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As Aventuras do Bom Soldado Švejk

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As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Capítulo 20 · As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Livro II: Na frente — As aventuras de Švejk em Királyhida

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Livro II: Na frente

As aventuras de Švejk em Királyhida

O 91º Regimento estava sendo transferido para Bruck an der Leitha, Királyhida.

Exatamente quando faltavam três horas para Švejk ser posto em liberdade depois de seus três dias de prisão, ele e o voluntário de um ano foram levados à sala principal da guarda e, sob escolta de soldados, conduzidos até a estação.

“Isso já se sabia fazia muito tempo”, disse-lhe o voluntário de um ano durante o caminho, “que seríamos transferidos para a Hungria. Lá vão formar os batalhões de marcha, os soldados serão treinados no tiro de campanha, brigarão com os húngaros e partiremos alegremente para os Cárpatos. Aqui em Budějovice, os húngaros virão compor a guarnição, e as raças irão misturar-se. Existe uma teoria segundo a qual violentar moças de outra nacionalidade é o melhor remédio contra a degeneração. Foi o que fizeram os suecos e os espanhóis durante a Guerra dos Trinta Anos, os franceses na época de Napoleão, e agora, na região de Budějovice, serão os magiares, só que isso não envolverá violência bruta. Com o tempo, todas vão se entregar. Será uma simples troca. O soldado tcheco dormirá com uma moça húngara e a pobre mocinha tcheca receberá junto de si um honvede húngaro. E, dentro de alguns séculos, será uma surpresa interessante para os antropólogos descobrir por que surgiram maçãs do rosto salientes nas pessoas que vivem às margens do Malše.”

“Essa história de acasalamento mútuo”, observou Švejk, “é uma coisa muito interessante. Em Praga há um garçom negro chamado Kristián, cujo pai foi rei da Abissínia e se exibia num circo na ilha de Štvanice, em Praga. Uma professora que escrevia poemas para a revista Lada sobre pastores e um riacho na floresta apaixonou-se por ele, foi com ele para um hotel e fornicou com ele, como se diz nas Sagradas Escrituras. Depois ficou muito admirada quando nasceu um menininho completamente branco. Sim, mas depois de catorze dias o menino começou a ficar moreno. Foi ficando moreno, moreno, e depois de um mês começou a escurecer. Aos seis meses estava preto como o pai, o rei da Abissínia. Ela o levou para uma clínica de doenças de pele para ver se conseguiam descolori-lo de algum jeito, mas lá lhe disseram que aquilo era pele negra legítima de mouro e que não havia nada a fazer. Então ela enlouqueceu, começou a pedir nos jornais conselhos sobre o que se podia fazer contra os mouros, levaram-na para Kateřinky e puseram o mourinho num orfanato, onde se divertiam muito com ele. Depois ele aprendeu o ofício de garçom e costumava ir dançar nos cafés noturnos. Hoje nascem dele mulatos tchecos com enorme sucesso, que já não são tão escuros quanto ele. Um estudante de medicina que frequentava o U Kalicha certa vez nos explicou que isso não é tão simples. Um mestiço desses gera outro mestiço, e estes já ficam impossíveis de distinguir das pessoas brancas. Mas de repente, em alguma geração, reaparece um negro. Imagine só a desgraça. Você se casa com uma senhorita. A criatura é completamente branca e, de repente, dá à luz um negro. E, caso nove meses antes ela tenha ido sem você assistir, num teatro de variedades, a umas lutas atléticas em que se apresentava algum negro, acho que isso deixaria você com a pulga atrás da orelha.”

“O caso de seu negro Kristián”, disse o voluntário de um ano, “também precisa ser analisado do ponto de vista militar. Suponhamos que tenham recrutado esse negro. Ele é de Praga, portanto pertence ao 28º Regimento. Com certeza você ouviu dizer que o 28º passou para o lado dos russos. Imagine como os russos ficariam admirados se capturassem também o negro Kristián. Os jornais russos certamente escreveriam que a Áustria estava lançando na guerra suas tropas coloniais, que não possui, e que a Áustria já precisou recorrer às reservas negras.”

“Dizia-se”, comentou Švejk, “que a Áustria tinha colônias, em algum lugar do norte. Uma tal de Terra do Imperador Francisco José...”

“Parem com isso, rapazes”, disse um dos soldados da escolta. “Hoje é muita imprudência ficar falando de uma tal Terra do Imperador Francisco José. Não mencionem ninguém, que é melhor...”

“Então olhe no mapa”, interrompeu o voluntário de um ano, “e verá que realmente existe uma terra de nosso clementíssimo soberano, o imperador Francisco José. Segundo as estatísticas, lá só existe gelo, que é exportado em quebra-gelos pertencentes às fábricas de gelo de Praga. Essa indústria de gelo é extraordinariamente apreciada e respeitada até pelos estrangeiros, pois é um empreendimento lucrativo, embora perigoso. O maior perigo ocorre durante o transporte do gelo da Terra do Imperador Francisco José através do círculo polar. Consegue imaginar?”

O soldado da escolta resmungou algo indistinto, e o cabo que acompanhava a escolta aproximou-se para ouvir o restante da explicação do voluntário de um ano, que prosseguiu seriamente:

“Essa única colônia austríaca pode abastecer toda a Europa de gelo e constitui um excelente fator para a economia nacional. A colonização, naturalmente, avança devagar, pois uma parte dos colonos não se apresenta e outra parte morre congelada. Contudo, com a adaptação das condições climáticas, pela qual tanto o Ministério do Comércio quanto o Ministério das Relações Exteriores têm grande interesse, há esperança de que as vastas extensões de geleiras sejam devidamente aproveitadas. Com a instalação de alguns hotéis, serão atraídas multidões de turistas. Naturalmente, será preciso preparar trilhas turísticas e caminhos apropriados entre os blocos de gelo, além de pintar sinais turísticos nas geleiras. A única dificuldade são os esquimós, que impedem nossos órgãos locais de realizar esse trabalho... Os sujeitos não querem aprender alemão”, continuou o voluntário de um ano, enquanto o cabo o escutava com interesse. Era um militar da ativa, na vida civil havia sido criado de lavoura, era imbecil e grosseiro, engolia tudo aquilo de que não fazia a menor ideia, e seu ideal era permanecer voluntariamente no serviço além do tempo obrigatório.

“O Ministério da Educação, senhor cabo, construiu para eles, com grandes despesas e sacrifícios, durante os quais cinco construtores morreram congelados...”

“Os pedreiros se salvaram”, interrompeu-o Švejk, “porque se aqueceram com cachimbos acesos.”

“Nem todos”, disse o voluntário de um ano. “Dois sofreram um acidente: esqueceram de dar umas tragadas, os cachimbos se apagaram e tiveram de enterrá-los no gelo. Mas, no fim, a escola foi construída com tijolos de gelo e concreto armado, combinação que se mantém muito bem unida. Só que os esquimós fizeram uma fogueira ao redor dela com a madeira retirada dos navios mercantes presos no gelo e conseguiram o que queriam. O gelo sobre o qual a escola fora construída derreteu, e a escola inteira, com o diretor e o representante do governo, que deveria comparecer no dia seguinte à inauguração solene, afundou no mar. Só se ouviu o representante do governo, quando a água já lhe chegava ao pescoço, gritar: Gott strafe England! Agora provavelmente mandarão tropas para pôr ordem entre os esquimós. É claro que será uma guerra difícil. O que mais prejudicará nossas tropas serão os ursos-polares domesticados.”

“Só faltava essa”, observou sabiamente o cabo. “Já há invenções de guerra de todo tipo. Por exemplo, recebemos máscaras de gás para envenenamento por gás. Você enfia aquilo na cabeça e fica envenenado, como nos explicaram na Unteroffiziersschule.”

“Eles só estão tentando assustar vocês”, interveio Švejk. “Soldado nenhum deve ter medo de nada. Mesmo que, durante o combate, caia dentro de uma latrina, basta se lamber e seguir de volta para o combate. E todo mundo já está acostumado com gases venenosos por causa do quartel, quando servem pão fresco do comissariado e ervilha com cevada. Mas dizem que agora os russos inventaram alguma coisa contra os graduados...”

“Devem ser correntes elétricas especiais”, completou o voluntário de um ano. “Elas se combinam com as estrelinhas da gola, e as estrelinhas explodem porque são feitas de celuloide. Será mais uma nova calamidade.”

Embora na vida civil o cabo trabalhasse com bois, talvez finalmente tivesse compreendido que estavam zombando dele, pois se afastou e passou para a frente da patrulha.

Aproximavam-se, aliás, da estação, onde os homens de Budějovice se despediam de seu regimento. A coisa não tinha caráter oficial, mas a praça diante da estação estava cheia de gente à espera das tropas.

O interesse de Švejk concentrou-se no cordão de espectadores. E, como sempre acontece, também dessa vez os bons soldados iam atrás, enquanto os primeiros marchavam sob a baioneta. Mais tarde, os bons soldados seriam espremidos nos vagões de gado, e Švejk e o voluntário de um ano, num vagão especial para presos, sempre engatado aos trens militares logo depois dos vagões do Estado-Maior. Num vagão de presos desses, espaço é o que não falta.

Švejk não conseguiu se conter e gritou “Nazdar!” para o cordão de espectadores, agitando o quepe. O efeito foi tão sugestivo que a multidão repetiu o grito ruidosamente, e o “Nazdar!” propagou-se, ribombando diante da estação, onde, bem longe dali, começaram a dizer:

“Já estão vindo.”

O cabo da escolta ficou desesperado e berrou para Švejk calar a boca. Mas o clamor se espalhava como uma avalanche. Os gendarmes empurravam o cordão de espectadores e abriam caminho para a escolta, enquanto as multidões continuavam berrando “Nazdar!” e agitando quepes e chapéus.

Foi uma manifestação e tanto. Das janelas do hotel em frente à estação, algumas damas agitavam lenços e gritavam “Heil!”. Ao “Nazdar!” misturava-se também o “Heil!” vindo do cordão de espectadores, e um entusiasta que aproveitou a ocasião para gritar “Nieder mit den Serben!” teve as pernas derrubadas e foi um pouco pisoteado na confusão provocada de propósito. E, como uma centelha elétrica, a notícia continuava a se propagar:

“Já estão vindo!”

E eles vinham. Sob as baionetas, Švejk acenava afavelmente para as multidões, enquanto o voluntário de um ano prestava continência com toda a seriedade.

Assim entraram na estação e seguiram para o trem militar que lhes fora designado, quando por pouco a banda dos atiradores de elite, cujo maestro ficara seriamente atrapalhado com a manifestação inesperada, não começou a tocar “Deus salve o nosso imperador”. Felizmente, no momento exato, surgiu, usando um chapéu preto e duro, o capelão militar-chefe, padre Lacina, da 7ª Divisão de Cavalaria, e começou a pôr ordem nas coisas.

Sua história era muito simples. Chegara na véspera a Budějovice. Ele, terror de todas as messes de oficiais, sujeito insaciável e glutão, participara, como que por acaso, de um pequeno banquete dos oficiais do regimento que estava de partida. Comia e bebia por dez e, num estado mais ou menos embriagado, percorria a messe dos oficiais, mendigando aos cozinheiros algumas sobras. Devorava travessas de molhos e bolotas de massa, arrancava a carne dos ossos como uma fera felina e acabou encontrando rum na cozinha. Depois de engolir tanto que começou a arrotar, voltou à festa de despedida, onde se distinguiu com uma nova bebedeira. Tinha nisso vasta experiência, e os oficiais da 7ª Divisão de Cavalaria sempre pagavam caro por causa dele. Pela manhã, teve a ideia de que precisava pôr ordem na partida dos primeiros trens militares de transporte do regimento e, por isso, perambulou por toda a extensão do cordão de espectadores, atuando na estação de tal modo que os oficiais responsáveis pelo transporte do regimento se trancaram para fugir dele no gabinete do chefe da estação.

Por isso reapareceu diante da estação no momento certo para arrancar a batuta do maestro dos atiradores de elite, que já se preparava para reger “Deus salve o nosso imperador”.

“Halt”, disse ele. “Ainda não. Só quando eu der o sinal. Agora Ruht! e eu volto depois.”

Entrou na estação e foi atrás da escolta, fazendo-a parar com o grito:

“Halt!”

“Para onde estão indo?”, perguntou severamente ao cabo, que não sabia como agir diante da nova situação.

Em seu lugar, Švejk respondeu com bondade:

“Estão nos levando para Bruck. Caso queira, senhor Oberfeldkurat, pode viajar conosco.”

“E é exatamente isso que farei”, declarou o padre Lacina e, virando-se para a escolta, acrescentou: “Quem diz que eu não posso viajar? Vorwärts! Marsch!”

Quando o capelão militar-chefe se viu dentro do vagão de presos, deitou-se no banco, e o bondoso Švejk tirou o capote e o colocou sob a cabeça do padre Lacina. Diante do cabo horrorizado, o voluntário de um ano observou em voz baixa:

“Prestar assistência aos Oberfeldkuraten.”

O padre Lacina, confortavelmente estendido no banco, começou a explicar:

“Ragu com cogumelos, senhores, fica tanto melhor quanto mais cogumelos tiver, mas os cogumelos primeiro precisam ser fritos com cebola e só depois se acrescentam a folha de louro e a cebola...”

“O senhor já teve a bondade de pôr a cebola antes”, interveio o voluntário de um ano, acompanhado pelo olhar desesperado do cabo, que via no padre Lacina um bêbado, sem dúvida, mas ainda assim um superior.

A situação do cabo era realmente desesperadora.

“Sim”, observou Švejk, “o senhor Oberfeldkurat tem toda a razão. Quanto mais cebola, melhor. Em Pakoměřice havia um mestre cervejeiro que botava cebola até na cerveja, porque dizia que cebola puxa a sede. A cebola é, de modo geral, uma coisa tremendamente benéfica. Cebola assada também se põe nos furúnculos...”

Enquanto isso, o padre Lacina falava no banco em voz baixa, como se estivesse sonhando:

“Tudo depende do tempero, de qual tempero se põe e em que quantidade. Nada deve ser apimentado demais, papricado demais...”

Falava cada vez mais devagar e mais baixo:

“Cravo-demais, limão-demais, noz-moscada-demais, mosca...”

Não terminou e adormeceu, assobiando de vez em quando pelo nariz quando, por alguns instantes, parava de roncar.

O cabo fitava-o rígido, enquanto os homens da escolta riam baixinho em seus bancos.

“Esse aí não vai acordar tão cedo”, comentou Švejk depois de algum tempo. “Está completamente bêbado. Não adianta”, continuou, quando o cabo lhe fez um gesto aflito para que se calasse. “Não dá para mudar isso. Está bêbado como manda a lei. Tem patente de capitão. Cada um desses capelães militares, inferior ou superior, já recebe de Deus um talento especial para se encher até não poder mais em qualquer oportunidade. Eu servi com o capelão militar Katz, e aquele teria bebido até o nariz entre os olhos. O que este aqui está fazendo não é nada comparado ao que aquele fazia. Juntos, nós bebemos o dinheiro de uma custódia e talvez tivéssemos bebido até o próprio Deus se alguém nos tivesse emprestado alguma coisa por conta dele.”

Švejk aproximou-se do padre Lacina, virou-o para a parede e disse com conhecimento de causa:

“Esse vai roncar até Bruck.”

Depois voltou ao seu lugar, acompanhado pelo olhar desesperado do infeliz cabo, que observou:

“Talvez eu devesse ir comunicar isso...”

“Pode tirar essa ideia da cabeça”, disse o voluntário de um ano. “O senhor é o eskortenkomandant. Não pode se afastar de nós. E, segundo o regulamento, também não pode deixar nenhum homem da guarda de escolta sair para fazer a comunicação sem antes conseguir um substituto. Como vê, é um osso duro de roer. Também não pode dar um tiro como sinal para alguém vir até aqui. Não está acontecendo nada. Por outro lado, existe o regulamento segundo o qual nenhuma pessoa estranha, além dos presos e da escolta que os acompanha, pode permanecer no vagão de presos. Entrada rigorosamente proibida a pessoas sem função. Também não seria possível apagar os rastros da sua infração e, durante a viagem, jogar discretamente o capelão militar-chefe para fora do trem, pois há testemunhas que viram o senhor deixá-lo entrar num vagão ao qual ele não pertence. Isso, senhor cabo, é rebaixamento certo.”

