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As Aventuras do Bom Soldado Švejk

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As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Capítulo 11 · As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Livro I: Na retaguarda — Švejk como ordenança do capelão militar

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Livro I: Na retaguarda

Švejk como ordenança do capelão militar

1

Sua odisseia recomeça sob a honrosa escolta de dois soldados de baioneta, encarregados de conduzi-lo até o capelão militar.

Seus acompanhantes eram homens que se completavam mutuamente. Enquanto um deles era alto e magro, o outro era baixo e gordo. O alto mancava da perna direita, e o soldado baixo, da esquerda. Ambos serviam na retaguarda porque, antes da guerra, haviam sido completamente dispensados do serviço militar.

Caminhavam seriamente junto à borda da calçada e de vez em quando olhavam de lado para Švejk, que seguia no meio e prestava continência a todo mundo. Suas roupas civis tinham desaparecido no depósito da guarnição, junto com o quepe militar que usara ao ir para o Exército. Antes de libertá-lo, deram-lhe um velho uniforme militar que pertencera a algum barrigudo uma cabeça mais alto que Švejk.

Dentro das calças que usava caberiam mais três Švejks. As dobras intermináveis, que começavam nas pernas e iam até o peito, altura alcançada pelas calças, provocavam involuntariamente a admiração dos observadores. A enorme blusa, remendada nos cotovelos, engordurada e suja, balançava sobre Švejk como um casaco num espantalho. As calças pendiam dele como o figurino de um palhaço de circo. O quepe militar, também trocado na guarnição, cobria-lhe as orelhas.

Aos sorrisos dos observadores, Švejk respondia com o sorriso suave, o calor e a ternura de seus olhos bondosos.

Assim seguiram para Karlín, até o apartamento do capelão militar.

O primeiro a falar com Švejk foi o baixo e gordo. Estavam justamente em Malá Strana, sob as arcadas.

“De onde você é?”, perguntou o baixo e gordo.

“De Praga.”

“E não vai fugir de nós?”

O alto intrometeu-se na conversa. É um fenômeno muito curioso que, enquanto os homens baixos e gordos costumam ser otimistas bondosos, os altos e magros são, ao contrário, céticos.

Por isso o alto disse ao baixo:

“Se pudesse, fugiria.”

“E por que fugiria?”, respondeu o baixinho gordo. “De qualquer maneira já está livre, fora da guarnição. Tenho tudo aqui no pacote.”

“E o que há nesse pacote para o capelão militar?”, perguntou o alto.

“Não sei.”

“Está vendo? Não sabe e fica falando.”

Atravessaram a ponte Carlos em completo silêncio. Na rua Karlova, o baixo e gordo tornou a falar com Švejk:

“Você não sabe por que estamos levando-o ao capelão militar?”

“Para me confessar”, disse Švejk com indiferença. “Amanhã vão me enforcar. Sempre fazem isso e chamam de consolo espiritual.”

“E por que vão, digamos assim...”, perguntou cautelosamente o alto, enquanto o gordo olhava para Švejk com compaixão. Ambos eram artesãos do interior e pais de família.

“Não sei”, respondeu Švejk, sorrindo bondosamente. “Não sei de nada. Provavelmente é o destino.”

“Deve ter nascido sob um planeta infeliz”, observou o baixinho com conhecimento e compaixão. “Lá em Jasenná, perto de Josefov, ainda durante a guerra prussiana, também enforcaram um homem desse jeito. Foram buscá-lo, não lhe disseram nada e em Josefov o enforcaram.”

“Penso”, disse o alto cético, “que ninguém é enforcado sem mais nem menos. Sempre deve haver algum motivo para poderem justificar.”

“Quando não há guerra”, observou Švejk, “eles justificam. Mas durante a guerra ninguém se preocupa com uma pessoa. Ela deve morrer na frente ou ser enforcada em casa. Dá no mesmo.”

“Escute, você não é algum tipo de preso político?”, perguntou o alto. Pelo tom da pergunta percebia-se que começava a simpatizar com Švejk.

“Sou político até demais”, sorriu Švejk.

“Não é nacional-socialista?”

Agora foi o baixo e gordo que começou a se mostrar cauteloso. Intrometeu-se:

“Que nos importa isso? Está cheio de gente por toda parte, e estão nos observando. Pelo menos poderíamos encontrar alguma passagem e tirar as baionetas para não dar essa impressão. Você não vai fugir de nós, vai? Teríamos problemas por causa disso. Não é verdade, Toník?”, perguntou ao alto, que respondeu baixinho:

“Poderíamos tirar as baionetas. Afinal, ele é um dos nossos.”

Deixou de ser cético, e sua alma encheu-se de compaixão por Švejk. Procuraram então uma passagem apropriada, onde retiraram as baionetas, e o gordo permitiu que Švejk caminhasse ao lado dele.

“Você fumaria, não é?”, disse. “Será que...”

Queria dizer: “Será que também vão deixá-lo fumar antes de enforcá-lo?”, mas não terminou a frase, sentindo que seria uma falta de tato.

Todos acenderam cigarros, e os acompanhantes começaram a contar a Švejk sobre suas famílias na região de Hradec Králové, suas esposas, seus filhos, o pequeno pedaço de terra e uma vaca.

“Estou com sede”, disse Švejk.

O alto e o baixo olharam um para o outro.

“Também poderíamos entrar em algum lugar para tomar uma”, disse o baixo, percebendo a concordância do alto. “Mas em algum lugar onde não chamasse atenção.”

“Vamos ao Kuklík”, sugeriu Švejk. “Vocês deixam os fuzis na cozinha. O estalajadeiro Serabona é do Sokol, não precisam ter medo dele. Lá tocam violino e harmônica”, prosseguiu Švejk, “e aparecem mulheres da rua e várias outras boas companhias que não podem entrar na Casa Municipal.”

O alto e o baixo tornaram a olhar um para o outro e então o alto disse:

“Vamos para lá. Karlín ainda fica longe.”

