento e volte imediatamente para a companhia. Acha que partiremos logo?”
“Não há pressa nenhuma, senhor primeiro-tenente. Quando íamos partir com a nona companhia de marcha, ficaram nos enrolando durante quatro dias inteiros. Com a oitava foi a mesma coisa. Só com a décima foi melhor. Nós estávamos de prontidão para o serviço de campanha, recebemos a ordem ao meio-dia e partimos à noite, mas depois nos arrastaram pela Hungria inteira sem saber que buraco de qual campo de batalha pretendiam tapar conosco.”
Durante todo o tempo em que o primeiro-tenente Lukáš foi comandante da décima primeira companhia de marcha, encontrou-se num estado chamado sincretismo, isto é, naquela filosofia que procura conciliar contradições conceituais mediante concessões, até chegar à mistura das opiniões.
Por isso respondeu também:
“Sim, pode ser, as coisas são assim mesmo. Então você não acha que partiremos hoje? Às nove horas temos uma bešprechunk com o senhor obrst. A propósito, sabe que é o dienstführender? Estou apenas lembrando. Descubra para mim... Espere, o que mesmo você deveria descobrir para mim?... A lista das graduações, indicando desde quando cada um serve... Depois, os estoques da companhia. Nacionalidade? Sim, sim, isso também... Mas, acima de tudo, mande o novo ordenança de oficial... O que o alferes Pleschner deve fazer hoje com a tropa? Vorbereitung zum Abmarsch. As contas? Passarei para assinar depois da ração militar. Não deixe ninguém ir à cidade. À cantina do acampamento? Depois da ração, por uma hora... Chame Švejk outra vez!... Švejk, você ficará por enquanto ao telefone.”
“Obedientemente comunico, senhor primeiro-tenente, que ainda não tomei café.”
“Então traga o café e fique aí, na secretaria, junto ao telefone, até eu chamá-lo. Sabe o que é um ordenança?”
“É uma coisa que corre, senhor primeiro-tenente.”
“Então fique no lugar quando eu chamar. Diga mais uma vez a Vaněk que encontre algum ordenança de oficial para mim. Švejk, alô, onde está?”
“Aqui, senhor primeiro-tenente. Acabaram de trazer o café.”
“Švejk, alô!”
“Estou ouvindo, senhor primeiro-tenente. O café está completamente frio.”
“Você já sabe muito bem o que é um ordenança de oficial, Švejk. Examine o sujeito e depois me informe que tipo de homem ele é. Pendure o fone.”
Vaněk, sorvendo o café preto ao qual acrescentara rum de uma garrafa com o rótulo “Tinte”, por medida de extrema cautela, olhou para Švejk e disse:
“Esse nosso primeiro-tenente grita tanto ao telefone que entendi cada palavra. Você deve ter muita intimidade com o senhor primeiro-tenente, Švejk.”
“Somos unha e carne”, respondeu Švejk. “Uma mão lava a outra. Já passamos por muita coisa juntos. Quantas vezes tentaram nos separar, mas sempre tornamos a nos encontrar. Ele sempre confia tudo a mim, e às vezes até eu fico admirado. O senhor também deve ter ouvido agora mesmo que eu devia lembrá-lo mais uma vez de encontrar para ele um novo ordenança de oficial, e que eu preciso examinar o sujeito e dar um parecer. O senhor primeiro-tenente não fica satisfeito com qualquer ordenança.”
Quando o coronel Schröder convocou para uma conferência todos os oficiais do batalhão de marcha, tornou a fazê-lo com enorme carinho, para poder desabafar. Além disso, era necessário tomar alguma decisão no caso do voluntário de um ano Marek, que se recusara a limpar as latrinas e fora enviado pelo coronel Schröder ao tribunal divisionário por insubordinação.
Do tribunal divisionário, Marek acabara de chegar na noite anterior à hauptvacha, onde era mantido sob guarda. Junto com ele fora entregue à secretaria do regimento um ofício do tribunal divisionário, imensamente confuso, no qual se apontava que, naquele caso, não se tratava de insubordinação, visto que os voluntários de um ano não tinham a obrigação de limpar latrinas, embora se tratasse, ainda assim, de superordinationsverletzung, delito que poderia ser perdoado mediante boa conduta em campanha. Por esses motivos, o acusado, voluntário de um ano Marek, era devolvido ao seu regimento, ficando a investigação da infração disciplinar suspensa até o fim da guerra e devendo ser retomada quando o voluntário de um ano Marek cometesse sua próxima transgressão.
