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As Aventuras do Bom Soldado Švejk

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As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Capítulo 29 · As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Livro IV. Continuação da gloriosa surra — Švejk novamente em sua companhia de marcha

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Livro IV. Continuação da gloriosa surra

Švejk novamente em sua companhia de marcha

O major que servira de auditor militar na audiência de Švejk na manhã anterior era a mesma figura que, à noite, brindara em sinal de fraternidade com o capelão militar na casa do general e depois ficara cochilando.

O certo é que ninguém sabia quando nem como o major saíra da casa do general durante a noite. Todos estavam em tal estado que ninguém percebeu sua ausência, e o general chegava até a confundir quem de fato falava entre os presentes. O major já não estava na reunião havia mais de duas horas, mas o general ainda assim torcia o bigode, sorria estupidamente e dizia:

“Disse muito bem, senhor major.”

De manhã, não conseguiam encontrar o major em parte alguma. Seu sobretudo estava pendurado no vestíbulo, o sabre permanecia no cabide, e só faltava o boné de oficial. Supuseram que talvez tivesse adormecido em algum banheiro da casa, vasculharam todos, mas não o encontraram em lugar nenhum. Em vez dele, descobriram no segundo andar um primeiro-tenente do grupo do general, dormindo ajoelhado, com a cara dentro da privada, exatamente como o sono o surpreendera enquanto vomitava.

O major desaparecera como se tivesse caído na água.

Contudo, caso alguém tivesse olhado pela janela gradeada da cela em que Švejk estava preso, teria visto duas pessoas dormindo num único catre, debaixo do capote militar russo de Švejk, e dois pares de botas aparecendo sob o capote.

As botas com esporas pertenciam ao major, as sem esporas, a Švejk.

Os dois estavam deitados aconchegados um ao outro como dois gatinhos. Švejk tinha a pata sob a cabeça do major, e o major abraçava Švejk pela cintura, enroscando-se nele como um filhote junto à cadela.

Não havia mistério nenhum nisso. Tratava-se simplesmente da tomada de consciência dos próprios deveres por parte do senhor major.

Certamente já lhes aconteceu alguma vez ficarem sentados com alguém, bebendo a noite inteira até a manhã do dia seguinte, e de repente o companheiro de mesa agarrar a cabeça, levantar-se de um salto e gritar:

“Jesus, Maria! Eu devia estar no escritório às oito horas.”

Isso é o chamado ataque de dever, que surge como uma espécie de subproduto destacado do remorso. Nada consegue desviar a pessoa acometida por esse nobre ataque de sua sagrada convicção de que deve compensar imediatamente, no escritório, aquilo que perdeu. São essas aparições sem chapéu que os porteiros dos órgãos públicos interceptam no corredor e acomodam em seus próprios aposentos, num sofá, para que durmam.

Um ataque semelhante acometeu o major.

Quando despertou na poltrona, ocorreu-lhe de repente que precisava interrogar Švejk imediatamente. Esse acesso de dever oficial emergiu de maneira tão rápida e foi executado com tanta prontidão e determinação que ninguém sequer percebeu o desaparecimento do senhor major.

Em compensação, sua chegada foi sentida com muito mais força na sala da guarda da prisão militar. Ele entrou ali como uma bomba.

O sargento de serviço dormia junto à mesa, e, em toda parte ao redor, os demais soldados cochilavam nas mais variadas posições.

O major começou a fazer tamanho escândalo que interrompeu o bocejo de todos. Assim, os rostos adquiriram expressões de caretas, e para o major não olhava um grupo de soldados, mas um bando de macacos arreganhados, desesperados e grotescos.

O major batia com o punho na mesa e berrava com o sargento:

“Seu sujeito indolente, eu já lhe disse mil vezes que seus homens são uma fodida quadrilha de porcos.”

Voltando-se para os soldados atônitos, gritou:

“Soldados! A estupidez transparece nos olhos de vocês mesmo quando estão dormindo, e, quando acordam, seus homens, fazem uma cara como se cada um tivesse engolido um vagão de dinamite.”

Seguiu-se um longo e vigoroso sermão sobre os deveres de todos os homens da sala da guarda e, finalmente, a ordem para que abrissem imediatamente a cela onde Švejk estava preso, pois ele queria submeter o delinquente a um novo interrogatório.

Foi assim que, durante a noite, o major chegou até Švejk. Veio naquele estágio em que tudo, como se diz, já havia assentado dentro dele. Seu último acesso consistiu em ordenar que lhe entregassem as chaves da prisão.

O sargento recusou, numa derradeira e desesperada recordação dos próprios deveres, o que de repente causou uma impressão magnífica no major.

“Seus fodidos porcos de merda”, gritou ele para o pátio. “Caso pusessem as chaves na minha mão, eu mostraria a vocês.”

“Respeitosamente informo”, respondeu o sargento, “que sou obrigado a trancá-lo e, para sua segurança, colocar uma guarda junto ao preso. Quando desejar sair, senhor major, faça a gentileza de bater na porta.”

“Seu idiota”, disse o major, “seu babuíno, seu camelo, você acha que tenho medo de algum preso, para pôr uma guarda comigo enquanto o interrogo? Krucihimldonrvetr, tranquem-me e saiam daqui de uma vez!”

Na abertura sobre a porta, dentro de uma lanterna gradeada, uma lâmpada de querosene com o pavio abaixado emitia uma luz fraca, que mal bastava para que o major encontrasse Švejk acordado, esperando pacientemente em posição militar junto ao catre para ver o que de fato resultaria daquela visita.

Švejk lembrou que o melhor seria apresentar o relatório ao senhor major e, por isso, exclamou com firmeza:

“Respeitosamente informo, senhor major, que há um homem preso e, fora isso, nada aconteceu.”

De repente, o major não conseguiu se lembrar por que tinha ido ali e, por isso, disse:

“Ruht! Onde está esse homem preso?”

“Sou eu, respeitosamente informo, senhor major”, disse Švejk com orgulho.

O major, porém, não prestou atenção à resposta, porque o vinho e os licores do general estavam produzindo em seu cérebro a última reação alcoólica. Bocejou de maneira tão terrível que qualquer civil teria deslocado as mandíbulas. No major, contudo, aquele bocejo transferiu seu pensamento para as circunvoluções cerebrais onde a humanidade guarda o dom do canto. Ele se deixou cair com toda a naturalidade no catre de Švejk, sobre a prancha, e, com uma voz como a emitida por um leitão degolado antes de morrer, guinchou:

Oh, Tannenbaum! Oh, Tannenbaum,

wie schön sind deine Blätter!

Repetiu isso várias vezes seguidas, entremeando na canção gritos incompreensíveis.

Depois rolou de costas como um ursinho, encolheu-se numa bola e começou imediatamente a roncar.

“Senhor major”, tentou acordá-lo Švejk, “respeitosamente informo que vão pegar piolhos.”

Não adiantou nada. O major dormia como se o tivessem jogado na água.

Švejk olhou para ele com ternura e disse:

“Então durma, seu cachaceiro.”

E cobriu-o com o capote. Mais tarde, deitou-se junto dele, e foi assim, enroscados um no outro, que os encontraram pela manhã.

Pelas nove horas, quando a procura pelo major atingiu o auge, Švejk desceu do catre e julgou conveniente acordar o senhor major. Sacudiu-o várias vezes com bastante vigor, retirou-lhe o capote russo, até que finalmente o major se sentou no catre e, olhando estupidamente para Švejk, procurou nele a solução do mistério do que de fato lhe acontecera.

“Comunico respeitosamente, senhor major”, disse Švejk, “que já vieram várias vezes da sala da guarda verificar se o senhor ainda estava vivo. Por isso tomei a liberdade de acordá-lo agora, porque não sei quanto tempo o senhor costuma dormir, para que por acaso não durma demais. Na cervejaria de Uhříněves havia um tanoeiro. Ele sempre dormia até as seis da manhã, mas, quando passava da hora, nem que fosse só um quarto de hora, até quinze para as sete, depois dormia até o meio-dia em ponto, e fez isso por tanto tempo que o mandaram embora do emprego, e então ele, de raiva, cometeu uma ofensa contra a Igreja e contra um membro de nossa dinastia reinante.”

“Você ser burro, não?”, disse o major, não sem um sopro de certo desespero, pois estava com a cabeça do dia anterior como um caco e ainda não encontrava resposta alguma para o motivo de estar ali sentado, por que haviam vindo da sala da guarda e por que aquele sujeito diante dele tagarelava tamanhas bobagens, sem pé nem cabeça. Tudo lhe parecia terrivelmente estranho. Lembrava-se vagamente de já ter estado ali uma vez durante a noite, mas por quê?

“Eu já estar aqui de noite?”, perguntou com meia certeza.

“Conforme as ordens, senhor major”, respondeu Švejk, “pelo que entendi, comunico respeitosamente, das palavras do senhor major, o senhor major veio me interrogar.”

Então clareou na cabeça do major, e ele olhou para si mesmo, depois para trás, como se procurasse alguma coisa. “Não precisa se preocupar com nada, senhor major”, disse Švejk. “O senhor acordou exatamente como chegou aqui. Veio sem capote, sem sabre e com o quepe. O quepe está ali, eu tive de tirá-lo da sua mão porque o senhor queria pô-lo debaixo da cabeça. Um belo quepe de oficial é como uma cartola. Dormir em cima de uma cartola só conseguiu um tal senhor Karderaz, em Loděnice. Ele se esticou num banco da taberna, pôs a cartola debaixo da cabeça, porque cantava em enterros e ia a todos os enterros de cartola, pôs a cartola direitinho debaixo da cabeça e meteu na cabeça que não podia amassá-la, e a noite inteira ficou de algum modo pairando sobre ela, com um peso quase imperceptível do corpo, de maneira que a cartola não sofreu nada, pelo contrário, até melhorou, porque, quando ele se virava de um lado para o outro, ia escovando-a devagar com os cabelos, até deixá-la bem alisada.”

O major, que já compreendera como as coisas tinham acontecido, não parava de olhar estupidamente para Švejk e apenas repetia: “Você enlouquecer, não? Eu então estar aqui, eu ir embora daqui.” Levantou-se, foi até a porta e bateu.

Antes que viessem abrir, ainda disse a Švejk: “Se telegrama não chegar dizendo que você ser você, então você enforcar.”

“Agradeço de coração”, disse Švejk, “sei, senhor major, que o senhor se preocupa muito comigo, mas, caso tenha apanhado alguma coisa aqui no catre, senhor major, pode ter certeza de que, se for pequenininha e tiver o traseiro avermelhado, é um macho; se houver só uma e não aparecer uma comprida e cinzenta, com listras avermelhadas na barriga, então está tudo bem, senão seria um casal, e essas desgraçadas se reproduzem de um jeito espantoso, ainda mais que coelhos.”

“Lassen Sie das”, disse o major abatido a Švejk, enquanto lhe abriam a porta. Na sala da guarda, o major já não armou escândalo algum. Com toda a frieza, mandou buscar um fiacre e, enquanto o fiacre sacolejava pelo péssimo calçamento de Přemyšl, só lhe passavam pela cabeça as ideias de que o delinquente era um idiota de primeira ordem, mas provavelmente, apesar de tudo, um animal inocente, e que, no que dizia respeito a ele, o major, não lhe restava senão meter uma bala na cabeça assim que chegasse em casa, ou mandar buscar o capote e o sabre na casa do general, ir tomar banho nos banhos municipais e, depois do banho, passar pela casa de vinhos de Vollgruber, recompor de modo geral o humor e encomendar por telefone, para a noite, um ingresso para uma apresentação no teatro municipal.