No caminho, Švejk contou-lhes várias anedotas e, de bom humor, entraram no Kuklík e fizeram tudo conforme ele recomendara. Guardaram os fuzis na cozinha e seguiram para o salão, onde o violino e a harmônica enchiam o ambiente com os sons da popular canção:

“Em Pankrác, lá no alto da colina,
ergue-se uma bela fileira de árvores...”

Uma moça sentada no colo de um jovem de aparência exaurida, com o cabelo penteado numa risca lisa, cantava com voz rouca:

“Eu tinha uma moça prometida,
outro vai visitá-la.”

Junto de uma mesa dormia um vendedor de sardinhas bêbado. De vez em quando acordava, batia com o punho na mesa, balbuciava:

“Não dá.”

E tornava a dormir.

Atrás da mesa de bilhar, sob o espelho, estavam sentadas outras três moças, que gritavam para um condutor ferroviário:

“Jovem senhor, pague-nos um vermute.”

Perto dos músicos, dois homens discutiam se uma tal de Mařka fora apanhada pela patrulha na noite anterior. Um tinha visto com os próprios olhos, e o outro afirmava que ela fora dormir com um soldado no hotel dos Valš.

Bem junto da porta, um soldado estava sentado com vários civis e lhes contava sobre o ferimento que recebera na Sérvia. Tinha o braço enfaixado e os bolsos cheios de cigarros que eles lhe haviam dado. Dizia que já não conseguia beber, mas um dos homens da companhia, um velho careca, insistia sem parar:

“Beba, soldadinho. Quem sabe se ainda nos encontraremos outra vez? Quer que eu mande tocar alguma coisa? Gosta de ‘A criança ficou órfã’?”

Essa era justamente a canção do velho careca e, pouco depois, o violino e a harmônica começaram a gemer. Os olhos do velho encheram-se de lágrimas, e ele cantou com voz trêmula:

“Quando começou a entender,
perguntou pela mãe,
perguntou pela mãe...”

Da outra mesa ouviu-se:

“Pare com isso. Vá se empalhar. Pendure essa coisa num prego. Suma daqui com esse órfão.”

E, como trunfo final, a mesa inimiga começou a cantar:

“Despedida, ah, despedida,
meu coração está completamente partido,
partido...”

“Franta”, gritaram para o soldado ferido depois de terminarem a canção, abafando “A criança ficou órfã”, “largue essa gente e venha sentar conosco. Mande todos para o diabo e passe os cigarros para cá. Vai ficar divertindo aqueles recheios?”

Švejk e seus acompanhantes observavam tudo com interesse.

Švejk mergulhou nas lembranças do tempo em que frequentava aquele lugar antes da guerra. Lembrou-se de como o comissário de polícia Drašner ia até ali fazer inspeções policiais, de como as prostitutas tinham medo dele e compunham canções de sentido contrário a seu respeito. Lembrou-se de uma ocasião em que cantaram em coro:

Nos tempos do senhor Drašner
aconteceu uma confusão,
Mařena estava bêbada
e não tinha medo de Drašner, não.

Então Drašner entrou com sua comitiva, terrível e implacável. Foi como um tiro no meio de perdizes. Os policiais à paisana reuniram todos num grupo. Švejk também fizera parte daquele grupo, pois, com seu azar habitual, quando o comissário Drašner lhe pediu os documentos, ele perguntou:

“O senhor tem autorização da direção de polícia para isso?”

Švejk também se lembrava de um poeta que costumava sentar-se sob o espelho e, em meio a toda a agitação do Kuklík, aos cantos e aos sons da harmônica, escrevia poemas e os lia para as prostitutas.

Seus acompanhantes, porém, não possuíam reminiscências semelhantes. Tudo aquilo era completamente novo para eles. Começava a agradá-los. O primeiro a encontrar ali completa satisfação foi o baixo e gordo, pois pessoas assim, além do otimismo, apresentam forte inclinação para o epicurismo. O alto ainda lutou durante algum tempo consigo mesmo. E, assim como já perdera seu ceticismo, aos poucos perdeu também a reserva e o restante da prudência.

“Vou dançar”, disse depois da quinta cerveja, ao ver os casais dançando o šlapák, uma dança popular de salão.

O baixo entregou-se por completo aos prazeres. Ao lado dele estava sentada uma moça que falava obscenidades, e seus olhos brilhavam.

Švejk bebia. O alto terminou de dançar e voltou à mesa com sua parceira. Depois cantaram, dançaram, beberam sem parar e apalparam suas companheiras. E, naquela atmosfera de amor venal, nicotina e álcool, circulava discretamente o antigo lema:

“Depois de nós, o dilúvio!”

À tarde, um soldado sentou-se com eles e ofereceu-se para produzir, por cinco coroas, um flegmão e uma infecção do sangue. Trazia consigo uma seringa e lhes injetaria querosene sob a pele da perna ou do braço. [Nota: É um meio bastante comprovado de se conseguir uma internação. Mas o cheiro de querosene, que permanece até no inchaço, denuncia. A gasolina é melhor, porque evapora mais depressa. Mais tarde passaram a injetar éter com gasolina e, ainda depois, chegaram a outro aperfeiçoamento.] Ficariam internados por pelo menos dois meses e, caso alimentassem a ferida com saliva, talvez por meio ano, e seriam obrigados a dispensá-los completamente do Exército.

O alto, que já perdera todo o equilíbrio mental, deixou que o soldado lhe injetasse querosene sob a pele da perna no banheiro.

Quando a tarde começou a cair, Švejk propôs que retomassem o caminho até o capelão militar. O baixinho gordo, que já começava a balbuciar, tentou convencê-lo a esperar mais um pouco. O alto também era da opinião de que o capelão militar podia esperar. Švejk, porém, já deixara de gostar do Kuklík e, por isso, ameaçou seguir sozinho.

Então partiram, mas ele precisou prometer que ainda parariam em algum lugar.

Pararam depois de Florenc, num pequeno café, onde o gordo vendeu seu relógio de prata para que pudessem continuar se divertindo.

