Universo da obra
Universo da obra
Não há muito tempo, teve lugar em um colégio desta corte, em presença de oitenta alunas, um espetáculo dolorosíssimo cujo conhecimento ofereceria aos escritores estrangeiros matéria para um capítulo assaz frisante sobre a história dos nossos costumes. Uma menina de 6 anos frequentava como externa aquele colégio. Anjo de gentileza e de candura, baixado ao mundo infecto dos homens, ela captava a simpatia de todos e inspirava profundo interesse à diretora que, vendo-a respirar com dificuldade sempre que entrava para as classes, tinha o cuidado de afrouxar-lhe o espartilho que lhe oprimia o peito a tal ponto! Por vezes ponderou à mãe da inocente supliciada as funestas consequências, que podiam resultar de lhe comprimir assim os tenros órgãos, os quais tanto necessitam de livres movimentos para bem desenvolver-se. Baldadas foram tais observações, que os médicos de nossa terra deveriam em honra de sua nobre missão fazer incessantemente às mães de família, porquanto os conselhos do homem da ciência, do consolador da humanidade obteriam em tais circunstâncias mais resultado do que os das diretoras e amigas! Depois de haver passado parte de uma noite no teatro, constrangida no espartilho, para atrair à indiscreta mãe elogios pelo seu bom 107 “A infância com suas graças ingênuas não existe, por assim dizer, no Brasil (diz um dos viajantes já citados). Aos sete anos o jovem brasileiro já tem a gravidade de um adulto, ele caminha majestosamente, uma bengala à mão, orgulhoso de suas vestimentas que fazem com que se assemelhe mais às marionetes de nossas feiras do que com um ser humano; em vez de roupas largas e cômodas que permitam aos membros libertar movimentos, ele está vestindo uma calça até os pés e uma jaqueta ou casaco que o prende e abraça. Nada mais triste, para nós, do que essas pobres crianças condenadas a submeter-se às exigências de uma moda absurda” etc. etc. gosto de vesti-la, a pobre inocentinha submeteu-se ainda, na manhã seguinte, a um novo processo de aperto ataviando-se para o colégio. Apenas entrou em sua classe, a diretora viu-a vacilar querendo sentar-se; voa a tomá-la nos braços, desabotoa-lhe o vestido... era já tarde! A pobrezinha, soltando um doloroso ai, tinha expirado, vítima da vaidade de sua mãe! Esta, sendo advertida, correu muito tarde para receber o derradeiro ósculo de sua filha, porém muito cedo para contemplar a obra de seu louco desvanecimento! A martirizada cintura da inocente simulava as dos penitentes do fanatismo, ou antes das vítimas do Santo Ofício! Espetáculo lastimoso e revoltante por ter origem na pretenção de uma mãe a tornar sua filha notável pelo artifício do corpo! A ocasião pareceu oportuna à diretora para tentar uma reforma no espírito de suas alunas, abalado profundamente à vista daquela triste florzinha, ceifada tão de chofre e prematuramente pelo fatal abuso de uma moda, a que sem escrúpulo se sacrifica entre nós a saúde das meninas. Falou-lhes dos deveres inerentes ao cristão, do quanto é essencial conservar a pureza da alma para que a Eternidade nos surpreenda em paz em qualquer idade ou situação da vida, e demonstrou-lhes o perigo que correm os que se ocupam do físico em preferência ao moral. Suas palavras eram verdadeiras porque partiam do coração, eloquentes porque Ihas inspirava a presença de um féretro! Não podiam deixar de produzir impressão. As mães, a quem suas filhas noticiaram aquele acontecimento, cuja vista as havia tanto sensibilizado, lamentaram-no, e conosco horrorizaram-se de uma tão grande aberração da ternura e do bom senso materno! Mas em pouco a impressão desapareceu e mães esqueceram aquele resultado da criminosa vaidade de uma mãe! Algum tempo depois os espartilhos, tirados às que haviam testemunhado essa pungentíssima cena, voltaram de novo a comprimi-las. A imagem da morte havia desaparecido e a moda reconquistava todos os seus loucos e funestos excessos!
Opúsculo Humanitário, de Nísia Floresta, é uma obra brasileira de 1853 dedicada à defesa da educação das mulheres e à reflexão sobre civilização, cidadania e progresso social. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte digital validada, capa com identidade Literunico, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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