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As Aventuras do Bom Soldado Švejk

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As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Capítulo 24 · As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Livro III: A gloriosa surra — Em Budapeste

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Livro III: A gloriosa surra

Em Budapeste

Na estação militar de Budapeste, Matušič levou ao capitão Ságner um telegrama do comando, enviado pelo infeliz comandante da brigada que fora conduzido a um sanatório. O conteúdo era o mesmo, não cifrado, do telegrama recebido na última estação:

“Preparar rapidamente o rancho e marchar para Sokal.”

Acrescentava-se ainda:

“Numerar o trem de bagagens junto ao grupo oriental. O serviço de informações fica abolido. O 13º batalhão de marcha construirá uma ponte sobre o rio Bug. Mais detalhes nos jornais.”

O capitão Ságner dirigiu-se imediatamente ao comando da estação. Foi recebido por um oficial baixo e gordo, com um sorriso amistoso.

“Que espetáculo deu esse general de brigada de vocês”, disse, rindo a bandeiras despregadas. “Mas tivemos de entregar-lhes essa idiotice, porque ainda não chegou da divisão nenhuma ordem determinando que os telegramas dele não sejam entregues aos destinatários. Ontem passou por aqui o 14º batalhão de marcha do 75º regimento, e o comandante do batalhão recebeu um telegrama ordenando que fossem entregues seis coroas a cada homem, como recompensa especial por Przemyśl, e, ao mesmo tempo, uma ordem para que, dessas seis coroas, cada homem depositasse aqui na secretaria duas coroas para o empréstimo de guerra... Segundo informações garantidas, o general de brigada de vocês está com paralisia.”

“Senhor major”, perguntou o capitão Ságner ao comandante da estação militar, “de acordo com as ordens do regimento e com o itinerário de marcha, vamos para Gödöllő. Os homens devem receber aqui quinze decagramas de queijo emmental. Na última parada, deveriam ter recebido quinze decagramas de salame húngaro. Mas não receberam nada.”

“Provavelmente aqui também não receberão”, respondeu o major, ainda sorrindo de maneira agradável. “Não sei de nenhuma ordem semelhante para os regimentos da Boêmia. Além disso, isso não é da minha competência. Dirija-se ao comando de abastecimento.”

“Quando partiremos, senhor major?”

“Diante de vocês está parado um trem de artilharia pesada com destino à Galícia. Nós o liberaremos dentro de uma hora, senhor capitão. Na terceira linha está um trem-hospital. Partirá vinte e cinco minutos depois da artilharia. Na décima segunda linha temos um trem de munições. Partirá dez minutos depois do trem-hospital, e, vinte minutos depois dele, seguirá o trem de vocês. Isto é, caso não haja alguma alteração”, acrescentou, novamente sorrindo, de modo que se tornou completamente antipático ao capitão Ságner.

“Permita-me, senhor major”, perguntou Ságner, “pode explicar-me por que não sabe de nenhuma ordem semelhante referente à distribuição de quinze decagramas de queijo emmental aos regimentos da Boêmia?”

“Isso é reservado”, respondeu ao capitão Ságner, ainda sorrindo, o comandante da estação militar de Budapeste.

“Agora me meti numa boa”, pensou o capitão Ságner, saindo do prédio do comando, “por que diabos fui dizer ao primeiro-tenente Lukáš que reunisse todos os comandantes e fosse com eles e com a tropa ao depósito de abastecimento da 87ª seção buscar quinze decagramas de queijo emmental por pessoa?”

Antes que o comandante da 11ª companhia, primeiro-tenente Lukáš, conforme a ordem do capitão Ságner, expedisse as ordens relativas à marcha dos homens do batalhão até o depósito para buscar quinze decagramas de queijo emmental por cabeça, apareceram diante dele Švejk e o infeliz Baloun. Baloun tremia inteiro.

“Respeitosamente informo, senhor primeiro-tenente”, disse Švejk com sua habitual flexibilidade, “que o assunto de que se trata é de imensa importância. Eu pediria, senhor primeiro-tenente, que pudéssemos resolver toda essa questão ali ao lado, como dizia um camarada meu, o Špatina, de Zhoř, quando foi testemunha de casamento e, de repente, sentiu vontade dentro da igreja…”

“Então, o que foi, Švejk?”, interrompeu-o o primeiro-tenente Lukáš, que já sentira tanta falta de Švejk quanto Švejk sentira do primeiro-tenente Lukáš. “Vamos um pouco mais para o lado.”

Baloun os seguiu por trás, sem parar de tremer. Aquele gigante perdera completamente o equilíbrio mental e agitava os braços num desespero terrível, sem esperança.

“Então, o que foi, Švejk?”, perguntou o primeiro-tenente Lukáš quando se afastaram.

“Respeitosamente informo, senhor primeiro-tenente”, disse Švejk, “que é sempre melhor confessar uma coisa antes que ela estoure. O senhor deu uma ordem bem clara, senhor primeiro-tenente, para que, quando chegássemos a Budapeste, Baloun trouxesse sua terrina de fígado e os pãezinhos. Você recebeu essa ordem ou não?”, perguntou Švejk, voltando-se para Baloun.

Baloun começou a agitar os braços ainda mais, como se quisesse defender-se de um inimigo que o atacava.

“Essa ordem”, disse Švejk, “infelizmente não pôde ser cumprida, senhor primeiro-tenente. Eu devorei sua terrina de fígado… Eu a devorei”, disse Švejk, cutucando o apavorado Baloun, “porque achei que a terrina de fígado podia estragar. Li várias vezes nos jornais que uma família inteira se envenenou com terrina de fígado. Uma vez em Zderaz, outra em Beroun, outra em Tábor, outra em Mladá Boleslav, outra em Příbram. Todos morreram desse envenenamento. Terrina de fígado é a pior desgraça que existe…”

Baloun, tremendo inteiro, afastou-se para um lado, enfiou um dedo na garganta e vomitou em intervalos curtos.

“O que está acontecendo com você, Baloun?”

“Eu-eu-vô-ô-ô, é-é, senhor pri… é-é pri-mei-ro-te-nen-te, é-é”, gritou o infeliz Baloun, aproveitando os intervalos. “Eu-eu devorei-é-é, devo-rei-ei-ei, é-é, eu-é-é, sozinho-é-é, i-é…”

Da boca do infeliz Baloun saíam até pedaços do invólucro de papel-alumínio da terrina.

“Como o senhor vê, senhor primeiro-tenente”, disse Švejk, sem perder nada de seu equilíbrio mental, “toda terrina devorada acaba vindo à tona como óleo sobre a água. Eu queria assumir a culpa sozinho, e esse idiota vai e se entrega desse jeito. Ele é um homem muito bom, mas devora tudo o que lhe confiam. Também conheci um sujeito assim. Era servente num banco. Podiam confiar milhares a ele. Uma vez foi buscar dinheiro em outro banco e lhe entregaram mil coroas a mais, e ele devolveu na mesma hora. Mas, se o mandassem comprar quinze kreuzers de copa de porco, ele comia metade no caminho. Era tão guloso que, quando os funcionários o mandavam buscar morcelas, ele as abria no caminho com um canivete e tapava os buracos com esparadrapo, que, em cinco morcelas, custava mais do que uma morcela inteira.”

O primeiro-tenente Lukáš suspirou e foi embora.

“O senhor deseja dar alguma ordem, senhor primeiro-tenente?”, gritou Švejk atrás dele, enquanto o infeliz Baloun continuava enfiando um dedo na garganta.

O primeiro-tenente Lukáš fez um gesto com a mão e seguiu para o depósito de abastecimento, enquanto lhe ocorria a estranha ideia de que, se os soldados devoravam as terrinas de fígado de seus oficiais, a Áustria não podia vencer a guerra.

Enquanto isso, Švejk conduzia Baloun para o outro lado da linha férrea militar. Consolava-o dizendo que os dois dariam uma olhada na cidade e trariam de lá para o senhor primeiro-tenente umas linguiças de Debrecen, especialidade de charcutaria cuja ideia, para Švejk, naturalmente se confundia com a da capital do Reino da Hungria.

“O trem pode partir sem a gente”, lamentou Baloun, que, além da gula, possuía uma avareza descomunal.

“Quando se vai para a frente de batalha”, declarou Švejk, “nunca se perde nada, porque todo trem que vai para a frente pensa muito bem antes de levar até a estação terminal apenas meio trem militar de transporte. De resto, eu entendo muito bem você, Baloun. Você está com o bolso costurado.”

Mas não foram a lugar nenhum, porque soou o sinal para embarcar no trem. Os homens das várias companhias voltavam do depósito de abastecimento para seus vagões novamente de mãos vazias. Em vez dos quinze decagramas de queijo emmental que deveriam ser distribuídos ali, cada um recebeu uma caixinha de fósforos e um cartão-postal editado pelo Comitê dos Túmulos de Guerra da Áustria, Viena XIX, 4, Canisiusgasse. Em vez de quinze decagramas de queijo emmental, cada um segurava nas mãos o cemitério militar da Galícia Ocidental em Sedlisko, com um monumento aos infelizes soldados da defesa territorial, feito por um escultor enrolão, o voluntário de um ano sargento Scholz.

Junto ao vagão do Estado-Maior também reinava uma agitação extraordinária. Os oficiais do batalhão de marcha haviam se reunido em torno do capitão Ságner, que lhes explicava alguma coisa com grande excitação. Acabara de voltar do comando da estação e trazia na mão um autêntico telegrama extremamente confidencial do Estado-Maior da brigada, com um conteúdo de extensão interminável, cheio de instruções e diretrizes sobre como proceder na nova situação em que a Áustria se encontrava desde 23 de maio de 1915.

A brigada telegrafava que a Itália havia declarado guerra à Áustria-Hungria.

Ainda em Bruck an der Leitha, no cassino dos oficiais, durante almoços e jantares, falava-se muitas vezes, de boca cheia, da estranha conduta e do comportamento da Itália, mas, no conjunto, ninguém esperava que se cumprissem as palavras proféticas daquele idiota do cadete Biegler, que certa vez, durante o jantar, afastara o prato de macarrão e declarara:

“Só volto a comer isso diante dos portões de Verona.”

O capitão Ságner, depois de estudar as instruções que acabara de receber da brigada, mandou tocar o alarme.

Quando todos os homens do batalhão de marcha se reuniram, foram dispostos em quadrado, e o capitão Ságner leu para a tropa, com uma voz extraordinariamente solene, a ordem da brigada que lhe fora transmitida por telégrafo:

“Por uma traição sem precedentes e movido pela cobiça, o rei da Itália esqueceu os compromissos fraternos aos quais estava obrigado como aliado de nossa monarquia. Desde o início da guerra, na qual deveria ter-se colocado ao lado de nossas valentes tropas, o traiçoeiro rei da Itália representou o papel de um assassino disfarçado, comportando-se de maneira dúbia e mantendo negociações secretas com nossos inimigos, traição essa que culminou, na noite de 22 para 23 de maio, com a declaração de guerra à nossa monarquia. Nosso comandante supremo está convencido de que nossas tropas, sempre valentes e gloriosas, responderão à vil traição do inimigo infiel com um golpe tal que o traidor compreenderá como, ao iniciar a guerra de maneira vergonhosa e traiçoeira, destruiu a si mesmo. Confiamos firmemente que, com a ajuda de Deus, logo chegará o dia em que as planícies italianas voltarão a contemplar os vencedores de Santa Lucia, Vicenza, Novara e Custoza. Queremos vencer, temos de vencer e certamente venceremos!”

Depois veio o habitual “Dreimal hoch!”, e a tropa voltou a embarcar no trem, um tanto abatida. Em vez de quinze decagramas de queijo emmental, tinham agora nas costas uma guerra com a Itália.

No vagão onde estavam Švejk, o sargento-contador Vaněk, o telefonista Chodounský, Baloun e o cozinheiro Jurajda, desenvolveu-se uma conversa interessante sobre a entrada da Itália na guerra.

“Na rua Táborská, em Praga, também houve um caso desses”, começou Švejk. “Lá havia um comerciante chamado Hořejší. Um pouco adiante, do outro lado, tinha sua loja o comerciante Pošmourný, e entre os dois ficava o merceeiro Havlasa. Então esse comerciante Hořejší teve certa vez a ideia de se aliar ao merceeiro Havlasa contra o comerciante Pošmourný, e começou a negociar com ele, dizendo que os dois poderiam unir as lojas sob uma única firma, ‘Hořejší e Havlasa’. Mas o merceeiro Havlasa foi correndo ao comerciante Pošmourný e disse que Hořejší lhe oferecia mil e duzentas coroas pela mercearia e queria que ele entrasse em sociedade. Mas que, se ele, Pošmourný, lhe desse mil e oitocentas, preferia entrar em sociedade com ele contra Hořejší. Então chegaram a um acordo, e por algum tempo o Havlasa continuou rondando o Hořejší, a quem havia traído, fingindo ser o melhor amigo dele. Quando falavam sobre quando afinal juntariam tudo, ele dizia: ‘Ah, vai ser logo. Só estou esperando os fregueses voltarem das casas de veraneio.’ E, quando os fregueses voltaram, realmente já estava tudo pronto, do jeito que ele vivia prometendo ao Hořejší que se faria a união. Uma manhã, quando Hořejší foi abrir sua loja, viu um enorme letreiro sobre a loja do concorrente, uma firma gigantesca: ‘Pošmourný e Havlasa’.”

“Lá na minha terra”, observou o idiota do Baloun, “também houve uma vez um caso desses. Eu queria comprar uma novilha na aldeia vizinha, já tinha acertado tudo, e o açougueiro de Votice a tomou de mim bem debaixo do nariz.”

“Agora que temos outra guerra de novo”, continuou Švejk, “que temos um inimigo a mais e outra frente nova, vão ter de economizar munição. ‘Quanto mais filhos há numa família, mais varas se gastam’, dizia o avô Chovanec, de Motol, que surrava por preço fixo os filhos dos pais da vizinhança.”

“Meu único medo”, disse Baloun, tremendo inteiro, “é que, por causa dessa Itália, diminuam as porções.”

O sargento-contador Vaněk pôs-se a pensar e disse com gravidade:

“Tudo é possível, porque agora essa nossa vitória vai demorar um pouco mais.”

