Universo da obra
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Não ignoramos que imos encetar uma matéria tanto mais difícil quanto teremos de ferir prejuízos inveterados e o mal-entendido amor próprio d’aqueles que julgam as coisas em muito bom estado, só porque tal era a opinião de seus antepassados; mas o desejo ardente, que nos cala n’alma, de ver o nosso país colocado a par das nações progressistas, nos impõe a obrigação de franca e imparcialmente analisar a educação da mulher no Brasil, esperando excitar, com o nosso exemplo, penas mais hábeis que a nossa a escreverem sobre um assunto que infelizmente tão desprezado tem sido entre nós. Aqueles que escrevem tão somente pelo bem da humanidade, que não por orgulho, ou pela triste vaidade de fazerem-se um nome, ainda mesmo nos países onde um nome literário tem pátria e glória, não cogitam do juízo parcial dos que limitam os interesses da humanidade no mesquinho círculo de seus interesses pessoais. Não nos embala a vã pretensão de operar uma reforma no espírito de nosso país; por demais sabemos que muitos anos, séculos talvez, serão precisos para desarraigar herdados preconceitos, a fim de que uma tal metamorfose se opere. Esperamos somente que os zelosos operários do grande edifício da civilização, em nossa terra, atentem para os exemplos que a história apresenta, do quanto é essencial aos povos, para firmarem a sua verdadeira felicidade, o associarem a mulher a esse importante trabalho. A esperança de que, nas gerações futuras do Brasil, ela assumirá a posição que lhe compete nos pode somente consolar de sua sorte presente. Entretanto sigamos o exemplo do pobre e corajoso explorador de nossas virgens florestas, exposto aqui e ali à mordedura de venenosos répteis, para rotear um campo, que outros terão de semear e colher-lhes os saborosos frutos.... Felizes nós se pudéssemos conseguir o primeiro resultado desse trabalho, que muito nos lisonjearíamos de oferecer às nossas conterrâneas, como penhor do verdadeiro interesse que elas nos inspiram. 68 Forma antiga de conjugação da 1ª pessoa do plural do verbo ir no Presente do Indicativo; o mesmo que vamos.
Opúsculo Humanitário, de Nísia Floresta, é uma obra brasileira de 1853 dedicada à defesa da educação das mulheres e à reflexão sobre civilização, cidadania e progresso social. Esta edição gratuita do Literunico oferece leitura online em capítulos HTML, obra em domínio público, fonte digital validada, capa com identidade Literunico, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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