Universo da obra
Universo da obra
O coronel Schröder contemplava com satisfação o rosto pálido do primeiro-tenente Lukáš, marcado por grandes olheiras. Constrangido, o primeiro-tenente não olhava para o coronel, mas lançava olhares furtivos, como se estudasse alguma coisa, para a planta da distribuição das tropas no acampamento militar, que era também o único adorno de todo o gabinete do coronel.
Diante do coronel Schröder havia, sobre a mesa, vários jornais com artigos marcados a lápis azul. O coronel tornou a examiná-los rapidamente e disse, olhando para o primeiro-tenente Lukáš:
“Então o senhor já sabe que o seu ordenança Švejk está detido e provavelmente será entregue ao tribunal divisionário?”
“Sim, senhor coronel.”
“Naturalmente”, disse o coronel com ênfase, regalando-se com a palidez do rosto do primeiro-tenente Lukáš, “isso não encerra toda a questão. É certo que a opinião pública local ficou indignada com todo o caso de seu ordenança Švejk, e esse episódio também está sendo relacionado ao seu nome, senhor primeiro-tenente. Já recebemos certo material do comando da divisão. Temos aqui alguns periódicos que trataram do caso. O senhor pode ler isto em voz alta para mim.”
Entregou ao primeiro-tenente Lukáš um jornal com os artigos assinalados. Lukáš começou a ler em voz monótona, como se estivesse lendo numa cartilha infantil a frase “O mel é muito mais nutritivo e facilmente digerível que o açúcar”:
“Onde está a garantia de nosso futuro?”
“Isso é do Pester Lloyd?”, perguntou o coronel.
“Sim, senhor coronel”, respondeu o primeiro-tenente Lukáš, prosseguindo com a leitura:
“A condução da guerra exige a cooperação de todas as camadas da população da monarquia austro-húngara. Se desejamos abrigar sob um mesmo teto a segurança do Estado, todas as nações devem apoiar-se mutuamente, e a garantia de nosso futuro está precisamente no respeito espontâneo que cada nação deve nutrir pelas demais. Os maiores sacrifícios de nossos valorosos soldados nas frentes, onde avançam incessantemente, não seriam possíveis se a retaguarda, essa artéria política e de abastecimento de nossos gloriosos exércitos, não estivesse unificada, se surgissem às costas de nosso Exército elementos que destroem a unidade do Estado e, por meio de sua agitação e malignidade, solapam a autoridade do conjunto estatal e introduzem a desordem na comunidade das nações de nosso Império. Não podemos, neste momento histórico, assistir em silêncio a um punhado de indivíduos que, por motivos nacionalistas locais, pretendem perturbar o trabalho unificado e a luta de todas as nações deste Império pela justa punição dos miseráveis que atacaram sem motivo o nosso Império, a fim de privá-lo de todos os bens da cultura e da civilização. Não podemos ignorar em silêncio essas manifestações repugnantes das erupções de uma alma doentia, que anseia apenas por despedaçar a unanimidade existente nos corações das nações.
“Já tivemos em diversas ocasiões a oportunidade de chamar a atenção, nas páginas de nosso jornal, para o fato de que as autoridades militares são obrigadas a intervir com toda a severidade contra certos indivíduos dos regimentos tchecos que, desprezando as gloriosas tradições regimentais, semeiam, com suas desordens absurdas em nossas cidades húngaras, o ódio contra todo o povo tcheco, que, em seu conjunto, não tem culpa alguma e sempre se manteve firme na defesa dos interesses deste Império, como comprova toda uma série de destacados chefes militares tchecos, entre os quais recordamos a gloriosa figura do marechal Radetzky e de outros defensores da monarquia austro-húngara.
“Em oposição a essas figuras luminosas encontram-se alguns patifes da ralé tcheca degenerada, que se aproveitaram da guerra mundial para alistar-se voluntariamente no Exército e poder introduzir a desordem na unanimidade das nações da monarquia, sem esquecer, ao mesmo tempo, os seus instintos mais baixos. Já chamamos a atenção certa vez para as desordens do regimento número... em Debrecen, cujas arruaças foram discutidas e condenadas até mesmo pelo Parlamento de Peste e cuja bandeira regimental, mais tarde, na frente, foi... Confiscado... Quem tem na consciência esse pecado abominável?... Confiscado... Quem conduziu os soldados tchecos... Confiscado...
“O que os estrangeiros ousam fazer em nossa pátria húngara é demonstrado da melhor maneira pelo caso de Királyhida, sentinela avançada húngara às margens do Litava. A que nacionalidade pertenciam os soldados do acampamento militar próximo, situado em Bruck an der Leitha, que atacaram e maltrataram o comerciante local, senhor Gyula Kákonyi? É dever indiscutível das autoridades investigar esse crime e perguntar ao comando militar, que certamente já se ocupa do episódio, qual foi o papel desempenhado, nessa perseguição sem precedentes contra cidadãos do Reino da Hungria, pelo primeiro-tenente Lukasch, cujo nome é mencionado pela cidade em ligação com os acontecimentos dos últimos dias, conforme nos informou nosso correspondente local, que já reuniu abundante material sobre todo esse caso, o qual, nestes graves tempos, clama diretamente por uma solução.
“Os leitores do Pester Lloyd certamente acompanharão com interesse o desenvolvimento das investigações, e não deixaremos de lhes assegurar que os informaremos mais detalhadamente sobre esse acontecimento de importância eminente. Enquanto isso, porém, aguardamos um comunicado oficial a respeito do crime de Királyhida, perpetrado contra a população húngara. É evidente que o Parlamento de Peste tratará do assunto, para que fique finalmente demonstrado, com toda a clareza, que os soldados tchecos que atravessam o Reino da Hungria a caminho da frente não podem considerar as terras da Coroa de Santo Estêvão como se as tivessem arrendado.
“E, se alguns representantes daquela nação que em Királyhida tão dignamente representou a comunidade de todas as nações desta monarquia ainda não compreendem a situação, que permaneçam bem calados, pois, em tempo de guerra, a bala, a corda, a prisão e a baioneta ensinarão essas pessoas a obedecer e a submeter-se aos interesses supremos de nossa pátria comum.”
“Quem assina o artigo, senhor primeiro-tenente?”
“Béla Barabás, redator e deputado, senhor coronel.”
“É um canalha conhecido, senhor primeiro-tenente. Mas, antes de chegar ao Pester Lloyd, esse artigo já havia sido publicado no Pesti Hirlap. Agora leia para mim a tradução oficial do húngaro do artigo publicado no periódico de Sopron, o Sopronyi Napló.”
O primeiro-tenente Lukáš leu em voz alta o artigo, no qual o redator se esmerara de modo extraordinário para empregar uma mistura de expressões como “imperativo da sabedoria estatal”, “ordem do Estado”, “degeneração humana”, “dignidade e sentimento humanos pisoteados”, “festim canibalesco”, “sociedade humana massacrada”, “matilha de mamelucos” e “por trás dos bastidores, vós os reconhecereis”.