“Agora precisaríamos de um novo Radetzky”, observou Švejk. “Ele já conhecia bem a região de lá, sabia onde ficava o ponto fraco dos italianos, o que devia ser atacado e de que lado. Não é tão fácil simplesmente entrar num lugar. Isso qualquer um consegue. Mas sair de lá, essa é a verdadeira arte militar. Quando um homem entra em algum lugar, precisa saber tudo o que acontece em volta dele, para não se ver de repente metido numa enrascada daquelas que chamam de catástrofe. Certa vez, no nosso prédio, ainda no apartamento antigo, pegaram um ladrão no sótão, e o sujeito não percebeu, quando entrou ali, que os pedreiros estavam justamente consertando o poço de luz. Então ele se desvencilhou deles, derrubou a zeladora e desceu pelo andaime até o poço de luz, de onde não conseguiu mais sair. Mas nosso paizinho Radetzky conhecia todos os caminhos, ninguém conseguia pegá-lo em lugar nenhum. Num livro sobre esse general estava tudo descrito, como ele fugiu de Santa Lucia e como os italianos também fugiram, e só no dia seguinte percebeu que na verdade havia vencido, quando não encontrou os italianos por lá nem os viu com a luneta. Então voltou e ocupou Santa Lucia abandonada. Desde esse dia foi nomeado marechal.”

“A Itália é um belo país”, observou o cozinheiro Jurajda. “Eu estive uma vez em Veneza e sei que o italiano chama todo mundo de porco. Quando se irrita, todo mundo para ele é porco maladetto. Até o papa é porco para ele, e também ‘madonna mia e porco’, ‘papa e porco’.”

O sargento-contador Vaněk, ao contrário, falou da Itália com grande simpatia. Em sua drogaria em Kralupy, tinha uma fábrica de suco de limão, que produzia com limões podres, e sempre comprava da Itália os limões mais baratos e mais apodrecidos. Agora chegaria ao fim o transporte de limões da Itália para Kralupy. Não havia dúvida de que a guerra com a Itália traria diversas surpresas, porque a Áustria iria querer vingar-se.

“É fácil falar”, sorriu Švejk, “‘vingar-se’. Alguém pensa que vai se vingar, e no fim quem paga é a pessoa que ele escolheu como instrumento de vingança. Quando eu morava, anos atrás, em Vinohrady, havia no térreo um zelador, e estava hospedado na casa dele um funcionáriozinho de um banco. Esse sujeito frequentava uma taberna na rua Krameriova e certa vez brigou lá com um cavalheiro que tinha em Vinohrady uma espécie de instituto de análise de urina. Esse cavalheiro não pensava em outra coisa, não falava de outra coisa e andava carregando frasquinhos de urina, enfiando-os debaixo do nariz de todo mundo, para que a pessoa também urinasse e mandasse examinar a urina, porque desse exame dependia a felicidade do homem e da família, e além disso era barato, custava seis coroas. Todos os que frequentavam a taberna, inclusive o dono e a dona, mandaram analisar a urina. Só o funcionáriozinho ainda resistia, embora o cavalheiro o seguisse até o mictório sempre que ele ia lá e lhe dissesse, preocupado: ‘Não sei não, senhor Skorkovský, essa sua urina não me agrada. Urine num frasquinho antes que seja tarde demais!’ Por fim conseguiu convencê-lo. Custou seis coroas ao funcionáriozinho, e o cavalheiro caprichou no resultado do exame, como já havia feito com todos os outros da taberna, sem excluir o próprio dono, cujo negócio ele estava arruinando, porque sempre acompanhava o exame dizendo que era um caso muito sério, que ninguém podia beber nada além de água, que era proibido fumar, casar-se e que a pessoa devia comer somente legumes. Então o funcionáriozinho ficou com um ódio terrível dele, como todos os outros, e escolheu o zelador como instrumento de vingança, porque sabia que o zelador era um bruto. Assim, certa vez, disse ao cavalheiro que fazia as análises de urina que o zelador não vinha se sentindo bem havia algum tempo e que pedia a ele que fosse no dia seguinte, às sete da manhã, buscar a urina para examiná-la. E ele foi. O zelador ainda estava dormindo quando o cavalheiro o acordou e lhe disse amistosamente: ‘Meus respeitos, senhor Málek, desejo-lhe bom-dia. Aqui está o frasquinho, faça o favor de urinar nele e eu receberei seis coroas.’ Mas depois foi um castigo de Deus. O zelador pulou da cama de ceroulas, agarrou o cavalheiro pelo pescoço e o arremessou contra o armário com tanta força que o enfiou lá dentro! Quando o tirou do armário, pegou um chicote de couro e saiu perseguindo-o, ainda de ceroulas, pela rua Čelakovský. O cavalheiro berrava como cachorro quando você pisa no rabo dele, e, na avenida Havlíčkova, pulou num bonde elétrico. Um guarda agarrou o zelador, os dois entraram em luta, e, como o zelador estava de ceroulas e tudo ficava saindo para fora, jogaram-no no camburão por causa daquele escândalo e o levaram para a polícia. E ele ainda berrava do camburão como um touro: ‘Seus canalhas, eu vou lhes mostrar o que é analisar a minha urina!’ Ficou seis meses preso por violência pública e desacato à autoridade. Depois, após a leitura da sentença, ainda cometeu ultraje à casa imperial. Talvez esteja preso até hoje. Por isso digo que, quando alguém quer se vingar, quem paga é uma pessoa inocente.”

Enquanto isso, Baloun pensava intensamente em alguma coisa, até que por fim perguntou a Vaněk, com medo:

“Por favor, senhor rechnungsfeldvébl, então o senhor acha que, por causa dessa guerra com a Itália, vamos receber uma ração militar menor?”

“Isso é evidente”, respondeu Vaněk.

“Jesus, Maria!”, gritou Baloun, baixou a cabeça sobre as mãos e ficou sentado em silêncio num canto.

Assim terminou definitivamente, naquele vagão, o debate sobre a Itália.

No vagão do Estado-Maior, a conversa sobre as novas condições de guerra criadas pela entrada da Itália no conflito teria sido, sem dúvida, extremamente insossa, já que ali não se encontrava mais o célebre teórico militar cadete Biegler, se de algum modo o tenente Dub, da terceira companhia, não o tivesse substituído.

Na vida civil, o tenente Dub era professor de tcheco e já naquela época manifestava uma inclinação extraordinária para expressar sua lealdade em todo lugar onde isso fosse possível. Nas redações, apresentava aos alunos temas sobre a história da casa de Habsburgo. Nas classes inferiores, os alunos eram assombrados pelo imperador Maximiliano, que subira numa rocha e não conseguia descer, por José II como lavrador e por Fernando, o Bondoso. Nas classes superiores, os temas eram naturalmente mais complicados, como, por exemplo, uma redação para os alunos do sétimo ano:

“O imperador Francisco José I, patrono das ciências e das artes.”

Essa redação valeu a um aluno do sétimo ano a expulsão de todas as escolas secundárias do Império Austro-Húngaro, porque ele escrevera que o ato mais belo daquele monarca fora a fundação da ponte do imperador Francisco José I em Praga.

Dub sempre tomava grande cuidado para que todos os seus alunos, no aniversário do imperador e em outras celebrações imperiais semelhantes, cantassem com entusiasmo o hino austríaco. Na sociedade, não era benquisto, porque todos tinham certeza de que também atuava como denunciante entre os colegas. Na cidade onde lecionava, era um dos integrantes do trevo formado pelos três maiores idiotas e mulas do lugar: ele, o capitão distrital e o diretor do ginásio. Nesse estreito círculo, aprendera a fazer política dentro dos limites da monarquia austro-húngara. Também agora começou a expor suas opiniões com a voz e a entonação de um professor fossilizado:

“No conjunto, a entrada da Itália na guerra não me surpreendeu absolutamente. Eu já esperava por isso havia três meses. É certo que a Itália se tornou consideravelmente arrogante nos últimos tempos, em consequência de sua guerra vitoriosa contra a Turquia pela Tripolitânia. Além disso, confia em excesso tanto em sua frota quanto no estado de espírito da população de nossas regiões litorâneas e do Tirol do Sul. Ainda antes da guerra, conversei sobre isso com nosso capitão distrital, para que nosso governo não subestimasse o movimento irredentista no sul. Ele me deu inteira razão, pois todo homem previdente que se preocupa com a preservação deste Império já devia ter previsto havia muito tempo aonde chegaríamos com tamanha indulgência para com elementos dessa espécie. Lembro-me bem de que, há cerca de dois anos, numa conversa com o senhor capitão distrital, declarei que a Itália, e isso foi na época da guerra dos Bálcãs, durante o caso de nosso cônsul Prohaska, aguardava a primeira oportunidade para nos atacar traiçoeiramente. E agora aí está!”, gritou num tom como se todos estivessem discutindo com ele, embora todos os oficiais da ativa presentes pensassem, enquanto ele falava, que aquele civil tagarela podia ir para o inferno.

“É verdade”, continuou ele, agora num tom mais brando, “que, na maioria dos casos, até mesmo nas redações escolares, esquecia-se nossa antiga relação com a Itália, aqueles grandes dias dos gloriosos exércitos vitoriosos, tanto no ano de mil oitocentos e quarenta e oito quanto no ano de mil oitocentos e sessenta e seis, dos quais se fala nas ordens de brigada de hoje. Eu, porém, sempre cumpri meu dever e, ainda antes do término do ano letivo, praticamente no início da guerra, dei aos alunos a seguinte composição: Unsre Helden in Italien von Vicenza bis zur Custozza, oder…”

E o imbecil do tenente Dub acrescentou solenemente:

“…Blut und Leben für Habsburg! Für ein Österreich, ganz, einig, groß!…”

Calou-se e aparentemente esperava que os demais no vagão do Estado-Maior também falassem sobre a nova situação, para que ele lhes provasse mais uma vez que já sabia havia cinco anos como a Itália um dia se comportaria em relação ao aliado. Mas ficou completamente decepcionado, pois o capitão Ságner, a quem o ordenança do batalhão Matušič trouxera da estação a edição vespertina do Pester Lloyd, disse, olhando para o jornal:

“Vejam só, aquela Weinerová que vimos apresentar-se como convidada em Bruck atuou ontem aqui no palco do Pequeno Teatro.”

Assim terminou, no vagão do Estado-Maior, o debate sobre a Itália.

Além dos que estavam sentados mais atrás, o ordenança do batalhão Matušič e Batzer, criado do capitão Ságner, encaravam a guerra com a Itália de um ponto de vista puramente prático, porque, muito tempo antes, ainda durante o serviço ativo, ambos haviam participado de certas manobras no Tirol do Sul.

“Vai ser difícil subir aquelas montanhas”, disse Batzer. “O capitão Ságner tem uma montanha de malas. Eu sou das montanhas, é verdade, mas é uma coisa totalmente diferente quando o homem enfia um fuzil debaixo do casaco e vai procurar uma lebre nas terras do príncipe Schwarzenberg.”

“Isso se nos mandarem para baixo, para a Itália. Eu também não gostaria de ficar correndo pelas montanhas e geleiras com ordens. E depois a comida lá embaixo, só polenta e óleo”, disse Matušič com tristeza.

“E por que justamente nós não seríamos enfiados naquelas montanhas?”, exaltou-se Batzer. “Nosso regimento já esteve na Sérvia, nos Cárpatos, já andei arrastando as malas do senhor capitão pelas montanhas, já as perdi duas vezes, uma na Sérvia, outra nos Cárpatos, no meio de uma confusão daquelas, e pode ser que isso me espere pela terceira vez na fronteira italiana. E quanto à comida lá embaixo…”

Cuspiu. Aproximou-se confidencialmente de Matušič.

“Sabe, lá em Kašperské Hory fazemos uns bolinhos bem pequenos com massa de batata crua. Eles são cozidos, depois passados no ovo, cobertos com uma boa camada de pão ralado e então fritos na banha de porco.”

Pronunciou as últimas palavras com uma voz misteriosamente solene.

“E ficam melhores com chucrute”, acrescentou melancolicamente. “Perto disso, o macarrão que vá para o caralho.”

Assim também ali terminou a conversa sobre a Itália…

Nos outros vagões, como o trem já estava parado havia mais de duas horas na estação, corria o boato de que talvez o virassem e o mandassem para a Itália.

Também parecia indicar isso o fato de que, nesse meio-tempo, coisas estranhas estavam acontecendo com o trem militar de transporte. Mais uma vez expulsaram todos os homens dos vagões, chegou uma inspeção acompanhada por uma equipe de desinfecção e borrifou cuidadosamente todos os vagões com lisol, o que foi recebido com grande desagrado, sobretudo nos vagões que transportavam estoques de pão do comissariado.

Mas ordem é ordem. A comissão sanitária dera ordem para desinfetar todos os vagões do trem militar de transporte 728, e por isso borrifaram com lisol, com a maior tranquilidade, as pilhas de pão do comissariado e os sacos de arroz. Aquilo já dava a entender que alguma coisa extraordinária estava acontecendo.

Depois enfiaram todos de volta nos vagões e, meia hora mais tarde, tornaram a expulsar todos, porque aparecera para inspecionar o trem militar de transporte um general velhíssimo, de modo que Švejk imediatamente encontrou, da maneira mais natural, uma denominação para o velho. Em pé atrás da formação, comentou com o sargento-contador Vaněk:

“É um moribundo.”

E o velho general continuou andando diante da formação, acompanhado pelo capitão Ságner, e parou diante de um jovem soldado para, de algum modo, entusiasmar toda a tropa. Perguntou-lhe de onde era, quantos anos tinha e se possuía relógio. O soldado tinha um, mas, como imaginou que receberia outro do velho, respondeu que não tinha nenhum. Diante disso, o velhíssimo general moribundo, com aquele sorriso meio imbecil que o imperador Francisco José costumava fazer quando se dirigia aos prefeitos nas cidades, disse:

“Muito bem, muito bem.”

Em seguida, honrou com a palavra o cabo que estava ao lado, perguntando-lhe se sua esposa gozava de boa saúde.

“Respeitosamente informo”, berrou o cabo, “que não sou casado!”

Então o general, com seu sorriso benevolente, repetiu:

“Muito bem, muito bem.”

Depois, em sua infantilidade senil, o general pediu ao capitão Ságner que lhe mostrasse como os soldados faziam a própria contagem para formar duas fileiras, e em pouco tempo já se ouvia:

“Primeiro-segundo, primeiro-segundo, primeiro-segundo.”

O general moribundo gostava muitíssimo daquilo. Chegava a ter em casa dois ordenanças militares, que colocava diante de si e que precisavam contar sozinhos:

“Primeiro-segundo, primeiro-segundo…”

A Áustria tinha uma quantidade enorme de generais assim.

