Universo da obra
Universo da obra
O capelão militar Otto Katz estava sentado, pensativo, diante de uma circular que acabara de trazer do quartel. Era uma instrução reservada do Ministério da Guerra:
“O Ministério da Guerra suspende, durante o período de guerra, os regulamentos vigentes relativos à administração da extrema-unção aos soldados do Exército e estabelece as seguintes normas para os capelães militares:
§ 1. Na frente, fica abolida a extrema-unção.
§ 2. Não é permitido aos doentes graves e feridos retirar-se para a retaguarda com a finalidade de receber a extrema-unção. Os capelães militares têm a obrigação de entregar imediatamente tais pessoas às autoridades militares competentes, para que sejam tomadas outras medidas.
§ 3. Nos hospitais militares da retaguarda, a extrema-unção pode ser administrada coletivamente, com base em parecer dos médicos militares, desde que a extrema-unção não assuma caráter de incômodo para a instituição militar em questão.
§ 4. Em casos extraordinários, o comando dos hospitais militares pode permitir que indivíduos recebam a extrema-unção.
§ 5. Os capelães militares têm a obrigação, mediante solicitação do comando dos hospitais militares, de administrar a extrema-unção àqueles indicados pelo comando.”
Depois, o capelão militar tornou a ler a ordem que lhe comunicava que, no dia seguinte, devia ir ao Hospital Militar da Praça Carlos administrar a extrema-unção aos gravemente feridos.
“Escute, Švejk”, chamou o capelão militar, “isto não é uma porcaria? Como se eu fosse o único capelão militar em toda Praga. Por que não mandam aquele padre devoto que dormiu aqui da última vez? Temos de ir administrar a extrema-unção na Praça Carlos. Já me esqueci de como isso se faz.”
“Então compraremos um catecismo, senhor capelão militar. Deve estar explicado lá”, disse Švejk. “É como um guia de estrangeiros para pastores espirituais. No mosteiro de Emaús trabalhava um ajudante de jardineiro e, quando quis entrar para a ordem dos leigos e receber um hábito, para não precisar gastar as próprias roupas, teve de comprar um catecismo e aprender como se fazia o sinal da cruz, quem foi o único preservado do pecado original, o que significa ter a consciência limpa e outras coisinhas assim. Depois vendeu por baixo dos panos metade dos pepinos da horta do mosteiro e saiu de lá coberto de vergonha. Quando o encontrei, disse-me:
‘Eu podia ter vendido os pepinos sem catecismo.’”
Quando Švejk trouxe o catecismo que comprara, o capelão militar, folheando-o, disse:
“Vejam só. A extrema-unção só pode ser administrada por um padre e somente com óleo consagrado por um bispo. Como vê, Švejk, você não pode administrar pessoalmente a extrema-unção. Leia para mim como ela é feita.”
Švejk leu:
“Administra-se desta maneira: o sacerdote unge o doente nos diferentes sentidos e reza ao mesmo tempo: ‘Por esta santa unção e por sua misericórdia infinitamente bondosa, perdoe-te Deus tudo aquilo que pecaste pela visão, pela audição, pelo olfato, pelo paladar, pela fala, pelo tato e pelo caminhar.’”
“Gostaria de saber, Švejk”, disse o capelão militar, “o que uma pessoa pode cometer pelo tato. Pode me explicar?”
“Muita coisa, senhor capelão militar. Pode meter a mão no bolso alheio ou, nas festas dançantes, o senhor entende, naquelas apresentações que acontecem por lá.”
“E pelo caminhar, Švejk?”
“Quando começa a mancar para que as pessoas tenham pena.”
“E pelo olfato?”
“Quando não gosta de algum fedor.”
“E pelo paladar, Švejk?”
“Quando sente vontade de alguém.”
“E pela fala?”
“Isso já anda junto com a audição, senhor capelão militar. Quando alguém tagarela muito e outro fica escutando.”