E o texto prosseguia como se, em seu próprio território, os húngaros fossem o elemento mais perseguido de todos. Como se soldados tchecos tivessem chegado, derrubado o redator e pisoteado sua barriga com os coturnos, enquanto ele urrava de dor e alguém taquigrafava seus gritos.
“A respeito de algumas das questões mais importantes”, choramingava o Sopronyi Napló, o Diário de Sopron, “guarda-se um silêncio alarmante, e nada se escreve. Cada um de nós sabe o que representa o soldado tcheco na Hungria e também na frente. Todos sabemos que coisas os tchecos fazem, o que está em atividade aqui, qual é a situação entre eles e quem é o responsável por tudo isso. A vigilância das autoridades está, naturalmente, concentrada em outras questões importantes, que, no entanto, devem estar devidamente relacionadas à supervisão do conjunto, a fim de impedir a repetição do que ocorreu nestes últimos dias em Királyhida.
“Nosso artigo de ontem foi confiscado em quinze passagens. Por isso, não nos resta outra alternativa senão declarar que também hoje não temos, por motivos técnicos, grande possibilidade de tratar amplamente dos acontecimentos de Királyhida. O repórter que enviamos ao local verificou que as autoridades demonstram verdadeiro empenho em todo o caso e conduzem a investigação a pleno vapor. Parece-nos apenas estranho que alguns participantes de todo o massacre ainda estejam em liberdade.
“Isso se aplica sobretudo a certo senhor que, segundo se comenta, continua impune no acampamento militar, ainda usa os distintivos de seu papageiregiment e cujo nome também foi publicado anteontem no Pester Lloyd e no Pesti Napló. Trata-se do conhecido chauvinista tcheco Lükáš, a respeito de cujas ações será apresentada uma interpelação por nosso deputado Géza Savanyú, representante do distrito de Királyhida.”
“Com a mesma delicadeza, senhor primeiro-tenente”, disse o coronel Schröder, “escrevem a seu respeito o semanário de Királyhida e, depois, os jornais de Pressburg. Mas isso já não lhe interessará, porque é tudo farinha do mesmo saco. Politicamente, é possível explicar a coisa, porque nós, austríacos, sejamos alemães ou tchecos, diante dos húngaros ainda somos bastante... O senhor me entende, senhor primeiro-tenente. Existe nisso certa tendência. Talvez lhe interesse mais o artigo do Vespertino de Komárom, no qual afirmam que o senhor tentou violentar a senhora Kákonyi diretamente na sala de jantar, durante o almoço e na presença do marido, a quem ameaçou com o sabre e obrigou a tapar com uma toalha a boca da esposa para que ela não gritasse. Essa é a última notícia a seu respeito, senhor primeiro-tenente.”
O coronel sorriu e prosseguiu:
“As autoridades não cumpriram seu dever. A censura preventiva dos jornais daqui também está nas mãos dos húngaros. Eles fazem conosco o que bem entendem. Um oficial nosso não está protegido contra os insultos de um porco de um redator civil húngaro, e somente depois de nossa intervenção enérgica, ou melhor, de um telegrama do tribunal de nossa divisão, foi que a promotoria pública de Pest tomou providências para efetuar algumas prisões em todas as redações mencionadas. Quem mais vai pagar o pato é o redator do Vespertino de Komárom. Esse não vai esquecer o seu vespertino enquanto viver. O tribunal da divisão incumbiu-me, na qualidade de seu superior, de interrogá-lo, e ao mesmo tempo me enviou todos os autos relativos à investigação. Tudo teria acabado bem se não fosse aquele seu desgraçado Švejk. Está com ele um sapador chamado Vodička, em poder de quem, depois da briga, quando os conduziram à hauptvacha, encontraram a carta que o senhor enviou à senhora Kákonyi. Durante o interrogatório, esse seu Švejk afirmou que não era uma carta do senhor, que ele mesmo a havia escrito, e, quando lhe apresentaram o documento e o intimaram, para que ficasse comprovado, a copiá-lo a fim de compararem a caligrafia, ele comeu a carta do senhor. Do escritório do regimento foram então enviados ao tribunal da divisão os relatórios do senhor, para compará-los com a letra de Švejk, e aqui está o resultado.”
O coronel folheou os autos e mostrou ao primeiro-tenente Lukáš a seguinte passagem:
“O acusado Švejk recusou-se a escrever as frases ditadas, acompanhando a recusa da afirmação de que durante a noite havia esquecido como se escrevia.”
“De modo geral, senhor primeiro-tenente, não dou importância alguma ao que esse seu Švejk ou o sapador dizem no tribunal da divisão. Tanto Švejk como o sapador afirmam que tudo não passou de uma pequena brincadeira que foi mal compreendida, que eles próprios foram atacados por civis e que se defenderam para salvar a honra militar. A investigação apurou que esse seu Švejk é mesmo uma bela peça. Por exemplo, quando lhe perguntaram por que não confessava, respondeu, segundo o protocolo: ‘Eu tô exatamente na mesma situação em que se encontrou certa vez, por causa duns quadros da Virgem Maria, o criado do pintor acadêmico Panuška. Ele também, quando se tratava duns quadros que diziam que ele tinha desviado, não conseguiu responder outra coisa senão: Querem que eu vomite sangue?’ Naturalmente, em nome do comando do regimento, tomei as providências para que fosse enviada a todos os jornais, em nome do tribunal da divisão, uma retificação de todos aqueles artigos infames publicados pela imprensa local. Hoje ela será distribuída, e espero ter feito tudo o que estava ao meu alcance para reparar o que aconteceu em consequência do comportamento canalha daqueles monstros civis húngaros do jornalismo.
Acho que redigi muito bem:
Tribunal da Divisão, n.º N, e Comando do Regimento, n.º N,
declaram que o artigo publicado no periódico local
a respeito de supostos tumultos praticados por soldados
do Regimento n.º N não se fundamenta em verdade alguma,
tendo sido inventado da primeira à última linha,
e que a investigação instaurada contra os referidos periódicos
resultará na severa punição dos culpados.