A partir dali, Švejk precisou conduzi-los pelos braços. Deu-lhe um trabalho terrível. As pernas deles cediam o tempo todo e não paravam de querer ir para outro lugar. O baixinho gordo quase perdeu o pacote destinado ao capelão militar, e Švejk foi obrigado a carregá-lo.

Švejk precisava avisá-los constantemente quando algum oficial ou graduado vinha na direção contrária. Depois de um esforço sobre-humano, conseguiu arrastá-los até a casa na avenida Královská onde morava o capelão militar.

Ele próprio encaixou as baionetas nos fuzis e, dando-lhes uma cotovelada nas costelas, obrigou-os a conduzi-lo, em vez de serem conduzidos por ele.

No primeiro andar, onde na porta do apartamento estava o cartão “Otto Katz, Feldkurat”, um soldado veio abri-la. Do quarto ouviam-se vozes e o tilintar de garrafas e copos.

“Wir melden gehorsam, Herr Feldkurat”, disse o alto com grande esforço, prestando continência ao soldado. “Ein Paket und ein Mann gebracht.”

“Entrem”, disse o soldado. “Onde vocês ficaram nesse estado? O senhor capelão militar também está...”

O soldado cuspiu.

Saiu levando o pacote. Eles esperaram durante muito tempo no vestíbulo, até que a porta se abriu e, em vez de entrar, o capelão militar voou para dentro do vestíbulo. Usava apenas o colete e segurava um charuto.

“Então já estão aqui”, disse a Švejk. “E trouxeram você. É... vocês têm fósforos?”

“Respeitosamente informo, senhor capelão militar, que não tenho.”

“É... e por que não tem fósforos? Todo soldado deve ter fósforos para poder acender alguma coisa. Um soldado que não tem fósforos é... O que ele é?”

“É, respeitosamente informo, um soldado sem fósforos”, respondeu Švejk.

“Muito bem. É um soldado sem fósforos e não pode acender o cigarro de ninguém. Essa foi a primeira coisa, agora a segunda. Seus pés fedem, Švejk?”

“Respeitosamente informo que não fedem.”

“Essa foi a segunda coisa. Agora a terceira. Você bebe aguardente?”

“Respeitosamente informo que não bebo aguardente, somente rum.”

“Muito bem. Veja este soldado aqui. Eu o peguei emprestado por hoje do primeiro-tenente Feldhuber. É o ordenança dele. E não bebe nada, é ab-ab-abstêmio, por isso vai seguir com o batalhão de marcha. Porque não posso precisar de um homem desses. Isso não é um ordenança, é uma vaca. Vaca também só bebe água e muge feito boi. Você é abstêmio”, voltou-se para o soldado, “não tem vergonha, idiota? Merece umas bofetadas.”

O capelão militar voltou sua atenção para os homens que haviam conduzido Švejk e que, em seus esforços para permanecer retos, balançavam de um lado para o outro, apoiando-se inutilmente nos fuzis.

“Vocês se em-embriagaram”, disse o capelão militar. “Embriagaram-se durante o serviço e por isso vou mandá-los prender. Švejk, tire os fuzis deles, leve-os para a cozinha e fique vigiando até chegar uma patrulha para buscá-los. Vou telefonar imediatamente para o quar-quar-quartel.”

E assim as palavras de Napoleão, “Na guerra, a situação muda a cada instante”, encontraram ali sua completa confirmação.

Pela manhã, os dois haviam conduzido Švejk entre baionetas e temido que ele fugisse. Depois foi ele próprio quem os conduziu e, no fim, teve de vigiá-los.

A princípio não compreenderam bem a mudança, até se sentarem na cozinha e verem Švejk de pé junto à porta, armado de fuzil e baioneta.

“Eu beberia alguma coisa”, suspirou o pequeno otimista, enquanto o alto sofreu um novo acesso de ceticismo e declarou que tudo aquilo era uma traição miserável. Começou a acusar Švejk em voz alta de tê-los colocado naquela situação e censurou-o por lhes ter prometido que seria enforcado no dia seguinte, quando agora se percebia que tanto a confissão quanto o enforcamento eram apenas brincadeira.

Švejk permanecia em silêncio e andava de um lado para o outro junto à porta.

“Fomos uns bois”, gritou o alto.

Depois de ouvir todas as acusações, Švejk declarou:

“Agora pelo menos vocês estão vendo que a guerra não é um mar de mel. Estou cumprindo meu dever. Entrei nisso do mesmo modo que vocês, mas na linguagem popular se diz que a sorte sorriu para mim.”

“Eu beberia alguma coisa”, repetiu desesperadamente o otimista.

O alto levantou-se e foi até a porta, cambaleando.

“Deixe-nos ir para casa”, disse a Švejk. “Colega, não seja idiota.”

“Afaste-se de mim”, respondeu Švejk. “Tenho de vigiar vocês. Agora não nos conhecemos.”

O capelão militar surgiu à porta:

“Eu, eu não consigo de jeito nenhum completar a ligação para o quartel. Então vão para casa e lem-lembrem-se de que não se pode beber durante o serviço. Em marcha!”

Para honra do senhor capelão militar, deve-se dizer que não telefonara ao quartel, pois não havia telefone em sua casa e ele falara com o suporte de uma lâmpada elétrica.

2

Švejk já era ordenança do capelão militar Otto Katz havia três dias e, durante esse período, só o vira uma vez. No terceiro dia, o ordenança do primeiro-tenente Helmich apareceu para dizer que Švejk devia ir buscar o capelão militar.

No caminho, informou a Švejk que o capelão militar brigara com o primeiro-tenente, quebrara o piano, estava completamente bêbado e não queria ir para casa.

O primeiro-tenente Helmich também estava bêbado, expulsara o capelão militar para o corredor, e este estava sentado no chão junto à porta, cochilando.

Quando Švejk chegou ao lugar, sacudiu o capelão militar e, depois que ele resmungou e abriu os olhos, prestou continência e disse:

“Respeitosamente informo, senhor capelão militar, que estou aqui.”