Depois dessas reflexões filosóficas, o capelão militar se calou e disse:
“Portanto, precisamos de óleo consagrado pelo bispo. Aqui estão dez coroas. Compre um frasquinho. Provavelmente não têm óleo desses na intendência militar.”
Švejk partiu, então, em busca de óleo consagrado pelo bispo. Uma coisa dessas era pior que procurar a água da vida nos contos de Božena Němcová.
Entrou em várias drogarias e, assim que dizia: “Por favor, um frasquinho de óleo consagrado pelo bispo”, em algumas começavam a rir, e em outras se escondiam aterrorizados debaixo do balcão. Durante tudo isso, Švejk mantinha uma expressão extraordinariamente séria.
Decidiu, então, tentar a sorte nas farmácias. Na primeira, mandaram um assistente expulsá-lo. Na segunda, quiseram telefonar para o posto de socorro e, na terceira, o farmacêutico lhe disse que a firma Polák, da avenida Dlouhá, comércio de óleos e vernizes, certamente teria em estoque o óleo desejado.
A firma Polák, da avenida Dlouhá, era realmente uma empresa diligente. Não deixava nenhum freguês sair sem atender a seus desejos. Quando alguém pedia bálsamo de copaíba, serviam-lhe terebintina, e também ficava tudo bem.
Quando Švejk chegou e pediu dez coroas de óleo consagrado pelo bispo, o chefe disse ao balconista:
“Sirva-lhe, senhor Tauchen, cem gramas de óleo de cânhamo número três.”
E o balconista, embrulhando o frasquinho em papel, disse a Švejk em tom estritamente comercial:
“É de primeira qualidade. Caso precise de pincéis, vernizes ou óleo de linhaça, tenha a bondade de nos procurar. Nós o atenderemos com honestidade.”
Enquanto isso, o capelão militar repassava no catecismo aquilo que não lhe ficara na memória durante o seminário. Gostou muito de algumas frases extraordinariamente espirituosas, das quais riu sinceramente:
“O nome extrema-unção vem do fato de que essa unção costuma ser a última de todas as unções que a Igreja administra ao ser humano.”
Ou:
“A extrema-unção pode ser recebida por todo cristão católico que esteja gravemente enfermo e já tenha alcançado o uso da razão.”
“O enfermo deve receber a extrema-unção, quando possível, enquanto ainda se encontra em pleno uso da memória.”
Depois chegou um ordenança trazendo um pacote no qual se informava ao capelão militar que, no dia seguinte, durante a administração da extrema-unção no hospital, estaria presente a Associação das Damas Nobres para a Educação Religiosa dos Soldados.
Essa associação era formada por velhas histéricas que distribuíam nos hospitais imagens de santos e histórias sobre o soldado católico que morria pelo senhor imperador. Essas histórias traziam uma ilustração colorida representando um campo de batalha. Por toda parte jaziam cadáveres de homens e cavalos, carros de munição virados e canhões com as carretas para cima. No horizonte, aldeias ardiam e estilhaços explodiam. Em primeiro plano, estava deitado um soldado moribundo com uma perna arrancada, sobre o qual se inclinava um anjo que lhe trazia uma coroa com a inscrição na fita:
“Ainda hoje estarás comigo no paraíso.”
E o moribundo sorria cheio de felicidade, como se lhe trouxessem sorvete.
Quando Otto Katz leu o conteúdo do pacote, cuspiu e pensou:
“Amanhã vai ser outro belo dia.”
Conhecia aquela canalha, como a chamava, da igreja de Santo Inácio, onde anos antes costumava pregar para os soldados. Naquela época ainda colocava muita coisa nos sermões, e a Associação sentava-se atrás do coronel. Duas mulheres altas e magras, vestidas de preto e com rosários, juntaram-se certa vez a ele depois do sermão e durante duas horas falaram sobre a educação religiosa dos soldados, até ele se irritar e dizer:
“Perdoem-me, minhas senhoras, o senhor capitão está me esperando para uma partida de ferbl.”
