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Teatro: A morta e O rei da vela

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Teatro: A morta e O rei da vela

Capítulo 1 · Teatro: A morta e O rei da vela

Carta-prefacio e compromisso do Hierofante

OSWALD DE ANDRADE

TEATRO A MORTA

O REI DA VELA

1937 Livraria JO SE’ O L Y M P IO Editora Ri o de Janeiro

CA R T A - P R E F AGIO DO AUTOR

Julieta Barttara

Dou a maioT importância á M O R T A em meio da minha obra literaria. E* o drama do poeta, do coordenador de toda ação humana, a quem a hostilidade de um século reacionário afastou pouco a pouco da linguagem util e cor­ rente. D o romantismo ao simbolismo, ao surrealismo, a jus­ tificativa da poesia perdeu-se em sons e protestos ininteligíveis e parou no balbuciamento e na telepatia. Bem longe dos chamados populares. A gora, os soterrados, atravéz da analyse, voltam á luz, e atravéz da ação, chegam ás barricadas. São os que têm a coragem incendiaria de destruir a própria alma des­ vairada, que neles naceu dos céos subterrâneos a que se acoi­ taram. A s catacumbas Uricas ou se esgotam ou desembocam V 1 nas catacumbas políticas. A você que é a minha companheira nessa dificil aterrisagem, dedico A M O R T A .

OSW ALD DE ANDRADE

São Paulo, 25/4/37.

COMPROMISSO DO HIEROFANTE

O hierofante — {surgindo na avant-scene, senta-se so­ bre a caixa do ponto) — Senhoras, senhores, eu sou um pedaço de personagem, perdido no teatro. Sou a moral. Antigamente a moralidade aparecia no fim das fabulas. H oje ela precisa se destacar no princi­ pio, afim de que a policia garanta o espetáculo. E se estiole o rictus imperdoável das galerias. Perma­ necerei fiél aos meus propositos até o fim da peça. E solidário com a vossa compreensão de classe. Coisas importantes nesta farça ficam a cargo do se- nario de que fazeis parte. Estamos nas minas mis­ turadas de um mundo. Os personagens não são unidos quando isolados. Em ação são coletivos. Como nos terremotos de vosso proprio domicilio ou em mais vastas penitenciarias, assistireis o indivi- duo em fatias e vel-o-eis social ou telúrico. Vossa imaginação terá que quebrar tumultos para satisfa­ zer as exigências da bilheteria. Nosso bando pre­ catório é esfomeado e humano como uma trupe de Shakespeare. Precisa de vossa corte. Não vos re­ tireis das cadeiras horrorizados com a vossa autop­ sia. Consolae-vos em ter dentro de vós um pequeno poeta e uma grande alma! Sede alinhados e cini- cos quando atingirdes o fim de vosso proprio ban­ quete desagradavel. Como os loucos nos comove­ remos por vossas controvérsias. Vamos, começae!

Teatro: A morta e O rei da vela

Sinopse

Teatro reúne A morta e O rei da vela, duas peças de Oswald de Andrade publicadas em 1937. A edição Literúnico preserva o texto autoral em domínio público a partir do exemplar digitalizado pela Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin.

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