“E o que quer aqui?”

“Respeitosamente informo que vim buscá-lo, senhor capelão militar.”

“Então veio me buscar. E para onde vamos?”

“Para seu apartamento, senhor capelão militar.”

“E por que devo ir para meu apartamento? Não estou no meu apartamento?”

“Respeitosamente informo, senhor capelão militar, que o senhor está no corredor de uma casa alheia.”

“E como fui parar aqui?”

“Respeitosamente informo que estava fazendo uma visita.”

“Eu não estava fa-fazendo visita. Você está enga-enganado.”

Švejk levantou o capelão militar e o encostou na parede. Ele tombava de um lado para o outro, caindo sobre Švejk, enquanto dizia:

“Vou cair. Vou cair”, repetiu, sorrindo estupidamente.

Por fim, Švejk conseguiu apertá-lo contra a parede, e o capelão militar, na nova posição, tornou a cochilar.

Švejk o acordou.

“O que deseja?”, disse o capelão militar, tentando inutilmente escorregar pela parede e sentar-se no chão. “Quem é você?”

“Respeitosamente informo”, respondeu Švejk, tornando a sustentá-lo contra a parede, “que sou seu ordenança, senhor capelão militar.”

“Eu não tenho ordenança nenhum”, disse o capelão militar com esforço, tentando novamente cair sobre Švejk. “Não sou capelão militar nenhum. Sou um porco”, acrescentou com a sinceridade de um bêbado. “Solte-me, senhor, eu não o conheço.”

A pequena luta terminou com a completa vitória de Švejk. Ele aproveitou o triunfo arrastando o capelão militar escada abaixo até a passagem, onde este resistiu para não ser levado à rua.

“Não o conheço, senhor”, repetia o tempo todo, olhando Švejk nos olhos durante a luta. “Você conhece Otto Katz? Sou eu. Fui recebido pelo arcebispo”, berrava, segurando-se no portão da passagem. “O Vaticano se interessa por mim, está entendendo?”

Švejk abandonou o “respeitosamente informo” e falou com o capelão militar em tom completamente familiar.

“Solte, estou dizendo”, falou. “Senão vou bater nessa sua pata. Vamos para casa, e pronto. Nada de conversa.”

O capelão militar soltou o portão e caiu sobre Švejk.

“Então vamos a algum lugar, mas não vou ao Šuh. Estou devendo lá.”

Švejk empurrou-o e carregou-o para fora da passagem e arrastou-se com ele pela calçada, na direção de casa.

“Que senhor é esse?”, perguntou alguém entre os espectadores na rua.

“É meu irmão”, respondeu Švejk. “Recebeu licença, veio me visitar e ficou bêbado de alegria porque achava que eu estava morto.”

O capelão militar, que ouvira as últimas palavras, cantarolando um motivo de opereta que ninguém reconheceria, endireitou-se diante dos espectadores:

“Quem de vocês estiver morto deve se apresentar ao comando do corpo dentro de três dias, para que seu cadáver possa receber a aspersão.”

Então se calou, tentando cair com o nariz na calçada enquanto Švejk o arrastava para casa pelo braço.

Com a cabeça adiante e as pernas para trás, que se cruzavam como as de um gato com a coluna quebrada, o capelão militar murmurava:

“Dominus vobiscum, et cum spiritu tuo. Dominus vobiscum.”

Junto ao ponto dos coches de aluguel, Švejk sentou o capelão militar contra a parede e foi negociar o transporte com os cocheiros.

Um deles declarou que conhecia muito bem aquele senhor, que o transportara apenas uma vez e que nunca mais voltaria a levá-lo.

“Ele vomitou em tudo”, explicou diretamente, “e nem pagou a corrida. Fiquei rodando com ele por mais de duas horas até que descobrisse onde morava. Só uma semana depois, quando já o tinha procurado umas três vezes, ele me deu cinco coroas por tudo.”

Depois de uma longa negociação, um dos cocheiros decidiu transportá-los.

Švejk voltou até o capelão militar, que dormia. Enquanto isso, alguém lhe tirara da cabeça e levara o chapéu-coco preto, pois ele costumava andar à paisana.

Švejk acordou-o e, com a ajuda do cocheiro, colocou-o no coche. Dentro do veículo, o capelão militar caiu numa completa apatia e tomou Švejk pelo coronel Just, do 75º Regimento de Infantaria, repetindo várias vezes:

“Não fique zangado, camarada, por eu tratá-lo por você. Sou um porco.”

Por um momento, pareceu que os solavancos do coche sobre o calçamento o faziam recuperar a razão. Sentou-se ereto e começou a cantar um trecho de uma canção desconhecida. Também é possível que fosse uma criação de sua fantasia:

Recordo os tempos dourados,
quando me embalavam no colo,
morávamos naquela época
em Merklín, perto de Domažlice.

Pouco depois, porém, tornou a cair em completa apatia e, voltando-se para Švejk, perguntou com um dos olhos semicerrados:

“Como tem passado hoje, minha senhora? Vai passar o verão em algum lugar?”

Após uma breve pausa, vendo tudo em dobro, perguntou:

“A senhora já tem um filho adulto?”

Ao dizer isso, apontava para Švejk.

“Sente-se!”, gritou-lhe Švejk quando o capelão militar tentou subir no assento. “Não pense que não vou lhe ensinar a se comportar.”

O capelão militar calou-se e olhou para fora do coche com seus olhinhos de porco, sem compreender absolutamente o que estava acontecendo com ele.

Perdera completamente toda a noção das coisas e, voltando-se para Švejk, disse melancolicamente:

“Senhora, dê-me uma passagem de primeira classe.”

E tentou abaixar as calças.

“Abotoe-se agora mesmo, seu porco!”, gritou Švejk. “Todos os cocheiros já conhecem você. Já vomitou uma vez e agora vem com isso. Não pense que vai deixar outra dívida, como da última vez.”

O capelão militar apoiou melancolicamente a cabeça nas mãos e começou a cantar:

“Ninguém mais gosta de mim...”