Antes de chegar ao apartamento, decidiu-se pela segunda alternativa.

No apartamento, esperava-o uma pequena surpresa. Chegara bem na hora...

No corredor de seu apartamento estava o general Fink, segurando seu ordenança pelo colarinho, tratando-o de maneira terrível e berrando:

“Onde está o teu major, seu bruto? Fala, seu animal!”

O animal, porém, não falava, pois estava ficando roxo no rosto de tanto o general estrangulá-lo.

Ao entrar naquela cena, o major ainda percebeu que o infeliz ordenança apertava firmemente debaixo do braço o capote e o sabre dele, que provavelmente trouxera da antessala do general.

A cena começou a divertir muito o major, por isso ele ficou parado na porta entreaberta, continuando a observar os sofrimentos de seu fiel criado, que possuía a rara qualidade de já estar havia muito entalado na garganta do major por causa de várias ladroagens.

O general soltou por um instante o ordenança arroxeado, unicamente para tirar do bolso um telegrama, com o qual começou então a espancar o criado do major na cara e nos beiços, enquanto gritava:

“Onde está o teu major, seu bruto, onde está o teu major auditor, seu bruto, para que você possa entregar a ele um telegrama de serviço oficial?”

“Aqui estou”, gritou da porta o major Derwota, a quem a combinação das palavras “major auditor” e “telegrama” tornou a recordar certas obrigações.

“Ah”, exclamou o general Fink, “você está voltando?”

Havia tanta mordacidade na entonação que o major não respondeu e permaneceu indeciso onde estava.

O general mandou-o entrar com ele no quarto e, depois de se sentar à mesa, atirou sobre ela o telegrama amarrotado nas pancadas dadas no ordenança e disse em tom trágico:

“Leia, isto é obra sua.”

Enquanto o major lia o telegrama, o general levantou-se da cadeira, começou a andar de um lado para o outro pelo quarto, derrubando cadeiras e tamboretes, e gritava:

“E mesmo assim vou enforcá-lo!”

O telegrama dizia o seguinte:

O soldado de infantaria Josef Švejk, ordenança da 11ª companhia de marcha,

desapareceu no dia 16 do corrente, durante a passagem Chyrów-Felštýn, em

viagem de serviço como encarregado dos alojamentos. Conduzir

imediatamente o soldado Švejk ao comando da brigada, em

Wojalycze.

O major abriu a escrivaninha, tirou um mapa e pôs-se a refletir que Felštýn ficava quarenta quilômetros a sudeste de Přemyšl, de modo que se apresentava ali um mistério terrível: como o soldado Švejk fora parar com um uniforme russo em lugares situados a mais de cento e cinquenta quilômetros da frente, quando as posições se estendiam pela linha Sokal-Turze Kozlów.

Quando o major comunicou isso ao general e lhe mostrou no mapa o lugar onde, segundo o telegrama, Švejk desaparecera alguns dias antes, o general berrou como um touro, pois sentia que todas as suas esperanças de um julgamento sumário tinham se desfeito. Foi ao telefone, ligou para a sala da guarda e deu ordem para que conduzissem imediatamente até ele, no apartamento do major, o preso Švejk.

Antes que a ordem fosse cumprida, o general manifestou inúmeras vezes, em meio a terríveis maldições, o desgosto por não tê-lo mandado enforcar imediatamente, por sua própria conta e risco, sem investigação alguma.

O major discordava e dizia qualquer coisa sobre o direito e a justiça andarem de mãos dadas, e discursava em períodos magníficos sobre julgamentos justos, erros judiciários e, em geral, sobre tudo o que a saliva lhe trazia à língua, pois estava com uma ressaca monumental do dia anterior, que precisava ser posta para fora em palavras. Quando finalmente trouxeram Švejk, o major exigiu dele uma explicação sobre o que acontecera perto de Felštýn e qual era afinal a história daquele uniforme russo.

Švejk explicou tudo como convinha, sustentando a explicação com vários exemplos tirados de suas histórias sobre as aflições humanas. Quando o major lhe perguntou por que não dissera aquilo durante o interrogatório diante do tribunal, Švejk respondeu que ninguém lhe perguntara propriamente como ele fora parar dentro do uniforme russo, mas que todas as perguntas tinham sido:

“Confessa que, voluntariamente e sem qualquer coação, vestiu o uniforme do inimigo?”

Como isso era verdade, ele não podia responder outra coisa senão:

“Naturalmente. Sim. Certamente. Assim é. Sem dúvida.”

Por isso mesmo também repelira com indignação a acusação feita no tribunal de que traíra o imperador e senhor.

“Este homem é um perfeito idiota”, disse o general ao major. “Trocar de roupa na barragem de um açude e vestir um uniforme russo qualquer, abandonado ali por sabe Deus quem, deixar-se incorporar a um grupo de prisioneiros russos, só um imbecil pode fazer uma coisa dessas.”

“Comunico respeitosamente”, manifestou-se Švejk, “que eu mesmo às vezes noto em mim que sou débil mental, sobretudo assim ao cair da tarde...”

“Cala a boca, seu boi”, disse-lhe o major, e voltou-se para o general, perguntando o que deveria ser feito com Švejk.

“Que o enforquem na brigada dele”, decidiu o general.

Uma hora depois, uma escolta conduzia Švejk à estação, para acompanhá-lo até o Estado-Maior da brigada, em Wojalycze.

Na prisão, Švejk deixou uma pequena lembrança, riscando na parede com um pedacinho de madeira, em três colunas, a lista de todas as sopas, molhos e acompanhamentos que comera na vida civil. Era uma espécie de protesto contra o fato de, durante vinte e quatro horas, não lhe terem dado nada para pôr na boca.

Junto com Švejk, seguia para a brigada este documento:

Com fundamento no telegrama número 469, entrega-se o soldado de infantaria Josef Švejk, extraviado da 11ª companhia de marcha, ao Estado-Maior da brigada para as providências posteriores.

A própria escolta, composta de quatro homens, era uma mistura de nacionalidades. Havia nela um polonês, um húngaro, um alemão e um tcheco, que comandava a escolta, tinha a graduação de anspeçada e se pavoneava diante do compatriota preso, fazendo-o perceber sua terrível supremacia. Quando Švejk, na estação, manifestou o desejo de que lhe permitissem urinar, a anspeçada disse-lhe com bastante grosseria que ele urinaria quando chegasse à brigada.

“Está bem”, disse Švejk, “então precisam me dar isso por escrito, para que, quando minha bexiga estourar, fique sabendo quem fez isso comigo. Existe uma lei para isso, senhor anspeçada.”

A anspeçada, um sujeito acostumado com bois, assustou-se com aquela história da bexiga, e assim toda a escolta conduziu solenemente Švejk ao banheiro da estação. Durante toda a viagem, a anspeçada dava a impressão de um homem feroz e fazia uma cara tão empolada como se já no dia seguinte devesse receber, no mínimo, o posto de comandante de um corpo de exército.

Quando estavam sentados no trem da linha Přemyšl-Chyrów, Švejk comentou com ele:

“Senhor anspeçada, quando olho para o senhor, lembro sempre de um tal anspeçada Bozba, que serviu em Trento. Quando o nomearam anspeçada, logo no primeiro dia começou de repente a aumentar de volume. As bochechas começaram a inchar e a barriga ficou tão estufada que, no dia seguinte, nem as calças do governo cabiam mais. E o pior foi que as orelhas começaram a crescer para os lados. Mandaram o homem para a enfermaria, e o médico do regimento disse que isso acontecia com todas as anspeçadas. No começo elas incham; em algumas, isso passa logo, mas aquele era um caso tão grave que ele podia estourar, porque aquilo vinha da estrelinha e descia até o umbigo. Para salvá-lo, tiveram de cortar a estrelinha, e ele desinchou outra vez.”

A partir daquele instante, Švejk esforçou-se em vão para manter uma conversa com a anspeçada e explicar-lhe amigavelmente por que se dizia, em termos gerais, que uma anspeçada era a desgraça da companhia. A anspeçada não respondia, a não ser com ameaças sombrias sobre qual dos dois haveria de rir quando chegassem à brigada. Em suma, o compatriota não correspondeu às expectativas e, quando Švejk lhe perguntou de onde era, respondeu que isso não era da conta dele.

Švejk tentou de todos os modos. Contou-lhe que aquela não era a primeira vez que o levavam sob escolta, mas que sempre se divertira muito com todos os que o acompanhavam.

A anspeçada, porém, continuou calada, e Švejk prosseguiu:

“Estou achando, senhor anspeçada, que alguma desgraça deve ter acontecido com o senhor pelo mundo, para ter perdido a fala. Conheci muitas anspeçadas tristes, mas uma calamidade divina como o senhor, senhor anspeçada, desculpe e não fique zangado, ainda não vi. Conte para mim o que o atormenta, pode ser que eu lhe dê um conselho, porque um soldado levado sob escolta sempre tem mais experiência que os que ficam vigiando. Ou sabe de uma coisa, senhor anspeçada? Para a viagem passar melhor, conte alguma coisa para nós, por exemplo como é a região de onde o senhor vem, se há açudes por lá ou talvez ruínas de algum castelo, e também poderia contar qual é a lenda ligada a essas ruínas.”

“Já estou farto disso”, gritou a anspeçada.

“O senhor é um homem feliz”, disse Švejk, “há gente que nunca fica farta.”

A anspeçada envolveu-se em completo silêncio, depois de pronunciar suas últimas palavras:

“Na brigada vão te mostrar o que é bom, mas eu não vou me abgébovat com você.”

De modo geral, havia pouquíssima diversão na escolta. O húngaro conversava com o alemão de maneira peculiar, pois, em alemão, só conhecia jawohl e was? Quando o alemão lhe contava alguma coisa, o húngaro sacudia a cabeça e dizia Jawohl, e, quando o alemão se calava, o húngaro dizia Was?, e o alemão recomeçava. O polonês da escolta mantinha uma atitude aristocrática, não prestava atenção em ninguém e se distraía sozinho, assoando o nariz no chão, para o que empregava com grande habilidade o polegar da mão direita; depois espalhava melancolicamente aquilo pelo chão com a coronha do fuzil e, em seguida, limpava educadamente a coronha emporcalhada nas calças, enquanto resmungava sem parar:

“Santa Virgem.”

“Você não sabe fazer grande coisa”, disse-lhe Švejk. “Na rua Bojiště morava num porão o varredor Macháček. Ele assoava o nariz na janela e espalhava aquilo com tanta habilidade que formava uma imagem de Libuše profetizando a glória de Praga. Por cada imagem dessas, recebia da mulher uma bolsa de estudos do governo tão grande que ficava com a boca parecendo um fardo, mas nem por isso parava e continuava sempre se aperfeiçoando na arte. Também era a única diversão dele.”

O polonês não lhe respondeu e, por fim, toda a escolta mergulhou num silêncio profundo, como se viajasse para um enterro e pensasse piedosamente no defunto.

Assim se aproximavam do Estado-Maior da brigada, em Wojalycze.


Enquanto isso, no Estado-Maior da brigada haviam ocorrido certas mudanças muito importantes.

