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Capítulo 21 · Opúsculo Humanitário

XXI

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O sexo, a quem era vedado transpor o pórtico de qualquer estabelecimento científico ou literário, forneceu também, posto 69 Segundo história (talvez lendária) contada por Luís Vaz de Camões (1524-1580) nos Lusíadas, Álvaro Gonçalves Coutinho (1383-1445) conhecido por Magriço, foi um dos doze cavaleiros portugueses que defenderam a honra de doze damas ofendidas por nobres ingleses, em batalha travada na Inglaterra. que em pequeno número, alguns espíritos superiores. Citaremos Públia Hortênsia de Castro, que, sob os trajes masculinos, frequentou com seu irmão a Universidade de Coimbra, onde obteve os grandes conhecimentos, que excitaram a admiração dos homens de sua época, inclusive Filipe II. Esta escritora superior, pelas dificuldades que teve a vencer para penetrar no santuário da ciência, às Catharina, Lacerda, Balsemão, Alorna,71 etc., provou que, se as mulheres portuguesas não puderam colher os louros literários que ornam as mulheres do Norte, não é porque lhes falte capacidade intelectual, mas porque os prejuízos de sua pátria as restringem no acanhado círculo de errôneos preconceitos. Com a negligência do povo português, a respeito da educação do sexo, se pode somente comparar a desapreciação (deixamos aos de seu próprio país uma classificação mais forte), em que ele teve sempre os seus maiores homens, que tanto o ilustraram. O estrangeiro, que percorre o histórico Portugal, em procura dos monumentos elevados aos Henriques, Nuno Alvares, Castro, Gama, Camões, Pombal,72 etc., não pode deixar de aprovar a imparcialidade do vate português, quando em seu entusiasmo patriótico revoltou-se contra a injustiça de seus conterrâneos nesta virulenta apóstrofe contida no seu Camões:73 “Onde jaz, Portugueses, o moimento Que do imortal cantor as cinzas guarda? Homenagem tardia lhe pagastes No sepulcro sequer... raça de ingratos! Nem isso! nem um túmulo, uma pedra, Uma letra singela. – A vós meu canto, 70 Públia Hortênsia de Castro (1548-1595), célebre escritora e humanista portuguesa. 71 As citadas são escritoras portuguesas: D. Catarina, duquesa de Bragança (1540-1614), Bernarda Ferreira de Lacerda (1595-1644), Catarina Micaela de Sousa César e Lencastre, viscondessa de Balsemão (1749-1824), e Leonor de Almeida, marquesa de Alorna (1750-1839). 72 Nesse caso, tratam-se de portugueses ilustres: D. Henrique, o Navegador (1394-1460), Nuno Alvares Pereira (1360-1431), Vasco da Gama (1469-1524), o escritor Luís Vaz de Camões (1524-1580) e o estadista Sebastião José de Carvalho e Melo, marquês de Pombal e Conde de Oeiras (1699-1782). Já em relação a “Castro”, não se pode determinar de quem a autora fala. 73 Camões é um poema lírico-narrativo de Almeida Garret (1799-1854), publicado em 1825. A parte citada é a última estrofe do canto décimo do poema. 74 Monumento (português arcaico). Canto de indignação, último acento Que jamais sairá da minha lira, A vós, ó povo do universo, o envio.”

Opúsculo Humanitário

Sinopse

Opúsculo Humanitário, de Nísia Floresta, é uma obra brasileira de 1853 dedicada à defesa da educação das mulheres e à reflexão sobre civilização, cidadania e progresso social. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte digital validada, capa com identidade Literunico, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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