O tribunal da divisão, em seu ofício dirigido ao comando de nosso regimento”, continuou o coronel, “chega à conclusão de que, na realidade, não se trata de outra coisa senão de uma campanha sistemática de incitamento contra as unidades militares que chegam da Cisleitânia à Transleitânia. E compare, além disso, quantos soldados partiram para a frente de nosso lado e quantos do lado deles. Digo-lhe que um soldado tcheco me agrada muito mais do que uma canalha húngara dessas. Quando me lembro de que, diante de Belgrado, os húngaros abriram fogo contra nosso segundo batalhão de marcha, que não sabia que eram húngaros que estavam atirando neles e começou a disparar contra os Deutschmeister no flanco direito, e os Deutschmeister também se confundiram e abriram fogo contra o regimento bósnio que se encontrava ao lado. Aquilo, sim, foi uma situação! Eu estava justamente almoçando no Estado-Maior da brigada. No dia anterior, tínhamos sido obrigados a nos contentar com presunto e sopa de conserva, mas naquele dia tínhamos uma boa canja de galinha, filé com arroz e bolinhos com creme de vinho. Na noite anterior, enforcáramos um taberneiro sérvio numa cidadezinha, e nossos cozinheiros encontraram na adega dele um vinho de trinta anos. Pode imaginar como todos nós aguardávamos ansiosos o almoço. Tomamos a sopa e estávamos começando a comer a galinha quando, de repente, começou uma troca de tiros, depois um tiroteio, e nossa artilharia, que não fazia a menor ideia de que eram nossas próprias unidades atirando umas nas outras, começou a bombardear nossa linha, e uma granada caiu bem ao lado do Estado-Maior da brigada. Os sérvios provavelmente pensaram que tinha estourado uma rebelião entre nós, e então começaram a nos atacar por todos os lados e a atravessar o rio contra nossas posições. Chamaram o general da brigada ao telefone, e o comandante da divisão armou um escândalo, querendo saber que porcaria era aquela no setor da brigada, pois acabara de receber do Estado-Maior do exército a ordem de iniciar um ataque às posições sérvias às duas horas e trinta e cinco minutos da madrugada, no flanco esquerdo. Nós éramos a reserva e o fogo deveria ser interrompido imediatamente. Mas quem, numa situação daquelas, conseguiria ordenar Feuer einstellen? A central telefônica da brigada informou que não conseguia completar ligação alguma, apenas que o Estado-Maior do 75.º Regimento comunicava ter acabado de receber da divisão vizinha a ordem ausharren, que não conseguia entrar em entendimento com nossa divisão, que os sérvios haviam ocupado as cotas 212, 226 e 327, e que solicitava o envio de um batalhão como ligação, bem como comunicação telefônica com nossa divisão. Passamos a linha para a divisão, mas a comunicação já tinha sido interrompida, porque nesse meio-tempo os sérvios haviam chegado à nossa retaguarda pelos dois flancos e cortavam nosso centro, formando um triângulo no qual depois ficou tudo preso: regimentos, artilharia, o trem militar com toda a coluna de automóveis, os depósitos e o hospital de campanha. Fiquei dois dias na sela, e o comandante da divisão foi capturado junto com nosso general de brigada. E tudo isso foi causado pelos húngaros, que atiraram contra nosso segundo batalhão de marcha. Naturalmente, depois jogaram a culpa em nosso regimento.”
O coronel cuspiu no chão:
“O senhor mesmo acaba de comprovar, senhor primeiro-tenente, o excelente proveito que tiraram de sua aventura em Királyhida.”
O primeiro-tenente Lukáš tossiu, constrangido.
“Senhor primeiro-tenente”, disse-lhe confidencialmente o coronel, “mão na consciência. Quantas vezes o senhor dormiu com a senhora Kákonyi?”
O coronel Schröder estava de ótimo humor naquele dia.
“Não diga, senhor primeiro-tenente, que o senhor mal havia começado a se corresponder com ela. Quando eu tinha a sua idade, passei três semanas em Eger, num curso de agrimensura, e o senhor precisava ter visto como, durante aquelas três semanas inteiras, não fiz outra coisa senão dormir com húngaras. Uma diferente a cada dia. Jovens, solteiras, mais velhas, casadas, conforme apareciam. Passei-lhes o ferro de modo tão completo que, quando voltei ao regimento, mal conseguia cruzar as pernas. Quem mais acabou comigo foi a mulher de um advogado. Aquela mostrou do que as húngaras são capazes. Ainda me mordeu no nariz e não me deixou pregar os olhos a noite inteira. ‘Começou a se corresponder...’”, o coronel bateu confidencialmente no ombro do primeiro-tenente. “Conhecemos essa história. Não diga nada. Tenho minha própria opinião a respeito de todo o caso. O senhor se envolveu com ela, o marido descobriu, aquele seu idiota do Švejk... Mas sabe, senhor primeiro-tenente, esse seu Švejk é, afinal, um homem de caráter, depois do que fez com sua carta. É realmente uma pena desperdiçar um homem desses. Eu digo que isso é formação. Gostei muito da atitude daquele sujeito. Decididamente, a investigação deve ser encerrada nesse ponto. O senhor, senhor primeiro-tenente, foi difamado nos jornais. Sua permanência aqui é completamente desnecessária. Dentro de uma semana partirá uma companhia de marcha para a frente russa. O senhor é o oficial mais antigo da 11.ª companhia e seguirá com ela como kompaniekomandant. Já está tudo acertado com a brigada. Diga ao sargento responsável pela contabilidade que lhe encontre outro criado no lugar de Švejk.”
O primeiro-tenente Lukáš olhou agradecido para o coronel, que continuou:
“Designarei Švejk para junto do senhor como kumpanieordonanc.”
O coronel levantou-se e, estendendo a mão ao primeiro-tenente, que empalidecera, disse:
“Assim, está tudo resolvido. Desejo-lhe muita sorte e que se destaque no teatro de operações do leste. E, caso ainda nos vejamos algum dia, venha visitar-nos. Nada de ficar nos evitando, como fazia em České Budějovice...”
Durante todo o caminho de volta para casa, o primeiro-tenente Lukáš repetia para si mesmo:
“Kompaniekomandant, kompanieordonanc.”
E a figura de Švejk surgia diante dele com perfeita nitidez.
Quando o primeiro-tenente Lukáš ordenou ao sargento contador Vaněk que lhe procurasse um novo criado no lugar de Švejk, este disse:
“Eu pensava que o senhor tava satisfeito com o Švejk, senhor obrlajtnant.”
Ao saber que o coronel havia designado Švejk como ordenança da 11.ª companhia, exclamou:
“Que Deus nos ajude.”
No tribunal da divisão, instalado num barracão protegido por grades, todos se levantavam, conforme o regulamento, às sete horas da manhã e arrumavam os catres espalhados pelo chão empoeirado. Não havia pranchas de cela. Numa das divisões do comprido aposento, dobravam regulamentarmente as mantas sobre os colchões de palha, e os que haviam terminado o serviço sentavam-se nos bancos junto à parede e ou catavam piolhos, caso viessem da frente, ou se entretinham contando histórias diversas.
Švejk e o velho sapador Vodička estavam sentados num banco junto à porta, acompanhados de vários soldados de diferentes regimentos e formações.
“Olhem só, rapazes”, disse Vodička, “aquele moleque húngaro ali perto da janela, rezando pra que tudo acabe bem pra ele. Vocês não abririam a fuça dele de uma orelha até a outra?”