A direção do Estado-Maior da brigada fora confiada ao coronel Gerbich. Era um senhor de grandes capacidades militares, que se haviam alojado em suas pernas sob a forma de gota. Tinha, porém, no ministério, personalidades muito influentes, que fizeram com que ele não fosse aposentado, e agora andava de um lado para o outro por diversos estados-maiores de formações militares maiores, recebia soldo aumentado com os mais variados adicionais de guerra e permanecia em cada lugar até que, durante um ataque de gota, cometesse alguma estupidez. Então o transferiam novamente para outro posto, e em geral aquilo acabava sendo uma espécie de promoção. Durante o almoço com os oficiais, não costumava falar de nada além do dedão inchado do pé, que às vezes atingia proporções ameaçadoras, de modo que precisava usar uma bota especial, enorme. Durante as refeições, sua diversão predileta era contar a todos como o dedão supurava e transpirava continuamente, de modo que precisava mantê-lo envolvido em algodão, e que aquelas secreções cheiravam a caldo de carne azedo.

Por isso, quando ele partia para outro posto, todo o corpo de oficiais despedia-se dele com grande sinceridade. Fora isso, era um senhor muito jovial e tratava com completa amizade os oficiais de patentes inferiores, aos quais contava tudo de bom que bebera e comera antigamente, antes que aquela coisa o atacasse.

Quando conduziram Švejk à brigada e, por ordem do oficial de serviço, o apresentaram ao coronel Gerbich com os documentos correspondentes, o tenente Dub estava sentado no gabinete do coronel.

Durante os poucos dias transcorridos desde a marcha Sanok-Sambor, o tenente Dub vivera mais uma aventura. Depois de Felštýn, a 11ª companhia de marcha encontrara um transporte de cavalos que eram conduzidos ao regimento de dragões de Sadowa-Wisznia.

Nem o próprio tenente Dub sabia direito como acontecera de querer mostrar ao primeiro-tenente Lukáš sua habilidade de cavaleiro, como saltara sobre um dos cavalos, que desaparecera com ele no vale de um riacho, onde mais tarde encontraram o tenente Dub firmemente plantado num pequeno pântano, de tal modo que nem o jardineiro mais habilidoso teria conseguido plantá-lo tão bem. Quando o retiraram com a ajuda de laços, o tenente Dub não se queixou de nada, apenas gemia baixinho, como se estivesse morrendo. Assim, quando passaram pelo Estado-Maior da brigada, levaram-no até lá e o depositaram num pequeno hospital militar.

Depois de alguns dias, recuperou-se, de modo que o médico declarou que bastava ainda lhe untarem as costas e a barriga duas ou três vezes com tintura de iodo e então poderia alcançar novamente sua unidade sem receio.

Agora, portanto, estava sentado no gabinete do coronel Gerbich, conversando com ele sobre as mais variadas doenças.

Ao ver Švejk, gritou em voz alta, pois tinha conhecimento do misterioso desaparecimento de Švejk depois de Felštýn:

“Então já temos você de volta! Muitos viajam como pestes, e feras ainda piores retornam. Você também é um deles.”

Para completar, convém ainda observar que o tenente Dub sofrera uma leve concussão cerebral durante sua aventura com o cavalo. Por isso, não devemos nos admirar de que, aproximando-se mais de Švejk, gritasse em versos, desafiando Deus para uma luta contra Švejk:

“Pai, eis que te invoco, a fumaça dos canhões trovejantes me envolve, aterradora lampeja a bala sibilante, diretor das batalhas, eu te invoco, Pai, acompanha-me contra este canalha... Onde esteve todo esse tempo, tratante? Que uniforme é esse que está usando?”

Convém acrescentar ainda que o coronel atacado de gota mantinha tudo em seu gabinete organizado de maneira muito democrática, quando não estava em crise. Revezavam-se diante dele todas as patentes possíveis, para ouvir suas opiniões a respeito do dedão inchado com aroma de caldo de carne azedo.

Nas épocas em que o coronel Gerbich não sofria ataques, seu gabinete estava sempre cheio das mais variadas patentes, pois, em ocasiões extraordinárias como essas, ele era muito alegre e falante, e gostava de ter à sua volta ouvintes para os quais pudesse contar anedotas indecentes, o que lhe fazia muito bem e proporcionava aos outros a alegria de rirem por obrigação de velhas anedotas que talvez já circulassem no tempo do general Laudon.

O serviço sob o coronel Gerbich era muito fácil nessas épocas. Todos faziam o que bem entendiam, e, onde quer que o coronel Gerbich aparecesse em algum Estado-Maior, podia-se ter certeza de que roubavam e praticavam toda espécie de palhaçada.

Também agora, junto com Švejk conduzido ao gabinete, entrou uma multidão de patentes dos mais variados tipos, que esperava para ver o que aconteceria, enquanto o coronel estudava o ofício dirigido ao Estado-Maior da brigada e redigido pelo major de Přemyšl.

O tenente Dub, porém, prosseguiu na conversa com Švejk à sua maneira habitual e encantadora:

“Você ainda não me conhece, mas, quando me conhecer, vai morrer de medo.”

O coronel não entendia nada do documento do major, pois o major de Přemyšl ditara aquele texto ainda sob a influência de uma levíssima intoxicação alcoólica.

Apesar disso, o coronel Gerbich estava de bom humor, porque ontem e hoje suas dores desagradáveis haviam desaparecido, e seu dedão permanecia manso como um cordeiro.

“Então, o que foi que você fez?”, perguntou a Švejk num tom tão bondoso que o coração do tenente Dub sofreu uma pontada e obrigou-o a responder ele mesmo no lugar de Švejk:

“Este homem, senhor coronel”, apresentou Švejk, “finge-se de imbecil para encobrir suas patifarias com a própria idiotice. Não estou, é verdade, familiarizado com o conteúdo do documento entregue junto com ele, mas suponho, apesar disso, que este sujeito tornou a fazer alguma coisa, desta vez em escala maior. Caso me permita, senhor coronel, tomar conhecimento do conteúdo do documento, eu poderia certamente dar-lhe eventuais diretrizes precisas sobre o que fazer com ele.”

Voltando-se para Švejk, disse-lhe em tcheco:

“Você está bebendo meu sangue, não está?”

“Estou”, respondeu Švejk com dignidade.

“Imagine só, senhor coronel”, prosseguiu o tenente Dub em alemão. “Não se pode perguntar nada a ele, não se pode sequer conversar com ele. Um dia a foice há de encontrar a pedra, e será necessário castigá-lo de maneira exemplar. Permita-me, senhor coronel...”

O tenente Dub mergulhou no documento redigido pelo major de Přemyšl e, quando terminou de ler, exclamou solenemente para Švejk:

“Agora chegou o teu fim. Onde você pôs o uniforme do governo?”

“Deixei na barragem do açude, quando experimentei estes trapos para ver como os soldados russos andavam com eles”, respondeu Švejk. “Na verdade, não passou de um engano.”

Švejk começou a contar ao tenente Dub tudo o que sofrera por causa daquele engano e, quando terminou, o tenente Dub berrou:

“Agora é que você vai me conhecer. Sabe o que significa perder propriedade do governo? Sabe o que significa, seu patife, perder um uniforme durante a guerra?”

“Comunico respeitosamente, senhor tenente”, respondeu Švejk, “que, quando um soldado perde o uniforme, precisa receber outro novo.”

“Jesus, Maria!”, exclamou o tenente Dub. “Seu boi, seu animal, você vai brincar comigo por tanto tempo que, depois da guerra, ainda terá de servir mais cem anos.”

O coronel Gerbich, que até então permanecera sentado atrás da mesa, tranquilo e circunspecto, fez de repente uma careta terrível, pois o dedão do pé, até então manso, transformara-se, por causa de um ataque de gota, de cordeiro pacífico num tigre rugidor, numa corrente elétrica de seiscentos volts, num membro triturado lentamente por um martelo até virar cascalho. O coronel Gerbich apenas agitou a mão e berrou com a voz terrível de um homem assado lentamente num espeto:

“Todo mundo para fora! Tragam meu revólver!”

Todos já conheciam aquilo e, por isso, saíram correndo junto com Švejk, que foi arrastado pela guarda até o corredor. Somente o tenente Dub ficou, pois queria ainda aproveitar aquele momento, que lhe parecia tão oportuno, para atacar Švejk, e disse ao coronel que fazia caretas:

“Permito-me chamar sua atenção, senhor coronel, para o fato de que este homem...”

O coronel miou e atirou o tinteiro contra o tenente, depois do que o assustado tenente Dub prestou continência e disse:

“Naturalmente, senhor coronel.”

E desapareceu pela porta.

Depois disso, durante muito tempo ouviram-se do gabinete do coronel berros e uivos, até que por fim os gemidos dolorosos cessaram. O dedão do coronel transformou-se de repente outra vez num cordeiro tranquilo, o ataque de gota passou, o coronel tocou a campainha e ordenou que conduzissem Švejk novamente até ele.

“Então, qual é afinal a sua história?”, perguntou o coronel a Švejk, como se tudo o que havia de desagradável tivesse caído de cima dele e ele se sentisse tão livre e feliz como se estivesse deitado na areia à beira-mar.

Švejk, sorrindo amigavelmente para o coronel, contou-lhe toda a sua odisseia, como era ordenança da 11ª companhia de marcha do 91º regimento e como não sabia o que fariam lá sem ele.

O coronel também sorriu e depois expediu as seguintes ordens:

“Providenciar para Švejk uma passagem militar, via Lviv, até a estação Zóltance, onde sua companhia de marcha deverá chegar amanhã, e fornecer-lhe, no depósito, um novo uniforme do governo e seis coroas e oitenta e dois heller em substituição à ração militar para a viagem.”

Quando depois Švejk, num novo uniforme austríaco, deixava o Estado-Maior da brigada para seguir à estação, o tenente Dub estava parado diante do edifício e ficou bastante surpreendido quando Švejk se apresentou diante dele com rigor militar, mostrou-lhe os documentos e perguntou, solícito, se tinha algum recado para o senhor primeiro-tenente Lukáš.

O tenente Dub não conseguiu dizer outra coisa além da palavra:

“Abtreten!”

E, enquanto olhava Švejk se afastar, resmungava apenas para si mesmo:

“Você ainda vai me conhecer, Jesus, Maria, você vai me conhecer...”


Na estação de Zóltance estava reunido todo o batalhão do capitão Ságner, com exceção da nachhút da 14ª companhia, que se perdera em algum lugar quando contornavam Lviv.

Ao entrar na cidadezinha, Švejk viu-se num ambiente completamente novo, pois ali já era possível perceber, pelo movimento geral, que não estavam muito longe das posições onde a matança acontecia. Por toda parte estavam espalhadas peças de artilharia e viaturas do comboio, de cada casa saíam soldados dos mais variados regimentos, e entre eles, como uma elite, circulavam os alemães do Reich, distribuindo aristocraticamente aos austríacos cigarros de suas abundantes reservas. Junto às cozinhas dos alemães do Reich, na praça, havia até barris de cerveja, dos quais se servia aos soldados cerveja em canecas de medida durante o almoço e o jantar, e em torno daqueles barris arrastavam-se como gatos gulosos os negligenciados soldados austríacos, com as barrigas inchadas pela suja infusão açucarada de chicória.