O cabo observou, constrangido, que não deixara o capelão militar-chefe entrar no vagão. Ele mesmo se juntara a eles e, afinal, era seu superior.

“Aqui, o único superior é o senhor”, afirmou enfaticamente o voluntário de um ano, cujas palavras Švejk completou:

“Mesmo que o senhor imperador quisesse se juntar a nós, o senhor não poderia permitir. É como no posto de guarda: chega um oficial de inspeção diante de um recruta e pede para ele ir buscar cigarros, e o recruta ainda pergunta qual marca o oficial quer. Por uma coisa dessas dá fortaleza.”

O cabo objetou timidamente que fora o próprio Švejk quem dissera primeiro ao Oberfeldkurat que ele podia viajar com eles.

“Eu posso me permitir isso, senhor cabo”, respondeu Švejk, “porque sou idiota, mas ninguém esperaria uma coisa dessas do senhor.”

“Está servindo na ativa há muito tempo?”, perguntou o voluntário de um ano ao cabo, como quem não queria nada.

“Terceiro ano. Agora devo ser promovido a cuksfíra.”

“Então pode riscar isso da lista”, disse cinicamente o voluntário de um ano. “Como já lhe falei, isso está cheirando a rebaixamento.”

“No fim dá tudo na mesma”, interveio Švejk. “Morrer como graduado ou como soldado raso. Mas é verdade que dizem que os rebaixados são colocados na primeira fileira.”

O capelão militar-chefe mexeu-se.

“Continua roncando”, declarou Švejk, depois de verificar que tudo estava em perfeita ordem com ele. “Agora deve estar sonhando com algum banquete. Só tenho medo de que faça merda aqui dentro. Meu capelão militar Katz, quando se embebedava, não sentia nada enquanto dormia. Uma vez, vocês precisam saber...”

E Švejk começou a narrar suas experiências com o capelão militar Otto Katz de maneira tão minuciosa e interessante que ninguém percebeu o trem começar a andar.

Somente os berros vindos dos vagões de trás interromperam a narrativa de Švejk. A décima segunda companhia, composta exclusivamente de alemães da região de Krumlov e de Kašperské Hory, berrava:

Wann ich kumm, wann ich kumm, wann ich wieda, wieda kumm.

E, de outro vagão, algum desesperado gritava para a cidade de Budějovice, que ficava para trás:

Und du, mein Schatz, bleibst hier
Holarjó, holarjó, holo!

Era um iodelei e uma gritaria tão terríveis que os companheiros tiveram de arrastá-lo para longe da porta aberta do vagão de gado.

“Estou admirado”, disse o voluntário de um ano ao cabo, “que ainda não tenha aparecido nenhuma inspeção por aqui. Segundo o regulamento, o senhor deveria ter nos apresentado ao comandante do trem ainda na estação, em vez de se ocupar com algum capelão militar-chefe embriagado.”

O infeliz cabo permaneceu teimosamente calado e fitou com obstinação os postes telegráficos que passavam para trás.

“Quando penso que não fomos apresentados a ninguém”, continuou o malicioso voluntário de um ano, “e que, na próxima estação, o comandante do trem certamente entrará aqui, meu sangue militar se revolta. Afinal, estamos como...”

“...ciganos”, intrometeu-se Švejk, “ou vagabundos. Para mim, parece que temos medo da luz do dia e não podemos nos apresentar em lugar nenhum para não sermos presos.”

“Além disso”, disse o voluntário de um ano, “com base no decreto de 21 de novembro de 1879, devem ser observados os seguintes regulamentos no transporte ferroviário de presos militares. Primeiro: o vagão de presos deve ser equipado com grades. Isso está mais claro que o sol e foi cumprido aqui segundo o regulamento. Encontramo-nos atrás de grades perfeitas. Portanto, esse ponto está em ordem. Segundo: em complemento ao decreto imperial e real de 21 de novembro de 1879, deve haver em cada vagão de presos uma latrina. Caso não haja, o vagão deve ser provido de um recipiente coberto para as necessidades corporais grandes e pequenas dos presos e dos homens da guarda de escolta. Na verdade, aqui não se pode falar de um vagão de presos no qual pudesse existir uma latrina. Estamos simplesmente num compartimento isolado, separados do resto do mundo. E tampouco existe aqui o referido recipiente...”

“Vocês podem fazer pela janela”, comentou o cabo, completamente desesperado.

“O senhor está esquecendo”, disse Švejk, “que preso nenhum pode se aproximar da janela.”

“Depois, em terceiro lugar”, prosseguiu o voluntário de um ano, “deve existir um recipiente com água potável. O senhor também não cuidou disso. A propósito! Sabe em qual estação será distribuída a ração? Não sabe? Eu já imaginava que o senhor não tinha se informado...”

“Está vendo, senhor cabo”, observou Švejk, “que transportar presos não é brincadeira. Precisam cuidar da gente. Não somos soldados comuns, que têm de cuidar de si mesmos. Tudo precisa ser trazido até debaixo do nosso nariz, porque existem regulamentos e parágrafos que todo mundo é obrigado a cumprir, senão não haveria ordem nenhuma. ‘Um homem preso é como uma criança enrolada nas cobertas’, costumava dizer um malandro conhecido meu. ‘É preciso cuidar dele para que não pegue um resfriado, não fique agitado e se conforme com seu destino, para que não façam mal ao coitadinho.’ Aliás”, disse Švejk depois de algum tempo, olhando amigavelmente para o cabo, “quando forem onze horas, faça a bondade de me avisar.”

O cabo olhou para Švejk, interrogativamente.

“O senhor provavelmente queria me perguntar, senhor cabo, por que precisa me avisar quando forem onze horas. A partir das onze horas, meu lugar é no vagão de gado, senhor cabo”, disse Švejk enfaticamente, prosseguindo em tom solene: “Fui condenado a três dias no relatório do regimento. Comecei a cumprir minha pena às onze horas e hoje, às onze, preciso ser libertado. A partir das onze horas não tenho nada que fazer aqui. Soldado nenhum pode ficar preso por mais tempo do que lhe cabe, porque no Exército é preciso manter a disciplina e a ordem, senhor cabo.”

Depois desse golpe, o desesperado cabo levou muito tempo para se recuperar, até que finalmente objetou que não recebera documento algum.

“Meu caro senhor cabo”, interveio o voluntário de um ano, “os documentos não vão sozinhos até o comandante da escolta. Quando a montanha não vai a Maomé, o comandante da escolta precisa ir pessoalmente buscar os documentos. O senhor agora se encontra diante de uma nova situação. De modo algum pode deter alguém que deve ser posto em liberdade. Por outro lado, segundo os regulamentos em vigor, ninguém pode abandonar o vagão de presos. Realmente não sei como o senhor sairá dessa maldita situação. Quanto mais avançamos, pior fica. Agora são dez e meia.”

O voluntário de um ano guardou o relógio de bolso.

“Estou muito curioso para saber, senhor cabo, o que fará daqui a meia hora.”

“Daqui a meia hora meu lugar é no vagão de gado”, repetiu Švejk, sonhadoramente.

O cabo, completamente confuso e arrasado, virou-se para ele:

“Caso não seja inconveniente para o senhor, acho que aqui é muito mais confortável do que no vagão de gado. Eu acho...”

Foi interrompido por um grito do capelão militar-chefe durante o sono:

“Mais molho!”

“Durma, durma”, disse bondosamente Švejk, ajeitando sob a cabeça dele a ponta do capote que caía do banco. “Continue sonhando bonito com comida.”

E o voluntário de um ano começou a cantar:

Dorme, criancinha, dorme,
fecha teus olhinhos,
Deus contigo irá dormir,
e o anjinho te embalar,
dorme, criancinha, dorme.

O desesperado cabo já não reagia a coisa alguma. Olhava estupidamente para a paisagem e deixou a completa desorganização do compartimento de presos seguir livremente seu curso.

Junto à divisória, os soldados da escolta jogavam maso, e golpes ágeis e honestos caíam nas nádegas. Quando olhou naquela direção, a bunda de um soldado de infantaria estava justamente voltada para ele em atitude provocadora. O cabo suspirou e virou-se de novo para a janela.

O voluntário de um ano refletiu por algum tempo e depois se dirigiu ao cabo abatido:

“Por acaso conhece a revista O Mundo dos Animais?”

“Essa revista”, respondeu o cabo com uma expressão evidente de alegria por a conversa estar sendo conduzida para outro assunto, “era assinada pelo taberneiro da nossa aldeia, porque ele gostava muitíssimo das cabras de Banská, e todas morreram. Por isso pediu conselhos à revista.”

“Meu caro amigo”, disse o voluntário de um ano, “o relato que farei agora lhe provará com extraordinária clareza que ninguém está livre de cometer erros! Estou convencido, senhores, de que vocês aí atrás vão parar de jogar maso, pois o que lhes contarei será muito interessante, nem que seja pelo fato de que vocês não entenderão muitas das expressões técnicas. Contarei a vocês uma história sobre O Mundo dos Animais, para esquecermos as tribulações militares do dia de hoje.

Como foi que certa vez me tornei redator de O Mundo dos Animais, aquela revista tão interessante, permaneceu para mim, durante algum tempo, um enigma bastante complicado, até que cheguei sozinho à conclusão de que só poderia ter feito semelhante coisa num estado de absoluta insanidade, ao qual fui induzido pela afeição amistosa que sentia pelo meu velho amigo Hájek. Até então, ele editava honradamente a revista, mas acabou se apaixonando pela filhinha do proprietário, o senhor Fuchs, que o pôs para fora imediatamente, sob a condição de que lhe arranjasse um redator decente.

Como podem ver, naquela época existiam relações trabalhistas extraordinárias.

Quando meu amigo Hájek me apresentou ao proprietário da revista, ele me recebeu com muita cordialidade e perguntou se eu possuía alguma noção sobre animais. Ficou muito satisfeito com minha resposta de que sempre tivera enorme consideração pelos animais e via neles a transição para o ser humano, e de que, sobretudo do ponto de vista da proteção dos animais, eu sempre respeitara seus anseios e desejos. Todo animal não deseja outra coisa senão ser morto, antes de ser comido, da forma menos dolorosa possível.

Desde o nascimento, a carpa conserva a ideia fixa de que não é nada bonito da parte da cozinheira abrir-lhe a barriga enquanto ainda está viva, e o costume de decapitar galos já constitui um passo da associação protetora dos animais para evitar que as aves sejam degoladas por mãos inábeis.

As formas contorcidas dos pequenos peixes fritos demonstram que, ao morrer, eles protestam contra o fato de serem fritos vivos em margarina em Podolí. Perseguir um peru...

Nesse momento, ele me interrompeu e perguntou se eu conhecia criação de aves, cães, coelhos, apicultura e curiosidades do mundo animal; se sabia recortar de revistas estrangeiras ilustrações para reprodução, traduzir de periódicos estrangeiros artigos técnicos sobre animais, consultar Brehm e, com a ajuda dele, escrever editoriais sobre a vida animal tingidos pelas festas católicas, pelas mudanças das estações do ano, pelas corridas de cavalos, pelas caçadas, pelo treinamento de cães policiais e pelas festas nacionais e religiosas. Em resumo, perguntou se eu possuía visão jornalística da situação e sabia aproveitá-la num editorial curto e substancioso.

Declarei que já refletira muito sobre a maneira correta de dirigir uma revista como O Mundo dos Animais e que seria plenamente capaz de representar todas aquelas seções e questões, pois dominava os assuntos mencionados. Meu objetivo, contudo, seria elevar a revista a um patamar incomum. Reorganizá-la em conteúdo e em matéria.

Criar novas seções, por exemplo, “O cantinho alegre dos animais” e “Animais sobre animais”, acompanhando ao mesmo tempo atentamente a situação política.

Proporcionar aos leitores uma surpresa após outra, de modo que não conseguissem se recuperar de um animal antes de encontrar o seguinte. A seção “Do dia dos animais” deveria alternar-se com “Novo programa para a solução da questão do gado doméstico” e “Movimento entre os animais de criação”.

Ele tornou a me interromper e disse que aquilo lhe bastava inteiramente e que, caso eu conseguisse cumprir apenas a metade, me presentearia com um casal de galinhas wyandotte anãs da última exposição avícola de Berlim, na qual elas haviam recebido o primeiro prêmio, e seu proprietário, a medalha de ouro pelo excelente acasalamento.

Posso dizer que me esforcei e cumpri meu programa governamental na revista até onde minhas capacidades permitiram. Cheguei até mesmo à descoberta de que meus artigos superavam minhas capacidades.

Desejando proporcionar ao público alguma coisa inteiramente nova, comecei a inventar animais.

Parti do princípio de que, por exemplo, o elefante, o tigre, o leão, o macaco, a toupeira, o cavalo, o porco e assim por diante já eram criaturas completamente conhecidas de todos os leitores de O Mundo dos Animais. Era preciso abalar o leitor com alguma coisa nova. Com novas descobertas. Por isso, fiz uma experiência com a baleia-de-barriga-sulfurosa. Essa nova espécie de baleia que criei tinha o tamanho de um bacalhau e era equipada com uma bolsa cheia de ácido fórmico e com uma cloaca especial, pela qual a baleia-de-barriga-sulfurosa lançava, em explosões, um ácido venenoso e narcótico contra os peixinhos que desejava devorar. Mais tarde, um cientista inglês, cujo nome já não me lembro como inventei, deu a isso o nome de ácido baleínico. A gordura de baleia já era conhecida por todos, mas o novo ácido despertou a atenção de alguns leitores, que perguntaram qual empresa fabricava aquele produto.

Posso garantir a vocês que, de modo geral, os leitores de O Mundo dos Animais são muito curiosos.

Pouco depois da baleia-de-barriga-sulfurosa, descobri uma série inteira de outros animais. Entre eles, menciono o astuto peixe-pulmonado, um mamífero do gênero dos cangurus; o boi comestível, protótipo da vaca; e o infusório-sépia, que classifiquei como uma espécie de rato.

A cada dia aumentava o número de meus novos animais. Eu mesmo ficava muito surpreso com meus sucessos nesses campos. Nunca imaginara que fosse necessário complementar a fauna de maneira tão ampla nem que Brehm pudesse ter omitido tantos animais em sua obra A vida dos animais. Acaso Brehm e todos os que vieram depois dele conheciam meu morcego da ilha da Islândia, o “morcego distante”, ou meu gato doméstico do cume do monte Kilimanjaro, chamado “pačucha cervina irritável”?

Até então, os naturalistas possuíam alguma ideia da pulga do engenheiro Khún, que encontrei no âmbar e era completamente cega porque vivia numa toupeira pré-histórica subterrânea, também cega porque sua bisavó, conforme escrevi, se acasalara com um proteu cavernícola subterrâneo e cego das cavernas de Postojna, que naquela época se estendiam até o atual mar Báltico?

Desse acontecimento insignificante nasceu uma grande polêmica entre o Čas e o Čech, porque o Čech, nas curiosidades de seu folhetim, citando o artigo sobre a pulga que eu havia descoberto, declarou: “Tudo o que Deus faz, faz bem.” O Čas, naturalmente, com puro realismo, despedaçou minha pulga inteira, junto com o reverendo Čech. A partir de então, pareceu que minha estrela afortunada de inventor e descobridor de novas criaturas começava a me abandonar. Os assinantes de O Mundo dos Animais começaram a ficar inquietos.

A origem disso foram minhas diversas notinhas sobre apicultura e criação de aves, nas quais desenvolvi novas teorias que provocaram verdadeiro pavor, pois, depois de seguirem meus conselhos simples, o conhecido apicultor senhor Pazourek sofreu um derrame, e a apicultura extinguiu-se tanto na região da Šumava como no sopé dos Krkonoše. Uma peste atingiu as aves e, em resumo, tudo começou a morrer. Os assinantes enviavam cartas ameaçadoras e cancelavam a revista.

Passei então para as aves que vivem em liberdade, e ainda hoje me lembro do meu caso com o redator do Selský obzor, o deputado clerical e diretor Jos. M. Kadlčák!

Recortei da revista inglesa Country Life a imagem de um passarinho pousado numa nogueira. Dei-lhe o nome de pássaro-da-noz, assim como, seguindo a mesma lógica, não teria hesitado em escrever que uma ave pousada num zimbro era um pássaro-do-zimbro, ou talvez uma novilha.

