Universo da obra
Universo da obra
Por uma anomalia dos nossos costumes, no Brasil, onde a mulher nada é ainda pelo espírito e nenhuma liberdade goza das que utilizam e honram as mulheres do Norte, onde o seu nome não se alistou até hoje no grande catálogo dos progressos humanitários por uma instituição qualquer de beneficência, são as mães quase sempre o árbitro exclusivo da educação das filhas, prerrogativa de que muitas se ufanam por não verem nela o indiferentismo, ou o desprezo hereditário de nossos homens pela educação do sexo. A elas, pois, incumbe particularmente prevenir ou corrigir as faltas dos primeiros anos, convencidas de que é um absurdo pretender que as meninas, a cuja educação doméstica não presidem os bons exemplos e o empenho constante de bem dirigi-las, possam depois aproveitar, em toda a amplidão, as boas lições que porventura venham a receber. Atentem todas as mães brasileiras como convêm ao seu próprio interesse, à dignidade da família e à glória da pátria na aurora do seu engrandecimento, para as propensões de suas filhas, e empreguem todos os seus esforços para arredá-las a tempo de tudo quanto possa animar as más, e enfraquecer as boas; evitem-lhes, sem que elas se apercebam até uma certa idade, as ocasiões de acharem-se em companhia de quem quer que seja longe de suas vistas, ou das de preceptoras esclarecidas, e dignas de sua confiança. Transfundam nos tenros corações de suas filhas a inata doçura e as boas qualidades do seu, furtando-as aos exemplos de vaidade, de orgulho, e dos erros que tendem a destruir ou a inutilizar a sua obra. Resignem por amor delas o gosto imoderado pelos prazeres do mundo sem, todavia, abstê-las completamente deles; sendo que um e outro excesso lhes pode ser da mesma sorte prejudicial. É harmonizando distrações inocentes com úteis ocupações, que uma mãe judiciosa deve procurar fortalecer o físico e o moral de suas filhas desde a mais tenra infância. Procurem sobretudo habituá-las ao trabalho, apresentando-o como uma virtude necessária em todos os estados da vida, qualquer que seja a opulência do indivíduo, e não digno do desdém com que o olham certas classes. As mulheres mais consideráveis das nações de que falamos sabem ocupar utilmente o tempo. A esposa, irmã, e noras de Luís Felipe rodeavam de noite uma mesa redonda, no palácio das Tulherias para fazerem serão. A esposa de Lamartine, e outras muitas mulheres que vivem na grande sociedade, e são obrigadas a sacrificar-lhe uma parte do seu tempo, têm, todavia, horas reservadas para o trabalho assim intelectual como material, alternando-o com obras de beneficência, em que grande parte delas se ocupa. Um dos primeiros trabalhos de escultura, que admiramos em Paris na igreja de S. Germano L’Auxerrois, foi um grupo de anjos de mármore sustentando uma pia d’água benta, cinzelado pela digna companheira do inimitável escritor francês. Por toda a parte encontram-se naqueles países primores de arte, em todos os gêneros, da mão das mulheres, que provam não somente o seu gosto e o estudo a que se dão, mas também o hábito do trabalho adquirido desde os verdes anos. 110 Luís Filipe I (1773-1850), rei de França de 1830 a 1848. 111 Mary-Anne-Elisa Birch (1790-1863), pintora e escultora francesa, esposa de Alphonse-Marie-Louis de Prat de Lamartine (1790-1869), poeta e político francês. Não é nas representações teatrais, principalmente as de nossa terra, nem nas casas de baile, que entre nós muitas meninas frequentam de comum com o colégio, donde as mandam buscar, interrompendo seus exercícios escolares, para não perderem triunfos que inebriam as filhas e lisonjeiam os pais, nessa atmosfera viciada onde a crocodílica voz de improvisados galantes, ou de galantes parasitas, destrói quase sempre o efeito das mais severas lições de moral, que uma jovem donzela adquire o gosto e o hábito do trabalho; ainda menos à janela, ordinariamente telégrafo especial do resultado da ociosidade em que as deixam vegetar; é sim no lar doméstico ou fora dele, mas estimulada sempre pelos bons exemplos da família, e pelo nobre desejo de bastar-se a si mesma utilizando a humanidade. Para guiar as meninas em tão grande e digno empenho será preciso vencer-se a fraqueza, que se tem de inspirar-lhes gosto por futilidades, as quais, dando-lhes apenas ligeiros matizes de boa educação, só lhes atraem passageiros sucessos, que lhes preparam bem vezes no futuro tristes e cruéis desilusões, senão a perda do repouso da consciência, a ruina total de sua felicidade.
Opúsculo Humanitário, de Nísia Floresta, é uma obra brasileira de 1853 dedicada à defesa da educação das mulheres e à reflexão sobre civilização, cidadania e progresso social. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte digital validada, capa com identidade Literunico, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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