Interrompeu imediatamente a canção e observou:

“Entschuldigen Sie, lieber Kamerad, Sie sind ein Trottel, ich kann singen, was ich will.”

Provavelmente queria assobiar alguma melodia, mas em vez disso saiu-lhe dos lábios um “prrr” tão poderoso que o coche parou.

Quando, a pedido de Švejk, prosseguiram a viagem, o capelão militar começou a tentar acender a piteira.

“Não pega fogo”, disse desesperado depois de gastar uma caixa inteira de fósforos. “Você está soprando.”

Mas perdeu imediatamente o fio da meada e começou a rir.

“Que engraçado, estamos sozinhos na eletricidade, não estamos, senhor colega?”

Começou a apalpar os bolsos.

“Perdi a passagem!”, gritou. “Parem, precisamos encontrar a passagem!”

Fez um gesto resignado com a mão.

“Deixem seguir...”

Depois balbuciou:

“Nos casos mais frequentes... Sim, está em ordem... Em todos os casos... O senhor está enganado... Segundo andar?... Isso é uma desculpa... Não se trata de mim, mas da senhora, minha senhora... Pagar... Tenho café preto...”

Meio adormecido, começou a discutir com algum inimigo imaginário que lhe negava o direito de se sentar numa mesa junto à janela de um restaurante. Depois passou a imaginar que o coche era um trem e, inclinando-se para fora, gritava pela rua em tcheco e alemão:

“Nymburk, baldeação!”

Švejk puxou-o de volta para dentro, e o capelão militar esqueceu-se do trem e começou a imitar vozes de diferentes animais. Demorou-se mais na imitação de um galo, e seu kikeriki soava vitoriosamente de dentro do coche.

Durante algum tempo esteve muito vivo e inquieto. Tentava cair do coche e xingava de moleques as pessoas por quem passavam. Depois atirou o lenço para fora e gritou para que parassem, pois perdera a bagagem. Em seguida começou a contar:

“Em Budějovice havia um tambor. Casou-se. Um ano depois morreu.”

Começou a rir.

“Não é uma boa anedota?”

Durante todo esse tempo, Švejk tratou o capelão militar com uma severidade implacável.

A cada tentativa do capelão militar de fazer alguma brincadeira, como cair do coche ou arrancar o assento, Švejk lhe dava uma pancada após outra nas costelas, que ele recebia com uma apatia extraordinária.

Apenas uma vez tentou se rebelar e saltar do coche, declarando que não prosseguiria, pois sabia que, em vez de Budějovice, estavam indo para Podmoklí. Em menos de um minuto, Švejk liquidou completamente a rebelião, obrigou-o a voltar à posição inicial no assento e tomou cuidado para que não adormecesse. A coisa mais delicada que lhe disse foi:

“Não durma, seu cadáver.”

De repente, o capelão militar teve um acesso de melancolia e começou a chorar, perguntando a Švejk se ele tivera mãe.

“Estou sozinho neste mundo, minha gente!”, gritava de dentro do coche. “Cuidem de mim!”

“Não me faça passar vergonha”, advertiu Švejk. “Pare com isso, senão todo mundo vai dizer que você encheu a cara.”

“Não bebi nada, camarada”, respondeu o capelão militar. “Estou completamente sóbrio.”

De repente, porém, levantou-se e prestou continência:

“Ich melde gehorsam, Herr Oberst, ich bin besoffen. Sou um porco.”

Repetiu isso dez vezes seguidas, com um desespero sincero e absoluto.

Depois, voltando-se para Švejk, começou a pedir e implorar insistentemente:

“Jogue-me para fora do automóvel. Por que está me levando com você?”

Sentou-se e resmungou:

“Formam-se círculos em volta da Lua. O senhor acredita, senhor capitão, na imortalidade da alma? Um cavalo pode ir para o céu?”

Começou a rir em voz alta, mas pouco depois entristeceu-se e ficou olhando apaticamente para Švejk, dizendo:

“Permita-me, senhor, já o vi em algum lugar. O senhor não esteve em Viena? Lembro-me do senhor do seminário.”

Durante algum tempo divertiu-se declamando versos em latim:

“Aurea prima sata est aetas, quae vindice nullo...”

“O resto não sai”, disse. “Jogue-me para fora. Por que não quer me jogar? Não vou me machucar. Quero cair de cara”, declarou com voz decidida.

“Senhor”, prosseguiu novamente em tom suplicante, “querido amigo, dê-me um tapa na cabeça.”

“Um ou vários?”, perguntou Švejk.

“Dois.”

“Aqui estão...”

O capelão militar contou em voz alta os tapas que recebia, com uma expressão de felicidade no rosto.

“Isso faz muito bem”, disse. “É bom para o estômago, ajuda a digerir. Agora dê-me outro na cara! Muito obrigado”, exclamou quando Švejk o atendeu rapidamente. “Estou completamente satisfeito. Rasgue meu colete, por favor!”

Manifestava os mais variados desejos. Queria que Švejk lhe torcesse a perna, que o estrangulasse por algum tempo, cortasse suas unhas e arrancasse os dentes da frente.

Demonstrava aspirações de mártir, pedindo que lhe arrancasse a cabeça e a jogasse dentro de um saco no Vltava.

“Umas estrelinhas em volta da minha cabeça ficariam muito bem”, dizia com entusiasmo. “Precisaria de dez.”

Depois começou a falar de corridas de cavalos e rapidamente passou ao balé, assunto no qual também não se demorou.

“O senhor dança czarda?”, perguntou a Švejk. “Conhece a dança do urso? É assim...”

Tentou saltar e caiu sobre Švejk, que começou a golpeá-lo e depois o acomodou no assento.

“Quero alguma coisa”, gritava o capelão militar, “mas não sei o quê. O senhor sabe o que quero?”

Baixou a cabeça em completa resignação.

“Que me importa o que eu quero?”, disse seriamente. “E ao senhor também não importa, senhor. Eu não o conheço. Como se atreve a ficar me encarando? Sabe esgrimir?”

