Universo da obra
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A fidelidade conjugal foi e é quase sempre seguida pela mulher indígena. Todos os que têm conhecimento da sua história sabem que, fáceis antes de tomarem marido, respeitam depois os laços que as ligam a este, sendo o adultério olhado com horror entre os selvagens. Boas mães e esposas fiéis, eis aqui duas qualidades preciosas comuns às nossas indígenas, dois vínculos santos que ligam e enobrecem a família, vínculos que sabem no estado selvagem respeitar, 133 Trata-se do índio potiguara Poti ou Potiguaçu (1600-1648), batizado Antônio Filipe Camarão, que foi um militar e líder indígena. Sua esposa Clara (séc. XVII), também potiguara, era igualmente uma combatente nas batalhas contra os invasores holandeses do Brasil. 134 Henrique Dias (séc. XVII), negro liberto e militar, um dos heróis da Batalha de Guararapes (Pernambuco, 1648-1649). 135 João Fernandes Vieira (1610-1681), militar e senhor de engenho, foi também um líder nas batalhas contra os holandeses. apresentando exemplos que bem merecem ser considerados pelas mulheres civilizadas de todos os países. Quanto ao que se tem inventado e dito de sua preguiça natural, falta de fé e repugnância por fixarem-se em qualquer lugar, responderemos que vimos nas aldeias que visitamos mulheres aborígenes mais constantemente ocupadas em diferentes trabalhos do que mesmo as mulheres das classes pobres das nossas cidades, que, todavia, não se faz em passar por preguiçosas. Elas são aptas para todo gênero de trabalho e artefatos; e tanto as que tivemos a nosso serviço como as que se educaram entre nossa família deram-nos sempre provas da mais constante dedicação. Estamos, pois, convencidos de que, se a sua raça não tem dado sempre exemplos tais, é antes por causa do mau tratamento que com ela se emprega, do que por defeito de sua índole geralmente dócil e boa. Não podemos, portanto ver sem mágoa e indignação a depreciação em que se tem aos aborígenes, quando de grandes virtudes são capazes e tão úteis nos poderiam ser! As mulheres são não somente mais íntegras que as africanas, e mais próprias a ajudar-nos a criar nossos filhos, servindo-nos com fidelidade e submissão, sem o servilismo e vícios das infelizes escravas, mas também suscetíveis das mais doces e nobres afeições. Sua alma encerra preciosos tesouros, que uma educação bem dirigida abriria aqueles mesmos que tanto desdenham da sua raça! Os resultados do método paternal empregado pelos verdadeiros apóstolos da civilização cristã nesta parte da América atestaram que os aborígenes eram suscetíveis de aperfeiçoarem-se em qualquer arte e dignos de concorrerem por sua bravura, docilidade e constância para o engrandecimento e glória do Brasil. Que eles não mereciam o desprezo em que foram depois deixados, desejamos que não o ateste geral, como já parcialmente o tem atestado a raça africana arrastada às nossas praias. Por sedenta ambição, por crime atroz! Quando, por sábio decreto de um rei justo e humano, a revoltante escravidão dos nossos indígenas foi abolida, e a introdução dos infelizes africanos veio substituir o vergonhoso tráfico, que em todo o Brasil se fazia com aqueles, julgou-se conveniente procurar exterminar os que acabavam de libertar-se, de direito que não de fato, porquanto a perseguição continuou debaixo de outro caráter; e ainda em nossos dias, com horror o sabemos! Caçam-se os selvagens em suas matas como animais ferozes, para apreendê-los e arrancar-lhes as mulheres e filhos, que se retêm e fazem servir como escravos... em muitas roças e casas do interior das províncias! Debalde um ou outro amigo da humanidade tem querido generalizar o sistema conciliador, que faria esquecer a esses infelizes um passado de horror e de vergonha para povos civilizados! Seus esforços têm sido quase sempre frustrados. E digamo-lo com franqueza: – enquanto os louváveis esforços desses verdadeiros amigos da humanidade não forem coadjuvados por uma vontade decidida do governo em tomar medidas enérgicas para substituir a perseguição e barbárie havidas com esses infelizes, maneiras conciliadoras e humanas, a missão de civilizar os selvagens não passará de uma farsa, com que se pretende entreter e distrair os espectadores do trágico drama, horrorosamente repetido em nossas florestas e retiradas habitações pelos dignos descendentes de seus primeiros exploradores!
Opúsculo Humanitário, de Nísia Floresta, é uma obra brasileira de 1853 dedicada à defesa da educação das mulheres e à reflexão sobre civilização, cidadania e progresso social. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte digital validada, capa com identidade Literunico, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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