Grupos de judeus de peiot, metidos em longos cafetãs, apontavam para as nuvens de fumaça a oeste e gesticulavam com os braços. Gritava-se por toda parte que Uciszków, Busk e Derewiany estavam ardendo às margens do rio Bug.

O estrondo dos canhões era ouvido nitidamente. Logo tornavam a gritar que os russos estavam bombardeando Kamionka Strumiłowa a partir de Grabowa, que se combatia ao longo de todo o Bug e que os soldados detinham os refugiados que já pretendiam atravessar de volta o Bug e retornar às suas casas.

Por toda parte reinava a confusão, e ninguém sabia ao certo se os russos não haviam passado novamente à ofensiva, interrompendo sua retirada contínua em toda a frente.

A cada instante, patrulhas de gendarmes de campanha conduziam ao comando principal da cidadezinha alguma assustada alma judaica, acusada de espalhar notícias falsas e enganosas. Ali espancavam os infelizes judeus até sangrarem e depois os mandavam de volta para casa com o traseiro retalhado.

Foi no meio dessa confusão que Švejk chegou e começou a procurar pela cidadezinha sua companhia de marcha. Já na estação, por pouco não entrou em conflito com o comando de etapa. Quando se aproximou da mesa onde eram dadas informações aos soldados que procuravam suas unidades, um cabo sentado atrás dela berrou para ele, perguntando se por acaso queria que fosse procurar sua companhia de marcha em seu lugar. Švejk respondeu que só queria saber onde estava aquartelada, naquela cidadezinha, a 11ª companhia de marcha do 91º regimento, de tal e tal batalhão de marcha.

“Para mim é muito importante”, enfatizava Švejk, “saber onde fica a 11ª companhia de marcha, porque eu sou o ordenança dela.”

Para completar a desgraça, junto à mesa ao lado estava sentado um sargento do Estado-Maior, que saltou como um tigre e urrou para Švejk:

“Seu porco desgraçado, você é ordenança e não sabe onde está sua companhia de marcha?”

Antes que Švejk pudesse responder, o sargento do Estado-Maior desapareceu no escritório e, pouco depois, trouxe de lá um primeiro-tenente gordo, que tinha o aspecto tão digno quanto o proprietário de uma grande empresa de açougue.

Os comandos de etapa serviam também de armadilhas para soldados desgarrados e embrutecidos, que talvez passassem a guerra inteira procurando suas unidades, vagando pelas etapas e, de preferência, esperando nas filas diante das mesas dos comandos de etapa onde havia a inscrição Minagegeld.

Quando o primeiro-tenente gordo entrou, o sargento gritou “Habt Acht!”, e o primeiro-tenente perguntou a Švejk:

“Onde estão os seus documentos?”

Depois que Švejk os apresentou e o primeiro-tenente se convenceu de que seu itinerário, do Estado-Maior da brigada até sua companhia em Zóltance, estava correto, devolveu-lhe os documentos e disse, com benevolência, ao cabo que estava à mesa:

“Dê-lhe as informações.”

Em seguida tornou a se fechar no escritório ao lado.

Assim que a porta se fechou atrás dele, o sargento do Estado-Maior agarrou Švejk pelo ombro e, conduzindo-o até a saída, deu-lhe a seguinte informação:

“Trate de sumir daqui, seu fedorento!”

E assim Švejk se viu novamente no meio daquela confusão e passou a procurar alguém conhecido do batalhão. Caminhou muito tempo pelas ruas, até que finalmente resolveu apostar numa única carta.

Parou um coronel e, em seu alemão quebrado, perguntou-lhe se por acaso sabia onde estava aquartelado seu batalhão com sua companhia de marcha.

“Você pode falar tcheco comigo”, disse o coronel. “Eu também sou da Boêmia. Seu batalhão está instalado na aldeia vizinha de Klimontów, depois da linha férrea. Vocês estão proibidos de entrar na cidadezinha, porque os homens de uma de suas companhias brigaram na praça com os bávaros assim que chegaram.”

Švejk partiu, portanto, para Klimontów.

O coronel chamou-o de volta, enfiou a mão no bolso e deu cinco coroas a Švejk para que comprasse cigarros. Depois de se despedir novamente dele com amabilidade, afastou-se pensando consigo mesmo:

“Que soldadinho simpático.”

Švejk prosseguiu em direção à aldeia e, refletindo a respeito do coronel, chegou à conclusão de que doze anos antes havia em Trento um coronel chamado Habermaier, que também tratava os soldados com muita amabilidade, até que por fim se descobriu que era homossexual, quando tentou violentar nos banhos do Ádige um aspirante a cadete, ameaçando-o com o dienstreglamá.

Sob a influência desses pensamentos sombrios, Švejk chegou devagar à aldeia próxima, e não lhe deu muito trabalho encontrar o Estado-Maior do batalhão, pois, embora a aldeia fosse muito extensa, havia ali apenas um edifício decente: uma grande escola primária, construída pela administração provincial da Galícia naquela região puramente ucraniana para promover vigorosamente a polonização do povoado.

Durante a guerra, a escola passara por várias fases. Ali haviam sido instalados diversos Estados-Maiores russos e austríacos, e por algum tempo o ginásio fora transformado em sala de operações, na época das grandes batalhas que decidiam o destino de Lviv. Ali cortavam pernas e braços e praticavam trepanações de crânio.

Atrás da escola, no jardim escolar, havia uma grande cratera em forma de funil, provocada pela explosão de um projétil de grosso calibre. Num canto do jardim erguia-se uma pereira robusta, e de um de seus galhos pendia um pedaço de corda cortada, na qual estivera enforcado havia pouco tempo o pároco greco-católico local. Ele fora enforcado após a denúncia do diretor polonês da escola, que o acusara de pertencer ao grupo dos velhos rutenos e de, durante a ocupação russa, ter celebrado na igreja uma missa pela vitória das armas do czar ortodoxo russo. Isso não era verdade, pois, naquele período, o acusado nem sequer se encontrava no povoado: estava tratando seus cálculos biliares num pequeno balneário não atingido pela guerra, em Bochnia Zamurowana.

No enforcamento do pároco greco-católico haviam desempenhado seu papel vários fatores: a nacionalidade, uma disputa religiosa e uma galinha. Pouco antes da guerra, o infeliz pároco matara em seu jardim uma das galinhas do professor, que ciscavam e desenterravam as sementes de melão que ele plantara.

Depois da morte do pároco greco-católico, a casa paroquial ficou vazia e pode-se dizer que cada um levou alguma coisa do senhor pároco como lembrança.

Um pequeno agricultor polonês chegou a levar para casa um piano velho, cuja tampa superior usou para consertar a portinhola do chiqueiro. Parte dos móveis foi rachada pelos soldados, como era costume, e, por um feliz acaso, permaneceu intacto o grande fogão da cozinha, com sua excelente chapa, pois o pároco greco-católico em nada se diferenciava de seus ultracolegas: gostava de comer bem e apreciava ter muitas panelas e assadeiras tanto sobre a chapa quanto no forno.

Tornou-se, então, uma espécie de tradição que todas as unidades de tropas que passavam por ali cozinhassem naquela cozinha para os oficiais. No andar de cima, no grande aposento, funcionava uma espécie de cassino de oficiais. As mesas e cadeiras haviam sido recolhidas entre os moradores da aldeia.

Naquele dia, justamente, os oficiais do batalhão haviam organizado um jantar festivo. Tinham feito uma coleta e comprado um porco, e o cozinheiro Jurajda preparava uma matança de porco para os oficiais, cercado por vários parasitas das fileiras dos ordenanças de oficiais. Entre eles se destacava o sargento-contador, que aconselhava Jurajda sobre como trinchar a cabeça do porco para que lhe sobrasse um pedaço do focinho.

Quem tinha os olhos mais esbugalhados de todos era o glutão Baloun.

Era assim, mais ou menos, que canibais olhavam, com gula e cobiça, para a gordura que escorria de um missionário assado no espeto, soltando um aroma agradável enquanto tostava. Baloun sentia-se como um cão de leiteiro que puxasse uma carrocinha, enquanto um ajudante de salsicheiro passava ao lado levando na cabeça um cesto cheio de linguiças frescas saídas do defumador, com uma corrente de linguiças pendendo do cesto pelas costas, bastando saltar e abocanhar, não fosse o maldito arreio ao qual o pobre cão estava atrelado e a miserável focinheira.

E a massa de linguiça, atravessando o primeiro estágio do nascimento, enorme embrião de linguiça amontoado sobre a mesa, cheirava a pimenta, gordura e fígado.

Jurajda, de mangas arregaçadas, estava tão solene que poderia servir de modelo para uma pintura de Deus criando o globo terrestre a partir do caos.

Baloun não se conteve e começou a soluçar. Seus soluços foram crescendo até se transformarem num choro convulsivo.

“Por que está berrando como um boi?”, perguntou-lhe o cozinheiro Jurajda.

“Foi que eu me lembrei de casa”, respondeu Baloun entre soluços, “de como eu sempre participava disso lá, e de como nunca quis mandar nem para o meu melhor vizinho um pedaço da matança. Eu sempre queria comer tudo sozinho, e comia mesmo. Uma vez me entupi tanto de linguiças, morcelas e carne suína cozida que todo mundo pensou que eu fosse estourar, e ficaram me tocando em círculos pelo terreiro com um chicote, como se faz quando uma vaca estufa depois de comer trevo. Senhor Jurajda, permita que eu enfie a mão nesse recheio, e depois podem me amarrar, porque senão eu não vou sobreviver a esse sofrimento.”

Baloun levantou-se do banco e, cambaleando como um bêbado, aproximou-se da mesa e estendeu sua pata na direção do monte de recheio.

Começou uma luta feroz. Todos os presentes mal conseguiram dominá-lo e impedir que se atirasse sobre o recheio. Só não conseguiram evitar que, enquanto o expulsavam da cozinha, ele enfiasse desesperadamente a mão na panela com as tripas de linguiça de molho.

O cozinheiro Jurajda ficou tão exaltado que atirou atrás do fugitivo Baloun um feixe inteiro de espetinhos de madeira e berrou:

“Encha a barriga de espetinhos, seu peste!”

A essa altura, os oficiais do batalhão já estavam reunidos no andar de cima e, enquanto aguardavam solenemente aquilo que nascia lá embaixo, na cozinha, bebiam, por falta de outra bebida alcoólica, uma ordinária aguardente de centeio caseira, tingida de amarelo com uma decocção de cebola. O comerciante judeu afirmava que aquilo era o melhor e mais autêntico conhaque francês, herdado de seu pai, que por sua vez o recebera do próprio avô.

“Escute aqui, homem”, disse-lhe nessa ocasião o capitão Ságner, “se você disser ainda que seu bisavô comprou isso dos franceses quando eles fugiam de Moscou, vou mandar prendê-lo até que o mais novo de sua família se torne o mais velho.”

Enquanto amaldiçoavam o judeu empreendedor depois de cada gole, Švejk já se encontrava sentado no escritório do batalhão, onde não havia ninguém além do voluntário de um ano Marek. Na condição de historiador do batalhão, ele aproveitava a permanência da unidade em Zóltance para descrever de antemão algumas batalhas vitoriosas que provavelmente aconteceriam no futuro.