“Mas ele é um homem bom”, disse Švejk. “Tá aqui porque não quis se apresentar pro serviço. Ele é contra a guerra, pertence a uma seita qualquer, e tá preso porque não quer matar ninguém. Ele segue os mandamentos de Deus, só que eles ainda vão fazer ele engolir esses mandamentos. Antes da guerra vivia na Morávia um tal senhor Nemrava, e esse nem sequer quis pôr o fuzil no ombro quando foi convocado, dizendo que carregar fuzil era contra os princípios dele. Foi preso até ficar preto e depois conduziram ele de novo pro juramento. E ele disse que não ia jurar, porque era contra os princípios dele, e aguentou firme.”
“Era um homem burro”, disse o velho sapador Vodička. “Podia ter jurado e ao mesmo tempo mandado tudo à merda, inclusive o juramento inteiro.”
“Eu já jurei três vezes”, anunciou um soldado da infantaria, “e já tô aqui pela terceira vez por deserção. E, se eu não tivesse aquele atestado médico dizendo que quinze anos atrás, durante um acesso de loucura, matei minha tia a pancadas, talvez já tivessem me fuzilado pela terceira vez na frente. Mas assim minha falecida tia sempre me tira do aperto, e no fim talvez eu ainda saia dessa guerra inteiro.”
“E por que você matou sua tia a pancadas, camarada?”, perguntou Švejk.
“Pelo mesmo motivo que as pessoas se matam”, respondeu o simpático sujeito. “Qualquer um pode imaginar que foi por causa de dinheiro. A velha tinha cinco cadernetas de poupança e tinham acabado de mandar os juros quando eu fui visitar ela, todo arrebentado e esfarrapado. Além dela, eu não tinha outra alma neste mundo de Deus. Então fui pedir que cuidasse de mim, e a desgraçada mandou eu procurar trabalho, dizendo que eu era um homem tão jovem, forte e saudável. Uma palavra puxou a outra, e eu só dei umas pancadas na cabeça dela com o atiçador, e deixei a cara dela num estado tal que eu já não sabia se era minha tia ou se não era minha tia. Fiquei sentado no chão ao lado dela, repetindo o tempo todo: ‘É minha tia ou não é minha tia?’ Foi assim que os vizinhos me encontraram no dia seguinte. Depois fiquei no hospício de Slupy e, quando antes da guerra nos apresentaram a uma comissão em Bohnice, fui considerado curado e tive de voltar imediatamente ao serviço militar para completar os anos que tinha perdido.”
Passou por eles um soldado magro e comprido, de aparência atormentada, carregando uma vassoura.
“Esse é um professor da nossa última companhia de marcha”, apresentou-o o caçador sentado ao lado de Švejk. “Agora vai varrer o lugar onde dorme. É um sujeito extremamente asseado. Tá aqui por causa de um poeminha que compôs. Venha cá, professor”, gritou para o homem com a vassoura, que se aproximou seriamente do banco. “Conte pra gente a história dos piolhos.”
O soldado com a vassoura pigarreou e começou:
Tudo está empiolhado, a frente inteira se coça,
um grande piolho por nós rasteja.
O senhor general na cama repousa
e a roupa todos os dias despeja.
No exército os piolhos prosperam bastante,
e já se acostumaram à patente;
com a piolha prussiana copula galante
o velho piolhento austríaco indecente.
O atormentado soldado professor sentou-se no banco e suspirou:
“Isso é tudo, e por causa disso já fui interrogado quatro vezes pelo senhor auditor.”
“Realmente, isso nem merece conversa”, disse Švejk sensatamente. “Tudo depende de quem eles vão achar que é esse velho piolhento austríaco. Ainda bem que o senhor colocou ali aquela coisa da cópula. Isso vai confundir eles e deixar todo mundo maluco. É só explicar que piolhento é o macho do piolho e que em cima da fêmea piolha só pode mesmo subir o macho piolhento. De outro jeito, o senhor não sai dessa. O senhor certamente não escreveu isso querendo insultar alguém, isso é evidente. É só dizer pro senhor auditor que escreveu pro seu próprio divertimento e que, assim como o macho da porca se chama cachaço, o macho do piolho se chama em toda parte piolhento.”
O professor suspirou:
“O problema é que o senhor auditor não sabe falar tcheco direito. Já tentei explicar isso a ele de modo parecido, mas ele começou a dizer que o macho da piolha se chama, em tcheco, piolheiro. ‘Nenhum fši-vaco’, disse o senhor auditor, ‘piolheiro. Femininum, Sie gebildeter Kerl, ist ten feš, also masculinum ist ta fešak. Wir kennen unsre Pappenheimer.’”
“Em poucas palavras”, disse Švejk, “a sua situação tá periclitante, mas o senhor não deve perder a esperança, como dizia o Cigano Janeček, em Plzeň, quando em 1879 estavam colocando a corda no pescoço dele por causa de um duplo latrocínio. Ele dizia que aquilo ainda podia mudar pra melhor. E acertou, porque no último instante tiraram ele da forca, já que não podiam enforcar ninguém no aniversário de Sua Majestade o imperador, que caía exatamente no dia em que ele devia ser pendurado. Então só enforcaram o sujeito no dia seguinte, quando o aniversário já tinha passado, e o homem ainda teve uma sorte danada, porque três dias depois recebeu o perdão, e o julgamento dele devia ser reaberto, pois tudo indicava que quem tinha cometido o crime era outro Janeček. Tiveram de desenterrar ele do cemitério dos condenados e reabilitá-lo no cemitério católico de Plzeň, e só depois descobriram que ele era protestante. Aí transferiram ele pro cemitério protestante, e depois...”
“Depois você vai levar um par de bofetadas”, interrompeu o velho sapador Vodička. “Esse sujeito inventa cada coisa. A gente preocupado com o tribunal da divisão, e ele ontem, quando nos levavam pro interrogatório, ficou me explicando o que é uma rosa de Jericó.”
“Mas aquelas não eram palavras minhas. Foi o criado do pintor Panuška, o Matěj, que explicou isso a uma velha quando ela perguntou como era uma rosa de Jericó. Ele disse pra ela: ‘Pegue uma bosta seca de vaca, ponha num prato, jogue água por cima e ela vai ficar verdinha e bonita. Isso é uma rosa de Jericó’”, defendeu-se Švejk. “Eu não inventei essa bobagem, e a gente precisava conversar sobre alguma coisa enquanto caminhava pro interrogatório. Eu só queria te animar, Vodička...”
“Você vai animar alguém”, cuspiu Vodička com desprezo. “A pessoa tá com a cabeça cheia de preocupação, querendo sair dessa enrascada, ir lá fora e acertar as contas com aqueles moleques húngaros, e ele quer animar a pessoa com uma bosta de vaca.