Quando a inspeção finalmente terminou sem acidentes, durante a qual o general não economizou elogios diante do capitão Ságner, permitiram que os homens circulassem pelo perímetro da estação, pois chegara a notícia de que o trem só partiria dali a três horas. Os homens, portanto, andavam de um lado para o outro e ficavam olhando tudo, porque costuma haver bastante público numa estação, e aqui e ali algum soldado ainda conseguia mendigar um cigarro.

Via-se que aquele entusiasmo inicial, expresso nas recepções gloriosas aos trens militares de transporte nas estações, já havia caído profundamente e se reduzido à mendicância.

Ao capitão Ságner apresentou-se uma delegação da Associação para a Recepção dos Heróis, composta por duas senhoras terrivelmente exaustas, que lhe entregaram um presente destinado ao trem militar de transporte, a saber, vinte caixinhas de pastilhas aromáticas para a boca, propaganda de uma fábrica de doces de Pest. As caixinhas de pastilhas aromáticas eram muito bem-feitas, de folha metálica, e na tampa havia a pintura de um honvéd húngaro apertando a mão de um soldado austríaco da defesa territorial, enquanto acima deles resplandecia a coroa de Santo Estêvão. Em volta havia uma inscrição em alemão e húngaro: “Für Kaiser, Gott und Vaterland.”

A fábrica de doces era tão leal que dera preferência ao imperador antes de Deus Nosso Senhor.

Cada caixinha continha oitenta pastilhas, de modo que, no total, cabiam aproximadamente cinco pastilhas para cada três homens. Além disso, as senhoras preocupadas e exaustas trouxeram um grande pacote com dois tipos de oração impressa, compostos pelo arcebispo de Budapeste, Géza de Szatmár-Budafalu. Eram em alemão e húngaro e continham as mais terríveis maldições contra todos os inimigos. Essas orações estavam escritas com tamanha paixão que, no fim, só lhes faltava o vigoroso húngaro “Baszom a Krisztusmárját!”

Segundo o venerável arcebispo, o bondoso Deus devia cortar russos, ingleses, sérvios, franceses e japoneses em tiras de macarrão e transformá-los em goulash com páprica. O bondoso Deus devia banhar-se no sangue dos inimigos e assassinar todos eles, como fizera o bruto de Herodes com as criancinhas.

O reverendo arcebispo de Budapeste empregara em suas oraçõezinhas, por exemplo, frases bonitas como estas: “Deus abençoe vossas baionetas, para que penetrem profundamente no ventre de vossos inimigos. Que o Senhor, supremo e justo, dirija o fogo da artilharia sobre a cabeça dos Estados-Maiores inimigos. Deus misericordioso, fazei com que todos os inimigos se engasguem no próprio sangue, vertido pelas feridas que vós lhes infligirdes!”

Por isso é preciso repetir mais uma vez que, no fim dessas oraçõezinhas, não faltava mais nada além daquele “Baszom a Krisztusmárját!”

Quando as duas senhoras entregaram tudo, manifestaram ao capitão Ságner o desesperado desejo de saber se não poderiam estar presentes à distribuição dos presentes. Uma delas teve até a audácia de mencionar que, na ocasião, poderia dirigir algumas palavras aos soldados, aos quais nunca chamava de outra coisa senão “unsere braven Feldgrauen”.

As duas ficaram terrivelmente ofendidas quando o capitão Ságner recusou o pedido. Por enquanto, aquelas dádivas seguiram para o vagão onde ficava o depósito. As veneráveis senhoras passaram pela fileira de soldados, e uma delas não deixou de aproveitar a ocasião para dar palmadinhas no rosto de um soldado barbudo. Era um tal Šimek, de Budějovice, que, nada sabendo da sublime missão daquelas senhoras, comentou com os companheiros depois que elas se foram:

“Mas essas putas daqui são atrevidas mesmo. Se pelo menos uma macaca dessas tivesse alguma aparência, mas é igual a uma cegonha, a gente não vê nada além daquelas pernas compridas, parece a Paixão de Cristo, e ainda por cima uma lima velha dessas quer se engraçar com soldado.”

Na estação havia grande movimento. O acontecimento com os italianos causara certo pânico, pois dois trens militares de transporte com artilharia haviam sido retidos e enviados para a Estíria. Havia ali também um trem de bósnios, que já esperava havia dois dias por motivos desconhecidos e fora completamente esquecido e extraviado. Os bósnios não recebiam ração militar havia dois dias e andavam mendigando pão por Nova Pest. Também não se ouvia outra coisa senão a conversa exaltada dos bósnios perdidos, que gesticulavam vivamente e soltavam sem parar:

“Jebem ti boga, jebem ti dušu, jebem ti majku.”

Depois, o batalhão de marcha do 91º foi novamente reunido e ocupou lugar em seus vagões. Pouco depois, porém, o ordenança do batalhão Matušič voltou do comando da estação com a notícia de que só partiriam dali a três horas. Por isso, a tropa, que acabara de ser reunida, foi outra vez mandada sair dos vagões. Pouco antes da partida do trem, o tenente Dub entrou muito exaltado no vagão do Estado-Maior e exigiu do capitão Ságner que mandasse prender Švejk imediatamente. O tenente Dub, velho conhecido como denunciante no tempo em que trabalhava como professor de ginásio, gostava de conversar com os soldados, investigando suas convicções e, ao mesmo tempo, para poder instruí-los e explicar por que lutavam e pelo que lutavam.

Durante sua ronda, vira atrás do prédio da estação Švejk parado junto a um lampião, examinando com interesse o cartaz de uma loteria militar beneficente. O cartaz mostrava um soldado austríaco espetando contra a parede um cossaco barbudo e espantado.

O tenente Dub bateu no ombro de Švejk e perguntou o que ele achava daquilo.

“Com sua licença, senhor tenente”, respondeu Švejk, “isso é uma estupidez. Já vi muito cartaz idiota, mas uma asneira dessas nunca tinha visto.”

“E do que é que o senhor não gosta?”, perguntou o tenente Dub.

“O que eu não gosto nesse cartaz, senhor tenente, é do jeito como o soldado trata as armas que confiaram a ele. Ele pode quebrar a baioneta contra a parede, e, além disso, é uma coisa completamente desnecessária. Ele seria castigado por isso, porque o russo está com as mãos para cima e se rendendo. É prisioneiro, e prisioneiro tem que ser tratado direito, porque não adianta, eles também são gente.”

O tenente Dub prosseguiu então investigando as opiniões de Švejk e perguntou:

“Então o senhor está com pena desse russo, não é?”

“Estou com pena dos dois, senhor tenente, tanto do russo, porque está sendo atravessado, quanto do soldado, porque seria preso por causa disso. Ele teve que quebrar a baioneta, senhor tenente, não tem jeito, aquilo onde ele está enfiando parece uma parede de pedra, e o aço é quebradiço. Uma vez, senhor tenente, ainda antes da guerra, durante o serviço ativo, nós tivemos um senhor tenente na companhia. Nem um veterano velho sabia se expressar como aquele senhor tenente. No campo de exercícios, ele dizia pra gente: ‘Quando estiver em posição de sentido, tem que arregalar os olhos igual gato cagando em palha picada.’ Mas, fora isso, era uma pessoa muito boa. Uma vez, no Natal, ele enlouqueceu, comprou um vagão inteiro de cocos pra companhia, e desde então sei como as baionetas são quebradiças. Metade da companhia quebrou as baionetas nos cocos, e o nosso tenente-coronel mandou prender a companhia inteira. Ficamos três meses sem poder sair do quartel, e o senhor tenente ficou em prisão domiciliar…”

O tenente Dub lançou um olhar furioso ao rosto despreocupado do bom soldado Švejk e perguntou com raiva:

“O senhor me conhece?”

“Conheço, senhor tenente.”

O tenente Dub arregalou os olhos e bateu o pé:

“Eu estou lhe dizendo que o senhor ainda não me conhece.”

Švejk respondeu outra vez com a mesma calma despreocupada de quem apresenta um relatório:

“Conheço, senhor tenente. Com sua licença, o senhor é do nosso batalhão de marcha.”

“O senhor ainda não me conhece”, tornou a gritar o tenente Dub. “Talvez me conheça pelo meu lado bom, mas vai me conhecer pelo lado ruim. Eu sou mau, não pense que não. Eu faço qualquer um chorar. Então, o senhor me conhece ou não me conhece?”

“Conheço, senhor tenente.”

“Estou lhe dizendo pela última vez que o senhor não me conhece, seu burro. Tem irmãos?”

“Com sua licença, senhor tenente, tenho um.”

Ao ver o rosto calmo e despreocupado de Švejk, o tenente Dub enfureceu-se e, não conseguindo mais se controlar, exclamou:

“Esse seu irmão deve ser um animal igual ao senhor. O que ele fazia?”

“Era professor, senhor tenente. Também serviu no exército e passou no exame para oficial.”

O tenente Dub olhou para Švejk como se quisesse atravessá-lo. Švejk suportou com digna serenidade o olhar maldoso do tenente Dub, de modo que, por enquanto, toda a conversa entre ambos terminou com a palavra:

“Abtreten!”

Cada um seguiu então o próprio caminho, e cada qual pensava suas coisas.

O tenente Dub pensava que pediria ao capitão que mandasse prender Švejk, e Švejk, por sua vez, pensava que já vira muitos oficiais idiotas, mas que um como o tenente Dub era realmente uma raridade no regimento.

O tenente Dub, que justamente naquele dia metera na cabeça que precisava educar os soldados, encontrou atrás da estação uma nova vítima. Eram dois soldados do regimento, mas de outra companhia, que, na escuridão, pechinchavam em alemão macarrônico com duas vagabundas, das quais havia dúzias perambulando em volta da estação.

Enquanto se afastava, Švejk ainda ouviu perfeitamente a voz cortante do tenente Dub:

“Vocês me conhecem?!... Mas eu lhes digo que não me conhecem!... Mas quando me conhecerem!... Talvez me conheçam pelo meu lado bom!... Eu lhes digo, quando me conhecerem pelo lado ruim!... Eu vou fazer vocês chorarem, seus burros!... Vocês têm irmãos?... Eles também devem ser animais iguais a vocês!... O que faziam?... No trem militar?... Muito bem... Lembrem-se de que são soldados... São tchecos?... Sabem que Palacký disse que, se a Áustria não existisse, teríamos que criá-la?... Abtreten...!”

A ronda do tenente Dub, contudo, não teve resultado positivo. Ele ainda deteve umas três turmas de soldados, e seu esforço educativo de “fazê-los chorar” fracassou completamente. Aquele era o tipo de material que estava sendo levado para o campo de batalha, e, nos olhos de cada um, o tenente Dub percebia que todos certamente pensavam algo muito desagradável a seu respeito. Sentiu o orgulho ferido, e o resultado foi que, antes da partida do trem, pediu ao capitão Ságner, no vagão do Estado-Maior, que Švejk fosse preso. Ao justificar a necessidade de isolar o bom soldado Švejk, falou de sua conduta estranhíssima e insolente, chamando as respostas sinceras de Švejk à sua última pergunta de observações mordazes. Se aquilo continuasse, o corpo de oficiais perderia toda a autoridade aos olhos da tropa, coisa de que certamente nenhum dos senhores oficiais duvidava. Ele mesmo, ainda antes da guerra, conversara sobre isso com o senhor capitão distrital, dizendo que todo superior devia procurar conservar certa autoridade diante de seus subordinados. O senhor capitão distrital era da mesma opinião. Especialmente agora, na guerra, quanto mais o homem se aproximava do inimigo, mais necessário era manter uma espécie de terror sobre os soldados. Por isso, pedia que Švejk recebesse punição disciplinar.

O capitão Ságner, que, como oficial da ativa, odiava todos aqueles oficiais da reserva vindos das mais diversas profissões civis, advertiu o tenente Dub de que denúncias desse tipo só podiam ser feitas sob a forma de relatório, e não de maneira tão peculiarmente varejista, como quem pechincha o preço de batatas. Quanto ao próprio Švejk, a primeira instância a cuja autoridade ele estava submetido era o senhor primeiro-tenente Lukáš. Uma coisa dessas se fazia rigorosamente por relatório. Da companhia, o assunto seguia para o batalhão, e isso talvez fosse do conhecimento do senhor tenente. Caso Švejk tivesse cometido alguma coisa, seria levado ao relatório da companhia e, se recorresse, ao relatório do batalhão. Contudo, se o senhor primeiro-tenente Lukáš desejasse e considerasse o relato do tenente Dub uma denúncia oficial para fins de punição, ele não teria nenhuma objeção a que Švejk fosse conduzido e interrogado.

O primeiro-tenente Lukáš não se opôs, limitando-se a observar que sabia muito bem, pelos relatos do próprio Švejk, que o irmão dele fora de fato professor e oficial da reserva. O tenente Dub vacilou e disse que pedira a punição apenas num sentido mais amplo, e que era possível que o tal Švejk não soubesse se expressar, de modo que suas respostas causavam impressão de insolência, mordacidade e desrespeito pelos superiores. Além disso, pela aparência geral do referido Švejk, via-se que ele era de entendimento débil.

Assim, na verdade, toda a tempestade passou por cima da cabeça de Švejk sem que o raio caísse.

No vagão onde ficavam o escritório e o depósito do batalhão, o sargento-contador do batalhão de marcha Bautanzel distribuiu com grande condescendência aos dois escreventes do batalhão um punhado das pastilhas para a boca tiradas das caixinhas que deveriam ser distribuídas ao batalhão. Era coisa habitual que tudo o que se destinava à tropa passasse, no escritório do batalhão, pela mesma manipulação sofrida pelas infelizes pastilhas.

Isso era tão comum em toda parte durante a guerra que, quando em alguma inspeção se verificava que não havia roubo, cada um daqueles sargentos-contadores dos mais diversos escritórios ficava, mesmo assim, sob suspeita de estar estourando o orçamento e aplicando alguma outra safadeza para fazer as contas baterem.

