Universo da obra
Universo da obra
Durante todo o transporte ferroviário do batalhão que haveria de colher a glória da guerra depois de seguir a pé desde o Laborc, através da Galícia Oriental, até a frente, voltaram a ocorrer, no vagão onde estavam o voluntário de um ano e Švejk, conversas estranhas, de conteúdo mais ou menos altamente traiçoeiro. Em escala menor, mas, podemos dizer, de modo geral, o mesmo acontecia nos outros vagões. Até no vagão do Estado-Maior reinava certa insatisfação, pois em Füzesabony chegara do regimento uma ordem do exército reduzindo em um oitavo de litro a porção de vinho dos oficiais. Naturalmente não se esqueceram da tropa, cuja ração de sagu foi reduzida em um decagrama por homem, o que era ainda mais misterioso porque ninguém jamais vira sagu no exército.
Apesar disso, foi preciso comunicar a medida ao sargento-contador Bautanzl, que se sentiu terrivelmente ofendido e roubado e expressou seu sentimento declarando que hoje em dia o sagu era uma coisa rara e que ele conseguiria pelo menos oito coroas por um quilo.
Em Füzesabony também se descobriu que uma companhia havia perdido sua cozinha de campanha, pois finalmente se deveria preparar naquela estação um goulash com batatas, ao qual o general das latrinas dava enorme importância. As investigações revelaram que a infeliz cozinha de campanha nem sequer partira de Bruck e que provavelmente até hoje continua parada em algum lugar atrás do barracão 186, abandonada e fria.
A equipe encarregada daquela cozinha de campanha havia sido presa na hauptvacha, na véspera da partida, por comportamento turbulento na cidade, e conseguira organizar as coisas de modo que ainda continuava presa quando a sua companhia de marcha já atravessava a Hungria.
A companhia sem cozinha foi, portanto, designada para a segunda cozinha de campanha, o que naturalmente não ocorreu sem discussões, pois entre os homens das duas companhias escalados para descascar batatas surgiram controvérsias de tal ordem que uns afirmavam aos outros que não eram tão idiotas a ponto de se matarem de trabalhar para os demais. No fim, acabou-se descobrindo que o goulash com batatas era, na verdade, uma manobra para acostumar os soldados ao que aconteceria quando, em campanha, diante do inimigo, estivessem preparando goulash e de repente chegasse a ordem “Alles zurück!”, o goulash fosse despejado dos caldeirões e ninguém conseguisse nem sequer dar uma lambida.
Aquilo era, portanto, uma espécie de treinamento, não tão trágico até as últimas consequências, mas ainda assim instrutivo. Pois, quando o goulash já devia ser distribuído, chegou a ordem “Para os vagões!”, e lá foram eles para Miskolc. Nem ali o goulash foi distribuído, pois na linha havia um trem com vagões russos, razão pela qual a tropa não pôde sair dos vagões, deixando-se aos homens campo livre para imaginarem que o goulash só seria distribuído quando descessem do trem já na Galícia, ocasião em que seria declarado azedo, impróprio para consumo e então despejado fora.
Depois transportaram o goulash adiante, até Tiszaltik e Zombor, e quando ninguém mais esperava que fosse distribuído, o trem parou em Cidade Nova sob Šiator, onde tornaram a acender o fogo sob os caldeirões, aqueceram o goulash e finalmente o distribuíram.
A estação estava superlotada. Primeiro deveriam partir dois trens de munição, depois dois trens militares de transporte de artilharia e um trem com destacamentos de pontoneiros. De modo geral, podia-se dizer que ali se haviam reunido trens com tropas de todas as unidades possíveis do exército.
Atrás da estação, hussardos honvéd mantinham em formação dois judeus poloneses, de quem haviam saqueado um cesto de costas cheio de aguardente. Agora, em vez de pagá-los, batiam-lhes na cara, muito bem-humorados, coisa que aparentemente tinham permissão para fazer, pois bem perto dali estava o seu capitão, sorrindo agradavelmente diante de toda a cena, enquanto atrás do depósito alguns outros hussardos honvéd enfiavam as mãos sob as saias das filhinhas de olhos negros dos judeus espancados.
Havia ali também um trem com um destacamento de aeroplanos. Nos outros trilhos estavam sobre os vagões os mesmos objetos, como aeroplanos e canhões, só que em estado destroçado. Eram aparelhos voadores abatidos, canos de obuses partidos. Enquanto tudo o que era novo e intacto seguia lá para cima, aqueles restos da glória seguiam para o interior, para consertos e reconstruções.
O tenente Dub, naturalmente, explicava aos soldados reunidos ao redor dos canhões e aeroplanos destroçados que aquilo era espólio de guerra. Também percebeu que, um pouco mais adiante, Švejk estava novamente em meio a um grupo, explicando alguma coisa. Aproximou-se do lugar e ouviu a voz ponderada de Švejk:
“Pode-se encarar a coisa como quiser, mas não deixa de ser espólio de guerra. É verdade que, à primeira vista, fica meio suspeito quando alguém lê no reparo do canhão K. u k. Artilleriedivision. Mas provavelmente o que aconteceu foi que o canhão caiu nas mãos dos russos, e nós tivemos de conquistá-lo de volta, e um espólio desses é muito mais valioso, porque... Porque”, disse solenemente, ao notar o tenente Dub, “não se deve deixar nada nas mãos do inimigo. É como aconteceu com Przemyśl, ou com aquele soldado de quem o inimigo arrancou o cantil durante um combate. Isso ainda foi nas guerras napoleônicas, e de noite o soldado foi até o acampamento inimigo, trouxe o cantil de volta e ainda saiu ganhando, pois o inimigo havia recebido aguardente para passar a noite.”
O tenente Dub disse apenas:
“Veja se desaparece daqui, Švejk, e que eu não o veja aqui pela segunda vez!”
“Às ordens, senhor tenente.”
E Švejk seguiu na direção do outro grupo de vagões. Caso o tenente Dub tivesse ouvido o que ele ainda acrescentou, certamente teria saltado para fora do uniforme, embora fosse uma frase bíblica perfeitamente inocente:
“Um pouco, e me vereis; e outra vez um pouco, e não me vereis.”
Depois da partida de Švejk, o tenente Dub ainda foi idiota o bastante para chamar a atenção dos soldados para um aeroplano austríaco abatido, em cuja armação metálica estava claramente marcado Wiener Neustadt.
“Nós abatemos esse dos russos perto de Lviv”, disse o tenente Dub.
Essas palavras foram ouvidas pelo primeiro-tenente Lukáš, que se aproximava e acrescentou em voz alta:
“E os dois aviadores russos morreram queimados.”
Depois seguiu adiante sem dizer mais nada, pensando que o tenente Dub era um animal.
Atrás dos outros vagões, encontrou Švejk e tentou evitá-lo, pois, pelo rosto de Švejk ao avistar o primeiro-tenente Lukáš, via-se que aquele homem tinha muita coisa guardada que queria lhe dizer.
Švejk foi direto até ele:
“Ich melde gehorsam, kompanieordonanc Švejk pede novas ordens. Respeitosamente informo, senhor primeiro-tenente, que já estive procurando o senhor no vagão do Estado-Maior.”
“Escute, Švejk”, disse o primeiro-tenente Lukáš num tom absolutamente repulsivo e hostil. “O senhor sabe como se chama? Já esqueceu como eu o chamei?”
“Respeitosamente informo, senhor primeiro-tenente, que não esqueci uma coisa dessas, porque eu não sou nenhum voluntário de um ano Železný. Isso aconteceu quando ainda estávamos, muito antes da guerra, no quartel de Karlín, e lá havia um tal obrst Fliedler von Bumerang, ou qualquer coisa parecida.”
O primeiro-tenente Lukáš sorriu involuntariamente diante daquele “qualquer coisa parecida”, e Švejk continuou:
“Respeitosamente informo, senhor primeiro-tenente, que aquele nosso obrst tinha metade da sua altura, usava uma barba cheia como a do príncipe Lobkovic, de modo que parecia um macaco, e quando se irritava pulava duas vezes mais alto do que a própria altura, por isso nós o chamávamos de velho de borracha. Naquela época era Primeiro de Maio, e nós estávamos de berajčaft. Na noite anterior, ele fez para nós um grande discurso no pátio, dizendo que no dia seguinte todos teríamos de ficar no quartel, sem pôr o nariz para fora, para que, por ordem suprema e caso fosse necessário, pudéssemos fuzilar toda aquela corja socialista. Por isso, todo soldado que tivesse licença naquela noite e não voltasse ao quartel, esticando a farra até o dia seguinte, estaria cometendo alta traição, porque um sujeito bêbado desses não acertaria ninguém durante as salvas e ainda atiraria para o alto. Então o voluntário de um ano Železný voltou para o quarto e disse que, pensando bem, o velho de borracha tinha tido uma boa ideia. Afinal, no dia seguinte ninguém seria admitido no quartel, portanto o melhor era não voltar de jeito nenhum, e ele, respeitosamente informo, senhor primeiro-tenente, executou isso que foi uma beleza. Mas aquele obrst Fliedler era uma desgraça de criatura, que Deus lhe dê o céu, e no dia seguinte saiu andando por Praga à procura de alguém do nosso regimento que tivesse ousado sair do quartel. Lá perto da Torre da Pólvora teve a felicidade de encontrar Železný e imediatamente desandou a gritar com ele: ‘Eu ti dar, eu ti insinar, eu ti duas veses adoçar!’ Disse ainda muitas outras coisas, agarrou-o e o levou consigo de volta ao quartel. Durante todo o caminho foi lhe dizendo coisas feias e ameaçadoras e perguntando sem parar como ele se chamava. ‘Šélesnej, Šelesny, você pagar, eu contente pegar, eu ti mostrar den ersten Mai. Šélesny, Šélesny, você ser meu, prender, bonito prender!’ Železný já não se importava com mais nada. Quando estavam atravessando Poříč, perto da casa dos Rozvařil, Železný pulou para dentro de uma passagem e escapou pelo outro lado, estragando a grande alegria do velho de borracha, que já se imaginava enfiando-o na prisão. O obrst ficou tão furioso por ele ter fugido que, de raiva, esqueceu o nome do delinquente, confundiu tudo e, quando chegou ao quartel, começou a pular até o teto. O teto era baixo, e o oficial de dia no batalhão ficou admirado por o velho de repente falar tcheco quebrado e gritar: ‘Cobre prender, Cobre não prender, Chumbo prender, Estanho prender!’ E assim o velho se atormentava dia após dia, perguntando sem parar se já tinham apanhado o Cobre, o Chumbo e o Estanho. Chegou até a mandar formar o regimento inteiro, mas Železný, sobre quem todo mundo sabia o que tinha acontecido, já fora colocado na enfermaria, pois era técnico dentário. Até que um dia um homem do nosso regimento conseguiu atravessar com a baioneta um dragão numa taberna na casa dos Buck, porque ele andava atrás da sua namorada, e então nos colocaram em quadrado. Todos tiveram de sair, até os da enfermaria. Quem estava muito doente era sustentado por dois homens. Assim não adiantou nada, Železný teve de aparecer no pátio, e lá leram para nós uma ordem do regimento dizendo mais ou menos que os dragões também eram soldados e que era proibido atravessá-los com baionetas, porque eram nossos kriegskamaraden. Um voluntário de um ano traduzia, e o nosso obrst olhava feito um tigre. Primeiro passou diante da formação, depois foi para trás, deu a volta no quadrado e de repente descobriu Železný, que era do tamanho de uma montanha. Por isso, senhor primeiro-tenente, foi terrivelmente cômico quando ele puxou Železný para o meio do quadrado. O voluntário parou de traduzir, e o nosso obrst começou a saltar diante de Železný como um cachorro atacando uma égua, enquanto berrava: ‘Então você não fugir mim, você não ir nenhum lugar escapar, agora de novo dizer ser Šélesný, e eu sempre dizer Cobre, Estanho, Chumbo, ele ser Šélesný, e ele ser aquele canalha Šélesný, eu ti ensinar Chumbo, Estanho, Cobre, du Mistvieh, du Schwein, du Šélesný!’ Depois lhe aplicou um mês por aquilo, mas umas duas semanas mais tarde os dentes dele começaram a doer, e ele se lembrou de que Železný era técnico dentário. Mandou trazê-lo da prisão para a enfermaria e quis que ele arrancasse o dente. Železný ficou puxando o dente por cerca de meia hora, de modo que tiveram de reanimar o velho umas três vezes, mas ele acabou amansando e perdoou Železný pelas outras duas semanas. É assim, senhor primeiro-tenente, quando um superior esquece o nome do subordinado, mas o subordinado nunca pode esquecer o nome do superior, como aquele senhor obrst mesmo nos dizia, que nem depois de muitos anos esqueceríamos que um dia tivemos o obrst Fliedler. Não foi comprido demais, senhor primeiro-tenente?”
“Sabe, Švejk”, respondeu o primeiro-tenente Lukáš, “quanto mais o escuto, mais chego à conclusão de que o senhor não tem o menor respeito pelos superiores. Um soldado, mesmo depois de muitos anos, deve falar apenas bem de seus antigos superiores.”
Era evidente que o primeiro-tenente Lukáš começava a se divertir.
“Respeitosamente informo, senhor primeiro-tenente”, interrompeu Švejk, em tom de desculpa, “que o senhor obrst Fliedler já morreu faz muito tempo, mas, já que o senhor deseja, senhor primeiro-tenente, passarei a falar dele só em termos elogiosos. Ele era, senhor primeiro-tenente, um verdadeiro anjo com os soldados. Era bondoso como são Martinho, que distribuía gansos de são Martinho aos pobres e famintos. Dividia o próprio almoço da messe dos oficiais com o primeiro soldado que encontrasse no pátio e, quando todos nós já estávamos fartos de bolinhos de massa, mandava preparar para a nossa ração grenadýrmarš com carne de porco. E nas manobras, aí é que ele se destacava pela bondade. Quando chegamos a Dolní Královice, deu ordem para que bebêssemos toda a cervejaria da cidade às custas dele, e quando era o dia onomástico ou aniversário dele, mandava preparar para o regimento inteiro lebre ao creme com bolinhos de pão. Era tão bondoso com a tropa que certa vez, senhor primeiro-tenente...”