“Então já temos o óleo”, disse solenemente Švejk ao voltar da firma Polák. “Óleo de cânhamo número três, de primeira qualidade. Podemos untar um batalhão inteiro com ele. É uma firma honesta. Também vende óleo de linhaça, vernizes e pincéis. Ainda precisamos de um sininho.”
“Para que um sininho, Švejk?”
“Precisamos tocar durante o caminho para que as pessoas tirem o chapéu quando passarmos com Nosso Senhor, senhor capelão militar, e com este óleo de cânhamo número três. É assim que se faz. Muita gente que não tinha nada a ver com a história já foi presa por não tirar o chapéu. Em Žižkov, certa vez, um padre espancou um cego porque ele não tirou o chapéu numa ocasião dessas, e o homem ainda foi preso, porque provaram no tribunal que ele não era surdo-mudo, apenas cego, que ouvira o toque do sino e causara escândalo, embora fosse de noite. É como na festa de Corpus Christi. Em outra ocasião, as pessoas nem prestariam atenção em nós, mas agora vão tirar o chapéu. Portanto, caso o senhor não tenha nada contra isso, senhor capelão militar, vou buscá-lo imediatamente.”
Depois de receber permissão, Švejk voltou meia hora depois com um sino.
“É do portão da hospedaria dos Křížek”, disse. “Custou-me cinco minutos de medo e antes precisei esperar muito tempo, porque não parava de passar gente.”
“Vou ao café, Švejk. Caso alguém apareça, mande esperar.”
Cerca de uma hora depois, chegou um senhor grisalho e idoso, de postura ereta e olhar severo.
De toda a sua figura emanavam obstinação e raiva. Olhava como se tivesse sido enviado pelo destino para destruir nosso miserável planeta e apagar seus rastros do universo.
Sua fala era áspera, seca e severa:
“Está em casa? Foi a algum café? Tenho de esperar? Muito bem, esperarei até de manhã. Para ir ao café ele tem dinheiro, mas para pagar as dívidas, não. Padre, que nojo!”
Cuspiu no chão da cozinha.
“Senhor, não cuspa aqui!”, disse Švejk, observando o desconhecido com interesse.
“Vou cuspir mais uma vez, está vendo? Assim”, disse teimosamente o senhor severo, cuspindo pela segunda vez no chão. “Como ele não tem vergonha. Capelão militar, que desonra!”
“Caso seja uma pessoa instruída”, advertiu-o Švejk, “trate de perder o costume de cuspir na casa dos outros. Ou acha que, por haver uma guerra mundial, pode fazer o que quiser? Deve se comportar decentemente, e não como um vagabundo. Deve agir com delicadeza, falar com educação e não se portar como um moleque, seu civil idiota.”
O senhor severo levantou-se da cadeira, começou a tremer de indignação e gritou:
“Como se atreve? Eu não sou uma pessoa decente? Então o que sou? Fale...”
“Um merdinha”, respondeu Švejk, olhando-o nos olhos. “Cospe no chão como se estivesse num bonde, num trem ou em algum recinto público. Sempre me perguntei por que nesses lugares há placas dizendo que é proibido cuspir no chão, e agora vejo que são por sua causa. Devem conhecê-lo muito bem em toda parte.”
O senhor severo começou a mudar de cor e tentou responder com uma torrente de insultos dirigidos a Švejk e ao capelão militar.
“Já terminou seu discurso?”, perguntou calmamente Švejk, quando veio o último “vocês dois são uns canalhas; tal patrão, tal estabelecimento”. “Ou ainda quer acrescentar alguma coisa antes de sair voando escada abaixo?”