E como é que eu vou dar o troco naqueles moleques húngaros se tô aqui preso e, além de tudo, ainda tenho de fingir e dizer pro auditor que não tenho rancor nenhum contra os húngaros? Isso, meu amigo, é vida de cachorro. Mas, quando eu pegar um desses moleques nas mãos, vou estrangular ele como um cachorrinho. Eu vou mostrar pra eles o Isten áld meg a Magyart. Vou acertar as contas com eles. Ainda vão falar muito de mim.”
“Não devemos nos preocupar com nada”, disse Švejk. “Tudo vai se ajeitar. A principal coisa, num tribunal, é sempre mentir. O sujeito que se deixa enganar e confessa tá sempre perdido. Desse nunca vai sair nada que preste. Quando trabalhei certa vez em Moravská Ostrava, aconteceu um caso assim: um mineiro deu uma surra num engenheiro entre quatro paredes, sem ninguém ver. O advogado que defendia ele dizia o tempo todo pra negar, que nada podia acontecer, mas o presidente do tribunal ficava insistindo que a confissão era circunstância atenuante. Só que o homem continuou firme, dizendo que não podia confessar, e foi absolvido porque provou o álibi. Naquele mesmo dia ele tava em Brno...”
“Jesus Maria!”, irritou-se Vodička. “Eu não aguento mais. Não consigo entender por que ele conta todas essas coisas. Ontem tinha com a gente, no interrogatório, um sujeito exatamente igual. Quando o auditor perguntou qual era a profissão dele na vida civil, respondeu: ‘Eu sopro pro Kříž.’ Levou mais de meia hora pro auditor entender que ele puxava o fole na ferraria do Kříž. E, quando depois perguntaram: ‘Então o senhor é trabalhador auxiliar na vida civil?’, ele respondeu: ‘Que trabalhador noturno nada, esse é o Franta Hybš.’”
No corredor ouviram-se passos e o grito do guarda:
“Zuwachs!”
“Agora vamos ficar mais numerosos”, disse Švejk alegremente. “Talvez tenham guardado algum tabaco.”
A porta se abriu, e empurraram para dentro o voluntário de um ano que estivera preso com Švejk em České Budějovice e fora destinado à cozinha de alguma companhia de marcha.
“Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo”, disse ele ao entrar.
Švejk respondeu em nome de todos:
“Para sempre seja louvado. Amém.”
O voluntário de um ano olhou satisfeito para Švejk, colocou no chão a manta que trouxera consigo e sentou-se no banco junto à colônia tcheca. Desenrolou as polainas e tirou cigarros habilmente escondidos nas dobras, distribuindo-os entre os demais. Depois retirou da bota um pedaço da superfície de atrito de uma caixa de fósforos e vários palitos habilmente cortados ao meio, inclusive a cabeça.
Riscou um deles, acendeu cuidadosamente o cigarro, deu fogo a todos e disse com indiferença:
“Fui acusado de motim.”
“Isso não é nada”, disse Švejk, consolando-o. “Isso é brincadeira.”
“É claro”, respondeu o voluntário de um ano, “se é desse jeito que pretendemos ganhar a guerra, com a ajuda de tribunais de todo tipo. Já que querem a todo custo me levar a julgamento, que me julguem. Em termos gerais, um processo não muda nada na situação inteira.”
“E como foi que você se amotinou?”, perguntou o sapador Vodička, olhando com simpatia para o voluntário de um ano.
“Eu não quis limpar as latrinas da hauptvacha”, respondeu ele. “Então me levaram até o obrst. E aquele é um belo porco. Começou a gritar comigo, dizendo que eu estava preso com base num regimentsraport, que eu era um preso comum e que ele até se admirava de a terra ainda me sustentar e não parar de girar, envergonhada por ter surgido no exército um homem com o privilégio de voluntário de um ano, com direito à patente de oficial, mas que, por seu comportamento, só podia despertar repugnância e desprezo entre seus superiores. Respondi que a rotação do globo terrestre não podia ser interrompida pelo aparecimento sobre ele de um voluntário de um ano como eu, que as leis naturais eram mais fortes do que as divisas dos voluntários de um ano e que eu gostaria de saber quem poderia me obrigar a limpar uma latrina que não fui eu quem cagou, embora eu tivesse todo o direito de ter feito isso depois daquela cozinha porca do regimento, daquele repolho podre e daquela carne de carneiro curtida em urina. Depois ainda disse ao obrst que a opinião dele sobre o motivo de a terra me sustentar também era um pouco estranha, pois não era por minha causa que ia estourar um terremoto. Durante todo o meu discurso, o senhor obrst não fez outra coisa senão bater os dentes como uma égua quando uma beterraba congelada encosta na língua dela. Depois berrou comigo:
‘Então vai limpar a latrina ou não vai?’
‘Respeitosamente informo que não vou limpar latrina nenhuma.’
‘Você vai limpar, Sie Einjähriger.’
‘Respeitosamente informo que não vou.’
‘Krucityrkn, você vai limpar não uma, mas cem latrinas!’
‘Respeitosamente informo que não vou limpar nem cem nem uma latrina!’
E assim continuou:
‘Vai limpar?’
‘Não vou limpar.’
As latrinas voavam de um lado pro outro como se aquilo fosse uma cantiga infantil da Pavla Moudrá. O obrst corria pelo escritório feito um louco. Por fim, sentou-se e disse:
‘Pense bem. Vou entregá-lo ao tribunal da divisão por motim. Não pense que será o primeiro voluntário de um ano a ser fuzilado nesta guerra. Na Sérvia, enforcamos dois voluntários de um ano da 10.ª companhia, e um da 9.ª foi fuzilado como um cordeiro. E por quê? Por teimosia. Os dois que foram enforcados recusaram-se a atravessar com a baioneta a mulher e o filho de um čúžák perto de Šabac, e o voluntário de um ano da 9.ª companhia foi fuzilado porque não quis avançar e alegou estar com os pés inchados e ter pé chato. Então vai limpar a latrina ou não vai?’
‘Respeitosamente informo que não vou.’
O obrst olhou para mim e disse:
‘Escute, por acaso você não é eslavófilo?’
‘Respeitosamente informo que não sou.’
Depois me levaram embora e comunicaram que eu estava sendo acusado de motim.”
