Universo da obra
Universo da obra
No palácio, havia portas feitas para a passagem dos reis, corredores para a circulação dos criados, galerias onde os retratos aprendiam a durar mais do que a carne, e havia também janelas altas, estreitas, abertas para o frio, por onde o reino parecia maior e mais verdadeiro do que nos salões em que o descreviam. Branca de Neve preferia essas janelas. Dali, as coisas não precisavam agradar a ninguém. A neve cobrindo os telhados não tinha a obrigação de parecer pura, os pinheiros não tinham a obrigação de parecer eternos, o rio não tinha a obrigação de parecer dócil, e o próprio palácio, visto de um ponto nas montanhas, deixava de ser a construção impecável que os embaixadores admiravam e passava a se revelar como realmente era, uma fortaleza de pedra sustentada por pessoas batalhadoras, ordens repetidas, fogo aceso e medo constante de que alguma fenda, pequena no começo, viesse a rachar a grandeza inteira.
Naquela manhã, Branca de Neve estava com metade do corpo para fora de uma dessas janelas, apoiando o joelho na pedra gelada e o braço num relevo esculpido, enquanto tentava alcançar, na sacada estreita do lado de fora, uma fita de couro que o vento levara na noite anterior. A fita não tinha grande valor. Fora usada para prender os cabelos durante uma aula de esgrima leve, depois escapara de seus dedos quando ela correu pela ala norte, e agora jazia a poucos palmos da queda. Não valia o risco, pensaria qualquer pessoa sensata do palácio. A própria ideia de uma princesa equilibrando o peso do corpo sobre uma cornija tomada pela geada já seria o bastante para fazer uma aia desmaiar, uma governanta rezar, um conselheiro pedir a cabeça de três serviçais de uma vez. Branca de Neve, porém, conhecia muito bem a diferença entre o que parecia perigoso e o que realmente era. A pedra ainda estava firme, o relevo sustentava a mão esquerda, a sola da bota havia encontrado um vinco seguro, o vento vinha de lado, o que ajudava, e a distância entre seus dedos e a fita diminuía a cada respiração controlada. O palácio queria que ela crescesse cercada, observada, medida, guiada de um aposento a outro, como convinha à única filha do rei. Mas eles, contudo, aprenderam cedo a vigiá-la de forma irregular, e ela também aprendera cedo, com delicadeza e sem alarde, a se mover pelos descuidos.
Quando alcançou a fita, prendeu-a no pulso e não voltou de imediato para dentro. Ficou alguns instantes olhando o lado leste da encosta, onde a estrada principal vinha se desenhando entre o branco, primeiro como um risco escuro, depois como uma pequena procissão de pontos em movimento. A distância não permitia distinguir rostos, apenas a disposição, cavaleiros à frente, carros fechados atrás, estandartes recolhidos por causa do vento, uma escolta mais vistosa do que seria necessário para um carregamento comum. Branca estreitou os olhos. O reino recebera muita gente nos últimos anos, mercadores vindos do sul em busca de metal trabalhado, mensageiros de fronteira, emissários de casas aliadas, senhores menores em busca de favores, vassalos querendo ser vistos, cada qual trazendo notícias, intenções ou dívidas. Aquela comitiva, porém, trazia outra coisa, uma solenidade anterior à chegada, como se todos já soubessem quem vinha e o palácio inteiro estivesse desde cedo alinhando a própria postura para recebê-la.
Atrás de si, dentro da torre, o silêncio do corredor foi cortado por passos rápidos, um só homem, pelo peso distribuído e pelo ritmo curto, não era soldado, era criado ou secretário, alguém com pressa de levar ordem a quem nunca pisaria na neve. Branca de Neve puxou o corpo para dentro num movimento limpo, soltou o ar, ajeitou o vestido escuro que usava sob a capa de lã e desapareceu antes que a porta lateral se abrisse. Não correu. Correr chamava atenção. Desceu a escada em espiral tocando o corrimão com a ponta dos dedos, sabia onde a pedra afundava meio dedo, onde a umidade deixava a sola mais traiçoeira, onde a luz mudava de tom conforme se aproximava das galerias principais. Era isso o que mais gostava na própria liberdade, ela nunca lhe fora oferecida como prêmio, vinha do exercício de reparar. Enquanto outros diziam por onde ela devia passar, ela aprendia por onde podia.