Como o senhor severo já se esgotara a tal ponto que não lhe ocorria nenhum insulto de valor e, por isso, se calou, Švejk concluiu que esperaria inutilmente por algum acréscimo. Abriu a porta, colocou o senhor severo no vão, de frente para o corredor, e deu-lhe um chute do qual nem o melhor jogador da melhor equipe internacional de futebol teria vergonha.
Atrás do senhor severo, a voz de Švejk desceu pelas escadas:
“Da próxima vez que for visitar gente decente, comporte-se decentemente.”
O senhor severo ficou muito tempo andando sob as janelas, esperando o capelão militar. Švejk abriu a janela e passou a observá-lo.
Por fim, o visitante encontrou o capelão militar, que o conduziu ao quarto e o sentou numa cadeira diante de si.
Em silêncio, Švejk trouxe uma escarradeira e a colocou diante do visitante.
“O que está fazendo, Švejk?”
“Respeitosamente informo, senhor capelão militar, que já houve uma pequena complicação com esse senhor por causa de cuspir no chão.”
“Deixe-nos, Švejk. Temos uma questão para resolver entre nós.”
Švejk prestou continência.
“Respeitosamente informo, senhor capelão militar, que estou deixando os senhores.”
Foi para a cozinha, enquanto no quarto se desenvolvia uma conversa muito interessante.
“O senhor veio buscar o dinheiro daquela letra de câmbio, salvo engano?”, perguntou o capelão militar ao visitante.
“Sim, e espero...”
O capelão militar suspirou.
“Muitas vezes uma pessoa chega a uma situação na qual só lhe resta a esperança. Como é bela essa palavrinha, ‘esperar’, pertencente ao trevo que eleva o ser humano acima do caos da vida: fé, esperança e caridade.”
“Espero, senhor capelão militar, que a quantia...”
“Certamente, estimado senhor”, interrompeu-o o capelão militar. “Posso repetir mais uma vez que a palavra ‘esperar’ fortalece o ser humano em sua luta com a vida. O senhor também não perde a esperança. Como é belo possuir determinado ideal, ser uma criatura inocente e pura que empresta dinheiro mediante uma letra de câmbio e espera receber o pagamento pontualmente. Esperar, continuar esperando que eu lhe pague mil e duzentas coroas, quando tenho menos de cem no bolso.”
“Então o senhor...”, gaguejou o visitante.
“Sim, então eu”, respondeu o capelão militar.
O rosto do visitante tornou a assumir uma expressão obstinada e furiosa.
“Senhor, isso é fraude”, disse, levantando-se.
“Acalme-se, estimado senhor...”
“É fraude!”, gritava teimosamente o visitante. “O senhor abusou de minha confiança.”
“Senhor”, disse o capelão militar, “uma mudança de ares certamente lhe fará bem. Aqui está muito abafado. Švejk”, chamou para a cozinha, “este senhor deseja sair para tomar ar fresco.”
“Respeitosamente informo, senhor capelão militar”, ouviu-se da cozinha, “que já expulsei esse senhor uma vez.”
“Repita”, veio a ordem, executada com rapidez, agilidade e crueldade.
“Foi bom, senhor capelão militar”, disse Švejk ao voltar do corredor, “termos acabado com ele antes que provocasse algum tumulto aqui. Em Malešice havia um estalajadeiro, estudioso das Escrituras, que tinha uma citação da Bíblia para tudo. Quando espancava alguém com um chicote de couro, dizia sempre: ‘Quem poupa a vara odeia seu filho, mas quem o ama castiga-o a tempo. Eu vou lhe ensinar a brigar na minha cervejaria.’”
“Está vendo, Švejk, como termina um homem que não respeita um sacerdote?”, sorriu o capelão militar. “São João Crisóstomo disse: ‘Quem honra o sacerdote honra Cristo; quem faz mal ao sacerdote faz mal a Cristo Nosso Senhor, de quem o sacerdote é o representante.’ Precisamos nos preparar perfeitamente para amanhã. Faça ovos fritos com presunto, prepare ponche de Bordeaux e depois nos dedicaremos à meditação, pois, como diz a oração da noite: ‘Pela graça de Deus são afastadas todas as ciladas dos inimigos contra esta morada.’”