O primeiro-tenente Lukáš deu um leve tapa na orelha de Švejk e disse em tom amistoso:
“Agora vá embora, seu patife, e deixe o homem em paz.”
“Zum Befehl, Herr Oberleutnant!”
Švejk seguiu para seu vagão, enquanto diante do trem militar de transporte do batalhão, junto ao vagão onde estavam guardados os aparelhos telefônicos e os fios, desenrolava-se a seguinte cena: havia ali uma sentinela, pois, por ordem do capitão Ságner, tudo precisava estar feldmäßig. As sentinelas foram, portanto, distribuídas junto aos objetos de valor do trem, de ambos os lados, e receberam da secretaria do batalhão a feldruf e a losung.
Naquele dia, a feldruf era “Kappe” e a losung, “Hatvan”. A sentinela que deveria memorizar aquilo junto aos aparelhos telefônicos era um polonês de Kolomyja que, por algum estranho acaso, fora parar no 91º regimento.
Não fazia a menor ideia do que significava Kappe, mas, como possuía algum germe de mnemotécnica, conseguiu lembrar que começava com k e respondeu orgulhosamente ao tenente Dub, que estava de oficial de dia no batalhão e se aproximava perguntando-lhe a senha do dia:
“Kafe.”
Era perfeitamente natural, pois o polonês de Kolomyja ainda se lembrava do café da manhã e da noite no campo de Bruck.
E quando gritou mais uma vez “Kafe”, enquanto o tenente Dub continuava se aproximando, ele, lembrando-se do juramento e de que estava de sentinela, exclamou ameaçadoramente:
“Halt!”
Quando o tenente Dub deu mais dois passos na direção dele e continuou exigindo a feldruf, o polonês apontou-lhe o fuzil e, não dominando perfeitamente a língua alemã, empregou uma estranha mistura de polonês e alemão, gritando:
“Benže šajsn, benže šajsn.”
O tenente Dub entendeu e começou a recuar, gritando:
“Wachkommandant, Wachkommandant!”
Apareceu o sargento Jelínek, que havia conduzido o polonês ao posto de guarda, e ele mesmo lhe perguntou a senha. Depois perguntou o tenente Dub. A todas essas perguntas o desesperado polonês de Kolomyja respondeu com um grito que ressoou por toda a estação:
“Kafe, kafe.”
Dos diversos trens militares de transporte que estavam ali, os soldados começaram a saltar para fora com seus cantis de campanha, e houve um pânico terrível, que terminou quando o honesto soldado, já desarmado, foi conduzido ao vagão dos presos.
Mas o tenente Dub alimentava certas suspeitas contra Švejk, que fora o primeiro a sair do vagão com o cantil, e teria apostado o pescoço que o ouvira gritar:
“Todo mundo para fora com os cantis, todo mundo para fora com os cantis!”
Depois da meia-noite, o trem seguiu para Ladovce e Trebišov, onde pela manhã foi recebido na estação por uma associação de veteranos, pois haviam confundido aquele batalhão de marcha com o batalhão de marcha do 14º honvéd, um regimento húngaro que atravessara a estação ainda durante a noite. O certo é que os veteranos estavam bêbados e, com seus berros de “Isten áld meg a királyt”, despertaram o trem militar de transporte inteiro. Alguns soldados mais conscientes se inclinaram para fora dos vagões e responderam:
“Beijem o nosso cu. Éljen!”
Ao que os veteranos berraram, fazendo tremer as janelas do edifício da estação:
“Éljen! Éljen a tizennegyedik regiment! (Viva o décimo quarto regimento!)”
Cinco minutos depois, o trem seguiu para Humenné. Ali já se viam clara e distintamente os vestígios dos combates de quando os russos avançaram para o vale do Tisza. Pelas encostas estendiam-se trincheiras primitivas. Aqui e ali via-se uma propriedade incendiada, junto à qual uma cabana construída às pressas indicava que os donos haviam regressado.
Depois, perto do meio-dia, chegaram à estação de Humenné, cujo edifício também exibia vestígios dos combates. Foram feitos os preparativos para o almoço, e os homens do trem militar de transporte puderam, enquanto isso, contemplar o segredo público de como as autoridades tratavam, após a retirada dos russos, a população local, aparentada às tropas russas pela língua e pela religião.
Na plataforma, cercado por gendarmes húngaros, estava um grupo de rutenos húngaros detidos. Havia ali alguns popes, professores e camponeses de toda a vasta região. Todos estavam com as mãos amarradas às costas por cordas e presos uns aos outros, aos pares. A maioria estava com o nariz quebrado e galos na cabeça, consequência da surra que os gendarmes lhes haviam dado logo depois da prisão.
Um pouco mais adiante, um gendarme húngaro se divertia com um pope. Amarrara uma corda na perna esquerda dele e segurava a outra ponta na mão. Com a coronha, obrigava o pope a dançar uma csárdás, enquanto puxava a corda, fazendo-o cair de nariz. Como estava com as mãos amarradas às costas, o pope não conseguia se levantar e fazia tentativas desesperadas de virar-se de costas, para talvez assim conseguir erguer-se do chão. O gendarme ria daquilo com tanta sinceridade que as lágrimas lhe corriam dos olhos, e quando o pope começava a se levantar, puxava a corda, e lá estava o pope novamente de nariz no chão.
Finalmente, um oficial da gendarmaria pôs fim àquilo, ordenando que, até a chegada do trem, os presos fossem levados para um galpão vazio atrás da estação e ali espancados e surrados, para que ninguém visse.
No vagão do Estado-Maior, começaram a conversar sobre esse episódio e, de modo geral, pode-se dizer que a maioria o condenou.
O alferes Kraus era de opinião que, já que havia traidores da pátria, deviam ser enforcados ali mesmo, sem qualquer tortura; o tenente Dub, por sua vez, concordou plenamente com toda a cena e imediatamente a relacionou ao atentado de Sarajevo, explicando que aqueles gendarmes húngaros na estação de Humenné estavam vingando a morte do arquiduque Francisco Ferdinando e de sua esposa. Para dar mais força às palavras, disse que assinava uma revista, o Čtyřlístek de Šimáček, e que, ainda antes da guerra, no número de julho, estava escrito sobre o atentado que o crime sem precedentes de Sarajevo deixava nos corações humanos uma ferida que por muito tempo não cicatrizaria, tanto mais dolorosa porque o crime não apenas extinguira a vida do representante do poder executivo do Estado, mas também a vida de sua fiel e amada companheira, e porque a destruição daquelas duas vidas desmantelara uma vida familiar feliz e exemplar e deixara órfãs crianças amadas por todos.
O primeiro-tenente Lukáš apenas resmungou consigo mesmo que provavelmente os gendarmes de Humenné também assinavam o Čtyřlístek de Šimáček, com aquele artigo comovente. De repente, tudo começou a lhe causar repugnância, e ele sentiu apenas a necessidade de se embriagar para que o abandonasse a dor do mundo. Saiu, portanto, do vagão e foi procurar Švejk.
“Escute, Švejk”, disse-lhe, “não sabe onde arranjar uma garrafa de conhaque? Não estou me sentindo muito bem.”
“Isso tudo é, com a devida vênia, senhor primeiro-tenente, por causa da mudança do tempo. Pode ser que, quando chegarmos ao campo de batalha, o senhor se sinta ainda pior. Quanto mais o homem se afasta da sua base militar de origem, mais vai ficando fraco. Um jardineiro de Strašnice, um tal Josef Kalenda, também uma vez se afastou de casa, foi de Strašnice até Vinohrady, parou na hospedaria Zastávka, mas ali ainda não sentiu nada; só que, assim que chegou à avenida Korunní, perto do reservatório de água, foi entrando numa hospedaria atrás da outra pela avenida Korunní até depois da igreja de Santa Ludmila e já começou a sentir fraqueza. Mas não se deixou intimidar, porque naquela mesma noite tinha apostado, em Strašnice, na hospedaria U remízy, com um condutor de bonde elétrico, que daria a volta ao mundo a pé em três semanas. Foi então se afastando cada vez mais de casa, até desembocar na cervejaria Černý pivovar, na praça Karlovo, e dali seguiu para Malá Strana, para a cervejaria de São Tomás, depois passou pelo restaurante U Montágů e subiu ainda mais, pela hospedaria U krále brabantského, depois foi ao Krásná vyhlídka e, de lá, à cervejaria do mosteiro de Strahov. Só que então a mudança de clima já começou a fazer mal a ele. Chegou até a praça Loretánské e ali sentiu de repente tanta saudade de casa que se atirou no chão, começou a rolar pela calçada e a gritar: ‘Minha gente, eu não vou mais adiante. Eu, com licença, senhor primeiro-tenente, estou cagando para essa volta ao mundo.’ Mas, caso seja do seu agrado, senhor primeiro-tenente, eu arranjo algum conhaque, só estou com medo de que o senhor parta antes de eu voltar.”
O primeiro-tenente Lukáš garantiu-lhe que só sairiam dali dentro de duas horas e que vendiam conhaque clandestinamente em garrafas logo atrás da estação; o capitão Ságner já havia mandado Matušič até lá, e ele lhe trouxera por quinze coroas uma garrafa de conhaque bastante razoável. Ali estavam quinze coroas, que fosse logo e não dissesse a ninguém que era para o primeiro-tenente Lukáš ou que ele o havia mandado, porque aquilo, na verdade, era proibido.
“Pode ficar descansado, senhor primeiro-tenente”, disse Švejk, “que tudo vai correr direito, porque eu gosto muito de coisas proibidas, já que sempre acabei metido em alguma coisa proibida sem nem sequer saber. Uma vez, no quartel de Karlín, proibiram a gente de...”
“Kehrt euch, marschieren marsch!”, interrompeu-o o primeiro-tenente Lukáš.
Švejk foi, portanto, para trás da estação, repetindo pelo caminho todos os elementos da missão: o conhaque precisava ser bom, por isso teria de prová-lo primeiro; era proibido, portanto precisava ter cuidado.
Quando acabava de dobrar atrás da plataforma, esbarrou novamente no tenente Dub.
“O que está fazendo aqui, vagabundeando?”, perguntou ele a Švejk. “Sabe quem eu sou?”
“Com a devida vênia”, respondeu Švejk, prestando continência, “não desejo conhecê-lo pelo seu lado ruim.”
O tenente Dub ficou petrificado de susto, mas Švejk permaneceu tranquilo, ainda com a mão na pala do quepe, e continuou:
“Com a devida vênia, senhor tenente, só quero conhecê-lo pelo lado bom, para que o senhor não me obrigue a chorar, como me disse da última vez.”
A cabeça do tenente Dub girou diante de tamanha insolência, e ele só conseguiu soltar um grito indignado:
“Some daqui, miserável! Nós dois ainda vamos conversar!”
Švejk se afastou para trás da plataforma, e o tenente Dub, depois de se recompor, foi atrás dele. Atrás da estação, bem junto à estrada, havia uma fileira de cestos de carga virados de boca para baixo, sobre os quais estavam colocadas cestinhas, e sobre elas várias guloseimas de aparência perfeitamente inocente, como se todas aquelas delícias fossem destinadas a escolares em alguma excursão. Havia pedaços de bala esticada, canudinhos de wafer, um monte de roscas azedas e, aqui e ali, em algumas cestinhas, fatias de pão preto com um pedaço de salame, com toda a certeza de origem equina. Por dentro, porém, os cestos continham toda espécie de álcool, garrafas de conhaque, rum, licor de sorva e outros licores e aguardentes.
Logo depois da vala da estrada havia um barracão, e era ali que todos aqueles negócios com bebidas proibidas realmente se realizavam.
Os soldados primeiro acertavam o negócio junto aos cestos, e um judeu de peiot tirava debaixo de um deles uma garrafa de aparência muito inocente e a levava sob o cafetã até o barracão de madeira, onde o soldado a escondia discretamente em algum lugar das calças ou sob a blusa. Foi para lá, portanto, que Švejk se dirigiu, enquanto o tenente Dub, da estação, o observava com seu talento de detetive.
Švejk foi direto ao primeiro cesto. Primeiro escolheu algumas balas, pagou por elas e as enfiou no bolso, enquanto o senhor de peiot lhe sussurrava:
“Schnaps hab’ ich auch, gnädiger Herr Soldat.”
A negociação terminou rapidamente. Švejk foi ao barracão e não entregou o dinheiro enquanto o senhor de peiot não abriu a garrafa e Švejk não provou. Ficou satisfeito com o conhaque e voltou para a estação, metendo a garrafa sob a blusa.
“Onde você esteve, miserável?”, perguntou o tenente Dub, barrando-lhe o caminho para a plataforma.
“Com a devida vênia, senhor tenente, fui comprar balas.”
Švejk meteu a mão no bolso e tirou um punhado de balas sujas e empoeiradas:
“Caso o senhor tenente não tenha nojo... Eu já provei, não são ruins. Têm um gosto agradável, especial, parecido com geleia de ameixa, senhor tenente.”
Sob a blusa, desenhavam-se os contornos arredondados da garrafa. O tenente Dub deu umas palmadas na blusa de Švejk:
“O que está levando aí, seu miserável? Tire isso para fora!”
Švejk tirou uma garrafa de conteúdo amarelado, com uma etiqueta Cognac perfeitamente clara e legível.
“Com a devida vênia, senhor tenente”, respondeu Švejk sem se intimidar, “fui encher uma garrafa vazia de conhaque com um pouco de água para beber. Ainda estou com uma sede terrível por causa daquele goulash que comemos ontem. Só que a água daquela bomba, como o senhor está vendo, senhor tenente, é meio amarela. Deve ser uma água ferruginosa. Essas águas são muito saudáveis e benéficas.”
“Já que está com tanta sede, Švejk”, disse o tenente Dub, sorrindo diabolicamente e querendo prolongar o máximo possível a cena em que Švejk perderia de uma vez por todas, “então beba, mas beba direito. Beba tudo de uma vez!”
O tenente Dub já havia calculado de antemão como Švejk daria alguns goles e depois não conseguiria continuar, e como ele, o tenente Dub, triunfaria gloriosamente sobre ele e diria:
“Passe-me também a garrafa, para eu beber um pouco, porque também estou com sede.”
Como aquele canalha do Švejk faria cara feia naquele momento terrível para ele e, depois, viriam o relatório e tudo o mais.