Por isso, enquanto todos ali se empanturravam daquelas pastilhas, para ao menos aproveitar aquela porcaria, já que não havia mais nada em que se pudesse roubar a tropa, Bautanzel falou das tristes condições daquela viagem:

“Já passei por dois batalhões de marcha, mas uma viagem miserável igual a essa nunca fizemos. Rapaz, antes de chegarmos naquela vez a Prešov, tínhamos montes de tudo quanto a gente pudesse imaginar. Eu tinha guardado dez mil cigarros Memphis, duas rodas de queijo emmental, trezentas latas de conserva, e depois, quando já íamos para as trincheiras em direção a Bardejov, os russos de Muszyna cortaram a ligação com Prešov, e aí começaram os negócios. Entreguei de tudo aquilo, só pra constar, a décima parte para o batalhão de marcha, como se tivesse economizado, e vendi todo o resto no trem militar. Tínhamos conosco o major Sojka, e aquele era um belo porco. Herói ele não era, e o que mais gostava era de ficar rondando por ali, junto do trem militar, porque lá em cima as balas assobiavam e os estilhaços estouravam. Ele aparecia sempre com o pretexto de que precisava verificar se estavam cozinhando direito para a tropa do batalhão. Em geral, vinha para baixo quando chegava a notícia de que os russos estavam preparando alguma coisa. Tremia inteiro, precisava beber rum na cozinha e só depois fazia inspeção em todas as cozinhas de campanha em torno do trem militar, porque não se podia subir até as posições, e a ração era levada lá para cima à noite. Naquela época, estávamos numa situação em que nem se podia falar em messe dos oficiais. Uma única estrada que ainda permanecia aberta para a retaguarda estava ocupada pelos alemães do Reich, que retinham tudo o que havia de melhor nas remessas que vinham da retaguarda e comiam eles mesmos, de modo que não sobrava nada para nós. Todos no trem militar ficamos sem a messe dos oficiais. Durante todo aquele tempo, a única coisa que consegui economizar para nós no escritório foi um porquinho, que mandamos defumar, e, para que o major Sojka não descobrisse, guardamos a uma hora de caminho dali, junto da artilharia, onde eu tinha um conhecido que era Feuerwerker. Então, quando o major vinha nos visitar, começava sempre provando a sopa na cozinha. É verdade que não dava para cozinhar muita carne, apenas o que se conseguia arranjar de porcos ou vacas magras nas redondezas. E os prussianos ainda faziam uma concorrência danada, pagando o dobro nas requisições de gado. Durante todo o tempo em que ficamos nos arredores de Bardejov, não consegui economizar na compra de gado mais do que um pouco acima de mil e duzentas coroas, e ainda por cima, na maior parte das vezes, em lugar de dinheiro, dávamos vales com o carimbo do batalhão, especialmente no fim, quando sabíamos que os russos estavam a leste de nós, em Radvaň, e a oeste, em Podolínec. O pior é trabalhar com um povo como aquele, que não sabe ler nem escrever e só assina com três cruzes. A nossa intendência sabia disso muito bem, de modo que, quando pedíamos dinheiro à intendência, eu não podia anexar recibos falsificados dizendo que tinha pago aquelas pessoas. Isso só se pode fazer onde o povo é mais instruído e sabe assinar o nome. E depois, como já falei, os prussianos pagavam mais do que nós e pagavam em dinheiro vivo. Quando chegávamos a algum lugar, olhavam para nós como se fôssemos ladrões, e a intendência ainda por cima emitiu uma ordem dizendo que os recibos assinados com cruzes deviam ser enviados à fiscalização contábil de campanha. E aqueles sujeitos formigavam por toda parte. Um sujeito desses chegava, comia e bebia à nossa custa e, no dia seguinte, ia nos denunciar. O major Sojka vivia andando pelas cozinhas. Pela minha alma, acredite, uma vez ele tirou do caldeirão a carne destinada a toda a quarta companhia. Começou por uma cabeça de porco, disse que não estava bem cozida e mandou cozinhar mais um pouco. É verdade que naquela época não se cozinhava muita carne. Para uma companhia inteira havia umas doze porções de carne antigas e honestas, mas ele comeu tudo. Depois provou a sopa e começou um escândalo, dizendo que parecia água, que tipo de ordem era aquela, sopa de carne sem carne. Mandou engrossar e jogou nela o último macarrão que eu tinha economizado durante todo aquele tempo. Mas isso não me irritou tanto quanto o fato de que, para fazer o roux, foram gastos dois quilos de manteiga de chá que eu conseguira economizar ainda na época em que havia messe dos oficiais. Eu a mantinha numa prateleira acima do catre, e ele começou a berrar comigo, perguntando a quem aquilo pertencia. Então eu disse que, segundo o orçamento de alimentação dos soldados, conforme a última ordem da divisão, cabiam a cada soldado, como suplemento, quinze gramas de manteiga ou vinte e um gramas de banha. Como isso não era suficiente, as reservas de manteiga ficavam guardadas até que fosse possível melhorar a alimentação da tropa com manteiga em quantidade completa. O major Sojka ficou muito exaltado e começou a gritar que eu aparentemente estava esperando os russos chegarem e levarem nossos últimos dois quilos de manteiga, e que aquilo devia ir imediatamente para a sopa, já que era sopa sem carne. Assim perdi toda a reserva. E acredite que aquele major, sempre que aparecia, só me trazia azar. Pouco faltava para ele ter um faro tão desenvolvido que descobria imediatamente todas as minhas provisões. Uma vez, economizei da tropa um fígado bovino e queríamos prepará-lo ensopado, quando ele se meteu debaixo do catre e o puxou para fora. Diante dos berros dele, disse que aquele fígado estava destinado a ser enterrado, pois naquela manhã um ferrador da artilharia, que tinha curso de veterinária, constatara que estava impróprio. O major pegou um sujeito do trem militar, e depois ele e o sujeito ficaram cozinhando o fígado em panelinhas, lá em cima, debaixo das rochas. E esse também foi o destino dele, porque os russos viram o fogo e acertaram o major e a panelinha com um projétil de dezoito. Depois fomos olhar o lugar, e ninguém conseguia distinguir se o que estava espalhado pelas rochas era fígado bovino ou o fígado do senhor major.”

Depois chegou a notícia de que só partiriam dali a quatro horas. A linha mais acima, na direção de Hatvan, estava bloqueada por trens com feridos. Também se espalhou pela estação o boato de que, em Eger, um trem sanitário com doentes e feridos colidira com um trem que transportava artilharia. De Pest estavam indo para lá trens de socorro.

Pouco depois, a imaginação do batalhão inteiro já estava em pleno funcionamento. Falava-se em duzentos mortos e feridos e dizia-se que a colisão fora provocada de propósito, para que não fossem descobertas as fraudes no abastecimento dos doentes.

Isso deu motivo a uma crítica severa ao abastecimento insuficiente do batalhão e aos ladrões do escritório e do depósito.

A maioria era da opinião de que o sargento-contador do batalhão Bautanzel dividia tudo pela metade com os oficiais.

No vagão do Estado-Maior, o capitão Ságner anunciou que, segundo o itinerário de marcha, eles já deveriam estar na fronteira da Galícia. Em Eger, deveriam receber pão e conservas para três dias de alimentação da tropa. Ainda tinham dez horas de viagem até Eger. Havia realmente tantos trens com feridos da ofensiva além de Lviv que, segundo o telegrama, em Eger não restava nem um pão do comissariado nem uma única lata de conserva. Recebera ordem de pagar, no lugar do pão e das conservas, seis coroas e setenta e dois hellers por homem, quantia que seria paga junto com o soldo de nove dias, caso até então ele recebesse dinheiro da brigada. No caixa havia pouco mais de doze mil coroas.

“Mas isso é uma sacanagem do regimento”, disse o primeiro-tenente Lukáš, “mandar a gente para o mundo desse jeito miserável.”

Começou uma troca de cochichos entre o alferes Wolf e o primeiro-tenente Kolář, segundo os quais o coronel Schröder, nas últimas três semanas, mandara dezesseis mil coroas para sua conta num banco de Viena.

O primeiro-tenente Kolář contou então como se faziam economias. Roubavam-se seis mil coroas no regimento e enfiavam-se no próprio bolso, e, seguindo uma lógica rigorosa, expedia-se uma ordem a todas as cozinhas para descontar diariamente três gramas de ervilha por homem.

Em um mês, isso dava noventa gramas por homem, e na cozinha de cada companhia precisava ter sido economizada uma reserva de pelo menos dezesseis quilos de ervilha, pela qual o cozinheiro tinha de prestar contas.

O primeiro-tenente Kolář conversava com Wolf apenas em termos gerais sobre certos casos que observara. Mas era certo que toda a administração militar estava abarrotada de casos semelhantes. Começava com o sargento-contador de alguma companhia infeliz e terminava num hamster de dragonas de general, que acumulava provisões para o inverno do pós-guerra.

A guerra exigia bravura até mesmo para roubar.

Os intendentes olhavam uns para os outros com ternura, como se quisessem dizer: somos um só corpo e uma só alma. Roubamos, camarada, enganamos, irmão, mas não há o que fazer, é difícil nadar contra a corrente. Quando você não pega, outro pega e ainda diz que você só não rouba mais porque já juntou o bastante.

Entrou no vagão um senhor com listras vermelhas e douradas. Era mais um daqueles generais que percorriam todas as linhas fazendo inspeções.

“Sentem-se, senhores”, disse com um gesto afável, satisfeito por ter surpreendido mais uma vez algum trem militar que ele não sabia que estaria parado ali.

Quando o capitão Ságner tentou apresentar-lhe o relatório, ele apenas fez um gesto com a mão:

“O seu trem militar não está em ordem. O seu trem militar não dorme. O seu trem militar já deveria estar dormindo. Nos trens militares deve-se dormir quando estão parados na estação, como no quartel, às nove horas.”

Falava em frases curtas:

“Antes das nove horas, a tropa é conduzida às latrinas atrás da estação, e depois vai dormir. Do contrário, a tropa suja a linha durante a noite. Entendeu, senhor capitão? Repita para mim. Ou não repita e faça como estou ordenando. Tocar alarme, tocar a tropa para as latrinas, tocar recolher e dormir. Fiscalizar quem não dorme. Castigar! Sim! É tudo? Distribuir o jantar às seis horas.”

Agora falava de alguma coisa passada, de algo que não acontecera, que ficava como que dobrando uma segunda esquina. Estava ali como uma aparição vinda do reino da quarta dimensão.

“Distribuir o jantar às seis horas”, continuou, olhando para o relógio, que marcava onze e dez da noite. “Um halb neune Alarm, Latrinenscheißen, dann schlafen gehen. No jantar, às seis horas, goulash com batatas em lugar de quinze decagramas de queijo emmental.”

Seguiu-se então a ordem de demonstrar prontidão. O capitão Ságner mandou tocar alarme outra vez, e o general inspetor, observando o batalhão formar-se em linha, passeava com os oficiais e falava sem parar com eles, como se fossem idiotas e não fossem capazes de entender de imediato, enquanto apontava para os ponteiros do relógio:

“Also, sehen Sie. Um halb neune scheißen und nach einer halben Stunde schlafen. Das genügt vollkommen. Nesse período de transição, a tropa já está mesmo com as fezes líquidas. Dou importância sobretudo ao sono. Ele dá forças para as marchas seguintes. Enquanto a tropa estiver no trem, precisa descansar. Caso não haja espaço suficiente nos vagões, a tropa dorme partienweise. Um terço da tropa se deita confortavelmente no vagão e dorme das nove à meia-noite, enquanto os demais ficam de pé olhando para eles. Depois, os primeiros, já descansados, dão lugar ao segundo terço, que dorme da meia-noite às três da manhã. O terceiro grupo dorme das três às seis. Depois, toca alvorada e a tropa se lava. Durante a viagem, não-sal-tar-dos-va-gões! Colocar patrulhas diante do trem militar para que a tropa, durante a viagem, não-sal-te-dos-va-gões! Caso o inimigo quebre a perna de um soldado...”

O general bateu na própria perna.

“Isso é algo louvável. Mas aleijar-se desnecessariamente saltando dos vagões em plena marcha é condenável. Então este é o seu batalhão?”, perguntou ao capitão Ságner, observando as figuras sonolentas da tropa, muitas das quais não conseguiam se conter e, arrancadas do sono, bocejavam no ar fresco da noite. “Este, senhor capitão, é um batalhão bocejante. A tropa precisa ir dormir às nove horas.”

O general colocou-se diante da 11ª companhia, onde Švejk estava na ala esquerda, bocejando com toda a boca e mantendo educadamente a mão diante dela, embora debaixo da mão saísse um mugido tão forte que o primeiro-tenente Lukáš tremia de medo de que o general lhe desse maior atenção. Ocorreu-lhe que Švejk bocejava de propósito. E o general, como se soubesse disso, virou-se para Švejk e aproximou-se dele:

“Böhm oder Deutscher?”

“Böhm, melde gehorsam, Herr Generalmajor.”

“Dobrže”, disse o general, que era polonês e sabia um pouco de tcheco, “você berrar como vaca no feno. Fecha o focinho, cala a boca, não muge! Já foi na latrina?”

“Não fui, respeitosamente informo, senhor general de divisão.”

“Por que não foi cagar com os outros homens?”

“Respeitosamente informo, senhor general de divisão, que, nas manobras perto de Písek, o senhor coronel Wachtl nos disse, quando a tropa, durante o rast, se espalhava pelos campos de centeio, que um soldado não pode ficar pensando o tempo todo só em cagação, que um soldado tem de pensar em combater. Além disso, respeitosamente informo, o que é que a gente faria naquela latrina? Não tem o que espremer. Segundo o itinerário de marcha, já devíamos ter recebido jantar em várias estações, e não recebemos nada. De barriga vazia, não se sobe numa latrina!”

Depois que Švejk explicou ao senhor general, em palavras simples, a situação geral, lançou-lhe um olhar tão confidencial que o general percebeu o pedido para que ajudasse a todos eles. Se havia uma ordem para ir à latrina em marcha organizada, então essa ordem também precisava ter algum respaldo interno.

“Mande todos de volta para os vagões”, disse o general ao capitão Ságner. “Como foi que não receberam jantar? Todos os trens militares de transporte que passam por esta estação têm de receber jantar. Aqui é uma estação de abastecimento. Não pode ser de outro modo. Existe um plano definido.”

O general disse isso com tamanha segurança que dava a entender que, embora já fossem quase onze horas da noite e o jantar devesse ter sido servido às seis, como ele próprio observara antes, não restava outra coisa senão reter o trem durante toda a noite e todo o dia, até as seis da tarde, para que recebessem goulash com batatas.

“Não há nada pior”, disse ele com enorme gravidade, “do que, durante a guerra, esquecer o abastecimento das tropas em trânsito. É meu dever descobrir a verdade sobre o que de fato está acontecendo no escritório do comando da estação. Pois, senhores, às vezes os próprios comandantes dos trens militares são os culpados. Durante uma inspeção na estação de Subotiště, na ferrovia meridional da Bósnia, constatei que seis trens militares não haviam recebido jantar porque seus comandantes se esqueceram de pedi-lo. Seis vezes cozinharam goulash com batatas na estação, e ninguém foi buscá-lo. Despejaram tudo em montes. Era, senhores, um verdadeiro silo de batatas com goulash, enquanto, três estações adiante, os soldados dos trens que haviam passado pelos montes e colinas de goulash em Subotiště mendigavam na estação um pedaço de pão. Nesse caso, como podem ver, a administração militar não teve culpa.”