Havia ainda um segundo caso. Junto com o voluntário de um ano Marek, o falso sargento Teveles fora enviado pelo tribunal divisionário à hauptvacha. Ele aparecera recentemente no regimento, para onde fora mandado pelo hospital de Zagreb. Trazia a grande medalha de prata, as insígnias de voluntário de um ano e três estrelinhas. Contava façanhas heroicas da sexta companhia de marcha na Sérvia e dizia ter sido o único sobrevivente. A investigação constatou que, no começo da guerra, realmente partira com a sexta companhia de marcha um certo Teveles, que, contudo, não possuía os direitos de voluntário de um ano. Solicitou-se um relatório à brigada à qual a sexta companhia de marcha estivera destacada quando, em 2 de dezembro de 1914, fugiram de Belgrado, e verificou-se que não havia nenhum Teveles na lista dos propostos ou condecorados com medalhas de prata. Entretanto, não foi possível descobrir de maneira alguma se o infante Teveles fora promovido a sargento durante a campanha de Belgrado, pois toda a sexta companhia de marcha desaparecera, junto com seus oficiais, perto da Igreja de São Sava, em Belgrado. Diante do tribunal divisionário, Teveles alegou em sua defesa que de fato lhe haviam prometido a grande medalha de prata e que, por isso, a comprara de um bósnio no hospital. Quanto às divisas de voluntário de um ano, afirmava tê-las costurado durante uma bebedeira e continuado a usá-las porque permanecera bêbado o tempo todo, já que seu organismo estava debilitado pela disenteria.
Assim, quando começou a bešprechunk, antes de tratar desses dois casos, o coronel Schröder informou que era necessário reunirem-se com maior frequência antes da partida, que não tardaria. Tinham lhe comunicado da brigada que estavam à espera de ordens da divisão. A tropa deveria permanecer pronta, e os kompaniekomandanten deveriam cuidar atentamente para que não faltasse ninguém. Em seguida, repetiu mais uma vez tudo o que expusera no dia anterior. Apresentou novamente um panorama dos acontecimentos da guerra e declarou que nada deveria reprimir no Exército o espírito combativo e a iniciativa bélica.
Diante dele havia um mapa do campo de batalha preso à mesa, com bandeirinhas em alfinetes, mas as bandeirinhas estavam todas trocadas e as frentes, deslocadas. Os alfinetes arrancados, com as bandeirinhas, estavam espalhados debaixo da mesa.
Durante a noite, o gato criado pelos escriturários da secretaria do regimento deixara o campo de batalha num estado medonho. Depois de defecar sobre o teatro de guerra austro-húngaro, quis enterrar a merda, arrancou as bandeirinhas, espalhou o excremento por todas as posições, mijou nas frentes e nas cabeças de ponte e emporcalhou todos os corpos de exército.
O coronel Schröder era extremamente míope.
Os oficiais do batalhão de marcha observavam com interesse o dedo do coronel Schröder aproximar-se dos montinhos.
“Daqui, senhores, até Sokal, no Bug”, disse profeticamente o coronel Schröder, deslizando de memória o indicador na direção dos Cárpatos, até enterrá-lo num dos montinhos com os quais o gato se preocupara em dar relevo ao mapa do campo de batalha.
“Was ist das, meine Herren?”, perguntou admirado, quando alguma coisa grudou em seu dedo.
“Wahrscheinlich Katzendreck, Herr Oberst”, respondeu por todos, com extrema polidez, o capitão Ságner.
O coronel Schröder irrompeu na sala ao lado, de onde se ouviram terríveis estrondos e pragas, acompanhados da ameaça monstruosa de que faria todos eles lamberem a sujeira deixada pelo gato.