Švejk tirou a rolha da garrafa, levou-a à boca e, gole após gole, o líquido desapareceu em sua garganta. O tenente Dub virou pedra. Diante de seus olhos, Švejk bebeu a garrafa inteira sem mover uma sobrancelha, jogou a garrafa vazia por cima da estrada, dentro do lago, cuspiu e disse, como se tivesse bebido um copo de água mineral:
“Com a devida vênia, senhor tenente, aquela água tinha mesmo um gosto ferruginoso. Em Kamýk nad Vltavou, um hospedeiro fabricava água ferruginosa para os hóspedes de verão jogando ferraduras velhas dentro do poço.”
“Eu vou lhe dar ferraduras velhas! Venha me mostrar o poço de onde tirou essa água!”
“É aqui pertinho, senhor tenente, logo atrás daquele barracão de madeira.”
“Vá na frente, seu miserável, para eu ver como mantém o passo!”
“Isso é realmente estranho”, pensou o tenente Dub. “Não se nota absolutamente nada naquele desgraçado.”
Švejk foi na frente, entregue à vontade de Deus, mas alguma coisa continuava lhe dizendo que tinha de haver um poço ali, e também não ficou nem um pouco surpreso ao encontrá-lo. Havia até uma bomba e, quando chegaram, Švejk começou a bombear. Saiu dela uma água amarelada, de modo que ele pôde declarar solenemente:
“Aqui está a água ferruginosa, senhor tenente.”
O homem de peiot aproximou-se apavorado, e Švejk lhe disse em alemão que trouxesse um copo, porque o senhor tenente queria beber.
O tenente Dub ficou tão completamente atordoado com aquilo que bebeu um copo inteiro da água, após o qual lhe revolveu na boca um gosto de urina de cavalo e chorume. Inteiramente embrutecido pelo que acabara de viver, deu ao judeu de peiot cinco coroas pelo copo de água e, voltando-se para Švejk, disse-lhe:
“O que está olhando aqui? Vá para casa.”
Cinco minutos depois, Švejk apareceu no vagão do Estado-Maior junto do primeiro-tenente Lukáš e, com um gesto misterioso, atraiu-o para fora do vagão, onde lhe comunicou:
“Com a devida vênia, senhor primeiro-tenente, dentro de cinco, no máximo dez minutos, vou estar completamente bêbado, mas vou ficar deitado no meu vagão, e queria pedir ao senhor que não me chamasse, senhor primeiro-tenente, por pelo menos umas três horas, nem me desse ordem nenhuma até eu dormir e isso passar. Está tudo em ordem, mas o senhor tenente Dub me pegou. Eu disse a ele que era água, então tive de beber na frente dele a garrafa inteira de conhaque, para provar que era água. Está tudo em ordem, não contei nada, como o senhor queria, e também fui cuidadoso, mas agora, com a devida vênia, senhor primeiro-tenente, já estou sentindo. Minhas pernas estão começando a formigar. É claro, com a devida vênia, senhor primeiro-tenente, que estou acostumado a beber, porque com o senhor capelão militar Katz...”
“Vá embora, besta!”, gritou o primeiro-tenente Lukáš, mas sem qualquer raiva. Em compensação, o tenente Dub tornou-se para ele cinquenta por cento mais antipático do que antes.
Švejk entrou cuidadosamente em seu vagão e, acomodando-se sobre o capote e a mochila, disse ao sargento-contador e aos demais:
“Uma vez um sujeito ficou bêbado e pediu que não o acordassem...”
Depois dessas palavras, virou-se de lado e começou a roncar.
Os gases que expelia ao arrotar logo encheram todo o recinto, de modo que o cozinheiro ocultista Jurajda, aspirando a atmosfera pelas narinas, declarou:
“Porra, está cheirando a conhaque aqui.”
Junto à mesa dobrável estava sentado o voluntário de um ano Marek, que finalmente, depois de todos aqueles sofrimentos, conseguira chegar ao cargo de batalionsgeschichtsschreiber.
Agora preparava antecipadamente os feitos heroicos do batalhão, e dava para ver que aquilo lhe proporcionava enorme prazer, aquela visão do futuro.
O sargento-contador Vaněk acompanhava com interesse o voluntário de um ano escrevendo diligentemente e rindo às gargalhadas ao mesmo tempo. Por isso se levantou e se inclinou sobre ele, que começou a lhe explicar:
“É uma diversão dos diabos escrever antecipadamente a história do batalhão. O principal é proceder sistematicamente. Em tudo deve haver um sistema.”
“Um sistema sistemático”, observou o sargento-contador Vaněk com um sorriso mais ou menos desdenhoso.
“Sim”, disse despreocupadamente o voluntário de um ano, “um sistema sistematizado e sistemático na redação da história do batalhão. Para começar, não podemos sair logo de cara com uma grande vitória. Tudo precisa avançar devagar, segundo um plano definido. Nosso batalhão não pode vencer esta guerra mundial de uma vez. Nihil nisi bene. A principal coisa para um historiador minucioso da história, como eu, é estabelecer primeiro um plano das nossas vitórias. Por exemplo, aqui estou descrevendo como o nosso batalhão, talvez daqui a uns dois meses, quase atravessa a fronteira russa, fortemente ocupada, digamos, por regimentos do Don do inimigo, enquanto várias divisões inimigas contornam nossas posições. À primeira vista parece que o nosso batalhão está perdido, que vão nos cortar em tiras de macarrão, quando então o capitão Ságner transmite ao batalhão esta ordem: ‘Deus não quer que pereçamos aqui, fujamos!’ Nosso batalhão se põe, portanto, em fuga, mas a divisão inimiga que já nos havia contornado vê que na verdade estamos avançando contra ela, começa a fugir apavorada e cai, sem um disparo, nas mãos das reservas do nosso exército. Assim, na verdade, começará toda a história do nosso batalhão. De um acontecimento insignificante, para falar profeticamente, senhor Vaněk, desenvolver-se-ão coisas de enorme alcance. Nosso batalhão irá de vitória em vitória. Será interessante a maneira como o nosso batalhão atacará o inimigo adormecido, para o que, naturalmente, será necessário o estilo do Ilustrovaný válečný zpravodaj, que Vilímek publicava durante a Guerra Russo-Japonesa. Nosso batalhão atacará o acampamento dos inimigos adormecidos. Cada um dos nossos soldados escolherá um inimigo e lhe cravará com toda a força a baioneta no peito. A baioneta maravilhosamente afiada entrará como se fosse manteiga e, aqui e ali, apenas estalará uma costela; os inimigos adormecidos estremecerão com o corpo inteiro, por um instante arregalarão os olhos espantados, mas que já não enxergam nada, soltarão um estertor e esticarão as canelas. Surgirá nos lábios dos inimigos adormecidos uma saliva ensanguentada, com isso estará tudo resolvido e a vitória será do nosso batalhão. Ou melhor ainda, daqui a uns três meses o nosso batalhão capturará o czar russo. Mas sobre isso, senhor Vaněk, conversaremos mais tarde. Enquanto isso, preciso preparar antecipadamente pequenos episódios que testemunhem uma bravura sem precedentes. Vou precisar inventar termos de guerra inteiramente novos. Já inventei um. Escreverei sobre a abnegada determinação da nossa tropa, crivada de fragmentos de granadas. Com a explosão de uma mina inimiga, um dos nossos sargentos, digamos da décima segunda ou décima terceira companhia, perderá a cabeça. A propósito”, disse o voluntário de um ano, batendo na própria cabeça, “quase ia me esquecendo, senhor rechnungsfeldvébl, ou, falando em linguagem civil, senhor Vaněk, o senhor precisa me arranjar uma lista de todos os graduados. Diga-me o nome de algum sargento da décima segunda companhia. Houska? Ótimo. Então Houska perderá a cabeça com a mina, a cabeça voará para longe, mas o corpo ainda dará alguns passos, fará pontaria e derrubará um aeroplano inimigo. É evidente que os ecos dessas vitórias terão de ser celebrados futuramente no círculo familiar de Schönbrunn. A Áustria tem muitíssimos batalhões, mas só existe um batalhão, o nosso, que se distinguirá de tal modo que, exclusivamente por sua causa, será organizada uma pequena e íntima celebração familiar da casa imperial. Imagino da seguinte maneira, como pode ver em minhas anotações, que a família arquiducal de Maria Valéria se mudará por causa disso de Wallsee para Schönbrunn. A celebração será estritamente íntima e acontecerá no salão ao lado do quarto do monarca, iluminado por velas brancas de cera, pois, como se sabe, na corte não apreciam lâmpadas elétricas por causa dos curtos-circuitos, contra os quais o velho monarca tem preconceito. Às seis horas da tarde terá início a celebração em honra e louvor do nosso batalhão de marcha. A essa hora, os netos de Sua Majestade serão conduzidos ao salão, que na verdade pertence aos aposentos da falecida imperatriz. Agora há a questão de quem estará presente além da família imperial. Precisa estar lá, e estará, o ajudante-geral do monarca, conde Paar. Como nessas refeições familiares e íntimas de vez em quando alguém passa mal, com o que naturalmente não quero dizer que o conde Paar vá vomitar, exige-se a presença do médico pessoal, conselheiro áulico doutor Kerzl. Para manter a ordem, a fim de que os lacaios da corte não se permitam alguma intimidade com as damas da corte presentes ao banquete, comparecerão o hofmeister supremo barão Lederer, o camareiro conde Bellegarde e a primeira-dama da corte, condessa Bombelles, que entre as damas da corte desempenha o mesmo papel da madame no bordel dos Šuh. Quando a nobre sociedade estiver reunida, o imperador será informado disso e então aparecerá acompanhado dos netos, sentar-se-á à mesa e fará um brinde em homenagem ao nosso batalhão de marcha. Depois dele, tomará a palavra a arquiduquesa Maria Valéria, que fará menção especialmente elogiosa ao senhor, senhor rechnungsfeldvébl. É claro que, segundo minhas anotações, o nosso batalhão sofrerá perdas graves e sensíveis, porque um batalhão sem mortos não é batalhão. Ainda será preciso preparar um novo artigo sobre os nossos mortos. A história do batalhão não pode ser composta apenas de fatos secos sobre vitórias, das quais já tenho umas quarenta e duas anotadas de antemão. O senhor, por exemplo, senhor Vaněk, tombará junto a um pequeno rio, e este Baloun aqui, que está nos olhando de um jeito tão esquisito, morrerá de uma forma inteiramente diferente de uma bala, estilhaço ou granada. Será estrangulado por um laço lançado de um aeroplano inimigo justamente no momento em que estiver devorando o almoço do seu primeiro-tenente Lukáš.”
Baloun deu um passo para trás, agitou desesperadamente as mãos e observou, abatido:
“Eu não tenho culpa do meu jeito. Quando ainda servia na ativa, às vezes aparecia umas três vezes na cozinha para buscar a ração militar, até me prenderem. Uma vez comi costela três vezes no almoço, pelo que fiquei um mês preso. Faça-se a vontade do Senhor.”
“Não tenha medo, Baloun”, consolou-o o voluntário de um ano. “Na história do batalhão não será mencionado que o senhor morreu enquanto comia, no caminho da messe dos oficiais para as trincheiras. Será citado em conjunto com todos os homens do nosso batalhão que tombaram pela glória do nosso império, como, por exemplo, o sargento-contador Vaněk.”
“Que tipo de morte está reservando para mim, Marek?”
“Não tenha tanta pressa, senhor rechnungsfeldvébl, isso não acontece tão depressa.”
O voluntário de um ano refletiu:
“O senhor é de Kralupy, não é verdade? Então escreva para casa, para Kralupy, dizendo que desaparecerá sem deixar vestígios, mas escreva com alguma cautela. Ou prefere ser gravemente ferido e ficar caído atrás dos dráthindrnisy? Ficará deitado confortavelmente, com uma perna quebrada, durante o dia inteiro. À noite, o inimigo iluminará nossa posição com um refletor e o descobrirá. Pensará que está realizando um serviço de reconhecimento e começará a despejar granadas e estilhaços sobre o senhor. O senhor terá prestado um serviço imenso ao exército, porque as forças inimigas terão gastado com o senhor tanta munição quanto com um batalhão inteiro, e suas partes constituintes, flutuando livremente pelo ar depois de todas aquelas explosões sobre o senhor e atravessando o ar em rotação, cantarão a canção da grande vitória. Em suma, chegará a vez de todos, e todos do nosso batalhão se distinguirão, de modo que as páginas gloriosas da nossa história ficarão abarrotadas de vitórias. Embora eu preferisse muito não abarrotá-las, não posso fazer nada, tudo precisa ser executado com minúcia para que reste alguma lembrança de nós, antes que, digamos no mês de setembro, não sobre absolutamente nada do nosso batalhão além dessas páginas gloriosas da história, que falarão aos corações de todos os austríacos que é certo que todos aqueles que jamais voltarão a ver seus lares lutaram com a mesma valentia e bravura. Já preparei o final, sabe, senhor Vaněk, o final do necrológio: ‘Honra à memória dos que tombaram! Seu amor pela monarquia é o amor mais sagrado, pois culminou na morte. Que seus nomes sejam pronunciados com respeito, como, por exemplo, Vaněk. E aqueles que foram atingidos mais dolorosamente pela perda de seus provedores enxuguem com orgulho as lágrimas, pois os que tombaram foram os heróis do nosso batalhão.’”
O telefonista Chodounský e o cozinheiro Jurajda escutavam com grande interesse a exposição do voluntário de um ano sobre a história do batalhão que estava sendo preparada.