Agitou a mão com violência:

“Os comandantes dos trens militares não cumpriram seus deveres. Vamos ao escritório.”

Seguiram-no, pensando por que todos os generais tinham enlouquecido.

No comando, verificou-se que realmente ninguém sabia de goulash algum. Era verdade que, naquele dia, deveriam cozinhá-lo ali para todos os trens militares que passassem, mas depois chegara uma ordem determinando que se creditassem, na contabilidade interna do abastecimento das tropas, setenta e dois heller por soldado, de modo que cada unidade em trânsito passava a ter um crédito de setenta e dois heller por homem, quantia que receberia da própria intendência no próximo pagamento do soldo. Quanto ao pão, a tropa receberia meia bisnaga por homem na estação de Waitzen.

O comandante do posto de abastecimento não teve medo. Disse diretamente na cara do general que as ordens mudavam a cada hora. Às vezes, tinha pronta a refeição para os trens militares. Então chegava um trem sanitário, apresentava uma ordem superior, e pronto: o trem militar ficava diante do problema dos caldeirões vazios.

O general assentiu com a cabeça e observou que as condições estavam decididamente melhorando, pois, no início da guerra, tudo fora muito pior. Não se podia resolver tudo de uma vez; para isso eram indiscutivelmente necessárias experiência e prática. A teoria, na verdade, atrapalhava a prática. Quanto mais tempo a guerra durasse, mais tudo entraria nos eixos.

“Posso lhes dar um exemplo prático”, disse ele, muito satisfeito por ter encontrado algo excelente. “Há dois dias, os trens militares que passaram pela estação de Hatvan não receberam pão, e vocês irão requisitá-lo lá amanhã. Agora vamos ao restaurante da estação.”

No restaurante da estação, o senhor general voltou a falar da latrina e de como era feio ver cactos espalhados por toda parte, entre os trilhos. Enquanto isso, comia um bife, e todos tinham a impressão de que um cacto rolava dentro de sua boca. Dava tamanha importância às latrinas que parecia que a vitória da monarquia dependia delas.

Diante da nova situação que se criava com a Itália, declarou que era justamente nas latrinas de nosso exército que residia nossa inegável vantagem na campanha italiana.

A vitória da Áustria saía rastejando da latrina.

Para o senhor general, tudo era muito simples. O caminho para a glória militar seguia esta receita: às seis da tarde os soldados recebiam goulash com batatas, às oito e meia a tropa cagava na latrina e às nove ia dormir. Diante de um exército assim, o inimigo fugiria apavorado.

O general de divisão ficou pensativo, acendeu um operas e contemplou o teto por muito, muito tempo. Tentava lembrar-se do que mais poderia dizer, já que estava ali, e de que maneira poderia instruir os oficiais do trem militar.

“O núcleo de seu batalhão é saudável”, disse de repente, quando todos esperavam que continuasse olhando para o teto e permanecesse calado. “Seu efetivo está em perfeita ordem. Aquele homem com quem falei, por sua franqueza e postura militar, oferece as melhores esperanças de todo o batalhão de que lutará até a última gota de sangue.”

Calou-se e voltou a olhar para o teto, recostado no espaldar da cadeira. Depois continuou na mesma posição, enquanto apenas o tenente Dub, impelido por sua alma servil, contemplava o teto junto com ele:

“Seu batalhão, porém, precisa impedir que seus feitos caiam no esquecimento. Os batalhões de sua brigada já têm uma história, à qual seu batalhão deve dar continuidade. E o que lhes falta é justamente um homem que mantenha registros exatos e escreva a história do batalhão. Até ele devem convergir todos os fios do que cada companhia do batalhão realizou. Tem de ser um homem inteligente, não um animal, não uma vaca. Senhor capitão, o senhor deve nomear no batalhão um batalionsgeschichtsschreiber.”

Depois olhou para o relógio na parede, cujos ponteiros lembravam à companhia inteira, sonolenta, que já era hora de se dispersar.

O general tinha seu trem de inspeção na linha e pediu aos senhores que o acompanhassem até seu vagão-dormitório.

O comandante da estação suspirou. O general se esquecera de que devia pagar o bife e a garrafa de vinho. Ele teria de pagar tudo outra vez do próprio bolso. Havia várias visitas dessas por dia. Já tinham ido embora nisso dois vagões de feno, que ele mandara desviar para um ramal morto e vendera à firma Löwenstein, fornecedora militar de feno, como se vende uma plantação de centeio ainda de pé. O erário comprara outra vez os dois vagões da firma, mas ele, por precaução, os deixara ali. Talvez ainda tivesse de revendê-los um dia à firma Löwenstein.

Em compensação, todas as inspeções militares que passavam por aquela estação principal de Peste diziam que, na casa do comandante da estação, bebia-se e comia-se muito bem.

De manhã, o trem militar ainda estava na estação. Tocara a alvorada, os soldados se lavavam junto às bombas usando as marmitas, e o general ainda não partira com seu trem, pois fora inspecionar pessoalmente as latrinas, às quais os homens do batalhão do capitão Ságner se dirigiam, segundo a ordem do dia, “Schwarmweise unter Kommando der Schwarmkommandanten”, para dar alegria ao senhor general de divisão. Para que o tenente Dub também tivesse sua alegria, o capitão Ságner comunicou-lhe que naquele dia caberia a ele a inspeção.

O tenente Dub, portanto, fiscalizava as latrinas.

A latrina, comprida e estreita, com duas fileiras, comportava dois pelotões de uma companhia.

E agora os soldados estavam agachados, bem alinhados lado a lado, sobre as valas abertas, como andorinhas nos fios telegráficos quando se preparam, no outono, para viajar à África.

Dos calções abaixados de cada um sobressaíam os joelhos, e todos traziam o cinturão em torno do pescoço, como se estivessem prestes a se enforcar a qualquer momento e aguardassem apenas uma ordem.

Em tudo aquilo se via a férrea disciplina militar, a organização.

Na ala esquerda estava Švejk, que aparecera ali por acaso e lia com interesse um pedaço de papel arrancado sabe Deus de que romance de Růžena Jesenská:

…quele pensionato, infelizmente, as damas
em indefinido, talvez realmente mais
as, em sua maioria fechadas em si pela perd
o cardápio aos seus aposentos, ou se
uma diversão peculiar. E, se deixavam esc
ouvia-se apenas e tão somente um lamento pela hon
melhorava, pois não queria tão bem-sucedidamente
lhar, como elas próprias desejariam.
nada havia para o jovem Křička

Quando desviou os olhos do fragmento, olhou por acaso para a entrada da latrina e ficou surpreso. Ali estava, em uniforme de gala, o senhor general de divisão da noite anterior, com seu ajudante, e, ao lado deles, o tenente Dub explicava-lhes alguma coisa com grande zelo.

Švejk olhou ao redor. Todos continuavam sentados tranquilamente sobre a latrina, e apenas os graduados pareciam rígidos e imóveis.

Švejk percebeu a gravidade da situação.

Levantou-se de um salto, exatamente como estava, com os calções abaixados e o cinturão em torno do pescoço, usando ainda no último instante o pedaço de papel, e berrou:

“Einstellen! Auf! Habacht! Rechts schaut!”

E prestou continência. Dois pelotões, de calções abaixados e cinturões em torno do pescoço, levantaram-se sobre a latrina.

O general de divisão sorriu amavelmente e disse:

“Ruht, weiter machen!”

O cabo Málek deu ao seu pelotão o primeiro exemplo de que deviam voltar à posição original. Apenas Švejk permaneceu de pé, ainda prestando continência, pois de um lado o tenente Dub se aproximava dele ameaçadoramente, e do outro vinha o general de divisão, sorrindo.

“Eu vi você ontem à noite”, disse o general de divisão à estranha postura de Švejk.

Ao que o agitado tenente Dub se voltou para o general de divisão:

“Ich melde gehorsam, Herr Generalmajor, der Mann ist blödsinnig und als Idiot bekannt, saghafter Dummkopf.”

“Was sagen Sie, Herr Leutnant?”, berrou de repente o general de divisão com o tenente Dub, e começou a explicar-lhe que era justamente o contrário. Aquele homem sabia o que convinha fazer ao ver um superior, enquanto os graduados não o tinham visto e o ignoravam. Era como em campanha. O soldado comum assumia o comando em momentos de perigo. E o próprio senhor tenente Dub é que deveria ter dado a ordem pronunciada por aquele soldado:

“Einstellen! Auf! Habacht! Rechts schaut!”

“Você limpou a bunda?”, perguntou o general de divisão a Švejk.

“Respeitosamente informo, senhor general de divisão, que está tudo em ordem.”

“Não vai cagar mais?”

“Respeitosamente informo, senhor general de divisão, que já estou fertig.”

“Então puxe as calças para cima e depois fique outra vez em habacht!”

Como o general de divisão pronunciara aquele “habacht” um pouco mais alto, os homens mais próximos começaram a se levantar sobre a latrina.

O general, porém, fez-lhes um gesto amistoso com a mão e disse, num tom paternal e suave:

“Aber nein, ruht, ruht, nur weiter machen.”

Švejk já estava diante do general de divisão em plena gala, e o general lhe fez um breve discurso em alemão:

“O respeito pelos superiores, o conhecimento do dienstreglamá e a presença de espírito significam tudo no exército. E, quando a isso se junta a coragem, não há inimigo que devamos temer.”

Voltando-se para o tenente Dub, disse, cutucando com o dedo a barriga de Švejk:

“Anote: este homem, ao chegar à frente, deve ser imediatamente befedrovat e, na primeira oportunidade, proposto para a medalha de bronze pelo cumprimento exato do serviço e pelo conhecimento… Wissen Sie doch, was ich schon meine… Abtreten!”

O general de divisão afastou-se da latrina, enquanto o tenente Dub, para que o general o ouvisse, dava ordens em voz alta:

“Erster Schwarm auf! Doppelreihen… Zweiter Schwarm…”

Enquanto isso, Švejk saiu e, ao passar pelo tenente Dub, prestou-lhe continência como era devido. Mesmo assim, o tenente Dub disse “Herstellt”, e Švejk teve de prestar continência outra vez, ouvindo novamente:

“Você me conhece? Não me conhece! Você me conhece pelo lado bom, mas, quando me conhecer pelo lado ruim, vou fazer você chorar!”

Por fim, Švejk voltou para seu vagão e pensou: quando ainda estávamos no quartel de Karlín, havia um tenente chamado Chudavý que dizia isso de outro jeito quando se irritava:

“Rapazes, lembrem-se, quando me virem, de que sou um filho da puta com vocês e de que continuarei sendo esse filho da puta enquanto vocês estiverem na companhia.”

Quando Švejk passou pelo vagão do Estado-Maior, o primeiro-tenente Lukáš chamou-o e mandou-o dizer a Baloun que se apressasse com o café e tornasse a fechar direito a lata de leite condensado, para que não estragasse. Baloun estava preparando café para o primeiro-tenente Lukáš num pequeno samovar a álcool, no vagão do sargento-contador Vaněk. Quando Švejk foi transmitir o recado, constatou que, durante sua ausência, o vagão inteiro estava tomando café.

Tanto a lata de café como a de leite condensado do primeiro-tenente Lukáš já estavam pela metade, e Baloun, sorvendo o café de sua caneca, remexia com a colher a lata de leite para melhorar ainda mais a bebida.

O cozinheiro ocultista Jurajda e o sargento-contador Vaněk prometiam um ao outro que, assim que chegassem novas latas de café e leite condensado, compensariam o senhor primeiro-tenente Lukáš.

Também ofereceram café a Švejk, mas ele recusou e disse a Baloun:

“Acaba de chegar uma ordem do Estado-Maior do Exército dizendo que todo ordenança de oficial que desviar do próprio oficial uma lata de leite e uma de café deve ser enforcado sem demora, no prazo de vinte e quatro horas. É isso que tenho de lhe transmitir da parte do senhor primeiro-tenente, que deseja vê-lo imediatamente com o café.”

Assustado, Baloun arrancou do telegrafista Chodounský a porção que acabara de lhe servir, pôs o café para esquentar de novo, acrescentou leite condensado e disparou com tudo para o vagão do Estado-Maior.

Com os olhos esbugalhados, entregou o café ao primeiro-tenente Lukáš, enquanto lhe atravessava a cabeça a ideia de que o primeiro-tenente certamente enxergaria em seus olhos como ele administrara as latas.

“Eu me atrasei”, gaguejou, “porque não consegui abrir elas.”

“Você deve ter derramado a lata de leite, não é?”, perguntou o primeiro-tenente Lukáš, tomando um gole de café. “Ou comeu de colher, como se fosse sopa. Sabe o que espera você?!”

Baloun suspirou e gemeu:

“Tenho três filhos, respeitosamente informo, senhor primeiro-tenente.”

“Cuidado, Baloun. Estou avisando pela última vez sobre sua gula. Švejk não lhe disse nada?”

“Dentro de vinte e quatro horas eu poderia ser enforcado”, respondeu Baloun, tristemente, balançando o corpo inteiro.

“Não fique se balançando aqui, imbecil”, disse o primeiro-tenente Lukáš, sorrindo, “e trate de melhorar. Tire essa comilança da cabeça e diga a Švejk que procure pela estação ou pelas redondezas alguma coisa boa para comer. Dê-lhe aqui uma nota de dez. Não vou mandar você. Você só vai sair quando já estiver empanturrado a ponto de estourar. Não comeu minha lata de sardinhas? Você diz que não comeu. Traga-a aqui para eu ver!”

Baloun transmitiu a Švejk que o senhor primeiro-tenente lhe mandava uma nota de dez para que arranjasse em algum lugar da estação alguma coisa boa para comer. Depois, suspirando, tirou a lata de sardinhas da maleta do primeiro-tenente e, com o coração apertado, levou-a para que ele a examinasse.

O coitado estava tão contente, pensando que talvez o primeiro-tenente Lukáš já tivesse esquecido aquelas sardinhas, e agora tudo estava perdido. O primeiro-tenente provavelmente as deixaria no vagão e o privaria delas. Sentia-se roubado.

“Aqui estão, respeitosamente informo, senhor primeiro-tenente, suas sardinhas”, disse com amargura, entregando-as ao dono. “Quer que eu abra?”