O interrogatório foi breve. Descobriu-se que o gato fora trazido para a secretaria quinze dias antes pelo escriturário mais jovem, Zwiebelfisch. Depois dessa descoberta, Zwiebelfisch juntou seus cinco trapos, e o escriturário mais velho o conduziu à hauptvacha, onde ficaria preso até nova ordem do senhor coronel.
Com isso, na realidade, encerrou-se toda a conferência. Quando o coronel Schröder voltou para junto do corpo de oficiais, com o rosto inteiramente vermelho, esqueceu que ainda precisava deliberar sobre o destino do voluntário de um ano Marek e do falso sargento Teveles.
Disse apenas, muito brevemente:
“Peço aos senhores oficiais que permaneçam prontos e aguardem minhas próximas ordens e instruções.”
Assim, tanto o voluntário de um ano quanto Teveles continuaram sob guarda na hauptvacha e, quando Zwiebelfisch se juntou a eles mais tarde, puderam jogar mariáš e, depois da partida, importunar os guardas, pedindo que lhes catassem as pulgas dos colchões de palha.
Depois ainda enfiaram ali o anspeçada Peroutka, da décima terceira companhia de marcha, que desaparecera no dia anterior, quando se espalhou pelo acampamento o boato de que partiriam para as posições, e fora encontrado de manhã por uma patrulha na Rosa Branca, em Bruck. Alegava que, antes da partida, quisera visitar a conhecida estufa do conde Harrach, perto de Bruck, e que se perdera no caminho de volta, só chegando de manhã, completamente exausto, à Rosa Branca. Na verdade, dormira com Růženka, da Rosa Branca.
A situação continuava sem esclarecimento. Partiriam ou não partiriam? Švejk, junto ao telefone na secretaria da décima primeira companhia de marcha, ouviu as opiniões mais diversas, pessimistas e otimistas. A décima segunda companhia de marcha telefonou dizendo que alguém da secretaria teria ouvido que esperariam até os exercícios de tiro contra alvos móveis e que só partiriam depois das feldmäßigschießübungách. Essa opinião otimista não era compartilhada pela décima terceira companhia de marcha, que telefonou dizendo que o cabo Havlík acabara de voltar da cidade e ouvira de um funcionário ferroviário que os vagões já estavam na estação.
Vaněk arrancou o fone da mão de Švejk e gritou, exaltado, que os ferroviários não sabiam porra nenhuma, pois ele acabara de estar na secretaria do regimento.
Švejk permanecia junto ao telefone com verdadeiro carinho e, a todas as perguntas sobre as novidades, respondia que ainda não se sabia nada ao certo.
Respondeu desse modo também à pergunta do primeiro-tenente Lukáš:
“O que há de novo por aí?”
“Ainda não se sabe nada ao certo, senhor primeiro-tenente”, respondeu Švejk, mecanicamente.
“Seu imbecil, pendure o fone.”
Depois veio uma série de telefonogramas que Švejk recebeu após prolongados mal-entendidos. Primeiro, aquele que não pudera ser ditado durante a noite, quando ele não pendurara o fone e adormecera, referente aos vacinados e não vacinados.
Em seguida, outro telefonograma atrasado sobre as conservas, assunto que já fora esclarecido na noite anterior.
Depois, um telefonograma dirigido a todos os batalhões, companhias e unidades do regimento:
Cópia do telefonograma da brigada nº 75692
Ordem da brigada nº 172
Nos demonstrativos relativos à administração das cozinhas de campanha,
deverá ser observada a seguinte ordem na enumeração dos produtos
consumidos: 1. carne, 2. conservas, 3. legumes
frescos, 4. legumes secos, 5. arroz, 6. macarrão,
cevada e sêmola, 8. batatas,
em substituição à ordem anterior:
legumes secos, 5. legumes frescos.
Quando Švejk leu isso para o sargento-contador, Vaněk declarou solenemente que telefonogramas daquele tipo deviam ser jogados na latrina:
“Algum idiota do Estado-Maior do Exército inventou isso, e agora a coisa vai para todas as divisões, brigadas e regimentos.”
Depois, Švejk recebeu ainda outro telefonograma, ditado com tamanha rapidez que só conseguiu registrar no bloco aquilo que parecia uma cifra:
; In der Folge genauer erlaubt gewesen oder das
; selbst einem hingegen immerhin eingeholet
; werden.