E o que aconteceu? Num simples cartão-postal, o senhor Kadlčák me atacou, dizendo que aquilo era um gaio, e não pássaro-da-noz nenhum, e que se tratava da tradução de Eichelhäher.

Enviei-lhe uma carta na qual expus toda a minha teoria sobre o pássaro-da-noz, entremeando-a com numerosos insultos e citações inventadas de Brehm.

O deputado Kadlčák respondeu no Selský obzor com um artigo de abertura.

Meu chefe, o senhor Fuchs, estava sentado, como sempre, num café, lendo os jornais provincianos, pois ultimamente procurava com uma frequência extraordinária referências aos meus fascinantes artigos em O Mundo dos Animais. Quando cheguei, apontou para o Selský obzor, que estava sobre a mesa, e disse baixinho, fitando-me com aqueles olhos tristes, expressão que seus olhos vinham conservando o tempo todo nos últimos dias.

Li em voz alta diante de toda a freguesia do café:

“Prezada redação! Já assinalei que sua revista introduz uma nomenclatura insólita e injustificada, que pouco se importa com a pureza da língua tcheca e inventa toda espécie de animais. Apresentei como prova o fato de que, em lugar do antigo nome universalmente usado, sojka, gaio, seu redator introduz žaludník, comedor de bolotas, baseado na tradução do nome alemão Eichelhäher, gaio.”

“Gaio”, repetiu desesperadamente atrás de mim o proprietário da revista.

Continuei lendo com calma:

“Em seguida, recebi do redator de O Mundo dos Animais uma carta de caráter extremamente grosseiro, pessoal e insolente, na qual fui chamado de besta de ignorância criminosa, coisa que merece severa repreensão. Não é assim que pessoas decentes respondem a objeções científicas objetivas. Gostaria de saber qual de nós dois é a besta maior. É verdade que talvez eu não devesse ter apresentado minhas objeções num cartão-postal, mas numa carta fechada. Contudo, devido ao excesso de trabalho, não reparei nessa insignificância. Agora, porém, depois do ataque ordinário de seu redator de O Mundo dos Animais, levo-o ao pelourinho público.

Seu senhor redator está redondamente enganado ao imaginar que sou uma besta sem instrução que não faz a menor ideia do nome deste ou daquele pássaro. Dedico-me há anos à ornitologia, e não por meio de livros, mas de estudos realizados na natureza, tendo em minhas gaiolas mais pássaros do que seu redator viu durante a vida inteira, sobretudo por se tratar de um homem encerrado nas tavernas de aguardente e nas hospedarias de Praga.

Mas isso é secundário, embora certamente não fizesse mal que o redator de O Mundo dos Animais verificasse primeiro a quem atribui tamanha bestialidade, antes que o ataque lhe saia da pena, mesmo que se destine à Morávia, a Frýdlant, perto de Místek, onde, até a publicação deste artigo, sua revista também era assinada.

Aliás, não se trata da polêmica pessoal de um sujeito louco, mas da questão em si. Por isso repito mais uma vez que é inadmissível inventar nomes a partir de traduções quando possuímos o nome vernáculo, universalmente conhecido, gaio.”

“Sim, gaio”, declarou meu chefe com voz ainda mais desesperada.

Continuei lendo, satisfeito, sem me deixar interromper:

“É uma canalhice quando isso é feito por leigos e brutos. Quem jamais chamou um gaio de pássaro-da-noz? Na obra Nossos Pássaros, página 148, encontra-se o nome latino: Garrulus glandarius B. A. Esse é o meu pássaro, o gaio.

O redator de seu jornal certamente reconhecerá que conheço meu pássaro melhor do que pode conhecê-lo um leigo. O pássaro-da-noz chama-se, segundo o doutor Bayer, Mucifraga carycatectes B, e esse B não significa, como me escreveu seu redator, que seja a letra inicial da palavra blb, imbecil. Os ornitólogos tchecos só conhecem o gaio-comum, e não o comedor de bolotas de vocês, inventado justamente pelo senhor a quem, segundo sua própria teoria, pertence a inicial B. Isso é um ataque pessoal grosseiro, que em nada altera a questão.

O gaio continuará sendo gaio, ainda que o redator de O Mundo dos Animais se cague por causa disso, e tudo não passará de mais uma prova da leviandade e da falta de objetividade com que às vezes se escreve, mesmo quando ele invoca Brehm de maneira ostensivamente insolente. Esse ordinário escreve que, segundo Brehm, o gaio pertence à família dos crocodilos, página 452, onde se fala do picanço, ou picanço-de-testa-preta, Lanius minor L. Depois esse ignorantinho, permita-me diminuir-lhe o nome, volta a invocar Brehm, dizendo que o gaio pertence à décima quinta família, enquanto Brehm situa os corvídeos na décima sétima família, à qual se juntam os corvos, o gênero das gralhas, e é tão grosseiro que também me chamou de gralha, Colaeus, e de gênero das pegas, dos corvos-azuis, subfamília dos patetas desajeitados, embora na mesma página se trate dos gaios-dos-bosques e das pegas-malhadas...”

“Gaios-dos-bosques”, suspirou o editor de minha revista, levando as mãos à cabeça. “Dê isso aqui para eu terminar de ler.”

Assustei-me, pois sua voz ficara rouca enquanto lia:

“O kolohříbek, ou melro-turco, continuará sendo kolohříbek na tradução tcheca, assim como o tordo-zornal continuará sendo tordo-zornal.”

“O tordo-zornal devia ser chamado de zimbreiro ou zimbreira, senhor chefe”, observei, “porque se alimenta de zimbro.”

O senhor Fuchs bateu o jornal contra a mesa e enfiou-se debaixo da mesa de bilhar, expelindo num estertor as últimas palavras que havia lido:

“Turdus, kolohříbek. Nenhum gaio!”, berrava debaixo da mesa de bilhar. “Pássaro-da-noz! Eu mordo, senhores!”

Finalmente conseguiram tirá-lo de lá e, no terceiro dia, ele faleceu no círculo familiar, vítima de uma gripe cerebral.

Suas últimas palavras, no derradeiro instante de lucidez, foram:

“Não se trata de meu interesse pessoal, mas do bem de todos. Desse ponto de vista, dignem-se receber meu parecer com a mesma objetividade com que...”

E soluçou.”

O voluntário de um ano calou-se e disse maliciosamente ao cabo:

“Com isso eu só queria dizer que todo homem, em algum momento, se vê numa situação delicada e comete erros!”

No conjunto, a única coisa que o cabo compreendeu da história foi que ele próprio cometia erros. Por isso voltou a virar-se para a janela e ficou olhando sombriamente a estrada que corria diante deles.

O relato despertou em Švejk um interesse um pouco maior. Os homens da escolta olhavam estupidamente uns para os outros.

Švejk começou:

“Nada fica escondido neste mundo. Tudo acaba aparecendo, como os senhores acabaram de ouvir, até mesmo que um gaio imbecil não é pássaro-da-noz nenhum. É realmente muito interessante alguém deixar-se apanhar numa coisa dessas. Inventar animais já é difícil, é verdade, mas exibir animais inventados é ainda mais difícil. Anos atrás havia em Praga um tal de Mestek, que descobriu uma sereia e a exibia atrás de uma cortina na avenida Havlíček, em Vinohrady. Havia uma abertura na cortina e cada um podia ver, naquela meia-luz, um canapé comum dos comuns, sobre o qual estava esparramada uma mulher de Žižkov. Ela tinha as pernas embrulhadas em gaze verde, que devia representar uma cauda; os cabelos estavam pintados de verde; nas mãos usava luvas com barbatanas de papelão presas a elas, também verdes; e nas costas tinha algum tipo de leme amarrado com barbante. Menores de dezesseis anos não podiam entrar, e todos os que tinham mais de dezesseis anos e pagavam o ingresso ficavam muito satisfeitos porque a sereia tinha uma bunda enorme, na qual estava escrito: ‘Até a vista!’ Quanto aos peitos, aquilo não era nada. Caíam-lhe até o umbigo, como os de uma puta cansada. Às sete da noite, Mestek fechava o panorama e dizia: ‘Senhora sereia, pode ir para casa.’ Ela trocava de roupa e, às dez da noite, já podia ser vista andando pela rua Táborská e dizendo com toda a discrição a cada cavalheiro que encontrava: ‘Bonitão, não quer ir filipinar um pouco?’ Como não tinha registro policial de prostituição, durante uma batida o senhor Drašner prendeu-a junto com outras ratazanas da mesma espécie, e o negócio de Mestek foi para o brejo.”

Nesse instante, o capelão militar-chefe caiu do banco e continuou dormindo no chão. O cabo ficou olhando estupidamente para ele e depois, em meio ao silêncio geral, levantou-o sozinho para o banco, sem a menor ajuda dos demais. Era evidente que perdera toda a autoridade. Quando disse com voz fraca e desesperançada: “Vocês também poderiam me ajudar”, todos os homens da escolta continuaram olhando fixamente, e nem uma perna viva se moveu.

“O senhor devia ter deixado ele roncando onde estava”, disse Švejk. “Com o meu capelão militar eu fazia diferente. Uma vez deixei ele dormir na privada; outra vez ele dormiu em cima do armário; também dormiu numa tina, numa casa alheia, e Deus sabe onde mais ele já se esparramou para roncar.”

O cabo foi acometido de súbito por uma onda de determinação. Queria mostrar que era ele quem mandava ali e, por isso, disse com grosseria:

“Cale essa boca e pare de tagarelar! Todo ordenança de oficial fala demais sem necessidade. Você é como um percevejo.”

“Sim, certamente, e o senhor é Deus, senhor cabo”, respondeu Švejk com a serenidade de um filósofo que deseja instaurar a paz mundial em toda a Terra e, para isso, mete-se numa polêmica terrível. “O senhor é Nossa Senhora das Sete Dores.”

“Meu Deus!”, exclamou o voluntário de um ano, unindo as mãos. “Enchei nossos corações de amor por todas as patentes, para que não as contemplemos com repugnância. Abençoai nosso encontro neste buraco de presos sobre trilhos.”

O cabo ficou vermelho e levantou-se de um salto:

“Proíbo todas essas observações, senhor voluntário de um ano.”

“O senhor não tem culpa de nada”, continuou o voluntário de um ano em tom consolador. “Em muitos gêneros e espécies, a natureza negou toda inteligência aos animais. O senhor já ouviu falar da estupidez humana? Não teria sido decididamente melhor se tivesse nascido como outra espécie de mamífero e não carregasse esse nome imbecil de homem e cabo? É um grande engano imaginar que o senhor seja a criatura mais perfeita e mais evoluída. Quando lhe arrancarem as estrelas, o senhor será um zero, abatido sem o menor interesse em todas as trincheiras de todas as frentes. Mesmo que lhe deem mais um galão e façam do senhor o animal chamado soldado voluntário de longa permanência, ainda assim as coisas não estarão bem. Seu horizonte mental ficará ainda mais estreito e, quando o senhor depositar seus ossos culturalmente atrofiados em algum campo de batalha, ninguém em toda a Europa chorará por sua causa.”

“Vou mandar prendê-lo!”, gritou o cabo em desespero.

O voluntário de um ano sorriu:

“O senhor provavelmente gostaria de mandar me prender porque eu o insultei. Estaria mentindo, pois seu patrimônio mental é inteiramente incapaz de apreender qualquer insulto. Além disso, aposto com o senhor o que quiser que não se lembra de absolutamente nada de toda a nossa conversa. Caso eu lhe dissesse que o senhor é um embrião, esqueceria antes, não digo antes de chegarmos à estação seguinte, mas antes que passe por nós o próximo poste telegráfico. O senhor é uma circunvolução cerebral morta. Não consigo imaginar que fosse capaz de expor, em algum lugar e com alguma coerência, tudo o que me ouviu dizer. Além disso, pode perguntar a qualquer pessoa aqui se em minhas palavras houve a menor alusão a seu horizonte mental e se eu o ofendi de alguma forma.”

“Certamente”, confirmou Švejk. “Ninguém aqui disse nem uma palavrinha que o senhor pudesse interpretar de maneira torta. Sempre fica feio quando alguém resolve se sentir ofendido. Uma vez eu estava sentado no café noturno Túnel e conversávamos sobre orangotangos. Havia conosco um fuzileiro da Marinha, e ele contava que muitas vezes não se consegue distinguir um orangotango de certo cidadão barbudo, porque um orangotango desses tem o queixo coberto de pelos como... ‘Como’, disse ele, ‘por exemplo aquele senhor na mesa ao lado.’ Todos nós olhamos, e o senhor barbudo foi até o marinheiro e lhe deu uma bofetada. O marinheiro quebrou uma garrafa de cerveja na cabeça dele, e o senhor barbudo caiu e ficou estendido sem sentidos. Então nos despedimos do marinheiro, porque ele foi embora imediatamente ao perceber que quase tinha matado o outro. Depois reanimamos o senhor, coisa que decididamente não devíamos ter feito, pois, assim que ressuscitou, chamou uma patrulha contra todos nós, que não tínhamos porra nenhuma que ver com aquilo, e a patrulha nos levou à delegacia. Lá ele insistia que nós o tínhamos considerado um orangotango, que não havíamos falado de outra coisa senão dele. E continuava insistindo. Nós dizíamos que não, que ele não era orangotango nenhum. E ele dizia que era, que tinha ouvido. Pedi ao senhor comissário que lhe explicasse. O senhor comissário explicou tudo com muita bondade, mas nem assim ele quis aceitar e disse ao comissário que ele não entendia do assunto e estava mancomunado conosco. Então o senhor comissário mandou prendê-lo para que ficasse sóbrio, e nós quisemos voltar ao Túnel, mas já não pudemos, porque também nos puseram atrás das grades. Assim o senhor vê, senhor cabo, o que pode resultar de um mal-entendido pequeno e insignificante que nem merece conversa. Em Okrouhlice havia outro cidadão que se ofendeu quando lhe disseram em Německý Brod que ele era uma píton-tigre. Há várias palavras assim, que não constituem absolutamente delito nenhum. Por exemplo, caso disséssemos que o senhor é um rato-almiscarado. Poderia ficar bravo conosco por causa disso?”

O cabo soltou um bramido. Não se podia dizer que tivesse berrado. Raiva, fúria e desespero fundiram-se numa sequência de sons poderosos, e esse número de concerto era completado pelo assobio produzido pelo nariz do capelão militar-chefe, que roncava.

Depois do bramido veio uma depressão completa. O cabo sentou-se no banco e seus olhos aguados e inexpressivos fixaram-se ao longe, nas florestas e montanhas.

“Senhor cabo”, disse o voluntário de um ano, “ao contemplar assim as montanhas rumorosas e as florestas perfumadas, o senhor me faz lembrar a figura de Dante. O mesmo rosto nobre de poeta, homem de coração e espírito delicados, receptivo aos impulsos elevados. Continue sentado assim, por favor, fica-lhe tão bem. Com que inspiração, sem qualquer afetação nem rigidez, o senhor arregala os olhos para a paisagem. Certamente está pensando em como será bonito quando, na primavera, em lugar desses terrenos agora desolados, se estender aqui um tapete de flores multicolores dos campos...”

“...tapete que é abraçado por um riacho”, observou Švejk, “e o senhor cabo fica molhando o lápis na boca, sentado em cima de algum toco, escrevendo um poeminha para O Pequeno Leitor.”

O cabo tornou-se completamente apático, enquanto o voluntário de um ano afirmava ter visto, com toda a certeza, a cabeça dele modelada numa exposição de escultores:

“Permita-me, senhor cabo, o senhor não teria posado como modelo para o escultor Štursa?”

O cabo olhou para o voluntário de um ano e respondeu com tristeza:

“Não posei.”

O voluntário de um ano calou-se e estendeu-se no banco.

Os homens da escolta jogavam cartas com Švejk. Desesperado, o cabo começou a dar palpites e chegou a observar que Švejk havia jogado o ás de folhas, o que era um erro. Não devia ter cortado com o trunfo e deveria guardar o sete para a última vaza.

“Antigamente havia nas tavernas”, disse Švejk, “uns letreiros muito bonitos contra os palpiteiros. Lembro de um: ‘Palpiteiro, fecha o focinho, antes que eu meta a mão nele bem certinho.’”