Existem no mundo homens perseverantes, e entre eles estava o sujeito já expulso duas vezes do apartamento do capelão militar. Justamente quando o jantar ficou pronto, alguém tocou a campainha. Švejk foi abrir, voltou pouco depois e informou:
“É ele outra vez, senhor capelão militar. Por enquanto, tranquei-o no banheiro, para podermos jantar tranquilamente.”
“Não fez bem, Švejk”, disse o capelão militar. “Hóspede em casa, Deus em casa. Nos tempos antigos, durante os banquetes, as pessoas mandavam vir criaturas deformadas para diverti-las. Traga-o aqui, para que nos divirta.”
Pouco depois, Švejk voltou com o homem perseverante, que olhava sombriamente para a frente.
“Sente-se”, convidou-o amavelmente o capelão militar. “Estamos justamente terminando o jantar. Comemos lagosta, salmão e agora ainda temos ovos fritos com presunto. Como nos banqueteamos bem quando as pessoas nos emprestam dinheiro.”
“Espero não estar aqui para servir de diversão”, disse o homem sombrio. “É a terceira vez que venho hoje. Espero que agora tudo seja esclarecido.”
“Respeitosamente informo, senhor capelão militar”, observou Švejk, “que esse aí é um verdadeiro indestrutível, como um tal de Boušek, de Libeň. Numa única noite, expulsaram-no dezoito vezes do Exner, e ele sempre voltava dizendo que havia esquecido o cachimbo. Entrava pela janela, pela porta, pela cozinha, pulava o muro para o salão, passava pelo porão até o balcão e talvez tivesse descido pela chaminé se os bombeiros não o tivessem tirado do telhado. Era tão perseverante que poderia ter se tornado ministro ou deputado. Fizeram por ele tudo o que podiam.”
O homem perseverante, como se não prestasse atenção ao que diziam, repetiu teimosamente:
“Quero tudo esclarecido e desejo ser ouvido.”
“Isso lhe é permitido”, disse o capelão militar. “Fale, estimado senhor. Fale durante o tempo que quiser, e enquanto isso continuaremos nosso banquete. Espero que isso não atrapalhe seu relato. Švejk, traga tudo para a mesa.”
“Como é de seu conhecimento”, disse o perseverante, “está acontecendo uma guerra. Emprestei-lhe a quantia antes da guerra e, se não houvesse guerra, não insistiria no pagamento. Tenho, porém, experiências tristes.”
Tirou do bolso um caderno e prosseguiu:
“Tenho tudo anotado. O primeiro-tenente Janata me devia setecentas coroas e teve a ousadia de morrer no Drina. O tenente Prášek caiu prisioneiro na frente russa e me deve duas mil coroas. O capitão Wichterle, que me devia a mesma quantia, deixou-se matar pelos próprios soldados perto de Rawa Ruska. O primeiro-tenente Machek, capturado na Sérvia, deve-me mil e quinhentas coroas. Há mais pessoas assim. Um morre nos Cárpatos levando consigo minha letra de câmbio não paga, outro cai prisioneiro, outro se afoga na Sérvia, outro morre num hospital da Hungria. Agora compreende meu receio de que esta guerra acabe comigo, caso eu não seja enérgico e implacável? O senhor pode argumentar que não corre perigo imediato. Veja.”
Empurrou o caderno para debaixo do nariz do capelão militar.
“Está vendo? Capelão militar Matyáš, de Brno, morreu há uma semana no hospital de isolamento. Eu poderia arrancar os cabelos. Não me pagou mil e oitocentas coroas e foi ao barracão de cólera administrar a extrema-unção a um sujeito com quem não tinha nada a ver.”