“Muito bem, Baloun. Não abra nada e leve-as de volta ao lugar. Eu só queria ter certeza de que você não tinha mexido nelas. Foi o que me pareceu quando trouxe o café, porque estava com a boca meio engordurada, como se tivesse bebido óleo. Švejk já foi?”

“Respeitosamente informo, senhor primeiro-tenente, que já partiu”, respondeu Baloun, radiante. “Disse que o senhor primeiro-tenente ficará satisfeito e que todos vão sentir inveja do senhor. Foi para algum lugar fora da estação e disse que conhece tudo por aqui até depois de Rákospalota. Caso o trem parta sem ele, vai se juntar à coluna de automóveis e nos alcançar de carro na estação seguinte. Não precisamos nos preocupar com ele, pois sabe qual é o dever dele, mesmo que tenha de pegar um fiacre às próprias custas e seguir o trem militar até a Galícia. Depois manda descontar do soldo. De qualquer maneira, o senhor não deve se preocupar com ele, senhor primeiro-tenente.”

“Vá embora”, disse tristemente o primeiro-tenente Lukáš.

Chegou do escritório do comando a informação de que só partiriam às duas da tarde, em direção a Gödöllö-Aszód, e de que seriam requisitados para os oficiais, nas estações, dois litros de vinho tinto e uma garrafa de conhaque por homem. Dizia-se que era uma remessa extraviada da Cruz Vermelha. Fosse como fosse, aquilo caíra diretamente do céu, e o vagão do Estado-Maior ficou animado. O conhaque tinha três estrelas, e o vinho era da marca Gumpoldskirchen.

Apenas o primeiro-tenente Lukáš continuava abatido. Já se passara uma hora, e Švejk ainda não voltara. Depois mais meia hora, e um estranho cortejo, saído do escritório do comando da estação, aproximou-se do vagão do Estado-Maior.

À frente vinha Švejk, grave e majestoso como os primeiros mártires cristãos quando eram arrastados para a arena.

De cada lado, um honvéd húngaro de baioneta calada. Na ala esquerda, um sargento do comando da estação, e atrás deles uma mulher de saia vermelha, carregando um realejo, e um homem de botas e chapéu redondo, com um olho roxo, que levava uma galinha viva, cacarejante e apavorada.

Todos começaram a subir no vagão do Estado-Maior, mas o sargento berrou em húngaro para o homem da galinha e para a mulher que permanecessem embaixo.

Ao ver o primeiro-tenente Lukáš, Švejk começou a piscar de maneira muito significativa.

O sargento queria falar com o comandante da 11ª companhia de marcha. O primeiro-tenente Lukáš recebeu dele um documento do comando da estação e, empalidecendo, leu:

Ao comandante da 11ª companhia de marcha N do batalhão de marcha do 91º Regimento de Infantaria, para as providências cabíveis. É apresentado o soldado Švejk Josef, segundo declaração do ordenança da mesma companhia de marcha N do batalhão de marcha do 91º Regimento de Infantaria, pelo crime de roubo cometido contra o casal István, em Isaszeg, na área do comando da estação. Fundamentos: o soldado Švejk Josef, tendo se apoderado de uma galinha que corria atrás da casa do casal István, em Isaszeg, na área do comando da estação, e pertencente aos cônjuges István, no original expresso pela magnífica palavra alemã recém-criada “Istvangatten”, e tendo sido detido pelo proprietário, que tentou tomar-lhe a galinha, impediu-o disso golpeando o proprietário István com a galinha sobre o olho direito. Detido pela patrulha chamada ao local, foi conduzido à sua unidade, sendo a galinha devolvida ao proprietário.

Assinatura do oficial de serviço

Quando o primeiro-tenente Lukáš assinou o recibo de entrega de Švejk, seus joelhos tremeram.

Švejk estava tão perto que viu o primeiro-tenente Lukáš esquecer-se de acrescentar a data.

“Respeitosamente informo, senhor primeiro-tenente”, disse Švejk, “que hoje é dia vinte e quatro. Ontem foi 23 de maio, quando a Itália nos declarou guerra. Enquanto eu estava lá fora, não se falava em outra coisa.”

Os honvéds e o sargento foram embora, e embaixo ficaram apenas os cônjuges István, que continuavam tentando subir no vagão.

“Caso ainda tenha mais uma nota de cinco, senhor primeiro-tenente, poderíamos comprar essa galinha. Aquele canalha quer quinze florins por ela, mas nisso inclui dez pelo olho roxo”, começou Švejk em tom de narrador, “mas acho, senhor primeiro-tenente, que dez florins por um olho idiota desses é demais. Na Velha Senhora, arrancaram a mandíbula inteira do torneiro Matějů com um tijolo por vinte florins, junto com seis dentes, e naquele tempo o dinheiro valia mais que hoje. O próprio Wohlschläger enforca por quatro florins. Venha cá”, disse Švejk, acenando para o homem de olho roxo que segurava a galinha, “e você, velha, fique aí!”

O homem entrou no vagão.

“Ele sabe um pouco de alemão”, observou Švejk, “e entende todos os palavrões. Também sabe xingar razoavelmente bem em alemão. Also zehn Gulden”, disse, voltando-se para o homem, “fünf Gulden Henne, fünf Auge. Öt forint, está vendo, cocoricó, tíz forint cucu, igen? Aqui é o vagão do Estado-Maior, ladrão. Passe a galinha!”

Enfiou uma nota de dez na mão do homem surpreso, tomou-lhe a galinha, torceu-lhe o pescoço e depois o empurrou para fora do vagão, estendendo-lhe amigavelmente a mão e sacudindo-a com força:

“Jó napot, barátom, adieu, vá para junto de sua velha. Ou derrubo você daqui. Está vendo, senhor primeiro-tenente, como tudo pode ser resolvido”, disse Švejk ao primeiro-tenente Lukáš. “O melhor é quando tudo se resolve sem escândalo, sem grandes cerimônias. Agora eu e Baloun vamos lhe fazer uma sopa de galinha cujo cheiro chegará até a Transilvânia.”

O primeiro-tenente Lukáš não aguentou mais. Arrancou das mãos de Švejk a desgraçada galinha e então berrou:

“Sabe, Švejk, o que merece um soldado que, em tempo de guerra, saqueia a população civil pacífica?”

“Uma morte honrosa por pólvora e chumbo”, respondeu Švejk solenemente.

“O senhor, naturalmente, merece a corda, Švejk, porque foi o primeiro a começar a saquear. O senhor, homem, eu realmente não sei como chamá-lo, esqueceu seu juramento. Minha cabeça está começando a girar.”

Švejk lançou ao primeiro-tenente Lukáš um olhar interrogativo e respondeu depressa:

“Respeitosamente informo que não esqueci o juramento que nosso povo guerreiro deve prestar. Respeitosamente informo, senhor primeiro-tenente, que jurei solenemente ao meu sereníssimo príncipe e senhor Francisco José Primeiro que seria fiel e obediente também aos generais de Sua Majestade e, de modo geral, obedeceria a todos os meus superiores e aos que estivessem acima de mim, que os honraria e protegeria, cumpriria suas determinações e ordens em todos os serviços e, contra qualquer inimigo, fosse ele quem fosse e onde quer que a vontade de Sua Majestade Imperial e Real o exigisse, na água, debaixo da água, em terra, no ar, de dia ou de noite, em batalhas, ataques, combates ou quaisquer outras operações, enfim, em todo lugar…”

Švejk apanhou a galinha do chão e prosseguiu, ereto, olhando o primeiro-tenente Lukáš nos olhos:

“…em todo tempo e em toda oportunidade, lutar valente e virilmente, que jamais abandonaria minhas tropas, bandeiras, estandartes e canhões, jamais entraria no menor entendimento com o inimigo, sempre me comportaria como exigem as leis militares e como convém aos soldados dignos, e que dessa maneira desejava viver e morrer com honra, para o que Deus me ajudasse. Amém. E essa galinha, respeitosamente informo, eu não roubei, não saqueei e me comportei corretamente, consciente de meu juramento.”

“Largue essa galinha, animal!”, berrou o primeiro-tenente Lukáš, golpeando com os documentos a mão em que Švejk segurava a falecida. “Olhe estes autos. Está vendo? Aqui está, preto no branco: ‘É apresentado o soldado Švejk Josef, segundo declaração do ordenança da mesma companhia de marcha… pelo crime de roubo…’ E agora me diga, seu saqueador, sua hiena… não, um dia ainda vou matar você, vou matar, entendeu? Diga, seu imbecil ladrão, como foi que chegou a esse ponto.”

“Respeitosamente informo”, disse Švejk com amabilidade, “que decididamente não pode ser outra coisa senão um engano. Quando recebi sua ordem de arranjar e comprar em algum lugar alguma coisa boa para o senhor comer, comecei a pensar no que seria melhor. Atrás da estação não havia absolutamente nada, só salame de cavalo e uma espécie de carne seca de burro. Eu, respeitosamente informo, senhor primeiro-tenente, pensei muito bem em tudo. Em campanha, é preciso alguma coisa muito nutritiva para suportar melhor os sofrimentos da guerra. E então quis lhe proporcionar uma alegria horizontal. Queria, senhor primeiro-tenente, cozinhar para o senhor uma sopa de galinha.”

“Uma sopa de galinha”, repetiu o primeiro-tenente, agarrando a cabeça.

“Sim, respeitosamente informo, senhor primeiro-tenente: sopa de galinha. Comprei cebola e cinco decagramas de macarrão. Aqui está tudo, por favor. Neste bolso está a cebola e neste aqui, o macarrão. Temos sal no escritório e pimenta também. Não faltava mais nada além de comprar a galinha. Então fui atrás da estação, até Išatarča. Na verdade, é uma aldeia como se nem fosse cidade nenhuma, embora na primeira rua esteja escrito Išatarča vároš. Passei por uma rua com jardinezinhos, depois outra, a terceira, a quarta, a quinta, a sexta, a sétima, a oitava, a nona, a décima, a décima primeira, até que, na décima terceira rua, bem no fim, onde atrás de uma casinha já começavam os gramados, pastava e passeava um bando de galinhas. Fui até elas e escolhi a maior, a mais pesada. Digne-se a olhar para ela, senhor primeiro-tenente, é pura gordura, nem precisa examinar, dá para ver logo de cara que deviam dar muito grão para ela. Então peguei a galinha, inteiramente em público, na presença da população, que gritava alguma coisa para mim em húngaro. Segurei a galinha pelas pernas e perguntei a várias pessoas, em tcheco e em alemão, a quem ela pertencia, para poder comprá-la, quando de repente saiu correndo daquela casinha da ponta um homem com uma mulher e começou primeiro a me xingar em húngaro e depois em alemão, dizendo que eu tinha roubado a galinha dele em plena luz do dia. Eu disse que não gritasse comigo, que tinha sido mandado para comprá-la para o senhor, e contei como estavam as coisas. E a galinha, enquanto eu a segurava pelas pernas, de repente começou a bater as asas e quis voar, e como eu a segurava só de leve na mão, levantou meu braço e quis pousar no nariz do dono. Aí ele começou logo a gritar que eu tinha acertado a cara dele com a galinha. E a mulher berrava alguma coisa e não parava de gritar para a galinha: ‘puta, puta, puta, puta’. Só que então uns idiotas que não tinham entendido nada já estavam trazendo uma patrulha contra mim, uns honvéds, e eu mesmo os convidei a ir comigo ao bahnhofkomando, para que minha inocência viesse à tona como óleo na água. Mas com aquele senhor tenente que estava de serviço lá não houve conversa nenhuma, nem quando pedi que perguntasse ao senhor se era verdade que tinha me mandado comprar alguma coisa boa. Ele ainda gritou para eu calar a boca, porque, segundo ele, já dava para ver nos meus olhos um galho forte com uma boa corda. Devia estar de péssimo humor, pois me disse que só podia estar tão bem cevado um soldado que saqueava e roubava. Segundo ele, já havia mais reclamações na estação. Anteontem, alguém ali perto tinha perdido um peru, e quando eu disse que naquela época ainda estávamos em Ráb, ele respondeu que uma desculpa dessas não colava com ele. Então me mandaram até o senhor, e quando eu já não podia vê-lo, um anspeçada ainda gritou para mim, perguntando se eu não sabia quem tinha diante de mim. Respondi que era gefreiter; se servisse nos caçadores, seria patrollführer, e na artilharia, oberkanonier.”

“Švejk”, disse algum tempo depois o primeiro-tenente Lukáš, “você já teve tantos acasos e acidentes extraordinários, tantos, como costuma dizer, ‘enganos’ e ‘equívocos’, que talvez um dia uma corda forte em volta do pescoço, com todas as honras militares e a tropa formada em quadrado, consiga tirá-lo de suas encrencas. Entendeu?”

“Sim, respeitosamente informo, senhor primeiro-tenente, o quadrado do chamado geschlossene Batalion é formado por quatro companhias, excepcionalmente também por três ou cinco. O senhor ordena, senhor primeiro-tenente, que eu ponha mais macarrão na sopa desta galinha para ficar mais grossa?”

“Švejk, eu ordeno que desapareça daqui com essa galinha, ou vou quebrá-la na sua cabeça, seu imbecil…”

“Às ordens, senhor primeiro-tenente, mas aipo, respeitosamente informo, eu não encontrei, e cenoura também não! Vou pôr bat…”

Švejk não chegou a dizer “ata” e saiu voando com a galinha para fora do vagão do Estado-Maior. O primeiro-tenente Lukáš bebeu de uma vez um cálice de conhaque.

Švejk bateu continência diante das janelas do vagão e foi embora.

Baloun, depois de terminar com êxito seu combate interior, preparava-se justamente para afinal abrir a latinha de sardinhas do primeiro-tenente quando apareceu Švejk com a galinha, o que provocou naturalmente uma agitação entre todos os presentes no vagão. Todos olharam para ele como se quisessem dizer com absoluta certeza: Onde foi que você roubou isso?

“Comprei para o senhor primeiro-tenente”, respondeu Švejk, tirando dos bolsos a cebola e o macarrão. “Eu queria fazer uma sopa para ele, mas ele não quer mais, então me deu a galinha de presente.”

“Ela não estava morta?” perguntou, desconfiado, o sargento-contador Vaněk.

“Eu mesmo torci o pescoço dela”, respondeu Švejk, tirando uma faca do bolso.

Baloun olhou para Švejk com gratidão e, ao mesmo tempo, com uma expressão de respeito, e começou em silêncio a preparar o fogareiro a álcool do primeiro-tenente. Depois pegou as canecas e correu com elas para buscar água.

O telegrafista Chodounský aproximou-se de Švejk e ofereceu-se para ajudá-lo a depenar a galinha, enquanto lhe sussurrava ao ouvido uma pergunta íntima:

“É longe daqui? Tem que pular o muro para entrar no quintal ou fica solta?”