“O melhor que você faz”, disse Švejk, “é começar a se passar por imbecil. Quando fiquei preso na guarnição, tava com a gente um sujeito muito inteligente e instruído, professor de escola comercial. Ele desertou do campo de batalha e pretendiam fazer um processo tremendamente solene contra ele, pra condená-lo e enforcá-lo como exemplo pros outros, mas o sujeito escapou da situação de um jeito muito simples. Começou a fingir que sofria de tara hereditária e, quando o médico do Estado-Maior examinou ele, declarou que não tinha desertado, que desde pequeno gostava de viajar e sentia o tempo todo vontade de desaparecer pra algum lugar distante. Disse que certa vez tinha acordado em Hamburgo e, noutra, em Londres, sem saber como chegara lá. Disse que o pai era alcoólatra e tinha se suicidado antes do nascimento dele, que a mãe era prostituta, vivia bêbada e morreu de delirium. A irmã mais nova tinha se afogado, a mais velha tinha se jogado debaixo de um trem, o irmão tinha pulado de uma ponte ferroviária em Vyšehrad, o avô tinha assassinado a própria mulher, despejado querosene em si mesmo e se incendiado. A outra avó tinha vagado com ciganos e se envenenado na prisão com fósforos. Um primo tinha sido julgado várias vezes por incêndio criminoso e cortado as veias do pescoço em Kartouzy com um pedaço de vidro. Uma prima do lado paterno tinha se atirado do sexto andar em Viena. Ele próprio tinha recebido uma educação terrivelmente negligenciada e não soubera falar até os dez anos, porque, quando tinha seis meses, deixaram ele em cima de uma mesa durante a troca de fraldas e saíram correndo pra algum lugar, e um gato puxou ele da mesa, fazendo-o bater a cabeça na queda. Também sofria de fortes dores de cabeça ocasionais e, nesses momentos, não sabia o que fazia. Disse que tinha deixado a frente rumo a Praga exatamente num estado daqueles, e só voltou a si quando a polícia militar prendeu ele no U Fleků. Meu amigo, vocês precisavam ter visto com que satisfação ainda dispensaram ele do exército. E uns cinco sujeitos que estavam presos no mesmo quarto escreveram tudo num papel, por precaução, mais ou menos assim:
Pai alcoólatra. Mãe prostituta.
I. irmã (afogada)
II. irmã (trem)
Irmão (da ponte)
Avô † mulher, querosene, incendiou-se.
II. avó (ciganos, fósforos) † etc.
E um deles, quando começou a recitar a mesma coisa pro médico do Estado-Maior, nem conseguiu chegar até o primo. Como aquele já era o terceiro caso, o médico do Estado-Maior disse:
‘Seu canalha, e sua prima por parte de pai se atirou do sexto andar em Viena, você recebeu uma educação terrivelmente negligenciada, e por isso uma correção vai consertar você.’
Então levaram ele pra correção, amarraram em posição de bode, e a educação terrivelmente negligenciada desapareceu na mesma hora, junto com o pai alcoólatra e a mãe prostituta. Ele preferiu se apresentar voluntariamente pra frente.”
“Hoje em dia”, disse o voluntário de um ano, “ninguém no exército acredita mais em tara hereditária, porque acabaria sendo necessário internar todos os Estados-Maiores num hospício.”
A chave chacoalhou na porta revestida de metal, e o carcereiro militar entrou:
“Infanterist Švejk e sapador Vodička, ao senhor auditor.”
Os dois se levantaram, e Vodička disse a Švejk:
“Tá vendo os canalhas? Todo dia interrogatório e nunca resultado nenhum. Era melhor, himlhergot, que condenassem logo a gente, em vez de ficar nos arrastando de um lado pro outro. Desse jeito passamos o santo dia inteiro largados aqui, enquanto aqueles moleques húngaros ficam andando por aí...”
Prosseguindo a caminho do interrogatório nos escritórios do tribunal divisionário, instalados do outro lado, em outro barracão, o sapador Vodička discutia com Švejk sobre quando, afinal, compareceriam diante de um tribunal de verdade.
“É interrogatório em cima de interrogatório”, irritava-se Vodička, “e ainda se saísse alguma coisa disso. Gastam montanhas de papel e o sujeito nem chega a ver o tribunal. Apodrece atrás das grades. Diga com franqueza: dá para comer aquela sopa? E aquele repolho com batatas congeladas? Porra, nunca comi uma guerra mundial tão ruim. Eu imaginava tudo completamente diferente.”
“Eu, por minha vez, estou bastante satisfeito”, disse Švejk. “Anos atrás, quando eu servia na ativa, o nosso supák Solpera dizia que, no Exército, cada um tem de estar consciente dos próprios deveres, e nisso te metia um tapa tão grande na cara que você nunca mais esquecia. Ou então o falecido primeiro-tenente Kvajser, quando vinha inspecionar os fuzis, sempre nos fazia um discurso dizendo que todo soldado devia demonstrar a maior ousadia de espírito, porque os soldados não passam de gado que o Estado alimenta, dá de comer, café para beber, tabaco para o cachimbo e, em troca, eles têm de puxar feito bois.”
O sapador Vodička ficou pensativo e, passado algum tempo, falou:
“Quando estiver lá diante do auditor, Švejk, não vá se confundir. Repita o que disse antes no interrogatório, para não me meter em alguma enrascada. Sobretudo que você viu aqueles rapazes húngaros me atacarem. Afinal, fizemos tudo por conta conjunta.”
“Não tenha medo, Vodička”, tranquilizou-o Švejk. “Calma, nada de agitação. O que é comparecer diante de um tribunal divisionário desses? Você devia ter visto como, anos atrás, um tribunal militar resolvia as coisas depressa. Servia conosco na ativa um professor chamado Herál, e certa vez ele nos contou no beliche, quando todos no quarto tínhamos recebido detenção no quartel, que existe no museu de Praga um livro de registros de um tribunal militar do tempo de Maria Teresa. Cada regimento tinha seu próprio carrasco, que executava os soldados do regimento, um por um, por um táler teresiano. E, segundo aqueles registros, havia dia em que o carrasco ganhava até cinco táleres. Naturalmente”, acrescentou Švejk, ponderado, “naquele tempo os regimentos eram fortes e viviam completando os efetivos pelas aldeias.”
“Quando eu estive na Sérvia”, disse Vodička, “na nossa brigada enforcavam os čúžáks, e quem se apresentava para o serviço ganhava cigarros. O soldado que enforcasse um homem recebia dez pacotes de Športka; por mulher ou criança, cinco. Depois a intendência começou a economizar e passaram a fuzilar tudo em grupo. Servia comigo um cigano e durante muito tempo nós nem soubemos disso. Só achávamos estranho que todas as noites fossem chamá-lo no escritório. Estávamos então no Drina. Uma noite, enquanto ele estava fora, alguém teve a ideia de fuçar nas coisas dele, e o canalha tinha na mochila três caixas inteiras, com cem Športka em cada uma. Depois voltou de madrugada para o nosso celeiro e nós fizemos um julgamento sumário. Derrubamos o sujeito, e um tal Běloun o estrangulou com uma correia. O canalha tinha uma vida dura que nem gato.”