O trem militar entrava numa estação onde uma inspeção examinava os vagões. O trem parou.

“É claro”, disse o implacável voluntário de um ano, lançando um olhar significativo ao cabo. “A inspeção já está aqui...”

A inspeção entrou no vagão.

O oficial da reserva doutor Mráz fora designado pelo Estado-Maior como comandante do trem militar.

Sempre jogavam os oficiais da reserva nesses serviços idiotas. O doutor Mráz estava completamente perdido. Não conseguia fazer fechar a conta de um dos vagões, embora na vida civil fosse professor de matemática num ginásio científico. Além disso, o efetivo dos homens de cada vagão, informado na última estação, não coincidia com os números registrados depois de concluído o embarque na estação de České Budějovice. Examinando os papéis, tinha a impressão de que, sem que ninguém soubesse de onde haviam saído, apareciam duas cozinhas de campanha a mais. Causava-lhe um formigamento extraordinariamente desagradável nas costas constatar que seus cavalos haviam se multiplicado de maneira desconhecida. Na lista dos oficiais, não conseguia localizar dois cadetes que estavam faltando. No escritório do regimento, instalado no vagão da frente, procuravam sem parar uma máquina de escrever. Aquele caos provocara-lhe uma dor de cabeça; já havia tomado três comprimidos de aspirina e agora inspecionava o trem com uma expressão dolorosa no rosto.

Quando entrou no compartimento dos presos com seu acompanhante, consultou os papéis e recebeu o relatório do cabo arruinado, segundo o qual transportava dois presos e dispunha de tantos e tantos homens. Tornou a comparar nos documentos a veracidade das informações e olhou ao redor.

“Quem é esse que vocês estão levando?”, perguntou com severidade, apontando para o capelão militar-chefe, que dormia de barriga para baixo, com as nádegas voltadas desafiadoramente para a inspeção.

“Respeitosamente informo, senhor tenente”, gaguejou o cabo, “que nós, bem, coisamos...”

“Que história é essa de coisar?”, resmungou o doutor Mráz. “Expresse-se diretamente.”

“Respeitosamente informo, senhor tenente”, disse Švejk no lugar do cabo, “que este senhor que está dormindo de barriga para baixo é algum senhor capelão militar-chefe bêbado. Ele se juntou a nós e entrou aqui no nosso vagão. Como é nosso superior, não podíamos botar ele para fora, para não violar a superordinação. Ele provavelmente confundiu o vagão do Estado-Maior com o vagão dos presos.”

O doutor Mráz suspirou e consultou seus papéis. Não havia na lista qualquer menção a um capelão militar-chefe que devesse viajar naquele trem para Bruck. Seu olho estremeceu nervosamente. Na última estação, seus cavalos haviam começado de repente a aumentar; agora até capelães militares-chefes nasciam do nada no compartimento dos presos.

Não conseguiu pensar em outra coisa senão ordenar ao cabo que virasse o homem que dormia de barriga para baixo, pois naquela posição era impossível determinar sua identidade.

Depois de grande esforço, o cabo virou o capelão militar-chefe de costas. Este despertou e, ao ver um oficial diante de si, disse:

“Eh, servus, Fredy, was gibt’s Neues? Abendessen schon fertig?”

Voltou a fechar os olhos e virou-se para a parede.

O doutor Mráz reconheceu imediatamente o mesmo glutão do refeitório dos oficiais na véspera, o célebre devorador das rações militares de todos os oficiais, e suspirou baixinho.

“Por causa disso”, disse ao cabo, “o senhor irá apresentar-se ao relatório.”

Já estava saindo quando Švejk o deteve:

“Respeitosamente informo, senhor tenente, que eu não pertenço mais aqui. Eu devia ficar preso só até as onze, porque justamente hoje terminou meu prazo. Fui preso por três dias e agora já devia estar sentado com os outros no vagão de gado. Como já passou das onze faz muito tempo, peço ao senhor, senhor tenente, que ou me desembarque nos trilhos, ou me transfira para o vagão de gado, onde é meu lugar, ou me mande para o senhor primeiro-tenente Lukáš.”

“Como se chama?”, perguntou o doutor Mráz, voltando a consultar seus papéis.

“Švejk Josef, respeitosamente informo, senhor tenente.”

“Hum, então o senhor é o famoso Švejk”, disse o doutor Mráz. “Realmente devia ter sido solto às onze. Mas o senhor primeiro-tenente Lukáš pediu-me que não o libertasse antes de Bruck. Segundo ele, é mais seguro assim, pois pelo menos não fará nada durante a viagem.”

Depois da partida da inspeção, o cabo não conseguiu conter uma observação maliciosa:

“Está vendo, Švejk, que não adiantou porra nenhuma recorrer a uma instância superior. Caso eu quisesse, poderia ter ferrado vocês dois.”

“Senhor cabo”, disse o voluntário de um ano, “atirar merda é uma argumentação mais ou menos verossímil, mas um homem inteligente não deve empregar palavras desse tipo quando está irritado ou pretende atacar alguém. Depois vem essa ameaça ridícula de que o senhor poderia ter ferrado nós dois. Por que diabos não fez isso quando teve oportunidade? Nisso se manifestam, sem dúvida, sua grande maturidade mental e sua extraordinária delicadeza.”

“Já chega!”, exclamou o cabo, levantando-se de um salto. “Posso mandar vocês dois para a cadeia.”

“Por qual motivo, meu pombinho?”, perguntou inocentemente o voluntário de um ano.

“Isso é problema meu”, respondeu o cabo, procurando criar coragem.

“Problema seu”, disse o voluntário de um ano, sorrindo. “Seu e nosso. Como nas cartas: minha tia, sua tia. Eu diria antes que a menção ao fato de que o senhor irá apresentar-se ao relatório produziu certo efeito sobre sua pessoa e, por isso, começou a berrar conosco, naturalmente por vias não regulamentares.”

“Vocês são uns ordinários”, disse o cabo, reunindo a última coragem para assumir um aspecto terrível.

“Vou contar uma coisa ao senhor, senhor cabo”, observou Švejk. “Eu já sou um soldado velho, servi antes da guerra, e essas ofensas nem sempre compensam. Quando eu servia, anos atrás, lembro que havia na nossa companhia um soldado voluntário de longa permanência chamado Schreiter. Ele servia além do tempo obrigatório, já podia ter ido para casa havia muito tempo como cabo, mas era, como se diz, pancado da cabeça. Aquele sujeito vivia montado em cima de nós, soldados, grudava na gente como merda em camisa. Isto não estava certo, aquilo contrariava todos os regulamentos, perseguia-nos o máximo que podia e dizia: ‘Vocês não são soldados, são guardas de pomar!’ Um dia fiquei de saco cheio e fui ao relatório da companhia. ‘O que você quer?’, perguntou o capitão. ‘Respeitosamente informo, senhor capitão, que tenho uma queixa contra o nosso senhor sargento Schreiter. Nós somos soldados imperiais, e não guardas de pomar. Servimos a Sua Majestade o imperador, mas não somos vigias de frutas.’ ‘Trate de desaparecer da minha vista, seu inseto’, respondeu o capitão. Então pedi respeitosamente que meu caso fosse encaminhado ao relatório do batalhão. No relatório do batalhão, depois que expliquei ao primeiro-tenente que não éramos guardas de pomar, mas soldados imperiais, ele me mandou prender por dois dias. Eu, porém, pedi que meu caso fosse encaminhado ao relatório do regimento. No relatório do regimento, depois das minhas explicações, o senhor coronel berrou que eu era um idiota e que fosse para todos os diabos. Então respondi: ‘Respeitosamente informo, senhor coronel, que desejo ser conduzido ao relatório da brigada.’ Ele ficou assustado e mandou chamarem imediatamente ao escritório o nosso soldado voluntário de longa permanência Schreiter, que precisou se desculpar comigo diante de todos os oficiais pela expressão ‘guarda de pomar’. Depois me alcançou no pátio e comunicou que, daquele dia em diante, não me insultaria mais, mas que me levaria à prisão da guarnição. A partir de então passei a tomar o maior cuidado comigo mesmo, mas não consegui me vigiar. Eu estava de sentinela junto ao depósito, e todo sentinela sempre escrevia alguma coisa na parede. Ou desenhava a boceta de uma mulher, ou escrevia algum versinho. Eu não conseguia pensar em nada e, para passar o tempo, assinei meu nome na parede embaixo da frase: ‘O voluntário Schreiter é um osso.’ O canalha do voluntário denunciou imediatamente, porque me seguia como um cão vermelho. Por infelicidade, em cima daquela frase havia outra: ‘Não vamos para a guerra, vamos é cagar nela.’ Isso aconteceu em 1912, quando devíamos ir para a Sérvia por causa daquele cônsul Procházka. Mandaram-me imediatamente a Terezín, para o Landgericht. Os senhores do tribunal militar fotografaram umas quinze vezes a parede do depósito com as frases e minha assinatura. Dez vezes mandaram que eu escrevesse, para examinarem minha caligrafia: ‘Não vamos para a guerra, vamos é cagar nela.’ Quinze vezes tive de escrever diante deles: ‘O voluntário Schreiter é um osso.’ Por fim chegou um perito em caligrafia e mandou que eu escrevesse: ‘Foi em 29 de julho de 1897 que Králův Dvůr nad Labem conheceu os horrores do Labe violento e transbordante.’ ‘Ainda não basta’, disse o auditor militar. ‘O que nos interessa é o cagar. Dite-lhe alguma coisa que tenha muitos esses e erres.’ Então ele me ditou: ‘Sérvio, cabana, sarna, safadeza, querubim, rubi, ralé.’ O perito judicial em caligrafia já estava completamente atordoado e não parava de olhar para trás, onde havia um soldado com baioneta. Por fim disse que aquilo precisava ir para Viena e mandou que eu escrevesse três vezes seguidas: ‘O sol também já começa a queimar, o calor é extraordinário.’ Mandaram todo o material para Viena e, no fim, concluíram que, quanto às frases, aquela não era minha letra; a assinatura era minha, coisa que eu admitira; e por causa dela fui condenado a seis semanas, porque havia assinado enquanto estava de sentinela e, segundo disseram, não podia ter vigiado durante o tempo em que escrevia meu nome na parede.”

“Está vendo?”, disse o cabo com satisfação. “Aquilo afinal não ficou sem castigo. Você é um criminoso dos bons. No lugar daquele Landgericht, eu não lhe daria seis semanas, mas seis anos.”

“Não seja tão terrível”, interveio o voluntário de um ano. “Pense antes em seu fim. A inspeção acabou de lhe dizer que o senhor irá apresentar-se ao relatório. O senhor devia preparar-se para uma coisa dessas com muita seriedade e meditar sobre as coisas derradeiras de um cabo. Afinal, o que é o senhor diante do universo, considerando-se que a estrela fixa mais próxima de nós está 275 mil vezes mais distante deste trem militar do que o Sol, para que sua paralaxe forme um segundo de arco? Caso o senhor se encontrasse no universo como uma estrela fixa, seria decididamente insignificante demais para que os melhores instrumentos astronômicos pudessem detectá-lo. Não existe conceito capaz de exprimir sua insignificância no universo. Em meio ano, o senhor descreveria no céu um arco minúsculo; em um ano, uma elipse pequeníssima, para cuja expressão em algarismos sequer existe conceito, tamanha seria sua insignificância. Sua paralaxe seria incomensurável.”

“Num caso desses”, observou Švejk, “o senhor cabo podia até se orgulhar de que ninguém consegue se comparar com ele, e, não importa o que aconteça no relatório, precisa ficar calmo e não se exaltar, porque toda exaltação faz mal à saúde, e no exército cada um precisa cuidar da saúde, porque essas provações da guerra exigem de cada indivíduo que não seja nenhum fracote. Se prenderem o senhor, senhor cabo”, continuou Švejk com um sorriso amável, “se fizerem alguma injustiça com o senhor, não pode perder o ânimo, e, se eles pensarem lá as coisas deles, pense também as suas. Eu conheci um carvoeiro que ficou preso comigo no começo da guerra, na Diretoria de Polícia de Praga, um tal de František Škvor, por alta traição, e depois talvez até tenham executado o homem por causa de alguma sanção pragmática. Quando perguntaram a ele no interrogatório se tinha alguma objeção ao protocolo, ele disse: ‘Tenha sido como tenha sido, de algum jeito foi, porque nunca aconteceu que de algum jeito não fosse.’ Por causa disso, meteram-no numa cela escura e não lhe deram nada para comer nem beber durante dois dias; depois o levaram outra vez ao interrogatório, e ele continuou firme em que, tenha sido como tenha sido, de algum jeito foi, porque nunca aconteceu que de algum jeito não fosse. Pode ser que tenha ido com isso até a forca, quando depois o entregaram ao tribunal militar.”

“Dizem que agora estão enforcando e fuzilando muita gente”, disse um dos homens da escolta. “Outro dia leram para nós, no campo de exercícios, uma ordem dizendo que em Motol fuzilaram o reservista Kudrna, porque um capitão deu uma espadada no filhinho dele, que estava no colo da mulher quando ela quis se despedir dele em Benešov, e ele se exaltou. E estão prendendo todo tipo de gente metida em política. Também já fuzilaram um redator na Morávia. E o nosso capitão disse que ainda vai chegar a vez dos outros.”

“Tudo tem seus limites”, disse ambiguamente o voluntário de um ano.

“Isso é verdade”, manifestou-se o cabo. “É disso mesmo que esses redatores precisam. Eles só ficam amotinando o povo. Anteontem, quando eu ainda era apenas anspeçada, havia sob minhas ordens um redator que não me chamava de outra coisa senão de ruína do exército. Mas, quando eu lhe ensinava aqueles exercícios de dobrar os joelhos até ele ficar suado, sempre dizia: ‘Peço que respeite em mim o ser humano.’ Pois eu mostrei a ele o ser humano, quando davam a ordem de deitar e havia um monte de poças no pátio do quartel. Levei-o até uma dessas poças e o sujeito teve de se jogar dentro dela até a água espirrar como numa piscina. À tarde, tudo nele já tinha de reluzir outra vez, o uniforme precisava estar limpo como vidro, e ele esfregava, gemia e fazia observações. No dia seguinte, lá estava ele outra vez como um porco revolvido na lama, e eu ficava em pé sobre ele e dizia: ‘Então, senhor redator, o que vale mais, a ruína do exército ou esse seu ser humano?’ Aquele era um intelectual de verdade.”

O cabo olhou triunfalmente para o voluntário de um ano e continuou:

“Ele perdeu as divisas de voluntário de um ano justamente por causa da inteligência, porque escrevia nos jornais sobre os maus-tratos sofridos pelos soldados. Mas como é que não se vai maltratar um sujeito desses, quando um homem tão instruído não sabe desmontar o ferrolho do fuzil nem depois de lhe mostrarem pela décima vez, e, quando se diz linksšaut, ele vira de propósito aquela cabeça para a direita e fica olhando feito um corvo? No manejo do fuzil, não sabe o que deve agarrar primeiro, se a correia ou a cartucheira, e olha para a gente feito bezerro para porteira nova quando mostramos como a mão deve deslizar correia abaixo. Ele nem sabia em qual ombro se carregava o fuzil e fazia continência feito macaco. E nas conversões, Deus nos acuda, quando marchávamos e ele aprendia a andar! Quando tinha de virar, para ele tanto fazia com qual perna executava o movimento: patapum, patapum, patapum, ainda avançava uns seis passos e só depois girava feito galo no cata-vento. Durante a marcha, mantinha o passo como quem sofre de gota ou dançava feito uma puta velha numa festa de igreja.”

O cabo cuspiu.

“Deram-lhe de propósito um fuzil muito enferrujado, para aprender a limpar. Ele esfregava aquilo feito cachorro em cadela, mas, mesmo que tivesse comprado mais dois quilos de estopa, não teria limpado coisa nenhuma. Quanto mais esfregava, pior e mais enferrujado ficava. No relatório, o fuzil passou de mão em mão e todo mundo se admirava de como era possível aquilo ser só ferrugem. O nosso capitão sempre lhe dizia que dele nunca sairia soldado nenhum, que era melhor ir se enforcar, pois comia de graça o pão do comissariado. E ele apenas piscava por trás daqueles oclinhos. Era para ele uma grande festa quando não estava cumprindo verschärft ou detenção no quartel. Nesses dias, em geral escrevia seus artiguinhos para os jornais sobre os maus-tratos aos soldados, até que um dia revistaram a maleta dele. Ah, meu senhor, os livros que havia lá dentro! Só livros sobre desarmamento e sobre a paz entre os povos. Por isso, foi mandado para a guarnição e desde então tivemos sossego, até que reapareceu de repente no escritório, preenchendo requisições, com a ordem de que a tropa não tivesse contato com ele. Esse foi o triste fim daquele intelectual. Podia ter virado um senhor importante, se não tivesse perdido, por causa da própria estupidez, o direito de voluntário de um ano. Podia ser tenente.”

