Leia agora
Opúsculo Humanitário

Universo da obra

Opúsculo Humanitário

Capítulo 61 · Opúsculo Humanitário

LXI

61 de 62 ≈ 5 min de leitura

Não comentamos, apenas simplificamos, e muito, as causas que têm privado o Brasil de numerosos e fortes braços, de que tanta precisão tem. Manda ele procurar no estrangeiro à custa de imensas somas e sacrifícios, exposto a eventualidades desagradáveis, que por mais de uma vez se tem dado soldados, quando possuem em seu próprio seio com que formar, querendo numerosas e respeitáveis legiões de bravos! Negligenciando-se a civilização dos selvagens, tem-se, não somente tirado ao Brasil os seus legítimos e empenhados defensores, mas também a todos os seus filhos a vantagem de serem servidos por braços livres dos que, nascendo em nosso mesmo solo, não nos teriam por sem dúvida transmitido vícios estranhos, inextinguíveis calamidades!... Aqueles que são levados pela avareza ou por um funesto prejuízo, que a nossa civilização não tem até aqui podido desarraigar do espírito de todos, olharão estas considerações como verdadeira utopia. E nós, os amigos dos infelizes aborígenes, não sabemos quais merecem ser mais lamentados, se estes ou aqueles! Sabem-se os terríveis abusos, que se continuam a cometer, procurando-se catequizar os selvagens. Todos terão lido a narrativa que a respeito fizeram diversos e verídicos viajantes, a quem, doando Deus sentimentos humanitários, não pode deixar de profundamente magoar a sorte desses infelizes. Entre outros, ainda há pouco lemos o muito interessante escrito do Sr. Teophilo Benedicto Ottoni – Viagem às margens de Mucuri, em que esse digno brasileiro fala deles com uma imparcialidade e esclarecida justiça que muito nos tocou. Permita-nos citar aqui algumas linhas do relatório dessa viagem, que comprovam parte do que dissemos e pensamos a respeito deles. “Em 1849 um sargento e os poucos soldados que ficaram no quartel de Santa Cruz traziam os selvagens em contínuos e duros trabalhos, e os castigaram com palmatória, chicote e tronco. No entanto, a medida dos sofrimentos dos infelizes só transbordou quando os seus cruéis opressores também lhes tomaram as mulheres e filhas, fazendo do quartel um horroroso serralho. Atualmente o encontro dos homens da espingarda com os selvagens prova o terror de que estão estes possuídos, e é uma confissão solene dos atentados cometidos outrora por aqueles. Quando uma tribo brava encontra nos matos um homem de espingarda, o movimento instantâneo dos selvagens é correrem e embrenharem-se. E o único meio de detê-los e obrigá-los a chegarem à fala é bradar-lhes repetidas vezes estas palavras sacramentais: Jac-jemenuck, Jac-jemenuck, que querem dizer – Já estamos mansos, já não somos matadores. Ouvindo esta reclamação, em que os crimes antigos são confessados pelos catequizadores, o selvagem cessa de fugir, depõe o arco e 136 Teófilo Benedito Ottoni (1807-1869), jornalista, comerciante, político e empresário brasileiro. ordinariamente responde: Sincorana, Sincorana! Que quer dizer – Tenho fome, tenho fome!” Em outra parte, falando ainda das perseguições que tornaram infrutíferas suas medidas conciliadoras para atrair os selvagens, ele acrescenta: “Traídos e decimados, os infelizes se concentraram pelas brenhas para fugirem à escravidão, ao bacamarte e ao veneno, porque, para a vergonha da civilização, o veneno tem sido também empregado contra os selvagens nas imediações do Mucuri.” “Conta-se até o horroroso caso de uma tribo inteira vítima dos sarampos, que, com o fim de exterminá-la, lhe foram perfidamente inoculados, dando-lhes roupas de doentes atacados daquele mal.” “... a maior parte dos atentados cometidos pelos selvagens nestes últimos anos têm sido atenuados pela atendível circunstância de haverem sido cometidos em defesa da liberdade de seus filhos e da pudícia de suas mulheres.” Tais são as causas que levaram quase sempre em todos os tempos os nossos selvagens a mostrarem-se cruéis. Tiveram, e terão sempre razão para isso, enquanto os nossos civilizadores cristãos não quiserem compreender que somente palavras persuasivas e práticas evangélicas, e não o ferro, o veneno e a licença devem empregar para a civilização dos restos dessa grande e nobre raça. Do pouco que havemos expandido relativamente às qualidades naturais da mulher indígena, queremos concluir que ela é digna de ocupar outra posição em nossa terra; e que o desprezo, com que foi sempre, e continua a ser olhada a sua raça pelas nossas outras populações, é um abuso antinacional, anticristão, que os nossos governantes e o nosso clero devem fazer desaparecer, empregando, por bem da pátria e da igreja, meios mais próprios e seguros para consegui-lo. A humanidade e a civilização reclamam imperiosamente deles convenientes medidas para arrancar essa pura, digna porção do povo brasileiro à vida em que vegeta, e torná-la útil como incontestavelmente pode ser a uma e a outra. 137 Decimado: /v. decimar/ tirado um de cada dez. Oferecendo o nosso mesquinho óbolo à nobre causa das nossas aborígenes, temos concluídos pontos principais, que fazem o objeto deste opúsculo; pontos que procuraremos melhor desenvolver se o tempo e a saúde, que hoje nos são contrários, voltarem mais propícios e risonhos! Resta-nos, depois de uma observação mais, invocar ainda uma vez para as nossas mulheres em geral – melhor educação, destino mais digno delas.

Opúsculo Humanitário

Sinopse

Opúsculo Humanitário, de Nísia Floresta, é uma obra brasileira de 1853 dedicada à defesa da educação das mulheres e à reflexão sobre civilização, cidadania e progresso social. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte digital validada, capa com identidade Literunico, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Opúsculo Humanitário

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Opúsculo Humanitário

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Opúsculo Humanitário

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Opúsculo Humanitário Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 61 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Opúsculo Humanitário

Todos os capítulos 62 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir