Universo da obra
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Pelo Quadro demonstrativo do estado da instrução primária e secundária das províncias do Império e do município da Corte, no ano de 1852, vê-se que a estatística dos alunos, que frequentaram todas as aulas públicas, monta a 55.500, número tão limitado para a nossa população; e que neste número apenas 8.443 alunas se compreendem! Bastará refletir nesta desproporção, para julgar-se do atraso em que se acha a instrução do sexo, tão mal aquinhoado na partilha do ensino pago pelo governo. Nenhuma proporção há, como vamos ver, entre as escolas primárias de um e de outro sexo. Na província de Minas, onde a instrução se acha mais geralmente difundida, entre 209 escolas de primeiras letras, só 24 pertencem ao sexo feminino! Considerando-se essa tão desproporcional diferença, o sexo parece permanecer ali debaixo da influência do anátema, que fulminara sobre ele um dos mais notáveis presidentes daquela província. Tratando das cadeiras públicas de ensino primário, dizia ele que: deve-se ensinar às meninas tudo quanto convém que saiba uma mulher, que tem de ser criada de si e de seu marido. Esse severo administrador abstraiu, por sem dúvida do século em que falava, ou confundiu um povo livre, o digno povo mineiro, com a malfadada população de escravos, que infelizmente o Brasil contém em seu seio! Na ilustrada Bahia, de 184 escolas primárias, 26, somente, são de meninas. Menos egoísta para com o sexo a sua rival na glória, o heroico Pernambuco, fiel a suas tradições, lhe sobressai em equidade, pois que de 82 escolas, 16 pertencem ao sexo feminino. A província do Rio de Janeiro, com 116 escolas, dá ao sexo 36. No município da Corte, a sede do governo imperial, onde devia-se mais facilitar a instrução do povo, acham-se apenas criadas nove aulas de meninas! As demais províncias apresentam proporcionalmente a mesma escassez de recursos para o cultivo da inteligência da mulher, e algumas há cujo estado de instrução pública não chegou ainda ao conhecimento do governo geral. Acrescentemos agora ao medíocre número dessas escolas a confusão dos métodos, das doutrinas seguidas pelas professoras, quase sempre discordes em seus sistemas, e, como já observamos, em grande parte sem as necessárias habilitações, e teremos, reduzido à expressão mais simples, o número da nossa população feminina que participa do ensino público e o grau de instrução que recebe.
Opúsculo Humanitário, de Nísia Floresta, é uma obra brasileira de 1853 dedicada à defesa da educação das mulheres e à reflexão sobre civilização, cidadania e progresso social. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte digital validada, capa com identidade Literunico, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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