“Aproximem-se, senhores”, disse o voluntário de um ano, folheando suas anotações. “Página quinze: ‘O telefonista Chodounský tombou no dia 3 de setembro, junto com o cozinheiro do batalhão, Jurajda.’ Escutem o restante das minhas anotações: ‘Bravura sem precedentes. O primeiro, arriscando a própria vida, salva o fio telefônico em seu abrigo fortificado, sem ter sido rendido ao telefone durante três dias. O segundo, vendo o perigo iminente de o inimigo contornar o flanco, lança-se sobre ele com um caldeirão de sopa fervente, espalhando terror e queimaduras entre o inimigo. Bela morte de ambos. O primeiro é despedaçado por uma mina; o segundo, sufocado por gases venenosos que lhe enfiam debaixo do nariz quando já não tem com que se defender. Ambos perecem gritando: Es Tebe unser Batalionskommandant!’ O comando supremo não poderá fazer outra coisa senão nos trazer diariamente manifestações de agradecimento sob a forma de ordens, para que também as demais partes do nosso exército conheçam a bravura do nosso batalhão e tomem-nos como exemplo. Posso ler um trecho da ordem do exército que será lida em todas as unidades, muito semelhante àquela ordem do arquiduque Carlos quando estava com suas tropas diante de Pádua, em 1805, e no dia seguinte à ordem levou uma surra decente. Escutem, portanto, o que será lido sobre o nosso batalhão como corpo exemplar e heroico para todas as tropas: ‘Espero que todo o exército tome como exemplo o batalhão acima mencionado, especialmente que assimile aquele espírito de autoconfiança e valentia, a firmeza inquebrantável diante do perigo, aquela bravura exemplar, o amor e a confiança em seus superiores, virtudes pelas quais o batalhão se distingue e que o conduzem a atos admiráveis, ao bem-estar e à vitória do nosso império. Todos sigam seu exemplo!’”
Do lugar onde Švejk estava deitado ouviu-se um bocejo, e escutaram Švejk falar enquanto dormia:
“A senhora tem razão, dona Müllerová, que as pessoas se parecem umas com as outras. Em Kralupy, um tal senhor Jaroš construía bombas de água, e ele era igualzinho ao relojoeiro Lejhanz, de Pardubice, como se tivesse saído do olho dele. E esse, por sua vez, era tão espantosamente parecido com Piskor, de Jičín, e os quatro juntos eram parecidos com um suicida desconhecido que encontraram enforcado e completamente apodrecido num lago perto de Jindřichův Hradec, bem debaixo da estrada de ferro, onde provavelmente tinha se atirado na frente do trem.”
Ouviu-se outro bocejo e, depois, ainda o complemento:
“Depois condenaram todos os outros a uma multa enorme, e amanhã a senhora vai fazer para mim, dona Müllerová, macarrão coado...”
Švejk virou-se para o outro lado e continuou roncando, enquanto entre o cozinheiro ocultista Jurajda e o voluntário de um ano teve início um debate relativo às coisas do futuro.
O ocultista Jurajda era de opinião que, embora à primeira vista parecesse absurdo alguém escrever por brincadeira sobre alguma coisa que aconteceria no futuro, era certo que semelhante brincadeira muitas vezes continha fatos proféticos, quando a visão espiritual do homem, sob a influência de forças misteriosas, ultrapassava a cortina do futuro desconhecido. A partir desse momento, a fala de Jurajda virou uma sucessão de cortinas. A cada duas frases aparecia sua cortina do futuro, até que por fim passou inclusive à regeneração, isto é, à renovação do corpo humano, meteu no assunto a capacidade de regeneração corporal dos infusórios e terminou declarando que qualquer pessoa podia arrancar o rabo de um lagarto e ele tornaria a crescer.
O telefonista Chodounský observou que as pessoas se dariam muito bem se com elas fosse possível fazer o mesmo que com o rabo do lagarto. Por exemplo, no serviço militar, se arrancassem a cabeça ou qualquer outra parte do corpo de alguém, isso seria extremamente bem-vindo para a administração militar, porque não haveria inválidos. Um soldado austríaco em quem pernas, braços e cabeças continuassem crescendo seria certamente mais valioso do que uma brigada inteira.
O voluntário de um ano declarou que, hoje, graças à avançada técnica de guerra, era possível dividir com sucesso o inimigo até mesmo em três partes transversais. Existia uma lei de regeneração corporal dos flagelados pertencentes à classe dos infusórios: cada parte cortada ao meio regenerava-se, recebia novos órgãos e crescia de maneira independente como um flagelado. Num caso análogo, depois de cada batalha, o exército austríaco que tivesse participado dela triplicaria, decuplicaria, e de cada perna surgiria um novo e vigoroso infante.
“Se Švejk escutasse o senhor”, observou o sargento-contador Vaněk, “pelo menos nos daria algum exemplo.”
Švejk reagiu ao ouvir seu nome e murmurou: „Hier“, depois continuou roncando, tendo emitido essa manifestação de disciplina militar.
Na porta entreaberta do vagão surgiu a cabeça do tenente Dub.
„Švejk está aqui?“, perguntou.
„Está dormindo, respeitosamente informo, senhor tenente“, respondeu o voluntário de um ano.
„Quando pergunto por ele, voluntário de um ano, o senhor deve saltar imediatamente e chamá-lo.“
„Não dá, senhor tenente, ele está dormindo.“
„Então acorde-o! Espanta-me que isso, voluntário de um ano, não lhe tenha ocorrido imediatamente. O senhor deve demonstrar mais boa vontade para com seus superiores! O senhor ainda não me conhece. Mas, quando me conhecer...“
O voluntário de um ano começou a acordar Švejk.
„Švejk, está pegando fogo, levante!“
„Quando os moinhos de Odkolek pegaram fogo“, resmungou Švejk, virando-se novamente para o outro lado, „vieram bombeiros até de Vysočany...“
„Queira observar“, disse amavelmente o voluntário de um ano ao tenente Dub, „que estou tentando acordá-lo, mas não dá.“
O tenente Dub enfureceu-se.
„Como se chama, voluntário de um ano? Marek? Ah, então o senhor é aquele voluntário de um ano Marek que vivia metido na prisão, não é?“
„Sim, senhor tenente. Fiz, por assim dizer, um curso de um ano no xadrez e fui redegradado, isto é, depois de ser libertado pelo tribunal divisionário, onde minha inocência veio à luz, fui nomeado batalionsgeschichtsschreibra, conservando a graduação de voluntário de um ano.“
„O senhor não continuará assim por muito tempo“, berrou o tenente Dub, com o rosto todo vermelho, numa mudança de cor que dava a impressão de que suas faces inchavam sob bofetadas. „Eu me encarregarei disso!“
„Peço, senhor tenente, que eu seja conduzido ao relatório“, disse seriamente o voluntário de um ano.
„Não faça brincadeiras comigo“, disse o tenente Dub. „Eu lhe darei relatório. Nós ainda nos encontraremos, mas então o senhor vai se arrepender pra cacete, porque me conhecerá, já que ainda não me conhece!“
O tenente Dub afastou-se furioso do vagão, esquecendo-se de Švejk em sua exaltação, embora pouco antes tivesse a excelente intenção de chamá-lo e dizer-lhe: „Sopre em mim!“, como recurso extremo para comprovar o alcoolismo ilegal de Švejk. Agora, porém, já era tarde demais, pois, quando voltou ao vagão meia hora depois, haviam distribuído café preto com rum à tropa; Švejk já estava acordado e, ao chamado do tenente Dub, saltou do vagão como um veado.
„Sopre em mim!“, berrou-lhe o tenente Dub. Švejk lançou sobre ele toda a reserva dos pulmões, como quando um vento quente leva aos campos o aroma de uma destilaria.
„Que cheiro é esse que vem de você, homem?“
„Respeitosamente informo, senhor tenente, que eu cheiro a rum.“
„Está vendo, meu rapaz?“, exclamou triunfalmente o tenente Dub. „Finalmente peguei você.“
„Sim, senhor tenente“, disse Švejk, sem demonstrar a menor inquietação. „Acabamos de receber rum no café, e eu bebi o rum primeiro. Mas, se existe, senhor tenente, alguma ordem nova dizendo que primeiro se deve beber o café e só depois o rum, peço perdão. Da próxima vez isso não tornará a acontecer.“
„E por que você estava roncando quando estive no vagão meia hora atrás? Não conseguiam acordá-lo.“
„Eu, respeitosamente informo, senhor tenente, não dormi a noite inteira, porque fiquei me lembrando dos tempos em que ainda fazíamos manobras perto de Veszprém. Naquela ocasião, o suposto primeiro e segundo corpos de exército atravessaram a Estíria e, passando pela Hungria ocidental, cercaram nosso quarto corpo, que estava acampado em Viena e arredores, onde tínhamos festungs por toda parte; mas eles nos contornaram e chegaram até a ponte que os sapadores construíam a partir da margem direita do Danúbio. Nós devíamos passar à ofensiva e, em nosso auxílio, viriam tropas do norte e também do sul, de Osijek. Leram para nós na ordem que o terceiro corpo de exército marchava em nosso auxílio para impedir que fôssemos esmagados entre o lago Balaton e Pressburg, quando avançássemos contra o segundo corpo de exército. Mas não adiantou nada. Quando devíamos vencer, tocaram o sinal de encerramento e quem venceu foram os de faixas brancas.“
O tenente Dub não disse palavra e afastou-se constrangido, sacudindo a cabeça, mas logo voltou do vagão do Estado-Maior e disse a Švejk:
„Gravem todos isto: chegará o momento em que vocês vão ganir diante de mim!“
Não conseguiu produzir nada além disso e voltou novamente ao vagão do Estado-Maior, onde o capitão Ságner interrogava naquele momento um infeliz da 12ª companhia, apresentado pelo sargento Strnad porque o soldado já começara a cuidar de sua segurança nas trincheiras e arrastara de algum ponto da estação uma portinhola de chiqueiro revestida de chapa. Ele estava ali agora espantado, de olhos arregalados, desculpando-se por querer levá-la consigo para os abrigos, como proteção contra estilhaços, para se assegurar.
O tenente Dub aproveitou a oportunidade para proferir um grande sermão sobre como um soldado deve comportar-se e quais são seus deveres para com a pátria e o monarca, comandante supremo e senhor militar supremo. Se, naturalmente, havia no batalhão elementos daquela espécie, era preciso extirpá-los, castigá-los e prendê-los. A tagarelice era tão insossa que o capitão Ságner bateu no ombro do culpado e lhe disse:
„Já que sua intenção era boa, não torne a fazer isso. É uma estupidez sua. Devolva essa portinhola ao lugar de onde a tirou e vá para todos os diabos!“
O tenente Dub mordeu os lábios e decidiu que a salvação de toda a disciplina em decomposição do batalhão dependia, na realidade, dele. Por isso percorreu mais uma vez todo o pátio da estação e encontrou, junto a um armazém onde havia uma grande inscrição húngaro-alemã proibindo fumar, um soldado sentado, lendo um jornal que o cobria de tal maneira que não era possível ver suas insígnias. Gritou-lhe „Habt Acht“, pois era algum homem de um regimento húngaro que permanecia na reserva em Humenné.
O tenente Dub sacudiu-o. O soldado húngaro levantou-se, nem sequer considerou necessário prestar continência, apenas enfiou o jornal no bolso e começou a afastar-se em direção à estrada. O tenente Dub foi atrás dele como um sonâmbulo, mas o soldado húngaro acelerou o passo e depois, virando-se, ergueu as mãos de modo zombeteiro, para que o tenente Dub não tivesse sequer por um instante qualquer dúvida de que ele reconhecera imediatamente sua vinculação a um dos regimentos tchecos. Em seguida, o húngaro desapareceu a trote entre as casas próximas, do outro lado da estrada.
Para mostrar de algum modo que nada tinha a ver com aquela cena, o tenente Dub entrou majestosamente numa pequena loja junto à estrada, apontou confusamente para um grande carretel de linha preta e, depois de enfiá-lo no bolso, pagou e voltou ao vagão do Estado-Maior, para onde mandou o ordenança do batalhão chamar seu criado Kunert. Entregando-lhe a linha, disse:
„Tenho de cuidar de tudo. Sei que você se esqueceu da linha.“
„Respeitosamente informo, senhor tenente, que temos uma dúzia inteira deles.“
„Então mostre-os imediatamente e esteja aqui com eles já. Pensa que acredito em você?“
Quando Kunert voltou com uma caixa inteira de carretéis, brancos e pretos, o tenente Dub disse:
„Está vendo, homem? Observe bem essas linhas que você trouxe e este meu grande carretel! Está vendo como suas linhas são finas, como se rompem facilmente? Agora veja as minhas, o trabalho que dão antes de arrebentar. Em campanha não precisamos de trapos; em campanha tudo deve ser sólido. Agora leve outra vez todas essas linhas consigo, espere minhas ordens e lembre-se: da próxima vez não faça nada por conta própria e venha me perguntar quando comprar alguma coisa! Não queira me conhecer, porque ainda não me conhece pelo lado ruim.“
Quando Kunert saiu, o tenente Dub voltou-se para o primeiro-tenente Lukáš:
„Meu ordenança é um homem muito inteligente. De vez em quando comete algum erro, mas, fora isso, compreende muito bem. Sua qualidade principal é a honestidade absoluta. Recebi em Bruck uma remessa do interior, enviada por meu cunhado, com alguns gansos jovens assados, e o senhor acredita que ele nem tocou neles? E, como eu não consegui comê-los depressa, preferiu deixá-los apodrecer. Isso, naturalmente, é efeito da disciplina. Um oficial deve educar seus soldados.“
O primeiro-tenente Lukáš, para demonstrar que não escutava a tagarelice daquele idiota, virou-se para a janela e disse:
„Sim, hoje é quarta-feira.“
O tenente Dub voltou-se então, sentindo a necessidade de falar qualquer coisa, para o capitão Ságner e disse-lhe em tom inteiramente confidencial e camarada:
„Escute, capitão Ságner, o que acha...“
„Perdão, só um instante“, disse o capitão Ságner, saindo do vagão.
Enquanto isso, Švejk conversava com Kunert a respeito do patrão dele.
„Onde você esteve esse tempo todo, que ninguém nem viu você?“, perguntou Švejk.
„Você sabe como é“, disse Kunert. „Com esse meu velho maluco há sempre trabalho. A toda hora ele chama você e pergunta coisas que não são da sua conta. Também me perguntou se eu era seu amigo, e eu disse que a gente se vê muito pouco.“
„É muito bonito da parte dele perguntar por mim. Gosto muito desse seu senhor tenente. Ele é tão bondoso, tão bom de coração e trata os soldados como um verdadeiro pai“, disse Švejk seriamente.