“Eu comprei.”

“Cala a boca, camarada. Nós vimos quando trouxeram você.”

Ainda assim, participou com entusiasmo da depenação da galinha. Aos grandiosos e solenes preparativos juntou-se também o cozinheiro ocultista Jurajda, que cortou batatas e cebola para a sopa.

As penas jogadas para fora do vagão chamaram a atenção do tenente Dub, que rondava os vagões.

Ele gritou para dentro, mandando que aparecesse quem estava depenando a galinha, e na porta surgiu o rosto satisfeito de Švejk.

“O que é isto?” gritou o tenente Dub, apanhando do chão a cabeça cortada da galinha.

“Isto, respeitosamente informo”, respondeu Švejk, “é a cabeça de uma galinha da raça italiana preta. São poedeiras muito boas, senhor tenente. Põem até duzentos e sessenta ovos por ano. Digne-se a olhar como ela tinha um ovário rico.”

Švejk segurou diante do nariz do tenente Dub os intestinos e as outras vísceras da galinha.

Dub cuspiu, foi embora e pouco depois voltou:

“Para quem é essa galinha?”

“Para nós, respeitosamente informo, senhor tenente. Veja quanta gordura tem.”

O tenente Dub afastou-se resmungando:

“Nós nos encontraremos em Filippi.”

“O que foi que ele disse para você?” perguntou Jurajda a Švejk.

“Marcamos um encontro em algum lugar chamado Filippi. Esses senhores distintos costumam ser todos uns viados.”

O cozinheiro ocultista declarou que os únicos estetas eram os homossexuais, o que já decorria da própria essência do esteticismo.

O sargento-contador Vaněk contou então casos de abuso de crianças por pedagogos nos mosteiros espanhóis.

E enquanto a água no caldeirão sobre o álcool começava a ferver, Švejk mencionou como certa vez confiaram a um educador uma colônia de crianças vienenses abandonadas, e esse educador abusou da colônia inteira.

“Isso é mesmo uma paixão, mas o pior é quando dá nas mulheres. Em Praga II, anos atrás, havia duas senhoras abandonadas, divorciadas porque eram umas vagabundas, uma tal Mourková e outra Šousková. Um dia, quando as cerejeiras estavam floridas na alameda de Roztoky, elas pegaram à noite um velho tocador de realejo, impotente, de cem anos, arrastaram o sujeito para o bosque de Roztoky e o estupraram. O que elas fizeram com ele! Lá em Žižkov tem o professor Axamit, que fazia escavações procurando túmulos de mortos enterrados encolhidos, e já tinha desenterrado alguns. E elas arrastaram aquele tocador de realejo para um desses túmulos escavados e lá o esfolaram e abusaram dele. No dia seguinte, o professor Axamit chegou e viu que havia alguma coisa deitada no túmulo. Ficou todo contente, mas era o tocador de realejo, esfolado e torturado por aquelas senhoras divorciadas. Em volta dele havia um monte de pauzinhos. Cinco dias depois, o tocador de realejo morreu, e aquelas desgraçadas ainda tiveram a cara de pau de ir ao enterro. Isso é que é perversão. Você salgou?” perguntou Švejk a Baloun, que tinha aproveitado o interesse geral pela história para esconder alguma coisa na mochila. “Mostre o que está fazendo aí. Baloun”, disse Švejk, sério, “o que você pretende fazer com essa coxa de galinha? Vejam só. Ele roubou nossa coxa de galinha para depois cozinhá-la escondido. Sabe, Baloun, o que você fez? Sabe como se castiga no exército quem rouba um camarada em campanha? Amarra-se o sujeito à boca de um canhão e ele é disparado com metralha. Agora é tarde para suspirar. Quando encontrarmos alguma artilharia na frente, você vai se apresentar ao oberfeuerwerker mais próximo. Por enquanto, como castigo, vai fazer exercício. Saia do vagão.”

O infeliz Baloun desceu, e Švejk, sentado na porta do vagão, começou a comandar:

“Habt Acht! Ruht! Habt Acht! Rechts schaut! Habt Acht! Olhe de novo para a frente! Ruht! Agora você vai fazer exercícios corporais parado. Rechts um! Homem! O senhor é uma vaca. Seus chifres precisam ficar onde antes estava seu ombro direito. Herstellt! Rechts um! Links um! Halbrechts! Assim não, seu boi! Herstellt! Halbrechts! Viu só, mula, como dá certo! Halblinks! Links um! Links! Front! Front, idiota! Não sabe o que é front? Gradaus! Kehrt euch! Kniet! Nieder! Setzen! Auf! Setzen! Nieder! Auf! Nieder! Auf! Setzen! Auf! Ruht! Viu só, Baloun? Isso faz bem à saúde, pelo menos você faz a digestão!”

Em volta, as pessoas começaram a se juntar em massa e a romper em vivas.

“Façam o favor de abrir espaço”, gritava Švejk. “Ele vai marchar. Então, Baloun, preste atenção para eu não ter que mandar herstellt. Não gosto de atormentar a tropa sem necessidade. Então: Direktion Bahnhof! Veja para onde estou apontando. Marschieren marsch! Glied, halt! Pare, porra, ou mando prender você! Glied, halt! Finalmente você parou, seu imbecil. Kurzer Schritt! Não sabe o que é kurzer Schritt? Vou lhe mostrar até você ficar roxo! Voller Schritt! Wechselt Schritt! Ohne Schritt! Seu búfalo! Quando eu digo Ohne Schritt, você tem que mexer as canelas sem sair do lugar.”

Já havia pelo menos duas companhias em volta. Baloun suava, não sabia mais de si, e Švejk continuava comandando:

“Gleicher Schritt! Glied rückwärts marsch! Glied halt! Laufschritt! Glied marsch! Schritt! Glied halt! Ruht! Habt Acht! Direktion Bahnhof! Laufschritt marsch! Halt! Kehrt euch! Direktion Wagon! Laufschritt marsch! Kurzer Schritt! Glied halt! Ruht! Agora você vai descansar um pouquinho! Depois começamos tudo de novo. Com boa vontade, consegue-se tudo.”

“O que está acontecendo aqui?” ouviu-se a voz do tenente Dub, que veio correndo, inquieto.

“Respeitosamente informo, senhor tenente”, disse Švejk, “que estamos fazendo um pouco de exercício para não esquecer a ordem unida e não passar inutilmente na vadiagem este tempo precioso da guerra.”

“Desça do vagão”, ordenou o tenente Dub. “Agora já chega. Vou levá-lo ao senhor comandante do batalhão.”

Quando Švejk entrou no vagão do Estado-Maior, o primeiro-tenente Lukáš saiu pela outra porta do vagão e foi para a plataforma.

O capitão Ságner, quando o tenente Dub lhe comunicou as estranhas estripulias, como se expressou, do bom soldado Švejk, estava de excelente humor, porque o gumpoldskirchen era realmente magnífico.

“Então o senhor não quer passar inutilmente na vadiagem este tempo precioso”, sorriu ele de modo significativo. “Matušič, venha aqui!”

O ordenança do batalhão recebeu ordem de chamar Nasáklo, o sargento da 12ª companhia, conhecido como o maior tirano de todos, e de providenciar imediatamente um fuzil para Švejk.

“Este homem aqui”, disse o capitão Ságner ao sargento Nasáklo, “não quer passar inutilmente na vadiagem este tempo precioso. Leve-o para trás do vagão e durante uma hora pratique com ele o manejo do fuzil. Mas sem misericórdia nenhuma, sem descanso. Principalmente bem seguido: setzt ab, an, setzt ab! O senhor verá, Švejk, que não vai se aborrecer”, disse-lhe quando ele saía.

Pouco depois, já se ouvia atrás do vagão uma ordem áspera, que ressoava solenemente entre os trilhos. O sargento Nasáklo, que justamente estava jogando vinte e um e segurava a banca, berrava para o espaço de Deus:

“Beim Fuß! Schultert! Beim Fuß! Schultert!”

Depois houve um momento de silêncio, e ouviu-se a voz de Švejk, satisfeita e ponderada:

“Aprendi tudo isso no serviço ativo, anos atrás. Quando se dá Beim Fuß!, o fuzil fica apoiado no lado direito. A ponta da coronha fica em linha reta com a ponta dos pés. O braço direito fica naturalmente esticado e segura o fuzil de tal maneira que o polegar abraça o lauf, enquanto os outros dedos devem apertar a coronha pela frente. E quando se dá Schultert!, o fuzil fica solto pela correia no ombro direito, com o laufmündunk para cima e o lauf para trás…”

“Chega dessa conversa fiada”, ouviu-se novamente a ordem do sargento Nasáklo. “Habt Acht! Rechts schaut! Hergot, que jeito é esse…”

“Estou em schultert, e quando se dá Rechts schaut!, minha mão direita desliza para baixo pela correia, abraço o pescoço da coronha e viro a cabeça para a direita. Depois, no Habt Acht!, pego novamente a correia com a mão direita e minha cabeça volta a olhar para a frente, para o senhor.”

E novamente soou a voz do sargento:

“In die Balanz! Beim Fuß! In die Balanz! Schul-tert! Bajonett auf! Bajonett ab! Fällt das Bajonett! Zum Gebet! Vom Gebet! Kniet nieder zum Gebet! Laden! Schießen! Schießen halbrechts! Ziel Stabswagon! Distanz 200 Schritt… Fertig! An! Feuer! Setzt ab! An! Feuer! An! Feuer! Setzt ab! Aufsatz normal! Patronen versorgen! Ruht!”

O sargento começou a enrolar um cigarro.

Enquanto isso, Švejk examinou o número do fuzil e disse:

“4268! Esse mesmo número tinha uma locomotiva em Pečky, na linha, no trilho 16. Deviam rebocá-la até o depósito de Lysá nad Labem para conserto, mas não foi tão fácil, porque, senhor sargento, o maquinista que devia levá-la até lá tinha uma memória péssima para números. Então o chefe de linha chamou o homem ao escritório e disse: ‘No trilho 16 está a locomotiva número 4268. Sei que o senhor tem péssima memória para algarismos e que, quando anotam um número num papel para o senhor, acaba perdendo o papel. Mas preste muita atenção. Como o senhor é tão fraco em algarismos, vou lhe mostrar que é muito fácil memorizar qualquer número. Veja: a locomotiva que deve rebocar até o depósito de Lysá nad Labem tem o número 4268. Então preste atenção: o primeiro algarismo é quatro e o segundo é dois. Portanto, memorize 42. Isso é duas vezes 2, que na ordem da frente dá 4, dividido por 2 dá 2, e temos de novo 4 e 2 lado a lado. Agora não se assuste. Quanto é duas vezes 4? Oito, não é verdade? Grave então na memória que o oito é o último algarismo do número 4268. Falta ainda, já que o senhor sabe que o primeiro é 4, o segundo é 2 e o quarto é 8, memorizar de maneira inteligente o seis que vem antes do oito. E isso é terrivelmente simples. O primeiro algarismo é 4, o segundo é 2, quatro mais dois dá seis. Então já tem certeza de que o segundo a contar do fim é seis, e agora essa sequência de números nunca mais desaparecerá de sua memória. O número 4268 ficou cravado na sua cabeça. Ou também pode chegar ao mesmo resultado de maneira ainda mais simples…’”

O sargento parou de fumar, arregalou os olhos para ele e apenas balbuciou:

“Kappe ab!”

Švejk prosseguiu com seriedade:

“Então ele começou a explicar ao maquinista aquele método mais simples para memorizar o número da locomotiva 4268. Oito menos dois é 6. Portanto, já conhece 68. Seis menos 2 é 4, então já conhece 4-68, e aquele 2 colocado ali dá 4-2-6-8. Também não é muito trabalhoso quando se faz de outro jeito, com multiplicação e divisão. Chega-se igualmente a esse resultado. ‘Lembre-se’, disse o chefe de linha, ‘que duas vezes 42 é 84. O ano tem 12 meses. Subtraem-se então 12 de 84 e sobram 72. Tirando ainda outros doze meses, temos 60. Portanto, já temos um seis seguro, e riscamos o zero. Assim, sabemos 42 68 4. Já que riscamos o zero, riscamos também aquele quatro lá atrás, e temos novamente, com toda a tranquilidade, 4268, o número da locomotiva que pertence ao depósito de Lysá nad Labem. E, como eu disse, com divisão também é fácil. Calculamos o coeficiente segundo a tarifa aduaneira.’ Espero que o senhor não esteja passando mal, senhor feldvébl. Caso queira, posso começar, por exemplo, com General de charge! Fertig! Hoch an! Feuer! Diabos! O senhor capitão não devia ter nos mandado para o sol! Preciso buscar uma maca.”

Quando o médico chegou, constatou que se tratava ou de uma insolação ou de uma meningite aguda.

Quando o sargento voltou a si, Švejk estava ao lado dele e disse:

“Então, para terminar a história: o senhor acha, senhor sargento, que o maquinista se lembrou? Ele confundiu tudo e multiplicou por três, porque se recordou da Santíssima Trindade, e não encontrou a locomotiva. Ela ainda está lá, no trilho 16.”

O sargento fechou novamente os olhos.

E quando Švejk voltou ao vagão, à pergunta de onde estivera durante tanto tempo, respondeu:

“Quem ensina laufšrit aos outros faz schul-tert cem vezes!”

No fundo do vagão, Baloun tremia. Durante a ausência de Švejk, quando uma parte da galinha já estava cozida, tinha devorado metade da porção dele.

Antes da partida do trem, um comboio militar misto, composto de elementos diversos, alcançou o trem militar de transporte. Eram retardatários ou soldados vindos de hospitais militares que procuravam alcançar suas unidades, além de outros indivíduos suspeitos que voltavam de destacamentos ou de prisões.

Desse trem desceu também o voluntário de um ano Marek, que havia sido acusado de motim por se recusar a limpar latrinas. O tribunal divisionário, porém, o absolvera, a investigação fora encerrada, e por isso o voluntário de um ano Marek aparecia agora no vagão do Estado-Maior para se apresentar ao comandante do batalhão. Até então, o voluntário de um ano não pertencia a unidade nenhuma, pois o levavam de uma prisão para outra.

Quando o capitão Ságner viu o voluntário de um ano e recebeu dele os documentos referentes à sua chegada, acompanhados da observação muito secreta “Politisch verdächtig! Vorsicht!”, não ficou muito satisfeito. Por sorte, lembrou-se do general das latrinas, que recomendara de maneira tão interessante completar o batalhão com um batalionsgeschichtsschreiber.