“Era seu dever, estimado senhor”, disse o capelão militar. “Eu também vou amanhã administrar a extrema-unção.”
“E também num barracão de cólera”, observou Švejk. “O senhor pode ir junto para ver o que significa sacrificar-se.”
“Senhor capelão militar”, disse o homem perseverante, “acredite que estou numa situação desesperadora. Estão fazendo esta guerra para eliminar do mundo todos os meus devedores?”
“Quando o recrutarem e o senhor partir para o campo”, tornou a observar Švejk, “eu e o senhor capelão militar celebraremos uma santa missa para que Deus celestial permita que a primeira granada tenha a bondade de parti-lo ao meio.”
“Senhor, isto é um assunto sério”, disse o indestrutível ao capelão militar. “Exijo que seu ordenança não se intrometa em nossos assuntos, para que possamos terminar isso imediatamente.”
“Permita, senhor capelão militar”, disse Švejk, “que tenha a bondade de realmente me ordenar que não me intrometa em seus assuntos. Caso contrário, continuarei defendendo seus interesses, como convém a um soldado decente. Esse senhor tem toda a razão. Ele quer sair daqui sozinho. Eu também não gosto de cenas. Sou um homem sociável.”
“Švejk, isto já está começando a me entediar”, disse o capelão militar, como se não percebesse a presença do visitante. “Pensei que esse homem fosse nos divertir, contar algumas anedotas, e ele exige que eu lhe ordene que não se intrometa, embora o senhor já tenha tratado dele duas vezes. Na noite anterior a um ato religioso tão importante, quando devo voltar todos os meus sentidos para Deus, ele me incomoda com uma história idiota sobre miseráveis mil e duzentas coroas, desvia-me do exame de consciência e de Deus, e ainda quer que eu lhe diga mais uma vez que agora não lhe darei nada. Não quero continuar falando com ele para que esta noite sagrada não seja estragada. Diga-lhe o senhor mesmo, Švejk: o senhor capelão militar não lhe dará nada.”
Švejk cumpriu a ordem, berrando isso no ouvido do visitante.
O visitante perseverante, porém, continuou sentado.
“Švejk”, prosseguiu o capelão militar, “pergunte-lhe por quanto tempo ele ainda pretende ficar plantado aqui.”
“Não sairei daqui até receber o pagamento”, respondeu teimosamente o indestrutível.
O capelão militar levantou-se, foi até a janela e disse:
“Nesse caso, entrego-o ao senhor, Švejk. Faça com ele o que quiser.”
“Venha, senhor”, disse Švejk, agarrando o visitante indesejado pelo ombro. “Na terceira vez tudo dá certo.”
E repetiu sua proeza com rapidez e elegância, enquanto o capelão militar tamborilava uma marcha fúnebre na janela.
A noite dedicada à meditação atravessou várias fases. O capelão militar se aproximava de Deus com tanta devoção e fervor que ainda à meia-noite se ouvia de seu apartamento a canção:
Quando marchávamos,
todas as moças choravam...
O bom soldado Švejk cantava com ele.
Duas pessoas desejavam receber a extrema-unção no Hospital Militar. Um velho major e um procurador bancário, oficial da reserva. Ambos haviam levado um tiro na barriga nos Cárpatos e estavam deitados lado a lado. O oficial da reserva considerava seu dever receber o sacramento dos moribundos porque seu superior desejava a extrema-unção. Não recebê-la também lhe parecia uma violação da subordinação. O major devoto fazia aquilo por esperteza, imaginando que a oração da fé curaria o enfermo.
Naquela noite anterior à extrema-unção, porém, os dois morreram e, quando o capelão militar chegou pela manhã com Švejk, estavam deitados sob o lençol, com o rosto enegrecido, como todos os que morrem sufocados.
“Fizemos toda aquela cerimônia, senhor capelão militar, e agora eles estragaram tudo”, irritou-se Švejk, quando lhes comunicaram no escritório que os dois já não precisavam de nada.
