Leia agora
As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Universo da obra

As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Capítulo 9 · As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Livro I: Na retaguarda — Švejk como simulador

9 de 29 ≈ 31 min de leitura

Livro I: Na retaguarda

Švejk como simulador

Naquela grande época, os médicos militares se empenhavam extraordinariamente para expulsar dos simuladores o demônio da sabotagem e devolvê-los ao seio do Exército.

Foram instituídos vários graus de tormento para os simuladores e para as pessoas suspeitas de simulação, entre as quais se encontravam tuberculosos, reumáticos, pessoas com hérnias, doenças renais, tifo, diabetes, pneumonia e outras enfermidades.

Os tormentos aos quais os simuladores eram submetidos foram sistematizados, e seus graus eram os seguintes:

Dieta absoluta, uma xícara de chá de manhã e outra à noite durante três dias, sendo administrada aspirina para provocar suor a todos, sem distinção quanto ao mal de que se queixassem.
Para que não imaginassem que a guerra era um mar de mel, administrava-se quinino em pó em doses abundantes, no chamado “lamber quinino”.
Lavagem do estômago duas vezes por dia com um litro de água morna.
Enema com água e sabão e glicerina.
Envolvimento num lençol molhado em água fria.

Houve homens valentes que suportaram todos os cinco graus de tormento e se deixaram levar num caixão simples para o cemitério militar. Houve, porém, homens pusilânimes que, ao chegarem ao enema, declararam já estar curados e não desejar outra coisa senão partir com o batalhão de marcha mais próximo para as trincheiras.

Na prisão da guarnição, Švejk foi instalado no barracão hospitalar justamente entre esses simuladores pusilânimes.

“Não aguento mais”, disse seu vizinho de cama, que acabara de voltar da sala de atendimento, onde lhe haviam lavado o estômago pela segunda vez.

Aquele homem simulava miopia.

“Amanhã vou para o regimento”, decidiu o segundo vizinho, do lado esquerdo, que acabara de receber um enema e simulava ser completamente surdo.

Numa cama junto à porta, morria um tuberculoso envolvido num lençol molhado em água fria.

“Já é o terceiro nesta semana”, observou o vizinho da direita. “E o que você tem?”

“Tenho reumatismo”, respondeu Švejk.

Seguiu-se uma gargalhada sincera de todos ao redor. Até o tuberculoso moribundo, que simulava tuberculose, riu.

“Não venha para o nosso meio com reumatismo”, advertiu Švejk com seriedade um homem gordo. “Aqui reumatismo vale tanto quanto calo. Eu sou anêmico, já me tiraram metade do estômago e cinco costelas, e ninguém acredita em mim. Houve aqui até um surdo-mudo. Durante quatorze dias, a cada meia hora, enrolavam-no num lençol molhado em água fria. Todos os dias lhe davam enema e bombeavam o estômago. Todos os enfermeiros já achavam que ele tinha vencido e iria para casa, quando o médico lhe receitou uma coisa para provocar vômitos. Aquilo podia acabar com ele, e então perdeu a coragem.

‘Não consigo mais’, disse ele. ‘Não consigo continuar fazendo papel de surdo-mudo. Minha fala e minha audição voltaram.’

Todos os doentes tentaram convencê-lo a não se arruinar, mas ele insistiu que ouvia e falava como os demais. E foi exatamente isso que declarou na visita médica da manhã.”

“Ele aguentou bastante”, observou um homem que simulava ter uma perna dez centímetros mais curta. “Não como aquele que fingia ter sofrido uma apoplexia. Bastaram três doses de quinino, um enema e um dia de jejum. Ele confessou, e antes de chegarem à lavagem do estômago já não restava sinal algum da apoplexia. O que aguentou mais tempo aqui foi o sujeito mordido por um cachorro raivoso. Mordia, uivava, isso é verdade, fazia tudo de maneira excelente, mas não conseguia produzir espuma na boca. Nós o ajudávamos como podíamos. Às vezes fazíamos cócegas nele durante uma hora inteira antes da visita médica, até ele ter convulsões e ficar azul, mas a espuma na boca não aparecia e nunca apareceu. Era uma coisa terrível. Quando desistiu naquela manhã, durante a visita, ficamos com pena dele. Pôs-se rígido junto da cama, prestou continência e disse:

‘Respeitosamente informo, senhor médico-chefe, que talvez o cachorro que me mordeu não estivesse raivoso.’

O médico-chefe olhou para ele de um jeito tão estranho que o mordido começou a tremer pelo corpo inteiro e prosseguiu:

‘Respeitosamente informo, senhor médico-chefe, que cachorro nenhum me mordeu. Eu mesmo mordi minha mão.’

Depois dessa confissão, investigaram-no por automutilação, porque tentara arrancar a própria mão com os dentes para não precisar ir para a frente.”

“Todas essas doenças que precisam de espuma na boca”, disse o gordo simulador, “são difíceis de simular. Como, por exemplo, a epilepsia. Também houve aqui um epiléptico. Ele sempre nos dizia que uma crise a mais ou a menos não fazia diferença, e então tinha até dez por dia. Retorcia-se nas convulsões, fechava os punhos, arregalava os olhos até parecerem saltar para fora, debatia-se, punha a língua para fora. Em resumo, digo a vocês, era uma epilepsia magnífica, de primeira classe, muito convincente. De repente apareceram-lhe furúnculos, dois no pescoço e dois nas costas, e acabaram-se os contorcionismos e as pancadas no chão, porque ele não conseguia mover a cabeça, sentar-se nem se deitar. Teve febre e, durante a febre, contou tudo na visita médica. E aqueles furúnculos nos fizeram passar por maus bocados, porque ele teve de ficar mais três dias conosco e recebia a segunda dieta: de manhã, café com pãozinho; no almoço, sopa, molho e bolinho; à noite, mingau ou sopa. E nós, com os estômagos famintos e lavados, sob dieta absoluta, tínhamos de ficar olhando aquele sujeito comer, estalar a boca, bufar e arrotar de satisfação. Ele fez três desistirem. Eles também confessaram. Estavam internados por doença cardíaca.”

“O melhor”, opinou um dos simuladores, “é simular loucura. Do nosso corpo docente há dois no quarto ao lado. Um grita sem parar, de dia e de noite:

‘A fogueira de Giordano Bruno ainda fumega! Reabram o processo de Galileu!’

E o outro late. Primeiro três vezes devagar:

‘Au, au, au.’

Depois cinco vezes depressa:

‘Auauauauau.’

E então devagar outra vez. E assim continua sem parar. Já resistiram por mais de três semanas. No começo eu também queria me fazer de louco, de fanático religioso, e pregar sobre a infalibilidade do papa, mas no fim comprei de um barbeiro de Malá Strana um câncer de estômago por quinze coroas.”

“Conheço um limpador de chaminés em Břevnov”, observou outro paciente. “Por dez coroas ele provoca uma febre tão alta que você salta pela janela.”

“Isso não é nada”, disse outro. “Em Vršovice há uma parteira que, por vinte coroas, desloca sua perna tão bem que você fica aleijado pelo resto da vida.”

“Minha perna deslocada custou cinco coroas”, ouviu-se da fileira de camas junto à janela. “Cinco coroas e três cervejas.”

“Minha doença já me custou mais de duzentas”, declarou o vizinho, uma vara ressequida. “Digam o nome de qualquer veneno que eu não tenha usado. Não vão encontrar. Sou um armazém vivo de venenos. Bebi sublimado corrosivo, inalei vapores de mercúrio, mastiguei arsênico, fumei ópio, bebi tintura de ópio, espalhei morfina sobre o pão, engoli estricnina, bebi solução de fósforo em dissulfeto de carbono e ácido pícrico. Destruí fígado, pulmões, rins, vesícula, cérebro, coração e intestinos. Ninguém sabe qual é minha doença.”

“O melhor”, explicou alguém junto à porta, “é injetar querosene sob a pele do braço. Meu primo teve tanta sorte que cortaram o braço dele abaixo do cotovelo e agora está livre de toda a guerra.”

“Estão vendo?”, disse Švejk. “Cada um precisa passar por tudo isso pelo senhor imperador. Até pela lavagem do estômago e pelo enema. Quando servi no meu regimento, anos atrás, era ainda pior. Amarravam o doente de braços e pernas e o jogavam num buraco, para que se curasse. Não havia camas com catres como aqui, nem escarradeiras. Só uma prancha nua, onde os doentes ficavam deitados. Uma vez um tinha tifo verdadeiro e o outro, ao lado, varíola negra. Os dois estavam amarrados de braços e pernas, e o médico do regimento os chutava na barriga, dizendo que eram simuladores. Depois, quando os dois soldados morreram, o caso chegou ao Parlamento e saiu nos jornais. Logo nos proibiram de ler aqueles jornais e fizeram uma busca nos baús para descobrir quem os tinha. E, como sempre tenho azar, no regimento inteiro não encontraram os jornais com ninguém além de mim. Então me levaram ao relatório do regimento, e nosso coronel, um asno, que Deus lhe dê o céu, começou a berrar para que eu ficasse reto e dissesse quem escrevera aquilo no jornal, senão rasgaria minha boca de uma orelha à outra e me mandaria prender até eu ficar preto. Depois chegou o médico do regimento, agitou o punho diante do meu nariz e gritou:

‘Sie verfluchter Hund, Sie schäbiges Wesen, Sie unglückliches Mistvieh, seu moleque socialista!’

Olhei com sinceridade nos olhos de todos, sem piscar, e fiquei em silêncio, com a mão no quepe e a esquerda na costura das calças. Corriam ao meu redor como cachorros, latiam para mim, e eu continuava sem dizer nada. Em silêncio, prestando continência, a mão esquerda na costura das calças. Depois que ficaram assim por cerca de meia hora, o coronel avançou sobre mim e berrou:

‘Você é idiota ou não é?’

‘Respeitosamente informo, senhor coronel, que sou idiota.’

‘Vinte e um dias de prisão rigorosa por idiotice, dois jejuns por semana, um mês de detenção no quartel, quarenta e oito horas de algemas, prendam-no imediatamente, não deem comida, amarrem-no e mostrem que o erário não precisa de idiotas. Vamos tirar esses jornais da sua cabeça, seu canalha’, decidiu o senhor coronel depois de tanto correr de um lado para o outro.

Enquanto eu estava preso, aconteciam maravilhas no quartel. Nosso coronel proibiu os soldados de ler qualquer coisa, mesmo que fossem os Diários Oficiais de Praga. Na cantina nem salsichas nem queijinhos podiam ser embrulhados em jornal. A partir daquele momento, os soldados começaram a ler, e nosso regimento tornou-se o mais instruído de todos. Líamos todos os jornais e, em cada companhia, compúnhamos versinhos e canções contra o senhor coronel. E, quando acontecia alguma coisa no regimento, sempre aparecia entre a tropa algum benfeitor que mandava a notícia aos jornais com o título ‘Maus-tratos contra soldados’. E isso não lhes bastava. Escreviam aos deputados em Viena para que os defendessem, e eles começaram a apresentar uma interpelação atrás da outra, dizendo que nosso senhor coronel era uma fera e coisas semelhantes. Algum ministro mandou uma comissão para investigar, e depois um tal de Franta Henčl, de Hluboká, recebeu dois anos, porque fora ele quem recorrera aos deputados de Viena por causa da bofetada que levara do senhor coronel no campo de exercícios. Depois que a comissão foi embora, o senhor coronel mandou formar todos nós, o regimento inteiro, e disse que soldado é soldado, que deve calar a boca e servir, e que, quando alguma coisa não lhe agrada, isso constitui violação da subordinação.

‘Então vocês, canalhas, acharam que aquela comissão iria ajudá-los’, disse o senhor coronel. ‘Ajudou uma merda. Agora cada companhia vai desfilar diante de mim e repetir em voz alta o que acabei de dizer.’

Então fomos, uma companhia após outra, rechts schaut, onde estava o senhor coronel, a mão na correia do fuzil, e gritávamos para ele:

‘Então nós, canalhas, achamos que aquela comissão iria nos ajudar. Ajudou uma merda.’

O senhor coronel ria segurando a barriga, até chegar a décima primeira companhia. Ela vem, marcha, e, quando chega diante do coronel, nada. Silêncio. Nem um som. O senhor coronel ficou vermelho feito um galo e mandou a décima primeira companhia voltar para repetir tudo. Ela desfila e permanece calada. Fileira após fileira encara atrevidamente o senhor coronel.

‘Ruht!’, disse o coronel.

Ficou andando pelo pátio, batendo o chicotinho nas botas, cuspindo. De repente parou e berrou:

‘Abtreten!’

Montou em seu pangaré e saiu pelo portão. Ficamos esperando para ver o que aconteceria com a décima primeira companhia, e nada. Esperamos um dia, dois dias, uma semana inteira, e continuou não acontecendo nada. O senhor coronel nem apareceu mais no quartel, para grande alegria da tropa, dos graduados e dos oficiais. Depois recebemos um coronel novo, e sobre o antigo se dizia que estava em algum sanatório porque escrevera de próprio punho uma carta ao senhor imperador afirmando que a décima primeira companhia se amotinara.”

Aproximava-se a hora da visita médica da tarde. O médico militar Grünstein ia de cama em cama, seguido pelo suboficial sanitário com o livro de registros.

“Macuna?!”

“Presente!”

“Enema e aspirina! Pokorný?!”

“Presente!”

“Lavagem do estômago e quinino! Kovařík?!”

“Presente!”

“Enema e aspirina! Koťátko?!”

“Presente!”

“Lavagem do estômago e quinino!”

E assim prosseguiu, um depois do outro, sem piedade, mecanicamente, com energia.

“Švejk?!”

“Presente!”

O doutor Grünstein olhou para o recém-chegado.

“O que o senhor tem?”

“Respeitosamente informo que tenho reumatismo!”

Durante sua prática, o doutor Grünstein adquirira o hábito de ser delicadamente irônico, método que produzia efeito muito mais vigoroso que os gritos.

“Ah, reumatismo”, disse a Švejk. “É uma doença terrivelmente grave. Realmente uma coincidência pegar reumatismo justamente quando há uma guerra mundial e a pessoa deve ir para o Exército. Imagino que isso deve deixá-lo terrivelmente triste.”

“Respeitosamente informo, senhor médico-chefe, que isso me deixa terrivelmente triste.”

“Vejam só, ele está triste. É muito bonito de sua parte ter se lembrado de nós com esse reumatismo justamente agora. Em tempos de paz, um pobre desses corre feito cabritinho, mas, assim que estoura a guerra, aparece o reumatismo e os joelhos deixam de funcionar. Seus joelhos não doem?”

“Respeitosamente informo que doem.”

“E o senhor não consegue dormir a noite inteira, não é verdade? O reumatismo é uma doença muito perigosa, dolorosa e grave. Já temos uma grande experiência com reumáticos. A dieta absoluta e nossos demais métodos de tratamento demonstraram excelente eficácia. Ficará saudável aqui antes do que em Piešťany e marchará para as posições levantando uma nuvem de poeira.”

Voltando-se para o suboficial sanitário, disse:

“Anote: Švejk, dieta absoluta, lavagem do estômago duas vezes por dia, um enema diário, e depois veremos. Por enquanto, levem-no à sala de atendimento, lavem-lhe o estômago e, quando se recuperar, apliquem-lhe um enema, mas um enema de verdade, até ele invocar todos os santos, para que o reumatismo se assuste e saia correndo.”

Voltando-se então para todas as camas, pronunciou um discurso cheio de belas e sensatas sentenças:

“Não imaginem que têm diante de vocês algum boi que aceita qualquer história que lhe contem. O comportamento de vocês não me tira de equilíbrio. Sei que são todos simuladores, que querem desertar do Exército. E é de acordo com isso que os trato. Sobrevivi a centenas e centenas de soldados iguais a vocês. Nestas camas deitaram-se multidões inteiras de pessoas às quais não faltava nada além de espírito militar. Enquanto os companheiros lutavam no campo, elas imaginavam que poderiam ficar deitadas numa cama, receber comida de hospital e esperar a guerra passar. Mas se enganaram terrivelmente, e todos vocês também vão se enganar terrivelmente. Daqui a vinte anos ainda gritarão durante o sono, quando sonharem que estiveram simulando diante de mim.”

“Respeitosamente informo, senhor médico-chefe”, ouviu-se em voz baixa da cama junto à janela, “que já estou curado. Durante a noite percebi que minha asma passou.”

“Seu nome?”

“Kovařík, respeitosamente informo. Devo receber um enema.”

“Muito bem, ainda receberá um enema para a viagem”, decidiu o doutor Grünstein, “para não se queixar de que não o tratamos aqui. Agora todos os doentes cujos nomes li devem seguir o suboficial, para que cada um receba o que lhe cabe.”

E cada um recebeu honestamente a porção prescrita. E, se alguns tentaram influenciar os executores das ordens médicas com súplicas ou ameaças, dizendo que também se alistariam no serviço sanitário e que talvez um dia aqueles homens caíssem em suas mãos, Švejk se manteve valente.

“Não me poupe”, encorajava o carrasco que lhe aplicava o enema. “Lembre-se de seu juramento. Mesmo que seu pai ou seu próprio irmão estivessem deitados aqui, dê-lhes um enema sem piscar. Pense que a Áustria depende de enemas como este, e a vitória será nossa.”

No dia seguinte, durante a visita, o doutor Grünstein perguntou a Švejk o que achava do hospital militar.

Švejk respondeu que era uma instituição correta e nobre. Como recompensa, recebeu o mesmo que no dia anterior, além de aspirina e três pós de quinino, que despejaram na água para que bebesse imediatamente. Nem Sócrates bebeu sua taça de cicuta com a mesma serenidade com que Švejk bebeu o quinino, enquanto o doutor Grünstein experimentava nele todos os graus de tormento.

Quando enrolaram Švejk num lençol molhado, na presença do médico, ele respondeu à pergunta sobre como estava gostando:

“Respeitosamente informo, senhor médico-chefe, que é como numa piscina ou num balneário marítimo.”

“Ainda tem reumatismo?”

“Respeitosamente informo, senhor médico-chefe, que ele não quer melhorar de jeito nenhum.”

Švejk foi submetido a um novo tormento.

Naquela época, a viúva do general de infantaria, baronesa von Botzenheim, estava muito ocupada tentando localizar o soldado sobre o qual a Bohemia publicara recentemente uma notícia, contando como ele, um aleijado, se deixara transportar numa cadeira para enfermos e gritara “Para Belgrado!”, manifestação patriótica que levara a redação da Bohemia a conclamar os leitores a fazer donativos em benefício do leal herói aleijado.

Finalmente, por meio de uma consulta à direção de polícia, descobriu-se que se tratava de Švejk, e depois disso foi fácil localizá-lo. A baronesa von Botzenheim levou consigo sua dama de companhia e o criado, que carregava um cesto, e todos seguiram para Hradčany.

A pobre senhora baronesa nem sequer sabia o que significava alguém estar internado no hospital militar da prisão da guarnição. Seu cartão de visita abriu-lhe as portas da prisão e, no escritório, trataram-na com extrema amabilidade. Em cinco minutos já sabia que “der brave Soldat Švejk”, por quem perguntava, estava no terceiro barracão, cama número 17. O próprio doutor Grünstein foi com ela, completamente desnorteado.

Švejk estava sentado na cama depois do tratamento diário habitual prescrito pelo doutor Grünstein, cercado por um grupo de simuladores magros e famintos, que ainda não haviam desistido e continuavam lutando obstinadamente contra o doutor Grünstein no terreno da dieta absoluta.

Quem os escutasse teria a impressão de estar entre especialistas em culinária, numa escola superior de cozinha ou num curso para gastrônomos.

“Até os torresmos ordinários de sebo podem ser comidos”, contava justamente um homem internado com catarro crônico no estômago, “quando estão quentes. Quando o sebo está derretendo, espreme-se tudo até ficar seco, põe-se sal e pimenta, e digo a vocês que nem torresmo de ganso se compara.”

“Deixe o torresmo de ganso em paz”, disse o homem com câncer no estômago. “Não há nada melhor que torresmo de ganso. Torresmo de porco não chega nem perto. É claro que precisa ficar dourado, como os judeus fazem. Pegam um ganso gordo, retiram a gordura junto da pele e põem tudo para derreter.”

“Sabia que está enganado a respeito dos torresmos de porco?”, observou o vizinho de Švejk. “Naturalmente estou falando dos torresmos feitos com banha caseira, aqueles que chamam de torresmos caseiros. Não devem ser marrons nem amarelos. Precisam ficar entre essas duas tonalidades. Um torresmo desses não pode ser macio demais nem duro demais. Não deve estalar, porque isso significa que queimou. Precisa derreter na língua, e você não pode ter a impressão de que a gordura está escorrendo por seu queixo.”

“Quem de vocês já comeu torresmo de gordura de cavalo?”, perguntou uma voz.

Ninguém respondeu, porque o suboficial sanitário entrou correndo:

“Todos para a cama! Está vindo alguma arquiduquesa. Ninguém deixe os pés sujos para fora da coberta!”

Nem uma arquiduquesa poderia ter entrado com tanta solenidade quanto a baronesa von Botzenheim. Atrás dela avançava todo um cortejo, do qual fazia parte até o sargento contador do hospital, que via em tudo aquilo a mão misteriosa de uma inspeção que o arrancaria do gordo cocho da retaguarda e o lançaria à mercê dos estilhaços, em algum lugar diante das barreiras de arame das posições.

Estava pálido, mas o doutor Grünstein estava ainda mais pálido. Diante de seus olhos dançava o pequeno cartão de visitas da velha baronesa, com o título “viúva de general”, e tudo o que podia estar ligado àquele título, como relações, proteção, queixas, transferência para a frente e outras coisas terríveis.

“Aqui está Švejk”, disse, mantendo uma calma artificial enquanto conduzia a baronesa von Botzenheim até a cama de Švejk. “Ele se comporta com muita paciência.”