Por enquanto fazia alguns esboços e tinha acabado de escrever, quando Švejk entrou:

“Se diante dos olhos de nosso espírito surgirem todos aqueles heróis que participaram dos combates junto à aldeia N, onde, ao lado de nosso batalhão, lutaram um batalhão do regimento N e outro batalhão do regimento N, veremos que nosso n-ésimo batalhão demonstrou as mais brilhantes capacidades estratégicas e contribuiu inegavelmente para a vitória da n-ésima divisão, cujo objetivo era consolidar definitivamente nossas posições no setor N.”

“Então, como vê”, disse Švejk ao voluntário de um ano, “estou aqui de novo.”

“Deixe-me cheirar você”, disse Marek, voluntário de um ano, docemente comovido. “Hum, você realmente está fedendo a prisão.”

“Como de costume”, disse Švejk. “Foi só um pequeno mal-entendido. E o que você está fazendo?”

“Como vê”, respondeu Marek, “estou jogando no papel o heroico salvamento da Áustria, mas não consigo fazer a coisa encaixar e só sai enóno. Estou sublinhando a letra n, que alcançou uma perfeição extraordinária tanto no presente quanto no futuro. Além das habilidades anteriores, o capitão Ságner descobriu em mim um talento matemático fora do comum. Preciso conferir as contas do batalhão e cheguei, até agora, à conclusão contábil de que o batalhão está inteiramente no passivo e só espera uma oportunidade de acertar suas contas com os credores russos, porque é tanto depois das derrotas quanto depois das vitórias que mais se rouba. Aliás, tanto faz. Mesmo que nos esmaguem por completo, já existem documentos sobre nossa vitória, porque, no papel de batalionsgeschichtsschreibra, tenho a honra de poder escrever: ‘Virar-se novamente contra o inimigo, que já julgava ter a vitória a seu lado. A investida de nossos soldados e o ataque de baionetas foram obra de um instante. O inimigo foge em desespero, lança-se nas próprias trincheiras, nós o golpeamos sem piedade, de modo que ele abandona suas posições em desordem, deixando em nossas mãos prisioneiros feridos e ilesos. Este é um dos momentos mais gloriosos.’ Quem sobreviver a tudo isso manda para casa, pelo feldpost, um cartão: ‘Levaram no cu, minha querida mulher! Estou bem. Você já desmamou nosso pirralho? Só não ensine ele a chamar estranhos de papai, porque isso seria difícil para mim.’ Depois, a censura risca do cartão ‘Levaram no cu’, porque não se sabe quem levou, e a frase poderia dar margem a várias combinações, já que a expressão não estava clara.”

“O principal é falar com clareza”, observou Švejk. “Quando os missionários estiveram em Santo Inácio, em Praga, no ano de 1912, havia lá um pregador que disse do púlpito que provavelmente não se encontraria com ninguém no céu. Naquele exercício espiritual noturno estava presente um funileiro chamado Kulíšek, e depois da devoção ele disse na cervejaria que aquele missionário devia ter feito muita coisa ruim, já que anunciara na igreja, como numa confissão pública, que não se encontraria com ninguém no céu, e perguntou por que mandavam gente assim para o púlpito. A gente deve sempre falar com clareza e nitidez, e não por meio de rodeios desse tipo. Anos atrás, havia na cervejaria dos Brejšek um mestre de adega que tinha o hábito, quando estava animado e voltava do trabalho para casa, de parar num café noturno, brindar com hóspedes desconhecidos e dizer sempre, durante o brinde: ‘Nós em vocês, vocês em nós...’ Uma vez, por causa disso, levou de um cavalheiro decente de Jihlava um soco tão grande na boca que, de manhã, depois que varreram os dentes do chão, o dono do café chamou sua filhinha, que frequentava o quinto ano da escola primária, e perguntou quantos dentes um adulto tinha na boca. Como ela não sabia, arrancou-lhe dois dentes, e no terceiro dia recebeu uma carta daquele mestre de adega, na qual ele pedia desculpas por todos os aborrecimentos que lhe causara e explicava que não quisera dizer nada indecente, mas que o público não o compreendia, porque, na verdade, a frase era: ‘Nós nos zangamos com vocês, vocês se zangam conosco?’ Quem fala coisas de duplo sentido deve pensar nelas antes. Um homem direto, que fala tudo como lhe vem ao bico, raramente leva um soco na boca. E, quando isso lhe acontece algumas vezes, ele acaba tomando cuidado e prefere ficar de bico fechado em sociedade. É verdade que todo mundo passa a achar que um homem desses é traiçoeiro e sabe Deus mais o quê, e às vezes também dão uma surra nele, mas isso já faz parte de sua prudência e de seu autocontrole, porque ele precisa levar em conta que está sozinho e que diante dele há muitas pessoas que se sentem ofendidas, e que, se começasse a brigar com elas, levaria duas vezes mais. Um homem desses deve ser modesto e paciente. Em Nusle existe um tal senhor Hauber. Um domingo, em Kundratice, furaram-no por engano com uma faca na estrada, quando ele voltava de um passeio ao moinho de Bartůněk. E ele chegou até em casa com a faca enfiada nas costas. Quando a mulher tirou o paletó dele, puxou a faca direitinho, e ainda naquela manhã já estava usando-a para cortar a carne do goulash, porque era de aço de Solingen e estava bem afiada, enquanto todas as facas que eles tinham em casa eram serrilhadas e cegas. Depois ela quis ter em casa um jogo inteiro de facas daquele tipo e começou a mandá-lo todos os domingos passear em Kundratice, mas ele era tão modesto que não ia a lugar nenhum além da casa dos Banzet, em Nusle, onde sabia que, se ficasse sentado na cozinha, Banzet o poria para fora antes que alguém pudesse tocar nele.”

“Você não mudou nada”, disse-lhe o voluntário de um ano.

“Não mudei”, respondeu Švejk. “Não tive tempo para isso. Chegaram até a querer me fuzilar, mas isso ainda não seria o pior. O fato é que ainda não recebi em lugar nenhum meu soldo desde o dia doze.”

“Aqui você também não vai receber agora, porque estamos indo para Sokal, e o soldo só será pago depois da batalha. Precisamos economizar. Calculando que a coisa estoure por lá daqui a duas semanas, serão economizadas, por cada soldado morto, incluindo os adicionais, 24 coroas e 72 heller.”

“E o que mais há de novo por aqui?”

“Primeiro, nossa nachhut desapareceu. Segundo, o corpo de oficiais está fazendo uma matança de porco na casa paroquial. E a tropa se espalhou pela aldeia e pratica toda espécie de imoralidade com a população feminina local. De manhã amarraram um soldado de sua companhia porque ele subiu ao sótão atrás de uma velha de setenta anos. Esse homem é inocente, porque a ordem do dia não dizia até que idade isso era permitido.”

“Eu também acho”, disse Švejk, “que esse homem é inocente, porque, quando uma velha dessas sobe uma escada, a gente não consegue ver a cara dela. Foi exatamente o que aconteceu durante as manobras perto de Tábor. Um dos nossos pelotões estava alojado numa cervejaria, e uma mulher esfregava o chão do corredor. Um tal Chramosta se aproximou dela e lhe deu umas palmadas, como é que vou dizer, nas saias. Ela tinha umas saias muito desenvolvidas, e, quando ele bateu nelas, ela não fez nada. Ele bateu pela segunda vez, bateu pela terceira, e ela continuou sem fazer nada, como se aquilo não dissesse respeito a ela. Então ele se decidiu a agir, enquanto ela continuava tranquilamente a esfregar o chão. Depois ela se virou para ele de frente e disse: ‘Peguei você, soldadinho!’ Aquela velha tinha mais de setenta anos e depois contou a história por toda a aldeia. E agora permito-me perguntar se, durante minha ausência, você também não esteve preso.”

“Não houve oportunidade”, desculpou-se Marek. “Mas, no que diz respeito a você, preciso informar que o batalhão expediu uma ordem de prisão contra você.”

“Isso não tem importância”, observou Švejk. “Fizeram muito bem. O batalhão tinha mesmo de fazer isso e expedir uma ordem de prisão contra mim. Era obrigação deles, porque ninguém sabia de mim durante todo esse tempo. Não houve nenhuma precipitação por parte do batalhão. Então você disse que todos os oficiais estão na casa paroquial, na matança de porco? Preciso ir lá e me apresentar, avisar que estou de volta. Ainda mais porque o senhor primeiro-tenente Lukáš deve ter ficado muito preocupado comigo.”

Švejk partiu em direção à casa paroquial com passo militar firme, cantando:

Olhe para mim,

meu consolo,

olhe para mim,

como fizeram

de mim um senhor...

Então Švejk entrou na casa paroquial, subindo as escadas de onde vinham as vozes dos oficiais.

Falava-se de toda espécie de coisas, e naquele momento estavam malhando a brigada, comentando a desordem que reinava no Estado-Maior. O ajudante da brigada também acrescentou lenha à fogueira, observando:

“Nós telegrafamos por causa daquele Švejk, Švejk...”

“Hier!”, gritou Švejk atrás da porta entreaberta e, entrando, repetiu: “Hier! Melde gehorsam, Infanterist Švejk, Kumpanieordonanz 11. Marschkumpanie!”

Vendo os rostos paralisados do capitão Ságner e do primeiro-tenente Lukáš, nos quais se refletia uma espécie de desespero silencioso, não esperou que lhe fizessem pergunta alguma e exclamou:

“Comunico respeitosamente que quiseram me fuzilar por eu ter traído Sua Majestade, o imperador.”

“Por Jesus Cristo, o que está dizendo, Švejk?”, gritou o primeiro-tenente Lukáš, desesperadamente pálido.

“Comunico respeitosamente, foi assim, senhor primeiro-tenente...”

E Švejk começou a narrar minuciosamente como tudo aquilo lhe acontecera.

Olhavam para ele de olhos arregalados, enquanto ele contava todos os detalhes possíveis. Não se esqueceu nem sequer de mencionar que, no dique do viveiro onde lhe acontecera aquela desgraça, cresciam miosótis. Quando começou a citar os nomes tártaros que conhecera em sua peregrinação, como Hallimulabalibej, aos quais acrescentou toda uma série de nomes inventados por ele próprio, como Valivolavalivej e Malimulamalimej, o primeiro-tenente Lukáš já não conseguiu se conter:

“Eu vou dar um pontapé em você, seu animal. Continue de maneira breve, mas coerente!”

E Švejk continuou com a mesma meticulosidade e, quando chegou ao tribunal sumário, ao general e ao major, mencionou que o general era vesgo do olho esquerdo e que o major tinha olhos azuis, “...que para mim giram”, acrescentou depois, em rima.

Zimmermann, comandante da 12ª companhia, atirou em Švejk a caneca da qual bebia a poderosa aguardente do judeu.

Švejk continuou tranquilamente, contando como depois se chegara ao conforto espiritual e como o major dormira até de manhã em seus braços. Em seguida defendeu brilhantemente a brigada para onde fora enviado quando o batalhão o reclamara como desaparecido. Por fim, apresentou ao capitão Ságner os documentos que demonstravam que aquela alta instância da brigada o absolvera de qualquer suspeita e lembrou:

“Permito-me comunicar respeitosamente que o senhor tenente Dub se encontra na brigada com uma concussão cerebral e manda lembranças a todos. Peço meu soldo e o dinheiro do tabaco.”