E era verdade que haviam feito uma grande cerimônia. Foram de coche, Švejk tocava o sino e o capelão militar segurava na mão o frasquinho de óleo, embrulhado num guardanapo, com o qual, de rosto solene, abençoava os transeuntes que tiravam o chapéu.
É verdade que não eram muitos, embora Švejk se esforçasse para produzir um barulho enorme com o sino.
Atrás do coche corriam algumas crianças inocentes, uma das quais se sentou na parte traseira. Seus companheiros começaram então a gritar em uníssono:
“Atrás do carro! Atrás do carro!”
Švejk continuava tocando o sino, enquanto o cocheiro golpeava para trás com o chicote. Na rua Vodičkova, uma zeladora, membro da Congregação Mariana, alcançou o coche a trote, recebeu a bênção enquanto corria, fez o sinal da cruz e depois cuspiu:
“Estão levando Nosso Senhor como se todos os diabos os perseguissem! Uma pessoa ainda pega tuberculose!”
E voltou ofegante para seu antigo lugar.
O som do sino perturbava principalmente a égua do cocheiro, pois provavelmente lhe recordava alguma coisa dos anos anteriores. Ela olhava constantemente para trás e de vez em quando tentava dançar sobre o calçamento.
Essa era a grande cerimônia mencionada por Švejk. Enquanto isso, o capelão militar foi ao escritório resolver o aspecto financeiro da extrema-unção e já calculava diante do sargento contador que o erário militar lhe devia cento e cinquenta coroas pelo óleo consagrado e pela viagem.
Seguiu-se uma discussão entre o comandante do hospital e o capelão militar, durante a qual este golpeou várias vezes a mesa com o punho e declarou:
“Não pense, senhor capitão, que a extrema-unção é gratuita. Quando um oficial dos dragões é enviado a um haras por causa dos cavalos, também lhe pagam diárias. Lamento sinceramente que os dois não tenham esperado pela extrema-unção. Isso custaria cinquenta coroas a mais.”
Enquanto isso, Švejk esperava no andar de baixo, na sala da guarda, com o frasquinho de óleo santo, que despertava verdadeiro interesse entre os soldados.
Alguém opinou que aquele óleo serviria muito bem para limpar fuzis e baionetas.
Um soldadinho muito jovem das Terras Altas Tcheco-Morávias, que ainda acreditava em Deus, pediu que não falassem assim daquelas coisas e não arrastassem os santos mistérios para a discussão. Era preciso esperar cristãmente.
Um velho reservista olhou para o recruta e disse:
“Bela esperança, a de um estilhaço arrancar sua cabeça. Enganaram-nos. Uma vez apareceu entre nós um deputado clerical que falou da paz de Deus estendida sobre a Terra, de como Deus não desejava guerras e queria que todos vivessem em paz e se suportassem como irmãos. Mas veja esse boi agora: assim que a guerra começou, em todas as igrejas rezam pelo êxito das armas e falam de Deus como se fosse um chefe do Estado-Maior que dirige e comanda a guerra. Já vi muitos enterros saírem deste Hospital Militar, e carroças levam daqui pernas e braços amputados.”
“E enterram os soldados nus”, disse outro soldado. “Vestem o uniforme em outro homem vivo e assim continua para sempre.”
“Até vencermos”, observou Švejk.
“Um sujeito desses quer vencer alguma coisa”, ouviu-se de um canto a voz de um cabo. “Mandem todos para as posições, para as trincheiras, e empurrem-nos com baionetas para longe de tudo, até os arames, as minas e os morteiros. Ficar deitado na retaguarda qualquer um consegue, e ninguém quer morrer.”
