Universo da obra
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Tocamos nos indígenas em geral, e é de suas mulheres que queremos somente falar. Dignas, por suas virtudes inatas, de receberem educação moral e intelectual que as colocasse a par de nossas mulheres civilizadas, as aborígenes do Brasil foram as primeiras vítimas imoladas à licença dos homens da civilização, que vieram trazer ao seu país as vantagens da vida europeia. Companheiras submissas e fiéis de seus maridos, a quem seguiam na guerra e ajudavam com incansável zelo e natural dedicação em diferentes mistérios da vida errante, na cabana ou fora dela, sua sorte era preferível à que depois lhes trouxe o cristianismo de seus vencedores, envolvendo-as na atmosfera de seus vícios, ligando-as ao férreo poste da escravidão, e vendendo-as, como faziam, com inaudita atrocidade sob o mesmo céu onde Deus as havia feito nascer com seus irmãos no pleno gozo da liberdade! Falando-se-lhes de Cristo e dos salutares bens de sua santa religião, desmentia-se em geral pela prática havida com elas e com os seus, as máximas que as tinham chamado ao grêmio da igreja! Não obstante, porém, essa conduta e a falta absoluta de educação moral, as indígenas fornecem exemplos de virtudes e de heroísmo, que poderiam ser colocados a par dos que têm apresentado as mulheres civilizadas de todos os tempos e nações, com o duplo merecimento de serem tais exemplos promovidos pela espontaneidade, que não pelo cálculo, que preside de ordinário às grandes ações dos povos civilizados. Quereis ver a mãe na sublime simplicidade do amor materno? Contemplai as indígenas em todas as correrias, que eram e são forçadas a fazer, seguindo os maridos através dos bosques, perseguindo ou fugindo ao inimigo, sobrecarregadas dos filhinhos, além dos objetos que são obrigadas a levar. Segui-as, entre outras, na grande emigração, aconselhada tão pateticamente pelo seu grande chefe Japiassu, resignadas a deixarem aos usurpadores de sua pátria todos os bens de que nela gozavam, a fim de subtraírem seus filhos à opressão e ao opróbrio, que tanto havia já pesado sobre seus pais! Ide vê-las, hoje mesmo, como nós as vimos, nos restos de algumas aldeias, ao norte, ao sul do Rio de Janeiro, desenvolverem, no estado intermediário do selvagem e civilizado, ligadas dia e noite a seus filhinhos por mais fortes vínculos de natural afeição do que muitas mães da nossa sociedade, não os deixando, como muitas destas, em seio estranho, alguma vez mesmo enfermos, para irem tomar parte nos prazeres do mundo ou satisfazerem uma etiqueta da sociedade. Quereis ver a esposa terna, previdente, dedicada e fiel? Contemplai a célebre Paraguassú captando para o esposo as simpatias e os favores da sua tribo, ajudando-o em sua missão civilizadora, e civilizando-se ela mesma para amenizar-lhe os dias, privado como se achava ele das comodidades europeias. Circunspecta e fiel aos seus deveres, quando passou a França e apresentou-se na Corte de Caterina de Médicis, que lhe deu seu nome servindo-lhe de madrinha, ela atraiu a admiração de todos, por seu tipo americano, suas graças ingênuas e sua dedicada afeição pelo esposo, com quem voltou à Bahia, no mútuo e constante empenho de utilizar aquela nascente colônia. Quereis admirar o amor em toda a sua espontaneidade e na grandeza da abnegação pessoal? Vede Moema; a sensível e infeliz Moema, lançando-se ao mar, seguindo a nado o navio, que lhe levava o homem por quem só prezava a existência e por quem queria morrer não podendo com ele viver! ... 130 Catarina Álvares Paraguaçu (1495-1586), indígena tupinambá esposa do náufrago português Diogo Álvares Correia, o Caramuru. 131 Catarina Maria Romola di Médici (1519-1589), rainha da França por casamento com o rei Henrique II. 132 A índia Moema é, possivelmente, apenas uma personagem do poema “Caramuru” (1781), do Frei José de Santa Rita Durão (1722-1784), que teria se jogado ao mar ao ser abandonada por Caramuru. Quereis enfim admirar a guerreira em toda a glória das armas? Atentai para a intrépida esposa do célebre Camarão, seguindo à frente de outras as pegadas do esposo, e duplicando-lhe os louros colhidos em tantos combates sobre o famoso solo pernambucano! As privações e perigos que ela arrostou nas mais difíceis crises; a coragem e constância que desenvolveu, quando as armas do denodado guerreiro indígena faziam com as de Henrique Dias e Vieira, o terror dos aguerridos. Batavos foram muito superiores, pelas circunstâncias em que se achava, e pelos combatentes que a rodeavam, as que imortalizaram Joana d’Arc! Elas mereciam por sem dúvida de seus vindouros, se não estátuas, que não sabemos ainda erigir aos nossos gênios, ao menos justos tributos de homenagem, que fizessem corar aqueles que têm propalado a falsa reputação de covardia e inaptidão dessa raça, que cooperou para que o Brasil não fosse então arrancado ao povo que o havia descoberto! De tantos triunfos, porém, de tanta dedicação e fidelidade nenhuma glória, nenhum feliz resultado ficou às futuras gerações, que em pouco desaparecerão talvez inteiramente do solo brasileiro!
Opúsculo Humanitário, de Nísia Floresta, é uma obra brasileira de 1853 dedicada à defesa da educação das mulheres e à reflexão sobre civilização, cidadania e progresso social. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte digital validada, capa com identidade Literunico, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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