O capitão Ságner e o primeiro-tenente Lukáš trocaram olhares interrogativos, mas naquele instante a porta se abriu e entraram carregando, numa espécie de tina, uma sopa fumegante de linguiça.

Aquilo era o começo de todas as delícias que esperavam.

“Seu sujeito desgraçado”, disse o capitão Ságner a Švejk, de bom humor diante dos prazeres que se aproximavam, “só a matança de porco salvou você.”

“Švejk”, acrescentou o primeiro-tenente Lukáš, “caso aconteça mais alguma coisa, a situação vai ficar ruim para você.”

“Comunico respeitosamente que precisa ficar ruim para mim”, disse Švejk, fazendo continência, “porque, quando um homem está no Exército, precisa saber e conhecer...”

“Desapareça!”, berrou o capitão Ságner.

Švejk desapareceu e desceu até a cozinha. Ali também voltara o arrasado Baloun, pedindo que lhe permitissem servir seu primeiro-tenente Lukáš durante o banquete.

Švejk chegou justamente durante uma discussão entre o cozinheiro Jurajda e Baloun.

Jurajda empregava expressões bastante incompreensíveis.

“Você é uma larva glutona”, dizia a Baloun. “Comeria até começar a suar, e, se eu mandasse você levar as linguiças lá para cima, acabaria fazendo o diabo com elas na escada.”

A cozinha agora tinha outro aspecto. Os sargentos-contadores do batalhão e das companhias petiscavam de acordo com suas graduações, segundo um plano elaborado pelo cozinheiro Jurajda. Os escriturários do batalhão, os telefonistas das companhias e alguns graduados comiam avidamente, de uma pia enferrujada, sopa de linguiça diluída com água quente, para que também sobrasse alguma coisa para eles.

“Olá!”, disse a Švejk o sargento-contador Vaněk, roendo um pé de porco. “Nosso voluntário de um ano Marek esteve aqui há pouco e anunciou que você está de volta e usando um uniforme novo. Você me meteu agora numa bela encrenca. Ele me assustou dizendo que não conseguiremos prestar contas desse uniforme com a brigada. Seu uniforme foi encontrado no dique do viveiro, e nós já comunicamos isso à brigada por intermédio do batalionskanclaj. Em meus registros, você consta como afogado enquanto nadava. Você nem precisava ter voltado para nos criar problemas com dois uniformes. Nem imagina o que fez com o batalhão. Cada parte de seu uniforme está registrada conosco. Ele figura em minha relação de uniformes, na companhia, como acréscimo. A companhia tem um uniforme completo a mais. Eu comuniquei isso ao batalhão. Agora receberemos da brigada a informação de que você recebeu lá um uniforme novo. Enquanto isso, o batalhão vai informar, nos mapas de fardamento, que houve um acréscimo de um conjunto completo... Eu conheço essas coisas. Isso pode acabar em auditoria. Quando se trata de uma insignificância dessas, vêm aqui representantes da intendência. Quando desaparecem dois mil pares de botas, ninguém se importa... Mas nós perdemos aquele seu uniforme”, disse Vaněk tragicamente, sugando o tutano de um osso que lhe caíra nas mãos e retirando o restante com um palito de fósforo que usava para limpar os dentes em lugar de um palito. “Por causa de uma insignificância dessas, com certeza virá uma inspeção. Quando eu estava nos Cárpatos, recebemos uma inspeção porque não fora obedecida a ordem de tirar as botas dos soldados congelados sem danificá-las. Tiraram, tiraram, mas em dois deles as botas rasgaram, e um já as tinha estragadas antes de morrer. E o desastre estava feito. Veio um coronel da intendência e, não fosse o fato de ele ter levado uma bala russa na cabeça logo que chegou e rolado para o vale, não sei o que teria acontecido.”

“Também tiraram as botas dele?”, perguntou Švejk, interessado.

“Tiraram”, respondeu Vaněk, melancólico, “mas ninguém sabia quem tinha sido, de modo que nem sequer pudemos incluir as botas do coronel no relatório.”

O cozinheiro Jurajda tornou a descer e seu primeiro olhar caiu sobre o devastado Baloun, que estava sentado junto ao fogão, triste e arrasado, contemplando com um desespero terrível sua barriga emagrecida.

“Você devia pertencer à seita dos hesicastas”, disse com pena o erudito cozinheiro Jurajda. “Eles também passavam os dias inteiros olhando para o próprio umbigo, até lhes parecer que uma auréola brilhava ao redor dele. Então acreditavam ter alcançado o terceiro grau da perfeição.”

Jurajda meteu a mão no forno e tirou de lá uma morcela.

“Come, Baloun”, disse afavelmente, “empanturra-te até estourar, engasga e morre, seu glutão.”

Os olhos de Baloun se encheram de lágrimas.

“Lá em casa, quando a gente matava porco, eu primeiro”, observou Baloun em tom choroso, enquanto devorava a pequena morcela, “comia um bom pedaço de carne suína cozida, o focinho inteiro, o coração, uma orelha, um pedaço do fígado, um rim, o baço, um pedaço da barriga, a língua e depois…”

E acrescentou em voz baixa, como quem conta uma história de fadas:

“E depois vinham as linguiças, seis, dez de uma vez, e umas morcelas bem barrigudas, de cevada e de pão, que a gente nem sabia em qual morder primeiro, se na de pão ou na de cevada. Tudo se desfazia na língua, tudo cheirava bem, e o sujeito comia e comia. Então fico pensando”, continuou Baloun a lamentar-se, “que talvez as balas me poupem, mas a fome vai acabar comigo, e que nunca mais na vida vou me encontrar diante de uma assadeira de massa de morcela igual à que havia lá em casa. Aspic eu não apreciava tanto, porque aquilo só tremia e não rendia nada. Minha mulher, em compensação, era capaz de se matar por aspic, e eu não deixava nem um pedaço de orelha para ela pôr ali, porque queria devorar tudo sozinho, do jeito que mais me agradava. Eu não dava valor àquilo, àquela delícia, àquela fartura, e certa vez neguei um porco ao meu sogro, que vivia de aposentadoria na propriedade; matei o bicho, comi, e ainda por cima tive pena de mandar ao pobre velho nem que fosse uma pequena porção de cortesia. Depois ele profetizou que um dia eu morreria de fome.”

“E esse dia já chegou”, disse Švejk, de cuja boca, naquele dia, saíam rimas involuntariamente.

O cozinheiro Jurajda já havia perdido o súbito ataque de compaixão por Baloun, porque este se aproximara depressa demais do fogão, tirara do bolso um pedaço de pão e tentara mergulhar a fatia inteira no molho que, numa grande assadeira, se aconchegava de todos os lados a um enorme naco de carne de porco assada.

Jurajda bateu-lhe na mão, e a fatia de pão de Baloun caiu no molho como um nadador que, numa piscina pública, salta do trampolim para o rio.

Sem lhe dar oportunidade de retirar a iguaria da assadeira, agarrou-o e o pôs porta afora.

Arrasado, Baloun ainda viu pela janela Jurajda retirar com um garfo a fatia de pão, já encharcada de molho e castanha, entregá-la a Švejk e acrescentar um pedaço de carne cortado da superfície do assado, dizendo:

“Coma, meu modesto amigo!”

“Virgem Maria”, gemeu Baloun atrás da janela, “meu pão foi para o caralho.”

Balançando os braços compridos, saiu à procura de alguma coisa para beliscar na aldeia.

Švejk, enquanto comia a generosa dádiva de Jurajda, falou de boca cheia:

“Estou mesmo contente por estar outra vez entre os meus. Ia ficar muito aborrecido se não pudesse continuar prestando meus valiosos serviços à companhia.”

Limpando do queixo as gotas de molho e gordura que escorriam do pão, concluiu:

“Não sei, não sei o que vocês fariam aqui sem mim, se tivessem me prendido em algum lugar e a guerra ainda se prolongasse por mais alguns anos.”

O sargento-contador Vaněk perguntou com interesse:

“Quanto tempo acha, Švejk, que a guerra vai durar?”

“Quinze anos”, respondeu Švejk. “Isso é evidente, porque certa vez já houve uma Guerra dos Trinta Anos, e agora somos metade mais inteligentes que antes; portanto, 30 dividido por 2 dá 15.”

“O ordenança de oficial do nosso capitão”, interveio Jurajda, “contou que ouviu dizer que, assim que ocuparmos as fronteiras da Galícia, não avançaremos mais. Então os russos começarão a negociar a paz.”

“Nem valeria a pena fazer guerra”, disse Švejk enfaticamente. “Se é guerra, é guerra. Eu, decididamente, não vou falar em paz antes de chegarmos a Moscou e Petrogrado. Afinal, se é uma guerra mundial, não vale a pena ficar de palhaçada só em torno das fronteiras. Vejamos, por exemplo, os suecos, durante a Guerra dos Trinta Anos. De onde eles não vieram, e chegaram até Německý Brod e Lipnice, onde fizeram uma devastação tão grande que, até hoje, depois da meia-noite, o pessoal fala sueco nas tavernas, e ninguém entende ninguém. Ou os prussianos, que também não eram vizinhos, e em Lipnice ainda há prussianos a dar com pau por causa deles. Chegaram até Jedouchov e a América e depois voltaram.”

“Aliás”, disse Jurajda, que naquele dia ficara completamente transtornado e confuso por causa do banquete suíno, “todos os seres humanos descenderam das carpas. Consideremos, amigos, a teoria da evolução de Darwin…”

Suas reflexões posteriores foram interrompidas pela irrupção do voluntário de um ano Marek.

“Salve-se quem puder!”, gritou Marek. “O tenente Dub chegou há pouco de automóvel ao Estado-Maior do batalhão e trouxe consigo aquele merdinha do cadete Biegler. A situação com ele é terrível”, prosseguiu Marek, informando-os. “Quando desceu com ele do automóvel, invadiu a repartição. Vocês se lembram de que, quando saí daqui, eu disse que ia tirar uma soneca. Pois me estendi num banco da repartição e estava começando a pegar no sono quando ele pulou em cima de mim. O cadete Biegler berrou ‘Habacht!’, o tenente Dub me pôs de pé e começou: ‘Está admirado, não é, por eu tê-lo surpreendido na repartição descumprindo seus deveres? Só se dorme depois do toque de recolher’, ao que Biegler acrescentou: ‘Seção 16, parágrafo 9 do regulamento do quartel.’ Então o tenente Dub deu um murro na mesa e gritou: ‘Talvez vocês tenham querido se livrar de mim no batalhão. Não pensem que foi uma concussão; meu crânio aguenta muita coisa.’ Enquanto isso, o cadete Biegler folheava papéis sobre a mesa e leu em voz alta, para si mesmo, num documento: ‘Ordem da divisão número 280!’ O tenente Dub achou que ele estava zombando por causa da última frase, aquela de que o crânio dele aguentava muita coisa, e começou a censurá-lo por seu comportamento indigno e insolente diante de oficiais mais antigos. Agora o está trazendo para cá, ao capitão, para se queixar dele.”

Pouco depois, entraram na cozinha, por onde era preciso passar para subir até o salão onde estava sentado todo o corpo de oficiais e onde, depois da perna de porco, o gorducho alferes Malý cantava uma ária da ópera La Traviata, arrotando por causa do repolho e do almoço gorduroso.

Quando o tenente Dub entrou, Švejk gritou:

“Habacht, todo mundo de pé!”