O palácio estava mais desperto do que de costume. Nas antecâmaras, criados levavam bacias de cobre, arrastavam bancos, trocavam arranjos secos por ramos recém-cortados, acendiam braseiros, esticavam tapeçarias que ninguém olhava de perto. Nas paredes, os retratos de longa data conservavam a serenidade insolente dos mortos. A rainha primeira, pintada ainda muito jovem, tinha os olhos inclinados na direção de um ponto que o artista não mostrara. O rei, naquele quadro, aparecia ao seu lado com uma firmeza que a idade e a saudade mais tarde tornariam rara, a mão pousada na empunhadura da espada, o rosto voltado para frente como convinha aos homens cuja imagem precisava servir ao reino ainda quando o corpo já pedisse refúgio. Branca de Neve sempre passava depressa por aquela parede. Havia ali uma sensação difícil de suportar, a de estar diante de uma felicidade que lhe haviam contado melhor do que realmente lhe haviam dado.
A primeira vez que ouvira a palavra viúvo aplicada ao pai, não a compreendeu. Imaginou, pela gravidade das vozes, que se tratasse de um cargo ou de um tipo especial de rei. Anos mais tarde, veio a entender que havia homens que perdiam a esposa e seguiam andando, dando ordens, dormindo, caçando, rindo em datas necessárias, como se a vida houvesse recuado apenas um pouco. O pai dela não pertencia a essa espécie. Ele continuara rei, os conselheiros garantiam isso, as audiências seguiam essa contenda, os selos continuavam sendo pressionados sobre cera quente, as caravanas seguiam protegidas, as minas produziam, os celeiros eram contados, as fronteiras tinham homens de vigia, e ainda assim algo essencial nele ficara retido no tempo em que a morte atravessara o quarto onde a primeira rainha dera à luz. O reino aprendera a respeitar sua dor de longe, convertendo-a numa imagem útil. A mesma ausência que para Branca de Neve tomava a forma de um pai disperso, para a corte se tornara uma espécie de grandeza severa. Diziam, com a voz própria das frases repetidas muitas vezes, que o rei falava pouco porque pensava muito, que se recolhia porque carregava mais do que os outros suportariam, que raramente sorria porque havia homens cuja bondade não precisava de aparência branda. Ninguém mentia por completo. Ninguém dizia algo por inteiro.
Branca de Neve passou pela sala dos mapas e ouviu, antes de ver, o murmúrio controlado de homens educados para discordar com elegância. A porta estava entreaberta, como quase sempre ficava quando se tratava de reunião restrita, porque portas muito fechadas criavam curiosidade, e a corte preferia administrar até o grau de suspeita. Ela se aproximou pelo lado da decoração, entre uma coluna e um biombo talhado, ponto de escuta que descobrira aos dez anos e ao qual jamais renunciara. Do outro lado, as vozes vinham com nitidez suficiente.
— Chegaram à ponte baixa antes do previsto, Majestade.
— Melhor — respondeu alguém que não era o rei.
— Melhor em que sentido, lorde Avelar — disse outra voz, esta sim do rei, mais baixa do que a memória dela sempre esperava, — se todos aqui sabem para que vieram.
Houve um pequeno intervalo. Branca conseguia imaginá-los bem sem precisar ver. Avelar, magro e reto como uma régua colocada em pé, com as mãos sempre muito limpas. O chanceler do sul, que falava como quem mede o ar. Dois senhores da casa alta, presentes para testemunhar concordância e mais nada. E o pai, provavelmente sentado perto da janela grande, sem olhar para nenhum deles, os dedos pousados na borda da cadeira.
— Vieram para honrar esta coroa com aliança segura — respondeu Avelar, — e para oferecer ao reino uma certeza que ele precisa ver.
— Ver — repetiu o rei, e Branca ouviu na única palavra um cansaço tão insuperável que a rocha pareceu senti-lo, — sempre ver.
— Os vales do norte observam, as casas vassalas observam, as rotas observam. Um trono sem rainha, depois de tantos anos, começa a parecer incompleto aos olhos que procuram fraqueza.
— Meu trono não está incompleto.
— Não para quem o serve, Majestade. Para quem o calcula, talvez.