O cabo suspirou.

“Ele nem sabia fazer as pregas no capote. Mandava vir de Praga líquidos e todo tipo de pomada para limpar os botões, e ainda assim cada botão dele parecia ruivo como Esaú. Mas sabia abrir a boca, e, quando ficou no escritório, não fazia outra coisa senão se entregar à filosofia. Já gostava disso antes. Como eu disse, vivia falando no ‘ser humano’. Uma vez, quando estava refletindo diante de uma poça na qual tinha sido obrigado a se atirar ao receber a ordem de deitar, eu lhe disse: ‘Já que o senhor vive falando do ser humano e da lama, lembre-se de que o homem foi criado da lama e deve ter achado isso muito bom.’”

Agora que havia desabafado, o cabo estava satisfeito consigo mesmo e aguardava o que o voluntário de um ano diria. Quem se manifestou, porém, foi Švejk:

“Foi por causa dessas mesmas coisas, dessas perseguições, que há alguns anos, no 35º Regimento, um tal de Koníček esfaqueou a si mesmo e ao cabo. Saiu no Kurýr. O cabo tinha no corpo umas trinta feridas de baioneta, das quais mais de uma dúzia eram mortais. Depois, o soldado ainda se sentou sobre o cabo morto e, montado nele, atravessou o próprio corpo. Houve outro caso, anos atrás, na Dalmácia. Lá degolaram um cabo, e até hoje ninguém sabe quem fez aquilo. O caso ficou envolto em mistério. Só se sabe que o cabo degolado se chamava Fiala e era de Drábovna, perto de Turnov. Depois conheço ainda o caso de outro cabo, do 75º, o Rejmánek...”

A agradável narrativa foi interrompida por grandes gemidos vindos do banco onde dormia o capelão militar superior Lacina.

O padre despertava em toda a sua beleza e dignidade. Seu despertar vinha acompanhado dos mesmos fenômenos que o despertar matinal do jovem gigante Gargântua, conforme descrito pelo velho e divertido Rabelais.

O capelão militar superior peidava e arrotava sobre o banco e bocejava estrondosamente para todos os lados. Finalmente, sentou-se e perguntou, admirado:

“Krucilaudon, onde é que estou?”

O cabo, vendo despertar o senhor militar, respondeu com extrema devoção:

“Respeitosamente informo, senhor obrfeldkurát, que o senhor se digna encontrar-se no vagão de presos.”

Um lampejo de espanto atravessou o rosto do padre. Ele permaneceu algum tempo sentado em silêncio, pensando intensamente. Em vão. Entre o que vivera durante a noite e pela manhã e o despertar naquele vagão cujas janelas eram protegidas por grades, havia um mar de obscuridade.

Finalmente, perguntou ao cabo, que continuava em pé diante dele com toda a devoção:

“E por ordem de quem eu, quero dizer...”

“Respeitosamente informo: sem ordem alguma, senhor obrfeldkurát.”

O padre levantou-se e começou a caminhar entre os bancos, resmungando que aquilo não estava claro para ele.

Sentou-se novamente e perguntou:

“Para onde, afinal, estamos indo?”

“Para Bruck, respeitosamente informo.”

“E por que estamos indo para Bruck?”

“Respeitosamente informo que todo o nosso 91º Regimento foi transferido para lá.”

O padre tornou a pensar intensamente no que de fato lhe acontecera, em como fora parar naquele vagão, por que estava viajando para Bruck e precisamente com o 91º Regimento, acompanhado de uma escolta.

Já havia se recuperado da bebedeira o bastante para reconhecer também o voluntário de um ano. Por isso, voltou-se para ele e perguntou:

“O senhor é um homem inteligente. Pode me explicar tudo, sem esconder nada, como vim parar entre vocês?”

“Com muito prazer”, disse o voluntário de um ano, em tom camarada. “O senhor simplesmente se juntou a nós de manhã, na estação, quando estávamos embarcando no trem, porque estava bêbado.”

O cabo lançou-lhe um olhar severo.

“O senhor entrou no nosso vagão”, continuou o voluntário de um ano, “e o fato consumou-se. Deitou-se no banco, e este Švejk pôs o próprio capote debaixo da sua cabeça. Durante a inspeção do trem na estação anterior, o senhor foi incluído na lista dos oficiais que se encontram no trem. Foi, por assim dizer, oficialmente descoberto, e o nosso cabo terá de comparecer ao relatório por causa disso.”

“Sim, sim”, suspirou o padre. “Então, na próxima estação, preciso passar para os vagões do Estado-Maior. Não sabem se o almoço já foi servido?”

“O almoço só será servido em Viena, senhor capelão militar”, informou o cabo.

“Então foi você que pôs o capote debaixo da minha cabeça?”, perguntou o padre a Švejk. “Agradeço-lhe de coração.”

“Eu não mereço gratidão nenhuma”, respondeu Švejk. “Agi como deve agir todo soldado quando vê que o superior não tem nada debaixo da cabeça e está naquele estado. Todo soldado deve respeitar o superior, mesmo que ele esteja num estado diferente. Tenho muita experiência com capelães militares, porque fui ordenança do senhor capelão militar Otto Katz. É uma raça alegre e bondosa.”

Sob o efeito da ressaca da véspera, o capelão militar superior teve um ataque de democratismo, tirou um cigarro e o ofereceu a Švejk:

“Fume e bafore! E você”, voltou-se para o cabo, “dizem que terá de comparecer ao relatório por minha causa. Não tenha medo. Eu o tirarei dessa, não lhe acontecerá nada. E você”, disse a Švejk, “eu levarei comigo. Viverá comigo como em berço de plumas.”

Teve então um novo ataque de generosidade e afirmou que faria o bem a todos: compraria chocolate para o voluntário de um ano, rum para os homens da escolta, mandaria transferir o cabo para a seção fotográfica do Estado-Maior da 7ª Divisão de Cavalaria, libertaria todos e jamais se esqueceria deles.

Começou a distribuir a todos os cigarros de sua bolsa, não apenas a Švejk, e declarou que permitia que todos os presos fumassem, que se empenharia para que a pena de todos fosse abrandada e eles fossem novamente devolvidos à vida militar normal.

“Não quero”, disse ele, “que se lembrem de mim com rancor. Tenho muitos conhecidos e, comigo, vocês não ficarão desamparados. De modo geral, causam-me a impressão de pessoas decentes, queridas por Deus. Caso tenham pecado, expiam sua pena, e vejo que suportam de boa vontade e com disposição aquilo que Deus lhes enviou. Com base em quê”, voltou-se para Švejk, “você foi punido?”

“Deus me enviou o castigo”, respondeu Švejk devotamente, “por intermédio do relatório do regimento, senhor obrfeldkurát, por causa de um atraso involuntário na apresentação ao regimento.”

“Deus é sumamente misericordioso e justo”, disse solenemente o capelão militar superior. “Ele sabe a quem deve castigar, pois desse modo demonstra apenas sua previdência e onipotência. E por que o senhor está preso, voluntário de um ano?”

“Porque”, respondeu o voluntário de um ano, “o Deus misericordioso dignou-se enviar-me reumatismo e eu me enchi de orgulho. Depois de cumprir a pena, serei mandado para a cozinha.”

“O que Deus governa, governa bem”, comentou o padre entusiasmado ao ouvir falar na cozinha. “Também ali um homem correto pode fazer carreira. É justamente para a cozinha que deveriam mandar gente inteligente, por causa das combinações, pois não importa como se cozinha, mas com quanto amor as coisas são reunidas, a apresentação e outras questões. Tome os molhos como exemplo. Quando um homem inteligente prepara molho de cebola, pega todo tipo de verdura e refoga na manteiga, depois acrescenta temperos, pimenta, pimenta-da-jamaica, um pouco de macis e gengibre. Já um cozinheiro vulgar e ordinário põe a cebola para cozinhar e joga ali um roux escuro feito com sebo. Eu realmente preferiria vê-lo em algum rancho de oficiais. Sem inteligência, o homem pode viver num emprego qualquer e levar a vida, mas na cozinha a falta dela aparece. Ontem à noite, em Budějovice, serviram-nos no cassino dos oficiais, entre outras coisas, rins à la madeira. Deus perdoe todos os pecados de quem os preparou, porque aquele era um verdadeiro intelectual. E de fato há na cozinha do rancho dos oficiais de lá um professor de Skuteč. Já comi os mesmos rins à la madeira no rancho dos oficiais do 64º Regimento da Defesa Territorial. Puseram cominho neles, como fazem numa taverna comum quando preparam rins com pimenta. E quem os havia preparado, o que aquele cozinheiro fazia na vida civil? Era tratador de gado numa grande propriedade.”

O capelão militar superior calou-se e depois conduziu a conversa para o problema culinário no Antigo e no Novo Testamento, onde, justamente naqueles tempos, prestavam enorme atenção ao preparo de iguarias saborosas após os ofícios religiosos e outras celebrações eclesiásticas. Em seguida, pediu que todos cantassem alguma coisa, ao que Švejk começou, como sempre, da maneira mais infeliz:

“Lá vem Marína de Hodonín,
atrás dela o padre com um barril de vinho.”

Mas o capelão militar superior não se zangou.

“Se ao menos houvesse aqui um pouco de rum, o barril de vinho seria desnecessário”, disse sorrindo, em completa disposição amistosa. “E também poderíamos dispensar essa Marína, porque uma mulher dessas só conduz ao pecado.”

O cabo enfiou cautelosamente a mão no capote e tirou de lá uma garrafa achatada de rum.

“Respeitosamente informo, senhor obrfeldkurát”, disse em voz baixa, deixando perceber o sacrifício que fazia contra os próprios interesses, “caso o senhor não se ofenda.”

“Não me ofenderei, meu rapaz”, respondeu o padre, alegremente e com a voz iluminada. “Beberei à nossa feliz viagem.”

“Jesus, Maria”, suspirou consigo mesmo o cabo, vendo que, depois de um gole caprichado, desaparecera metade da garrafa.

“Mas vejam só o senhor”, disse o capelão militar, sorrindo e piscando significativamente para o voluntário de um ano. “Além de tudo, ainda invoca o diabo. Deus terá de castigá-lo.”

O padre tomou outro gole da garrafa achatada e, estendendo-a a Švejk, ordenou em tom de comando:

“Acabe com ela.”

“Guerra é guerra”, disse Švejk bondosamente ao cabo, devolvendo-lhe a garrafa vazia.

O cabo confirmou isso com um lampejo tão estranho nos olhos que só poderia aparecer num homem demente.

“Agora vou tirar mais um cochilo até Viena”, disse o capelão militar superior, “e quero que me acordem assim que chegarmos. E você”, voltou-se para Švejk, “irá à cozinha do nosso rancho, pegará os talheres e me trará o almoço. Diga que é para o senhor obrfeldkurát Lacina. Trate de conseguir uma porção dupla. Se houver knedlíky, não pegue os das pontas, porque nisso a gente sempre sai perdendo. Depois, traga-me da cozinha uma garrafa de vinho e leve consigo uma caneca de campanha, para que a encham de rum.”

O padre Lacina remexeu os bolsos.

“Escute”, disse ao cabo, “não tenho trocado. Empreste-me um florim. Pronto, aqui está! Como você se chama? Švejk? Aqui está, Švejk, um florim para as despesas! Senhor cabo, empreste-me mais um florim. Está vendo, Švejk? Você receberá este segundo florim quando providenciar tudo direito. Depois, faça com que lhe deem cigarros e charutos para mim. Se estiverem distribuindo chocolate, embrulhe uma porção dupla, e, se houver conservas, trate de conseguir língua defumada ou fígado de ganso. Caso distribuam queijo emmental, providencie para que não lhe deem uma ponta; quanto ao salame húngaro, nada de extremidade, pegue um belo pedaço do meio, para estar macio.”

O capelão militar superior estendeu-se sobre o banco e pouco depois adormeceu.

“Acho”, disse o voluntário de um ano ao cabo, em meio aos roncos do padre, “que o senhor está plenamente satisfeito com o nosso enjeitado. Ele sabe aproveitar a vida como se deve.”

“Agora, como se diz”, manifestou-se Švejk, “ele já foi desmamado, senhor cabo. Já está mamando na garrafa.”

O cabo lutou consigo mesmo por algum tempo e de repente perdeu toda a submissão, dizendo com dureza:

“Ele é extremamente mansinho.”

“Com esse dinheiro trocado que não tem”, comentou Švejk, “ele me lembra um tal de Mlíčko, pedreiro de Dejvice. Aquele também ficou tanto tempo sem dinheiro trocado que acabou endividado até o pescoço e foi preso por fraude. Comia as notas grandes e nunca tinha trocado.”

“No 75º Regimento”, disse um dos homens da escolta, “um capitão bebeu todo o caixa do regimento antes da guerra e teve de pedir baixa, mas agora já é capitão outra vez. Um sargento que roubou do erário tecido para os colarinhos do uniforme, mais de vinte fardos, hoje é sargento-mor do Estado-Maior. E um soldado de infantaria foi fuzilado recentemente na Sérvia porque comeu de uma vez sua conserva, que deveria guardar para três dias.”

“Isso não vem ao caso”, declarou o cabo, “mas é verdade que pedir emprestados dois florins a um cabo pobre para gastar em gorjetas...”

“Aqui está o seu florim”, disse Švejk. “Não quero enriquecer às suas custas. E, quando ele me der o outro florim, eu também o devolverei, para o senhor não chorar. Devia ficar contente quando algum superior militar lhe pede dinheiro emprestado para despesas. O senhor é terrivelmente egoísta. Estamos falando de dois miseráveis florins, e eu queria ver o senhor se tivesse de sacrificar a vida pelo seu superior militar, se ele estivesse ferido em algum ponto da linha inimiga e o senhor tivesse de salvá-lo, carregá-lo nos braços, enquanto atiravam contra o senhor com estilhaços e tudo quanto é coisa.”

“O senhor se cagaria”, defendeu-se o cabo, “seu ordenança de uma figa.”

“Há mais gente cagada em cada combate”, voltou a dizer um dos homens da escolta. “Outro dia, em Budějovice, um camarada ferido contou que, quando estavam avançando, cagou-se três vezes seguidas. Primeiro quando saíram dos abrigos e subiram para o terreno diante dos obstáculos de arame; depois, quando começaram a cortá-los; e pela terceira vez borrou as calças quando os russos avançaram contra eles com baionetas, gritando ‘urá’. Então começaram a fugir de volta para os abrigos, e não havia um único homem do pelotão que não estivesse cagado. Um morto estava caído em cima do abrigo, com os pés voltados para baixo. Durante o avanço, um estilhaço arrancara metade da cabeça dele, como se a tivesse cortado com uma lâmina. Naquele último instante, cagou-se de tal maneira que tudo escorreu das calças, por cima das botinas, para dentro do abrigo, misturado com sangue. E a metade do crânio, junto com os miolos, estava caída bem embaixo. O homem nem percebe como uma coisa dessas acontece.”

“Às vezes”, disse Švejk, “o homem também passa mal no combate, porque toma nojo de alguma coisa. Em Praga, na Vyhlídka, em Pohořelec, um convalescente doente vindo de Przemyśl contou que, em algum lugar debaixo da fortaleza, houve um ataque de baionetas e apareceu diante dele um russo, um sujeito do tamanho de uma montanha, avançando contra ele com a baioneta. O russo tinha uma bela gota pendurada no nariz. Quando ele olhou para aquela gota, para aquela meleca, passou mal na mesma hora e teve de ir ao posto de socorro. Lá disseram que estava contaminado de cólera e o mandaram para os barracões de cólera em Peste, onde de fato acabou pegando cólera.”

“Era um simples soldado de infantaria ou um cabo?”, perguntou o voluntário de um ano.

“Era cabo”, respondeu Švejk calmamente.