“Tudo isso é inútil”, disse Vaněk, quando Švejk manifestou um espanto desmedido diante do que escrevera e leu o texto em voz alta três vezes seguidas. “Só bobagens. Embora o diabo saiba, talvez esteja cifrado, mas aqui na companhia não temos equipamento para isso. Também pode jogar fora.”
“Também acho”, disse Švejk. “Se eu comunicasse ao senhor primeiro-tenente que ele tem de ‘in der Folge genauer erlaubt gewesen oder das selbst einem hingegen immerhin eingeholet werden’, ainda seria capaz de ficar ofendido. Tem gente que é de uma suscetibilidade medonha”, prosseguiu Švejk, mergulhando novamente nas lembranças. “Uma vez fui de Vysočany a Praga num bonde elétrico e, em Libeň, entrou no nosso carro um tal senhor Novotný. Assim que o reconheci, fui até ele na plataforma e comecei a conversar, dizendo que nós dois éramos de Dražov. Mas ele começou a gritar comigo, mandando que eu não o incomodasse, porque não me conhecia. Comecei então a explicar que ele só precisava se lembrar de que, quando eu era menino, costumava ir à casa dele com minha mãe, que se chamava Antonie, e que meu pai se chamava Prokop e era administrador rural. Nem assim ele quis saber que nos conhecíamos. Então lhe dei mais alguns detalhes: em Dražov havia dois Novotný, Tonda e Josef; ele era Josef; tinham me escrito de Dražov contando que ele dera um tiro na própria mulher quando ela o repreendeu por beber. Nessa hora ele levantou o braço para me bater. Eu me esquivei, e ele quebrou o vidro da plataforma dianteira, aquele vidro grande que fica na frente do condutor. Então nos fizeram descer, nos levaram à delegacia e lá se descobriu que ele estava tão suscetível porque não se chamava Josef Novotný coisa nenhuma, mas Eduard Doubrava, era de Montgomery, na América, e estava aqui visitando os parentes dos quais descendia sua família.”
O telefone interrompeu sua narrativa, e uma voz rouca da unidade de metralhadoras perguntou novamente se partiriam. Disseram que haveria uma bešprechunk naquela manhã com o senhor obrst.
Na porta apareceu o cadete Biegler, completamente pálido, o maior imbecil da companhia, pois, na escola de voluntários de um ano, esforçara-se para se destacar pelos conhecimentos. Fez um gesto para que Vaněk o acompanhasse ao corredor, onde manteve com ele uma longa conversa.
Quando Vaněk voltou, sorria com desprezo.
“É um tremendo boi”, disse a Švejk. “Nesta nossa companhia de marcha temos cada exemplar... Ele também esteve na bešprechunk e, quando todos estavam se dispersando, o senhor primeiro-tenente ordenou que todos os cukskomandanti fizessem uma inspeção dos fuzis e fossem rigorosos. Agora ele vem me perguntar se deve mandar amarrar Žlábek, porque o sujeito limpou o fuzil com querosene.”
Vaněk se exaltou.
“Vem me perguntar uma imbecilidade dessas quando sabe que estamos partindo para a campanha. O senhor primeiro-tenente pensou muito bem ontem e desistiu de amarrar o ordenança de oficial dele. Mas eu também disse àquele pirralho que pensasse muito bem antes de transformar a tropa em animais.”
“Já que está falando no ordenança de oficial”, disse Švejk, “o senhor não sabe se conseguiu encontrar algum para o senhor primeiro-tenente?”
“Tenha juízo”, respondeu Vaněk. “Há tempo de sobra para tudo. Além disso, acho que o senhor primeiro-tenente vai acabar se acostumando com Baloun. De vez em quando ele ainda comerá alguma coisa do tenente, mas depois vai parar, quando estivermos em campanha. Lá, muitas vezes, nenhum dos dois terá o que comer. Quando eu digo que Baloun fica, não há nada a fazer. Isso é problema meu, e o senhor primeiro-tenente não tem nada que se meter. Nada de pressa.”
Vaněk tornou a se deitar na cama e disse:
“Švejk, conte alguma anedota da vida militar.”