O velho sapador Vodička cuspiu:
“E não havia jeito de estrangulá-lo. Ele já tinha se cagado, os olhos saltavam para fora e ainda continuava vivo, feito galo mal degolado. Então torcemos o pescoço dele como se faz com um gato. Dois seguraram pela cabeça, dois pelas pernas, e quebraram-lhe o cangote. Depois pusemos nele a mochila, com os cigarros e tudo, e o jogamos bonitinho no Drina. Quem iria fumar cigarros daqueles? Pela manhã começaram a procurá-lo.”
“Vocês deviam ter informado que ele desertou”, observou Švejk, sensatamente, “que já vinha se preparando para isso e dizia todos os dias que ia desaparecer.”
“Mas quem iria pensar nessas coisas?”, respondeu Vodička. “Fizemos a nossa parte e não nos preocupamos com o resto. Lá era tudo muito simples. Todo dia desaparecia alguém, e nem iam mais pescar os corpos no Drina. Lá ia um čúžák inchado, junto de um soldado nosso da defesa territorial todo arrebentado, flutuando bonitinho pelo Drina até o Danúbio. Alguns inexperientes, quando viam aquilo pela primeira vez, pegavam uma febrezinha.”
“Deviam ter dado quinino a eles”, disse Švejk.
Naquele momento entraram no barracão dos escritórios do tribunal divisionário e a patrulha os levou imediatamente ao escritório número 8, onde, atrás de uma mesa comprida coberta por montanhas de processos, estava sentado o auditor Ruller.
Diante dele havia um volume qualquer do código, sobre o qual repousava um copo de chá pela metade. À direita, em cima da mesa, erguia-se um crucifixo de imitação de marfim, com um Cristo empoeirado que olhava desesperadamente para a base da própria cruz, coberta de cinzas e pontas de cigarro.
Para nova aflição do Deus crucificado, o auditor Ruller batia um cigarro novo na base do crucifixo, enquanto, com a outra mão, erguia o copo de chá, que ficara colado ao código.
Depois de libertar o copo do abraço do código, continuou folheando um livro emprestado do cassino dos oficiais. Era uma obra de Fr. S. Krause, com o título promissor de Forschungen zur Entwicklungsgeschichte der geschlechtlichen Moral.
Fitava uma reprodução de desenhos ingênuos dos órgãos sexuais masculino e feminino, acompanhados de versos apropriados, descobertos pelo erudito Fr. S. Krause nos banheiros da Estação Ocidental de Berlim, e por isso não prestou atenção aos que entravam.
Só se arrancou da contemplação das reproduções quando Vodička tossiu.
“Was geht los?”, perguntou, continuando a folhear o livro à procura da continuação dos desenhos, esboços e rascunhos ingênuos.
“Humildemente informo, senhor auditor”, respondeu Švejk, “que meu camarada Vodička pegou um resfriado e agora está tossindo.”
Só então o auditor Ruller olhou para Švejk e Vodička.
Procurou dar ao rosto uma expressão severa.
“Finalmente vocês aparecem, seus homens”, disse, fuçando na pilha de processos sobre a mesa. “Mandei convocá-los para as nove horas e já são quase onze.”
“Como é que você está em pé, seu boi?”, perguntou a Vodička, que se permitira ficar em descansar. “Quando eu disser Ruht!, você poderá fazer com as patas o que bem entender.”
“Humildemente informo, senhor auditor”, interveio Švejk, “que ele sofre de reumatismo.”
“É melhor você calar a boca”, disse o auditor Ruller. “Quando eu lhe perguntar alguma coisa, aí sim você responde. Três vezes esteve comigo em interrogatório e as palavras saíam de você como de cobertor felpudo. Será que vou achar isto ou não? O trabalho que vocês, seus desgraçados, me dão. Mas não valeu a pena incomodarem o tribunal sem necessidade. Vejam só, seus bastardos”, disse, quando retirou da pilha de autos um volumoso processo com a inscrição ‘Schwejk & Woditschka’. “Não pensem que vão continuar deitados no divisionsgericht por causa de uma briguinha idiota e escapar da frente por algum tempo. Por causa de vocês, tive de telefonar até para o gericht do Exército, seus imbecis.”
Suspirou.
“Não faça essa cara séria, Švejk. Na frente você perde essa vontade de sair brigando com honvéds”, continuou. “O processo contra vocês dois está encerrado, e cada qual retorna à sua unidade, onde será punido no relatório do regimento, e depois seguirá com a companhia de marcha para a frente. Caso eu torne a pôr as mãos em vocês, seus patifes, vou tratá-los de um jeito que ficarão de olhos arregalados. Aqui estão as guias de liberação. Comportem-se direito. Levem-nos ao número 2.”
“Humildemente informo, senhor auditor”, disse Švejk, “que nós dois levaremos suas palavras no coração e lhe agradecemos muitíssimo por sua bondade. Se isto fosse na vida civil, eu me permitiria dizer que o senhor é um homem de ouro. E, ao mesmo tempo, nós dois precisamos lhe pedir muitas desculpas por todo o trabalho que o senhor teve de se abgébovat conosco. Realmente não merecemos isso.”
“Agora vão todos para o diabo!”, gritou o auditor para Švejk. “Não fosse o senhor obrst Schröder ter intercedido por vocês dois, não sei como essa história teria terminado.”
Vodička só voltou a sentir-se o velho Vodička no corredor, quando seguiam com a patrulha para o escritório número 2.
O soldado que os conduzia temia chegar atrasado ao almoço e, por isso, declarou:
“Andem um pouco mais depressa, rapazes. Vocês se arrastam feito piolhos.”
Vodička respondeu que ele não abrisse demais a matraca e podia agradecer à sorte por ser tcheco. Se fosse húngaro, ele o rasgaria como arenque.
Como os escriturários militares do escritório tinham ido buscar a ração militar, o soldado que os conduzia viu-se obrigado a levá-los provisoriamente de volta à prisão do tribunal divisionário, o que não se deu sem uma série de maldições de sua parte, dirigidas à odiada raça dos escriturários militares.
“Camaradas, vão tirar de novo toda a gordura da minha sopa”, lamentou tragicamente. “No lugar da carne, vão deixar um nervo. Ontem também escoltei dois sujeitos até o campo, e alguém comeu metade do pão do comissariado que tinham retirado para mim.”
“Vocês aqui no tribunal divisionário só pensam em comida”, disse Vodička, já completamente reanimado.
Quando contaram ao voluntário de um ano o que havia acontecido com eles, ele exclamou:
“Então, companhia de marcha, meus amigos! Como se diz na revista dos turistas tchecos: ‘Bons ventos!’ Os preparativos da viagem já estão concluídos, tudo providenciado e executado pela gloriosa administração militar. Também vocês foram inscritos para participar da excursão à Galícia. Ponham-se a caminho com espírito alegre e coração leve e jubiloso. Cultivem um amor extraordinário por aquelas paisagens onde lhes apresentarão as trincheiras. É um lugar belo e extremamente interessante. Em terras estrangeiras distantes, vocês se sentirão em casa, numa região aparentada, quase em sua querida pátria. Com sentimentos elevados, iniciarão a peregrinação pelas terras sobre as quais já o velho Humboldt declarou: ‘No mundo inteiro, jamais vi nada mais grandioso que essa Galícia imbecil.’ As abundantes e preciosas experiências adquiridas por nosso glorioso Exército durante a retirada da Galícia, na primeira viagem, serão certamente um guia bem-vindo para nossas novas expedições bélicas na elaboração do programa da segunda viagem. É só seguir sempre reto, de nariz apontado para a Rússia, e, de alegria, disparar para o alto todos os cartuchos.”