Durante um minuto tornou-se mais agressivo e tentou derrubar Švejk do assento.

Depois, quando Švejk o acalmou, fazendo-o perceber sem cerimônia sua superioridade física, o capelão militar perguntou:

“Hoje é segunda ou sexta-feira?”

Também queria saber se era dezembro ou junho e demonstrou grande capacidade de fazer todo tipo de pergunta:

“O senhor é casado? Gosta de comer gorgonzola? Havia percevejos em sua casa? O senhor está bem? Seu cachorro teve cinomose?”

Ficou comunicativo. Contou que devia dinheiro pelas botas de montaria, por um chicotinho e por uma sela, que tivera gonorreia alguns anos antes e a tratara com permanganato.

“Não havia tempo nem pensamento para outra coisa”, disse, soluçando. “Talvez isso lhe pareça muito amargo. Mas diga, eah, eah, o que devo fazer, eah? Agora o senhor precisa me perdoar. Autotermos”, prosseguiu, esquecendo-se do que falara antes, “são recipientes que conservam bebidas e alimentos na temperatura original. O que acha, senhor colega, de qual jogo é mais justo, ferbl ou vinte e um? Realmente, já vi você em algum lugar”, exclamou, tentando abraçar Švejk e beijá-lo com os lábios babados. “Estudamos juntos. Seu homem bondoso”, dizia carinhosamente, acariciando a própria perna. “Como você cresceu desde a última vez que o vi. A alegria de vê-lo compensa todos os sofrimentos.”

Entrou num estado de espírito poético e começou a falar do retorno à luz do sol de rostos felizes e corações ardentes.

Depois se ajoelhou e começou a rezar a Ave-Maria, gargalhando ao mesmo tempo.

Quando pararam diante de seu apartamento, foi muito difícil tirá-lo do coche.

“Ainda não chegamos!”, gritava. “Ajudem-me! Estão me sequestrando. Quero continuar a viagem.”

Foi literalmente arrancado do coche como um caracol cozido de sua concha. Por um momento pareceu que o partiriam ao meio, pois suas pernas se enroscaram atrás do assento.

Ele, porém, ria em voz alta, dizendo que os enganara.

“Vocês vão me rasgar ao meio, senhores.”

Depois foi arrastado pela passagem, subiu as escadas até o apartamento e ali foi atirado como um saco sobre o sofá. Declarou que não pagaria por aquele automóvel, que não encomendara, e foram necessários mais de quinze minutos para lhe explicarem que se tratava de um coche.

Mesmo assim não concordou, alegando que só viajava de fiacre.

“Vocês querem me enganar”, declarava o capelão militar, piscando significativamente para Švejk e para o cocheiro. “Viemos andando.”

E, de repente, num acesso de generosidade, atirou a carteira ao cocheiro:

“Pegue tudo, ich kann bezahlen. Não me importo com alguns kreuzer.”

Corretamente, deveria ter dito que não se importava com trinta e seis kreuzer, pois não havia mais que isso na carteira. Felizmente, o cocheiro submeteu-o a uma revista minuciosa, falando durante todo o tempo sobre bofetadas.

“Então me bata”, respondia o capelão militar. “Acha que eu não aguentaria? Suporto cinco suas.”

No colete do capelão militar, o cocheiro encontrou uma nota de cinco coroas. Foi embora amaldiçoando o destino e o capelão militar, que o atrasara e estragara sua corrida.

O capelão militar começou a adormecer lentamente, pois continuava elaborando planos. Queria fazer todo tipo de coisa, tocar piano, frequentar aulas de dança e fritar peixinhos.

Depois prometeu a Švejk sua irmã, que não existia. Também desejou que o levassem para a cama e por fim adormeceu, declarando que queria ser reconhecido como ser humano, uma unidade de valor igual à de um porco.

3

Quando Švejk entrou pela manhã no quarto do capelão militar, encontrou-o deitado no sofá, refletindo intensamente sobre como alguém conseguira molhá-lo de maneira tão estranha que suas calças estavam grudadas no couro do sofá.

“Respeitosamente informo, senhor capelão militar”, disse Švejk, “que durante a noite o senhor...”

Em poucas palavras explicou-lhe como estava terrivelmente enganado ao pensar que alguém o molhara. O capelão militar, cuja cabeça estava extraordinariamente pesada, encontrava-se num estado de espírito opressivo.

“Não consigo me lembrar”, disse, “de como fui parar da cama no sofá.”

“O senhor nem esteve na cama. Assim que chegamos, colocamos o senhor no sofá. Não dava para ir mais longe.”

“E o que aprontei? Cheguei a aprontar alguma coisa? Será que estava bêbado?”

“Completamente”, respondeu Švejk. “Completamente mesmo, senhor capelão militar. O senhor teve um pequeno delírio. Espero que se sinta melhor depois de trocar de roupa e se lavar.”

“Estou me sentindo como se alguém tivesse me espancado”, queixou-se o capelão militar. “E estou com sede. Será que briguei ontem?”

“Não foi tão grave assim, senhor capelão militar. A sede é consequência da sede de ontem. Uma pessoa não se livra disso tão depressa. Conheci um carpinteiro que ficou bêbado pela primeira vez na véspera do Ano-Novo de 1910. Na manhã de primeiro de janeiro, estava com tanta sede e se sentia tão mal que comprou um arenque e tornou a beber. Faz isso diariamente há quatro anos e ninguém consegue ajudá-lo, porque todos os sábados compra arenques para a semana inteira. É uma espécie de carrossel, como dizia um velho sargento do 91º Regimento.”

O capelão militar sofria de uma ressaca perfeita e de uma depressão absoluta. Naquele momento, quem o escutasse ficaria convencido de que frequentava as conferências do doutor Alexander Batěk, “Declaremos uma guerra de vida ou morte ao demônio do álcool, que assassina nossos melhores homens”, e de que lia suas Cem centelhas éticas.

É verdade que modificava um pouco a doutrina.