“Isso também poderia acontecer com qualquer voluntário de um ano”, disse estupidamente o cabo.

Ao mesmo tempo, porém, lançou um olhar triunfal ao voluntário de um ano, como se quisesse dizer: “Tome essa. O que responde agora?”

O outro permaneceu calado e deitou-se no banco.

Aproximavam-se de Viena. Os que não dormiam observavam pela janela os obstáculos de arame e as fortificações ao redor da cidade, o que evidentemente provocou em todo o trem certa sensação de opressão.

Até então ainda ecoava constantemente dos vagões o berreiro dos alemães de Kašperské Hory:

“Wann ich kumm, wann ich kumm,
wann ich wieda, wieda kumm.”

Agora, porém, calaram-se sob a desagradável impressão do arame farpado com que Viena estava cercada.

“Está tudo em ordem”, disse Švejk, olhando para as trincheiras. “Está tudo na mais completa ordem. Só que aqui os vienenses podem rasgar as calças quando saem para passear. Neste lugar, o homem precisa tomar cuidado. Viena é uma cidade muito importante”, continuou. “Basta ver a quantidade de animais selvagens que eles têm naquela menagerie de Schönbrunn. Quando estive em Viena, anos atrás, gostava acima de tudo de ir ver os macacos, mas, quando passa alguma personalidade do palácio imperial, não deixam ninguém atravessar o cordão. Havia comigo um alfaiate do Décimo Distrito que foi preso porque queria ver os macacos de qualquer maneira.”

“E o senhor também esteve no palácio?”, perguntou o cabo.

“Lá é muito bonito”, respondeu Švejk. “Eu nunca estive, mas um sujeito que esteve me contou. O mais bonito de tudo é a Burgwache. Dizem que cada um deles precisa ter dois metros de altura e depois ganha a concessão de uma tabacaria. E há princesas por lá como lixo.”

Passaram por alguma estação, de onde os sons do hino austríaco, tocado por uma banda que talvez tivesse ido parar ali por engano, ainda ecoaram atrás deles. Somente bastante tempo depois o trem chegou à estação onde finalmente pararam, receberam a ração militar e foram recebidos solenemente.

Já não era como no começo da guerra, quando os soldados a caminho da frente comiam até se empanturrar em todas as estações e eram recebidos por damas de honra usando vestidos brancos idiotas, com caras ainda mais idiotas, buquês condenadamente estúpidos e discursos ainda mais estúpidos, pronunciados por alguma senhora cujo marido agora se fazia de grande patriota e republicano.

A recepção em Viena compunha-se de três integrantes da Cruz Vermelha Austríaca, duas integrantes de alguma associação de guerra das senhoras e moças vienenses, um representante oficial da municipalidade de Viena e um representante militar.

Em todos aqueles rostos era possível ver o cansaço. Os trens de tropas passavam dia e noite, os veículos sanitários atravessavam as ruas com feridos a cada hora, nas estações os vagões com prisioneiros eram transferidos a todo instante de uma linha para outra, e os integrantes de todas aquelas diferentes corporações e associações tinham de comparecer a tudo isso.

A coisa prosseguia dia após dia, e o entusiasmo original transformava-se em bocejo. Revezavam-se naquele serviço, e cada um que aparecia em alguma estação vienense trazia a mesma expressão fatigada daqueles que, naquele dia, esperavam o trem do regimento de Budějovice.

Dos vagões de transporte de gado, os soldados espiavam com a expressão desesperançada de homens a caminho da forca.

As senhoras aproximavam-se e lhes distribuíam pão de mel com inscrições de açúcar:

“Sieg und Rache”,

“Gott strafe England”,

“Der Österreicher hat ein Vaterland. Er liebt’s und hat such Ursach fürs Vaterland zu kämpfen.”

Era possível ver os montanheses de Kašperské Hory enchendo a boca de pão de mel sem que a expressão de desesperança os abandonasse.

Em seguida, veio a ordem para que as companhias fossem buscar a ração militar nas cozinhas de campanha instaladas atrás da estação.

Ali também havia a cozinha dos oficiais, para onde Švejk foi cumprir as ordens do capelão militar superior, enquanto o voluntário de um ano aguardava que lhe dessem comida, pois dois homens da escolta tinham ido buscar a ração de todo o vagão de presos.

Švejk cumpriu corretamente as ordens e, atravessando as linhas, viu o primeiro-tenente Lukáš, que passeava entre os trilhos à espera de saber se sobraria alguma coisa para ele no rancho dos oficiais.

Sua situação era muito desagradável, porque, por enquanto, ele e o primeiro-tenente Kirschner dividiam um único ordenança. O sujeito cuidava, na verdade, exclusivamente do próprio senhor e praticava uma sabotagem completa quando se tratava do primeiro-tenente Lukáš.

“Para quem está levando isso, Švejk?”, perguntou o infeliz primeiro-tenente, quando Švejk pôs no chão a pilha de coisas que conseguira arrancar do rancho dos oficiais e que carregava embrulhadas no capote.

Švejk hesitou por um instante, mas recuperou-se imediatamente. Seu rosto estava cheio de serenidade e calma quando respondeu:

“É para o senhor, respeitosamente informo, senhor primeiro-tenente. Só não sei em qual compartimento o senhor está, e também não sei se o senhor comandante do trem terá alguma coisa contra eu ir com o senhor. Ele é um porco.”

O primeiro-tenente Lukáš lançou um olhar interrogativo a Švejk, que, porém, prosseguiu com afável intimidade:

“Ele é mesmo um porco, senhor primeiro-tenente. Quando veio fazer a inspeção no trem, eu logo comuniquei a ele que já eram onze horas, que eu já tinha cumprido a pena inteira e que meu lugar era ou no vagão de gado ou junto do senhor, mas ele me despachou da maneira mais grosseira, dizendo que eu ficasse onde estava, porque assim pelo menos eu não faria o senhor passar outra vergonha durante a viagem.”

Švejk assumiu uma expressão de mártir:

“Como se eu alguma vez tivesse feito o senhor passar vergonha, senhor primeiro-tenente.”

O primeiro-tenente Lukáš suspirou.

“Vergonha”, continuou Švejk, “eu com certeza nunca fiz o senhor passar. Quando aconteceu alguma coisa, foi por acaso, por pura determinação divina, como dizia o velho Vaniček, de Pelhřimov, quando estava cumprindo a trigésima sexta pena. Nunca fiz nada de propósito, senhor primeiro-tenente. Sempre quis fazer alguma coisa hábil, alguma coisa boa, e não tenho culpa se nenhum de nós dois tirou proveito e só tivemos sofrimento e tormento.”

“Não chore tanto, Švejk”, disse o primeiro-tenente Lukáš com voz branda, enquanto se aproximavam do vagão do Estado-Maior. “Vou dar um jeito em tudo para que você volte a ficar comigo.”

“Comunico respeitosamente, senhor primeiro-tenente, que não estou chorando. Só me deu uma tristeza muito grande pensar que nós dois somos as pessoas mais infelizes desta guerra e debaixo do sol, e que nenhum dos dois tem culpa de nada. É um destino terrível, quando penso que sempre fui tão cuidadoso!”

“Acalme-se, Švejk!”

“Comunico respeitosamente, senhor primeiro-tenente, que, se não fosse contra a subordinação, eu diria que não consigo me acalmar de jeito nenhum. Mas, sendo assim, tenho de dizer que, conforme a sua ordem, já estou completamente calmo.”

“Então entre logo no vagão, Švejk.”

“Comunico respeitosamente que já estou entrando, senhor primeiro-tenente.”

Sobre o acampamento militar de Bruck reinava o silêncio noturno. Nos barracões da tropa, os soldados tremiam de frio, e nos barracões dos oficiais abriam-se as janelas, porque o aquecimento estava forte demais.

Dos diversos edifícios diante dos quais havia sentinelas, ouviam-se de vez em quando os passos da patrulha, que espantava o sono caminhando.

Lá embaixo, em Bruck an der Leitha, brilhavam as luzes da fábrica imperial e real de conservas de carne, onde se trabalhava dia e noite e se processavam diversos resíduos. Como o vento soprava de lá para as alamedas do acampamento militar, chegava até ali o fedor de tendões, cascos, unhas e ossos apodrecidos, que eram cozidos para virar conservas de sopa.

Do pavilhão abandonado onde, em tempos de paz, certo fotógrafo fotografava os soldados que passavam ali a juventude no campo de tiro militar, via-se, no vale junto ao Leitha, a luz elétrica vermelha do bordel Espiga de Milho, honrado pela visita do arquiduque Estêvão durante as grandes manobras de Sopron, em 1908, e onde a sociedade dos oficiais se reunia diariamente.

Era o melhor estabelecimento de má fama, no qual soldados rasos e voluntários de um ano não podiam entrar.

Estes frequentavam a Casa Rosa, cujas luzes verdes também podiam ser vistas do estúdio fotográfico abandonado. Era uma classificação semelhante à que mais tarde existiria na frente de batalha, quando a monarquia já não podia auxiliar seu exército com coisa alguma além de bordéis ambulantes junto aos Estados-Maiores das brigadas, os chamados “pufes”. Havia, portanto, o k. k. Offizierspuff, o k. k. Unteroffizierspuff e o k. k. Mannschaftspuff.

Bruck an der Leitha resplandecia, assim como, do outro lado da ponte, brilhava Királyhida, Cisleitânia e Transleitânia. Nas duas cidades, a húngara e a austríaca, tocavam bandas ciganas, reluziam as janelas de cafés e restaurantes, cantava-se e bebia-se. Os burgueses e funcionários locais levavam aos cafés e restaurantes suas esposas e filhas crescidas, e Bruck an der Leitha e Királyhida não passavam de um grande bordel.

Em um dos barracões de oficiais do acampamento, Švejk esperava, durante a noite, pelo primeiro-tenente Lukáš, que à tarde fora à cidade, ao teatro, e ainda não havia retornado. Švejk estava sentado na cama desfeita do primeiro-tenente e, diante dele, sentado sobre a mesa, encontrava-se o ordenança do major Wenzl.

O major voltara ao regimento depois que, na Sérvia, fora constatada sua completa incapacidade no Drina. Dizia-se que ele mandara desmontar e destruir uma ponte de pontões quando metade do batalhão ainda se encontrava do outro lado. Agora estava destacado como comandante do campo de tiro militar de Királyhida e também tinha de cuidar da administração do acampamento. Entre os oficiais, dizia-se que o major Wenzl agora voltaria a se pôr de pé. Os aposentos de Lukáš e de Wenzl ficavam no mesmo corredor.

O ordenança do major Wenzl, Mikulášek, um homenzinho miúdo e marcado pela varíola, balançava as pernas e praguejava:

“Eu fico admirado de o meu velho patife ainda não ter voltado. Gostaria de saber por onde o meu velhote anda vagabundeando a noite inteira. Se ao menos me desse a chave do quarto, eu me deitava e fazia a festa. Ele tem vinho que não acaba mais.”

“Dizem que ele rouba”, observou Švejk, fumando tranquilamente os cigarros do primeiro-tenente, já que este o proibira de baforar cachimbo no quarto. “Você deve saber alguma coisa sobre isso, de onde vem o vinho de vocês.”

“Eu vou aonde ele manda”, disse Mikulášek com sua voz fina. “Recebo um bilhete dele, vou requisitar as coisas para o hospital e levo tudo para casa.”

“E se ele mandasse você roubar o cofre do regimento”, perguntou Švejk, “você faria isso? Aqui, do outro lado da parede, você fala mal dele, mas diante dele treme feito vara verde.”

Mikulášek piscou os olhinhos:

“Eu pensaria no caso.”

“Você não tem de pensar em coisa nenhuma, sua cria suada”, gritou-lhe Švejk, mas logo se calou, pois a porta se abriu e o primeiro-tenente Lukáš entrou. Como se podia perceber imediatamente, ele estava de ótimo humor, pois trazia o quepe virado ao contrário.

Mikulášek ficou tão assustado que se esqueceu de saltar da mesa, mas, ainda sentado, prestou continência, esquecendo também que estava sem o quepe na cabeça.

“Comunico respeitosamente, senhor primeiro-tenente, que está tudo em ordem”, anunciou Švejk, assumindo uma postura militar rígida, conforme todos os regulamentos, embora o cigarro continuasse na sua boca.

O primeiro-tenente Lukáš, porém, não reparou nisso e foi diretamente até Mikulášek, que, de olhos arregalados, observava cada movimento do primeiro-tenente, continuando a prestar continência e ainda sentado sobre a mesa.

“Primeiro-tenente Lukáš”, disse ele, aproximando-se de Mikulášek com passos não muito firmes. “E como é que você se chama?”

Mikulášek ficou calado. Lukáš puxou uma cadeira para diante de Mikulášek, sentado sobre a mesa, acomodou-se nela e, olhando para cima, disse:

“Švejk, traga do baú o meu revólver de serviço.”

Durante todo o tempo em que Švejk procurava no baú, Mikulášek permaneceu em silêncio, olhando aterrorizado para o primeiro-tenente. Caso tivesse percebido naquele momento que estava sentado sobre a mesa, certamente ficou ainda mais desesperado, pois suas pernas tocavam os joelhos do primeiro-tenente sentado.

“Estou perguntando como você se chama, homem!”, gritou o primeiro-tenente para Mikulášek, lá em cima.

Ele, contudo, continuou calado. Como explicou mais tarde, sofrera uma espécie de paralisia diante da chegada inesperada do primeiro-tenente. Queria saltar da mesa, mas não conseguia; queria responder, mas não conseguia; queria parar de prestar continência, mas também não conseguia.

“Comunico respeitosamente, senhor primeiro-tenente”, disse Švejk, “que o revólver não está carregado.”

“Então carregue-o, Švejk!”

“Comunico respeitosamente, senhor primeiro-tenente, que não temos cartuchos e que vai ser difícil derrubá-lo da mesa com um tiro. Tomo a liberdade de observar, senhor primeiro-tenente, que esse é Mikulášek, ordenança do senhor major Wenzl. Ele sempre perde a fala quando vê um dos senhores oficiais. Tem vergonha de falar. É uma coisa assim, como eu disse, uma cria suada, exausta. O senhor major Wenzl sempre o deixa esperando no corredor quando vai à cidade, e a criatura fica andando tristemente atrás dos ordenanças pelo barracão. Se ao menos tivesse motivo para se assustar, mas na verdade não fez nada.”

Švejk cuspiu para o lado, e tanto na voz quanto no fato de referir-se a Mikulášek no gênero neutro podia-se ouvir seu completo desprezo pela covardia do ordenança do major Wenzl e pelo seu comportamento nada militar.

“Permita”, continuou Švejk, “que eu dê uma cheirada nele.”

Švejk puxou Mikulášek da mesa, que continuava olhando estupidamente para o primeiro-tenente, colocou-o no chão e cheirou suas calças.

“Ainda não”, declarou, “mas está começando. Quer que eu o ponha para fora?”

“Ponha-o para fora, Švejk.”

Švejk conduziu o trêmulo Mikulášek até o corredor, fechou a porta atrás de si e lhe disse:

“Pois eu salvei a sua vida, seu idiota. Quando o senhor major Wenzl voltar, você vai trazer escondido para mim uma garrafa de vinho. E não estou brincando. Eu salvei mesmo a sua vida. Quando o meu primeiro-tenente está bêbado, a coisa fica feia. Só eu sei lidar com ele, mais ninguém.”

“Eu sou…”

“Você é merda nenhuma”, declarou Švejk com desprezo. “Sente no degrau e espere o seu major Wenzl chegar.”

“Até que enfim”, recebeu-o o primeiro-tenente Lukáš. “Eu quero falar com você. Não precisa ficar aí tão estupidamente em posição de sentido. Sente-se, Švejk, e deixe de lado esse ‘conforme as ordens’. Cale a boca e preste muita atenção. Sabe onde fica a Sopronyi utca, em Királyhida? Poupe-me daquele seu eterno: ‘Comunico respeitosamente, senhor primeiro-tenente, que não sei.’ Não sabe, diga que não sabe, e acabou. Escreva num pedaço de papel: Sopronyi utca, número 16. Nessa casa há uma loja de ferragens. Sabe o que é uma loja de ferragens? Pelo amor de Deus, não diga ‘comunico respeitosamente’. Diga sei ou não sei. Então, sabe o que é uma loja de ferragens? Sabe, ótimo. A loja pertence a certo Malar Kákonyi. Sabe o que é Malar? Himlhergot, sabe ou não sabe? Sabe, ótimo. Em cima da loja há um primeiro andar e é lá que ele mora. Sabe disso? Não sabe, pelo crucifixo, pois estou dizendo que é lá que ele mora. Isso lhe basta? Basta, ótimo. Se não bastar, mando prendê-lo. Anotou que esse sujeito se chama Kákonyi? Muito bem. Então amanhã de manhã, por volta das dez horas, você vai descer até a cidade, encontrar essa casa, subir ao primeiro andar e entregar esta carta à senhora Kákonyi.”