„É, você é que pensa“, contestou Kunert. „É um belo de um porco e burro que nem merda. Já estou até aqui com ele, só vive me atormentando.“
„Ora, deixe disso“, admirou-se Švejk. „Eu pensava que ele fosse mesmo um homem muito bom. Você fala de um jeito estranho do seu tenente, mas isso já é inato em todos os ordenanças de oficial. Veja o ordenança do major Wenzl: nunca chama o patrão de outra coisa senão de um maldito imbecil idiota; e o ordenança do obrst Schröder, quando falava do patrão, não o chamava de outra coisa senão de monstro mijado e fedorento dos infernos. Isso acontece porque todo ordenança aprende com o patrão. Se o próprio patrão não xingasse, o ordenança não repetiria. Em Budějovice, quando eu servia na ativa, havia o tenente Procházka. Ele não xingava muito; só chamava o ordenança de ‘sua vaca encantadora’. Aquele ordenança, um tal de Hibman, nunca ouviu dele outro insulto. O Hibman ficou tão acostumado que, quando voltou à vida civil, chamava o pai, a mãe e as irmãs de ‘sua vaca encantadora’; disse isso também à noiva, que rompeu com ele e o processou por ofensa à honra, porque ele chamou assim a ela, ao pai e à mãe dela, numa festa dançante, em público. E não o perdoou. Diante do tribunal, declarou também que, se ele a tivesse chamado de vaca em algum canto, talvez aceitasse uma conciliação, mas daquele jeito era um escândalo europeu. Entre nós, Kunert, eu nunca teria imaginado uma coisa dessas do seu tenente. Ele já me causou uma impressão tão simpática quando falei com ele pela primeira vez, como linguiças recém-tiradas do defumador; e, quando falei com ele pela segunda vez, pareceu-me muito instruído e meio espiritualizado. De onde você é? Diretamente de Budějovice? Gosto disso, quando alguém é diretamente de algum lugar. E onde mora por lá? Debaixo das arcadas? Muito bom, ali pelo menos é fresco no verão. Tem família? Mulher e três filhos? Então você é feliz, camarada, pelo menos haverá quem chore por você, como dizia sempre nos sermões o meu capelão militar Katz. E é verdade, porque uma vez ouvi um discurso de um obrst aos reservistas em Bruck, que partiam de lá para a Sérvia. Ele disse que todo soldado que deixa a família em casa e cai no campo de batalha rompe, é verdade, todos os vínculos familiares. Quer dizer, ele disse assim: ‘Quando está mortfol, da família mortfol, vínculo da família rompida, mas ser ein Held, porque hat geopfert sua vida por família maior, por Vaterland.’ Você mora no quarto andar? No térreo? Tem razão, agora me lembrei de que ali, na praça de Budějovice, não existe uma única casa de quatro andares. Já está indo? Ah, seu senhor oficial está diante do vagão do Estado-Maior olhando para cá. Então, caso ele pergunte se eu também falei dele, diga sem cerimônia que falei, e não se esqueça de dizer como falei bem dele, que raras vezes encontrei um oficial que se comportasse de modo tão amistoso e paternal quanto ele. Não se esqueça de dizer que me parece muito instruído e diga também que ele é muito intelijente. Diga ainda que eu o aconselhei a ser bonzinho e fazer tudo o que ele quiser, antes mesmo que precise pedir. Lembrou de tudo?“
Švejk entrou no vagão, e Kunert, com as linhas, voltou para seu covil.
Quinze minutos depois, seguiram viagem para Nová Čabyně, passando pelas aldeias incendiadas de Brestov e Veliký Radvaň.
Via-se que ali a coisa já tinha ficado séria.
As encostas e vertentes dos Cárpatos estavam revolvidas por trincheiras que iam de vale em vale, ao longo da linha férrea com dormentes novos, tendo de ambos os lados enormes crateras de granadas. Em alguns pontos, sobre os riachos que desaguavam no Laborec, cujo curso superior a ferrovia acompanhava, viam-se pontes novas e as vigas chamuscadas das antigas passagens.
Todo o vale em direção a Medzilaborce estava escavado e revolvido, como se ali tivessem trabalhado exércitos de toupeiras gigantescas. A estrada do outro lado do riacho estava esburacada e destruída, e ao lado viam-se áreas pisoteadas por onde as tropas haviam avançado em massa.
As enxurradas e as chuvas expunham, nas bordas das crateras abertas pelas granadas, farrapos dilacerados de uniformes austríacos.
Depois de Nová Čabyně, num velho pinheiro queimado, entre um emaranhado de galhos, pendia a bota de algum soldado de infantaria austríaco com um pedaço da canela.
Viam-se florestas sem folhas nem agulhas, mostrando como o fogo da artilharia assolara o lugar, árvores sem copas e casas isoladas destroçadas pelos disparos.
O trem avançava devagar sobre aterros recém-construídos, de modo que todo o batalhão podia perceber e saborear minuciosamente as alegrias da guerra e, contemplando os cemitérios militares de cruzes brancas, que alvejavam tanto nos pequenos descampados quanto nas encostas das vertentes devastadas, preparar-se lenta, mas seguramente, para o campo da glória, que termina num quepe austríaco enlameado, tremulando numa cruz branca.
Os alemães de Kašperské Hory, que estavam nos vagões traseiros e que ainda na estação de Milovice, quando o trem entrara, berravam „Wann ich kumm, wann ich wieda kumm...“, tinham ficado muito calados desde Humenné, porque percebiam que muitos daqueles cujos quepes estavam sobre as sepulturas haviam cantado a mesma coisa, sobre como seria bonito quando voltassem e ficassem para sempre em casa com suas amadas.
Em Medzilaborce houve uma parada atrás da estação destruída e incendiada, de cujas paredes enegrecidas saíam travessas de ferro retorcidas.
Um novo e comprido barracão de madeira, erguido às pressas no lugar da estação incendiada, estava coberto de cartazes colados em todas as línguas:
„Subscrevam o empréstimo de guerra austríaco!“
Em outro barracão comprido funcionava também um posto da Cruz Vermelha, de onde saíram duas enfermeiras acompanhadas de um médico militar gordo. Elas riam às gargalhadas do médico militar gordo, que, para diverti-las, imitava os sons de vários animais e grunhia de maneira desastrosa.
Debaixo do aterro ferroviário, no vale do riacho, jazia uma cozinha de campanha destruída. Apontando para ela, Švejk disse a Baloun:
„Veja, Baloun, o que nos espera num futuro próximo. Estavam bem na hora de distribuir a ração militar, quando veio uma granada e a devorou desse jeito.“
„Isso é terrível“, suspirou Baloun. „Nunca pensei que uma coisa dessas estivesse à minha espera, mas a culpa foi do meu orgulho, porque eu, desgraçado, comprei no último inverno, em Budějovice, umas luvas de couro. Já não me bastava usar em minhas patas de camponês as velhas luvas de lã que o falecido papai usava; eu só suspirava pelas de couro, pelas luvas da cidade. Papai comia ervilhas torradas, e eu nem queria ver ervilha, só aves. Carne de porco comum também não me agradava; a patroa tinha de prepará-la para mim, que Deus não me castigue, na cerveja.“
Com absoluto desespero, Baloun começou a fazer uma confissão geral:
„Eu blasfemei contra os santos e as santas de Deus; numa taverna junto ao Malše e em Dolní Zahájí, dei uma surra num capelão. Ainda acreditava em Deus, não nego, mas duvidava de são José. Tolerei todos os santos dentro de casa, só a imagem de são José é que teve de ir embora. Agora Nosso Senhor me castigou por todos os meus pecados e pela minha imoralidade. Quantas imoralidades pratiquei na sala do moinho, quantas vezes xinguei meu sogro, amargurei-lhe a velhice e atormentei minha mulher.“
Švejk refletiu:
„O senhor é moleiro, não é? Então devia saber que os moinhos de Deus moem devagar, mas com certeza, já que por sua causa estourou esta guerra mundial.“
O voluntário de um ano intrometeu-se na conversa:
„Com essas blasfêmias, Baloun, e essa recusa em reconhecer todos os santos e santas, o senhor decididamente prestou um péssimo serviço a si mesmo, pois deve saber que nosso Exército austríaco já é, há anos, um Exército puramente católico, tendo o exemplo mais esplêndido em nosso senhor militar supremo. Como pode atrever-se a partir para a batalha com o veneno do ódio contra alguns santos e santas de Deus, quando o Ministério da Guerra instituiu exortações jesuíticas para os senhores oficiais nos comandos de guarnição e quando assistimos à celebração militar da Ressurreição? Está me entendendo bem, Baloun? Compreende que, na realidade, está praticando algo contrário ao glorioso espírito de nosso glorioso Exército? Veja o caso de são José, que o senhor mencionou, dizendo que a imagem dele não podia ficar pendurada na sala de sua casa. Pois ele é, Baloun, na realidade, o padroeiro de todos os que desejam escapar da guerra. Era carpinteiro, e o senhor conhece o lema: ‘Vejamos onde o carpinteiro deixou o buraco.’ Quantos homens já foram para o cativeiro com esse lema, vendo que não havia saída, cercados por todos os lados, procurando salvar não a si mesmos por algum ponto de vista egoísta, mas a si mesmos como membros do Exército, para depois, ao voltarem do cativeiro, poderem dizer ao senhor imperador: estamos aqui e aguardamos novas ordens! Agora entende, Baloun?“
„Não entendo“, suspirou Baloun. „Tenho a cabeça muito dura. Comigo é preciso repetir tudo dez vezes.“
„Ainda não entendeu?“, perguntou Švejk. „Então vou explicar mais uma vez. Você ouviu aqui que precisa agir de acordo com o espírito que reina no Exército, que vai acreditar em são José e, quando estiver cercado pelos inimigos, vai procurar onde o carpinteiro deixou o buraco, para salvar a si mesmo para o senhor imperador e para novas guerras. Agora talvez entenda. E fará bem se nos confessar com um pouco mais de detalhes que imoralidades praticou naquela sala do moinho. Mas não vá contar depois alguma coisa parecida com aquela anedota da criada que foi confessar-se ao senhor padre e, depois de contar vários pecados, começou a ficar envergonhada e disse que todas as noites praticava imoralidades. É claro que, assim que ouviu aquilo, o senhor padre começou logo a babar e disse: ‘Ora, não se envergonhe, minha querida filha, estou aqui no lugar de Deus. Conte-me direitinho, com todos os detalhes, suas imoralidades.’ E ela começou a chorar, dizendo que tinha vergonha, que era uma imoralidade terrível; ele voltou a lembrá-la de que era seu pai espiritual. Por fim, depois de muita relutância, ela começou dizendo que sempre tirava a roupa e entrava na cama. Outra vez ele não conseguiu arrancar dela uma só palavra, e ela chorou ainda mais. Então ele tornou a dizer que não tivesse vergonha, pois o ser humano é, por natureza, um vaso de pecado, mas a graça de Deus é infinita. Ela enfim tomou coragem e disse, chorando: ‘Quando eu deitava nua na cama, começava a tirar a sujeira entre os dedos dos pés e cheirava aquilo.’ Essa era toda a imoralidade dela. Mas espero, Baloun, que você não fizesse isso na sala do moinho e que nos conte alguma coisa mais verdadeira, alguma imoralidade de verdade.“
Descobriu-se que Baloun, segundo suas próprias palavras, praticava imoralidades na sala do moinho com as camponesas, imoralidade essa que consistia em misturar a farinha delas, coisa que, em sua simplicidade de espírito, chamava de imoralidade. O mais decepcionado foi o telegrafista Chodounský, que lhe perguntou se realmente não tivera nada com as mulheres na sala do moinho, em cima dos sacos de farinha, ao que Baloun respondeu, agitando as mãos:
„Para isso eu era burro demais.“
A tropa foi informada de que o almoço seria depois de Palota, no passo de Łupków. O sargento-contador do batalhão, os cozinheiros das companhias e o tenente Cajthaml, encarregado da administração econômica do batalhão, saíram também para a aldeia de Medzilaborce. Foram-lhes designados quatro homens como patrulha.
Voltaram em menos de meia hora com três porcos amarrados por uma das patas traseiras, a família aos berros de um ruteno húngaro de quem os animais haviam sido requisitados e o médico militar gordo do barracão da Cruz Vermelha, que explicava alguma coisa fervorosamente ao tenente Cajthaml, enquanto este encolhia os ombros.
Diante do vagão do Estado-Maior, toda a disputa chegou ao auge quando o médico militar começou a afirmar na cara do capitão Ságner que aqueles porcos estavam destinados ao hospital da Cruz Vermelha. O camponês, por sua vez, não queria saber de nada disso e exigia que os porcos lhe fossem devolvidos, pois eram seus últimos bens e ele de maneira nenhuma podia cedê-los pelo preço que lhe haviam pago.
Enquanto isso, empurrava para o capitão Ságner o dinheiro que recebera pelos porcos, apertado no punho, ao passo que a camponesa segurava a outra mão do capitão e a beijava com aquela humilhação em que aquela região sempre se distinguira.
O capitão Ságner ficou inteiramente assustado com aquilo, e levou algum tempo para conseguir afastar a velha camponesa. Não adiantou nada: em seu lugar vieram forças mais jovens, que começaram novamente a chupar-lhe as mãos.
O tenente Cajthaml, porém, relatou num tom inteiramente comercial:
„Esse sujeito ainda tem doze porcos e recebeu pagamento absolutamente regular, conforme a última ordem divisionária número 12420, seção econômica. Segundo essa ordem, § 16, deve-se comprar gado suíno em lugares não atingidos pela guerra por preço não superior a 2 K e 16 heller por quilograma de peso vivo; em lugares atingidos pela guerra, acrescentar 36 heller por quilograma de peso vivo, pagando-se, portanto, 2 K e 52 heller por quilograma. Segue-se a observação: caso sejam constatadas, em lugares atingidos pela guerra, propriedades agrícolas que tenham permanecido intactas, com plantéis completos de suínos passíveis de serem enviados para fins de abastecimento das unidades de passagem, deve-se pagar pela carne suína requisitada o mesmo preço aplicado nos lugares não atingidos pela guerra, com acréscimo especial de 12 heller por quilograma de peso vivo. Não estando a situação inteiramente clara, deve-se constituir imediatamente no local uma comissão composta pelo interessado, pelo comandante da unidade militar de passagem e pelo oficial ou sargento-contador encarregado da seção econômica, caso se trate de formações menores.“
O tenente Cajthaml leu tudo isso de uma cópia da ordem divisionária que trazia permanentemente consigo e que já sabia quase de cor, inclusive que, no território da frente, a remuneração por um quilograma de cenouras aumentava para 15,30 h e, para a offiziersmenageküchenabteilung, a couve-flor na região próxima da frente custava 1 coroa e 75 heller por quilograma.