“Também acho muito bonito deixar-se atravessar por uma baioneta”, disse Švejk. “Também não é ruim levar uma bala na barriga. E ainda mais bonito é quando uma granada parte a pessoa ao meio e ela olha e vê que as próprias pernas, junto com a barriga, estão um pouco afastadas dela. Fica tão espantada que morre antes que alguém possa explicar o que aconteceu.”
O jovem soldado suspirou sinceramente. Lamentava a própria vida jovem e o fato de ter nascido num século tão idiota, para ser degolado como uma vaca no matadouro. Por que tudo aquilo acontecia?
Um soldado que era professor de profissão, como se lesse seus pensamentos, observou:
“Alguns cientistas explicam as guerras pelo aparecimento de manchas no Sol. Sempre que surge uma dessas manchas, acontece alguma coisa terrível. A conquista de Cartago...”
“Guarde sua sabedoria”, interrompeu-o o cabo. “É melhor ir varrer o quarto. Hoje é sua vez. Que nos importa alguma mancha idiota no Sol? Mesmo que houvesse vinte, não compraríamos nada com isso.”
“As manchas no Sol têm realmente grande importância”, intrometeu-se Švejk. “Certa vez apareceu uma dessas manchas e, naquele mesmo dia, apanhei no Banzet, em Nusle. Desde então, sempre que pretendia ir a algum lugar, procurava nos jornais se não havia aparecido outra mancha. Quando aparecia, adeus, Máry, eu não saía e esperava aquilo passar. Quando o vulcão Mont Pelée destruiu toda a ilha de Martinica, um professor escreveu na Política Nacional que havia muito tempo alertava os leitores sobre uma grande mancha no Sol. Mas a Política Nacional não chegou a tempo àquela ilha, e por isso o pessoal de lá pagou o preço.”
Enquanto isso, o capelão militar encontrou no escritório do andar superior uma senhora da Associação das Damas Nobres para a Educação Religiosa dos Soldados, uma velha megera antipática que desde a manhã percorria o hospital distribuindo imagens de santos, que os soldados feridos e doentes atiravam nas escarradeiras.
Durante sua ronda, irritava todos com sua tagarelice idiota, recomendando que se arrependessem sinceramente dos pecados e se corrigissem de verdade, para que, depois da morte, o querido Deus lhes concedesse a salvação eterna.
Estava pálida quando falou com o capelão militar. A guerra, em vez de enobrecer, transformava os soldados em animais. No andar de baixo, os doentes lhe mostraram a língua e disseram que ela era uma mascarada e uma cabra celestial.
“Das ist wirklich schrecklich, Herr Feldkurat, das Volk ist verdorben.”
E começou a explicar como imaginava a educação religiosa do soldado. Somente quando acredita em Deus e possui sentimento religioso o soldado combate valentemente por seu senhor imperador. Então não teme a morte, porque sabe que o paraíso o espera.
A tagarela disse ainda algumas bobagens semelhantes, e era evidente que estava decidida a não libertar o capelão militar, que, porém, despediu-se dela sem qualquer galanteria.
“Vamos para casa, Švejk!”, gritou para a sala da guarda.
Na viagem de volta não fizeram cerimônia nenhuma.
“Da próxima vez, que vá administrar a extrema-unção quem quiser”, disse o capelão militar. “Para salvar cada alma, uma pessoa precisa discutir com eles por causa do dinheiro. Só pensam em contabilidade, aquela canalha.”
Vendo o frasquinho de óleo “consagrado” na mão de Švejk, fechou a cara:
“O melhor que podemos fazer, Švejk, é engraxar nossas botas com esse óleo.”
“Também vou experimentar passá-lo na fechadura”, acrescentou Švejk. “Range terrivelmente quando o senhor volta para casa durante a noite.”
Assim terminou a extrema-unção que não aconteceu.
Edição integral em português brasileiro de As Aventuras do Bom Soldado Švejk, traduzida diretamente do original tcheco de domínio público, preservando a estrutura dos quatro livros e suas 29 unidades.
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