O tenente Dub aproximou-se tanto de Švejk que pôde gritar diretamente em seu rosto:

“Agora pode se preparar, agora acabou para você! Vou mandar empalhá-lo como lembrança para o 91º regimento.”

“Zum Befehl, senhor tenente”, disse Švejk, batendo continência. “Certa vez li, com todo o respeito, que houve uma grande batalha em que morreu um rei sueco junto com seu fiel cavalo. Transportaram as duas carcaças para a Suécia, e agora os dois cadáveres estão empalhados no museu de Estocolmo.”

“De onde tirou esses conhecimentos, seu patife?”, berrou o tenente Dub.

“Com todo o respeito, senhor tenente, do meu irmão, que é professor.”

O tenente Dub virou-se, cuspiu e foi empurrando o cadete Biegler escada acima, na direção do salão. Mesmo assim, não resistiu a virar-se na porta para olhar Švejk e, com a severidade implacável de um César romano decidindo o destino de um gladiador ferido no circo, fez um gesto com o polegar da mão direita e gritou para Švejk:

“Polegares para baixo!”

“Com todo o respeito”, gritou Švejk atrás dele, “já estou abaixando!”


O cadete Biegler estava feito uma mosca. Durante aquele tempo, passara por várias estações de cólera e, depois de todas as manipulações a que fora submetido como suspeito de estar infectado, acostumara-se, com toda a razão, a soltar continuamente, e já de maneira inteiramente involuntária, nas calças. Até que finalmente caiu, numa dessas estações de observação, nas mãos de um especialista que não encontrou bacilos de cólera em suas excreções, curtiu-lhe os intestinos com tanino como um sapateiro costura com linha encerada um par de sapatos arrebentados e o mandou para o posto de trânsito mais próximo, declarando o cadete Biegler, que estava fraco como vapor sobre uma panela, frontdiensttauglich.

Era um homem de bom coração.

Quando o cadete Biegler lhe chamou a atenção para o fato de que se sentia muito fraco, ele disse, sorrindo:

“Ainda será capaz de carregar a medalha de ouro por bravura. Afinal, alistou-se voluntariamente para a guerra.”

E assim o cadete Biegler partiu em busca da medalha de ouro.

Seus intestinos curtidos já não lançavam líquido ralo nas calças, mas ainda lhe restara uma frequente necessidade de evacuar, de modo que, desde o último posto de trânsito até o Estado-Maior da brigada, onde se encontrou com o tenente Dub, sua viagem fora, na verdade, uma marcha triunfal por todos os tipos possíveis de latrina. Perdera várias vezes o trem porque permanecera sentado nos banheiros das estações até o trem partir. Várias vezes perdera conexões por estar sentado no banheiro do vagão. Mesmo assim, apesar de todas as latrinas que encontrou pelo caminho, o cadete Biegler continuava se aproximando da brigada.

O tenente Dub ainda devia permanecer alguns dias sob tratamento na brigada, mas naquele mesmo dia, quando Švejk partira para o batalhão, o médico do Estado-Maior mudou de ideia a respeito dele ao saber que, à tarde, seguiria naquela direção, para onde estava o batalhão do 91º regimento, um automóvel sanitário.

Ficou muito contente por livrar-se do tenente Dub, que, como sempre, apoiava suas diversas afirmações com as palavras:

“Sobre isso, antes da guerra, eu já conversava lá em casa com o senhor administrador distrital.”

“Mit deinem Bezirkshauptmann kannst du mir Arsch lecken”, pensou o médico do Estado-Maior, agradecendo muito ao acaso por os automóveis sanitários seguirem para Kamionka Strumilowa passando por Żółtańce.

Švejk não viu o cadete Biegler na brigada porque este permanecera por mais de duas horas sentado, mais uma vez, numa instalação sanitária com descarga destinada aos oficiais.

Pode-se afirmar com segurança que o cadete Biegler jamais perdia tempo em lugares semelhantes, pois repetia mentalmente todas as batalhas gloriosas das gloriosas tropas austro-húngaras, começando pela batalha de Nördlingen, em 6 de setembro de 1634, e terminando por Sarajevo, em 19 de agosto de 1878.

Quando puxava pela incontável vez a corrente da descarga e a água desabava ruidosamente na bacia, semicerrava os olhos e imaginava o rugido da batalha, o ataque da cavalaria e o estrondo dos canhões.

O encontro do tenente Dub com o cadete Biegler não foi muito gracioso e certamente foi a causa da azedume que marcaria as relações futuras entre ambos, tanto em serviço quanto fora dele.

Quando o tenente Dub tentou pela quarta vez entrar no banheiro, gritou furioso:

“Quem está aí?”

“Cadete Biegler, 11ª companhia de marcha, batalhão N, 91º regimento”, soou a resposta orgulhosa.

“Aqui”, apresentou-se o concorrente diante da porta, “está o tenente Dub, da mesma companhia.”

“Já estou terminando, senhor tenente!”

“Estou esperando!”

O tenente Dub olhava impaciente para o relógio. Ninguém acreditaria na quantidade de energia e perseverança necessária para suportar, numa situação dessas, mais quinze minutos diante da porta, depois mais cinco, depois outros cinco, recebendo sempre, em resposta às batidas, pancadas e pontapés, as mesmas palavras:

“Já estou terminando, senhor tenente.”

Uma febre apoderou-se do tenente Dub, especialmente quando, após um promissor farfalhar de papel, transcorreram mais sete minutos sem que a porta se abrisse.

Além de tudo, o cadete Biegler era tão discreto que ainda não dera descarga.

Em meio à febre branda, o tenente Dub começou a pensar se não deveria se queixar ao comandante da brigada, que talvez ordenasse que arrombassem a porta e retirassem de lá o cadete Biegler. Também lhe ocorreu que aquilo talvez constituísse uma violação da subordinação.

Somente depois de mais cinco minutos o tenente Dub percebeu que já não tinha motivo algum para permanecer atrás daquela porta, pois a vontade havia passado fazia tempo. Mesmo assim, continuou diante da latrina por uma questão de princípio, dando pontapés na porta, atrás da qual se ouvia sempre a mesma coisa:

“In einer Minute fertig, Herr Leutnant.”

Finalmente ouviu-se Biegler dar descarga e, pouco depois, os dois se encontraram frente a frente.

“Cadete Biegler”, trovejou o tenente Dub, “não pense que estive aqui com a mesma finalidade que o senhor. Vim porque, ao chegar ao Estado-Maior da brigada, não se apresentou a mim. Não conhece os regulamentos? Sabe a quem deu precedência?”

O cadete Biegler procurou por um momento na memória se, por acaso, não cometera algo incompatível com a disciplina e com as disposições referentes às relações das patentes inferiores de oficiais com as superiores.

Em seus conhecimentos a esse respeito havia uma lacuna e um abismo monstruosos.

Na escola, ninguém lhes dera uma aula sobre como, num caso assim, uma patente inferior deveria comportar-se diante de outra, superior; se deveria interromper a evacuação e sair voando pela porta do banheiro, segurando as calças com uma das mãos e prestando continência com a outra.

“Pois responda, cadete Biegler!”, gritou desafiadoramente o tenente Dub.

Então o cadete Biegler lembrou-se de uma resposta muito simples, que resolvia tudo:

“Senhor tenente, ao chegar ao Estado-Maior da brigada, eu não tinha conhecimento de que o senhor se encontrava aqui e, depois de resolver meus assuntos na repartição, dirigi-me imediatamente ao banheiro, onde permaneci até sua chegada.”

E acrescentou em voz solene:

“O cadete Biegler apresenta-se ao senhor tenente Dub.”

“Está vendo que isso não é pouca coisa”, disse amargamente o tenente Dub. “Na minha opinião, cadete Biegler, assim que chegou ao Estado-Maior da brigada, deveria ter perguntado na repartição se, por acaso, também não estava presente algum oficial do seu batalhão, da sua companhia. Resolveremos a questão do seu comportamento no batalhão. Estou partindo para lá de automóvel, e o senhor irá comigo. Nada de objeções!”

O cadete Biegler objetara que a repartição do Estado-Maior da brigada lhe preparara um itinerário de marcha por via férrea, meio de viagem que lhe parecia muito mais vantajoso, considerando os tremores de seu reto. Toda criança sabia que automóveis não eram equipados para tais necessidades. Antes de percorrer cento e oitenta quilômetros, o sujeito já teria feito nas calças.

Sabe-se lá o que aconteceu, mas, no começo da viagem, os solavancos do automóvel não tiveram praticamente influência alguma sobre Biegler. O tenente Dub ficou desesperado com a perspectiva de não conseguir executar seu plano de vingança.

Quando partiram, o tenente Dub pensara consigo mesmo:

“Espere só, cadete Biegler. Quando a vontade apertar, acha que vou mandar parar?”

Nesse sentido, na medida do possível diante da velocidade com que devoravam os quilômetros, entabulou uma conversa agradável sobre o fato de que automóveis militares, aos quais fora determinada uma distância específica, não podiam desperdiçar gasolina parando em qualquer lugar.

O cadete Biegler objetou, com absoluta correção, que, quando um automóvel esperava parado em algum lugar, não consumia gasolina alguma, pois o motorista desligava o motor.

“Quando precisa”, continuou obstinadamente o tenente Dub, “chegar ao destino no horário determinado, não pode parar em lugar nenhum.”

O cadete Biegler não replicou.

Cortaram o ar por mais de um quarto de hora, quando o tenente Dub sentiu que sua barriga estava um tanto inchada e que seria conveniente parar o automóvel, descer, entrar na vala, baixar as calças e buscar alívio.

Resistiu como um herói até o quilômetro 126, quando puxou com força o casaco do motorista e gritou-lhe ao ouvido:

“Halt!”

“Cadete Biegler”, disse o tenente Dub graciosamente, enquanto saltava depressa do automóvel em direção à vala, “agora o senhor também tem uma oportunidade.”

“Obrigado”, respondeu o cadete Biegler, “não quero atrasar desnecessariamente o automóvel.”

E o cadete Biegler, que também já estava no limite, disse consigo mesmo que preferia borrar-se inteiro a perder a bela oportunidade de desmoralizar o tenente Dub.

Antes de chegarem a Żółtańce, o tenente Dub ainda mandou parar duas vezes e, depois da última parada, disse ferozmente a Biegler:

“Comi bigos à polonesa no almoço. Do batalhão, enviarei por telégrafo uma queixa à brigada. Chucrute estragado e carne de porco imprópria para o consumo. A insolência dos cozinheiros ultrapassa todos os limites. Quem ainda não me conhece vai me conhecer.”

“O marechal de campo Nostitz-Rhieneck, a elite da cavalaria de reserva”, respondeu Biegler, “publicou um tratado intitulado Was schadet dem Magen im Kriege, no qual desaconselhava completamente o consumo de carne de porco durante as dificuldades e privações da guerra. Todo excesso durante uma marcha é prejudicial.”

O tenente Dub não respondeu uma palavra, apenas pensou:

“Vou ajustar as contas com essa sua sabedoria, rapaz.”

Depois reconsiderou e acabou dirigindo a Biegler uma pergunta completamente idiota:

“Então o senhor acha, cadete Biegler, que um oficial diante do qual, por causa da sua patente, deve considerar-se subordinado, come sem moderação? Não quis acaso dizer, cadete Biegler, que eu me empanturrei? Agradeço pela grosseria. Esteja certo de que acertarei as contas com o senhor. Ainda não me conhece, mas, quando me conhecer, vai se lembrar do tenente Dub.”

