Universo da obra
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Lancemos agora os olhos sobre as três grandes nações da Europa moderna e os Estados Unidos, em nossos dias; vejamos se podemos aí encontrar alguma consolação à lembrança do quadro aflitivo, que da mulher nos apresentam os tempos, que felizmente lá vão longe para nós! A Alemanha, esse país clássico das ideias e da reflexão, é também o país por excelência nos respeitos tributados à mulher. A moralidade sentimental, cujo nome e ideia só existem na Alemanha, constituindo a sensibilidade um dever, não podia deixar de 16 Massacre de protestantes ocorrido na França em 1572, no dia de São Bartolomeu (24 de agosto). 17 O nome Bororquia refere-se a uma personagem de ficção da obra de Luis Gutiérrez intitulada Cornelia Bororquia ou a vítima da Inquisição. É possível que o autor tenha se inspirado na história real das irmãs Bohorques, ambas torturadas e mortas pela Inquisição na Espanha, em 1559 e 1560. produzir ali os mais salutares efeitos no sexo, que possui incontestavelmente maior soma dessa faculdade. Os Alemães, mais entusiásticos que fanáticos, mais pensadores que galantes, concederam à mulher privilégios reais, baseados na educação sólida desse povo por demais profundo e morigerado, para compreender toda a importância da mãe de famílias, da matrona esclarecida edificando os filhos e o sexo com exemplos de uma sã moral, derramando em torno deles as luzes de um espírito reto e superior, os efeitos de um coração bem formado e generoso. O legislador alemão, quando estabeleceu no casamento a igualdade entre os sexos, compreendeu, melhor que nenhum outro, a sabedoria do Eterno, doando ao homem e à mulher a mesma inteligência. Uma das duas primeiras escritoras francesas de nosso século, Mme. de Staël,18 atribui à facilidade do divórcio entre os Alemães a introdução nas famílias, de uma sorte de anarquia, que nada deixa subsistir em sua verdade, nem em sua força. A ilustre escritora, a cujo talento rendemos sempre a mais profunda homenagem, escrevendo essas linhas, abstraiu sem dúvida da anarquia de outra espécie, e até certo ponto muito mais perigosa, que lavra pelo centro das famílias de sua nação, a despeito da doutrina dos grandes pensadores, Montesquieu, Rousseau, Voltaire e Diderot,19 combatida depois pelos dois eminentes espíritos Condorcet e Sieyès,20 cujas vozes foram sufocadas pelos três fortes órgãos do século XVIII, Mirabeau, Danton e Robespierre.21 Os Alemães, baseando a sua felicidade doméstica na moral esclarecida de suas mulheres, antes que em um jugo imposto pela lei, as subtraem, em geral, ao conhecimento de estratagemas, que certas 18 Anne-Louise Germaine de Staël-Holstein, Mme de Staël (1766-1817), romancista e ensaísta francesa. 19 Charles-Louis de Secondat, barão de Montesquieu (1689-1755), filósofo; Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), filósofo; Voltaire, pseudônimo de François-Marie Arouet (1694-1778), escritor, ensaísta e filósofo; Denis Diderot (1713-1784), filósofo e escritor. 20 Marie Jean Antoine Nicolas de Caritat, Marquês de Condorcet (1743-1794), filósofo e matemático francês; Emmanuel Joseph Sieyès (1748-1836), padre, ensaísta e político francês. 21 Todos os citados tiveram ativa atuação política na Revolução Francesa: Honoré Gabriel Riqueti, conde de Mirabeau, (1749-1791), jornalista e escritor; Georges Jacques Danton (1759-1794), advogado; Maximilien François Marie Isidore de Robespierre (1758-1794), advogado. mulheres do Sul sabem com raro talento empregar para triunfar em segredo desse jugo, a que parecem em público submeter-se com grande satisfação. Quantas vezes temos nós visto os homens do Sul, que mais inexoravelmente exprobram a instrução e a liberdade, de que gozam as mulheres do Norte, serem vítimas do capricho, ou da dissolução, resultado quase sempre infalível da ignorância e educação estacionárias das suas! Deixemo-los expiar suas crenças a respeito da mulher, e sem contestarmos a opinião da ilustre escritora francesa, cujo coração mais de uma vez contraiu-se sob a influência dos princípios dos homens de sua pátria, tão diametralmente opostos aos que ela censurava, continuaremos a demonstrar a influência que tem a educação das mulheres sobre a moralidade e civilização dos povos.
Opúsculo Humanitário, de Nísia Floresta, é uma obra brasileira de 1853 dedicada à defesa da educação das mulheres e à reflexão sobre civilização, cidadania e progresso social. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte digital validada, capa com identidade Literunico, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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