Universo da obra
Universo da obra
A educação física é ainda entre nós tão mal compreendida como a moral. Vemos crianças, podendo já fazer uso das pernas, passarem a maior parte do dia nos braços das diferentes pessoas da família, ou das escravas designadas pelos pais, que ostentam uma certa fortuna real ou aparente, para suportarem passivas esses fardos e todas as suas exigências. O costume mourisco de se fecharem as mulheres em casa, que a civilização não desarraigou ainda inteiramente do Brasil, salvo nas famílias cujos chefes, temendo conceder-lhes a liberdade de um higiênico passeio cotidiano, deixam-nas livremente frequentar os espetáculos e as reuniões mais perigosas, muito concorre para que as meninas não adquiram um certo grau de energia e de força, imperfeitamente obtido no trânsito que fazem algumas indo às escolas, pelo meio dos miasmas da atmosfera de nossas ruas, ou na constante vida caseira. Há em todos os lugares habitados de nossa terra, mesmo em suas primeiras cidades, muitas famílias que passam anos inteiros sem transpor o limiar de suas casas, a não ser nos domingos para irem à missa, se isso fazem! A vida se passa para grande parte delas sem outro exercício, sem outro trabalho afora o que algumas chamam com ênfase governo da casa, consistindo este muitas vezes no desgoverno, na confusão entre o nada fazer e o ordenar constantemente sem método, sem pensamento. Neste aprendizado e nesta indolência decorre a vida da menina, a quem se repete de contínuo a velha arriscada máxima “reprime todos os impulsos da natureza, e embelece-te para seres mulher”: isto é, habitua-te desde a infância à hipocrisia e procura reinar pela matéria embora o teu reinado seja de pouca duração. Transcreveremos aqui um trecho da educação de uma menina inglesa dirigida por seu respeitável pai, cujo exemplo muito desejávamos ver seguido pelos pais brasileiros, ao menos o da sua maneira de pensar a respeito do sexo. “Tratei de dar a seu corpo e a seu espírito um grau de força, que raras vezes se acha no sexo”, diz esse venerável ancião. “Apenas foi ela suscetível de pequenos trabalhos de agricultura, do cultivo do jardim, ajudou-me constantemente nesta sorte de ocupações. Selena (tal era o seu nome) adquiriu bem depressa nesses exercícios uma destreza cujos progressos eu admirava. Se as mulheres são em geral fracas de corpo e de espírito, é menos pela natureza que pela educação. Nós alentamos nelas uma indolência e uma inatividade viciosas, que falsamente apelidamos delicadeza; em vez de fortificar-lhes o espírito por meio dos severos princípios da razão e da filosofia, só se lhes ensina as artes inúteis, que alimentam a moleza e a vaidade.” “Na maior parte dos países que percorri, a música e a dança formam a base de sua educação. Elas só se ocupam de frivolidades, e somente isso lhes pode interessar. Esquecemos que das qualidades do sexo depende a nossa consolação doméstica, e a educação de nossos filhos. Serão próprios para preencher tal fim seres corrompidos desde a infância, não conhecendo nenhum dos deveres da vida?” “Tocar um instrumento musical, desenvolver suas graças aos olhos de alguns moços ociosos e corrompidos, dissipar os bens de seus maridos em loucas despesas, eis a que se reduzem os talentos de grande parte das mulheres nas nações mais civilizadas. As consequências de semelhante sistema são tais quais se podem esperar de uma fonte tão viciada: a miséria particular, e a servidão pública.” “A educação de Selena foi calculada sobre outras bases, e dirigida por princípios mais severos, se todavia pode-se chamar severidade o que abre a alma aos sentimentos dos deveres morais e religiosos, e a prepara para resistir aos males inevitáveis da vida.” Quão longe se está em nossa terra, não diremos somente da prática, mas da razão esclarecida que ditou essas linhas! Não só a espécie de instrução, que distingue algumas de nossas jovens, é, com pequenas exceções, provada por aquele respeitável pai, mas também se entretém nelas, em vez de procurar-se banir a indolência, “Que em nosso clima se espreguiça e o infesta, E as portas à Ciência e às Artes fecha.” como tão propriamente disse o nosso poeta Magalhães.113
Opúsculo Humanitário, de Nísia Floresta, é uma obra brasileira de 1853 dedicada à defesa da educação das mulheres e à reflexão sobre civilização, cidadania e progresso social. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte digital validada, capa com identidade Literunico, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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