A frase permaneceu um instante na sala, assentando-se sobre os móveis, as cartas abertas, o fogo, como algo que ninguém desejava ouvir e todos sabiam inevitável. Branca de Neve sentiu primeiro curiosidade, depois uma atenção mais conquistada. Nos últimos meses, a palavra casamento surgira com frequência incomum nas áreas onde as criadas conversavam pensando estar sozinhas, nos corredores depois das ceias, na biblioteca quando algum conselheiro julgava que ela já havia saído. Sempre vinha acompanhada de outras palavras, aliança, continuidade, estabilidade, imagem, ventre, sangue, casa, fronteira. Nenhuma delas dizia amor. Branca, sem saber ainda tudo o que havia nessas faltas, percebia o bastante para desconfiar que os adultos cercavam certas decisões como cercavam os feridos, falando baixo demais em torno deles.
— Ela traz boas ligações — disse o chanceler. — Sua mãe era sobrinha de uma casa forte do oeste, o avô materno conteve duas disputas de fronteira sem perder terras, há instrução, presença, formação de corte. Não se trata de uma menina.
— Nem eu de um noivo — respondeu o rei.
Um dos senhores pigarreou, constrangido com a proximidade involuntária entre verdade e política. Branca quase sorriu. Era desse tipo de frase que gostava no pai, incomuns, vinham poucas, e justamente por isso ficavam maiores dentro dela do que talvez tivessem sido de fato.
A voz de Avelar retornou cuidadosa, como quem recoloca uma peça valiosa sobre a mesa.
— Trata-se do reino, Majestade.
Lá dentro, nada respondeu por algum tempo. Branca imaginou o pai erguendo os olhos para a janela, não para a paisagem, nunca sabia se ele olhava o que estava diante dele ou algum ponto já perdido dentro da cabeça. Imaginou também o retrato da mãe numa parede próxima, ou a lembrança dele pairando ali sem imagem alguma, o bastante para ferir. Quando enfim falou, não houve resistência, apenas uma espécie de rendição austera.
— Recebam-na com todas as honras.
A frase desceu pelo corpo de Branca como desce a água muito fria, primeiro na pele, depois mais fundo. Não entendeu tudo, nem precisava. Entendeu o bastante. Havia alguém a caminho, uma mulher suficiente para que homens adultos ajustassem enfeites, vozes e destinos antes mesmo de vê-la. Havia alguém a quem o palácio se apressava em oferecer um lugar que ainda não possuía e que, por isso mesmo, talvez viesse já moldada para ocupá-lo.
Branca afastou-se da porta com a rapidez tranquila de quem nunca quer deixar marcas do que ouviu. Cortou duas galerias, desceu uma escada curta e atravessou o jardim coberto por vidraças, onde as plantas de inverno se conservavam com insistência disciplinada. Ali o ar era outro, úmido, verde e cálido junto às raízes, embora os vidros estivessem marcados pelo branco do lado de fora. Encontrou o pai sozinho, mais cedo do que esperava, parado diante de uma laranjeira anã que a mãe, segundo lhe contavam, havia mandado trazer de uma região distante quando ainda acreditava que o reino poderia acolher frutos improváveis.
O rei ouviu os passos e não se voltou de imediato. Quando o fez, havia naquele rosto o mesmo que nela sempre apertava duas memórias ao mesmo tempo, a do homem alto que a colocara certa vez sobre os ombros para que visse a primeira neve do ano, e a do soberano cuja distância enchia o palácio de respeito e a infância dela de lacunas.
— Onde esteve? — perguntou.
Branca ergueu a fita de couro, agora presa ao pulso, como se aquilo bastasse.
— Recuperando o que era meu.
Por um instante, algo parecido com um sorriso tocou a boca do rei. Foi tão breve que talvez outro não visse. Para ela, porém, bastava. Esses eram os pequenos momentos com que construía, pedra por pedra, a ideia de felicidade.
— Um dia ainda cairá de uma dessas alturas.
— Não hoje.
— É sempre assim que os jovens respondem ao perigo.
— E é sempre assim que os mais velhos o exageram.
Dessa vez o sorriso veio inteiro, ainda que cansado. O rei estendeu a mão e ajeitou uma mecha escura que lhe havia escapado sobre a testa, gesto simples, antigo, tão raro que Branca sentiu vontade de segurá-lo ali por mais tempo do que seria próprio. Ele não o fez. Retirou a mão, voltou os olhos para a laranjeira, e a distância retornou como retorna o frio quando a porta se abre.
