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Capítulo 62 · Opúsculo Humanitário

LXII

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Por mais rigorosas que tenham sido as instituições dos povos, concernentes à exclusão absoluta da mulher de toda a sorte de governo público, quem há aí que ignore ter ela a maior influência nas ações dos homens, e por conseguinte nos destinos dos povos? Desde o último subalterno até o mais alto dos funcionários, são todos mais ou menos, não diremos, somente inspirados, mas dirigidos por seu amor, senão por seus caprichos, que tem mais de uma vez desviado da senda de seus deveres os maiores gênios, os caráteres mais abalizados. Passamos em silêncio o vergonhoso predomínio da mulher sem mérito na vida privada do homem, para apontar somente aquele que influi em sua vida pública. Quantas vezes a pena do circunspecto magistrado tem-lhe tremido a mão, firmando uma sentença contra sua consciência, para satisfazer o pedido de uma esposa, que lhe implora pelo réu de justiça! Quantas outras, o guerreiro impávido à frente do inimigo da pátria, no campo de batalha, curva o joelho e depõe a espada aos pés de uma mulher amada, se esta exige dele o sacrifício de sua glória e mais ainda, o de sua honra! E os monarcas! não tem alguns fechado os ouvidos às reclamações de seus súbitos para seguirem os ditames do coração, que lhes fala por um desses seres destinados a abaterem o orgulho do homem curvando-o à sua vontade? Pois, apesar do quanto se tem dito, e se continuará a dizer, da fragilidade da mulher e preeminência da razão do homem, este dobra quase sempre essa razão ao amor daquela, árbitro de suas ações; quem mais do que a mulher precisa de uma boa educação, correspondente às condições em que se acha colocada? Quem mais do que ela deve esclarecer o seu espírito de sorte a não abusar do império que exerce sobre o homem, e dirigir este à sua própria ventura e ao bem da humanidade? A vós, pais de família, a vós cumpre remediar os erros das gerações extintas! Educai vossas filhas nos sólidos princípios da moral, baseada no perfeito conhecimento de nossa santa religião, no exemplo de vossas virtudes, quer domésticas, quer cívicas. Em vez da leitura de inflamantes e perigosos romances, que imprudentemente lhes deixais livres, fornecei-lhes bons, escolhidos livros de moral e filosofia religiosa, que formem o seu espírito, esclareçam e fortifiquem sua razão. A história, principalmente a de nossa terra, de que bem poucas se ocupam, é um estudo útil e agradável, mais digno de ocupar as suas horas vagas que certos contos de mal gosto inventados pela superstição ou fanatismo ignorantes para recrear a mocidade sem espírito. Fazei-lhes compreender desde a infância que a mulher não foi criada para ser a boneca dos salões, a mitológica ridícula divindade, a cujos pés queimam falso incenso os desvairados adeptos do cristianismo. Inspirai-lhes o sentimento de sua própria dignidade e a firme resolução de mantê-la intacta e vantajosamente por ações dignas da mulher, dignas da cristã, dignas da humanidade. Bane de seu espírito os errôneos preconceitos que por aí vogam a respeito da fraqueza do sexo, fazendo-as penetrar-se desta verdade evangélica – a fraqueza escudada nas virtudes cristãs será sempre invencível. Pais, governo, povos do Brasil! Elevai os olhos para esse esplêndido firmamento, que se estende variando constantemente de mil encantadoras cores por sobre as nossas cabeças; volvei-os depois para essa perene pomposa vegetação, incansável de expandir a vossos pés seus ricos tesouros, esperando da vossa mão direção mais digna dela; contemplai todos esses prodigiosos dons da providência, desdobrados a olhos indiferentes! E recolhei-vos depois em vossos pensamentos e meditai... Não vos diz a consciência que a mulher nascida nesta vigorosa terra superabundante de magnificências naturais, respirando sob um céu radiante, no meio da poesia de tão admirável natureza, não se pode limitar ao papel que tem até hoje representado? Não sentis que a sua missão nesta parte da América civilizada, tão balda ainda de instituições caridosas, não deve ser a de recolher factícios triunfos tributados à matéria, quando o seu espírito pode e deve pretender a elevar-se a mais dignas e nobres aspirações promovendo na terra o bem do seu semelhante? À providência, colocando-vos tão vantajosamente, pareceu chamar-vos a comandar um dia os destinos de toda a América do Sul, assim como aos filhos da União os de toda a América do Norte. Eia! Se, com mais rico solo do que o dos Estados Unidos, faltou-vos a mola principal – a educação, para a par deles marchardes, preparai-vos ao menos a satisfazer dignamente a parte essencial da grande missão que vos fora destinada. Educai para isto a mulher, e com ela marchai avante na imensa via do progresso, à glória que leva o renome dos povos à mais remota posteridade! Fim

Opúsculo Humanitário

Sinopse

Opúsculo Humanitário, de Nísia Floresta, é uma obra brasileira de 1853 dedicada à defesa da educação das mulheres e à reflexão sobre civilização, cidadania e progresso social. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte digital validada, capa com identidade Literunico, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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