Antes que Švejk e Vodička partissem, após o almoço, para o escritório, aproximou-se deles o infeliz professor que escrevera o poema sobre os piolhos e disse misteriosamente, conduzindo os dois para um canto:
“Não se esqueçam, quando estiverem do lado russo, de dizer logo aos russos: Zdrávstvujtě, ruskije bratja, my braťja čechi, my nět avstrijci.”
Quando saíam do barracão, Vodička, desejando demonstrar publicamente seu ódio aos húngaros e provar que a prisão não o vencera nem abalara suas convicções, pisou no pé de um húngaro que não queria servir no Exército e berrou:
“Calce as botas, seu espantalho!”
“Ele devia ter me dito alguma coisa”, declarou depois o sapador Vodička a Švejk, descontente. “Devia ter respondido, e então eu teria rasgado aquela cara húngara dele de orelha a orelha. Mas o rapaz, imbecil, fica calado e deixa os outros pisarem nas botas dele. Porra, Švejk, estou tão furioso por não ter sido condenado! Parece até que estão zombando da gente, como se aquilo com os húngaros não merecesse nem ser comentado. E nós lutamos feito leões. Foi você quem estragou tudo, fazendo com que não nos condenassem e nos dessem um atestado como se nem soubéssemos brigar direito. O que eles pensam da gente? Aquilo foi um conflito perfeitamente decente.”
“Meu caro rapaz”, disse Švejk, bondosamente, “não consigo entender como você não fica contente por o divisionsgericht ter reconhecido oficialmente que somos pessoas perfeitamente decentes, contra as quais nada tem a objetar. É verdade que, no interrogatório, eu inventei todo tipo de desculpa. Isso precisa ser feito. Mentir é uma obrigação, como diz o advogado Bass aos clientes dele. Quando o senhor auditor me perguntou por que tínhamos invadido o apartamento do senhor Kákonyi, eu simplesmente respondi: ‘Pensei que a melhor maneira de conhecermos o senhor Kákonyi seria visitando-o.’ Depois disso o senhor auditor não me perguntou mais nada, pois já estava farto. Lembre-se disto”, continuou Švejk em suas reflexões, “ninguém deve confessar nada diante de tribunal militar. Quando estive preso no garnisonsgericht, um soldado do quarto ao lado confessou, e, assim que os outros souberam, deram-lhe uma surra de cobertor e ordenaram que retirasse a confissão.”
“Se eu tivesse feito alguma coisa desonesta, não confessaria”, disse o sapador Vodička. “Mas, quando aquele moleque de auditor me perguntou diretamente: ‘O senhor brigou?’, eu disse: ‘Sim, briguei.’ ‘Espancou alguém?’ ‘Certamente, senhor auditor.’ ‘Feriu alguém durante a briga?’ ‘Naturalmente, senhor auditor.’ Para ele saber com quem estava falando. E é justamente essa a vergonha, terem nos absolvido. É como se ele não quisesse acreditar que quebrei o überšvunk naqueles rapazes húngaros, que os transformei em tiras de massa, galos e hematomas. Você estava lá e viu quando, em certo momento, eu tinha três rapazes húngaros em cima de mim e, pouco depois, todos estavam rolando no chão e eu pisava neles. E, depois de tudo isso, um moleque de auditor, de nariz escorrendo, encerra a investigação contra nós. É como se tivesse me dito: ‘Onde vocês pensam que vão, vocês dois, querendo brigar?’ Quando a guerra terminar e eu voltar à vida civil, hei de encontrar esse sujeito em algum lugar e mostrar a ele se sei ou não sei brigar. Depois venho até Királyhida e faço uma desordem tão grande que o mundo nunca viu igual, e as pessoas vão se esconder nos porões quando souberem que vim visitar os canalhas de Királyhida, aqueles patifes, aqueles desgraçados.”
No escritório, tudo se resolveu muito depressa. Um sargento, ainda com a boca engordurada pelo almoço, entregou os papéis a Švejk e Vodička com uma expressão terrivelmente grave e não perdeu a oportunidade de fazer a ambos um discurso no qual apelava para o espírito militar deles, entremeando-o, por ser um Vasrpolák, com belas expressões de seu dialeto, como “marekvium”, “glupi rolmopsie”, “krajcová sedmina”, “sviňa porýpaná” e “dum vám baně na mjesjnuckovy vaši gzichty”.
Quando Švejk e Vodička se despediram, pois cada um seria conduzido à própria unidade, Švejk disse:
“Quando esta guerra acabar, venha me visitar. Você me encontra todas as noites, a partir das seis, no Cálice, na rua Bojiště.”
“Claro que vou”, respondeu Vodička. “Tem alguma diversão por lá?”
“Todo dia acontece alguma coisa”, prometeu Švejk. “E, caso esteja muito quieto, nós damos um jeito.”
Separaram-se e, quando já estavam a muitos passos de distância um do outro, o velho sapador Vodička gritou para Švejk:
“Mas trate de arranjar alguma diversão quando eu chegar!”
Ao que Švejk gritou de volta:
“Mas venha mesmo, quando esta guerra acabar!”
Depois se afastaram e, ainda por um bom tempo, ouviu-se, vindo da esquina da segunda fileira de barracões, a voz de Vodička:
“Švejk, Švejk, que cerveja servem no Cálice?”
E, como um eco, veio a resposta de Švejk:
“Velkopopovický!”
“Pensei que fosse Smíchov!”, gritou de longe o sapador Vodička.
“Também tem mulheres por lá!”, berrou Švejk.
“Então, depois da guerra, às seis da tarde!”, gritou Vodička lá de baixo.
“É melhor vir às seis e meia, caso eu me atrase em algum lugar!”, respondeu Švejk.
Depois ainda se ouviu, já de muito longe, Vodička:
“Você não pode chegar às seis?”
“Então eu chego às seis!”, ouviu Vodička na resposta do camarada que se afastava.
E assim o bom soldado Švejk se separou do velho sapador Vodička.
“Wenn die Leute auseinander gehen, da sagen sie Auf Wiedersehen.”
Edição integral em português brasileiro de As Aventuras do Bom Soldado Švejk, traduzida diretamente do original tcheco de domínio público, preservando a estrutura dos quatro livros e suas 29 unidades.
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