Universo da obra
Universo da obra
As lições e os esforços de uma ou outra pessoa, desta ou daquela outra família nada podem contra a generalidade dos princípios e hábitos seguidos por uma nação inteira. Um ou outro pai conseguirá educar bem seus filhos, mas não estando esta educação no espírito de seu país, eles permanecerão estrangeiros no meio de sua própria sociedade, e nada terá o país ganho com estas frações diminuídas da enorme soma dos prejuízos, e erros que presidem à educação geral. Para cortar as cabeças sempre renascentes dessa hidra moral seriam precisos outros tantos Hércules quantas são as ideias e práticas errôneas do nosso povo. Enquanto o governo e os pais não reconhecerem o dano de tais práticas e se esforçarem por bani-las inteiramente, em vão uma ou outra voz se levantará para indicar os meios de um melhoramento, considerado ainda por muitos como utopia. “C’est la nature du gouvernement de chaque société, diz Mme. Coicy, qu’établit la nature de l’éducation, qui y donne la faiblesse ou la force, les vices ou les vertus. ”109 Este princípio é incontestável, mas se na insuficiência de enérgicas medidas do governo para a reforma da nossa educação, apelamos para os pais de família, é por que estamos convencidos de que, em um país onde a escravidão é permitida, deles dependem principalmente os meios de subtraírem seus filhos a grande parte dos inconvenientes, que os prejudicam. Um desses inconvenientes é por sem dúvida a instrução superficial, isolada de uma educação severamente moral, que constitui de ordinário a superioridade das nossas meninas de hoje sobre as de outrora. Desconhecendo-se, ou não se querendo seguir comumente o bom método de educar, vai-se usando com elas pouco mais ou me Hércules é o nome romano de Héracles, herói da mitologia grega, segundo a qual o herói teria de realizar doze trabalhos para se redimir de seus crimes, sendo o segundo trabalho vencer a Hidra de Lerna, um monstro que habitava um pântano junto ao lago de Lerna. Hércules, depois de uma sangrenta luta, mata a Hidra, realizando a incumbência. 109 “É a natureza do governo de cada sociedade - diz Mme. de Coicy - que estabelece a natureza da educação, que lhe dá a fraqueza ou a força, os vícios ou as virtudes”. Mme. de Coicy (17..-1841), escritora francesa, foi autora da pioneira obra sobre o feminismo: Les femmes, publicado em 1785. nos daquele, com que foram suas mães educadas, acrescentando-se lhe por vezes certa liberdade mal-entendida, e, por estar em moda, o ensino de algumas prendas vedadas outrora ao sexo. Certo, o que se chama por via de regra no Brasil dar boa educação a uma menina? – Mandá-la aprender a dançar, não pela utilidade que resulta aos membros de tal exercício, mas pelo gosto de a fazer brilhar nos salões; ler e escrever o português, que apesar de ser o nosso idioma não se tem grande empenho de conhecer cabalmente; falar um pouco o francês, o inglês, sem o menor conhecimento de sua literatura; cantar, tocar piano, muita vez sem gosto, sem estilo, e mesmo sem compreender devidamente a música; simples noções de desenho, geografia e história cujo estudo abandona com os livros ao sair do colégio; alguns trabalhos de tapeçaria, bordados, crochê, etc. , que possam figurar pelo meio dos objetos de luxo expostos nas salas dos pais a fim de granjear fúteis louvores a sua autora. O desenvolvimento da razão por meio de bons e edificantes exemplos da família, o hábito de raciocinar, que se deve fazer contrair às crianças, ensinando-as a atentarem no valor das palavras, que proferem, e ouvem proferir aos outros, discriminar as boas das más ações, excitando-as a imitar aquelas e a reprovar estas, tudo isto se deixa na mais completa negligência: o que há de mais essencial a ensinar ou a corrigir guarda-se para uma idade mais avançada, repetindo-se sempre – ela é tão criança! Assim, quando a menina passa da casa paterna para o colégio, leva no espírito o gérmen, algumas vezes tão desenvolvido, de mil pequenos vícios, que impossível ou muito difícil é desarraigar. E quais são aí as educadoras, por mais dignas que sejam de exercer tais funções, que ousem contrariar inteiramente as opiniões e o gosto dos pais a respeito da educação de suas filhas? Seria exporem-se a ver suas aulas sem auditório, e, como já observamos, sendo o magistério em nossa terra por via de regra um objeto de especulação, grande cuidado se tem em transigir com os pais de família, embora com detrimento dos alunos. É partindo desta experiência, que tiramos a conclusão de que, no Brasil não se poderá educar bem a mocidade enquanto o sistema de nossa educação, quer doméstica, quer pública, não for radicalmente reformado. Debalde tentarão os diretores e mestres que pertencem à exceção da regra enunciada, fazer de seus alunos indivíduos bem morigerados, conspícuos e modestos, se os pais não forem os primeiros em inspirar-lhes estes princípios. Debalde esperarão os pais que tal fizerem, os devidos progressos destes princípios, se os mestres não possuírem as qualidades indispensáveis para preenchermos encargos do magistério. Será, portanto, da comunhão das boas práticas de uns e de outros, que somente poderão sair homens e mulheres capazes de firmar o renome da nação brasileira, a qual, tão grandemente elevada pela natureza, tão pequeno espaço tem ainda conquistado no vasto e fértil campo da civilização moderna.
Opúsculo Humanitário, de Nísia Floresta, é uma obra brasileira de 1853 dedicada à defesa da educação das mulheres e à reflexão sobre civilização, cidadania e progresso social. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte digital validada, capa com identidade Literunico, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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