Universo da obra
Universo da obra
A França, essa fagueira região dos belos espíritos, onde todas as fisionomias sorriem ao estrangeiro, e a afabilidade da mais acessível civilização o acolhe e o consola das saudades da pátria, esse viveiro moderno de grandes notabilidades em todas as ciências e artes, não tem chegado ao apogeu da glória de ser o centro luminoso, donde se desprendem as brilhantes centelhas que vão esclarecendo os demais povos na marcha progressiva das ideias, senão porque a mulher é ali admitida de comum com os homens a cultivar a sua inteligência. Se a severidade de uma página da legislação francesa exclui a mulher da supremacia de que gozam as mulheres das duas nações de que falamos ultimamente, o império do espírito, em cujo trono ela se assenta como absoluta soberana, prodigamente a indeniza dessa parcialidade, depondo em suas mãos, como por vezes tem acontecido de uma maneira indireta, os destinos dessa bela nação. E o mundo tem visto se as Poitiers, as Médicis, as D’Éstrées, as Pompadour, etc., e as virtuosas Maintenon, Antoinette e Adelaide,44 esclarecida conselheira de Luiz Philippe, tem dirigido, mais que os reis, o governo da França. 42 Philarette Euphemon Chasles (1798-1873), crítico literário, professor e escritor francês: “A mulher não é nada para o selvagem; escrava no início da civilização, adquire seus direitos e seu valor atravessando os degraus que apagam a tirania da força física e fazem reinar a inteligência”. 43 Mary Wollstonecraft (1759-1797), escritora inglesa, autora de A vindication of the rights of woman, traduzido por Nísia Floresta em 1832; e, na sequência, os franceses: Marie Jean Antoine Nicolas de Caritat, marquês de Condorcet (1743-1794), filósofo e matemático; Emmanuel-Joseph Sièyés (1748-1836), político e escritor; Gabriel Jean Baptiste Ernest Wilfrid Legouvé (1807-1903), dramaturgo. 44 Diane de Poitiers (1500-1566), amante de Henrique II; Catarina Maria Romola di Médici (1519-1589), esposa de Henrique II e regente da França durante a menoridade de seus filhos, após a morte do rei; Gabrielle d’Estrées (1573-1599), amante de Henrique IV; Jeanne-Antoinette Poisson, marquesa de Pompadour (1721-1764), amante de Luís XV; Françoise d’Aubigné, marquesa de Maintenon (1635A mulher francesa reina de fato pelo espírito, e muita vez mais plenamente que as soberanas de direito sobre os outros povos. Sem embargo de todos os antagonistas do desenvolvimento intelectual da mulher, entre os quais tão despoticamente sobressai a célebre Córsego, acérrimo inimigo da superioridade do espírito feminino, a França esclarecida compreendeu a distância que mediava dela à França feudal, e as luzes das ciências espalharam-se por todas as inteligências, sem distinção de sexo nem de classes. Depois que Descartes abriu à filosofia uma nova era, e os homens do progresso, afrontando doutrinas retrógradas, caminham avante na grande obra do aperfeiçoamento da sociedade moderna, a mulher francesa não se limitou somente aos exemplos da coragem, que deu a Joanna d’Arc a glória de libertar a pátria do poder dos Ingleses, e segurou o punhal na mão de Carlota Corday para expurgar dela o sanguinário Marat. Outras virtudes, outros triunfos mais dignos da mulher, obtêm e distinguem as Francesas de nossos dias. As afetuosas páginas, inspiradas pelo amor maternal da sensível Sévigné, fizeram brotar em mais de um coração feminino sazonados frutos com que muitas de suas conterrâneas alimentaram o espírito da mocidade de seu sexo. Além de outras, Mmes. Maintenon, Genlis e Campan concorreram por seus dedicados desvelos e preciosos escritos para o desenvolvimento da educação, que Saussure, Tastu, Guizot,53 etc., 1719), esposa de Luís XIV, fundadora da escola para moças da nobreza Maison Royale de Saint-Louis, além de escritora; Antoinette d’Orléans-Longueville (1572-1618), fundadora da Congregação dos beneditinos de Notre-Dame-du-Calvaire; Luísa Maria Adelaide Eugénia de Orleans (1777-1847), Princesa de Orleans, irmã do rei Luís Filipe I, da França. 45 Napoleão Bonaparte (1769-1821), natural de Córsega. 46 Acérrimo: decidido, firme, obstinado. 47 René Descartes (1596-1650), filósofo. 48 Joana D’Arc (1412-1431), heroína francesa, canonizada em 1920. 49 Marie-Anne Charlotte de Corday d’Armont (1768-1793), assassina de Jean-Paul Marat na época da Revolução Francesa. 50 Jean-Paul Marat (1743-1793), cientista, jornalista e líder jacobino na Revolução Francesa. 51 Marie de Rabutin-Chantal, marquesa de Sévigné (1626-1696), escritora epistolar. 52 Françoise d’Aubigné, marquesa de Maintenon (1635-1719), escritora, esposa de Luís XIV; Stéphanie-Félicité Ducrest de Saint-Aubin, Condessa de Genlis (1746-1830), escritora e educadora; Jeanne Louise Henriette Campan (1752-1822), também escritora e educadora. 53 Todas as citadas são escritoras: Albertine-Adrienne Necker de Saussure (1766-1841), Sabine Volart Tastu (1798-1885) e Elisabeth-Charlotte Pauline de Meulan, Mme. de Guizot (1773-1827). mulheres todas notáveis pelos seus talentos e virtudes, têm melhor adaptado à civilização moderna.
Opúsculo Humanitário, de Nísia Floresta, é uma obra brasileira de 1853 dedicada à defesa da educação das mulheres e à reflexão sobre civilização, cidadania e progresso social. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte digital validada, capa com identidade Literunico, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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