Na última frase, quase mordeu a língua, pois o automóvel passou por cima de um buraco na estrada.

O cadete Biegler mais uma vez não respondeu nada, o que tornou a irritar o tenente Dub, que perguntou grosseiramente:

“Escute, cadete Biegler, creio que lhe ensinaram que deve responder às perguntas de seu superior.”

“Naturalmente”, disse o cadete Biegler. “Existe tal passagem. Contudo, antes de tudo, é necessário analisar nossa relação mútua. Até onde sei, ainda não fui designado para lugar algum, de modo que não se pode falar em subordinação direta minha ao senhor, senhor tenente. O mais importante, porém, é que, nos círculos de oficiais, responde-se às perguntas dos superiores somente em assuntos de serviço. Tal como estamos aqui, sentados os dois num automóvel, não constituímos nenhum elemento combatente de determinada operação de guerra. Não existe entre nós relação de serviço alguma. Ambos estamos viajando igualmente para nossas unidades, e a resposta à sua pergunta, se eu por acaso quis dizer que o senhor se empanturrou, senhor tenente, decididamente não seria uma declaração de serviço.”

“Já terminou?”, berrou-lhe o tenente Dub. “Seu…”

“Sim”, declarou o cadete Biegler com voz firme. “Não se esqueça, senhor tenente, de que aquilo que aconteceu entre nós provavelmente será decidido por um tribunal de honra dos oficiais.”

O tenente Dub estava quase fora de si de raiva e furor. Tinha o hábito peculiar de, quando se exaltava, dizer ainda mais idiotices e disparates do que quando estava calmo.

Por isso resmungou:

“Quem decidirá sobre o senhor será o tribunal militar.”

O cadete Biegler aproveitou a oportunidade para liquidá-lo completamente e disse, no tom mais amistoso possível:

“Você está brincando, camarada.”

O tenente Dub gritou para o motorista parar.

“Um de nós terá de seguir a pé”, balbuciou.

“Eu vou de carro”, respondeu tranquilamente o cadete Biegler, “e você, camarada, faça o que quiser.”

“Continue!”, bradou o tenente Dub para o motorista, com voz de delirante, e envolveu-se depois num silêncio digno, como Júlio César quando os conspiradores se aproximavam dele com punhais para apunhalá-lo.

Assim chegaram a Żółtańce, onde encontraram o rastro do batalhão.


Enquanto o tenente Dub e o cadete Biegler ainda discutiam na escada se um cadete que ainda não havia sido designado para unidade alguma tinha direito a uma linguiça tirada da quantidade destinada ao oficialato das diferentes companhias, lá embaixo, na cozinha, os demais já estavam satisfeitos, espalhados pelos largos bancos, conversando sobre tudo quanto era assunto e fumando cachimbo com toda a força.

O cozinheiro Jurajda declarou:

“Hoje fiz uma descoberta extraordinária. Acho que provocará uma revolução completa na culinária. Você sabe, Vaněk, que eu não conseguia encontrar manjerona para as linguiças em lugar nenhum desta aldeia amaldiçoada.”

“Herba majoranae”, disse o sargento-contador Vaněk, lembrando-se de que era aprendiz de droguista.

Jurajda continuou:

“É algo ainda não investigado como, em caso de necessidade, o espírito humano recorre aos mais variados meios, como novos horizontes se abrem diante dele e como começa a inventar todas as coisas impossíveis com que a humanidade até hoje nem sequer sonhou… Pois bem, procuro manjerona em todas as casas, corro de um lado para outro, faço perguntas, explico para que preciso dela, como ela se parece…”

“Devia ter descrito também o cheiro”, interveio Švejk do banco. “Devia ter dito que a manjerona cheira como quando a gente cheira um vidrinho de tinta numa alameda de acácias floridas. No alto do monte Bohdalec, perto de Praga…”

“Mas, Švejk”, interrompeu-o o voluntário de um ano Marek em tom suplicante, “deixe Jurajda terminar.”

Jurajda prosseguiu:

“Numa propriedade encontrei um velho soldado reformado da época da ocupação da Bósnia e Herzegovina, que havia cumprido o serviço militar em Pardubice, nos ulanos, e que até hoje não se esqueceu do tcheco. Ele começou a discutir comigo, dizendo que na Boêmia não se punha manjerona nas linguiças, mas camomila. Eu já não sabia realmente o que fazer, pois qualquer pessoa sensata e imparcial deve considerar a manjerona a princesa entre os temperos usados nas linguiças. Era preciso encontrar depressa um substituto que lhes desse aquele sabor característico e condimentado. Então encontrei, numa casa, pendurada sob a imagem de algum santo, uma coroa nupcial de murta. Eram recém-casados, e os ramos de murta da coroa ainda estavam bastante frescos. Assim, pus a murta nas linguiças, embora naturalmente tivesse de escaldar toda a coroa nupcial três vezes em água fervente para amolecer as folhas e eliminar o cheiro e o gosto excessivamente penetrantes. Nem é preciso dizer que, quando tirei deles aquela coroa nupcial de murta para pôr nas linguiças, houve muito choro. Despediram-se de mim garantindo que, por tamanho sacrilégio, já que a coroa havia sido benzida, a próxima bala me mataria. Vocês comeram minha sopa de linguiça, e nenhum percebeu que, em vez de manjerona, ela cheirava a murta.”

“Em Jindřichův Hradec”, interveio Švejk, “havia anos atrás um salsicheiro chamado Josef Linek, que tinha duas caixas numa prateleira. Numa guardava uma mistura de todos os temperos que punha nas linguiças e morcelas. Na outra guardava pó contra insetos, porque o salsicheiro já tinha descoberto várias vezes que seus fregueses haviam mordido, dentro de uma salsicha, um percevejo ou uma barata. Ele sempre dizia que o percevejo tinha um gosto condimentado de amêndoas amargas, daquelas usadas em bolos, mas que as baratas, dentro dos embutidos, fediam como uma Bíblia velha tomada pelo mofo. Por isso ele zelava pela limpeza da oficina e espalhava aquele pó contra insetos por toda parte. Certa vez estava fazendo morcelas e tinha pegado um resfriado. Agarrou a caixa do pó contra insetos e despejou tudo na massa das morcelas. Desde aquele dia, em Jindřichův Hradec, todo mundo só ia comprar morcelas na casa de Linek. As pessoas se amontoavam na loja. E ele foi esperto o bastante para descobrir que o responsável era o pó contra insetos, e desde então encomendava pelo correio caixas inteiras do produto, depois de avisar a firma fornecedora para escrever na caixa ‘Tempero indiano’. Esse era o segredo dele, e o levou para o túmulo. O mais interessante era que todas as baratas e percevejos se mudaram das casas das famílias que compravam suas morcelas. Desde então, Jindřichův Hradec é uma das cidades mais limpas de toda a Boêmia.”

“Já terminou?”, perguntou o voluntário de um ano Marek, que aparentemente também queria intrometer-se na conversa.

“Com isso já terminei”, respondeu Švejk, “mas conheço um caso parecido nos Beskids. Só vou contar quando estivermos em combate.”

O voluntário de um ano Marek começou a falar:

“A arte culinária é mais bem avaliada na guerra, especialmente na frente. Permitam-me fazer uma pequena comparação. Em tempos de paz, líamos e ouvíamos falar das chamadas sopas geladas, isto é, sopas às quais se acrescenta gelo e que são muito apreciadas no norte da Alemanha, na Dinamarca e na Suécia. E vejam só: veio a guerra e, neste inverno, nos Cárpatos, os soldados tiveram tanta sopa congelada que nem sequer a comiam, embora seja uma especialidade.”

“Gulache congelado dá para comer”, objetou o sargento-contador Vaněk, “mas não por muito tempo, no máximo uma semana. Foi por causa disso que nossa nona companhia abandonou uma posição.”

“Mesmo em tempos de paz”, disse Švejk com extraordinária seriedade, “toda a guerra girava em torno da cozinha e dos mais variados pratos. Lá em Budějovice tínhamos um primeiro-tenente chamado Zákrejs, que vivia rondando a cozinha dos oficiais. E, quando algum soldado fazia alguma coisa errada, ele o punha em posição de sentido e começava: ‘Seu patife, se isso se repetir mais uma vez, vou transformar sua cara num bife bem batido, vou esmagá-la até virar purê de batata e depois farei você comer tudo. Vai escorrer de dentro de você caldo de miúdos com arroz, e você vai parecer uma lebre recheada numa assadeira. Está vendo que precisa se corrigir, a menos que queira que as pessoas pensem que fiz de você um assado de carne moída com repolho.’”

A continuação daquela exposição e da interessante conversa sobre o uso do cardápio na educação dos soldados antes da guerra foi interrompida por uma grande gritaria no andar de cima, onde terminava o almoço festivo.

Da mistura confusa de vozes destacava-se o grito do cadete Biegler:

“O soldado deve conhecer, já em tempos de paz, o que a guerra exige, e, na guerra, não esquecer o que aprendeu no campo de exercícios.”

Depois ouviu-se a respiração ofegante do tenente Dub:

“Peço que se registre que esta é a terceira vez que sou insultado!”

Grandes acontecimentos se desenrolavam lá em cima.

O tenente Dub, que alimentava suas conhecidas intenções traiçoeiras contra o cadete Biegler diante do comandante do batalhão, fora recebido pelos oficiais, assim que entrou, com uma enorme algazarra. A aguardente judaica produzira excelente efeito sobre todos.

Gritavam uns por cima dos outros, fazendo alusões às habilidades equestres do tenente Dub:

“Sem cavalariço não dá! Mustangue desembestado! Quanto tempo passou entre os caubóis do Oeste, camarada? Cavaleiro de circo!”

O capitão Ságner enfiou-lhe rapidamente um cálice da maldita aguardente, e o ofendido tenente Dub sentou-se à mesa. Arrastou uma cadeira velha e quebrada para junto do primeiro-tenente Lukáš, que o recebeu com palavras amistosas:

“Já comemos tudo, camarada.”

A triste figura do cadete Biegler passou de algum modo despercebida, embora ele, rigorosamente de acordo com o regulamento, se apresentasse em serviço ao capitão Ságner ao redor da mesa e aos demais oficiais, repetindo várias vezes, apesar de todos o verem e conhecerem:

“O cadete Biegler chegou ao Estado-Maior do batalhão.”

Biegler pegou um copo cheio, sentou-se modestamente junto à janela e aguardou uma ocasião apropriada para lançar ao ar alguns de seus conhecimentos extraídos dos manuais.

O tenente Dub, a cuja cabeça aqueles terríveis resíduos da bebedeira começavam a subir, batia com o dedo na mesa e de repente virou-se para o capitão Ságner:

“Eu e o administrador distrital sempre dizíamos: patriotismo, fidelidade ao dever, superação de si mesmo, essas são as verdadeiras armas na guerra! Lembro-me disso especialmente hoje, quando nossas tropas, dentro de pouco tempo, atravessarão as fronteiras.”

As Aventuras do Bom Soldado Švejk

Sinopse

Edição integral em português brasileiro de As Aventuras do Bom Soldado Švejk, traduzida diretamente do original tcheco de domínio público, preservando a estrutura dos quatro livros e suas 29 unidades.

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