Os que haviam redigido aquilo em Viena imaginavam o território da frente como uma terra abundante em cenouras e couves-flores.
O tenente Cajthaml leu tudo, naturalmente em alemão, para o camponês exaltado, e perguntou-lhe, também em alemão, se havia entendido. Quando o homem sacudiu a cabeça, berrou-lhe:
„Então quer uma comissão?“
Ele compreendeu a palavra „comissão“ e, por isso, assentiu. Enquanto seus porcos, já havia algum tempo, tinham sido arrastados para as cozinhas de campanha, onde seriam executados, os soldados designados para a requisição cercaram-no com as baionetas, e a comissão partiu para a propriedade dele a fim de verificar se deveria receber 2 K e 52 heller por quilograma ou apenas 2 K e 28 heller.
Nem sequer haviam chegado à estrada que levava à aldeia quando, vindo das cozinhas de campanha, ouviu-se três vezes o guincho mortal dos porcos.
O camponês compreendeu que tudo estava acabado e gritou desesperadamente:
„Davajtě mně za každyju svinju dva rýnskija!“
Os quatro soldados o cercaram mais de perto, e toda a família bloqueou o caminho do capitão Ságner e do tenente Cajthaml, ajoelhando-se na poeira da estrada.
A mãe e as duas filhas abraçavam os joelhos dos dois, chamando-os de benfeitores, até que o camponês as repreendeu e gritou, no dialeto ucraniano dos rutenos húngaros, que se levantassem, que os soldados comessem os porcos e morressem depois.
Assim, a comissão não deu em nada, e, como o camponês de repente se revoltou e ameaçou-os com o punho, levou de um dos soldados uma coronhada que retumbou em seu casaco de pele, e toda a família se persignou e saiu correndo junto com o pai.
Dez minutos depois, o sargento-contador do batalhão já saboreava miolos de porco com o ordenança do batalhão Matušič em seu vagão e, empanturrando-se com valentia, dizia de vez em quando, com sarcasmo, aos escriturários:
“Vocês queriam era comer isso, não é? Pois é, rapazes, isso aqui é só para os graduados. Para os cozinheiros, rins e fígado; miolos e carne suína cozida para os senhores rechnungsfeldvébls; e para os escriturários, só porções duplas da carne da tropa.”
O capitão Ságner também já havia dado a ordem referente à cozinha dos oficiais:
“Carne de porco com cominho; escolham a melhor carne, para não ficar gordurosa demais!”
E assim aconteceu que, quando distribuíram a ração à tropa no passo de Lupków, cada soldado encontrou, em sua porção de sopa dentro do caldeirão militar, dois pedacinhos de carne, e aquele que havia nascido sob um planeta ainda pior encontrou apenas um pedaço de couro.
Reinava nas cozinhas o nepotismo militar de costume, que distribuía a todos os que estavam perto da camarilha dominante. Os ordenanças de oficial apareceram no passo de Lupków com as fuças engorduradas. Cada ordenança tinha a barriga redonda como uma pedrinha. Aconteciam coisas que clamavam aos céus.
O voluntário de um ano Marek provocou um escândalo junto à cozinha porque quis ser justo e, quando o cozinheiro, com a observação “Isto é para o nosso geschichtsschreibra”, pôs em seu caldeirão de sopa uma bela fatia de pernil cozido, ele declarou que, no exército, todos os soldados eram iguais, o que obteve aprovação geral e deu motivo para que começassem a xingar os cozinheiros.
O voluntário de um ano jogou o pedaço de carne de volta, ressaltando que não queria proteção nenhuma. Na cozinha, porém, não entenderam e imaginaram que o batalionsgeschichtsschreiber não estivesse satisfeito, e o cozinheiro lhe disse à parte que aparecesse depois de distribuída a ração, pois lhe daria um pedaço da perna.
Os escriturários também estavam com as fuças reluzentes, os enfermeiros militares bufavam de bem-estar e, em torno de toda aquela bênção divina, espalhavam-se por toda parte os vestígios ainda não removidos dos últimos combates. Por todo lado jaziam pentes de cartuchos, latas vazias de conservas, farrapos de uniformes russos, austríacos e alemães, partes de carroças destruídas, longas faixas ensanguentadas de gaze e algodão.
Num velho pinheiro junto à antiga estação, da qual restava apenas um monte de escombros, estava cravado um projétil que não explodira. Por toda parte viam-se estilhaços de granadas, e em algum ponto bem próximo deviam ter enterrado cadáveres de soldados, pois ali havia um fedor terrível de podridão.
E, como tropas haviam passado por ali e acampado em volta, viam-se por toda parte montículos de merda humana de origem internacional, provenientes de todas as nações da Áustria, da Alemanha e da Rússia. A merda de soldados de todas as nacionalidades e de todas as confissões religiosas jazia lado a lado ou empilhava-se uma sobre a outra sem entrar em briga.
O reservatório de água semidestruído, a guarita de madeira do vigia ferroviário e, de modo geral, tudo o que possuía alguma parede estava perfurado por balas de fuzil como uma peneira.
Para completar a impressão das alegrias militares, erguiam-se atrás de uma colina próxima montanhas de fumaça, como se uma aldeia inteira estivesse em chamas e ali fosse o centro de grandes operações militares. Estavam queimando os barracões de cólera e disenteria, para grande alegria daqueles senhores que haviam participado da instalação daquele hospital sob o protetorado da arquiduquesa Maria e que roubavam e enchiam os bolsos apresentando contas por barracões inexistentes de cólera e disenteria.
Agora um grupo de barracões pagava por todos os outros e, no fedor dos colchões de palha em chamas, toda a roubalheira do protetorado arquiducal subia aos céus.
Atrás da estação, sobre uma rocha, os alemães do Reich já haviam se apressado em erguer um monumento aos brandemburgueses mortos, com a inscrição “Den Helden von Lupkapaß”, e uma grande águia imperial alemã fundida em bronze; no pedestal, observava-se expressamente que aquele emblema fora feito com canhões russos capturados durante a libertação dos Cárpatos pelos regimentos alemães do Reich.
Nessa atmosfera estranha e até então desconhecida, o batalhão descansava depois do almoço nos vagões, e o capitão Ságner e o ajudante do batalhão ainda não conseguiam chegar a um entendimento, por meio de telegramas cifrados, com a base da brigada quanto ao prosseguimento do batalhão. As mensagens eram tão confusas que pareciam indicar que eles nem sequer deveriam ter ido ao passo de Lupków, mas seguido numa direção completamente diferente a partir de Nové Město pod Šiatorem, pois os telegramas mencionavam os lugares Csap, Ungvár, Kis-Berezna e Uzsok.
Dez minutos depois, ficou evidente que o oficial do Estado-Maior sentado lá na base da brigada era algum imbecil, pois chegou um telegrama cifrado perguntando se quem falava era o 8º batalhão de marcha do 75º regimento, cifra militar G 31. O imbecil da base da brigada ficou espantado com a resposta de que se tratava do 7º batalhão de marcha do 91º regimento e perguntou quem dera ordem para seguir até Munkačevo, pela linha militar para Stryj, se a rota de marcha passava pelo passo de Lupków, por Sanok, rumo à Galícia. O imbecil ficou terrivelmente surpreso ao saber que telegrafavam do passo de Lupków e enviou a cifra: “Rota de marcha inalterada, para passo de Lupków, Sanok, onde receberão novas ordens.”
Depois do retorno do capitão Ságner, iniciou-se no vagão do Estado-Maior um debate sobre certa desorientação, e fizeram-se algumas alusões ao fato de que, não fossem os alemães do Reich, o grupo militar do leste estaria completamente sem cabeça.
O tenente Dub tentou defender a desorientação do Estado-Maior austríaco e começou a falar merda sobre como a região havia sido bastante devastada pelos combates recentes e a linha férrea ainda não pudera ser devidamente reparada.
Todos os oficiais olharam para ele com compaixão, como se quisessem dizer: o sujeito não tem culpa de ser tão idiota. Como não encontrou oposição, o tenente Dub continuou tagarelando sobre a impressão magnífica que aquela paisagem destruída lhe causava, testemunho de como o punho de ferro de nosso exército sabia golpear. Novamente ninguém lhe respondeu, após o que ele repetiu:
“Sim, certamente, sem dúvida, os russos recuaram aqui em completo pânico.”
O capitão Ságner decidiu que enviaria o tenente Dub, na primeira oportunidade em que a situação nas trincheiras se tornasse perigosíssima, como patrulha de oficial para além dos obstáculos de arame, a fim de fazer o reconhecimento das posições inimigas, e sussurrou ao primeiro-tenente Lukáš, com quem estava debruçado para fora da janela do vagão:
“Também estávamos mesmo precisando desses civis, por obra do diabo. Quanto mais intelectual, maior o animal.”
Parecia que o tenente Dub nunca mais pararia de falar. Continuou explicando a todos os oficiais o que havia lido nos jornais sobre os combates nos Cárpatos e sobre a luta pelos passos da cordilheira durante a ofensiva austro-alemã no San.
Narrava tudo como se não apenas tivesse participado dos combates, mas ainda tivesse dirigido pessoalmente todas as operações.
Eram especialmente insuportáveis frases suas como esta:
“Depois seguimos para Bukovsko, a fim de assegurar a linha Bukovsko-Dynov, mantendo ligação com o grupo de Bardejov junto a Velká Polanka, onde destroçamos a divisão inimiga de Samara.”
O primeiro-tenente Lukáš não aguentou mais e observou ao tenente Dub:
“Assunto sobre o qual você certamente já conversava antes da guerra com o chefe do seu distrito.”
O tenente Dub lançou um olhar hostil ao primeiro-tenente Lukáš e saiu do vagão.
O trem militar estava parado sobre o aterro e, lá embaixo, a poucos metros, ao pé da encosta, jaziam diversos objetos abandonados pelos soldados russos em retirada, que provavelmente haviam recuado por aquela vala. Viam-se chaleiras enferrujadas, algumas panelas e bolsas de cartuchos. Também estavam espalhados, entre os mais variados objetos, rolos de arame farpado e, novamente, aquelas faixas ensanguentadas de gaze e algodão. Acima da vala, num determinado ponto, havia um grupo de soldados, e o tenente Dub constatou imediatamente que Švejk estava entre eles, contando-lhes alguma coisa.
Foi até lá.
“O que aconteceu aqui?”, soou a voz severa do tenente Dub, que se plantou diretamente diante de Švejk.
“Respeitosamente informo, senhor tenente”, respondeu Švejk por todos, “que estamos olhando.”
“E olhando para quê?”, berrou o tenente Dub.
“Respeitosamente informo, senhor tenente, que estamos olhando lá embaixo, para a vala.”
“E quem lhes deu autorização para isso?”
“Respeitosamente informo, senhor tenente, que esse é o desejo do nosso senhor obrst Schröder, de Bruck. Quando ele se despediu da gente, agora que vínhamos para o campo de batalha, disse no discurso dele que todos nós, ao passarmos por campos de batalha abandonados, devíamos observar tudo com muita atenção, para ver como se lutou e o que poderia nos ser útil. E agora estamos vendo aqui, senhor tenente, nesta depressão, tudo o que um soldado precisa jogar fora durante a fuga. Vemos aqui, respeitosamente informo, senhor tenente, como é uma idiotice o soldado carregar todo tipo de coisa inútil. Ele fica desnecessariamente sobrecarregado. Cansa-se à toa e, quando arrasta consigo uma carga dessas, não consegue lutar com facilidade.”
De repente, surgiu no tenente Dub a esperança de finalmente levar Švejk a um tribunal militar de campanha por propaganda antimilitarista e alta traição, e por isso perguntou depressa:
“Então você acha que o soldado deve jogar fora os cartuchos que estão espalhados por esta depressão, ou as baionetas, como aquela que estou vendo lá?”
“Ah, não, de jeito nenhum, respeitosamente informo, senhor tenente”, respondeu Švejk, sorrindo amavelmente. “Tenha a bondade de olhar aqui embaixo para este penico de lata que jogaram fora.”
E, de fato, debaixo do aterro jazia, desafiador, um penico com o esmalte lascado, corroído pela ferrugem, entre cacos de panelas, objetos já imprestáveis para uso doméstico que o chefe da estação vinha depositando ali, provavelmente como material para as discussões dos arqueólogos das eras futuras, os quais, ao descobrirem aquele sítio, ficariam malucos e fariam as crianças aprender nas escolas sobre a era dos penicos esmaltados.
O tenente Dub fitou o objeto, mas não pôde senão constatar simplesmente que se tratava de fato de um daqueles inválidos que haviam passado sua juventude viçosa debaixo da cama.
Aquilo causou uma impressão enorme em todos, e, quando o tenente Dub permaneceu calado, Švejk disse:
“Respeitosamente informo, senhor tenente, que certa vez houve uma bela brincadeira com um penico desses nas termas de Poděbrady. Lá nas bandas de Vinohrady, contavam isso numa taberna. Naquela época começaram a publicar em Poděbrady uma revistinha chamada Independência, e o farmacêutico de Poděbrady era o grande cabeça por trás dela, e fizeram de redator um tal de Ladislav Hájek Domažlický. E esse senhor farmacêutico era um excêntrico desses que colecionava panelas velhas e outras quinquilharias, até ficar parecendo um museu inteiro. Uma vez, esse Hájek Domažlický convidou para visitá-lo nas termas de Poděbrady um amigo que também escrevia para jornais, e os dois ficaram bêbados juntos, porque já fazia mais de uma semana que não se viam, e o amigo prometeu que, em troca da recepção, escreveria um folhetim para aquela Independência, o jornal independente do qual ele dependia. E esse amigo escreveu um folhetim sobre um colecionador que encontrou na areia, à margem do Elba, um velho penico de lata e achou que era o elmo de São Venceslau, e fez tanto barulho com aquilo que o bispo Brynych, de Hradec, foi até lá ver, acompanhado de uma procissão e bandeiras. O farmacêutico de Poděbrady achou que aquilo era uma indireta contra ele, e assim os dois, ele e o senhor Hájek, acabaram brigados.”
