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Capítulo 5 · Opúsculo Humanitário

V

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É uma verdade incontestável que a educação da mulher muita influência teve sempre sobre a moralidade dos povos, e que o lugar, que ela ocupa entre eles é o barômetro que indica os progressos de sua civilização. Entre os bárbaros do Norte, e os selvagens da América e da Oceania, que papel representou e representa ainda a mulher, principalmente nas duas últimas regiões?! A fé, que muito humilhante seria para uma mulher dizê-lo... Aqueles que têm viajado por esses países, ou lido a narração que de seus povos fazem verídicos historiadores, lamentam tanta degradação da espécie humana!! Deixaremos em silêncio a sorte da mulher da Europa na Idade Média, sob os Clóvis, Carlos Magno, Othon, o grande, Godofredo de Bouillon, Rodolpho de Habsburgo e Mahomet II, vencedor de Constantino XII, último imperador Grego, com o qual acabou o império cristão de Bizâncio, para dar lugar, entre as monarquias europeias, à primeira monarquia Otomana. Os Cruzados, trazendo à sociedade ocidental o desenvolvimento da navegação, da indústria, das artes, das ciências, e as lín Conta-se que Fúlvia (79 - 40 a.C.), rica matrona romana, fura a língua de Cícero após sua morte, por causa de seus discursos (as Filípicas) contra Marco Antônio, que era seu esposo. 12 Messalina, Túlia e Agripina foram mulheres romanas da Antiguidade conhecidas por comportamentos lascivos, traições, crueldades e/ou assassinatos. 13 Imperadores da Idade Média, de regiões diversas da Europa. guas, que lhes foi preciso aprender para estabelecerem uma comunidade de ideias entre os povos do gênio, as línguas diversas, preparando-lhe assim a época da renascença, em que a Itália e depois a França tanto brilharam, nenhum melhoramento fizeram na sorte da mulher. À voz dos Pedro Eremita, Urbano II, S. Bernardo, etc. corriam os reis e os povos cristãos à longínqua Palestina, para libertar os lugares santificados pelo Cristo, enquanto deixavam por libertar de férrea educação as mulheres, que Deus havia tão altamente enobrecido na Divina Mãe do mesmo Cristo! Quanto sangue derramou a humanidade! Quantas vítimas sacrificadas sem nenhum resultado para ela! Que aberração enfim do espírito do cristianismo! ... Mas era então assim que compreendiam a sua missão na terra os grandes senhores do Ocidente, longe ou dentro de seus suntuosos e sombrios castelos, cujo eco nos repetem ainda as legendas desses tempos! No Oriente, as ciências e as artes fugiam espavoridas do solo, que sanguinolentas guerras devastavam. A Grécia esclarecida havia desaparecido; e povos bárbaros, ou reis fanáticos profanavam o alcáçar das letras. Aos filósofos, que encheram o mundo de admiração por sua sabedoria e pela beleza de seus escritos, sucederam imperadores tais, como Miguel, o Gago, que não sabendo ler, proibiu se ensinasse a ler às crianças; e Miguel III, que minado de vergonhosos vícios, e desprezando como os seus antecessores a educação da mulher, mandara construir para os seus cavalos, que ele amava mais que a seus súditos, uma cavalharice, cujas paredes eram encrustadas de pórfido. O espírito das Annas Comnenas despontava nessas regiões, manchadas por toda a sorte de crimes, como desponta em noite tenebrosa o clarão de uma estrela, que brilha a furto no espaço. 14 Religiosos católicos de grande influência na Idade Média. 15 Anna Comnena (1083-1153), princesa bizantina, foi autora da obra “Alexíada” (1148), na qual relata os feitos e o conflituoso governo de seu pai, o imperador bizantino Aleixo I Comneno (1081- 1118). Anna Comnena, que teve uma educação privilegiada, foi uma mulher de grande erudição. A caridade, virtude personificada no sexo pela mãe do Redentor do mundo, e o heroísmo com que algumas santas mulheres suportavam o martírio, na esperança de uma vida melhor, podiam então somente consolar a mulher cristã. Feliz aquela que de fato o era, porque achava na fé, essa luz divina que nos esclarece a alma, um poderoso antídoto contra a degeneração do homem, e um porto seguro de salvação! Enquanto a civilização dormitava sob o anticristão e nunca assaz detestável regime feudal, que oprimia cruelmente as mulheres, e as cruentas guerras da religião proporcionavam ao feroz instinto de uma o sanguinolento e bárbaro triunfo da horrorosa noite de S. Bartolomeu, o mais funesto de todos os erros, o fanatismo, vomitava na Espanha e em Portugal o monstruoso flagelo, que tem jamais oprimido a humanidade!! O tremendo tribunal do Santo Ofício, esse vergonhoso parto dos tempos modernos do Cristianismo, tão fatal aos progressos da civilização, não queria encontrar nas vítimas, que imolava, a moral esclarecida, a virtude obstinada das Bororquias!17 Assim a educação da mulher ficou estacionária, principalmente nesses países, que a natureza enriqueceu de seus mais belos dons.

Opúsculo Humanitário

Sinopse

Opúsculo Humanitário, de Nísia Floresta, é uma obra brasileira de 1853 dedicada à defesa da educação das mulheres e à reflexão sobre civilização, cidadania e progresso social. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte digital validada, capa com identidade Literunico, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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