A baronesa von Botzenheim sentou-se na cadeira colocada junto à cama de Švejk e disse:

“Ceque soldato, pom soldato, soldato aleijato ser soldato corajoso, eu gostar muito ceque austríaco.”

Enquanto isso, acariciava o rosto por barbear de Švejk e prosseguia:

“Eu ler tudo nos jornal, eu trazer para você papar, morder, fumar, chupar, soldato ceque, pom soldato. Johann, kommen Sie her!”

O criado, cujas suíças eriçadas lembravam Babinský, arrastou o cesto volumoso até a cama, enquanto a dama de companhia da velha baronesa, uma mulher alta de rosto lacrimejante, sentou-se na cama de Švejk e ajeitou-lhe o travesseiro de palha nas costas, dominada pela ideia fixa de que era assim que se devia tratar os heróis enfermos.

Enquanto isso, a baronesa retirava os presentes do cesto. Uma dúzia de frangos assados, embrulhados em papel de seda cor-de-rosa e amarrados com fitas de seda negro-amarelas; duas garrafas de algum licor de guerra, com o rótulo “Gott strafe England!”. No outro lado do rótulo apareciam Francisco José e Guilherme de mãos dadas, como se quisessem brincar de “O coelhinho estava sozinho na toca, pobrezinho, o que você tem que não consegue saltar?”.

Depois tirou do cesto três garrafas de vinho para convalescentes e duas caixas de cigarros. Dispôs tudo elegantemente sobre a cama vazia ao lado de Švejk, onde foi colocado também um exemplar ricamente encadernado de Histórias da vida de nosso soberano, escrito pelo atual e meritório redator-chefe oficial de nossa República Tchecoslovaca, que nutria verdadeira adoração pelo velho Frantík. Em seguida apareceram sobre a cama tabletes de chocolate com a mesma inscrição “Gott strafe England!” e novamente com os retratos dos imperadores austríaco e alemão. No chocolate, já não estavam de mãos dadas. Cada um posava por conta própria e ambos mostravam as costas um para o outro. Era bonita uma escova de dentes de duas fileiras com a inscrição “Viribus unitis”, para que todo aquele que escovasse os dentes se lembrasse da Áustria. Um presente elegante e muito apropriado para a frente e as trincheiras era um estojo para limpar as unhas. Na caixa havia o desenho de um estilhaço explodindo e de um homem de capacete de ponta avançando com a baioneta. Embaixo:

“Für Gott, Kaiser und Vaterland!”

Um pacote de biscoitos não tinha desenho, mas trazia estes versos:

Österreich, du edles Haus,
steck deine Fahne aus,
laß sie im Winde weh’n,
Österreich muß ewig steh’n!

Com uma tradução tcheca no verso:

Áustria, nobre casa,
estende tua bandeira,
deixa-a ao vento tremular,
a Áustria deve eternamente durar!

O último presente era um jacinto branco num vaso.

Quando tudo estava desembrulhado e disposto sobre a cama, a baronesa von Botzenheim não conseguiu conter as lágrimas de emoção. A saliva escorria da boca de alguns simuladores famintos. A dama de companhia da baronesa sustentava Švejk sentado e também chorava. Reinava um silêncio de igreja, interrompido de repente por Švejk, que juntou as mãos:

“Pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino... perdão, minha senhora, não é assim. Eu queria dizer: Senhor Deus, Pai celestial, abençoai estes dons que, por vossa generosidade, vamos consumir. Amém!”

Depois dessas palavras, pegou um frango da cama e começou a comê-lo, sob o olhar horrorizado do doutor Grünstein.

“Ah, como o soldadinho está gostando”, sussurrou a velha baronesa com entusiasmo ao doutor Grünstein. “Com certeza ele já está saudável e pode ir para o campo. Fico realmente muito contente por isso ter lhe feito tão bem.”

Depois foi de cama em cama, distribuindo cigarros e bombons de chocolate. Ao terminar a ronda, voltou para junto de Švejk, acariciou-lhe os cabelos e disse:

“Behüt’ euch Gott.”

E saiu pela porta com todo o cortejo.

Antes que o doutor Grünstein regressasse do andar de baixo, aonde fora acompanhar a baronesa, Švejk distribuiu os frangos, que foram devorados pelos pacientes com tamanha rapidez que, no lugar deles, o doutor Grünstein encontrou apenas uma pilha de ossos roídos de maneira tão perfeita como se os frangos tivessem caído vivos num ninho de abutres e seus ossos descarnados houvessem permanecido durante meses sob o sol.