O tenente Dub teria adorado derrubar Švejk lá para baixo, mas se conteve e berrou com todos:
“Estou mandando vocês pararem de ficar aí olhando feito idiotas! Vocês ainda não me conhecem, mas vão conhecer! Você fica aqui, Švejk”, disse com voz terrível, quando Švejk quis partir com os outros para os vagões.
Ficaram sozinhos, frente a frente, e o tenente Dub ficou pensando no que poderia dizer de aterrador.
Švejk, porém, adiantou-se:
“Respeitosamente informo, senhor tenente, que seria bom se pelo menos este tempo continuasse. De dia não faz muito calor, e as noites também são bastante agradáveis, de modo que esta é a época mais apropriada para guerrear.”
O tenente Dub sacou o revólver e perguntou:
“Conhece isto?”
“Respeitosamente informo, senhor tenente, que conheço. O senhor primeiro-tenente Lukáš tem um igualzinho.”
“Então guarde bem isso na memória, seu patife!”, disse o tenente Dub, sério e digno, tornando a guardar o revólver. “Para saber que poderia lhe acontecer alguma coisa muito desagradável se você continuasse com essas suas propagandas.”
O tenente Dub afastou-se, repetindo para si mesmo:
“Agora falei da melhor maneira: com suas propagandas, sim, com suas propagandas!...”
Antes de voltar ao seu vagão, Švejk ainda caminhou um pouco, resmungando consigo mesmo:
“Onde é que eu vou enquadrar esse sujeito?”
E, quanto mais pensava, mais claramente se formava em seu espírito uma designação para aquele tipo: meio-peidão.
No vocabulário militar, a palavra peidão era usada desde tempos imemoriais com muito carinho e, sobretudo, essa honrosa denominação pertencia a coronéis ou capitães e majores mais velhos, constituindo uma espécie de grau superior da expressão “velho desgraçado”. Sem o adjetivo, a palavra velho era uma avaliação afetuosa de um coronel ou major idoso que berrava muito, mas ao mesmo tempo gostava de seus soldados e os protegia contra outros regimentos, principalmente quando se tratava de patrulhas alheias que tiravam seus homens das tabernas quando eles não tinham autorização para permanecer fora do quartel. O velho cuidava de seus soldados, a ração tinha de estar em ordem, mas sempre possuía alguma mania; implicava com alguma coisa, e por isso era um “velho”.
Mas, quando o velho atormentava sem necessidade tanto a tropa quanto os graduados, inventava exercícios noturnos e coisas semelhantes, era um “velho desgraçado”.
Do “velho desgraçado”, como estágio superior no desenvolvimento da canalhice, da perseguição e da idiotice, surgia o “peidão”. Essa palavra significava tudo, e havia uma enorme diferença entre um peidão na vida civil e um peidão no exército.
O primeiro, o civil, também era um superior e assim era chamado de modo geral nos órgãos públicos pelos serventes e funcionários subordinados. Era um filisteu burocrata que censurava, por exemplo, o fato de uma minuta não ter sido devidamente seca com mata-borrão e coisas desse tipo. Era, de modo geral, uma manifestação imbecil e animalesca na sociedade humana, pois ao mesmo tempo um asno desses se fazia de ponderado, queria entender de tudo, sabia explicar tudo e se ofendia com qualquer coisa.
Quem servira no exército compreendia, naturalmente, a diferença entre essa figura e um peidão de uniforme. Aqui, a palavra representava um velho que era um “desgraçado”, um verdadeiro desgraçado, que tratava tudo com dureza, mas mesmo assim parava diante de qualquer obstáculo; não gostava dos soldados e lutava inutilmente contra eles, sem conseguir conquistar nenhuma da autoridade de que desfrutavam o “velho” e o “velho desgraçado”.
Em algumas guarnições, como em Trento, em vez de peidão dizia-se “nosso velho filho da puta”. Em todos os casos, tratava-se de uma pessoa mais velha e, ao chamar mentalmente o tenente Dub de meio-peidão, Švejk percebera com lógica perfeita que, tanto na idade quanto na patente e, de modo geral, em tudo, ainda faltavam cinquenta por cento ao tenente Dub para chegar a peidão.
Voltando ao vagão com esses pensamentos, encontrou o ordenança de oficial Kunert, que estava com o rosto inchado e balbuciava algo incompreensível, dizendo que acabara de encontrar seu superior, o tenente Dub, que de repente lhe dera bofetadas porque, segundo afirmara, possuía fatos comprovados de que Kunert mantinha relações com Švejk.
“Nesse caso”, disse Švejk com calma, “vamos ao relatório. Um soldado austríaco só deve se deixar esbofetear em casos determinados. Mas esse teu superior ultrapassou todos os limites, como dizia o velho Eugênio de Saboia: ‘Até aqui e não mais além.’ Agora você mesmo tem de ir ao relatório e, se não for, eu próprio lhe dou umas bofetadas, para você aprender o que é disciplina no exército. No quartel de Karlín havia um tal tenente Hausner, que também tinha um ordenança e também o esbofeteava e chutava. Uma vez, o ordenança ficou tão esbofeteado que ficou idiota e se apresentou ao relatório, e no relatório declarou que havia sido chutado, porque confundia tudo, e o superior dele realmente conseguiu provar que aquilo era mentira, que naquele dia não o havia chutado, apenas esbofeteado, de modo que prenderam o pobre ordenança por três semanas, por falsa acusação. Mas isso não muda nada no caso”, continuou Švejk. “É exatamente a mesma coisa que o estudante de medicina Houbička sempre dizia, que tanto faz retalhar, no instituto patológico, um sujeito que se enforcou ou um que se envenenou. E eu vou com você. Algumas bofetadas têm grande importância no exército.”
Kunert ficou completamente abobalhado e deixou-se conduzir por Švejk ao vagão do Estado-Maior.
O tenente Dub berrou, debruçando-se para fora da janela:
“O que vocês querem aqui, patifes?”
“Comporte-se dignamente”, advertiu Švejk a Kunert, empurrando-o à frente para dentro do vagão.
No corredor surgiu o primeiro-tenente Lukáš e, atrás dele, o capitão Ságner.
O primeiro-tenente Lukáš, que já tivera tantas experiências com Švejk, ficou terrivelmente surpreso, pois Švejk já não exibia aquela expressão séria e bondosa; seu rosto não tinha a conhecida aparência afável, mas antes o sinal de novos acontecimentos desagradáveis.
“Respeitosamente informo, senhor primeiro-tenente”, disse Švejk, “que o assunto vai ao relatório.”
“Só não comece de novo com suas idiotices, Švejk, eu também já estou de saco cheio.”
“Tenha a bondade de permitir”, disse Švejk. “Sou ordenança da sua kumpanie, e o senhor, tenha a bondade de permitir, é o kompaniekomandant da décima primeira. Sei que isso parece terrivelmente estranho, mas também sei que o senhor tenente Dub está abaixo do senhor.”
“Você enlouqueceu de vez, Švejk”, interrompeu-o o primeiro-tenente Lukáš. “Você está bêbado, o melhor que faz é ir embora! Está entendendo, seu idiota, seu animal?”
“Respeitosamente informo, senhor primeiro-tenente”, disse Švejk, empurrando Kunert à sua frente, “que isso se parece exatamente com uma experiência que fizeram certa vez em Praga com uma armação protetora contra atropelamentos por bonde elétrico. O próprio senhor inventor se ofereceu para a experiência, e depois a prefeitura teve de pagar indenização à viúva.”
O capitão Ságner, sem saber o que dizer, assentia com a cabeça, enquanto o primeiro-tenente Lukáš exibia uma expressão desesperada.
“Tudo tem de seguir pelo relatório, respeitosamente informo, senhor primeiro-tenente”, continuou Švejk, implacável. “Ainda em Bruck, o senhor me disse, senhor primeiro-tenente, que, como ordenança da kumpanie, eu tinha outros deveres além de cumprir ordens. Que devia estar informado de tudo o que acontecesse na kumpanie. Com base nessa determinação, tomo a liberdade de lhe comunicar, senhor primeiro-tenente, que o senhor tenente Dub deu mirnikstirniks umas bofetadas no próprio ordenança. Respeitosamente informo, senhor primeiro-tenente, que talvez eu nem dissesse nada. Mas, quando vejo que o senhor tenente Dub está subordinado ao seu comando, decidi que isso precisa seguir pelo relatório.”
“É um caso estranho”, disse o capitão Ságner. “Por que está empurrando Kunert para cá, Švejk?”
“Respeitosamente informo, senhor batalionskomandant, que tudo precisa seguir pelo relatório. Ele é idiota, foi esbofeteado pelo senhor tenente Dub e não consegue tomar a liberdade de ir pessoalmente ao relatório. Respeitosamente informo, senhor Hauptmann, que basta olhar como os joelhos dele estão tremendo; ele está mais morto que vivo porque precisa ir ao relatório. E, não fosse por mim, talvez nem chegasse aqui, como aquele Kudela, de Bytouchov, que, durante o serviço ativo, passou tanto tempo tentando chegar ao relatório que acabou transferido para a marinha, onde virou corneteiro e depois foi declarado desertor numa ilha qualquer do oceano Pacífico. Lá ele se casou e também conversou com o viajante Havlasa, que nem percebeu que ele não era nativo. É realmente muito triste quando alguém precisa ir ao relatório por causa de umas poucas e idiotas bofetadas. Mas ele não queria vir de jeito nenhum, porque dizia que não viria. Ele é um ordenança tão esbofeteado que nem sabe de qual bofetada estamos tratando. Não teria vindo de jeito nenhum, não queria ir ao relatório, pode apanhar muito mais vezes. Respeitosamente informo, senhor Hauptmann, olhe para ele, já está todo cagado de medo. E, por outro lado, devia ter reclamado imediatamente que levou aquelas bofetadas, mas não teve coragem, porque sabia que é melhor, como escreveu um poeta, ser uma violeta modesta. É que ele serve ao senhor tenente Dub.”
Empurrando Kunert à sua frente, Švejk lhe disse:
“Pare de tremer como um carvalho no meio dos álamos!”
O capitão Ságner perguntou a Kunert como aquilo realmente acontecera.
Kunert, porém, tremendo no corpo inteiro, declarou que podiam perguntar ao senhor tenente Dub, pois ele não lhe dera bofetada nenhuma.
Judas Kunert, ainda tremendo por inteiro, chegou a declarar que Švejk havia inventado tudo.
O tenente Dub pôs fim ao penoso acontecimento ao surgir de repente e berrar para Kunert:
“Quer levar outro par de bofetadas?”
O caso ficou, portanto, completamente claro, e o capitão Ságner limitou-se a declarar ao tenente Dub:
“A partir de hoje, Kunert fica destacado para a cozinha do batalhão e, quanto a um novo ordenança, procure o rechnungsfeldvébl Vaněk.”
O tenente Dub bateu continência e, ao sair, disse apenas a Švejk:
“Aposto que um dia o senhor vai acabar pendurado.”
Depois que ele partiu, Švejk voltou-se para o primeiro-tenente Lukáš, num tom suave e amigável:
“Em Mnichovo Hradiště também havia um sujeito desses que falava assim com outro, e o outro lhe respondeu: ‘A gente se encontra no cadafalso.’”
“Švejk”, disse o primeiro-tenente Lukáš, “você é mesmo um idiota, e nem se atreva a me dizer, como é seu costume: ‘Respeitosamente informo que sou idiota.’”
“Frapant”, comentou o capitão Ságner, inclinado junto à janela, e teria gostado muito de se afastar dali, mas já não teve tempo, pois surgiu a desgraça: o tenente Dub estava debaixo da janela.
O tenente Dub começou dizendo que lamentava profundamente que o capitão Ságner tivesse ido embora sem ouvir suas razões sobre a ofensiva na frente oriental.
“Para compreendermos a gigantesca ofensiva”, gritava o tenente Dub para a janela lá em cima, “precisamos ter em mente como a ofensiva se desenvolveu no fim de abril. Tínhamos de romper a frente russa e descobrimos que o local mais favorável para esse rompimento era a frente entre os Cárpatos e o Vístula.”
“Não estou discutindo isso com você”, respondeu secamente o capitão Ságner, afastando-se da janela.
Quando, meia hora depois, prosseguiram a viagem para Sanok, o capitão Ságner estendeu-se no assento e fingiu dormir, para que o tenente Dub esquecesse, enquanto isso, suas considerações batidas sobre a ofensiva.
Baloun estava fazendo falta no vagão de Švejk. Ele havia pedido permissão para limpar com pão o caldeirão do goulash. Encontrava-se agora no vagão das cozinhas de campanha numa situação desagradável, pois, quando o trem começou a andar, caiu de cabeça dentro do caldeirão e suas pernas ficaram penduradas para fora. Acostumou-se, porém, à situação, e do caldeirão ouviam-se estalos de língua como os de um ouriço caçando baratas e, mais tarde, a voz suplicante de Baloun:
“Por favor, camaradas, pelo amor de Deus, joguem aqui um pedaço de pão, ainda tem muito molho.”
Esse idílio durou até a estação seguinte, à qual chegaram com o caldeirão da 1ª kumpanie tão limpo que o revestimento de estanho reluzia.
“Deus lhes pague, camaradas”, agradeceu Baloun cordialmente. “Desde que entrei para o exército, esta foi a primeira vez que a sorte sorriu para mim.”
E realmente havia motivo para dizer isso. No passo de Lupków, Baloun conseguira duas porções de goulash; o primeiro-tenente Lukáš também manifestara satisfação porque Baloun lhe trouxera intacta a ração da cozinha dos oficiais e deixara para ele uma boa metade. Baloun estava completamente feliz, balançava as pernas que deixara para fora do vagão e, de repente, toda aquela guerra lhe pareceu algo acolhedor e familiar.
O cozinheiro da kumpanie começou a caçoar dele, dizendo que, quando chegassem a Sanok, fariam o jantar e ainda mais um almoço, pois tinham aquele jantar e aquele almoço de crédito por toda a viagem, já que não os haviam recebido. Baloun apenas assentia com a cabeça e sussurrava:
“Vocês vão ver, camaradas, que Deus não vai nos abandonar.”