“Se pelo menos”, disse, “uma pessoa bebesse bebidas nobres, como araca, marasquino ou conhaque. Mas ontem bebi borovička. Fico admirado de conseguir beber tanto daquilo. O gosto é repugnante. Se ao menos fosse griotte. As pessoas inventam todo tipo de porcaria e bebem como água. Essa borovička não é gostosa, não tem cor, queima a garganta. E se ao menos fosse verdadeira, destilada de zimbro, como uma que bebi certa vez na Morávia. Mas essa borovička era feita de algum álcool de madeira e óleos. Veja como estou arrotando. Aguardente é veneno”, decidiu. “Precisa ser original, autêntica, verdadeira, e não fabricada a frio numa fábrica de judeus. Com rum é a mesma coisa. Rum bom é uma raridade. Se houvesse aqui um verdadeiro licor de nozes”, suspirou, “aquilo me endireitaria o estômago. Um licor de nozes como o do senhor capitão Šnábl, em Bruska.”

Começou a apalpar os bolsos e examinar a carteira.

“Tenho ao todo trinta e seis kreuzer. E se eu vendesse o sofá?”, refletiu. “O que acha? Alguém compraria o sofá? Direi ao proprietário que o emprestei ou que alguém o roubou. Não, vou ficar com o sofá. Mandarei você ao senhor capitão Šnábl para que ele me empreste cem coroas. Anteontem ganhou no jogo. Caso não consiga com ele, vá para o quartel de Vršovice, procurar o primeiro-tenente Mahler. Se também não der certo lá, vá a Hradčany, até o capitão Fišer. Diga-lhe que preciso pagar a forragem do cavalo, que bebi. E caso nem lá consiga, penhoraremos o piano, aconteça o que acontecer. Vou escrever algumas linhas gerais. Não aceite uma recusa. Diga que preciso, que estou completamente sem dinheiro. Invente o que quiser, mas não volte de mãos vazias, senão mando você para a frente. Pergunte ao capitão Šnábl onde compra aquela licor de nozes e compre duas garrafas.”

Švejk cumpriu sua tarefa de maneira brilhante. Sua simplicidade e seu rosto honesto inspiravam plena confiança de que tudo o que dizia era verdade.

Švejk julgou conveniente não falar, diante do capitão Šnábl, do capitão Fišer e do primeiro-tenente Mahler, que o capelão militar precisava pagar a forragem do cavalo. Preferiu reforçar o pedido declarando que o capelão militar precisava pagar pensão alimentícia. Recebeu dinheiro em todos os lugares.

Quando mostrou as trezentas coroas, depois de regressar honestamente da expedição, o capelão militar, que nesse meio-tempo se lavara e trocara de roupa, ficou muito espantado.

“Peguei tudo de uma vez”, disse Švejk, “para não precisarmos nos preocupar novamente com dinheiro amanhã ou depois de amanhã. Foi bastante fácil, mas precisei me ajoelhar diante do capitão Šnábl. É uma espécie de canalha. Mas quando lhe disse que o senhor precisava pagar pensão alimentícia...”

“Pensão alimentícia?”, repetiu horrorizado o capelão militar.

“Pois é, pensão alimentícia, senhor capelão militar, uma indenização para as moças. O senhor disse que eu inventasse alguma coisa, e não consegui pensar em nada melhor. Havia em nossa rua um sapateiro que pagava pensão para cinco moças ao mesmo tempo. Estava completamente desesperado e também pedia dinheiro emprestado para isso, e todos acreditavam com facilidade que ele se encontrava numa situação terrível. Perguntaram-me que tipo de moça era, e eu disse que era muito bonita e ainda não tinha quinze anos. Então quiseram o endereço dela.”

“Você fez uma bela coisa, Švejk”, suspirou o capelão militar, começando a andar pelo quarto.

“Agora é mais uma bela vergonha”, dizia, segurando a cabeça. “Minha cabeça está doendo tanto.”

“Dei-lhes o endereço de uma velha surda que mora em nossa rua”, explicou Švejk. “Quis fazer tudo muito bem, porque ordem é ordem. Não me deixei dispensar e precisava inventar alguma coisa. Além disso, os homens estão esperando no vestíbulo pelo piano. Eu os trouxe para levá-lo à casa de penhores, senhor capelão militar. Não será ruim quando o piano sair daqui. Haverá mais espaço e teremos mais dinheiro reunido. Ficaremos tranquilos por alguns dias. E, caso o senhorio pergunte o que queremos fazer com o piano, direi que as cordas se romperam e que o mandamos à fábrica para conserto. Já avisei a zeladora, para que não estranhe quando levarem o piano e o colocarem no carro. Também já tenho comprador para o sofá. É um comerciante de móveis usados que conheço e virá esta tarde. Hoje em dia pagam bem por um sofá de couro.”

“Não fez mais nada, Švejk?”, perguntou o capelão militar, ainda segurando a cabeça entre as mãos e com uma expressão desesperada.

“Respeitosamente informo, senhor capelão militar, que, em vez de duas garrafas do licor de nozes que o capitão Šnábl compra, trouxe cinco, para termos algum estoque e alguma coisa para beber. Os homens podem levar o piano antes que a casa de penhores feche?”

O capelão militar fez um gesto desesperado com a mão e, pouco depois, o piano já era colocado numa carroça.

Quando Švejk voltou da casa de penhores, encontrou o capelão militar sentado diante de uma garrafa aberta de licor de nozes e xingando porque no almoço lhe haviam servido um bife malpassado.

O capelão militar estava novamente envolvido naquilo. Declarou a Švejk que, a partir do dia seguinte, levaria uma vida nova. Beber álcool era materialismo vulgar e era preciso levar uma vida espiritual.

Falou filosoficamente durante meia hora. Quando abriu a terceira garrafa, chegou o comerciante de móveis usados. O capelão militar vendeu-lhe o sofá por uma ninharia e convidou-o para ficar conversando, mostrando-se muito insatisfeito quando o comerciante se desculpou, dizendo que ainda precisava comprar um criado-mudo.