— Receberemos visitas hoje — disse.
— Eu vi a estrada.
— Vê demais.
Branca baixou a cabeça com docilidade suficiente para que a frase não parecesse desafio.
— Às vezes apenas olho de pontos melhores.
O pai soltou ar pelo nariz, não exatamente riso, não exatamente censura. Depois tocou de leve no ombro dela é se afastou, chamado de novo por vozes que nunca demoravam a encontrá-lo. Branca permaneceu no jardim alguns instantes, olhando a laranjeira e pensando que havia árvores incapazes de esquecer o lugar de onde vieram, ainda quando davam fruto noutro chão.
Quando o som das rodas alcançou o pátio principal, ela já estava na galeria superior, entre duas colunas de pedra, sem ser percebida por ninguém que importasse. A comitiva avançou pelo arco de entrada sob estandartes recolhidos, cavalos escuros, homens cobertos de pele e veludo grosso. No centro vinha a carruagem maior, fechada por cortinas pesadas. O palácio inteiro parecia prender a postura. Até os criados de serviço tinham o corpo mais direito. O coche parou, o lacaio desceu, a porta se abriu, e então ela surgiu.
A mulher que pousou o pé no degrau não era bela de um modo fácil. Era de uma espécie mais perigosa. Alta, sustentada pelo próprio eixo com uma naturalidade treinada, vestida em tons profundos que não disputavam com a neve, ela não procurava agradar o olhar, parecia saber exatamente onde queria colocá-lo. Havia brilho em seu porte, havia medida em seus movimentos, havia o cálculo de quem conhecia a cena antes de nela entrar, e havia também, escondido muito fundo ou talvez apenas pressentido por Branca, um cansaço duro, não do corpo, da vigilância.
A nova visitante ergueu a cabeça antes que qualquer nome fosse anunciado. Seus olhos subiram a fachada do palácio, passaram pelas janelas altas, pelas bandeiras imóveis, pelas sacadas, até encontrarem, na sombra da galeria, a menina imóvel entre as colunas. O instante foi breve. Bastou. Branca de Neve não soube dizer, depois, se ali houve reconhecimento, curiosidade ou mera precisão de olhar. Soube apenas que, pela primeira vez, sentiu com clareza a estranha impressão de estar sendo medida por alguém que já conhecia o valor das medidas antes mesmo de perguntar por elas.
Lá embaixo, os arautos começavam a anunciar títulos. Lá em cima, sob a pedra fria da galeria, Branca permaneceu quieta, a fita presa ainda ao pulso, como se de algum modo infantil e secreto precisasse lembrar a si mesma que certas coisas, quando o vento as leva, ainda podem ser recuperadas antes da queda.
Depois da morte da primeira rainha, um reino poderoso aprende a esconder suas rachaduras sob a disciplina da corte, o brilho do trono e a promessa de continuidade. O novo casamento do rei atende menos ao coração do que à política, e leva ao palácio uma mulher preparada para ocupar o centro como imagem de ordem, imponência e perfeição. É nesse ambiente de grandeza, vigilância e afetos mal resolvidos que Branca de Neve cresce. Filha do amor perdido do rei, ela encontra desde cedo pequenas liberdades entre os limites da própria condição, até se tornar uma jovem de inteligência rara, coragem inquieta e presença impossível de ignorar. Quando a rainha passa a ver nela não apenas beleza, mas uma ameaça real ao lugar que construiu, o conflito entre as duas rompe o espaço íntimo e alcança o coração do reino. Lançada à floresta, Branca de Neve encontra abrigo na casa de sete trabalhadores das montanhas, homens quase silenciosos, ligados por uma rotina intensa, por um entendimento sem palavras e por um cuidado que nunca souberam oferecer a ninguém de fora. Entre neve, madeira, ferro e veneno, a antiga história ressurge com nova densidade: a de uma jovem que não escolheu enfrentar a ordem, mas cresceu além do espaço que haviam traçado para ela, obrigando um reino inteiro a encarar o preço da falsa moral, o valor da liberdade e tudo aquilo que a comparação destrói.
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