Todos riram sinceramente, e o cozinheiro, sentado na cozinha de campanha, pôs-se a cantar:
Župajdijáh, župajdá,
Deus não há de nos enterrar.
Se nos enterrar na lama,
há de nos desenterrar.
Se nos enfiar no mato,
há de nos tirar a dentadas.
Župajdijá, župajdá,
Deus não há de nos enterrar...
Depois da estação de Ščavne, começaram a aparecer novamente, nos vales, novos cemitérios militares. Abaixo de Ščavne, via-se do trem uma cruz de pedra com Nosso Senhor Jesus Cristo sem cabeça, que perdera a cabeça durante a demolição da linha.
O trem aumentava a velocidade, serpenteava vale abaixo em direção a Sanok, os horizontes se alargavam e, com isso, tornavam-se mais numerosos os grupos inteiros de aldeias destruídas dos dois lados, pela região.
Perto de Kulašná, via-se lá embaixo, dentro do riacho, do alto do aterro ferroviário, um trem da Cruz Vermelha despenhado e destroçado.
Baloun arregalou os olhos para aquilo e admirou-se sobretudo com as partes da locomotiva espalhadas lá embaixo. A chaminé estava cravada no aterro ferroviário e saía dele como um canhão de vinte e oito.
A visão também despertou a atenção no vagão em que estava Švejk. Quem mais se exaltou foi o cozinheiro Jurajda:
“Mas pode atirar nos vagões da Cruz Vermelha?”
“Não pode, mas dá”, disse Švejk. “Foi um belo tiro, e depois todo mundo pede desculpa, dizendo que era noite e que não dava para ver a cruz vermelha. No mundo, aliás, tem um monte de coisa que não se pode fazer, mas que dá para executar. O principal é cada um experimentar para ver se consegue, quando não pode, para poder. Nas manobras imperiais lá pela região de Písek, veio uma ordem dizendo que não se podia amarrar os soldados em posição de bode durante a marcha. Mas o nosso capitão descobriu que dava, porque uma ordem dessas era ridícula demais, qualquer um podia entender facilmente que um soldado amarrado em posição de bode não consegue marchar. Então ele, na verdade, não contornava a ordem: mandava simplesmente, e com toda a sensatez, jogar os soldados amarrados em posição de bode nas carroças do trem militar e continuava marchando com eles. Ou então um caso que aconteceu na nossa rua uns cinco ou seis anos atrás. Morava lá um tal senhor Karlík, no primeiro andar. Um andar acima, um sujeito muito boa gente, um tal Mikeš, estudante do conservatório. Ele gostava muito de mulher e, entre outras, começou a andar atrás da filha desse senhor Karlík, que tinha uma transportadora e uma confeitaria e também tinha em algum lugar da Morávia uma encadernadora sob o nome de uma firma completamente estrangeira. Quando o senhor Karlík soube que o estudante do conservatório estava andando atrás da filha dele, foi visitá-lo em casa e disse: ‘Você não pode se casar com a minha filha, seu vagabundo. Eu não dou ela para você!’ ‘Está bem’, respondeu o senhor Mikeš. ‘Se não posso me casar com ela, o que é que eu vou fazer, me rasgar ao meio?’ Dois meses depois, o senhor Karlík apareceu de novo, trouxe a esposa e os dois disseram em uníssono: ‘Seu canalha, você tirou a honra da nossa filha!’ ‘Certamente’, respondeu ele, ‘tomei a liberdade de foder com ela, minha senhora.’ O senhor Karlík começou a berrar inutilmente que já tinha dito que ele não podia se casar com ela, que não a daria para ele, mas o outro respondeu, com toda a razão, que também não ia se casar com ela e que, naquela ocasião, não se falara nada sobre o que ele podia fazer com ela. Que isso não tinha sido discutido, que ele cumpria a palavra, que podiam ficar tranquilos, pois não a queria, que era um homem de caráter, que não mudava de lado conforme o vento, que cumpria a palavra e que, quando dizia uma coisa, aquilo era sagrado. E, se fosse perseguido por causa disso, também não se importava, porque tinha a consciência limpa e sua falecida mãe, ainda no leito de morte, o fizera jurar que jamais mentiria na vida, e ele prometera apertando-lhe a mão, e um juramento desses era válido. Na família dele, ninguém jamais mentia, e ele sempre tivera na escola a melhor nota em comportamento. Portanto, vocês estão vendo que muita coisa não se pode, mas dá, e que os caminhos podem ser diferentes, desde que todos tenhamos a mesma vontade.”
“Meus caros amigos”, disse o voluntário de um ano, que fazia anotações com grande empenho, “tudo o que é ruim também tem seu lado bom. Esse trem da Cruz Vermelha explodido, meio queimado e lançado do aterro enriquece a gloriosa história do nosso batalhão com um novo ato heroico do futuro. Imagino que, por volta de 16 de setembro, como já anotei, alguns soldados rasos de cada companhia do nosso batalhão, sob o comando de um cabo, apresentar-se-ão como voluntários para explodir um trem blindado inimigo que nos bombardeia e impede nossa travessia do rio. Cumpriram honrosamente sua missão, disfarçados de camponeses... Mas o que é que estou vendo?”, exclamou o voluntário de um ano, olhando suas anotações. “Como foi que o nosso senhor Vaněk veio parar aqui? Escute, senhor rechnungsfeldvébl”, dirigiu-se a Vaněk, “que belo artigo vai haver sobre o senhor na história do batalhão. Desconfio que o senhor já aparece uma vez, mas isto aqui será decididamente melhor e mais substancioso.”
O voluntário de um ano leu em voz solene:
“‘A morte heroica do sargento-contador Vaněk.’ Para a audaciosa missão de explodir o trem blindado inimigo, apresentou-se também como voluntário o sargento-contador Vaněk, disfarçado, como os demais, em trajes de camponês. Atordoado pela explosão provocada, quando tornou a si, viu-se cercado pelo inimigo, que imediatamente o conduziu ao Estado-Maior de uma divisão inimiga, onde, cara a cara com a morte, recusou-se a dar qualquer explicação sobre a posição e a força de nossas tropas. Como se encontrava disfarçado, foi condenado, na qualidade de espião, à morte por enforcamento, pena que, em consideração à sua alta patente, foi comutada em morte por fuzilamento. A execução realizou-se imediatamente junto ao muro do cemitério, e o valente sargento-contador Vaněk pediu que não lhe vendassem os olhos. Perguntado se tinha algum último desejo, respondeu: ‘Transmitam, por intermédio de um parlamentar, minha última saudação ao meu batalhão e digam que morro convencido de que nosso batalhão prosseguirá em seu caminho vitorioso. Digam ainda ao senhor capitão Ságner que, segundo a última ordem da brigada, a porção diária de conservas aumenta para duas conservas e meia por homem.’ Assim morreu nosso sargento-contador Vaněk, despertando com sua última frase um pânico terrível no inimigo, que julgava que, impedindo nossa travessia do rio e cortando-nos dos pontos de abastecimento, provocaria em breve nossa fome e, com ela, a desmoralização em nossas fileiras. De sua serenidade diante da morte dá testemunho o fato de que, antes de sua execução, jogou kaufcvik com os oficiais do Estado-Maior inimigo. ‘Entreguem a quantia que ganhei à Cruz Vermelha russa’, disse, já diante dos canos dos fuzis. Essa nobre generosidade comoveu os representantes militares presentes até as lágrimas. Perdoe-me, senhor Vaněk”, continuou o voluntário de um ano, “por ter tomado a liberdade de dispor do dinheiro que o senhor ganhou. Pensei se talvez não devia ser entregue à Cruz Vermelha austríaca, mas finalmente presumo que, do ponto de vista da humanidade, tanto faz, desde que seja entregue a uma instituição humanitária.”
“Esse nosso falecido podia”, disse Švejk, “ter entregado ao instituto de sopas da cidade de Praga, mas desse jeito é melhor mesmo; vai que o senhor prefeito comprasse com a quantia uma linguiça de sangue para o lanche.”
“É, roubam em todo lugar”, disse o telefonista Chodounský.
“Principalmente na Cruz Vermelha”, declarou, muito zangado, o cozinheiro Jurajda. “Eu tinha em Bruck um cozinheiro conhecido que cozinhava para as irmãzinhas no barracão, e ele me contou como a superiora das irmãs e as enfermeiras-chefes mandavam para casa caixas inteiras de Málaga e chocolate. A oportunidade traz isso por si só, é a autodeterminação do ser humano. Cada pessoa atravessa, em sua vida infinita, incontáveis transformações e, em determinado período de sua atividade, precisa aparecer neste mundo como ladrão. Eu mesmo já atravessei um desses períodos.”
O cozinheiro ocultista Jurajda tirou da mochila uma garrafa de conhaque.
“Aqui está”, disse, abrindo a garrafa, “a prova infalível da minha afirmação. Peguei-a na messe dos oficiais antes da partida. O conhaque é da melhor marca e deveria ser usado nas coberturas de açúcar dos bolos de Linz. Mas estava predestinado a ser roubado por mim, assim como eu estava predestinado a me tornar ladrão.”
“E também não seria nada mau”, manifestou-se Švejk, “se estivéssemos predestinados a ser seus cúmplices. Pelo menos eu tenho um pressentimento desses.”
E a predestinação realmente se confirmou. A garrafa passou de mão em mão, apesar dos protestos do sargento-contador Vaněk, que alegava que o conhaque devia ser bebido num caneco e dividido com justiça, pois eram cinco ao todo para uma garrafa e, com um número ímpar, facilmente podia acontecer de alguém beber exatamente um gole a mais que os outros, ao que Švejk observou:
“É verdade. Se o senhor Vaněk quer um número par, que saia da sociedade, para não haver nenhum aborrecimento nem briga.”
Vaněk retirou a proposta e apresentou outra, generosa, de que o doador Jurajda fosse colocado numa ordem que lhe permitisse beber duas vezes, o que provocou uma tempestade de protestos, pois Jurajda já bebera uma vez, ao provar o conhaque durante a abertura da garrafa.
Por fim, foi aceita a proposta do voluntário de um ano de beberem por ordem alfabética, o que ele justificou dizendo que o nome de cada um também era uma espécie de predestinação.
Chodounský, o primeiro na ordem alfabética, acabou com a garrafa, sob o olhar ameaçador de Vaněk, que calculara que, sendo o último, teria um gole a mais, o que constituía um grosseiro erro matemático, pois tinham sido vinte e um goles.
Depois jogaram kaufcvik comum de três cartas; descobriu-se que, toda vez que comprava cartas, o voluntário de um ano recorria a discursos piedosos das Sagradas Escrituras. Comprando um valete, exclamou:
“Senhor, deixa-me ainda este valete e também este ano, para que eu cave ao redor dele e o adube, a fim de que me dê fruto.”
Quando lhe censuraram ter ousado comprar até mesmo um oito, bradou em voz alta:
“Ou qual é a mulher que, tendo dez moedas e perdendo uma, não acende uma vela e procura com diligência até encontrá-la? E, quando a encontra, chama as vizinhas e amigas, dizendo: ‘Alegrai-vos comigo, pois comprei um oito e, nas cartas, adquiri o rei de trunfos com o ás!’ Agora me deem essas cartas, vocês todos caíram aí.”
O voluntário de um ano Marek realmente tinha muita sorte nas cartas. Enquanto os outros cortavam os trunfos uns dos outros, ele sempre batia os trunfos já cortados com o trunfo mais alto, de maneira que iam caindo um depois do outro, enquanto ele recolhia aposta após aposta e gritava aos derrotados:
“E haverá grandes terremotos em diversos lugares, e fomes, e pestes, e coisas espantosas, e grandes sinais no céu.”
Por fim, já estavam fartos daquilo e pararam de jogar quando o telefonista Chodounský perdeu antecipadamente seu soldo de meio ano. Ficou arrasado, e o voluntário de um ano exigiu dele promissórias pelas quais, no pagamento do soldo, o sargento-contador Vaněk entregaria a ele o soldo de Chodounský.
“Não tenha medo, Chodounský”, consolou-o Švejk. “Se você tiver sorte, cai no primeiro combate e o Marek fica chupando o dedo pelos seus soldos. É só assinar.”
A menção a cair em combate desagradou profundamente a Chodounský, de modo que ele disse com firmeza:
“Eu não posso cair, porque sou telefonista, e os telefonistas ficam sempre no abrigo, e os fios só são estendidos, ou os defeitos procurados, depois do combate.”
O voluntário de um ano observou que os telefonistas, muito pelo contrário, estavam expostos a grande perigo e que a artilharia inimiga tinha sempre como alvo principal justamente os telefonistas. Nenhum telefonista estava seguro em seu abrigo. Ainda que estivessem dez metros debaixo da terra, a artilharia inimiga acabaria encontrando-os. Que os telefonistas morriam como granizo numa chuva de verão era demonstrado pelo fato de que, quando ele deixara Bruck, estavam justamente abrindo ali o vigésimo oitavo curso para telefonistas.
Chodounský ficou olhando angustiado para a frente, o que moveu Švejk a dirigir-lhe uma palavra amigável e bondosa:
“Em resumo, você está metido numa bela trapaça.”
Chodounský respondeu com gentileza:
“Cale a boca, titia.”
“Vou olhar a letra Ch nas minhas anotações sobre a história do batalhão... Chodounský... Chodounský, hum, ahá, aqui está: ‘Telefonista Chodounský, soterrado por uma mina. Telefona de sua tumba para o Estado-Maior: Estou morrendo e felicito meu batalhão pela vitória!’”
“Isso tem que bastar”, disse Švejk, “ou você ainda quer acrescentar alguma coisa? Lembra daquele telefonista do Titanic que, quando o navio já estava afundando, continuava telefonando lá para baixo, para a cozinha inundada, perguntando a que horas sairia o almoço?”
“Para mim tanto faz”, disse o voluntário de um ano. “Se for o caso, a declaração de Chodounský antes da morte pode ser completada com ele gritando ao telefone, no fim: ‘Mandem minhas saudações à nossa brigada de ferro!’”
Edição integral em português brasileiro de As Aventuras do Bom Soldado Švejk, traduzida diretamente do original tcheco de domínio público, preservando a estrutura dos quatro livros e suas 29 unidades.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.