O primeiro-tenente Lukáš abriu a carteira que levava no peito e, bocejando, entregou a Švejk um envelope branco, sem endereço.

“É uma coisa extremamente importante, Švejk”, continuou a instruí-lo. “Todo cuidado é pouco e, por isso, como pode ver, não há endereço. Confio plenamente em você para entregar esta carta em ordem. Anote também que a dama se chama Etelka, portanto escreva: ‘senhora Etelka Kákonyi’. Digo ainda que você deve entregar a carta discretamente, aconteça o que acontecer, e esperar por uma resposta. Que você deve esperar pela resposta já está escrito na carta. O que mais quer?”

“Se não me derem resposta, senhor primeiro-tenente, o que devo fazer?”

“Então você lembra a ela que precisa receber uma resposta de qualquer maneira”, respondeu o primeiro-tenente, bocejando novamente com toda a boca. “Mas agora vou dormir, hoje estou realmente cansado. E como bebemos. Acho que qualquer um estaria igualmente cansado depois de uma tarde e de uma noite como esta.”

A princípio, o primeiro-tenente Lukáš não pretendia demorar em lugar algum. Ao entardecer, saíra do acampamento para ir apenas ao teatro húngaro de Királyhida, onde apresentavam certa opereta húngara, com gordas atrizes judias nos papéis principais, cuja maravilhosa virtude consistia em levantar as pernas bem alto durante a dança, sem usarem nem malha nem calças e, para melhor atrair os senhores oficiais, depilarem-se embaixo como tártaras, do que naturalmente a galeria não tirava proveito algum, mas tiravam enorme proveito os oficiais de artilharia sentados na plateia, que levavam ao teatro binóculos de artilharia para contemplar aquela beleza.

O primeiro-tenente Lukáš, porém, não estava interessado naquela interessante porcaria, porque o binóculo de teatro que lhe haviam emprestado não era acromático e, no lugar das coxas, ele via apenas umas manchas violetas em movimento.

No intervalo depois do primeiro ato, sua atenção foi atraída por uma dama que, acompanhada por um senhor de meia-idade, puxava-o em direção ao guarda-roupa, dizendo que iriam para casa imediatamente, porque ela não ficaria olhando para uma coisa daquelas. Dizia isso em alemão, em voz bastante alta, ao que seu acompanhante respondeu em húngaro:

“Sim, meu anjo, vamos embora, concordo. É realmente uma coisa repugnante.”

“Es ist ekelhaft”, respondeu indignada a dama, enquanto o homem a ajudava a vestir a capa de teatro. Seus olhos ardiam de revolta diante daquela indecência, grandes olhos negros que combinavam muito bem com sua bela figura. Nesse momento, ela olhou para o primeiro-tenente Lukáš e pronunciou mais uma vez, decididamente:

“Ekelhaft, wirklich ekelhaft.”

Isso decidiu o breve romance.

Ele obteve da encarregada do guarda-roupa a informação de que aqueles eram o senhor e a senhora Kákonyi e de que o marido possuía, na Sopronyi utca, número 16, um estabelecimento de ferragens.

“E mora com a senhora Etelka no primeiro andar”, disse a encarregada, com os pormenores de uma velha alcoviteira. “Ela é alemã de Sopron, e ele é húngaro. Aqui está tudo misturado.”

O primeiro-tenente Lukáš também retirou a capa no guarda-roupa e foi para a cidade, onde encontrou, na grande adega e café Arquiduque Albrecht, vários oficiais do 91º regimento.

Não falou muito, mas em compensação bebeu mais, enquanto imaginava o que deveria escrever àquela dama rigorosa, moral e bonita, que decididamente o atraía mais do que todas aquelas macacas no palco, como os outros oficiais se referiam às atrizes.

Muito bem-humorado, saiu dali e foi até o pequeno café Cruz de Santo Estêvão, onde entrou num pequeno chambre séparée, expulsou uma romena que se oferecia para tirar toda a roupa e deixá-lo fazer com ela o que quisesse, pediu tinta, pena, papel de carta e uma garrafa de conhaque e, depois de cuidadosa reflexão, escreveu a seguinte carta, que lhe pareceu a mais bela que já havia escrito:

Minha senhora!

Estive ontem presente no teatro municipal durante a peça que tanto a indignou. Observei-a durante todo o primeiro ato, a senhora e o seu esposo. Pelo que pude notar…

“Vamos em cima dele”, disse consigo mesmo o primeiro-tenente Lukáš. “Que direito tem esse sujeito de possuir uma esposa tão encantadora? Parece um babuíno barbeado.”

Continuou escrevendo:

Seu esposo contemplava com a melhor compreensão as obscenidades praticadas no palco, naquela peça que lhe causou repugnância, minha senhora, pois aquilo não era arte, mas uma ação repulsiva sobre os sentimentos mais íntimos do ser humano.

“Aquela mulher tem uns seios”, pensou o primeiro-tenente Lukáš. “Vamos direto ao assunto!”

Perdoe-me, minha senhora, por não me conhecer, embora eu lhe escreva com sinceridade. Vi muitas mulheres em minha vida, mas nenhuma causou em mim uma impressão tão profunda quanto a senhora, pois seu julgamento e sua concepção da vida correspondem inteiramente aos meus. Estou convencido de que seu esposo é um puro egoísta, que a arrasta consigo…

“Isso não serve”, disse consigo mesmo o primeiro-tenente Lukáš, riscando “schleppt mit” e escrevendo em seu lugar:

…que, em seu próprio interesse, conduz a senhora, minha senhora, a representações teatrais que correspondem unicamente ao gosto dele. Amo a sinceridade, não pretendo intrometer-me de maneira alguma em sua vida particular e gostaria de conversar em particular com a senhora sobre a arte pura…

“Aqui nos hotéis não vai dar certo, vou ter de arrastá-la para Viena”, pensou ainda o primeiro-tenente. “Vou conseguir uma ordem de destacamento.”

Por isso, tomo a liberdade, minha senhora, de pedir-lhe um encontro, para que possamos conhecer-nos melhor e de maneira honrosa, o que certamente não recusará àquele que, dentro em breve, terá diante de si árduas marchas de guerra e que, caso conte com seu gentil consentimento, conservará no tumulto das batalhas a mais bela recordação da alma que o compreendeu do mesmo modo como ele próprio a compreendeu. Sua decisão será para mim um sinal, sua resposta, um momento decisivo em minha vida.

Assinou, bebeu o conhaque e pediu mais uma garrafa. Bebendo taça após taça, quase chegou realmente às lágrimas depois de cada frase, ao reler as últimas linhas.

Eram nove horas da manhã quando Švejk acordou o primeiro-tenente Lukáš:

“Comunico respeitosamente, senhor primeiro-tenente, que o senhor perdeu a hora do serviço e eu já preciso ir levar a sua carta para Királyhida. Já acordei o senhor às sete, depois às sete e meia, depois às oito, quando já estavam passando para os exercícios, mas o senhor só virou para o outro lado. Senhor primeiro-tenente… Estou falando, senhor primeiro-tenente…”

O primeiro-tenente Lukáš, depois de resmungar alguma coisa, queria virar-se outra vez de lado, mas não conseguiu, pois Švejk o sacudia impiedosamente e berrava:

“Senhor primeiro-tenente, então eu estou indo levar a carta para Királyhida.”

O primeiro-tenente bocejou:

“Com a carta? Ja, com a minha carta é preciso discrição, entende? É segredo entre nós. Abtreten…”

O primeiro-tenente tornou a enrolar-se no cobertor, do qual Švejk o puxara, e continuou dormindo, enquanto Švejk partia em direção a Királyhida.

Encontrar a Sopronyi utca, número 16, não teria sido tão difícil, caso ele não tivesse encontrado por acaso o velho sapador Vodička, destacado junto aos “estírios”, cujo quartel ficava lá embaixo no acampamento. Anos antes, Vodička morara em Praga, na rua Bojiště, e, diante de um encontro daqueles, não havia outra solução a não ser os dois entrarem na taverna Cordeiro Negro, em Bruck, onde trabalhava a conhecida garçonete Růženka, uma tcheca a quem todos os voluntários de um ano tchecos que já haviam passado pelo acampamento deviam alguma quantia.

Ultimamente, o velho sapador Vodička, antigo frequentador do lugar, fazia-lhe a corte e possuía uma lista de todas as companhias de marcha que partiam do acampamento, indo na hora certa cobrar os voluntários de um ano tchecos, para que não desaparecessem no tumulto da guerra sem pagar as despesas.

“Aonde é que você está indo, afinal?”, perguntou Vodička depois que beberam pela primeira vez um bom vinho.

“É segredo”, respondeu Švejk, “mas vou confiar a você, que é um velho camarada.”

Explicou tudo nos menores detalhes, e Vodička declarou que era um velho sapador, que não podia abandoná-lo e que os dois iriam entregar a carta juntos.

Conversaram maravilhosamente sobre os tempos passados e, quando saíram do Cordeiro Negro depois do meio-dia, tudo lhes parecia natural e fácil.

Além disso, traziam no espírito a firme impressão de que não tinham medo de ninguém. Durante todo o caminho até a Sopronyi utca, número 16, Vodička manifestou um ódio imenso pelos húngaros e contou sem parar como brigava com eles em toda parte, onde e quando já brigara com eles e o que, em cada ocasião, o impedira de brigar.

“Uma vez, em Pausdorf, eu já estava segurando um desses sujeitos húngaros pelo pescoço. Nós, os sapadores, tínhamos ido até lá beber vinho, e eu estava pronto para acertar uma no coco dele com o überšvunk, no escuro, porque, assim que a coisa começou, quebramos a lâmpada pendurada com uma garrafa. De repente, ele começou a gritar: ‘Tonda, sou eu, Purkrábek, da 16ª defesa territorial!’ Por pouco não acontecia uma confusão. Mas depois nós demos o troco direitinho naqueles palhaços húngaros, perto do lago Neusiedl, onde fomos dar uma olhada três semanas atrás. Numa aldeia vizinha, estava alojada uma unidade de metralhadoras de uns honvéds, e por acaso todos nós fomos parar na mesma taverna onde eles dançavam aquele csárdás como loucos e escancaravam a boca inteira com aqueles ‘Uram, uram, biró uram’ ou ‘Láňok, láňok, láňok a faluba’. Sentamos de frente para eles, colocamos os überšvunks sobre a mesa e dissemos: ‘Seus patifes, nós vamos mostrar para vocês o que é láňok.’ Então um tal Mejstřík, que tinha uma pata do tamanho da Montanha Branca, logo se ofereceu para ir dançar e tirar a moça de algum safado no meio da roda. As moças eram bonitas para diabo, umas criaturas rechonchudas, bundudas, coxudas e de olhos grandes. Pelo jeito como aqueles patifes húngaros se apertavam contra elas, dava para ver que elas tinham uns peitos cheios e duros como metades de bola, que gostavam muito daquela esfregação e entendiam do assunto. Então o nosso Mejstřík pulou para dentro da roda e foi tirar a mais bonita de um honvéd, que começou a resmungar alguma coisa. Mejstřík logo meteu-lhe uma, ele caiu, nós agarramos imediatamente os überšvunks, enrolamos em volta das mãos para as baionetas não saírem voando, pulamos no meio deles, e eu gritei: ‘Culpado ou inocente, peguem todos pela ordem!’ Então a coisa foi como manteiga. Começaram a pular pelas janelas, nós agarrávamos as pernas deles nas janelas e os puxávamos de volta para o salão. Quem não era dos nossos apanhava. O prefeito deles e um gendarme se meteram no meio e também levaram no templo do Senhor. O dono da taverna apanhou, porque começou a xingar em alemão, dizendo que estávamos estragando a diversão. Depois ainda ficamos caçando pela aldeia os que tentaram se esconder de nós. Um dos cuksfíras deles, por exemplo, nós encontramos enterrado no feno, no sótão de uma fazenda lá embaixo, depois da aldeia. Foi a própria garota dele que o entregou, porque ele estava dançando com outra. Ela tinha ficado caída pelo nosso Mejstřík e depois subiu com ele pela estrada para Királyhida, onde ficam os secadores de feno debaixo do bosque. Ela o puxou para dentro de um daqueles secadores e depois quis cobrar cinco coroas. Ele deu uma bofetada nela. Depois só nos alcançou lá em cima, quase no acampamento, e disse que sempre pensara que as húngaras fossem mais fogosas, mas aquela porca ficara deitada como um toco, resmungando alguma coisa o tempo todo. Os húngaros, resumindo, são uma canalha”, concluiu o velho sapador Vodička.

Ao que Švejk observou:

“Alguns húngaros também não têm culpa de ser húngaros.”

“Como não têm?”, exaltou-se Vodička. “Todos têm culpa, isso é uma bobagem. Eu queria ver você cair nas mãos deles como aconteceu comigo no primeiro dia em que cheguei aqui para os cursos. Na mesma tarde já nos tocaram como uma manada de gado para dentro da escola, e um idiota começou a desenhar e explicar o que eram abrigos fortificados, como se faziam as fundações, como se media aquilo tudo, e disse que, de manhã, quem não tivesse desenhado tudo conforme ele explicara seria preso e amarrado. ‘Pelo crucifixo’, pensei, ‘você se inscreveu nesses cursos na frente de batalha para escapar da frente ou para passar a noite pintando caderninhos com um lapisinho, feito criança de escola?’ Fiquei com tanta raiva que não conseguia parar quieto, nem olhar para o imbecil que estava explicando aquilo. De tanta raiva, eu teria preferido quebrar tudo. Nem esperei o café e saí logo do barracão para Királyhida. De tão furioso, não conseguia pensar em outra coisa além de encontrar na cidade uma espelunca sossegada, encher a cara, fazer um escândalo, acertar alguém no focinho e voltar para casa depois de botar tudo para fora. O homem propõe, mas Deus dispõe. Lá perto do rio, no meio dos jardins, encontrei mesmo um estabelecimento, silencioso como uma capela, feito de propósito para um escândalo. Só havia dois fregueses, conversando entre si em húngaro, o que me deixou ainda mais irritado. Além disso, eu já estava mais bêbado e mais cedo do que imaginava, de modo que, naquele porre, nem percebi que ao lado havia outro salão, onde, durante o tempo em que eu me ocupava, entraram uns oito hussardos. Eles vieram para cima de mim depois que acertei o focinho dos dois primeiros fregueses. Aqueles canalhas dos hussardos me moeram tanto e me perseguiram pelos jardins de tal maneira que eu não consegui encontrar o caminho de casa antes do amanhecer. Tive de ir imediatamente para a enfermaria, onde inventei que tinha caído numa olaria, e passaram a semana inteira me enrolando em lençóis molhados para que minhas costas não infeccionassem. Imagine só, meu velho, cair no meio de uns bandidos desses. Não são gente, são animais.”