“O senhor é muito negligente, voluntário de um ano”, disse-lhe. “Na escola dos voluntários de um ano, foi um verdadeiro flagelo. Em vez de procurar distinguir-se e alcançar o posto que lhe caberia segundo sua inteligência, andou vagando de prisão em prisão. O regimento é obrigado a se envergonhar do senhor, voluntário de um ano. Mas pode corrigir seu erro se, cumprindo corretamente seus deveres, voltar a ocupar um lugar entre os bons soldados. Dedique suas forças ao batalhão com amor. Vou fazer uma experiência com o senhor. É um jovem inteligente e com certeza tem capacidade para escrever, para redigir. Vou lhe dizer uma coisa. Todo batalhão em campanha precisa de um homem que mantenha um registro cronológico de todos os acontecimentos militares diretamente relacionados com a atuação do batalhão no campo de guerra. É necessário descrever todas as campanhas vitoriosas, todos os momentos importantes e gloriosos dos quais o batalhão participa, nos quais desempenha um papel dirigente e destacado, e assim ir compondo aos poucos uma contribuição para a história do exército. Está me entendendo?”

“Respeitosamente informo que sim, senhor capitão. Trata-se dos episódios da vida de todas as unidades. O batalhão tem sua história. Com base nas histórias de seus batalhões, o regimento compõe a história do regimento. Os regimentos formam a história da brigada, as histórias das brigadas, a história da divisão, e assim por diante. Empregarei todas as minhas forças, senhor capitão.”

O voluntário de um ano Marek colocou a mão sobre o coração.

“Registrarei com verdadeiro amor os dias gloriosos de nosso batalhão, especialmente hoje, quando a ofensiva está em pleno curso e a coisa vai ficar séria, quando nosso batalhão cobrir o campo de batalha com seus filhos heroicos. Registrarei conscienciosamente todos os acontecimentos que inevitavelmente hão de ocorrer para que as páginas da história de nosso batalhão sejam cobertas de louros.”

“O senhor permanecerá junto ao Estado-Maior do batalhão, voluntário de um ano. Prestará atenção em quem for proposto para condecoração e registrará, naturalmente de acordo com nossas anotações, as marchas que chamarem particularmente a atenção para o destacado ardor combativo e para a disciplina de aço do batalhão. Não é tão simples, voluntário de um ano, mas espero que tenha talento de observação suficiente para, recebendo de mim certas diretrizes, elevar nosso batalhão acima dos demais agrupamentos. Enviarei um telegrama ao regimento comunicando que o nomeei batalionsgeschichtsschreiber. Apresente-se ao sargento-contador Vaněk, da 11ª companhia, para que ele o acomode no vagão. Lá ainda há mais espaço do que nos outros, e diga-lhe que venha falar comigo. Naturalmente, o senhor será incluído no efetivo do Estado-Maior do batalhão. Isso será feito por meio de ordem do batalhão.”

O cozinheiro ocultista dormia. Baloun continuava tremendo, pois já tinha aberto também as sardinhas do primeiro-tenente. O sargento-contador Vaněk tinha ido falar com o capitão Ságner, e o telegrafista Chodounský conseguira às escondidas em algum lugar da estação uma garrafinha de borovička. Bebeu-a, encontrava-se agora num estado de espírito sentimental e cantava:

Enquanto em doces dias eu vagava,
tudo me parecia fiel,
meu peito então respirava fé
e meu olhar ardia de amor.
Mas quando vi que a terra inteira
era traiçoeira como um chacal,
murchou a fé, murchou o amor
e pela primeira vez chorei.

Depois se levantou, foi até a mesa do sargento-contador Vaněk e escreveu em letras grandes num pedaço de papel:

Solicito respeitosamente ser nomeado e promovido a batalionshornista.

Chodounský, telegrafista

O capitão Ságner não teve uma conversa muito longa com o sargento-contador Vaněk. Limitou-se a chamar sua atenção para o fato de que, por enquanto, o batalionsgeschichtsschreiber, voluntário de um ano Marek, ficaria no vagão com Švejk.

“Posso lhe dizer apenas que esse homem, Marek, é, por assim dizer, suspeito. Politisch verdächtig. Meu Deus! Hoje em dia isso não é nada tão extraordinário. De quem não dizem isso? Existem várias suposições desse tipo. O senhor me entende. Portanto, só quero adverti-lo para que, caso ele diga alguma coisa que, bem, o senhor compreende, corte-o imediatamente, para que eu também não tenha algum aborrecimento. Diga simplesmente que deixe de lado toda essa conversa, e assim tudo ficará resolvido. Mas não quero dizer com isso que o senhor deva vir correndo até mim. Resolva o assunto com ele de maneira amistosa. Uma advertência dessas é sempre melhor do que alguma denúncia idiota. Em suma, não quero ouvir coisa nenhuma, porque… O senhor entende. Uma coisa dessas acaba sempre recaindo também sobre o batalhão inteiro.”

Quando Vaněk voltou, chamou o voluntário de um ano Marek de lado e lhe disse:

“Homem, você é suspeito, mas isso não importa. Só não fique falando muita besteira na frente daquele Chodounský, o telegrafista.”

Mal tinha acabado de falar, Chodounský veio cambaleando e caiu nos braços do sargento-contador, soluçando com voz embriagada algo que talvez devesse ser uma canção:

Quando tudo me abandonou,
inclinei a cabeça em teu peito,
sobre teu coração ardente e puro
derramei lágrimas dolorosas.
E em teus olhos ardeu um fogo
como estrela de brilho fulgente,
e teus lábios de coral sussurraram:
Eu jamais te abandonarei.

“Nós nunca vamos abandonar uns aos outros”, berrava Chodounský. “Tudo o que eu ouvir no telefone, conto na mesma hora para vocês. Estou cagando para o juramento.”

Num canto, Baloun benzeu-se de terror e começou a rezar em voz alta:

“Mãe de Deus, não rejeiteis meu clamor suplicante, mas ouvi-me misericordiosamente, consolai-me com bondade, ajudai a este miserável que vos chama com fé viva, esperança firme e amor ardente neste vale de lágrimas. Ó rainha celestial, fazei por vossa intercessão que eu também permaneça na graça de Deus e sob vossa proteção até o fim de minha vida…”

A Bem-Aventurada Virgem Maria realmente intercedeu por ele, pois pouco depois o voluntário de um ano tirou de sua pobre mochila várias latinhas de sardinhas e deu uma a cada um.

Baloun abriu corajosamente a maleta do primeiro-tenente Lukáš e colocou ali as sardinhas caídas do céu.

Quando todos abriram suas sardinhas em óleo e começaram a saboreá-las, Baloun caiu em tentação, abriu a maleta e também as sardinhas e as engoliu vorazmente.

Então a santíssima e dulcíssima Virgem Maria afastou-se dele, pois, justamente quando terminava de beber o óleo da lata, apareceu diante do vagão o ordenança do batalhão Matušič, gritando para cima:

“Baloun, você tem que levar aquelas sardinhas para o seu primeiro-tenente.”

“Vai levar uma surra daquelas”, disse o sargento Vaněk.

“É melhor não ir lá de mãos vazias”, aconselhou Švejk. “Leve pelo menos cinco latas vazias.”

“Mas o que foi que o senhor fez para Deus castigá-lo desse jeito?”, observou o voluntário de um ano. “Deve haver algum grande pecado no seu passado. Por acaso o senhor não cometeu um sacrilégio e comeu o presunto que o seu pároco tinha na chaminé? Não bebeu o vinho da missa que ele guardava no porão? Quando menino, não ia roubar peras no pomar da casa paroquial?” Baloun afastou-se cambaleando, com uma expressão desesperada no rosto, cheia de desalento. Agora seu ar acossado dizia, de cortar o coração: quando é que esse sofrimento vai acabar?

“É isso”, disse o voluntário de um ano, que ouvira as palavras do infeliz Baloun. “O senhor, meu amigo, perdeu a ligação com Deus. Não sabe rezar direito para que Deus Nosso Senhor o tire deste mundo o mais depressa possível.”

Švejk acrescentou:

“O Baloun não consegue tomar coragem de entregar à bondade do coração materno do Deus Altíssimo a sua vida militar, os seus pensamentos militares, as palavras, os atos e até a sua morte militar, como dizia aquele meu capelão militar Katz quando já começava a ficar bêbado e, por engano, esbarrava na rua em algum soldado.”

Baloun gemeu que já perdera a confiança em Deus, pois tantas vezes rezara para que lhe desse forças e, de algum modo, encolhesse aquele seu estômago.

“Isso não vem desta guerra”, lamentou-se. “É uma doença antiga, essa minha comilança. Por causa dela, minha mulher ia com as crianças em peregrinação a Klokoty.”

“Eu conheço”, observou Švejk. “Fica perto de Tábor, e lá eles têm uma Nossa Senhora rica, com brilhantes falsos, que um sacristão de algum lugar da Eslováquia quis roubar. Um homem muito religioso. Então ele foi até lá e achou que talvez tivesse mais sucesso se primeiro se purificasse de todos os pecados antigos, e confessou inclusive que no dia seguinte pretendia roubar a Nossa Senhora. Não deu nem tempo de dizer ‘sapateiro’, e antes que ele rezasse os trezentos pais-nossos que o padre lhe dera de penitência, para que não fugisse nesse meio-tempo, os sacristãos já o estavam levando direto para o posto da gendarmaria.”

O cozinheiro ocultista começou a discutir com o telegrafista Chodounský se aquilo era uma violação do segredo da confissão que clamava aos céus ou se nem valia a pena falar no assunto, já que se tratava de brilhantes falsos. No fim, porém, demonstrou a Chodounský que aquilo fora o carma, ou seja, um destino predeterminado em um passado remoto e desconhecido, quando talvez o infeliz sacristão da Eslováquia ainda fosse um cefalópode em algum planeta estrangeiro, e que o mesmo destino já havia determinado havia muito tempo, quando talvez aquele padre de Klokoty ainda fosse, digamos, uma equidna, algum mamífero marsupial hoje extinto, que ele teria de violar o segredo da confissão, embora, do ponto de vista jurídico, segundo o direito canônico, se conceda a absolvição mesmo quando se trata dos bens de um mosteiro.

A isso Švejk acrescentou esta simples observação:

“É, ninguém sabe o que vai aprontar daqui a alguns milhões de anos, e não se pode renunciar a nada. O primeiro-tenente Kvasnička, quando ainda servíamos em Karlín, no erkencukskomando, sempre dizia, quando dava instrução: ‘Não pensem, seus besouros de merda, suas vacas preguiçosas e seus porcos gordos, que esta guerra vai acabar para vocês neste mundo. Ainda vamos nos encontrar depois da morte, e eu vou preparar um purgatório tão bonito que vocês vão ficar desnorteados, seus filhos da puta.’”

Enquanto isso Baloun, que, em completo desespero, continuava convencido de que só se falava dele e de que tudo dizia respeito a ele, prosseguiu em sua confissão pública:

“Nem Klokoty adiantava contra a minha comilança. Minha mulher voltava da peregrinação com as crianças e já começava a contar as galinhas. Faltava uma ou duas. Mas eu não conseguia me controlar. Sabia que elas faziam falta em casa por causa dos ovos, mas saía para o quintal, ficava olhando para elas, de repente sentia um abismo no estômago, e uma hora depois já estava tudo bem, a galinha já estava depenada. Uma vez, quando elas estavam em Klokoty rezando por mim, para o papai não comer nada em casa enquanto isso e não causar outro prejuízo, eu estava andando pelo terreiro e de repente um peru me caiu nas vistas. Naquela ocasião, eu podia ter pagado com a vida. Um osso da coxa ficou entalado na minha garganta, e não fosse o meu garotinho, um menino pequeno que arrancou o osso de lá, eu hoje não estaria sentado aqui com vocês e nem teria chegado a ver esta guerra mundial. Ah, sim. Aquele meu garotinho era esperto. Tão pequenininho, rechonchudo, atarracado, gorducho...”

Švejk aproximou-se de Baloun:

“Mostre a língua!”

Baloun pôs a língua para fora na direção de Švejk, e então Švejk se virou para todos os que estavam no vagão:

“Eu sabia. Comeu até o próprio garotinho. Confesse, quando foi que comeu ele? Quando a sua família foi de novo a Klokoty, não foi?”

Baloun juntou as mãos em desespero e exclamou:

“Deixem-me em paz, camaradas! Ainda por cima ter de aguentar isso dos próprios camaradas.”

“Nós não o condenamos por isso”, disse o voluntário de um ano. “Pelo contrário, dá para ver que o senhor será um bom soldado. Quando os franceses, durante as guerras napoleônicas, sitiaram Madri, o comandante espanhol de Madri, em vez de entregar a fortaleza por causa da fome, comeu o próprio ajudante de ordens sem sal.”

“Isso é que foi sacrifício de verdade, porque um ajudante de ordens salgado seria certamente muito mais comestível. Como é mesmo o nome, senhor rechnungsfeldvébl, daquele nosso ajudante do batalhão? Ziegler? É um sujeitinho tão esquivo que dele não se fariam porções nem para uma única companhia de marcha.”

“Vejam só”, disse o sargento-contador Vaněk. “Baloun está com um rosário na mão.”

E de fato Baloun, em sua maior aflição, procurava a salvação nas pequenas contas de sementes de klokočí da firma Moritz Löwenstein, de Viena.

“Esse também veio de Klokoty”, disse Baloun, tristemente. “Antes que me trouxessem, dois gansinhos deram o último suspiro, mas aquilo não é carne de verdade, é uma moleza.”

Pouco depois veio por todo o trem a ordem de que partiriam dentro de quinze minutos. Como ninguém quis acreditar, aconteceu que, apesar de toda a vigilância, alguns se afastaram para diversos lugares. Quando o trem se pôs em movimento, faltavam dezoito homens, entre eles o sargento Nasáklo, da 12ª companhia de marcha, que, quando o trem já havia desaparecido havia muito atrás de Išatarča, ainda discutia, num pequeno bosque de acácias atrás da estação, dentro de uma depressão rasa, com uma vagabunda que queria cobrar-lhe cinco coroas, enquanto ele propunha como recompensa pelo serviço já executado uma coroa ou alguns tapas na cara, acordo a que finalmente chegaram com tamanha veemência que, aos gritos dela, começou a acorrer gente da estação.

As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Sinopse

Edição integral em português brasileiro de As Aventuras do Bom Soldado Švejk, traduzida diretamente do original tcheco de domínio público, preservando a estrutura dos quatro livros e suas 29 unidades.

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