O licor de guerra desaparecera, assim como as três garrafas de vinho. Os tabletes de chocolate e o pacote de biscoitos também haviam sumido nos estômagos dos pacientes. Alguém chegou a beber o frasquinho de polidor de unhas que fazia parte do estojo e mordeu a pasta de dentes que acompanhava a escova.

Quando o doutor Grünstein voltou, tornou a assumir uma postura combativa e fez um longo discurso. Sentia-se aliviado por a visita já ter partido. A pilha de ossos roídos confirmou sua ideia de que todos eram incorrigíveis.

“Soldados”, começou, “se tivessem um pouco de juízo, teriam deixado tudo aquilo onde estava e pensado: ‘Se comermos isso, o senhor médico-chefe não vai acreditar que somos doentes graves.’ Vocês próprios acabaram de testemunhar que não dão valor à minha bondade. Eu lhes lavo o estômago, dou-lhes enemas, esforço-me para mantê-los sob dieta absoluta, e vocês empanturram o estômago pelas minhas costas. Querem pegar catarro no estômago? Estão enganados. Antes que seus estômagos tentem digerir tudo isso, vou limpá-los tão profundamente que vocês se lembrarão até a morte e ainda contarão aos filhos como certa vez comeram frangos e se empanturraram com várias outras delícias, mas nada permaneceu nem quinze minutos em seus estômagos, porque os lavaram enquanto a comida ainda estava quente. Agora, um depois do outro, venham comigo, para não se esquecerem de que não sou nenhum boi como vocês, mas um pouco mais inteligente que todos vocês juntos. Além disso, informo que amanhã mandarei uma comissão aqui, porque vocês já estão deitados há tempo demais e ninguém tem absolutamente nada, já que conseguem sujar o estômago em poucos minutos com a habilidade que acabaram de demonstrar. Então, em marcha, marchando!”

Quando chegou a vez de Švejk, o doutor Grünstein olhou para ele e alguma reminiscência da misteriosa visita daquele dia o obrigou a perguntar:

“O senhor conhece a senhora baronesa?”

“É minha madrasta”, respondeu Švejk calmamente. “Ela me abandonou quando eu era muito pequeno e agora tornou a me encontrar...”

E o doutor Grünstein disse brevemente:

“Então deem mais um enema a Švejk.”

À noite, reinava a tristeza nos catres. Algumas horas antes, todos haviam tido nos estômagos várias coisas boas e saborosas, e agora só tinham chá fraco e uma fatia de pão.

O número 21 disse junto da janela:

“Vocês acreditam, camaradas, que prefiro frango frito a assado?”

Alguém resmungou:

“Deem-lhe uma surra com o cobertor.”

Mas todos estavam tão debilitados depois do banquete fracassado que ninguém se moveu.

O doutor Grünstein cumpriu sua palavra. Pela manhã, chegaram vários médicos militares da célebre comissão.

Caminharam com seriedade pelas fileiras de camas, e nada se ouvia além de:

“Mostre a língua!”

Švejk pôs a língua tão para fora que o rosto adquiriu uma expressão grotesca e seus olhos se estreitaram:

“Respeitosamente informo, senhor médico do Estado-Maior, que minha língua não é mais comprida que isso.”

Seguiu-se uma discussão interessante entre Švejk e a comissão. Švejk afirmou que fizera aquela observação por receio de que pensassem que estava escondendo a língua deles.

Os membros da comissão, por sua vez, divergiram extraordinariamente em seus julgamentos a respeito de Švejk.

Metade deles afirmava que Švejk era “ein blöder Kerl”, enquanto a outra metade dizia que era um canalha que queria fazer pouco do Exército.

“Que o diabo me carregue”, berrou o presidente da comissão para Švejk, “se não descobrirmos seu jogo.”

Švejk olhava para toda a comissão com a serenidade divina de uma criança inocente.

O médico-chefe do Estado-Maior chegou bem perto de Švejk:

“Gostaria de ver, seu porco-marinho, o que está pensando neste momento.”

“Respeitosamente informo que não estou pensando em nada.”

“Himldonrvetr!”, berrou um dos membros da comissão, fazendo a espada tilintar. “Então ele não pensa em nada. Por que, seu elefante siamês, o senhor não pensa?”