“Que pena que não tenho nenhum”, disse o capelão militar com censura. “Uma pessoa não pensa em tudo.”

Depois que o comerciante de móveis usados foi embora, o capelão militar iniciou uma conversa amistosa com Švejk, com quem bebeu mais uma garrafa. Parte da conversa foi ocupada pela relação pessoal do capelão militar com as mulheres e com as cartas.

Ficaram sentados por muito tempo. A noite ainda encontrou Švejk e o capelão militar em conversa amistosa.

Durante a madrugada, porém, a relação mudou. O capelão militar voltou ao estado do dia anterior, confundiu Švejk com outra pessoa e lhe dizia:

“Não, não vá embora. Lembra-se daquele cadete ruivo do trem?”

Esse idílio durou até Švejk dizer ao capelão militar:

“Já estou farto disso. Agora você vai para a cama e vai roncar, entendeu?”

“Estou indo, querido, estou indo. Como não iria?”, balbuciava o capelão militar. “Lembra-se de quando estudávamos juntos na quinta série e eu fazia seus exercícios de grego? O senhor tem uma vila em Zbraslav. E pode andar de vapor pelo Vltava. Sabe o que é o Vltava?”

Švejk obrigou-o a tirar as botas e a roupa. O capelão militar obedeceu, protestando diante de pessoas desconhecidas.

“Estão vendo, senhores”, dizia ao armário e ao fícus, “como meus parentes me tratam. Não reconheço meus parentes”, decidiu de repente ao se deitar. “Mesmo que o céu e a terra conspirassem contra mim, não os reconheço...”

E o ronco do capelão militar ecoou pelo quarto.

4

A esses dias pertence também uma visita de Švejk ao apartamento de sua velha criada, a senhora Müllerová. No apartamento, Švejk encontrou a prima da senhora Müllerová, que lhe contou, chorando, que a senhora Müllerová fora presa na mesma noite em que levara Švejk para o Exército. A velha senhora fora julgada por tribunais militares e, como nada conseguiram provar contra ela, enviaram-na para o campo de concentração de Steinhof. Já chegara um cartão dela.

Švejk pegou aquela relíquia doméstica e leu:

Querida Aninka! Estamos muito bem aqui, todos temos saúde. A vizinha da cama ao lado está com tifo █████ e também há aqui varíola negra █████████. Fora isso, tudo está em ordem. Temos comida suficiente e recolhemos cascas de batata ██████ para a sopa. Ouvi dizer que o senhor Švejk já está ██████, então tente descobrir onde ele está enterrado, para que depois da guerra possamos mandar revestir seu túmulo. Esqueci de dizer que no sótão, no canto direito, há dentro de uma caixa um cachorrinho pinscher, um filhote. Mas já faz muitas semanas que ele não recebe nada para comer, desde quando vieram me buscar por causa de █████████. Então penso que agora é tarde demais e que o cachorrinho também já está diante da verdade ████.

Sobre todo o cartão havia um carimbo cor-de-rosa:

Zensuriert. K. k. Konzentrationslager Steinhof.

“E o cachorrinho realmente já estava morto”, soluçou a prima da senhora Müllerová. “E o senhor também não reconheceria seu apartamento. Alojei umas costureiras lá. Elas transformaram tudo num salão feminino. Há gravuras de moda por todas as paredes e flores nas janelas.”

A prima da senhora Müllerová não conseguia se acalmar.

Entre soluços e lamentações constantes, acabou manifestando o medo de que Švejk tivesse fugido do Exército e quisesse arruiná-la também, arrastando-a para a desgraça. No fim, falava com ele como se fosse um aventureiro degenerado.

“Isso é extremamente engraçado”, disse Švejk. “Gosto muito disso. Então, para a senhora saber, senhora Kejřová, tem toda a razão. Consegui sair. Mas precisei matar quinze sargentos de cavalaria e feldwebels. Só não conte isso a ninguém...”

E Švejk deixou sua casa, que não o acolhera, declarando:

“Senhora Kejřová, tenho alguns colarinhos e peitilhos na lavanderia. Vá buscá-los para mim, para que, quando eu voltar da guerra, tenha o que vestir na vida civil. Cuide também para que as traças não entrem em minhas roupas no armário. E mande lembranças às mocinhas que dormem em minha cama.”

Depois Švejk foi até o Cálice. Quando a senhora Palivcová o viu, declarou que não lhe serviria nada, pois provavelmente havia fugido.

“Meu marido”, começou a remexer na antiga história, “era tão cuidadoso e está lá, o pobre, preso sem motivo algum. E gente assim anda livre pelo mundo, foge do Exército. Ainda na semana passada estiveram aqui procurando pelo senhor. Nós somos mais cuidadosos que o senhor”, encerrou a conversa, “e estamos na desgraça. Nem todo mundo tem a sua sorte.”

Durante a conversa estava presente um senhor mais velho, um serralheiro de Smíchov, que se aproximou de Švejk e lhe disse:

“Por favor, senhor, espere-me lá fora. Preciso falar com o senhor.”

Na rua, conversou com Švejk, a quem também considerava desertor por causa da recomendação da estalajadeira Palivcová.

Contou que tinha um filho que também fugira do Exército e estava na casa da avó, em Jasenná, perto de Josefov.

Sem dar importância ao fato de Švejk garantir que não era desertor, enfiou-lhe uma nota de dez coroas na mão.

“É a primeira ajuda”, disse, puxando-o para uma casa de vinhos na esquina. “Eu o entendo. Não precisa ter medo de mim.”

Švejk voltou tarde da noite para a casa do capelão militar, que ainda não havia regressado.

Ele só chegou ao amanhecer, acordou Švejk e disse:

“Amanhã iremos celebrar uma missa de campanha. Faça café preto com rum. Ou melhor ainda, faça grogue.”

As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Sinopse

Edição integral em português brasileiro de As Aventuras do Bom Soldado Švejk, traduzida diretamente do original tcheco de domínio público, preservando a estrutura dos quatro livros e suas 29 unidades.

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