“Isso dá para fazer”, respondeu Švejk, “mas tenho medo de que alguém torne a tocar para nós.”
“Então desligue isso, Švejk, desparafuse o fio ou tire o fone do gancho.”
“Está bem”, disse Švejk, tirando o fone do gancho, “vou contar uma coisa que combina com esta situação, só que naquela época, em vez de guerra de verdade, havia apenas manobras, e também reinava uma confusão dessas de hoje, porque ninguém sabia quando sairíamos do quartel. Servia comigo um tal de Šic, de Poříčí, boa pessoa, mas religioso e medroso. Ele imaginava que as manobras eram uma coisa terrível, que nelas os homens caíam de sede e os enfermeiros militares iam recolhendo a turma como fruta podre durante a marcha. Por isso bebia de reserva e, quando saímos do quartel para as manobras e chegamos a Mníšek, ele disse: ‘Rapazes, eu não vou aguentar, só o próprio Deus pode me salvar.’ Depois chegamos a Hořovice, e ali tivemos dois dias de descanso, porque tinha ocorrido algum engano e avançáramos tão depressa que, junto com os outros regimentos que marchavam pelos nossos flancos, acabaríamos capturando todo o Estado-Maior inimigo, o que teria sido uma vergonha, porque o nosso corpo de exército tinha de se foder e o inimigo vencer, já que do lado do inimigo havia um arquiduquezinho exausto. Então esse Šic fez o seguinte: enquanto estávamos acampados, levantou-se e foi comprar alguma coisa numa aldeia depois de Hořovice, e voltou ao acampamento perto do meio-dia. Fazia calor, e ele também estava devidamente empapuçado, quando viu à beira da estrada um poste, no poste uma caixinha, e dentro dela, atrás de um vidro, uma estatueta bem pequena de são João Nepomuceno. Rezou diante de são João e disse: ‘Está fazendo um calor danado, não é? Se ao menos você tivesse alguma coisa para beber. Fica aqui debaixo do sol, deve estar suando sem parar.’ Então sacudiu o cantil, bebeu e disse: ‘Também deixei um gole para você, santo João Nepomuceno.’ Mas assustou-se, virou tudo de uma vez, e não sobrou nada para são João. ‘Jesus, Maria!’, disse. ‘Santo João Nepomuceno, você precisa me perdoar. Vou compensar isso, vou levar você comigo para o acampamento e dar de beber tão magnificamente que você não vai conseguir ficar de pé.’ E o bom Šic, com pena de são João Nepomuceno, quebrou o vidro, tirou a estatueta do santo, enfiou-a por baixo da blusa e levou-a para o acampamento. Depois são João Nepomuceno dormia com ele na palha, ele o carregava nas marchas dentro da mochila e tinha uma sorte enorme nas cartas. Onde quer que acampássemos, ele ganhava, até chegarmos à região de Prácheň, onde ficamos em Drahenice e ele perdeu tudo, tudinho. Quando formamos pela manhã para partir, são João Nepomuceno estava pendurado numa pereira à beira da estrada, enforcado. Bem, essa é a anedota, e agora vou desligar de novo.”
E o telefone voltou a transportar os estremecimentos de uma nova vida nervosa, depois de rompida a antiga harmonia da tranquilidade no acampamento.
Naquele momento, o primeiro-tenente Lukáš estudava em seu aposento as cifras que acabara de receber do Estado-Maior do regimento, junto com as instruções para decifrá-las, e, ao mesmo tempo, uma ordem secreta cifrada sobre o itinerário que o batalhão de marcha seguiria até a fronteira da Galícia, em sua primeira etapa.
7217 - 1238 - 457 - 2121 - 35 = Mošon
8922 - 375 - 7282 = Ráb
4432 - 1238 - 7217 - 35 - 8922 - 35 = Komarn
7282 - 9299 - 310 - 375 - 7881 - 298 - 475 7979 = Budapeste.
Ao decifrar essas cifras, o primeiro-tenente Lukáš suspirou:
“Der Teufel soll das buserieren.”
Edição integral em português brasileiro de As Aventuras do Bom Soldado Švejk, traduzida diretamente do original tcheco de domínio público, preservando a estrutura dos quatro livros e suas 29 unidades.
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