“Quem com ferro fere, com ferro será ferido”, disse Švejk. “Também não dá para estranhar que eles tenham ficado furiosos, tendo de deixar todo aquele vinho em cima da mesa e sair correndo atrás de você pelos jardins no escuro. Eles deviam ter acertado as contas com você ali mesmo, no salão, e depois jogado você para fora. Teria sido melhor para eles e para você também, se tivessem acabado com tudo à mesa. Eu conheci um dono de botequim chamado Paroubek, lá em Libeň. Uma vez, um funileiro se embebedou no estabelecimento dele com aguardente de zimbro e começou a reclamar que aquilo era fraco, que ele punha água na bebida, que, mesmo que passasse cem anos remendando panelas e comprasse aguardente de zimbro com todo o dinheiro que ganhasse e bebesse tudo de uma vez, ainda seria capaz de andar numa corda bamba carregando o Paroubek nos braços. Depois ainda disse ao Paroubek que ele era um huncút e uma besta de Šaščín. Então o bom do Paroubek agarrou o homem, arrebentou-lhe na cabeça as ratoeiras e os arames, jogou-o para fora e foi espancando-o pela rua com a vara de puxar persiana até lá embaixo, na Invalidovna. E, de tão enfurecido, perseguiu-o através da Invalidovna, em Karlín, até Žižkov, depois dali pelas Fornalhas Judaicas até Malešice, onde finalmente quebrou a vara em cima dele, e assim pôde voltar para Libeň. Pois é, mas, naquela fúria toda, esqueceu-se de que ainda tinha toda a freguesia dentro do botequim e de que aqueles patifes provavelmente iam administrar o negócio por conta própria. E foi exatamente isso que comprovou quando, por fim, conseguiu voltar ao estabelecimento. A persiana do botequim estava abaixada pela metade, e diante dela havia dois policiais, também bastante carregados, depois de terem restabelecido a ordem lá dentro. Metade de tudo tinha sido bebida, na rua havia um barrilzinho de rum vazio, e debaixo dos balcões Paroubek encontrou dois bêbados que tinham escapado à atenção dos policiais e que, quando ele os puxou para fora, quiseram pagar-lhe dois kreuzers cada um, pois, segundo diziam, não tinham bebido mais aguardente de centeio que isso. Assim se castiga a precipitação. No Exército é a mesma coisa. Primeiro derrotamos o inimigo, depois corremos atrás dele sem parar, e no fim já não conseguimos fugir depressa o bastante.”

“Eu decorei bem a cara daqueles sujeitos”, interveio Vodička. “Se algum daqueles hussardos cruzar o meu caminho, eu acerto as contas com ele. Nós, sapadores, quando o sangue sobe à cabeça, somos uns demônios. Não somos como aquelas moscas de ferro. Quando estivemos na frente de Przemyśl, havia conosco o capitão Jetzbacher, um filho da puta como nunca se viu debaixo do sol. Ele sabia infernizar tanto a nossa vida que um tal de Bitterlich, da nossa companhia, alemão, mas um homem bom pra burro, deu um tiro em si mesmo por causa dele. Então combinamos que, assim que começasse o assobio vindo do lado russo, o nosso capitão Jetzbacher também não continuaria vivo. E, assim que os russos começaram a atirar contra nós, enfiamos cinco balas nele durante o tiroteio. O desgraçado ainda estava vivo como um gato, e tivemos de acabar com ele com mais dois tiros, para não dar problema. Ele só soltou um gemidinho, mas de um jeito tão engraçado, tão cômico.”

Vodička riu.

“Na frente isso acontece todo santo dia. Um camarada meu me contou, e agora ele também está na nossa unidade, que, quando servia na infantaria perto de Belgrado, a companhia dele, no meio de um combate, abateu o próprio primeiro-tenente, outro cachorro daqueles, que tinha matado pessoalmente dois soldados durante uma marcha porque eles já não conseguiam seguir adiante. Quando estava morrendo, o homem de repente começou a assobiar o toque de retirada. Diz que todos em volta quase morreram de tanto rir.”

Durante essa conversa tão interessante quanto instrutiva, Švejk e Vodička finalmente encontraram a loja de ferragens do senhor Kákonyi, na Sopronyi utca, número 16.

“Mesmo assim, era melhor você esperar aqui”, disse Švejk a Vodička diante do corredor de entrada do prédio. “Eu só subo correndo até o primeiro andar, entrego a carta, espero a resposta e volto imediatamente.”

“Eu vou abandonar você?”, admirou-se Vodička. “Você não conhece os húngaros, vivo dizendo isso. Aqui precisamos tomar cuidado com eles. Eu vou dar uma porrada nele.”

“Escute, Vodička”, disse Švejk com seriedade, “a questão aqui não é o húngaro, é a mulher dele. Quando estávamos sentados com aquela garçonete tcheca, eu expliquei tudo a você: estou levando uma carta do meu primeiro-tenente e isso é segredo absoluto. O meu primeiro-tenente fez questão de me dizer que nenhuma alma viva podia saber do assunto, e até aquela garçonete disse que estava perfeitamente certo, que era uma questão discreta. Ninguém pode descobrir que o senhor primeiro-tenente se corresponde com uma mulher casada. E você mesmo aprovou e ficou concordando com a cabeça. Eu expliquei a vocês, como mandam as regras, que cumpriria exatamente a ordem do meu primeiro-tenente, e agora você quer subir comigo a qualquer custo.”

“Você ainda não me conhece, Švejk”, respondeu com igual gravidade o velho sapador Vodička. “Depois que eu disse que não abandonaria você, pode ficar sabendo que a minha palavra vale por cem. Quando vão dois, é sempre mais seguro.”

“Vou tirar essa ideia da sua cabeça, Vodička. Você sabe onde fica a rua Neklanova, em Vyšehrad? Lá tinha uma oficina o serralheiro Voborník. Era um homem direito, e um dia, quando voltou para casa depois de uma farra, trouxe consigo outro companheiro de bebedeira para dormir. Depois ficou de cama por muito, muito tempo, e todos os dias, quando a mulher trocava o curativo da ferida na cabeça dele, dizia: ‘Está vendo, Toníček? Se vocês não tivessem vindo em dois, eu só teria lhe dado uma surra e não teria jogado a balança decimal na sua cabeça.’ E ele, quando finalmente conseguiu falar, disse: ‘Você tem razão, mãe. Da próxima vez que eu for a algum lugar, não trago ninguém comigo.’”

“Só faltava essa”, enfureceu-se Vodička. “O húngaro querer jogar alguma coisa na nossa cabeça. Eu agarro o sujeito pelo pescoço e jogo do primeiro andar escada abaixo, e ele vai voar como um estilhaço. Com esses moleques húngaros é preciso agir com dureza. Nada de cerimônia com eles.”

“Vodička, você nem bebeu tanto assim. Eu tomei dois quartos a mais do que você. Pense bem: não podemos causar nenhum escândalo. Eu sou o responsável. Afinal, trata-se de uma mulher.”

“Eu bato na mulher também, Švejk, para mim tanto faz. Você ainda não conhece o velho Vodička. Uma vez, na Ilha Rosa, em Záběhlice, uma mascarada daquelas não quis dançar comigo porque, segundo ela, eu estava com a cara inchada. É verdade que eu estava com a cara inchada, porque acabara de chegar de um baile em Hostivař, mas imagine o insulto daquela vadia. ‘Então tome uma também, ilustríssima senhorita’, eu disse, ‘para não ficar com vontade.’ Quando dei aquela pancada nela, derrubou a mesa inteira no jardim, com os copos e tudo, onde estava sentada com o pai, a mãe e dois irmãos. Mas eu não tive medo da Ilha Rosa inteira. Havia lá uns conhecidos de Vršovice, e eles me ajudaram. Espancamos umas cinco famílias, incluindo as crianças. Deve ter dado para ouvir até Michle, e depois saiu nos jornais uma notícia sobre a festa ao ar livre daquela associação beneficente de naturais de não sei qual cidade. Por isso, como eu dizia, do mesmo modo que os outros me ajudaram, eu sempre ajudo qualquer camarada quando vai acontecer alguma coisa. Nem por Deus vivo eu me afasto de você. Você não conhece os húngaros... Você não pode fazer isso comigo, me afastar de você depois de tantos anos sem nos vermos, ainda mais nestas circunstâncias.”

“Então venha comigo”, decidiu Švejk, “mas vamos agir com cuidado, para não termos nenhum aborrecimento.”

“Não se preocupe, camarada”, disse Vodička em voz baixa enquanto caminhavam para a escada. “Eu vou dar uma porrada nele...”

E acrescentou ainda mais baixo:

“Você vai ver que aquele moleque húngaro não vai nos dar trabalho nenhum.”

E, se houvesse alguém no corredor de entrada que entendesse tcheco, já teria ouvido, vindo da escada e pronunciado em voz mais alta, o lema de Vodička: “Você não conhece os húngaros...”, lema a que ele chegara naquele estabelecimento silencioso junto ao rio Litava, entre os jardins da célebre Királyhida, cercada pelos montes dos quais os soldados sempre se lembrariam praguejando, ao recordar todos aqueles übunky anteriores e contemporâneos à guerra mundial, nos quais eram treinados teoricamente para os massacres e carnificinas práticas.

Švejk e Vodička estavam diante da porta do apartamento do senhor Kákonyi. Antes de apertar o botão da campainha, Švejk observou:

“Você já ouviu dizer, Vodička, que a cautela é a mãe da sabedoria?”

“Não estou nem aí para isso”, respondeu Vodička. “Ele não pode nem ter tempo de abrir a boca...”

“Eu também não tenho nada para tratar com ele, Vodička.”

Švejk tocou a campainha, e Vodička disse em voz alta:

“Ajncvaj, e vai escada abaixo.”

A porta se abriu, apareceu uma criada e perguntou em húngaro o que eles desejavam.

“Nem tudom”, disse Vodička com desprezo. “Aprenda tcheco, menina.”

“Verstehen Sie deusch?”, perguntou Švejk.

“A pischen.”

“Also sagen Sie der Frau, ich will die Frau sprechen, sagen Sie, daß ein Brief ist von einem Herr draußen in Kong.”

“Eu fico admirado”, disse Vodička, entrando no vestíbulo atrás de Švejk, “de você conversar com uma porcaria dessas.”

Eles ficaram no vestíbulo, fecharam a porta que dava para o corredor, e Švejk limitou-se a observar:

“Eles têm tudo muito bem-arrumado aqui. Há até dois guarda-chuvas no cabide, e aquele quadro do Senhor Jesus Cristo também não é ruim.”

De um dos cômodos, de onde vinha o ruído de colheres batendo e pratos tilintando, tornou a sair a criada e disse a Švejk:

“Frau ist gesagt, daß sie hat ka’ Zeit, wenn was ist, das mir geben und sagen.”

“Also”, disse solenemente Švejk, “der Frau ein Brief, aber halten Kuschen.”

Tirou do bolso a carta do primeiro-tenente Lukáš.

“Ich”, disse, apontando para si mesmo, “Antwort warten hier in die Vorzimmer.”

“Por que você não se senta?”, perguntou Vodička, que já estava sentado numa cadeira junto à parede. “Tem uma cadeira ali. Vai ficar em pé aqui feito um mendigo. Não se humilhe diante desse húngaro. Você vai ver que ainda teremos uma briga com ele, mas eu vou dar uma porrada no sujeito. Escute”, disse depois de algum tempo, “onde você aprendeu alemão?”

“Sozinho”, respondeu Švejk.

Houve novamente um momento de silêncio. Depois se ouviu, no cômodo para onde a criada levara a carta, uma grande gritaria e um estrondo. Alguém bateu alguma coisa pesada no chão, e em seguida pôde-se distinguir claramente que copos voavam e pratos se espatifavam, em meio aos berros:

“Baszom az anyát, baszom az istenet, baszom a Krizstus Márját, baszom az atyádot, baszom a világot!”

A porta se abriu de repente, e entrou correndo no vestíbulo um senhor na flor da idade, com um guardanapo amarrado ao pescoço, agitando a carta que acabara de receber.

O velho sapador Vodička estava sentado mais perto da porta, e foi a ele que o senhor enfurecido se dirigiu primeiro.

“Was soll das heißen, wo ist der verfluchte Kerl, welcher dieses Brief gebracht hat?”

“Devagar”, disse Vodička, levantando-se. “Não fique berrando assim com a gente, ou você vai sair voando daqui. E, se quer saber quem trouxe a carta, pergunte ao meu camarada ali. Mas fale com educação, ou estará do outro lado da porta num instante.”

Chegou então a vez de Švejk comprovar a rica eloquência do senhor enfurecido, com o guardanapo no pescoço, que misturava alhos com bugalhos ao dizer que estavam justamente almoçando.

“Nós ouvimos que vocês estavam almoçando”, concordou Švejk em seu alemão quebrado, acrescentando em tcheco: “Também podíamos ter imaginado que talvez os estivéssemos interrompendo desnecessariamente durante o almoço.”

“Não se humilhe”, interveio Vodička.

O senhor enfurecido, cujo guardanapo, em consequência da gesticulação vigorosa, já estava preso apenas por uma ponta, continuou dizendo que, a princípio, pensara que a carta tratasse da requisição de alguns aposentos para as tropas naquela casa, que pertencia à sua esposa.

“Ainda caberia muita tropa aqui”, disse Švejk, “mas não era disso que tratava a carta, como o senhor deve ter percebido.”

O homem levou as mãos à cabeça e iniciou uma série de recriminações: ele também fora tenente da reserva e agora gostaria de servir, mas sofria de uma doença renal. No tempo dele, os oficiais não eram tão libertinos a ponto de perturbar a tranquilidade dos lares. Mandaria a carta ao comando do regimento, ao Ministério da Guerra e a publicaria nos jornais.

“Senhor”, disse Švejk com dignidade, “fui eu quem escreveu essa carta. Ich geschrieben, kein Oberleutnant. A assinatura foi só de brincadeira, falsa, Unterschrift, Name, falsch. Eu gosto muito da sua esposa. Ich liebe Ihre Frau. Estou apaixonado pela sua esposa até as orelhas, como dizia Vrchlický. Kapitales Frau.”

O senhor enfurecido quis atirar-se sobre Švejk, que permanecia tranquilo e satisfeito diante dele, mas o velho sapador Vodička, que acompanhava cada movimento seu, passou-lhe uma rasteira, arrancou-lhe da mão a carta que ele ainda agitava e enfiou-a no bolso. Quando o senhor Kákonyi conseguiu levantar-se, Vodička agarrou-o, carregou-o até a porta, abriu-a com uma das mãos, e logo se ouviu alguma coisa rolando escada abaixo.

Tudo aconteceu tão depressa quanto nos contos de fadas em que o diabo vem buscar um homem.

Do senhor enfurecido restou apenas o guardanapo. Švejk o apanhou, bateu educadamente à porta do cômodo de onde, cinco minutos antes, saíra o senhor Kákonyi e de onde agora se ouvia uma mulher chorar.

“Estou trazendo o seu guardanapo”, disse Švejk suavemente à senhora, que soluçava no sofá. “Alguém poderia pisar nele. Minhas homenagens.”

Bateu os calcanhares, prestou continência e saiu para o corredor. Na escada não se viam, até aquele ponto, quaisquer vestígios de luta. Ali, conforme as previsões de Vodička, tudo ocorrera com absoluta facilidade. Somente junto ao portão, no corredor de entrada, Švejk encontrou um colarinho arrancado. Provavelmente fora ali, quando o senhor Kákonyi se agarrara desesperadamente ao portão do prédio para não ser arrastado até a rua, que se desenrolara o ato final daquela tragédia.

Na rua, porém, havia uma grande agitação. O senhor Kákonyi fora levado para o corredor de entrada do prédio em frente, onde lhe jogavam água, enquanto, no meio da rua, o velho sapador Vodička lutava como um leão contra vários honvéds e hussardos honvéds que tinham acudido em defesa do compatriota. Brandia com maestria a baioneta presa à correia, como se fosse um mangual. E não estava sozinho. Ao seu lado combatiam vários soldados tchecos de diferentes regimentos que, naquele momento, passavam pela rua.

Como Švejk afirmou mais tarde, nem ele próprio soube explicar como também se metera naquilo, nem, já que não possuía baioneta alguma, como fora parar em suas mãos a bengala de algum espectador apavorado.

A coisa durou um bom tempo, mas tudo o que é bom também chega ao fim. Chegou o berajtšaft e recolheu todo mundo.

Švejk caminhava junto de Vodička levando a bengala, que o comandante do berajtšaft reconhecera como corpus delicti.

Švejk seguia satisfeito, com a bengala apoiada no ombro como se fosse um fuzil.

O velho sapador Vodička permaneceu obstinadamente calado durante todo o caminho. Somente quando entravam na hauptvacha disse, sombrio, a Švejk:

“Eu não lhe disse que você não conhece os húngaros?”

As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Sinopse

Edição integral em português brasileiro de As Aventuras do Bom Soldado Švejk, traduzida diretamente do original tcheco de domínio público, preservando a estrutura dos quatro livros e suas 29 unidades.

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As Aventuras do Bom Soldado Švejk

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As Aventuras do Bom Soldado Švejk

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