Universo da obra
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Uma grandiosa época preparava-se de há muito ao Brasil, época de regeneração e de glória para os povos que longo tempo gemeram sob a brônzea mão do despotismo estrangeiro, sem que este conseguisse nunca extinguir-lhes no coração uma centelha só do sagrado fogo da liberdade. O brado elétrico de independência, havia tanto contido nos peitos brasileiros, saiu enfim do nobre peito d’Aquele que compreendeu e sustentou então os direitos de um povo sofredor, pleiteados entre outros pelo ilustre Andrada, o escolhido da Providência para representar nas gerações futuras do Brasil o patriarca de sua independência. O nome de um príncipe herói estampou-se no alto dessa página dourada de nossa história, e os venturosos campos do Ipiranga repetirão sempre ufanos o eco desse brado enérgico, que nos trouxe uma nova existência e que tão arrefecido se solta hoje entre nós! Muito teria podido fazer em prol da educação da mulher D. Pedro I, em cujo coração superabundavam amor e entusiasmo pelas grandes e difíceis empresas; mas uma triste fatalidade pesava sobre a sorte das nossas mulheres, e outras ocupações, outros fins, outro destino estavam reservados ao célebre fundador do Império Brasileiro... Homens, chamados então os homens do progresso, prometiam ao Brasil os mais vantajosos resultados na mudança política que premeditavam, sem refletirem que os progressos e a felicidade de um povo não podem jamais ser baseados em um grande ato de ingratidão... Após esse ato deu-se outro, que melhor caracterizava, em sua organização política, o povo descendente do que mandara ao desterro Pombal, o maior de seus estadistas, a mais profunda de suas inteli José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), estadista brasileiro, conhecido como o Patriarca da Independência. 94 Sebastião José de Carvalho e Melo, marquês de Pombal e Conde de Oeiras (1699-1782), atuante e controverso estadista português, foi condenado ao desterro em 1781. gências. Ingratidão semelhante à que oprimiu o grande ministro, que deu nome a um rei e glória a uma nação, veio lançar negra tarja nas primeiras brilhantes páginas da história de nossa Independência, e suspender os voos do gênio brasileiro, que entre as suas altas concepções pela felicidade de nossa terra não teria deixado de incluir o plano de uma reforma na educação da mulher. Mas o brilhante planeta paulistano, que havia indicado ao Príncipe o caminho da glória e guiado o Brasil à sua emancipação, descrevia a sua órbita entre opacos planetas os quais interceptaram a sua luz, quando dela mais precisão tinha o nosso corpo político. E o sábio, a quem D. Pedro, confiando a guarda de seu imperial filho, nos dolorosos momentos de sua separação, havia feito esquecer o desterro a que o mandara, foi, pelos seus próprios conterrâneos, arrancado do seu digno posto e exilado para aquela ilha, que gozará de justa celebridade quando os Brasileiros souberem celebrar tudo o que diz respeito a seus grandes homens. Por agora, consolamo-nos do revoltante esquecimento em que parece entre nós submergido o grande nome de José Bonifácio de Andrada, lembrando-nos dos elogios que tivemos o prazer de ouvir tecerem-lhe alguns sábios da Europa. O grande estadista, o profundo filósofo, o suave poeta septuagenário tem o seu nome escrito pela severa mão da história nas páginas imortais da posteridade: os homens do porvir o vingarão do indiferentismo antinacional dos homens do presente.
Opúsculo Humanitário, de Nísia Floresta, é uma obra brasileira de 1853 dedicada à defesa da educação das mulheres e à reflexão sobre civilização, cidadania e progresso social. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte digital validada, capa com identidade Literunico, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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