“Respeitosamente informo que não penso porque no Exército é proibido aos soldados pensarem. Quando, anos atrás, eu estava no 91º Regimento, nosso senhor capitão sempre dizia: ‘O soldado não deve pensar por conta própria. Seus superiores pensam por ele. Assim que um soldado começa a pensar, deixa de ser soldado e vira um civil imundo e cheio de piolhos. Pensar não leva...’”

“Cale a boca!”, interrompeu-o furiosamente o presidente da comissão. “Já temos informações sobre o senhor. Der Kerl meint: man wird glauben, er sei ein wirklicher Idiot... O senhor não é idiota nenhum, Švejk. É esperto, astuto, canalha, moleque, piolhento, entendeu?”

“Respeitosamente informo que entendi.”

“Já lhe disse para calar a boca. Ouviu?”

“Respeitosamente informo que ouvi que devia calar a boca.”

“Himlhergot, então cale a boca quando eu mando. O senhor sabe muito bem que não pode responder!”

“Respeitosamente informo que sei que não posso responder.”

Os senhores militares olharam uns para os outros e chamaram o sargento.

“Este homem”, disse o médico-chefe do Estado-Maior da comissão, apontando para Švejk, “será levado para baixo, ao escritório. O senhor aguardará nosso relatório e nosso parecer. Na guarnição vão tirar essa mania de responder da cabeça dele. O sujeito é saudável como um peixe, simula, responde e ainda faz troça dos superiores. Pensa que estamos aqui apenas para diverti-lo, que todo o Exército é uma brincadeira, uma coisa engraçada. Na guarnição vão lhe mostrar, Švejk, que o Exército não é nenhuma diversão.”

Švejk seguiu com o sargento para o escritório e, atravessando o pátio, cantarolava:

Sempre pensei
que a guerra era diversão,
que ficaria lá uma ou duas semanas
e voltaria para casa então...

Enquanto, no escritório, o oficial de serviço berrava para Švejk que homens como ele deviam ser fuzilados, a comissão, lá em cima, nas enfermarias, massacrava os simuladores. Dos setenta pacientes, apenas dois se salvaram. Um tinha a perna arrancada por uma granada e o outro sofria de uma verdadeira cárie óssea.

Somente esses dois não ouviram a palavra “tauglich”. Todos os demais, inclusive três tuberculosos moribundos, foram declarados aptos para o serviço de campanha. O médico-chefe do Estado-Maior não perdeu a oportunidade de fazer um discurso.

Sua fala estava entremeada das mais variadas ofensas e era sucinta no conteúdo. Todos eram gado e estrume, e somente se lutassem valentemente pelo senhor imperador poderiam regressar à sociedade humana e, depois da guerra, seriam perdoados por terem tentado escapar do Exército simulando doenças. Ele próprio, porém, não acreditava nisso e achava que a corda esperava por todos.

Um jovem médico militar, alma ainda pura e incorrupta, pediu ao médico-chefe do Estado-Maior permissão para também falar. Seu discurso se diferenciou do de seu superior pelo otimismo e pela ingenuidade. Falou em alemão.

Discorreu longamente sobre como cada um dos que deixavam o hospital para seguir aos respectivos regimentos no campo devia tornar-se vencedor e cavaleiro. Estava convencido de que seriam hábeis com as armas e honrados no campo de batalha e em todos os assuntos militares e particulares. Seriam guerreiros invencíveis, sempre atentos à glória de Radetzky e do príncipe Eugênio de Saboia. Fertilizariam com o próprio sangue os vastos campos da glória da monarquia e cumpririam vitoriosamente a missão que a história lhes destinara. Com ousada coragem, desprezando a própria vida, avançariam sob as bandeiras estraçalhadas de seus regimentos rumo a uma nova glória e a novas vitórias.

Depois, no corredor, o médico-chefe do Estado-Maior disse àquele homem ingênuo:

“Senhor colega, posso lhe assegurar que tudo isso é inútil. Nem Radetzky nem esse seu príncipe Eugênio de Saboia conseguiriam transformar esses canalhas em soldados. Fale com eles como anjo ou como diabo, dá no mesmo. É uma quadrilha.”

As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Sinopse

Edição integral em português brasileiro de As Aventuras do Bom Soldado Švejk, traduzida diretamente do original tcheco de domínio público, preservando a estrutura dos quatro livros e suas 29 unidades.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978655074600891449619806
As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral As Aventuras do Bom Soldado Švejk — tradução integral Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 9 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Capa de As Aventuras do Bom Soldado Švejk
Continue a leitura Livro I: Na retaguarda — Švejk como simulador Capítulo 9 · 9 de 29 · ≈ 31 min
Todos os capítulos 29 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir